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Águas Profundas

por lanes_moon

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    Primeiro

    A vida na torre dos Novos Vingadores não era de toda ruim.
    Eu tinha um quarto só para mim, tinha salas disponíveis para treinar, uma adega de bebidas recheada para o término das missões e um tempo de sobra valioso quando não estávamos em missões. Eu não podia reclamar.
    No começo havia sido mais difícil. Adaptar-me a ideia de conviver com John Walker diariamente exigiu muito da minha força mental e Alexei conseguia ser um grande pé no saco quando queria, mas num geral eu podia dizer que estava me saindo muito bem.
    Afinal, aquela era a segunda vez em que eu tinha uma família de verdade. Um tanto quanto descompensada, mas era uma família de fato.
    Yelena gostava de dizer que Bucky e eu éramos os pais de todo mundo. Bucky geralmente torcia o nariz e resmungava alguma coisa, enquanto eu apenas dava de ombros. Eu não me importava. E, no fundo, até gostava do título. Cuidar e zelar por aqueles que eu amava (inclusive John Walker) era uma das minhas tarefas favoritas.
    Tanto quanto manipular a água.
    Eu havia nascido assim. Brincando com a água. Tipo Moisés quando abriu o Mar Vermelho.
    Meu pai costumava dizer que eu carregava um fardo por ter nascido assim. Minha mãe o culpava, dizendo que a carga genética da mutação havia vindo por sua parte da família. Meu irmão gêmeo apenas rolava os olhos e puxava meus cabelos quando nenhum dos dois estavam olhando. Era um tanto quanto difícil para ele lidar com o fato de que sua irmã gêmea tinha superpoderes, enquanto ele era apenas um garoto normal que vivia no interior do país, no meio de uma fazenda cheia de porcos e vacas.
    Não demorou muito para que me encontrassem. Doze anos, para ser mais exata.
    Uma Land Rover preta estacionou em frente a nossa casa e homens armados adentraram sem nem ao menos bater à porta. Era domingo. Todos tomávamos chá na mesa da sala de jantar quando papai e mamãe foram mortos com um tiro na cabeça. Meu irmão tentou fugir, mas foi igualmente baleado e seu corpo sem vida caiu aos meus pés. O cheiro do chá ainda pairava no ar quando o sangue deles tocou o chão. E eu? Bem, não tive tempo de correr. Fui agarrada pelos cabelos e levada a uma terrível e branca sala de testes.
    Foi o meu primeiro contato com a Hydra.
    Anos mais tardes e com uma grande carga de traumas e vidas ceifadas, o Soldado Invernal me interceptou e me levou junto a ele.
    O que aconteceu após isso era apenas história, uma história de dor, fuga e sobrevivência.
    O que importava agora era o que fazíamos com as vidas que restaram pra nós.
    Por sorte, Bucky e eu tínhamos a chance de recomeçar.
    Eu não era muito mais velha do que Yelena. Na verdade, tínhamos a mesma idade. Ava achava graça de como ela me tinha como uma figura materna, mas eu não podia evitar de chamar Lena de “querida” e acariciar seus cabelos de vez em quando.
    — Você é muito mole, — Walker resmungou uma vez, após uma bomba explodir ao nosso lado e eu chorar ao vermos que ainda estávamos vivos.
    Mas eu não me importava. Pois eu era assim. Volátil e molenga como a nascente de um rio que desaguava no mar. Uma cachoeira interminável de sentimentos e delicadeza.
    Soltei um suspiro pesado quando percebi que minha cabeça tinha ido longe demais, perdida na imensidão dos meus próprios sentimentos.
    A torre estava incrivelmente quieta hoje. Todos pareciam ocupados demais em seus próprios afazeres. O que me dava um momento de calma e folga após dias e dias de trabalho incansável para encontrar o nosso novo alvo: Madame Perron.
    Madame Perron era uma feiticeira. Ou pelo menos se parecia com uma. Havia enfeitiçado metade de Manhattan, dizendo que seria o cupido do amor, o que acabou virando uma grande onda de frenesi e sexo selvagem ao ar livre. Nova York nunca tinha visto nada igual, e olha que eu já havia visto uns portais abrirem na Times Square.
    O mundo estava enlouquecido com a sua presença e, o pior, ninguém parecia capaz de conseguir capturá-la ou detê-la. Por isso, eu tinha certeza de que ela era uma bruxa.
    Mas ela era tão volátil quanto eu. Aparecia e desaparecia como fumaça. Lançava seus feitiços e ia embora gargalhando, como em um filme de suspense sem graça.
    Estávamos ficando tão loucos quanto o restante do país por sua causa.
    E era por isso, que em momentos de folga, eu tentava ao máximo não pensar nisso. E, mais uma vez, eu estava falhando miseravelmente.
    Um pequeno diário estava aberto à minha frente enquanto palavras saíam da ponta da minha caneta. Esse havia sido um presente de Bob no meu último aniversário.
    — Vai ajudar a organizar seus pensamentos — disse ele, sorrindo. E eu o aceitei de bom agrado.
    Era bom ter um lugar para colocar tudo o que eu sentia, mas começava a me irritar o fato de as últimas páginas todas falavam sobre Madame Perron. Eu não aguentava mais caçá-la.
    Uma batida na porta interrompeu minha escrita.
    — Pode entrar — gritei para que quem tivesse do outro lado pudesse ouvir e não tardou para que a cabeça de Yelena aparecesse pelo vão.
    — Tá com fome? — Ela ergueu um saco de batatinhas e meu estômago roncou quase no mesmo instante.
    Não precisei dizer para ela entrar, pois no instante seguinte Lena já estava jogada em minha cama como se fosse a sua própria.
    — O que eu já disse sobre subir de botas na minha cama? — Resmunguei fechando meu diário e indo para seu lado.
    — Tá bom, mãe — sua língua pareceu se enrolar na última palavra e eu sabia que seu tom era mais do que provocativo.
    — Eu vou dar pra você limpar da próxima vez — resmunguei de novo e ela riu pelo nariz, me entregando o pacote de batatinhas.
    Yelena mastigava alto, olhando para o teto como se pudesse ver o espaço sideral lá de cima.
    — Você pensa demais — disse entre uma mordida e outra.
    — E você fala demais — retruquei, pegando o pacote de volta.
    — Alguém tem que quebrar o silêncio mórbido dessa torre. – Ela balançou as sobrancelhas para cima e para baixo, tentando me convencer de seu ponto.
    — É silêncio, não luto — respondi, mas a risada escapou antes que eu pudesse impedir.
    Ela me olhou de soslaio, avaliando. Eu sabia que alguma coisa mais séria vinha após isso.
    — Bob chamou a gente pra reunião daqui a pouco. Disse que tem novidade sobre a Madame Perron.
    O nome dela me fez revirar os olhos.
    — Não pode ser outra missão, tipo, sei lá, salvar gatos presos em árvores? – Estalei a língua no céu da boca e fiz uma careta desengonçada.
    — Ele pareceu empolgado. — Yelena deu de ombros. — Então, provavelmente, é o tipo de missão que termina com metade de Nova York em chamas.
    Suspirei, jogando o pacote de batatas de volta pra ela.
    — Ótimo. Mais um dia normal – resmunguei, me levantando e calçando meus chinelos. – Sabe, eu só queria umas férias.
    — Fale com Valentina — Yelena respondeu ácida e eu quis jogar um jato de água no seu rosto, mas eu havia bebido toda a água do meu copo antes de ela entrar.
    — Eu acho que vou me aposentar, sabe? — Apoiei as mãos na cintura, como uma mãe cansada e foi a vez de Yelena revirar os olhos.
    — E Bucky tá sabendo disso? — Perguntou ela, de maneira divertida.
    — Bucky não tem que saber nada — torci o nariz. — As mulheres já são livres há muito tempo, sabia? Não devo satisfações a ninguém.
    Yelena riu, jogando o pacote vazio de batatas no chão.
    — Aham. Me avisa quando o governo aceitar a sua carta de aposentadoria, . Quero ver o rosto da Valentina ao ver que perdeu uma das suas melhores heroínas.
    — Ela vai se engasgar com o próprio ego — murmurei, ajeitando o cabelo.
    Antes que Yelena respondesse, o comunicador preso à minha mesa apitou.
    Suspirei de maneira cansada. Quatro horas de descanso foi o que eu havia conseguido contar.
    — Falando em egos inflados… — peguei o aparelho. — Aqui é a .
    A voz de Valentina ecoou do outro lado, nítida e impaciente:
    — Reunião em dez minutos. Sala principal. E tragam a Yelena, se ela não estiver dormindo ou comendo.
    — As duas coisas — respondeu Yelena alto o bastante pra que Valentina ouvisse.
    — Ótimo. Tragam energia — e o som cortou.
    Nos entreolhamos, e Yelena arqueou a sobrancelha.
    — Aposto que é sobre a Madame Perron.
    — Aposto que é o fim das nossas férias imaginárias — respondi, sem muita paciência.
    Peguei o casaco, e antes de sair, lancei um olhar para o diário sobre a mesa.
    A última frase que eu havia escrito ainda ecoava na minha cabeça: “Quero paz.”
    Ironia do destino ou não, paz era a única coisa que nunca me escolhia.
    A sala de reuniões ficava alguns andares mais baixos do que nossos quartos. Ava nos encontrou no elevador e, então, seguimos juntas para o encontro.
    — O que será que Valentina quer? — Perguntou Ava assim que apertou o botão do décimo segundo andar.
    — Enfiar a gente em mais uma missão, é óbvio — disse Yelena, sem paciência. — Provavelmente sobre a maluca do sexo.
    Ava suspirou e eu a acompanhei. Eu já não tinha mais forças para tecer comentários sobre isso.
    — Boa tarde — falei cordialmente assim que passamos pelas portas do elevador e encontramos o restante do time sentados em seus respectivos lugares.
    — Já não era sem tempo! — Foi o que Valentina disse e pude ver Yelena semicerrar os olhos para ela.
    Mas nenhuma de nós respondeu. Não tínhamos tempo para isso.
    Assumi meu lugar ao lado de Bucky que, costumeiramente, trincava o maxilar e olhava a tudo como um pai cansado e calejado de tantas decepções. A mão de metal pousava na mesa ao dor de um copo de papel cheio de café preto e sem açúcar.
    Puxei o copo para mim e dei um grande gole, sentindo que precisaria de cafeína extra para aguentar tudo o que estava por vir.
    Bucky pareceu não se importar quando não devolvi o seu café.
    — Bom — começou Valentina e o “toc toc” do seu salto agulha indicavam sua impaciência enquanto ela circundava a mesa e projetava algumas imagens a nossa frente. — Eu preciso que vocês encontrem essa mulher!
    — Como se já não estivéssemos na cola dela há mais de um mês! — John rebateu no mesmo instante.
    — Preciso que vocês sejam mais efetivos — Valentina continuou, ignorando o comentário de Walker. — A imprensa está em cima de nós! Todos querem respostas. Hoje à tarde, em Chicago, mais um grupo de pessoas foi visto.
    Ela não precisou dizer o que o grupo estava fazendo; as imagens de uma das câmeras já eram mais do que suficientes para sabermos: corpos nus e suados roçando uns nos outros à beira de um lago movimentado. Por sorte, nenhuma criança parecia estar por perto.
    Não evitei uma careta e Alexei riu da minha reação.
    — Eu ainda não consigo entender o problema disso — disse ele, e seu sotaque forte ocupou a sala como gás lacrimogêneo. Nunca sabíamos qual seria a próxima atrocidade que sairia da sua boca. — Deixem as pessoas se amarem! Pelo menos não estão roubando ou matando.
    — Só aumentando a taxa de natalidade — Walker falou, ácido, rindo pelo nariz. Vários olhares reviraram na mesa.
    — Ainda não consigo ver problema — Alexei repetiu, erguendo as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.
    — Precisamos de mais informações sobre o paradeiro dessa bruxa — cortei o assunto paralelo.
    — Bruxa, hein? — Yelena soltou, rindo baixo; a repreendi com o olhar.
    — Por sorte — Valentina disse, caminhando em minha direção —, já que vocês são muitas coisas, mas inteligência parece distante, Bob achou algumas pistas enquanto vocês fracassavam em capturar Madame Perron.
    Valentina me entregou uma pasta com documentos; senti Bucky esticar o tronco para ver também. Eram imagens de câmeras e coordenadas abaixo delas: diversos lugares do mundo, aparentemente ao mesmo tempo — Inglaterra, França, Indonésia e Brasil estavam entre os países listados.
    — Sem ofensas, Valentina, mas como isso pode nos ajudar? — questionei, passando os documentos para os outros. — Para mim, isso só confunde ainda mais a cabeça de todo mundo.
    — Como ela pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo? — Ava perguntou.
    — Ela é uma bruxa, como a disse — a voz mansa e tensa de Bucky ressoou, e todos o olharam ao mesmo tempo.
    — Não interessa o que ela é! — Valentina cortou, novamente. — O que importa é que vocês vão pegá-la e acabar com essa palhaçada de sexo em público.
    — E como sugere que façamos isso? — Yelena se jogou para trás e pôs os pés sobre a mesa. Valentina fez uma careta. — Como vamos prender alguém que está em vários lugares ao mesmo tempo?
    — Os heróis aqui são vocês — Valentina apontou para a equipe. — Eu trago informações. Vocês traçam o plano e capturam a… coisa.
    Valentina bateu as mãos, como quem finaliza um sermão.
    — Quero um plano rápido e certeiro. Nada de dramas, erros ou enrolação. Em doze horas, quero essa mulher fora de circulação. — Ela olhou para cada um de nós, com aquele olhar que conseguia perfurar até metal. — Boa sorte, Novos Vingadores.
    E, com o salto ecoando pelo corredor, ela desapareceu da sala, deixando atrás de si o perfume caro e uma nuvem de tensão.
    — “Nada de dramas” — imitou Yelena, com a voz carregada de sarcasmo. — Alguém devia avisar pra ela que trabalhar com o Walker já é um drama por si só.
    — Ei! — John ergueu as mãos. — Eu sou o equilíbrio desse time.
    — Equilíbrio entre o ego e a idiotice, talvez — respondeu Ava, cruzando os braços.
    Senti um sorriso surgir, mesmo que contido. Era assim que eles funcionavam, brigando, zombando, e, no fim, salvando o mundo de alguma forma.
    — Tá bom, crianças — intervim, num tom calmo, mas firme. — Vamos focar. A Valentina pode ser insuportável, mas, dessa vez, ela não tá errada. Precisamos agir logo.
    — A “mãe” falou, hein! — Yelena provocou, fazendo biquinho e piscando pra mim.
    — Mãe, não. — Revirei os olhos. — Eu sou mais tipo a tia legal que traz lanches e salva a pele de vocês quando fazem besteira.
    Bucky soltou um resmungo que parecia uma risada abafada. Ele ainda olhava fixamente para as imagens projetadas, os olhos percorrendo cada coordenada.
    — Ela não se teletransporta — murmurou. — Isso seria fácil demais. Há algo interferindo no campo energético dela. Talvez… duplicação. Ilusão.
    Antes que alguém respondesse, a porta se abriu novamente e Bob entrou, carregando uma pilha de papéis e uma xícara de café que quase derramava.
    — Boa notícia: acho que encontrei um padrão — anunciou, ofegante. — Má notícia: o padrão é uma bagunça.
    — Excelente — ironizou Yelena. — Um padrão caótico. Tudo o que precisávamos.
    — Cala a boca, Lena — falei, me aproximando de Bob. — Mostra pra gente.
    Ele colocou os papéis sobre a mesa, espalhando mapas, coordenadas e relatórios.
    — Cada aparição dela acontece em áreas com alta umidade e concentração de energia residual — explicou, apontando com o dedo e eu sorri para ele, o encorajando a continuar. — Lagos, praias, até saunas públicas.
    — Saunas públicas? — Walker ergueu as sobrancelhas. — Acho que encontrei minha missão.
    — Walker — adverti, com o olhar de quem ameaça castigar. — Nem pense em transformar isso em turismo sexual.
    — Eu só ia investigar… profundamente.
    — Investiga mais uma piada dessas e eu te congelo o… ego — rebati, e Yelena explodiu em risadas.
    — Certo, voltando — Bucky pigarreou, chamando a atenção. — Se ela está atraída por lugares úmidos, talvez a gente possa prever o próximo ponto.
    — Ou atrair ela pra uma armadilha — completou Ava. — Uma área isolada, cheia de energia, mas controlada por nós.
    — Tipo um grande spa falso — Bob murmurou. — Com vapor, música sensual e…
    — E o que mais? Toalhas e drinks? — Yelena zombou. — Se isso for uma festa, eu topo.
    — Não é uma festa — falei, cruzando os braços. — É uma missão. E se der errado, metade da população mundial pode acabar pelada e gritando “meu amor eterno” pro primeiro poste da rua.
    — Ok, venceu — Ava disse, rindo. — Proponho que ela lidere o plano.
    Suspirei.
    — Ótimo. Mais uma noite sem dormir.
    Bucky me olhou de canto, com aquele ar calmo e protetor que só ele tinha.
    — Eu fico contigo nessa.
    — Você sempre fica — respondi, com um meio sorriso.
    Enquanto o resto da equipe começava a debater possíveis locais e rotas de ataque, Bob mexia apressadamente no tablet, e eu apenas me permiti respirar fundo.
    Madame Perron podia ser uma bruxa, mas nós éramos o que restava de sanidade em meio ao caos, e alguém precisava manter esses malucos de pé.



    O relógio marcava pouco mais das dez da noite e a sala de reuniões agora parecia um verdadeiro campo de guerra, só que de ideias. Mapas espalhados, canecas de café abandonadas e Bob digitando freneticamente no tablet, enquanto Yelena equilibrava uma batata frita no nariz de Walker só pra irritá-lo.
    — Eu tô tentando me concentrar — ele rosnou, afastando a cadeira. — Alguém aqui leva isso a sério?
    — Não — respondeu Yelena, sem hesitar.
    — Se vocês terminarem o teatrinho, talvez a gente consiga impedir que o mundo vire um motel a céu aberto. — Disse Ava no meio de um suspiro.
    — Concordo — falei, levantando os olhos do mapa. — Bob, você conseguiu o padrão temporal?
    Ele girou o tablet na minha direção, animado. Eu ficava feliz em vê-lo poder participar das missões mesmo que ainda não pudesse controlar o seu poder muito bem.
    — Sim! As aparições seguem um intervalo de exatas vinte e quatro horas, com uma variação mínima de trinta minutos. Se continuar assim, o próximo “show do amor” deve acontecer amanhã à noite, em algum ponto da Costa Leste.
    — E adivinha qual região da Costa Leste é a mais úmida e populosa? — perguntou Bucky, em seu tom grave.
    — Nova York — respondi, quase ao mesmo tempo que ele. Nossos olhares se cruzaram e um pequeno arrepio percorreu minha nuca.
    — Ah, ótimo — disse Walker. — Pelo menos não vamos precisar viajar. Odeio aviões.
    — Claro, porque um apocalipse erótico no nosso quintal é tudo que faltava — retruquei, e Yelena soltou um assobio de aprovação.
    — Então é isso — Ava começou a dizer, pegando um marcador vermelho. — A gente atrai ela pra um ponto isolado, mas dentro da cidade. Um lugar que tenha tudo o que ela gosta: energia, umidade e espaço pra ela brincar de bruxa.
    — Tipo o reservatório do Central Park — sugeri. — Dá pra monitorar o perímetro e cercar rápido se algo der errado.
    — Se? — Yelena ergueu as sobrancelhas. — , amor, quando foi que algo não deu errado?
    — Justamente por isso vamos planejar direito — respondi, já sem muita paciência.
    Bucky apoiou os cotovelos na mesa e olhou pra mim, pensativo.
    — Você quer ir na linha de frente, não é?
    — Eu posso lidar com ela. Se o poder dela tem alguma conexão com energia úmida, talvez eu consiga neutralizar ou, pelo menos, conter.
    Walker bufou e ergueu as mãos, como se pedisse ajuda aos céus.
    — Ótimo. A das Águas vai lutar contra a Bruxa do Amor. Parece até uma novela mexicana.
    — Se fosse, você seria o figurante número dois que morre no primeiro episódio — Yelena retrucou, mordendo outra batata.
    Ele fez menção de responder, mas eu o cortei com um olhar firme. — Chega. Isso é sério.
    A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Eu suspirei, ajeitando o cabelo preso.
    — Bob, quero você monitorando o campo energético. Ava, você a postos com o poder fantasma, pronta pra evacuar se der problema. Bucky, Yelena e Walker comigo no chão.
    — A mamãe manda bem — Yelena disse em voz baixa, e eu joguei um pedaço de papel nela.
    — E eu? — A voz grossa e carregada de sotaque de Alexei ecoou da porta. Ele apareceu com uma lata de cerveja na mão e o uniforme meio aberto. — Fui deixado de fora de novo?
    Revirei os olhos, mas não consegui evitar um meio sorriso. — Ninguém te deixou de fora, Alexei.
    — Hm. — Ele se aproximou, dando um gole demorado. — Eu posso ser distração. As mulheres gostam de homens maduros, fortes e com histórias de guerra.
    — Não, Alexei — Yelena rebateu, com o olhar cansado. — As mulheres gostam de homens que tomam banho.
    — Mentira! — Ele apontou pra ela com indignação. — Eu tenho feromônios soviéticos!
    — Ótimo — resmunguei. — Então você vai usar seus “feromônios soviéticos” pra manter os civis afastados, entendido?
    — Eu prefiro ser isca.
    — Isca humana, talvez.
    Yelena explodiu em gargalhadas e Bucky balançou a cabeça, sem conter um sorriso discreto.
    — Tá decidido — continuei, ignorando o caos momentâneo. — Alexei cuida do perímetro e afasta curiosos. Bob, você monitora o fluxo de energia. O restante da equipe comigo.
    Bob levantou o olhar do tablet e indicava que não era bom.
    — Há uma coisa que eu não mencionei antes...
    — Lá vem — murmurou Walker.
    — O padrão energético da Madame Perron está mudando — Continuou Bob, ignorando Walker. — Ela está acumulando poder de forma exponencial. Se ela continuar nesse ritmo, amanhã pode ser o ponto máximo da carga.
    — Então não temos margem pra erro — concluiu Bucky.
    Todos assentiram, e pela primeira vez naquela noite, o ar ficou pesado.
    Levantei-me, sentindo o cansaço pesar nos ombros, e encarei o reflexo do time no vidro escurecido da janela. Um grupo de desajustados, cansados, meio quebrados, mas era o que tínhamos.
    — Certo — disse, firme e me levantando. — Amanhã a gente acaba com isso. E depois… eu quero um fim de semana inteiro sem ouvir a palavra “feitiço”.
    — E sem sexo em público — completou Yelena, fingindo fazer o sinal da cruz.
    — E sem Walker — retrucou Ava.
    — Ei! — ele protestou. — Eu sou essencial pra equipe!
    — Claro — murmurei, já saindo da sala. — Principalmente pra garantir o entretenimento.
    Bucky riu baixinho atrás de mim, e por um instante, no meio do caos, eu senti aquele calor familiar no peito, o de ainda ter alguém pra dividir o fardo.
    — Tá bom, perdedores, hora de dormir – falei por fim. — Amanhã é o dia de pegar a Bruxa do Amor.

    Segundo

    Roupas táticas me irritavam.
    Era sempre uma linha tênue entre conforto e costuras que apertavam lugares desnecessários e desconfortáveis. E eu geralmente me sentia um salame ensacado, com medo de parecer com a bunda grande demais.
    — Pois eu acho que você fica uma gostosa, se quer realmente saber — foi o que Yelena disse quando me ouviu resmungar pela milésima vez.
    Mas eu não tive tempo de respondê-la. Bucky já nos esperava dentro do carro e buzinava pela nossa demora. Porque os homens tinham que ser tão impacientes?
    Amarrei a bota e prendi os cabelos num rabo de cavalo alto. Ajustei o colar que servia como receptáculo de água, caso eu ficasse sem. E saí ao lado de Yelena, que andava como se o mundo não estivesse prestes a acabar em depravação e sexo.
    — Como consegue estar tão tranquila? — Indaguei assim que entramos no carro.
    — É só mais uma missão – deu de ombros. — Não o fim do mundo.
    Mas eu não tinha tanta certeza.
    Bucky logo enfiou o pé no acelerador e o caminho foi silencioso e desconfortável. Walker, para a surpresa de todos, não havia tecido nenhum comentário desagradável e parecia tão focado quanto todos nós. O dia estava realmente estranho.
    O ponto de encontro era o Central Park, nas margens do lago principal. Não havia muitos civis por perto, o que era bom, mas o vento frio cortava o ar e levantava pequenas ondas na superfície da água.
    A voz de Bob ecoou pelo comunicador no meu ouvido assim que descemos do carro:
    — Testando, testando... vocês estão me ouvindo, equipe?
    — Infelizmente — respondeu Yelena, mexendo no fone. — Não dá pra colocar no mudo, não?
    — Que engraçada — ele resmungou. — Eu tô aqui na torre acompanhando tudo. A Valentina me deixou de babá de vocês de novo, então tentem não explodir nada dessa vez, ok?
    Revirei os olhos e ajeitei o colar com a reserva d’água.
    — Relaxa, Bob. A última explosão nem foi culpa nossa.
    — Foi exatamente culpa de vocês — ele rebateu, e deu pra ouvir o som de papéis caindo e uma cadeira arrastando. — Ai, droga... ‘peraí. O monitor caiu.
    Um estalo alto no fone.
    — Bob? — perguntei, meio preocupada, meio exasperada.
    — Tô bem! Só... enfim. Tô tentando acompanhar pelo mapa. Tem umas leituras estranhas aí perto do lago. Tipo, energia diferente... ou estática. Não sei. O computador travou.
    — Fantástico — disse Walker. — Nosso olho no céu é um homem brigando com o Wi-Fi.
    Yelena riu, e até Bucky pareceu conter um sorriso.
    — Foco — rosnou ele, assumindo a liderança. — Ava e Walker, coberturas laterais. Alexei, comigo na frente. e Yelena, perímetro
    — “ e Yelena no perímetro” — repeti em voz alta. — Parece nome de dupla pop dos anos 2000.
    — Só se for e a Viúva Russa no inferno dos hormônios — Yelena completou, arrancando uma risada breve até de Bucky.
    O comunicador chiou de novo:
    — Eu ouvi isso, viu? — disse Bob, ofendido. — Vocês nunca levam nada a sério.
    — A gente leva sim, Bob — respondi, sorrindo de leve. — Só preferimos rir antes que tudo dê errado.
    Bob suspirou do outro lado.
    — Tá, mas fiquem alertas. O gráfico aqui tá... sei lá, tremendo. Acho que tem alguma coisa grande chegando.
    Eu troquei um olhar rápido com Yelena. O vento gelado fez arrepiar até o couro do colete.
    — Fiquem atentos — murmurei, mais pra mim do que pra eles. — Se ela estiver mesmo aqui... não vai ser simples.
    E, como se o universo tivesse ouvido, o ar pareceu tremer.
    O comunicador estalou mais uma vez, e Bob gritou do outro lado:
    — Gente?! Gente, o mapa sumiu! A tela ficou rosa!
    Antes que eu pudesse responder, uma onda de energia atravessou o campo, fazendo as luzes piscarem.
    O cabelo de Yelena se levantou com a eletricidade estática.
    — Ah, ótimo — murmurou ela. — Lá vem a bruxa do sexo.
    Um arrepio percorreu a minha espinha e seus cabelos grisalhos invadiram a minha visão quase no instante seguinte. Eu não sabia o porquê da sua presença me afetar tanto.
    Ela simplesmente estava ali, como se o ar tivesse decidido tomar forma. A brisa que antes era leve agora parecia densa, cheia de perfume e perigo. Seu vestido preto se movia como fumaça viva, moldando-se ao corpo à medida que ela caminhava. Meneei a cabeça, tentando me concentrar no que era real e não no que ela tentava nos fazer enxergar.
    Madame Perron sorriu, como se soubesse o que eu estava pensando, e aquele sorriso soou como uma terrível ameaça.
    — Ah, os Novos Vingadores... — sua voz ecoou melodiosa, mas com algo perverso escondido. — Sempre tão previsíveis.
    — Prefiro ser previsível do que uma maluca de vestido cafona — Yelena murmurou, fazendo a energia de seus propulsores de pulso vibrarem em um azul brilhante.
    A bruxa deu uma risada cristalina.
    — Sempre insolente, Yelena Belova. Vocês lutam contra o amor, e ainda se acham heróis.
    — A gente luta contra feitiços depravados e possessões em massa, querida — retruquei, sentindo meu corpo vibrar de raiva. — O amor não tem nada a ver com o que você faz.
    — Não, , o amor salva tudo — respondeu-me, com a voz mansa. Mas eu sabia que ela logo atacaria.
    Ela ergueu a mão e, de repente, o chão do parque se abriu em rachaduras finas. O ar vibrou, e das sombras começaram a surgir figuras, corpos translúcidos, distorcidos, meio humanos, meio feitos de luz. Pareciam versões corrompidas de amantes abraçados, grunhindo e se contorcendo.
    — Fantasmas de desejo — ela murmurou, com orgulho. — Tão frágeis... e tão obedientes.
    — Yelena! Ava! Cuidem do perímetro! — gritei, já invocando a água do colar.
    O líquido fluiu em espirais pelo meu corpo, envolvendo meus braços como serpentes cristalinas. Um movimento, e jatos precisos atingiram duas das criaturas, que se desintegraram em vapor. Outras, porém, se recompunham, arrastando-se pelo chão como se sentissem prazer em apanhar.
    — Mas que porra é essa?! — Walker rugiu, atirando contra uma das formas luminosas. As balas atravessavam os corpos sem efeito. — Elas não morrem!
    — Elas não estão vivas! — Bucky respondeu, disparando em outra direção e desviando de um feixe de energia lilás que veio da bruxa. O raio atingiu uma árvore, fazendo-a florescer instantaneamente em cores impossíveis.
    Madame Perron girou o pulso e, num piscar de olhos, a água do lago se ergueu, não por minha vontade, mas pela dela. A massa líquida tomou a forma de um colosso translúcido, que rugiu e veio na nossa direção.
    — Sério? — reclamei, erguendo os braços. — Mexer com água na minha frente é provocação.
    Concentrei-me, sentindo o colar pulsar. A água ao meu redor respondeu ao chamado, se unindo à que a bruxa havia invocado. Forças opostas colidindo. O impacto fez o chão tremer, o ar explodir em gotas afiadas.
    Bucky correu até mim, desviando de destroços e me puxando antes que um dos tentáculos líquidos me atingisse.
    — Consegue manter o controle?
    — Ainda sou eu quem manda na água, Barnes! — respondi, a voz firme e um tanto quanto ofendida, ainda que o esforço me consumisse.
    — Boa menina — Walker ironizou, atirando contra o colosso. — Mostra pra essa bruxa quem é a rainha das marés!
    — Cala a boca e atira direito! — Yelena rebateu, cortando mais duas criaturas com suas lâminas.
    Ava apareceu logo atrás dela, lançando um pulso elétrico que iluminou o parque inteiro e desfez parte das ilusões. Por um instante, achei que tínhamos vantagem. Até ouvir a risada dela.
    Madame Perron estalou os dedos.
    O colosso desabou, e toda a água que eu controlava se virou contra mim, um redemoinho se formando no ar, me puxando com força.
    ! — ouvi Bucky gritar. Ele correu até mim, tentando me alcançar, mas o chão se partiu entre nós.
    Meu corpo flutuou por um segundo, envolto em luz e água, e o olhar da bruxa encontrou o meu.
    — Tão poderosa, tão perdida. — Ela sorriu, e sua voz ecoou dentro da minha mente. — Deixe-me te mostrar um mundo onde o amor não precisa de limites.
    Um clarão.
    A explosão de energia foi tão intensa que arrancou gritos de todos.
    Eu senti o ar desaparecer, o chão sumir e o universo se dobrar ao meu redor. Era como se alguém tivesse aberto um espelho e me jogado dentro dele.
    O último som que ouvi foi a voz de Yelena, distante, cortada pela estática do comunicador:
    , segura firme!
    A última coisa que vi foram os rostos apavorados dos meus amigos, mas que logo sumiram por uma força que se fechou ao redor de suas cabeças. Senti meu umbigo sendo puxado e então, me vi em queda livre.

    Terceiro

    {Aquele que tudo vê}


    Nova Iorque despertava em paz.
    Os chapéus eram ajustados diante dos espelhos, as portas das garagens se abriam com rangidos preguiçosos, o aroma de pão fresco escapava das padarias para as calçadas ainda mornas de sol. Nada ameaçava o céu. Nada rasgava o horizonte. Era apenas mais uma manhã comum sob a proteção do Quarteto Fantástico.
    Um menino de não mais que seis anos caminhava ao lado da mãe, os olhos presos na manchete do jornal que trazia a imagem da Tocha Humana cruzando o céu em chamas. Ele sorria, imaginando o rastro de fogo desenhando espirais invisíveis entre os prédios.
    Então a luz mudou.
    Não foi um trovão. Não foi uma explosão.
    Foi como se o azul do céu fosse puxado por dentro.
    Uma distorção se abriu no alto, fina a princípio, depois rasgando o ar como tecido tensionado demais. Uma fenda luminosa, pulsando em tons arroxeados, respirando como algo vivo.
    — Mamãe? — o menino chamou, o sorriso evaporando.
    Do interior da fissura, um corpo despencava.
    O grito da mãe misturou-se ao coro da cidade. Pessoas correram. Portas bateram. O cotidiano se partiu em fragmentos de pânico.
    Uma labareda cortou o ar.
    O Tocha Humana subiu em velocidade vertiginosa, o rastro de fogo desenhando um arco perfeito até a figura em queda. Abaixo, um campo de força expandia-se como uma cúpula invisível enquanto a Mulher Invisível protegia as ruas. O Coisa afastava carros como se fossem brinquedos. E, no centro do caos, Reed Richards observava o fenômeno no céu com atenção cirúrgica.
    — Johnny, alcance-a! — a voz de Ben ecoou.
    Ele alcançou. Ou pelo menos tentou.
    Seus dedos em chamas tocaram o braço da figura desacordada. E o mundo pareceu reagir no mesmo instante, mas não da maneira como ele esperava.
    Não houve estrondo imediato. Primeiro veio o silêncio. Um silêncio espesso, denso, como o segundo antes da tempestade quebrar.
    E então, o calor encontrou resistência. E Johnny sentiu o pavor subir pela garganta, por não saber o que fazer a partir dali. Era a primeira vez que isso acontecia.
    A umidade do ar começou a condensar ao redor dela. Pequenas gotículas surgiram do nada, cintilando à luz do sol como pó de vidro. Elas giraram, ganharam velocidade, multiplicaram-se.
    Johnny piscou confuso.
    — O que é isso…?
    A água não vinha das nuvens. Nem da cidade. Ela parecia emergir dela.
    Do peito da mulher desacordada, uma pulsação invisível vibrou pelo ar, e as partículas responderam. O vapor se comprimiu. O ar tornou-se líquido.
    Então explodiu.
    Não uma explosão destrutiva. Mas uma expansão violenta e circular de água comprimida, um anel cristalino que empurrou o fogo para trás. As chamas de Johnny chiaram ao contato, vapor subindo em colunas brancas.
    Ele foi lançado alguns metros para trás, rodopiando no ar antes de estabilizar.
    — Ok, isso foi inesperado – disse mais para si próprio do que para seus colegas de equipe.
    A mulher, por sua vez, continuava desacordada. Mas ainda envolta por uma esfera líquida instável, água girando ao redor de seu corpo como se obedecesse a um comando silencioso. Como se seu próprio organismo tivesse decidido sobreviver.
    Lá embaixo, Sue arregalou os olhos.
    — Ela está se protegendo.
    Reed já analisava cada detalhe.
    — Não é consciente — murmurou. — É reflexo neurológico. O poder está integrado ao sistema vital.
    Johnny pairava diante dela, agora sem tocar, observando a figura suspensa dentro daquele casulo fluido.
    O rosto dela estava relaxado. Vulnerável. Nada nela sugeria ataque.
    Mas a água pulsava. Defensiva. Instintiva. E muito voraz.
    A fenda no céu começou a se fechar com um estalo seco, como um portal sendo costurado à força.
    E, por um segundo, apenas um segundo, os olhos dela se moveram sob as pálpebras.
    A esfera de água vibrou.
    Johnny sentiu o calor diminuir ao redor de si.
    — Ei… — ele murmurou, agora sem bravata. — Calma.
    Como se, mesmo inconsciente, ela pudesse ouvi-lo.
    Por um segundo microscópico, a esfera que a envolvia perdeu ritmo. O giro ficou irregular. As gotas começaram a tremer no ar, como se a força que as sustentava estivesse falhando.
    — Reed… — Johnny chamou, agora sério.
    Lá embaixo, Reed Richards já ajustava algo no comunicador preso ao pulso.
    — O padrão está instável. A fonte de energia caiu abruptamente.
    Como se confirmasse a análise, a esfera líquida vibrou violentamente. E então desmoronou.
    A água não evaporou. Não explodiu novamente. Simplesmente perdeu coesão.
    Caiu.
    Uma chuva súbita despencou sobre a cidade, pesada e gelada, como se uma nuvem tivesse sido esvaziada a poucos metros do chão.
    E ela caiu junto.
    Johnny reagiu antes do pensamento terminar de se formar. As chamas reacenderam com força total, rasgando o ar enquanto ele mergulhava atrás dela.
    — Eu pego!
    O corpo da mulher girava em queda livre, cabelos castanhos se espalhando ao redor do rosto pálido. As roupas estranhas colavam na pele encharcada. Inerte. Vulnerável.
    Johnny a alcançou sem dificuldade. E, dessa vez, o toque foi diferente. Sem explosão. Sem resistência imediata.
    Ele a segurou com cuidado, ajustando a intensidade do fogo para não queimá-la, apenas o suficiente para frear a descida. O vapor subiu em espirais suaves ao redor deles enquanto desciam mais devagar.
    E então... Os olhos dela se abriram.
    Não foi um despertar confuso.
    Foi brusco.
    Os pulmões puxaram ar como se ela tivesse emergido debaixo d’água. As írises focaram primeiro no brilho laranja ao redor, depois no rosto dele.
    Desconhecido. Céu errado. Prédios errados. Tudo errado. A respiração dela falhou. Onde é que estava Bucky?
    E o poder respondeu outra vez, instintivamente.
    A água não veio do ar dessa vez.
    Veio dela.
    Uma pressão súbita explodiu do centro do peito, não em forma de esfera, mas como um impacto direcionado. Um jato compacto e violento que atingiu Johnny em cheio.
    O fogo chiou alto.
    Ele perdeu estabilidade.
    — Ei, ei, calma! — ele tentou, mas já estava sendo lançado para trás.
    A força os separou.
    Ela voltou a cair.
    Mas agora estava consciente. E apavorada.
    A queda desacelerou de novo, involuntariamente. O ar ao redor dela ficou denso, pesado, saturado de umidade. Pequenas correntes líquidas começaram a se formar sob seus pés, como se a própria atmosfera estivesse tentando sustentá-la.
    Lá embaixo, a Mulher Invisível expandiu um campo de força em posição estratégica.
    — Eu pego ela!
    A barreira invisível se posicionou milímetros antes do impacto.
    Ela caiu sobre o campo como se tivesse atingido uma superfície elástica. A energia dissipou o restante da força, e o corpo dela rolou suavemente até parar.
    A chuva cessou. O céu estava limpo novamente. Mas nada parecia normal como antes.
    Johnny pousou segundos depois, as chamas diminuindo até desaparecerem. O uniforme ainda soltava vapor.
    Ele olhou para ela.
    Ela estava deitada sobre o campo de Sue, respirando rápido demais, os olhos varrendo o entorno como um animal acuado.
    — Isso… não é o meu mundo. – Sua voz saiu fraca e fragilizada.
    O silêncio que se seguiu não foi de pânico.
    Foi de compreensão.
    Reed deu um passo à frente, os olhos brilhando com algo entre fascínio e cálculo.
    — Interessante — murmurou. — Muito interessante.
    Johnny inclinou a cabeça, ainda encarando ela com uma mistura perigosa de preocupação e curiosidade.
    — Então você costuma cair do céu em mundos errados ou hoje é um dia especial?
    Ela o encarou. Assustada. Molhada. Sozinha.
    E, pela primeira vez desde que abriu os olhos, algo diferente atravessou o medo. Reconhecimento.
    Porque, mesmo em outro universo... Heróis ainda pareciam heróis.
    O campo de força de Mulher Invisível se dissipou devagar.
    Ela se levantou rápido demais.
    Os cabelos grudando no rosto, a respiração rápida e os olhos que não paravam em um só lugar por muito tempo. Ela se sentia perdida e desorientada enquanto olhava para o grupo que a encarava com curiosidade.
    Quatro deles.
    Organizados. Confiantes. Poderosos.
    Ela deu um passo para trás.
    A água respondeu imediatamente.
    Não uma explosão, não ainda. Mas um véu fino começou a girar ao redor do corpo dela, subindo do asfalto como névoa obediente. Defesa automática. Instinto puro.
    Johnny, ao perceber a postura de defesa dela, ergueu as mãos, já sem chamas.
    — Ei. Sem incêndio, eu prometo. – Forçou um sorriso galanteador para tentar amenizar o clima tenso que pairava no ar.
    Mas ela não sorriu.
    O olhar passou por ele e pousou em Reed Richards, depois em Coisa. Voltou para Sue.
    — Onde eu estou? — a voz saiu firme demais para alguém claramente à beira do colapso.
    — Nova Iorque — Reed respondeu.
    Ela balançou a cabeça, certa do que pensava, apesar da confusão.
    — Não. Não é a minha.
    O silêncio pareceu ganhar uma forma esquisita e densa.
    A água subiu alguns centímetros, tremendo com a respiração acelerada dela.
    — Você caiu do céu — Ben comentou, braços cruzados, mas pronto para qualquer ataque surpresa. — Isso geralmente não é parte do turismo padrão.
    Ela não disse nada, apenas encarou o homem de pedra. Se ela já não tivesse visto tanta coisa estranha em seu próprio mundo, poderia até mesmo ter se surpreendido com a aparência do herói.
    O conflito estava estampado no rosto: lutar ou confiar. Atacar ou escutar. Fugir ou… ficar.
    — Como veio parar aqui? – Sue arriscou a pergunta e ela meneou a cabeça, como se uma lembrança tivesse lhe causado dor.
    Os outros três a encararam, esperando a resposta.
    — Foi uma bruxa, eu acho – sentiu sua voz falhar e se odiou por isso.
    — Bruxa? – Johnny inclinou o pescoço, interessado.
    — Madame Perron – respondeu e esperou algum sinal de reconhecimento daquele nome, mas todos permaneciam com a mesma expressão. – Nós estávamos caçando ela a meses e...
    — Nós? – Sue a interrompeu e ela percebeu que a postura de todos mudou drasticamente. – Tem mais de vocês por aqui?
    — Eu... – Ela sentiu a respiração falhar ao lembrar de sua equipe. – Eu acho que não.
    — E por que uma bruxa faria isso com você? – Johnny voltou a questionar e ela quase deu de ombros.
    — Ela estava atacando a cidade, criando orgias a céu aberto – ela explicou. – Quando tentamos pará-la, Madame Perron começou uma conversa esquisita sobre amor. Disse que me levaria a um lugar onde eu conheceria o amor de verdade.
    fez uma careta instantânea e Johnny riu pelo nariz, achando bonitinho. Sue o repreendeu com o olhar, mas a nova integrante daquele universo pareceu não perceber.
    — Então você é de outra realidade? – Reed questionou, ainda assimilando a tudo. assentiu, sem saber o que aquilo significava.
    — Acha que podem me ajudar a voltar para o meu mundo? – Ela perguntou esperançosa e os cientistas trocaram olhares entre si.
    — Podemos tentar – foi Sue que respondeu. – Mas primeiro precisamos saber se você é confiável.
    assentiu.
    — Meu nome é – disse. – Mas podem em chamar de .
    — Certo, – Reed a olhou com seriedade. – Eu sou Reed Richards, essa é minha esposa Sue, meu cunhado Johnny e nosso amigo Ben.
    — Já terminamos as formalidades? – Perguntou Ben, um tanto impaciente. – Precisamos sair daqui logo. Já atraímos atenção demais para uma simples manhã de quarta-feira.
    — Já terminamos as formalidades? — Ben resmungou. — Precisamos sair daqui. Já atraímos atenção demais para uma simples manhã de quarta-feira.
    A palavra atenção fez a água ao redor de ondular de novo.
    Ela olhou em volta.
    Pessoas escondidas e olhando às espreitas. Sussurros uma com as outras, tentando compreender o que estava acontecendo. conhecia bem aquela sensação, já havia passado por isso muitas outras vezes, mas não conseguia evitar de sentir a pontada de angústia que se formava na boca do seu estômago.
    — Eu não sou uma ameaça — disse, embora o véu líquido ao redor dela contradissesse a frase.
    Johnny inclinou a cabeça.
    — Você explodiu uma onda no meio do céu.
    — Eu estava inconsciente! – Ela rebateu sem pestanejar.
    — E mesmo assim quase me afogou — ele disse em seguida, mas o tom não era acusatório. Era curioso.
    Sue se aproximou um passo.
    , precisamos sair daqui. Conversar em um lugar seguro.
    — Seguro para quem? — ela retrucou.
    Reed respondeu antes que a tensão crescesse.
    — Para todos nós.
    — Vocês sempre tratam desconhecidos assim? – Perguntou ela, com os braços cruzados em uma posição defensiva.
    Ben bufou.
    — Só os que caem de fendas dimensionais. – Ele disse, impaciente e o silêncio pareceu pesar toneladas entre todos eles...
    Ela respirou fundo.
    Reed pensou por um segundo, tentando encontrar ligações entre os fatos e uma maneira de convencer a segui-los sem iniciar uma batalha a céu aberto.
    — Você disse que essa Madame Perron que mandou você para cá e, se você estiver certa, há muitas chances de ela estar ativa em múltiplas realidades, o que faz com que sua presença aqui possa não ser um caso isolado...
    A água ao redor de vibrou, fazendo com que Reed segurasse uma careta por estar surgindo o efeito contrário do que ele esperava.
    — Eu não trouxe nada comigo – se justificou outra vez.
    — Não sabemos disso ainda — Reed respondeu, calmo.
    Ela deu meio passo para trás por puro instinto.
    Johnny levantou as mãos novamente, antecipando qualquer movimentação suspeita.
    — Ei. Ninguém está dizendo que você é um vírus dimensional.
    — Só estamos dizendo que precisamos ter certeza. – Disse Ben por fim.
    Ela analisou os quatro.
    Organizados. Coordenados. Funcionando como um mecanismo bem ajustado.
    Ela conhecia bem aquele tipo de equipe. Confiavam uns nos outros.
    Mas não nela.
    — Se eu quisesse machucar vocês — ela disse, a voz mais baixa — já teria tentado.
    — Justo. – Falou Ben, cruzando os braços e arrumando a postura.
    Sue manteve o olhar firme e gentil ao mesmo tempo.
    — Então nos dê um voto de confiança. Vamos para o Baxter Building. Lá podemos analisar a energia da fenda, verificar se há risco de instabilidade e… entender como ajudar você.
    — Ajudar a voltar — reforçou.
    Reed assentiu.
    — Esse é o objetivo.
    Johnny inclinou o corpo na direção dela, voz mais baixa.
    — E, por enquanto, a gente prefere conversar em um laboratório a ficar no meio da rua com meia Nova Iorque de olho em todos os nossos movimentos.
    Ela hesitou.
    O céu estava limpo agora. Perfeitamente azul. Como se nada tivesse acontecido.
    Ela estava em outro universo. Sem equipe. Sem referência. Sem Yelena. Sem sua equipe. Sem Bucky. Sozinha. precisou segurar a vontade de chorar que se instalou na garganta.
    A água ao redor dela diminuiu lentamente até virar apenas umidade no ar.
    — Certo — disse, por fim. — Eu vou.
    Ben soltou um suspiro.
    — Ótimo. Porque eu realmente não queria transformar isso numa perseguição aérea.
    Johnny sorriu de lado.
    — Eu até queria um pouco.
    — Johnny — Sue advertiu.
    Ele levantou as mãos em rendição.
    Reed já observava o horizonte, calculando rotas e possibilidades.
    — Vamos manter deslocamento controlado — ele orientou. — Johnny, cobertura superior. Sue, contenção lateral. Ben, solo.
    percebeu o padrão imediatamente: formação estratégica e confiança mútua.
    Ela caminhou ao lado deles. Não no centro. Não ainda.
    O grupo começou a se mover pela cidade, deixando para trás a multidão e o ponto exato onde o céu havia se rasgado. E os seguiu, em silêncio e com apenas uma coisa em mente: o desejo de voltar para casa.

    Quarto

    Eu sentia meu peito apertado. Era como se minha caixa torácica tivesse diminuído de tamanho e esmagasse os órgãos que estavam ali dentro. Respirar se tornava difícil. O coração batia rápido demais. E gotículas de suor se formavam por toda a extensão do meu corpo.
    A roupa tática me incomodava mais do que nunca, principalmente por não se encaixar em nada naquele contexto. Meu rádio transmissor atrás da orelha havia se perdido, provavelmente em minha queda, e eu não tinha nada tecnológico comigo, nada que pudesse me ajudar a entrar em contato com a minha equipe para voltar para casa.
    E não que eu achasse que funcionaria. Pelo menos não naquele mundo.
    A tecnologia deles era diferente e intrigante. Sem contar nas roupas cafonas e na falta de celulares. Minha cabeça ainda tentava distinguir o carro do tal Quarteto Fantástico que voava e a falta de um smartphone com chamada de vídeo.
    Eu sabia o que era aquilo.
    Era medo.
    Misturado com ansiedade.
    E temor de não saber o que viria depois.
    Os heróis, o Quarteto Fantástico, estavam me tratando bem. Haviam me dado um alojamento para ficar e me ofereceram um banho quente antes de começarmos a pesquisa.
    “Pesquisa”.
    Aquela palavra soava amarga no fundo da minha língua. Porque eu sabia o que aquilo significava.
    Eu seria a cobaia. E o tal de Reed Richards parecia mais do que empolgado e fascinado em colocar suas mãos em mim.
    E era isso que mais me assustava.
    Eu já tinha vivido aquilo antes. Cair nas mãos da Hydra nunca fora sinônimo de algo bom. E apesar de todos lá serem igualmente loucos, nenhum deles esticava o corpo ou criava barreiras protetoras de energia. Eu só não sabia o que esperar.
    E nem se sairia viva.
    Senti a garganta fechar instantaneamente com o pensamento.
    Não. Eu não podia morrer. Não quando finalmente havia encontrado minha equipe. Minha família.
    Eu precisava voltar para casa. Precisava voltar para Bucky. Precisava voltar para Yelena.
    Mas enquanto isso ainda não era possível (e eu tentava nem pensar na ideia de isso não ser possível nunca), eu tentava me adaptar a ideia de ficar por aqui junto ao Quarteto Fantástico.
    Eu ainda não tinha entendido a estratégia deles. Pois eles não tiraram meu compartimento de água reserva, nem me inspecionaram antes de me empurrarem para dentro de um banheiro onde, pasme, havia muito mais água. Eu poderia usar e abusar do meu poder contra eles para tentar sair dali.
    Mas... Era como o Homem de Pedra havia dito. Eu não era prisioneira. E eles não estavam me tratando como uma.
    Por isso era tão difícil de entender para que caminho eles estariam seguindo.
    Será que me atacariam assim que eu saísse do chuveiro? Ou me prenderiam em grossas correntes depois de me virarem do avesso para descobrir mais sobre mim e meu DNA?
    Não tinha como saber. E eu não tinha outra escolha a não ser dar um voto de confiança. Por menor que ele fosse.
    As minhas roupas táticas haviam sumido quando eu saí do banho quente e eu não soube dizer se havia ficado feliz em não vê-las mais ou preocupada por não saber o que haviam feito com ela. Será que Reed as inspecionaria como algo que carrega um vírus mortal?
    O banheiro ficava dentro de um quarto pequeno e branco demais, mas que seria o lugar onde eu dormiria por tempo indeterminado. Havia uma cama de solteiro encostada na parede. Uma estante ao lado da cabeceira, com um abajur e alguns livros. Um guarda-roupa do lado oposto da cama. E uma janela entreaberta com cortinas que balançavam como se estivessem dançando.
    Minhas roupas novas estavam colocadas perfeitamente em cima da cama. Acabei por me surpreender ao não encontrar nada muito espalhafatoso ou prata. Na verdade, pareciam simples e confortáveis. Uma calça clara, uma camiseta azul e sapatilhas da mesma cor da camiseta.
    As vesti sentindo o cheiro agradável do amaciante que exalava, num indicativo de que havia sido lavada a pouco tempo.
    Retornei ao banheiro onde havia um único e pequeno espelho, ainda embaçado pelo banho quente. Peguei a escova que havia em cima da pia e penteei os cabelos com calma, enxergando meu próprio reflexo.
    Olhei para meus próprios olhos como quem procura um sinal de sanidade. E havia. Bob costumava dizer que gostava de como os meus olhos pareciam sempre brilhantes e cheios de esperança mesmo nos momentos mais difíceis. E ainda estava ali. Suspirei aliviada.
    Trinquei o maxilar enquanto pensava nos meus companheiros de equipe. Será que estariam procurando por mim? Será que também haviam sido jogados em fendas temporais diferentes e estavam tentando voltar para casa? Será que haviam conseguido derrotar a bruxa? Ou será que só havia aceitado o fato de eu só não existir mais em seu mundo e estavam vivendo a vida normalmente?
    Senti os olhos arderem de novo. A ideia de pensar que eles não procuravam por mim ou até mesmo já haviam me esquecido era sufocante e parecia me matar aos poucos.
    Balancei a cabeça, como se isso pudesse fazer os pensamentos voarem para longe.
    Voltei ao quarto e me sentei na cama, gostando mais do que deveria de como o colchão era macio e confortável. E esperei alguém me chamar para começarmos o que quer que haviam planejado para mim nos próximos instantes
    Não demorou muito.
    Três batidas suaves ecoaram na porta.
    Meu corpo inteiro ficou em alerta no mesmo momento.
    As mãos suaram instantaneamente e eu precisei limpá-las na calça antes de responder.
    — Pode entrar – por sorte, consegui fazer com que minha voz saísse firme e confiante, embora tudo dentro de mim tremesse como se eu fosse uma garotinha indefesa.
    A porta se abriu devagar, como se quem estivesse do outro lado também não quisesse assustar ninguém.
    Era ela. A mulher loira. Sue.
    Ela entrou primeiro, de postura calma e com o olhar atento. Não havia pressa em seus movimentos, nem ameaça. Mas havia controle. Muito controle.
    Atrás dela, o homem de pedra ocupou quase todo o batente da porta, braços cruzados, expressão neutra. Vigilância pura.
    E, por último… ele.
    Johnny.
    Encostado no batente como se estivesse visitando alguém conhecido, e não observando uma possível ameaça interdimensional. O olhar dele passou por mim com curiosidade descarada antes de parar no meu rosto.
    — Vejo que sobreviveu ao banho — comentou com um sorriso tentando se disfarçar no rosto bonito.
    Revirei os olhos, mas não consegui evitar a resposta:
    — Milagrosamente.
    O canto da boca dele subiu ainda mais. Ignorei a sensação esquisita que se alojou na boca do meu estômago.
    Sue ignorou completamente a troca.
    — Como está se sentindo?
    A pergunta parecia simples. Mas não era.
    — Viva — respondi, depois de um segundo.
    Ben soltou um som baixo, quase um riso pelo nariz.
    — Já é um bom começo.
    Sue deu mais alguns passos para dentro do quarto.
    — Queremos conversar um pouco antes de irmos para o laboratório.
    Lá estava.
    Laboratório.
    Meu estômago revirou.
    — Conversar… ou interrogar? — Perguntei cruzando os braços lentamente, tentando parecer mais firme do que realmente estava.
    Johnny inclinou a cabeça, divertido.
    — Depende do quanto você responder.
    — Johnny — Sue advertiu, sem olhar para ele.
    Ele levantou as mãos em rendição, mas não parecia nem um pouco arrependido.
    Reed não estava ali. Notei isso assim que a porta se fechou e ninguém mais entrou no quarto.
    — Cadê o doutor? — Perguntei.
    — Preparando o laboratório — Sue respondeu com naturalidade.
    Respirei fundo, não gostando da resposta.
    — Ótimo. Então ele vai me dissecar só depois da entrevista — tentei maneirar no tom, mas eu estava na defensiva e não conseguia mudar isso.
    Ben descruzou os braços.
    — Ninguém vai te dissecar.
    — Você não pode garantir isso.
    Ele abriu a boca para responder, mas Sue foi mais rápida.
    — Eu posso.
    O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado.
    Ela sustentou meu olhar.
    E, pela primeira vez desde que cheguei ali, eu acreditei.
    Não completamente.
    Mas o suficiente.
    — Só precisamos entender com quem estamos lidando — ela continuou. — E como podemos ajudar você.
    Ajudar.
    A palavra bateu estranho.
    — Eu disse o que aconteceu — respondi, mais baixo dessa vez. — Estávamos rastreando a Madame Perron. A fenda abriu. Eu caí. Fim da história.
    Johnny descruzou o corpo da parede e deu dois passos para dentro.
    — Você fala como se fosse rotina.
    Dei de ombros.
    — Não exatamente rotina. Mas também não é a coisa mais estranha que já aconteceu comigo.
    — Eu acredito — ele murmurou, analisando meu rosto como se tentasse montar um quebra-cabeça.
    Desviei o olhar, me sentindo despida pelo olhar que ele me dava.
    — E agora? — Perguntei. — Qual é o plano de vocês?
    Sue trocou um olhar rápido com Ben antes de responder.
    — Vamos até o laboratório. Reed quer analisar a energia envolvida na sua chegada… e entender se existe risco de outra ruptura.
    — E eu entro onde nisso?
    — No centro — Ben respondeu direto. — Você é a variável.
    Suspirei, sentindo o peso daquilo.
    Johnny inclinou levemente o corpo na minha direção.
    — Ei… pelo lado positivo, você já chegou fazendo uma entrada memorável — tive vontade de socar o seu rosto para mandar embora o sorriso petulante e lindo que estampava o seu rosto.
    Olhei pra ele.
    — Eu quase te afoguei.
    — Quase — ele corrigiu, com um meio sorriso. — Já tive dias piores.
    O silêncio voltou, mas dessa vez menos sufocante.
    Menos hostil.
    Ainda assim… incerto.
    Sue se aproximou um pouco mais da porta.
    — Pronta?
    Não. Claro que não. Nem de longe. Mas fiquei de pé mesmo assim.
    — Vamos logo antes que eu mude de ideia.
    Johnny se afastou para dar passagem.
    — Agora sim isso parece uma ameaça.
    Passei por ele sem responder, mas senti o olhar dele me acompanhando. Atento. Curioso. Interessado demais. Fingi que não percebi e continuei olhando para frente.
    Ben saiu primeiro pelo corredor, abrindo caminho.
    Sue veio ao meu lado.
    Johnny ficou logo atrás.
    Eu conhecia aquela formação, era posição estratégica. Já havia perdido as contas de quantas vezes Bucky, John e eu já havíamos formado em nossas missões.
    Enquanto caminhávamos, percebi o quanto aquele lugar era silencioso. Organizado. Controlado.
    Nada como a Torre.
    Nada como minha casa.
    Engoli seco.
    — Ei — a voz de Johnny veio mais baixa dessa vez, só para mim. — Se a gente quisesse te prender, já teria feito isso.
    — Eu sei — respondi sem olhar para ele.
    — Então relaxa um pouco.
    Soltei um suspiro curto.
    — Eu não sei fazer isso.
    Ele não respondeu de imediato.
    — Tudo bem — disse por fim. — A gente te ajuda.
    Levantei o olhar.
    À frente, as portas do elevador se abriram com um som suave.
    Ao fundo, o espelho refletiu a gente como um espelho estranho.
    Três deles.
    E eu. Deslocada. Fora de lugar. Talvez no começo de alguma coisa. Ou no meio de um erro muito bem arquitetado.
    Entrei no elevador sem dizer mais nada.
    E, quando as portas começaram a se fechar, uma única certeza se formou, silenciosa e inquietante: eu não fazia ideia do que me esperava naquele laboratório.
    E acho que eles também não.
    O tempo do elevador foi curto e extremamente silencioso, embora eu sentisse Johnny borbulhar um pouco mais atrás de mim, como se tivesse muita curiosidade em questionar o que quer lhe causasse curiosidade sobre mim.
    E então, logo estávamos dentro do laboratório com um Reed Richards que andava de um lado para o outro enquanto escrevia equações em seu quadro de giz. Arqueei uma das sobrancelhas, sem esperar por aquilo.
    — Surpresa? — Perguntou Johnny que não havia deixado de me olhar em nenhum momento, avaliando minhas reações.
    — Eu esperava que o laboratório fosse diferente — admiti, surpresa por toda aquela tecnologia que era tão diferente do meu mundo.
    — Como são os laboratórios do seu mundo, ? — Foi Reed quem perguntou dessa vez. Observei suas costas enquanto pensava em como responder aquilo.
    — Bem, com mais telas de computador e muito mais claras.
    Reed parou de escrever por um instante.
    Virou-se lentamente na minha direção, o giz ainda entre os dedos, como se minha resposta tivesse aberto uma nova linha de pensamento.
    — Interessante… — Murmurou, mais para si mesmo do que para mim. — Mais telas, mais luz… mais dependência digital, suponho.
    Dei de ombros.
    — É mais imediato, na verdade. Informação em tempo real. Comunicação constante.
    — Hm. — Ele assentiu, já voltando ao quadro. — Aqui ainda preferimos entender antes de acelerar.
    Johnny soltou um riso baixo atrás de mim.
    — Tradução: ele gosta de complicar tudo primeiro.
    — Tradução imprecisa — Reed respondeu sem nem se virar. Pude ver Sue abrir um sorriso orgulhoso.
    Semicerrei os olhos enquanto me questionava se os dois se envolviam de alguma maneira.
    Ben se encostou em uma das bancadas, cruzando os braços.
    — Então, muito assustador o nosso laboratório? — Questionou com curiosidade.
    Olhei ao redor outra vez.
    Não. Não se parecia nenhum pouco com os laboratórios da Hydra ou qualquer outro que já havíamos invadido para destruir em missões.
    — Já vi piores — admiti, encolhendo os ombros com as lembranças do meu mundo.
    Johnny se aproximou um pouco mais, parando ao meu lado dessa vez.
    — Isso vindo de alguém que quase criou uma tempestade no céu… eu fico até curioso pra saber o que você considera ruim.
    Lancei um olhar rápido pra ele.
    — Você não ficaria.
    Ele sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário.
    Depois sorriu de canto.
    — Agora eu definitivamente fiquei.
    Revirei os olhos, mas senti minha atenção fugir por um instante.
    Reed bateu o giz contra o quadro, chamando o foco de volta.
    — Vamos começar com algo simples — anunciou caminhando até uma das mesas do local, pegando um pequeno dispositivo metálico, discreto, mas claramente avançado.
    Prendi a respiração quase que instantaneamente.
    — Não vou encostar em você sem avisar — disse, direto.
    Ponto para ele.
    Assenti, ainda tensa.
    — Agradeço.
    Sue se posicionou um pouco mais próxima, não invadindo meu espaço, mas presente o suficiente para intervir se fosse necessário.
    — ela chamou com suavidade. — Você mencionou que seu poder pode reagir de forma involuntária. Se colocarmos você em observação de perigo, acha que aconteceria?
    Concordei com um movimento contido de cabeça.
    — Entendido.
    Reed se aproximou um passo.
    — Vou apenas medir a atividade energética ao seu redor. Sem contato direto.
    Ele ativou o dispositivo estranho que segurava. Peguei-me prendendo a respiração quando vi seu polegar apertar o botão de ligar.
    Um leve zumbido preencheu o ar, me deixando ainda mais tensa.
    Instantaneamente, senti.
    Não dor.
    Mas… resposta.
    Como se algo em mim acordasse.
    A umidade do ambiente pareceu mudar sutilmente, mas ainda assim era possível sentir.
    Minha respiração vacilou.
    — Eu não estou fazendo isso — avisei, colocando meus sentidos em alerta para qualquer situação que viesse a sair do controle.
    — Eu sei — Reed respondeu, os olhos atentos aos dados que começavam a aparecer na tela do computador. — É reativo. Extremamente integrado ao seu sistema nervoso.
    A água no ar começou a se formar em partículas quase invisíveis.
    Johnny percebeu primeiro.
    — Lá vamos nós de novo…
    Sue ergueu a mão, pronta para agir, mas não ativou nada.
    Ela estava esperando.
    Confiando. Em mim.
    Engoli seco mais uma vez.
    — Eu consigo segurar — disse segura de mim mesma e concentrei toda a minha atenção na água ao meu redor.
    Puxei uma quantidade considerável de ar para dentro dos meus pulmões e, por alguns segundos, nada pareceu acontecer.
    Até que as partículas de água começaram a tremer e então se dissiparam. Fazendo o ar voltar ao normal.
    O silêncio que veio depois disso foi um tanto quanto diferente. Não era tensão. Era avaliação.
    Reed desligou o aparelho lentamente, ainda olhando para o ar ao nosso redor, como se procurasse algum resquício das gotículas de água.
    — Fascinante — disse com os olhos brilhando em surpresa.
    — Eu não sou um experimento — respondi na hora, mais ríspida do que pretendia.
    Ele me olhou por cima dos óculos.
    — Não, não é. Você é uma variável desconhecida com potencial significativo.
    Pausei, estranhando como aquela frase havia soado em meus ouvidos.
    — Isso não ajudou — respondi, séria.
    Johnny riu pelo nariz.
    — Pra ele, isso foi um elogio.
    Ben concordou com um aceno.
    — Um grande elogio.
    Sue cruzou os braços, pensativa.
    — E, também, uma responsabilidade.
    Respirei fundo.
    — E então… qual é o veredito?
    Reed apoiou o dispositivo na bancada e voltou sua atenção para mim.
    — Ainda não temos um — respondeu com uma despreocupação que quase me irritou.
    Johnny deu um passo à frente, encostando de leve na bancada ao meu lado e se aproximando com o tronco inclinado para frente.
    — Mas sabemos uma coisa — falou sorrindo. — Você não está tentando destruir a cidade.
    Assenti e quase revirei os olhos, pois pensei que isso já era algo óbvio a essa altura do campeonato.
    Ele sorriu pela minha reação, como se estivesse se divertindo com tudo aquilo.
    — E você não parece querer fugir — concluiu.
    Olhei ao redor, avaliando todas as saídas, distâncias e possibilidades. Depois voltei a olhar para ele.
    — Eu não disse isso — falei, tentando conter um sorriso convencido.
    O sorriso dele cresceu um pouco.
    Sue trocou um olhar rápido com Reed.
    Uma decisão silenciosa passando entre eles. Como Bucky e eu sempre fazíamos. Fiquei tensa no mesmo instante.
    — Vamos fazer assim — ela disse. — Você fica aqui conosco, sob observação, até entendermos melhor o que aconteceu.
    — Observação… — repeti esperando que eles continuassem a sentença com todas as condições.
    Ben levantou um ombro.
    — Sem correntes.
    Johnny completou:
    — Sem interrogatório estilo filme ruim.
    Inclinei a cabeça.
    — E qual é a pegadinha?
    Sue respondeu, firme:
    — Confiança mútua.
    Engoli o seco, sentindo todas as possíveis respostas ácidas e engraçadinhas que eu poderia dar para ela sumindo da minha cabeça. Eu não estava esperando por isso.
    Reed voltou ao quadro, já escrevendo novamente como se o mundo inteiro tivesse virado uma equação.
    — Temos muito trabalho pela frente — falou para ninguém específico, mas todos os seus companheiros de equipe soltaram suspiros pesados e cansados.
    — Então quer dizer que não sou a primeira ameaça de outro mundo por aqui — falei, tentando tatear pelo novo território em que eu estava pisando.
    Ben soltou uma risada sem humor.
    — Quem nos dera — admitiu.
    — Mas é a mais bonita até agora — Johnny foi rápido em responder e eu ruborizei no mesmo instante.
    — Johnny! — Sue o repreendeu sem demora, mas o sorriso petulante parecia não querer deixar o seu rosto.
    Revirei os olhos, ainda sentindo o calor subir pelo meu rosto.
    — Você fala isso pra todas as ameaças interdimensionais?
    Johnny não perdeu um segundo.
    — Só para as que quase me afogam e que ficam melhores ainda depois de um banho – lançou-me uma piscadela.
    — Johnny — Sue repetiu, agora com um suspiro mais cansado do que irritado.
    Ben bufou, cruzando os braços.
    — Ele vai continuar falando até alguém jogar ele pela janela.
    — Já tentaram — Johnny respondeu com naturalidade. — Não funciona.
    Balancei a cabeça, um pouco incrédula.
    — Isso aqui é sempre assim?
    — Pior — Ben respondeu.
    — Muito pior — Sue completou.
    Por algum motivo… aquilo me fez relaxar um pouco.
    Afinal, aquele caos não era muito diferente do que eu já vivia junto com a minha própria equipe diariamente.
    — Então… “observação” — voltei ao assunto, tentando manter o foco. — O que exatamente isso significa?
    Reed respondeu sem se virar.
    — Significa que você permanece no edifício, sob supervisão, enquanto analisamos a natureza da ruptura dimensional que a trouxe até aqui.
    — Tradução — Johnny murmurou ao meu lado, quase encostando nossos ombros — você fica com a gente.
    Olhei de lado pra ele.
    — Isso deveria ser reconfortante? – Arqueei uma das sobrancelhas e ele sorriu ainda mais.
    — Depende — ele deu de ombros. — Você gosta de companhia interessante?
    Ignorei a pergunta.
    — E se eu quiser ir embora? – Perguntei tentando manter a postura séria.
    O giz parou de riscar o quadro.
    Reed virou o rosto só o suficiente para me encarar por cima do ombro.
    — Você não conhece este mundo.
    A resposta veio simples.
    Direta.
    Sem ameaça.
    Soltei um suspiro, me sentindo contrariada.
    Sue deu um passo à frente.
    — Ninguém está te prendendo, . Mas lá fora… você seria um alvo. Para o governo, para a imprensa… talvez para coisas piores.
    Meu estômago apertou.
    Eu conhecia bem esse tipo de “coisas piores”.
    — Já passei por isso antes — murmurei olhando para meus próprios pés e estranhando as sapatilhas.
    Johnny me olhou de lado, o tom dele mudando só um pouco.
    — Então você sabe que ficar aqui é a melhor opção.
    Suspirei.
    Olhando ao redor outra vez.
    Laboratório. Equipe. Estranhos.
    Mas não hostis.
    — Certo — cedi, por fim. — Eu fico.
    Ben assentiu, como se aquilo resolvesse metade dos problemas do mundo.
    — Boa escolha.
    — A melhor que você tinha — Johnny completou.
    Olhei pra ele.
    — Você adora comentar tudo, né?
    — Eu tenho opiniões valiosas.
    — Você tem opiniões.
    Ele sorriu.
    E, dessa vez… eu quase sorri de volta.
    Sue cruzou os braços, observando a troca com um olhar que misturava curiosidade e uma leve desconfiança.
    — Vou providenciar um quarto mais adequado — disse ela. — E roupas, caso precise de mais.
    Reed voltou ao quadro como se o resto de nós tivesse deixado de existir.
    — Precisamos mapear a frequência da ruptura, entender o gatilho, identificar padrões… — ele murmurava, já perdido em sua própria mente.
    Ben olhou pra mim ao ver a careta que eu fazia, tentando entender o que o doutor falava.
    — Pode ir se acostumando. Quando ele começa assim, só para quando alguém obriga – gesticulou com a mão de pedra.
    — Ou quando explode alguma coisa — Johnny acrescentou. — Principalmente quando explode alguma coisa.
    Dei uma pequena risada pelo nariz.
    E foi estranho.
    Porque não doeu.
    Apoiei as mãos na bancada, sentindo a superfície fria sob os dedos.
    A água não reagiu. Não dessa vez. Eu não estava me sentindo ameaçada para que meu instinto usasse a água contra todo mundo.
    Respirei fundo, me acostumando com a sensação.
    Eu ainda estava longe de casa. E ainda não sabia como voltar. Ainda não confiava totalmente neles.
    Mas, pela primeira vez desde que caí naquele céu errado…
    Eu não estava me preparando para fugir.
    E isso era o que mais me aterrorizava naquele momento.

    Quinto

    “Meu corpo estava completamente submerso em uma água turva e lamacenta, embora eu soubesse que eu não estava em uma floresta ou pântano. Meus olhos estavam vendados e assim como minha boca e ouvidos. As mãos amarradas para trás e meus pés que tocavam o fundo da lama pegajosa e fria.
    Eu não sabia dizer há quanto tempo eu estava ali. Mas era o suficiente para a água entrar pelas minhas narinas e sair pelo mesmo lugar.
    Era uma linha tênue entre sorte e azar. A sorte por não me afogar. O azar por não me afogar e continuar ali por todo o tempo que fosse necessário.
    — Vamos treinar o seu corpo para aguentar as mais variadas mudanças climáticas — foi o que um dos médicos disse a primeira vez quando me agarrou pelos cabelos e afundou a minha cabeça.
    No começo a água era limpa e minha cabeça ficava livre para observar e eu me debater tentando sair. Talvez tenha sido por isso que as amarras e demais mordaças vieram.
    Eu ainda não sabia qual era o plano. Aonde eles queriam que eu fosse ou fizesse. Que tipo de informação colheria ou o porquê eu era tão importante para a Hydra.
    Mas eu era treinada diariamente para quando esse dia chegasse.
    Senti meu estômago roncar e não consegui me lembrar quando foi a última vez que eu havia comido alguma coisa.
    Alguma coisa doeu na minha cabeça e logo senti os fios, que começavam a crescer, serem puxados com força para cima, num movimento muito mais bruto e doloroso do que eu estava acostumada.
    Tentei gritar, mas com a boca lacrada isso ficava ainda mais difícil.
    Meu corpo foi içado para fora, como se eu fosse uma âncora e bateu no chão, como se meu corpo fosse feito de metal. Senti as costelas doerem e minha cabeça revirou de uma dor lacerante.
    Tentei desfazer o nó da corda que prendia as minhas mãos, mas sem sucesso.
    E então o pânico tomou conta de mim. Sem ter os sentidos para conseguir compreender o que estava acontecendo e me defender.
    Senti meu corpo ser levantado outra vez e todo o controle que eu tinha da minha respiração embaixo da água foi embora, e o ar pareceu sumir dos meus pulmões. Debati-me no que estava me segurando, sem saber se era para me desvencilhar ou pela sensação de não conseguir respirar.
    E então fui ao chão outra vez. E os próximos segundos que se passaram foram igualmente dilacerantes. Nada pareceu acontecer.
    Até que eu pulei de susto ao sentir alguém encostar nas minhas mãos e cortar as cordas.
    Sem demora, puxei a venda e o que prendia os meus outros sentidos. A luz forte da sala invadiu meus olhos, me dando a sensação de que queimava a minha retina e minha respiração descompassada e a dor no corpo me fizeram precisar de um tempo maior para conseguir me situar com o que estava acontecendo.
    — Muito bem, — ouvi a voz de um dos médicos que me acompanhava. — Seu poder tem feito coisas extraordinárias mesmo sem o seu controle total.
    Pisquei com dificuldade e senti o corpo todo tremer ao entender o que estava acontecendo.
    Tudo estava molhado e parcialmente destruído. Como se um furacão tivesse atravessado a sala.
    Eu havia feito aquilo. Meu poder havia feito aquilo para me defender.
    Trinquei o maxilar e apertei as mãos em punho, ainda tentando controlar a respiração.
    E então meus olhos seguiram até a figura alta e sombria que me observava próximo a porta: o Soldado Invernal esperava o próximo comando.
    — Podem levá-la de volta — disse o médico e então fui içada novamente, sendo carregada por dois agentes que me arrastaram pelos corredores.
    Meu rosto continuou fixo nele, no Soldado, que não desviou o seu olhar do meu em nenhum momento, até sumir da vista”.

    Senti minha visão ficar embaçada conforme as lembranças de um tempo que eu queria esquecer inundavam a minha mente.
    Duas lágrimas grossas e pesadas escorreram pelas minhas bochechas antes mesmo que eu conseguisse evitá-las. Meu peito doeu e, ao fechar os olhos, foi como reviver toda aquela lembrança outra vez.
    Funguei e esfreguei os olhos, tentando controlar as emoções.
    Eu não podia sucumbir agora.
    Se nem o tempo na Hydra foi o suficiente para me fazer perder a cabeça, agora mais do que nunca eu precisava me manter firme se quisesse voltar para casa. Eu só não queria que a saudade doesse tanto.
    Passei os olhos pelo meu novo quarto, observando os detalhes minimalistas que enfeitavam tudo. E senti falta do meu diário, que havia ficado aberto em minha escrivaninha antes de toda essa missão para encontrar Madame Perron começar.
    Suspirei e me afundei no colchão, que era mais macio do que eu gostaria de admitir. O céu escuro lá fora indicava que eu já havia passado o dia naquele mundo tão estranho.
    Sue havia me colocado em outro quarto, maior e mais confortável, em um andar mais alto. Fingi não perceber as figuras de homens altos e disfarçados guardando os cantos, prontos para intervirem a qualquer movimento diferente meu.
    Mas eu também não podia julgá-los. Afinal, se qualquer um deles tivesse caído do céu no meu mundo, provavelmente a recepção teria sido muito pior do que foi a minha. John não hesitaria em sua hostilidade e o governo também entraria em contato.
    Por sorte, naquele mundo o Quarteto Fantástico parecia ter voz ativa e, até então, nenhum agende governamental havia vindo me buscar para me manter como prisioneira e aplicar testes em mim.
    Suspirei outra vez e virei a cabeça, apoiando no travesseiro e me permitindo descansar, pelo menos um pouco. Os ombros, já tensionados, me causavam dor e o restante do meu corpo também estava dolorido.
    Tentei afastar os pensamentos de lembranças ruins e a angústia de não saber como os meus amigos estavam. Respirei fundo três vezes e imaginei uma imensidão azul do mar, que era o que costumava ajudar os momentos em que eu precisava me acalmar.
    Senti as pálpebras pesarem e a cabeça revirar entre minhas próprias criações, num indício de que o sono batia a porta e que eu já estava pronta para me entregar a ele.
    Porém, quando estava prestes a adormecer, uma batida me fez sentar ereta na cama enquanto eu me situava.
    Outra batida.
    Identifiquei estar vindo da porta.
    Pisquei algumas vezes, ainda meio zonza por conta do sono repentino e me levantei, indo receber quem quer que estivesse ali.
    — Boa noite — não me surpreendi ao encontrar Johnny encostado no batente e com um grande sorriso no rosto. — Está com fome?
    Demorei alguns segundos para responder.
    Por um segundo, achei que ele estivesse ali para me levar até algum laboratório.
    Ou para me fazer mais perguntas.
    Ou para me dizer que haviam mudado de ideia sobre confiar em mim.
    Mas então percebi a caixa de pizza em uma das mãos.
    — Estou um pouco, na verdade — admiti por fim, sentindo o estômago roncar.
    — Ótimo. Porque eu pedi uma pizza grande demais e Sue diz que isso é um problema recorrente na minha vida.
    Olhei para ele por alguns segundos e arqueei a sobrancelha lentamente.
    — Só esse?
    — Tem outros, mas prefiro revelar meus defeitos aos poucos — piscou de maneira galanteadora e eu revirei os olhos.
    — Muito gentil da sua parte.
    — Eu sou um cavalheiro — forjou uma reverencia desengonçada.
    — Você literalmente entrou em combustão quando nos conhecemos.
    — Continuo sendo um cavalheiro.
    Por algum motivo, aquilo arrancou um sorriso de mim. Pequeno. Mas verdadeiro.
    Johnny pareceu perceber. E pareceu satisfeito com isso.
    Fingi não sentir as minhas bochechas aquecerem instantaneamente.
    — Então? — perguntou, apontando para o corredor. — Pizza?
    Encarei-o outra vez, sentindo todas as inseguranças de tudo o que acontecia ameaçarem caírem sob meus ombros. Mas então balancei a cabeça, numa tentativa de espantá-las e decidi que não hesitaria mais.
    — Pizza – respondi num meio sorriso e Johnny suspirou, satisfeito com a minha resposta.
    Saí do quarto e fechei a porta atrás de mim.
    Dois dos homens que faziam guarda no corredor acompanharam meu movimento com os olhos.
    Aquilo não passou despercebido.
    Nem para mim.
    Nem para Johnny.
    — Eles fazem isso com todo mundo? — perguntei em voz baixa, tentando não manter contato visual.
    — Não — Johnny deu de ombros, sem parecer muito preocupado.
    — Que ótimo — resmunguei.
    — Se serve de consolo, Reed provavelmente está sendo observado por alguém neste exato momento para garantir que ele lembre de dormir – ele gesticulou com a mão que tinha livre.
    Soltei uma risada pelo nariz.
    — E funciona?
    — Nunca funcionou — disse me olhando e abrindo um sorriso logo em seguida.
    E então começamos a caminhar pelos corredores do Edifício Baxter.
    Eu tentava não demonstrar curiosidade, mas era impossível, já que tudo parecia saído de um daqueles filmes futuristas antigos com painéis luminosos, portas automáticas e equipamentos estranhos espalhados pelos corredores.
    Era como olhar para uma versão alternativa da tecnologia que eu conhecia.
    Menos compacta e mais extravagante.
    — Você está encarando tudo — observou Johnny.
    — Estou tentando entender como vocês conseguem construir um carro voador sem inventar celulares.
    — Um o quê? — Sua surpresa genuína na pergunta me fez perceber que ele não sabia o que era um celular.
    — Nada — respondi balançando a cabeça e tentando encerrar o assunto.
    — Não, agora eu quero saber.
    — Vai por mim. Você não quer entrar nessa conversa.
    — mudou o tom de voz para tentar me convencer.
    — Johnny — utilizei o mesmo tom, pois não queria ceder.
    .
    — Johnny.
    — Eu consigo fazer isso a noite toda — falou convencido.
    — Isso não me surpreende nem um pouco, sabia?
    Ele abriu um sorriso vitorioso.
    E eu odiei perceber que aquele sorriso era bonito.
    Caminhamos mais alguns minutos até chegarmos a uma ampla sala iluminada.
    E foi ali que precisei parar por um segundo.
    Porque aquilo não parecia um quartel-general.
    Não parecia uma base secreta.
    Não parecia um centro de operações.
    Parecia... Uma casa.
    Uma sala de estar enorme ocupava boa parte do ambiente. Havia sofás confortáveis, estantes cheias de livros, revistas espalhadas sobre uma mesa de centro e uma televisão ligada em volume baixo.
    Ben ocupava sozinho uma poltrona que parecia pequena demais para ele.
    Sue estava sentada em um sofá folheando uma revista.
    E, talvez o que mais me surpreendeu, foi ver que Reed Richards estava jogando cartas.
    Pisquei.
    Depois pisquei de novo.
    — Você está olhando para ele como se tivesse encontrado um unicórnio — comentou Johnny.
    — Eu achei que ele estivesse trabalhando — comentei, baixando um tom.
    — Ele estava — respondeu Ben, ouvindo o que eu tinha dito.
    — Faz dez minutos — completou Sue sem levantar os olhos.
    — Onze — corrigiu Reed automaticamente.
    — E agora está jogando cartas? – Meu comentário saiu mais como uma pergunta e pude ouvir Johnny rir ao meu lado.
    — Ben insistiu – disse Reed, dando de ombros.
    — Porque você precisava sair do laboratório — respondeu o homem de pedra.
    — Tecnicamente eu não precisava.
    — Precisava sim – Ben continuou rebatendo.
    — Estatisticamente falando... – Reed ergueu o polegar para prosseguir sua divagação, mas foi interrompido pelo colega de equipe.
    — Cabeça de elástico, eu vou jogar você pela janela.
    Reed suspirou.
    — Está vendo? Hostilidade gratuita.
    A troca arrancou uma risada involuntária de mim.
    Era tudo tão... estranhamente normal. Como se aquelas pessoas realmente gostassem umas das outras.
    Johnny se aproximou da mesa e abriu a caixa de pizza.
    O cheiro imediatamente tomou conta da sala.
    — Finalmente — Ben largou as cartas. — Achei que você tivesse se perdido.
    — Eu fui buscar nossa convidada — Johnny apontou para mim com o queixo.
    Os olhos de todos recaíram sobre mim por um instante.
    Nenhum deles parecia desconfiado ou até mesmo hostil.
    E isso me deixou mais nervosa do que deveria.
    — Pode sentar, — disse Sue gentilmente.
    Escolhi uma ponta do sofá.
    O mais distante possível de todo mundo.
    Naturalmente.
    Johnny sentou ao meu lado.
    Naturalmente.
    — Tem outros lugares livres — observei.
    — Tem — ele esticou as pernas e passou o braço por de trás do sofá, em minha direção.
    — Então? — Insisti.
    — Gosto desse — sorriu antes de enfiar um pedaço de pizza na boca e fingir costume.
    Suspirei.
    Sue fingiu não notar.
    Ben claramente notou.
    Reed continuou comendo pizza como se aquilo não estivesse acontecendo.
    Mas não tive tempo de me sentir constrangida, pois logo um som suave chamou minha atenção.
    Um pequeno resmungo.
    Franzi a testa e olhei ao redor, procurando de onde vinha aquele som.
    E só então percebi um pequeno embrulho de cobertores acomodado em um cesto ao lado do sofá.
    Algo se mexeu.
    Meu corpo inteiro congelou.
    — Espera... — soltei quase que inconscientemente enquanto tentava identificar o que era aquilo e o porquê de ninguém estar tão alarmado quanto eu.
    Sue abriu um sorriso.
    — Acho que alguém acordou — ela disse em um tom mais maternal que eu já havia ouvido antes.
    Um rostinho apareceu entre os cobertores, com bochechas redondas, cabelos claros e olhos sonolentos.
    Eu fiquei encarando por alguns segundos, tentando processar.
    Depois olhei para Sue.
    Depois para Reed.
    Depois para o bebê.
    E novamente para Reed.
    — Vocês têm um bebê? — Apontei para eles, sem conseguir disfarçar a surpresa.
    O silêncio durou exatamente dois segundos.
    Antes de Johnny começar a rir como se tivesse ouvido a melhor piada da sua vida.
    — Essa é oficialmente a melhor reação da semana.
    — O que foi? — perguntei, olhando de Sue para Reed. — Eu não sabia que super-heróis tinham bebês.
    — Temos muitas habilidades — Ben respondeu enquanto pegava outro pedaço de pizza. — Reprodução também é uma delas.
    — Ben! — Sue repreendeu.
    — O quê? Eu só falei a verdade.
    Franklin, completamente alheio à conversa, decidiu bocejar.
    E meu coração apertou de um jeito estranho.
    Ele parecia tão pequeno. Tão normal. Tão distante de tudo aquilo que eu associava ao conceito de "vida de herói". E eu quase senti os olhos marejarem numa emoção que me invadiu sem controle. Mas engoli o seco antes que qualquer lágrima escorresse.
    — E vocês simplesmente... levam ele para todos os lugares? — Questionei com muita curiosidade.
    — Não todos — Sue respondeu. — Mas muitos.
    — Isso não é perigoso?
    — O mundo é perigoso. — respondeu Reed apoiando o cotovelo no braço do sofá.
    A resposta me pegou desprevenida.
    — Ainda assim — continuei — vocês poderiam deixá-lo longe disso.
    — Poderíamos — concordou Sue.
    — Mas não queremos — concluiu Reed, pegando o bebê do colo da Sue.
    Pisquei.
    Sue olhou para o filho e ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
    — Franklin faz parte da nossa família. E nossa família faz parte do que somos.
    — Além disso — acrescentou Johnny — ele já tem mais personalidade que metade dos políticos de Washington.
    — Johnny — Reed suspirou.
    — Estou mentindo?
    — Infelizmente não.
    Ben soltou uma gargalhada.
    E eu percebi que estava sorrindo também.
    Aquilo estava ficando perigoso, porque eu estava começando a me sentir mais confortável do que devia.
    Johnny então estendeu a caixa de pizza na minha direção.
    — Vai ficar olhando ou pretende comer?
    Observei os sabores, calabresa e muçarela, completamente normal e dentro do esperado. Mas algo acendeu um alerta dentro de mim antes que eu pudesse decidir qual eu escolheria.
    — Estou analisando.
    — É só pizza, .
    — Em outro universo — expus meu ponto e minha insegurança.
    — Continua sendo pizza.
    — Você não sabe disso — disse apontando o dedo para ele que balançou os ombros e deu outra mordida no seu pedaço.
    — Tenho quase certeza — falou de boca cheia. — Não foi a pizza que nos deu poderes, se quer saber.
    — Eu não tenho como ter certeza – murmurei e foi a vez dele rolar os olhos.
    ... — voltou com o mesmo tom que usamos antes.
    — Johnny...
    — Você é impossível — disse ele, no meio de um suspiro, mas sem nenhum indício de que estava se sentindo incomodado.
    — Costumam me dizer isso — dei de ombros e escolhi o pedaço de calabresa.
    — Estou começando a entender — disse me encarando.
    Mordi a pizza para esconder o sorriso.
    Ele percebeu mesmo assim. Mas eu fingi não ver.
    A conversa então acabou migrando para assuntos mais leves.
    Pela primeira vez desde que cheguei àquele universo, ninguém estava me interrogando.
    Ninguém estava tentando descobrir de onde eu vinha ou tentando analisar o meu DNA.
    Estávamos apenas conversando.
    Como pessoas normais.
    Ou tão normais quanto um homem de pedra, um cientista elástico, uma mulher invisível e um homem que pegava fogo poderiam ser.
    — Então no seu mundo existem heróis? — perguntou Sue.
    — Muitos.
    — Mais do que aqui? — ela inclinou o corpo para frente, interessada na minha resposta.
    — Bom, eu só conheci vocês, então posso dizer que temos mais sim.
    — E todos trabalham juntos? — Questionou Reed ainda com Franklin no colo.
    Eu soltei uma risada verdadeira, me lembrando de todo o caos heroico do meu próprio mundo.
    — Definitivamente não.
    — Finalmente algo parecido conosco — comentou Johnny.
    — Vocês brigam? — Olhei para todos que assentiram no mesmo instante.
    — Constantemente — disse Ben.
    — Vocês parecem se dar bem.
    — Porque você chegou depois da última discussão — falou o homem de pedra.
    — Qual foi o motivo? — perguntei.
    Ben apontou para Reed.
    — Cabeça de elástico queria transformar uma das salas em laboratório.
    — Ele queria transformar a mesma sala em mesa de sinuca – Respondeu Reed apontando para Ben.
    — E quem ganhou? — quis saber.
    — Sue — responderam os três ao mesmo tempo.
    Eu ri tão alto que quase engasguei.
    Sue apenas abriu um sorriso satisfeito.
    — Como deve ser.
    Franklin começou a resmungar novamente.
    Reed o entregou para Sue, que o pegou no colo e o deitou para lhe dar de mamar.
    E eu acompanhei o movimento sem pensar.
    Talvez porque nunca tivesse visto algo assim tão de perto.
    Talvez porque aquela cena fosse absurdamente distante da vida que eu conhecia.
    O bebê agarrou o dedo da mãe, como se fosse a coisa mais importante do mundo.
    Sue sorriu imediatamente.
    E algo dentro do meu peito doeu. Uma dor diferente da que eu estava acostumada, era mais suave, mais silenciosa.
    Aquilo era saudade.
    Não das missões. Nem das batalhas.
    Mas da família que eu havia deixado para trás.
    Bucky. Yelena. John. Ava. Bob. Alexei.
    Minha equipe.
    Talvez tenha sido por isso que fiquei olhando por tempo demais.
    Porque, quando percebi, Johnny estava me observando.
    Não com aquele sorriso convencido, nem com as piadas de sempre. Apenas observando.
    Como se tivesse entendido exatamente o que eu estava pensando.
    E, pela primeira vez desde que cheguei ali... Eu não desviei o olhar. Eu o sustentei, sentindo seus olhos azuis penetrarem a minha face enquanto eu deixava ele tentar ler o que estava acontecendo comigo.
    Foi só quando ele desviou o olhar do meu, que eu voltei a prestar atenção no meu pedaço de pizza comido pela metade.
    A conversa continuou fluindo entre piadas, histórias e pequenas discussões familiares que pareciam acontecer naturalmente entre eles.
    Eu observava mais do que participava. O que era estranho pra mim, afinal, no meu mundo, John costumava reclamar que eu não fechava a boca, embora eu soubesse que ele gostava de conversar comigo.
    Franklin já havia voltado a dormir no colo de Sue.
    Ben discutia alguma coisa sem importância com Reed.
    E eu aproveitava o momento de distração geral para comer outra fatia de pizza.
    — Você faz isso bastante.
    A voz de Johnny me fez virar a cabeça.
    Ele estava me observando.
    — Faço o quê? – Limpei o canto da boca com o guardanapo e virei um pouco o tronco em sua direção para lhe dar mais atenção.
    — Fica olhando.
    — Estou conhecendo vocês.
    — Não — ele disse e apoiou um braço no encosto do sofá. — Você analisa as pessoas.
    — Isso é diferente — respondi, arqueando uma das sobrancelhas.
    — É exatamente o que eu disse.
    Suspirei.
    — E você chegou nessa conclusão em menos de um dia? — Fiz uma careta.
    — Não foi muito difícil.
    — E o que mais o grande detetive descobriu? — Questionei em tom de desafio e pude ver o sorriso dele diminuir um pouco.
    Mas não desapareceu. Permaneceu ali, no canto dos lábios, parecendo mais sincero e suave ao mesmo tempo.
    — Que você está cansada.
    Aquilo me pegou desprevenida.
    Olhei para frente.
    — Acabei de atravessar dimensões — respondi na defensiva.
    — Não é esse tipo de cansaço.
    Silêncio.
    Meu estômago pareceu afundar um pouco. Porque eu sabia exatamente do que ele estava falando. E odiava que ele tivesse percebido.
    — Você me conhece há algumas horas — resmunguei.
    — E você continua tentando parecer mais forte do que realmente está — ele me encarou de volta.
    — Eu sou forte.
    — Eu sei — ele respondeu de imediato, sem ironia, sem brincadeira e sem flerte.
    Aquilo me fez virar a cabeça novamente.
    Johnny sustentou meu olhar.
    — Não estou dizendo que não é — ele continuou falando e, por um instante, o restante da sala pareceu distante.
    Ben continuava falando.
    Sue ainda balançava Franklin.
    Reed fazia anotações em algum bloco.
    Mas tudo parecia mais baixo.
    Mais longe.
    — Então o que está dizendo?
    Ele demorou um segundo para responder.
    — Que pessoas fortes também podem estar assustadas — um lampejo de alguma coisa que eu não soube identificar passou pelos seus olhos enquanto ele ainda me encarava.
    Meu peito apertou de forma inesperada.
    Porque ninguém costumava dizer aquilo.
    Normalmente me pediam para ser forte. Para continuar. Para suportar.
    Mas raramente alguém reconhecia o custo disso.
    Desviei o olhar primeiro.
    — Eu não estou assustada — tentei manter a postura, mas meus ombros se encolheram quase que por conta própria.
    — Mentira.
    Soltei uma risada incrédula.
    — Nossa, você é insuportável — resmunguei, me sentindo irritada por ele estar tão certo.
    — Eu sei.
    — Arrogante — continuei.
    — Também.
    — E convencido.
    — Bastante.
    Finalmente olhei para ele outra vez.
    — Pelo menos você é honesto — desabafei e o sorriso dele voltou com força total.
    O sorriso voltou.
    — Eu tento.
    Por algum motivo, aquilo me fez sorrir também.
    A conversa da sala continuava acontecendo ao nosso redor.
    Mas agora eu já não prestava tanta atenção.
    Porque Johnny continuava ali.
    Perto demais, o suficiente para eu perceber o calor que parecia irradiar dele.
    Talvez fosse psicológico.
    Talvez não.
    — Então... — ele falou após alguns segundos. — Esse tal Bucky...
    Fechei os olhos imediatamente, já sabendo o que vinha em seguida.
    — Não.
    — Nem comecei.
    — Já conheço essa expressão — abri um dos olhos e o vi me encarando exatamente como eu achei que ele estava.
    — Que expressão? — Ele forçou uma feição de inocência que não me convenceu nenhum pouco.
    — A expressão de quem está prestes a fazer uma pergunta inconveniente.
    — Isso é preconceito.
    — Johnny — elevei o tom outra vez.
    .
    — Johnny...
    — Tá bom — falou por fim, erguendo as mãos em rendição, mas com o sorriso irritante ainda lá. — Só queria saber se ele realmente é tão incrível quanto você faz parecer.
    Balancei a cabeça, incrédula.
    — Você está preocupado com a minha relação com uma pessoa que nem existe nesse universo?
    — Eu prefiro o termo competitividade saudável.
    Dessa vez eu ri de verdade.
    E o pior?
    Johnny pareceu ficar satisfeito por ter conseguido arrancar aquilo de mim.
    Como se aquela tivesse sido sua missão desde o início.
    E talvez tivesse.
    Porque quando nossos olhos se encontraram outra vez, o sorriso dele suavizou. Ficou menos brincalhão e mais atento, até mesmo perigoso.
    O tipo de olhar que fazia meu coração acelerar um pouco mais do que deveria.
    E isso era um problema. Um problema maior do que eu mesma gostaria de admitir.
    Porque eu estava presa em outro universo, longe da minha família e sem saber como voltar para casa.
    A última coisa de que eu precisava era começar a reparar no quanto os olhos de Johnny Storm brilhavam quando ele sorria.
    — Tá bom — suspirei, rendida ao perceber que ele ainda esperava uma resposta minha. — Você não vai desistir de perguntar sobre o Bucky, vai?
    O sorriso de Johnny surgiu imediatamente.
    — Nem um pouco.
    — Imaginei – disse cruzando os braços e me ajeitando melhor no sofá. — Bucky foi uma das primeiras pessoas que eu realmente confiei.
    A expressão dele suavizou um pouco.
    — Ele era da sua equipe? — Johnny também se ajeitou em seu lugar.
    — É.
    Por algum motivo, corrigi logo em seguida:
    — Quer dizer... espero que ainda seja.
    Uma pedra pareceu se formar no fundo da minha garganta e eu engoli minha saliva com muita dificuldade. Acho que aquela foi a primeira vez que eu falei sobre a possibilidade de nunca mais voltar.
    — O que aconteceu entre vocês? — perguntou ele, mais cuidadoso do que de costume.
    Desviei os olhos para a caixa de pizza.
    — Bucky me salvou — um sorriso amargo se formou em minha boca quando uma enxurrada de lembranças tomou conta da minha cabeça.
    Johnny permaneceu em silêncio, esperando.
    — De quê?
    Pensei por alguns segundos.
    — De um destino muito ruim.
    A resposta pareceu suficiente para que ele entendesse que não era um assunto que eu queria aprofundar.
    — Quando me encontrou, minha vida já não era exatamente minha — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. — E ele mudou isso.
    O silêncio se instalou. Não de uma maneira desconfortável, apenas respeitoso.
    — Então ele é importante — afirmou Johnny.
    Soltei uma risada fraca.
    — Bastante.
    — Entendi.
    — Entendeu mesmo? — Arqueei a sobrancelha em desconfiança.
    — Não.
    Aquilo me fez rir.
    — Pelo menos você é sincero — balancei a cabeça enquanto ele dava de ombros.
    — Sempre.
    — Mas ele não era só esse cara sério e heroico que você está imaginando — falei ainda sorrindo e pude ver Johnny se inclinar para frente, ainda mais curioso.
    — Não?
    — De jeito nenhum.
    — Finalmente uma falha de caráter — Johnny praticamente vibrou e eu ignorei o comentário antes de continuar.
    — Ele me ensinou a dirigir — não consegui desmanchar o sorriso que agora estava no canto da minha boca e que aumentou pelos olhos arregalados de Johnny ao meu lado.
    — Isso eu preciso ouvir.
    — Foi uma péssima ideia.
    — Continue.
    — Eu bati o carro.
    — Quantas vezes? — Sua postura de curiosidade genuína me causou um riso fraco.
    — Duas — fiz o número com as mãos de maneira instintiva e Johnny levou a mão ao peito, como se não acreditasse no que eu dizia.
    — Só duas? — Questionou em tom incrédulo.
    — Johnny!
    — Estou impressionado — forçou uma expressão e eu rolei os olhos.
    — Você é impossível.
    — Eu prefiro "encantador" — levantou e subiu as sobrancelhas mais de uma vez.
    — Ninguém te chama assim.
    — Você poderia começar, o que acha?
    Revirei os olhos outra vez. Mas o meu sorriso insistiu em permanecer.
    — O pior é que ele continuou tentando me ensinar — continuei a história, ignorando a sensação esquisita na boca do meu estômago.
    — Isso porque ele claramente não me conhece — Johnny estufou o peito.
    — E o que você faria?
    — Depois da segunda batida?
    Assenti.
    — Te entregava as chaves e desejava boa sorte para o restante da população.
    Acabei gargalhando. Daquelas gargalhadas sinceras que escapam antes que a gente consiga impedir.
    E Johnny me observou por um segundo a mais do que deveria.
    Johnny observou meu rosto por alguns instantes, como se estivesse organizando alguma coisa dentro da própria cabeça.
    — Ele parece um cara bom.
    Sorri, visualizando a carranca de Bucy como se ele estivesse bem a minha frente e meu peito apertou de saudade.
    — É — suspirei.
    — Ainda assim...
    — Ainda assim o quê? — Perguntei franzindo a teste com medo de onde essa conversa estava indo.
    Ele apoiou o cotovelo no encosto do sofá.
    — Acho que eu sou mais bonito.
    Eu gargalhei tão alto que Ben virou a cabeça na mesma hora.
    — Ah, pelo amor de Deus — reclamou o homem de pedra, passando a fazer parte do nosso assunto.
    — O que foi? — Johnny perguntou.
    — Você conseguiu ficar quase dois minutos sem flertar.
    — Foi meu recorde pessoal.
    Sue escondeu o rosto atrás da mão, mas pude ver o riso que escapou pelos dedos.
    Reed nem sequer levantou os olhos do um minuto e quarenta e oito segundos.
    — Obrigado, Reed — disse Johnny, convencido.
    — Não foi um elogio.
    Johnny ignorou completamente.
    E então voltou sua atenção para mim.
    — E então?
    — Então o quê? — Franzi o cenho, sem entender sobre o que ele falava.
    — Você não respondeu — ele pareceu ansioso e eu me senti ainda mais confusa.
    — Sobre o quê?
    — Sobre eu ser mais bonito.
    Levei alguns segundos para responder.
    Mais porque estava tentando controlar o sorriso do que qualquer outra coisa.
    — Seu ego realmente é desse tamanho? — Abri as mãos com exagero e ele riu pelo nariz.
    — Muito maior, querida.
    — Inacreditável — balancei a cabeça negativamente, embora ainda estivesse rindo.
    — Isso não é uma resposta, — resmungou.
    — E não vai ter uma, Johnny.
    — Covarde.
    Joguei uma almofada na direção dele, que ele pegou no ar sem dificuldade.
    O sorriso convencido continuava exatamente no mesmo lugar.
    E, pela primeira vez desde que havia acordado naquele universo estranho, distante e desconhecido... Eu ri sem culpa. Sem medo e sem pensar no amanhã.
    Apenas ri.
    Talvez porque estivesse cansada.
    Talvez porque estivesse com saudade de casa.
    Ou talvez porque, por alguns minutos, sentada naquele sofá cercada por pessoas que ainda eram praticamente estranhas, eu tivesse conseguido esquecer que estava perdida.
    Quando a noite avançou e a conversa começou a morrer aos poucos, Sue levou Franklin para o quarto. Ben reclamou que precisava dormir. Reed prometeu ir descansar e ninguém acreditou. E eu me levantei para voltar ao meu quarto.
    — Boa noite, .
    Olhei por cima do ombro, encontrando um Johnny ainda estava sentado no sofá.
    O seu sorriso havia diminuído, mas ainda continuava ali.
    — Boa noite, Tocha — respondi, me sentindo um pouco desconfortável pela forma como ele me olhava.
    — Tocha? — Levou a mão no peito, como se tivesse levado um tiro. — Essa doeu. Nenhum “encantador”, não?
    — Boa noite, Johnny – balancei a cabeça, divertida e dei de costas, seguindo pelo corredor.
    Mas, quando fechei a porta do quarto atrás de mim, percebi algo que não esperava.
    Pela primeira vez desde que atravessei aquele portal, a sensação sufocante de estar completamente sozinha parecia um pouco menor.
    E naquela noite, quando finalmente fechei os olhos para dormir, a saudade de casa ainda estava lá.
    Mas já não era a única coisa ocupando espaço dentro do meu coração.

    Sexto

    Acordar no dia seguinte foi mais difícil do que eu gostaria.
    Porque a cama estava confortável, o pijama era macio e acordar naquele mundo pareceu tão fácil que meu peito ardeu ao me lembrar de onde eu realmente estava.
    Não havia sido um sonho. Eu estava ali. Em um mundo que não era meu. Mas que seria minha casa por um tempo que eu não sabia contar. E era isso que me apavorava.
    O sol brilhava intensamente quando finalmente me levantei e eu julguei já ser metade da manhã. Soltei um suspiro cansado e pesado enquanto tentava imaginar o que é que os heróis daquele mundo estavam fazendo naquele momento.
    Troquei o pijama pelas roupas que Sue havia disponibilizado para mim e voltei a estranhar as sapatilhas, começando a sentir falta dos meus tênis que haviam ficado perto da minha cama, em meu quarto, na manhã anterior.
    Não me surpreendi ao encontrar os mesmos homens de guarda da noite anterior no exato mesmo lugar, nem quando um deles puxou um aparelho estranho do bolso e apertou um botão, que eu julguei ser um comunicador com a tecnologia deles. A essa hora, Reed provavelmente já sabia que eu estava acordada.
    ? — Bingo.
    Ao final do corredor, Ben surgiu com roupas de academia e um boné azulado.
    — Bom dia — cumprimentei com um meio sorriso que foi retribuído da mesma maneira.
    — Estou indo comprar pão pro café, quer vir comigo?
    — E o doutor Richards permite que eu saia do seu complexo? — Questionei ao meu aproximar do homem de pedra que soltou um riso pelo nariz.
    — Ele não precisa saber, não é mesmo?
    Abri um sorriso grande e assenti, ansiosa para ver um pouco melhor daquele mundo.
    — Reed vai me matar se você desaparecer — comentou Ben enquanto caminhávamos em direção ao elevador.
    — Então por que me convidou? — Arqueei uma das sobrancelhas e apertando o passo, tentando acompanhar o grande homem que caminhava rápido demais.
    — Porque você está com cara de quem precisa ver o mundo lá fora — deu de ombros e eu pisquei surpresa. — Por que está com essa cara? Achou que a gente ia te mandar prisioneira? Não somos sequestradores.
    Encolhi os ombros e sorri sem graça, pois era exatamente isso que eu pensava que aconteceria.
    — Não sou tão observador quanto o Cabeça de Lâmpada, mas consigo perceber quando alguém pensa tanto que seus pensamentos parecem sobrevoar a cabeça — disse me olhando.
    — Cabeça de Lâmpada? — Ignorei o restante de sua colocação ao não entender sobre quem ele falava.
    — Reed.
    — Achei que vocês fossem amigos — pontuei, ainda confusa.
    — E nós somos.
    — E você o chama de Cabeça de Lâmpada? — Foi a minha vez de virar a cabeça para olhá-lo e o encontrei sorrindo de canto.
    — Principalmente porque somos amigos.
    A porta do elevador se abriu.
    Entrei logo atrás dele, ainda assimilando o que ele havia me dito, mas um sorriso também havia começado a fazer parte do meu rosto.
    Aquilo era estranho. Muito estranho.
    Porque, pela primeira vez desde que cheguei ali, não parecia que eu estava sendo escoltada.
    Parecia apenas que eu estava saindo para caminhar.
    O saguão do Edifício Baxter já estava movimentado.
    Funcionários carregavam papéis, equipamentos e caixas de um lado para o outro.
    Alguns me reconheceram imediatamente.
    Os olhares vieram rápido demais, curiosos e discretos. Mas não hostis. O que já era uma novidade.
    — Eles sabem quem eu sou? — perguntei em voz baixa.
    — Não — Ben mantinha o queixo erguido e o olhar para frente, como se não estivesse vendo quem estava ao nosso redor.
    — Então por que estão olhando?
    — Porque você caiu do céu ontem — falou com obviedade e meu estômago afundou com a terrível lembrança.
    — Justo — resmunguei para mim mesma.
    — E porque a matéria do jornal ajudou — confessou e a dor na minha barriga só aumentou.
    Fiz uma careta.
    E Ben soltou uma risada.
    — A foto não estava tão ruim — disse ele, tentando me animar.
    — Mas também não estava boa — resmunguei ainda com o nariz torto e Ben riu ainda mais.
    — Eu só estou dizendo que parecia viva — gesticulou.
    Aquilo me pegou desprevenida.
    — Mas se isso te incomoda, podemos tentar uma coisa diferente — disse ele antes de eu poder organizar algum pensamento para respondê-lo.
    Parei no meio do corredor.
    — O quê?
    Ben não me respondeu, apenas abriu uma porta próxima e desapareceu por alguns segundos.
    Quando voltou, tinha algo nas mãos.
    Um boné azul-marinho e simples.
    — Pra você — me alcançou o acessório como se isso fosse salvar a minha vida.
    Arqueei uma sobrancelha.
    — Isso é o seu disfarce secreto? — Questionei sem acreditar.
    — Você apareceu no jornal ontem — relembrou.
    — Infelizmente — suspirei.
    — E ainda não decidimos o que vamos fazer a seu respeito — admitiu coçando a parte de trás da cabeça.
    — Que frase reconfortante.
    — Estou tentando ajudar.
    Segurei o boné com força entre os dedos e o observei por alguns segundos.
    — Tem certeza de que isso vai funcionar?
    Ben olhou para mim. Depois para si mesmo. Um homem de pedra com mais de dois metros de altura.
    — Honestamente?
    — Honestamente.
    — Não faço ideia — balançou os ombros e sua sinceridade arrancou uma risada de mim.
    Tudo bem, talvez funcionasse mesmo.
    Prendi os cabelos rapidamente e coloquei o boné.
    A aba fez sombra sobre meus olhos.
    — Melhor? — Perguntei com expectativa e ele assentiu.
    — Muito.
    — Está mentindo — semicerrei os olhos para ele, que pareceu ficar constrangido por um momento muito rápido.
    — Um pouco — admitiu.
    — Ben!
    — O quê? Você continua sendo a garota que caiu do céu — gesticulou outra vez e eu suspirei, sabendo que ele estava certo.
    — Tudo bem... Obrigada pela sinceridade.
    — Disponha.
    E então seguimos nosso caminho, lado a lado, passando pelas portas do Edifício Baxter como se aquilo fosse corriqueiro.
    Mas assim que a luz do lado de fora invadiu os meus olhos, eu precisei de alguns segundos para me adaptar com a ideia do mundo lá fora, porque Nova Iorque continuava sedo Nova Iorque.
    E ao mesmo tempo não era.
    Os prédios ainda cortavam o céu. As buzinas ainda se misturavam às vozes das pessoas. O cheiro de fumaça, café e asfalto aquecido pelo sol continuava existindo.
    Mas tudo parecia... mais simples, mais lento.
    Os carros tinham formatos arredondados e brilhantes, como se tivessem saído de um museu. Os homens caminhavam de terno e chapéu mesmo naquela temperatura agradável. Algumas mulheres usavam vestidos elegantes para tarefas tão comuns quanto carregar sacolas ou atravessar a rua.
    E o que mais me causou estranheza foi não ver ninguém olhando para uma tela, ou com fones de ouvido. Não havia nenhuma notificação tocando, nenhuma chamada de vídeo nem sequer um outdoor digital.
    Meu olhar passeou pelas vitrines das lojas, pelas placas pintadas à mão, pelos jornais empilhados em pequenas bancas nas esquinas.
    Tudo parecia retirado de um documentário histórico. Tudo parecia antigo e assustadoramente real ao mesmo tempo.
    — Você está olhando para tudo como se tivesse acabado de chegar em outro planeta — comentou Ben ao reparar na minha expressão e boca aberta.
    Mantive os olhos em uma lanchonete do outro lado da rua.
    — Talvez eu tenha chegado — murmurei, soltando todo o ar que eu prendia dentro dos meus pulmões, deixando minha frase ainda mais dramática, o que fez Ben soltar um riso curto.
    Voltamos a caminhar.
    Passei por uma banca de jornais e diminuí o passo sem perceber.
    Ali havia algo que eu já até mesmo havia perdido o costume de encontrar por aí. Manchetes impressas e fotografias em preto e branco.
    Até que algo prendeu a minha atenção mais do que o necessário.
    Ou melhor.
    Alguém.
    Eu.
    Parei tão abruptamente que Ben precisou frear os próprios passos.
    — O que foi? — Senti-o trombar o braço no meu.
    Apontei para a banca de jornais.
    — Não acredito nisso — falei, extremamente indignada.
    Ben acompanhou meu olhar, tentando entender sobre o que eu falava e, quando aconteceu, começou a rir.
    Bem no centro da pilha de jornais tinha uma foto do dia anterior.
    A minha fotografia e, para piorar tudo, em tamanho ainda maior.
    “A GAROTA DA ÁGUA: HEROÍNA OU AMEAÇA?", era a frase legendava a minha imagem que parecia ter sido tirada de um filme de horror.
    — Eles aumentaram! — exclamei horrorizada.
    Atravessei a curta distância até a banca e puxei um exemplar.
    — Não. Não, não, não — resmunguei, sentindo a indignação aumentar ainda mais.
    — Está tão ruim assim? — perguntou Ben, divertido.
    — Eu pareço um gambá atropelado! — Exclamei e virei o jornal para que ele pudesse ver melhor. — Olha isso!
    — Isso é extremamente específico — pude ver que ele tentava prender o riso que estava pronto para sair de sua boca de pedra.
    Voltei a olhar para a primeira página. A foto havia sido tirada segundos depois da luta. Meu cabelo estava grudado na testa. As olheiras pareciam duas manchas escuras. E minha expressão transmitia exatamente o entusiasmo de alguém que havia sido atropelado por um caminhão.
    Duas vezes.
    — Eu estava quase desmaiando!
    — Eu diria que você estava viva.
    — Essa não é uma foto de alguém viva — apontei para o meu próprio rosto, destruído pela viagem temporal.
    — Tem certeza?
    — Ben! — Exclamei.
    Ele cruzou os braços de pedra e observou a imagem por alguns segundos.
    — Já vi piores, se quer mesmo saber — disse, dando de ombros.
    — Você literalmente é feito de pedra — resmunguei, tentando controlar o bico de frustração.
    — Exatamente. Minha perspectiva sobre beleza é diferente — justificou enquanto gesticulava com uma das mãos.
    Bufei.
    O jornaleiro observava a cena com evidente curiosidade.
    Só então percebi que estava reclamando da própria foto em público.
    Enfiei o jornal de volta na pilha, tentando fingir costume.
    — Ótimo.
    — O quê?
    — Agora ele sabe que sou eu — baixei o tom para que apenas Ben pudesse me ouvir.
    Ben olhou para o jornaleiro, estragando o meu plano de ser discreta.
    O jornaleiro olhou para mim.
    Depois para a foto.
    Depois para mim outra vez.
    — Eu já sabia — admitiu o homem.
    Fechei os olhos e suspirei pesado.
    — Perfeito — resmunguei outra vez.
    — Pra ser justo — disse Ben, colocando uma das enormes mãos sobre meu ombro — você realmente é difícil de esquecer.
    — Isso foi um elogio? — Perguntei, abrindo apenas um dos olhos enquanto observava a sua expressão, procurando algum resquício de mentira.
    — Estou tentando melhorar nisso — admitiu em um tom envergonhado.
    Não consegui evitar o sorriso.
    Mesmo porque reclamar da foto parecia muito menos assustador do que pensar em todos os outros problemas que me esperavam.
    — Obrigada, Ben — sorri verdadeiramente e percebi que agradecê-lo apenas por estar próximo a mim já estava começando a se tornar algo constante entre nós dois. Eu gostava da sua companhia, apesar de tudo.
    — Obrigado, amigo — disse Ben para o jornaleiro antes de se virar para continuarmos a nossa caminhada matinal. Acenei para o homem que ainda me olhava com curiosidade.
    — E então... — limpei a garganta antes de continuar a minha pergunta. — Você é sempre assim?
    — Assim como? — Perguntou enquanto ajeitava o próprio boné.
    — Hospitaleiro?
    Um sorriso pequeno voltou a se formar em seu rosto de pedra.
    — As pessoas gostam de nós, confiam no nosso trabalho — explicou. — Então é natural que eu apenas os trate com o mesmo respeito que eles nos tratam também.
    Mordisquei a bochecha enquanto refletia sobre suas palavras.
    Foi inevitável não pensar em meu próprio mundo e em como aquilo não funcionava nenhum pouco lá.
    Muitas pessoas ainda não nos aceitavam como heróis. Algumas nos admiravam. Outras nos culpavam por qualquer desastre que acontecesse em um raio de quilômetros. É claro que o nosso passado era um dos grandes causadores das mais diversas reações.
    E então havia o governo.
    Com entrevistas cuidadosamente planejadas, fotografias posadas e campanhas inteiras construídas para convencer as pessoas de que éramos confiáveis.
    Valentina passava metade do tempo tentando nos transformar em heróis. E a outra metade tentando nos transformar em produtos.
    Olhei para as pessoas caminhando pelas ruas.
    Algumas cumprimentavam Ben, enquanto outras apenas sorriam. Nenhuma delas parecia assustada ou parecia desconfiar dele.
    — É diferente no seu mundo? — perguntou Ben ao perceber o meu silêncio repentino como algo mais profundo do que aparentava.
    Pisquei.
    — Muito — admiti, no meio de um suspiro cansado.
    — As pessoas não gostam de heróis por lá? — Questionou tentando disfarçar a curiosidade, mas falhando miseravelmente.
    — Algumas gostam... — pensei por alguns segundos antes de continuar. — Mas elas também têm medo.
    Ben permaneceu em silêncio.
    — E, para ser justa, às vezes com razão.
    Ele soltou um ruído pensativo.
    — No meu mundo, se alguém atravessa uma parede ou derruba um prédio tentando salvar a cidade, isso costuma virar manchete durante semanas — continuei.
    — Aqui também.
    — Não do mesmo jeito.
    Ben me lançou um olhar curioso.
    — Como assim?
    Soltei uma risada sem humor.
    — Pelo pouco que já consegui ver, pude ver que vocês são vistos como celebridades.
    — E vocês?
    — Armas — minha resposta escapou antes que eu pudesse impedir, fazendo com que meu sorriso desparecesse e o dele também.
    Por um instante, nenhum de nós dois falou nada.
    Os carros continuaram pela avenida, enquanto uma criança atravessou a rua correndo atrás de uma bola. A cidade continuava vivendo normalmente.
    — Isso explica algumas coisas — disse Ben por fim.
    Eu não perguntei o quê.
    Porque tinha medo de saber.
    — E você? — continuei depois de alguns segundos. — Sempre lidou bem com toda essa atenção?
    Ben soltou uma gargalhada e me olhou com incredulidade.
    — Está brincando?
    — Não.
    , eu pareço uma montanha que aprendeu a andar — falou apontando para si próprio e eu não consegui conter a risada. — E quando isso aconteceu comigo, eu não queria sair de casa.
    Meu sorriso diminuiu no mesmo instante, embora ele não tivesse dito aquilo para tentar me fazer mal pela risada.
    — Sério?
    — Sério — ele disse enfiando as mãos nos bolsos. — As pessoas olhavam. Apontavam. Algumas tinham medo.
    Aquilo me surpreendeu. Porque era difícil imaginar alguém olhando para Ben hoje e não gostando dele imediatamente.
    — O que mudou? — Perguntei com curiosidade.
    Ben demorou alguns segundos para responder.
    — Eu parei de tentar convencer todo mundo de que era o mesmo cara de antes.
    Franzi a testa.
    — E aí?
    — Aí as pessoas descobriram sozinhas.
    Olhei para ele e pela primeira vez entendi que aquela conversa não era apenas sobre heróis, nem sobre fama, nem sobre poderes. Talvez fosse sobre pertencimento. E sobre quanto tempo levava para alguém encontrar um lugar onde pudesse existir sem precisar se explicar o tempo inteiro.
    — A padaria é logo ali na frente — ele disse, tentando não deixar o clima pesado e seu dedo de pedra apontou para o estabelecimento que ficava na esquina da mesma quadra onde estávamos.
    Assenti e retornamos o nosso passo tranquilo e lado a lado, enquanto eu ainda me deixava impressionar pelo mundo novo ao meu redor.
    Então percebi uma movimentação estranha ao nosso redor. Pessoas cochichando entre si, outras acenando e olhando a tudo com uma alegria grande demais para que eu conseguisse acompanhar. Olhei para Ben para ver se ele havia percebido o mesmo que eu, mas ele continuava caminhando como se nada tivesse acontecido.
    Uma senhora que atravessava a rua abriu um sorriso largo e levantou a mão para Ben.
    — Bom dia, senhor Grimm!
    — Bom dia, Doris — respondeu ele sem sequer diminuir o passo, mas com um tom de voz extremamente gentil.
    — Você conhece todo mundo? — perguntei.
    — Não.
    — Pareceu conhecer.
    — Eu só finjo muito bem.
    Revirei os olhos e abri a boca para responder, mas um grito chamou a minha atenção e me interrompeu:
    — TOCHA!
    Meu corpo inteiro ficou alerta por puro reflexo.
    Mas ninguém pareceu se preocupar tanto quanto eu, na verdade, foi muito pelo contrário.
    Um grupo de adolescentes mais a frente apontava para o céu com expressões animadas.
    Levantei o rosto e não demorei para ver o que as deixava tão felizes.
    Uma trilha de fogo atravessava o azul da manhã.
    — Não acredito nisso... — murmurei balançando a cabeça e pude ouvir Ben soltar uma risadinha.
    A figura flamejante desceu rapidamente entre os prédios.
    O pouso foi suave e extremamente teatral, como se ele tivesse esperado tempo demais para fazer isso.
    As chamas desapareceram aos poucos até revelarem Johnny Storm, usando óculos escuros e as mãos nos bolsos como se aquilo fosse apenas mais uma terça-feira comum.
    — Aí estão vocês! — anunciou com um grande sorriso.
    E imediatamente três garotas que passavam pela calçada pararam para observá-lo.
    Uma delas deu um gritinho abafado, a outra se abanou e a última fingiu que desmaiaria ali mesmo, no meio da calçada.
    E é claro que Johnny percebeu e seu sorriso aumentou ainda mais.
    — Você está nos seguindo? — perguntou Ben, ignorando a figuração das garotas ao nosso lado.
    — Eu prefiro o termo "aparecendo no momento certo" — respondeu Johnny, dando de ombros.
    — Isso se chama seguir — Ben rebateu, impaciente.
    — Questão de interpretação, meu caro amigo.
    Ben abriu a boca para retrucá-lo outra vez, mas foi impedido por uma senhora que saiu de uma loja carregando uma sacola de compras, esbaforida demais.
    — Johnny! Johnny — ela acenava para o herói como se sua vida dependesse daquilo. — Minha filha recebeu a fotografia autografada!
    — E ela gostou? — Johnny se aproximou, atento para ouvi-la.
    — Dorme com ela embaixo do travesseiro.
    Johnny abriu um sorriso orgulhoso.
    — Garota inteligente.
    A mulher caiu na gargalhada e agradeceu segurando nas mãos dele antes de seguir seu caminho.
    Pisquei algumas vezes, tentando assimilar o que eu estava vendo. E então olhei para Ben., depois para Johnny e, por último, para as pessoas ao redor.
    — Espera — falei e Johnny virou a cabeça.
    — Sim?
    — Você tem fãs? — Apontei para ele, ainda sem acreditar.
    — Ai! — Ele levou a mão ao peito como se eu tivesse acabado de insultá-lo.
    — Estou perguntando sério.
    — Ela está perguntando sério — confirmou Ben.
    Johnny pareceu genuinamente ofendido.
    — Claro que eu tenho fãs.
    — Quantos? — Arregalei os olhos e ele estufou o peito, orgulhoso de si mesmo.
    — Muitos.
    — Quanto é “muitos”? — Arqueei a sobrancelha, começando a me divertir com suas reações.
    — O suficiente — empinou o nariz e cruzou os braços, ainda me observando.
    — Isso não responde minha pergunta — provoquei.
    — Porque é uma informação confidencial.
    Ben soltou uma gargalhada tão alta que algumas pessoas se viraram para olhar.
    — Você tem mesmo um fã-clube? — insisti.
    Johnny abriu um sorriso presunçoso.
    — Três oficiais.
    Arregalei os olhos.
    — Três?
    — Quatro, se contarmos o de Nova Jersey.
    — Inacreditável! – Exclamei, realmente muito surpresa.
    , tem gente que escreve cartas pra ele — explicou Ben.
    — Cartas? — repeti, começando a me sentir idiota por estar repetindo o que eles me diziam em tom de pergunta.
    — Muitas cartas — confirmou Johnny e eu achei que ele fosse explodir pelo tamanho do seu ego.
    Minha boca se abriu lentamente.
    — Você tem um fã-clube por correspondência.
    — Tenho vários.
    — Isso é ridículo — conclui, querendo rir de incredulidade.
    — Isso é sucesso, – se ele tivesse cabelos longos, provavelmente ele estaria os balançando contra o vento naquele momento.
    — Isso é ridículo — repeti.
    — Um pouco dos dois — admitiu Ben.
    Johnny apontou para ele.
    — Viu? Ele entende.
    Balancei a cabeça, ainda muito incrédula.
    Talvez a maior descoberta daquela manhã não fosse a diferença entre os nossos mundos.
    Talvez fosse descobrir que Johnny Storm realmente levava a sério o próprio fã-clube.
    E, pelo brilho satisfeito em seu rosto, suspeitei que ele provavelmente sabia o nome de cada integrante.
    Ainda estava tentando processar a existência de múltiplos fã-clubes dedicados a Johnny Storm quando ele passou a caminhar ao nosso lado como se sempre tivesse feito parte do passeio. Ou como se tivesse sido convidado.
    O que claramente não tinha acontecido.
    — Espera aí — falei, estreitando os olhos ao vê-lo quase encostar o seu ombro no meu. — Foi o Reed que mandou você vir atrás da gente?
    — O quê? — Johnny levou a mão ao peito. — Essa é a imagem que você tem de mim?
    — Sim.
    Ben soltou uma risada enquanto Johnny ainda me encarava como se eu tivesse lhe proferido uma ofensa.
    — Então foi? — insisti.
    — É claro que não.
    — Não? — perguntei arqueando uma das sobrancelhas.
    — Reed nem sabe que vocês saíram — ele falou, sério e aquilo me fez parar por um segundo, relembrando da cena dos guardas apertando o botão em seu aparelho esquisito.
    — Ele não sabe?
    — Provavelmente ainda está enterrado em alguma equação impossível — respondeu Johnny. — Se o Franklin não invadiu o laboratório e desligou alguma máquina importante, ele deve continuar lá por mais algumas horas.
    — Você está falando do próprio líder da equipe — alfinetei e ele riu pelo nariz.
    — Estou falando do meu cunhado.
    — Ponto válido — admiti.
    Johnny sorriu vitorioso.
    — Então por que veio? — perguntei.
    Ele enfiou as mãos nos bolsos.
    — Porque você chegou ontem — pontuou o óbvio e eu troquei o olhar com Ben, que ouvia a tudo com atenção
    — Certo... e?
    — Caiu do céu.
    — Tecnicamente sim.
    — Veio de outra realidade.
    — Continuo acompanhando — falei.
    — E hoje é o seu primeiro dia conhecendo Nova Iorque.
    Inclinei a cabeça, ainda sem entender para onde as suas colocações estavam indo.
    — E?
    — E eu não ia perder isso.
    Meu coração deu uma batida estranha. Pequena. Incômoda. E irritantemente perceptível.
    — Não queria perder a diversão? — perguntei.
    — Exatamente — abriu um sorriso.
    — Que generoso.
    — Eu sou conhecido pela minha generosidade — apoiou as mãos na cintura, ainda sorrindo.
    Ben fez um barulho que lembrava muito alguém engasgando de propósito.
    — Claro que é — disse o homem de pedra em um tom extremamente irônico.
    — Você é um péssimo amigo, sabia? — Johnny apontou para ele, que balançou os ombros.
    — Eu sou um amigo honesto.
    — Pior ainda.
    Acabei rindo.
    Johnny olhou para mim imediatamente.
    Como se estivesse esperando por aquilo. Como se gostasse quando conseguia arrancar uma risada minha.
    E o pensamento foi desconfortavelmente agradável.
    — Então essa é a famosa Nova Iorque? — perguntei, desviando o assunto.
    — A melhor do mundo — respondeu Johnny.
    — Você nunca visitou as outras.
    — Não preciso.
    — Isso é uma lógica terrível.
    — E mesmo assim estou certo.
    Revirei os olhos.
    — Convencido.
    — Encantador.
    — Convencido.
    — Extremamente encantador.
    — Johnny...
    ...
    Ben suspirou tão profundamente que achei que poderia provocar um terremoto.
    — Vocês dois são cansativos.
    — Você gosta da gente mesmo assim — respondeu Johnny, desviando o olhar do meu.
    — Infelizmente — Ben suspirou enquanto continuávamos caminhando.
    A cidade parecia viva ao redor deles. Os carros antigos. As vitrines. As placas luminosas. Os bondes ao longe.
    Tudo tão diferente do meu mundo e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.
    Por um instante, consegui esquecer que estava perdida. Esquecer que não sabia como voltar para casa. Esquecer a ansiedade que vinha me acompanhando desde que acordei naquele hospital.
    — Está pensando demais de novo — comentou Ben.
    Pisquei.
    — E como é que você sabe? — Arqueei a sobrancelha.
    — Porque você faz aquela cara — ele me respondeu como se fosse óbvio.
    — Que cara?
    — Como se estivesse tentando resolver todos os problemas do universo ao mesmo tempo.
    — Eu não faço essa cara — torci o nariz.
    — Faz sim — disseram Ben e Johnny juntos.
    Olhei de um para o outro.
    Traidores.
    Johnny sorriu.
    — Relaxa um pouco — disse Johnny me balançando pelos ombros.
    — Pra você é fácil falar.
    — Eu sei — a resposta dele veio mais suave do que eu esperava.
    Sem piada ou arrogância, nem mesmo com o sorriso convencido.
    Só sincera.
    — Eu sei que não deve ser fácil — baixou o tom e, por um segundo, nossos olhos se encontraram.
    Engoli o seco e baixei a cabeça, tentando disfarçar a maneira sem graça que ele fazia eu me sentir quando me olhava daquele jeito.
    E assim seguimos em direção a padaria para, finalmente, comprar os pães, que era o nosso objetivo desde o princípio.
    Sem demora e com alguns sorrisos dos dois heróis para as atendentes que pareciam animadas demais, retornamos para o Edifício Baxter.
    Não soube dizer quanto tempo passamos andando, mas havia sido o suficiente para conhecer algumas ruas e o suficiente para esquecer meus problemas por alguns minutos.
    E definitivamente tempo suficiente para Reed perceber que eu havia desaparecido.
    — Se tivermos sorte, Reed ainda não vai ter percebido que sumimos — anunciou Johnny quando as portas do elevador se abriram.
    — Nós nunca temos sorte, cabeça de fogo — respondeu Ben.
    — Sue vai nos matar se souber que saímos sem avisar — o tom de Johnny me pareceu o de um adolescente com medo de seus pais.
    — Primeiro Reed — completou Ben.
    — Depois Sue.
    — Exatamente.
    Revirei os olhos.
    — Vocês estão exagerando — falei, sem acreditar no que eles diziam.
    — Você ainda não viu Sue brava — disse Johnny.
    — Nem Reed preocupado — completou Ben.
    Aquela frase me fez perder um pouco do sorriso.
    Preocupado. A palavra ficou ecoando na minha cabeça.
    Porque fazia muito tempo que alguém se preocupava comigo sem querer algo em troca.
    Seguimos pelo corredor principal.
    E não demorou nem dez segundos para encontrarmos Reed.
    Ou melhor.
    Para Reed nos encontrar.
    Ele surgiu vindo da direção dos laboratórios, segurando uma prancheta, os cabelos arrepiados e os óculos levemente tortos na ponta do nariz.
    Parou imediatamente ao nos ver.
    Seu olhar passou por Ben.
    Depois por Johnny.
    Por fim, pousou em mim.
    — Ah. Ótimo — seu tom era brando e eu quase suspirei de alívio.
    — Você nem percebeu que a gente saiu, não é? — perguntou Johnny, brincando com o fogo.
    — Percebi há quarenta e três minutos — agora ele estava um pouco mais carrancudo, mas ainda assim não me parecia chateado pelo nosso sumiço.
    — Isso é quase uma hora — Johnny continuou provocando.
    Reed suspirou e voltou o olhar para mim.
    — Onde vocês estavam? — Perguntou.
    — Compramos pão — disse Ben por mim, levantando a sacola.
    Reed observou, ainda sem muita expressão para que eu pudesse lê-la e entender o que ele estava sentindo ou pensando.
    — Certo.
    Silêncio.
    — E passeando — completou Johnny, mesmo que ninguém tivesse perguntado o que mais havíamos feito.
    — Johnny — advertiu Ben e eu pude ver seu punho se fechar um pouco.
    — Estou sendo transparente — o cara do fogo ergueu as mãos em rendição e eu revirei os olhos, surpresa por ele não conseguir fechar a boca.
    — Johnny — Ben tentou outra vez.
    — Tá bom.
    Eu quase sorri.
    Quase.
    Porque havia algo na expressão de Reed que começava a me deixar desconfortável.
    Ele voltou a olhar para mim.
    , preciso de você no laboratório.
    Meu estômago afundou instantaneamente. Como uma pedra que caí dentro de um lago. Densa e pesada.
    Toda a leveza daquela manhã desapareceu.
    Os sons do corredor pareceram ficar distantes.
    Meu coração acelerou. As mãos ficaram frias.
    Laboratório.
    Experimentos.
    Análises.
    Testes.
    A palavra podia mudar.
    A sensação não.
    Por um segundo, voltei a ter doze anos.
    Voltei a sentir cheiro de produtos químicos.
    Voltei a ouvir portas metálicas se fechando.
    Voltei a ser uma arma.
    Meu peito apertou.
    ?
    Pisquei e foi como se o cenário voltasse para onde eu estava naquele momento. Tudo não havia passado de flashes de memórias que eu rezava todas as noites para me esquecer.
    A voz veio de Johnny.
    Só então percebi que estava parada no mesmo lugar.
    Imóvel.
    — Ei — a voz dele saiu mais baixa e mais próxima. — Está tudo bem?
    Balancei a cabeça automaticamente e o nó que havia se formado no fundo da minha garganta, eu engoli junto com a pedra que estava no fundo do meu estômago.
    — Sim — menti.
    Uma mentira horrível, porque claramente não estava.
    Johnny me observou por alguns segundos e eu o odiei por isso. Porque ele sabia que não era verdade.
    Engoli o seco e olhei para os lados, vendo que Ben já não estava mais ao meu lado e seguia o seu caminho para o laboratório junto de Reed.
    Johnny, por sua vez, deu mais um passo para perto, um tanto quanto discreto e pequeno, mas o suficiente para que eu conseguisse sentir a sua respiração bater em minhas bochechas.
    — Você não precisa fazer nada que não queira — disse ele.
    Meu olhar encontrou o dele.
    — Preciso — falei firme.
    — Não precisa, você... — não deixei que ele terminasse de falar.
    — Preciso descobrir como voltar para casa — a resposta saiu mais dura do que eu pretendia.
    Mas Johnny não recuou, nem sequer pareceu ofendido.
    — Então faz uma coisa — pediu e eu notei que ele ainda não havia se afastado.
    — O quê?
    — Respira.
    Soltei uma risada nervosa, sentindo as mãos suarem e minha respiração ficar mais pesada.
    — Esse é o seu conselho genial? — Meu tom saiu mais irônico do que eu pretendia. Em momentos de tensão, eu nunca conseguia controlar muito bem o que saía da minha boca.
    — Funciona surpreendentemente bem — disse ele, sorrindo de canto.
    — Eu odeio você — murmurei.
    — Não odeia— a resposta veio imediata.
    — Talvez um pouco.
    — Nem um pouco.
    O sorriso escapou antes que eu pudesse impedir.
    E ele percebeu. Johnny sempre percebia.
    Por um instante, o corredor pareceu menor. Mais silencioso. Como se todo o resto tivesse desaparecido e existissem apenas nós dois naquele espaço.
    Puxei o ar para dentro dos pulmões com dificuldade.
    Uma vez.
    Depois outra.
    Johnny acompanhou o movimento.
    — Isso aí — disse em voz baixa. — Devagar.
    Inspiramos juntos. Expiramos juntos. Mais uma vez. E outra.
    A pressão no meu peito começou a aliviar aos poucos.
    — Tá tudo bem — ele continuou. — Ninguém aqui vai machucar você.
    Fechei os olhos por um instante. Eu queria acreditar naquilo. Mas algumas cicatrizes aprendem a sobreviver mesmo quando o perigo já passou.
    Ainda assim, assenti.
    E então sua voz soou em meus ouvidos outra vez, mais baixa e mais séria.
    — Eu não vou deixar.
    Abri os olhos.
    Johnny sustentou meu olhar sem hesitar, mas dessa vez era diferente, porque não havia brincadeira, nem flerte ou aquele sorriso convencido que parecia fazer parte dele. Tudo o que encontrei foi honestidade.
    E aquilo me atingiu com muito mais força do que qualquer cantada poderia atingir, porque ele não estava tentando impressionar ninguém, estava apenas me dando sua palavra. E uma parte de mim, uma parte que eu não sabia que ainda existia, quis acreditar nela.
    ? — voz de Reed ecoou do outro lado do corredor.
    O momento se rompeu.
    Pisquei algumas vezes e endireitei os ombros.
    — Estou indo — minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
    Ao meu lado, Johnny também pareceu se recompor. Mas ele não se afastou.
    Quando comecei a caminhar em direção ao elevador, ele veio junto, como uma sombra.
    Quando as portas se abriram, Reed já nos aguardava do lado de dentro.
    Entrei primeiro.
    Johnny entrou logo depois.
    As portas metálicas começaram a se fechar.
    E, pela primeira vez desde que eu havia caído naquele mundo estranho, minhas mãos não tremiam tanto.
    Talvez porque eu estivesse começando a confiar neles.
    Ou talvez porque, de alguma forma, Johnny Storm tivesse encontrado um jeito de tornar tudo um pouco menos assustador.
    O elevador começou a subir.
    E enquanto os andares passavam lentamente diante dos meus olhos, percebi que o laboratório ainda me assustava.
    O futuro ainda me assustava.
    Mas agora eu não estava mais completamente sozinha para enfrentar tudo aquilo.

    Sétimo

    ”A taça de vinho vazia em minhas mãos indicava que aquela era uma noite especial.
    Embora a minha visão que começava a ficar embaçada e a língua que se enrolava começassem a fazer com que minha mente se esquecesse do que eu estava comemorando.
    Fazia dez anos que eu havia escapado da Hydra.
    E, desde então, todos os anos eu procurava comemorar de alguma forma. Geralmente envolvia bastante álcool e uma noite solitária em meu próprio apartamento. Afinal, toda lembrança feliz carrega algum resquício de tristeza. E, no meu caso, havia mais traumas e infelicidades do que alegrias propriamente ditas.
    Dois anos antes eu comemorava a data com um Bucky carrancudo e que, por azar, não ficava bêbado.
    Aquela havia sido a última vez que eu o havia visto.
    Enchi outra taça do vinho tinto e me joguei no sofá, sentindo a cabeça revirar com a velocidade que me sentei. Uma garrafa vazia já jazia no centro da mesa, já a outra estava pela metade.
    Levei a taça até os lábios e me demorei em um gole grande e que desceu amargo demais para ser vinho. Logo, não demorou para que as lágrimas escorressem pelas minhas bochechas, amargando ainda mais aquele momento.
    — Você bêbada é um porre, sabia? — Foi o que Bucky havia me dito naquela noite, embora um sorriso estivesse no canto dos seus lábios.
    Mas ele tinha razão. Eu odiava o fato de ser uma bêbada chorona e melancólica.
    Soltei um suspiro pesado e coloquei a taça, agora meio cheia, junto com a garrafa e deitei a cabeça no encosto do sofá, me permitindo chorar, como acontecia todos os anos.
    Dessa vez, havia mais sentimento do que eu gostaria.
    Dois anos sem ver o Bucky eram fáceis de viver. O difícil era quando a noite chegava e a solidão invadia o meu quarto como uma sombra densa demais para suportar sozinha. Era difícil não ter o seu número para ligar e pelo menos jogar conversa fora.
    Mas ele havia ido embora e eu estava sozinha no mundo. Outra vez.
    Funguei e esfreguei os olhos, tentando apagar o vestígio das lágrimas. Completamente em vão.
    Então me sentei em um impulso e resolvi tentar ouvir uma música par ver se animava os meus próprios ânimos.
    Cambaleei em direção ao rádio velho e liguei na primeira estação que já estava. Algo muito velho e que eu não conhecia tocava, mas que preenchia o ambiente como deveria ser: calmo e reconfortante.
    Peguei a taça outra vez e bebi o restante do vinho em um único gole, sentindo novamente a língua amargar. Era horrível. Mas também era bom. Pois me ajudava a esquecer de muita coisa que eu simplesmente só desejava que nunca tivesse existido.
    Sentei outra vez e levei a mão até o meu colar, retirando a tampa e deixando que a água fluísse entre os meus dedos, como se tivesse vida própria.
    Criei pequenas ondas que andaram para lá e para cá, em um ritmo calmo e tranquilo, me lembrando de como eu gostaria de viver a minha vida.
    Mas então uma batida fez com que a água parasse de fluir e caísse em meu colo, me desconcentrando do meu momento.
    — Mas que merda — resmunguei comigo mesma enquanto manipulava a água para colocá-la de volta em meu colar e voltei a me sentar.
    Outra batida.
    Dei de ombros. Provavelmente era algum vizinho incomodado com o barulho da música ou do meu choro. Ou dos dois.
    Enchi outra taça de vinho.
    Mais uma batida. Que dessa vez veio acompanhada de várias outras mini batidas. Secas e insistentes.
    — Vai embora! — Resmunguei para ninguém.
    Mais uma vez.
    Fechei os olhos.
    Mais uma.
    — Eu vou matar você — esbravejei entre os dentes e senti o colar tremular em meu pescoço.
    Levantei do sofá cambaleando e atravessei o apartamento tropeçando nos próprios pés e com uma velocidade que nem eu mesma sabia que tinha.
    — Olha é melhor você me deixar em paz ou... — minha voz morreu no meio do caminho.
    Pisquei várias vezes, para ter certeza de que quem eu estava vendo a minha frente não era apenas um sonho ou uma alucinação. Mas não era. Era terrivelmente real.
    Jaqueta escura. Braços cruzados. Expressão cansada. Cabelos maiores do que eu me lembrava.
    — Você está bêbada.
    Franzi o nariz.
    — Bucky?
    — Oi, .
    Continuei encarando, incrédula e bêbada demais para formar algum pensamento que fizesse sentido.
    — Você não é real — murmurei, o olhando de cima abaixo.
    — Sou — ele respondeu de maneira seca e com a garganta arranhando, como quem não bebe água há um bom tempo.
    — Não é — insisti.
    — Sou sim.
    Apontei para ele.
    — Você foi embora — o gosto amargo do vinho subiu pela minha garganta.
    — Eu sei.
    — Dois anos.
    — Eu sei.
    — Setecentos e trinta dias — engoli com dificuldade e pisquei forte outra vez, sentindo as lágrimas embaçarem a minha visão.
    Bucky arqueou uma sobrancelha.
    — Você contou?
    — É óbvio que eu contei, seu idiota — tropecei entre minhas próprias palavras e ele suspirou, daquele jeito cansado que só ele fazia.
    — Posso entrar? — Perguntou já atravessando o batente da porta e me empurrando para o lado.
    — Não — disse, mas ele não me ouviu. — Você me abandonou.
    Bucky, que caminhava em direção a minha sala de estar e pronto para verificar a quantidade de garrafas de vinho que tinha ali, parou abruptamente e me olhou. A culpa atravessou seu rosto tão rápido que quase passou despercebida.
    — Eu não abandonei você.
    — Abandonou sim — agora eu já chorava feito criança outra vez.
    ... — ele se aproximou em um passo curto.
    — Você foi embora — Minha voz falhou.
    E aquilo pareceu machucá-lo mais do que qualquer acusação.
    Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
    — Eu precisava resolver algumas coisas — disse ele por fim.
    — Por dois anos?
    — Eu não achei que fosse demorar tanto.
    Soltei uma gargalhada incrédula.
    — Que planejamento horrível.
    Pela primeira vez naquela noite, um sorriso apareceu no canto da boca dele. Pequeno e quase invisível.
    — É. Foi mesmo — admitiu e eu pude jurar que ele sentia o mesmo amargo na boca que eu.
    O silêncio voltou. Só que dessa vez não era tão pesado.
    Eu continuava brava. Completamente irada e pronta para socá-lo até arrancar pelo menos um ou dois dentes da sua boca.
    Mas ele estava ali. De verdade. Não era uma lembrança nem era uma ligação.
    Era Bucky Barnes.
    Parado na porta do meu apartamento.
    Como se tivesse atravessado o mundo inteiro para chegar até ali.
    — Eu senti sua falta — confessei antes que pudesse me impedir.
    O sorriso desapareceu.
    E algo se partiu atrás dos olhos dele.
    — Eu também senti a sua.”

    Um suspiro pesado escapou do meu peito.
    Meus olhos se fecharam no mesmo instante, como se aquela lembrança ainda carregasse o peso de tudo o que eu não havia conseguido dizer naquela noite.
    Eu me lembrava bem daquele dia. Apesar do vinho. Apesar da dor de cabeça monumental que tive na manhã seguinte. Apesar da vergonha de descobrir que eu havia chorado no ombro dele por quase uma hora inteira.
    Ver Bucky parado na porta do meu apartamento tinha sido como levar um soco no estômago. Porque eu estava preparada para sentir saudade dele. Preparada para sentir raiva. Preparada para seguir em frente. Mas não estava preparada para vê-lo voltar.
    E, por mais que eu tivesse passado metade daquela noite o xingando, a verdade era simples:
    Eu nunca tinha deixado de guardar um lugar para ele.
    ? — A voz de Reed atravessou a lembrança como uma pedra lançada sobre a superfície de um lago.
    Abri os olhos devagar. As luzes brancas do laboratório voltaram a existir. Os aparelhos. Os monitores. O cheiro de metal e eletricidade.
    Tudo aquilo substituiu o apartamento, o vinho e a voz de Bucky em questão de segundos.
    Reed me observava do outro lado da bancada, segurando alguns fios conectados a pequenos eletrodos.
    — Posso colocar isso em você? — Perguntou.
    Meu olhar desceu para os aparelhos. Instintivamente, meus ombros enrijeceram.
    — Eles não vão machucar você — explicou imediatamente. — São apenas sensores para registrar atividade cerebral.
    Observei os eletrodos por mais alguns segundos.
    No passado, pessoas também tinham me mostrado equipamentos estranhos antes de dizer que não doeria.
    A diferença era que Reed não parecia mentir.
    — Tudo bem — respondi no meio de uma suspirada pesada demais.
    Ele assentiu, quase agradecido pela confiança.
    Enquanto se aproximava para posicionar os sensores, mantive as mãos firmemente apoiadas na cadeira para evitar que percebesse o quanto eu ainda estava tensa.
    — Esses vão na sua cabeça — explicou enquanto trabalhava. — Quero medir suas variações neurais quando você utiliza seus poderes.
    — Isso parece muito científico — tentei brincar para ficar um pouco menos nervosa.
    — É porque é — respondeu Reed, sem entender o meu tom.
    Atrás de mim, ouvi Johnny rir.
    — Bem-vinda ao meu cotidiano.
    O comentário arrancou um sorriso involuntário dos meus lábios.
    E, por mais estranho que fosse admitir, a presença deles tornava aquele laboratório muito menos assustador do que deveria ser.
    Alguns eletrodos foram posicionados próximos às minhas têmporas e atrás das orelhas. Outros foram presos em meus pulsos.
    Eu odiava aquela sensação e não era porque doía, mas porque me lembrava de coisas que eu tentava esquecer cada vez mais.
    — Está desconfortável? — Sue perguntou após notar a expressão de pavor em meu rosto.
    — Um pouco — admiti, remexendo os ombros de maneira inquieta.
    — Podemos parar se precisar.
    Assenti, agradecida pela preocupação.
    Reed, por outro lado, já estava completamente absorto em seus próprios pensamentos.
    — Certo. Vamos começar.
    — Isso geralmente precede algo ruim — engoli o seco.
    — Estatisticamente, talvez — disse o doutor, ainda concentrado no aparelho. — Mas não será nada invasivo, só um pouco... diferente?
    — Reed — advertiu Sue.
    — Você acabou de piorar a situação — murmurei, suspirando outra vez.
    Johnny riu pela falta de tato do próprio cunhado.
    — Eu avisei que ele não sabe conversar com pessoas — falou, cruzando os braços.
    — Eu sei conversar com pessoas — Reed ergueu os olhos para Johnny e pude ver uma careta se formar em seu rosto.
    — Não sabe.
    — Sei sim.
    — Reed, você chamou uma torradeira de "intelectualmente promissora" semana passada — Johnny apontou para ele, ainda rindo.
    — Porque ela era — Reed gesticulou, tentando passar credibilidade em seu posicionamento.
    Ben soltou uma gargalhada.
    Eu não consegui evitar um sorriso.
    Aquilo ajudava. Muito mais do que eu gostaria de admitir.
    — Você consegue produzir água? — Perguntou Reed, ignorando completamente a discussão.
    — Consigo — respondi, já sentindo a ponta dos dedos formigar.
    — Ótimo — suspirou, satisfeito. — Quero que produza o mínimo que conseguir.
    Estendi a mão.
    Uma gota surgiu acima da minha palma.
    Depois outra.
    Até formar uma pequena esfera cristalina que flutuava alguns centímetros acima da minha pele.
    Reed aproximou imediatamente um aparelho estranho, que tinha luzes piscantes e algum tipo de espécie de agulha que se movia em uma sintonia esquisita.
    Anotações surgiram em sua prancheta.
    — Fascinante — pude ver um lampejo de excitação em seus olhos enquanto ele observava com atenção as reações da água que eu havia criado e a da máquina.
    — Lá vem ele — resmungou Ben.
    — O quê? — perguntou Reed.
    — A palavra favorita dele — respondeu Johnny.
    — Que palavra? — o doutor questionou outra vez e todos o olharam incrédulos, pois já estava óbvio para todo mundo ali.
    — Fascinante — repetiu Ben, imitando o seu tom.
    — Fascinante — concordou Sue.
    Reed suspirou e fechou os olhos por um curto momento.
    — Eu odeio todos vocês — reclamou.
    — Também te amamos, Cabeça de Lâmpada — respondeu Ben.
    A esfera líquida quase se desfez quando eu ri e Reed retornou toda a sua atenção para mim.
    Era isso. Os testes haviam finalmente começado.
    Durante a hora seguinte, os experimentos ficaram progressivamente mais estranhos e, para a minha surpresa, não foram invasivos ou desconfortáveis. Aparentemente, tudo girava em torno de como eu lidava com os meus poderes ou em como a água agia ao meu redor.
    Primeiro, Reed pediu que eu criasse formas dos mais variados tipos, como esferas, cubos, correntes e até mesmo pequenos redemoinhos. Tudo feito com grande facilidade por mim e visto com grande fascínio por ele.
    Depois ele elevou um pouco o nível, pois pediu precisão.
    Fazer a água atravessar anéis metálicos.
    Contornar obstáculos.
    Mover objetos sem derrubá-los.
    — Você está se divertindo — acusei quando o vi anotando freneticamente.
    — Muito — ele tentava conter um sorriso no canto dos lábios, mas completamente sem sucesso.
    — Isso é perturbador — semicerrei os olhos para ele.
    — Concordo — disse Johnny.
    — Ninguém perguntou — Reed deu de ombros enquanto continuava com suas máquinas e outras coisas esquisitas.
    — Essa parece ser outra frase favorita dele — resmungou Ben, já parecendo cansado enquanto se sentava e esperava o tempo passar.
    A certa altura, Reed me levou para uma câmara transparente.
    As paredes eram feitas de um material que eu nunca tinha visto.
    — O que é isso? — Perguntei um pouco receosa.
    — Uma sala de controle atmosférico — falou com naturalidade e como se, eu ao menos, soubesse o que aquilo significava.
    — Isso não respondeu minha pergunta.
    — Vou remover praticamente toda a umidade do ambiente — explicou e eu senti o meu estômago afundar, ainda mais ansiosa pelo que viria a frente.
    — E como eu vou respirar?
    — Você continuará respirando, — disse antes de fechar a porta e me deixar sozinha dentro da sala.
    — Confortante — murmurei para mim mesma e permaneci parada no mesmo lugar, aguardando qual seria o próximo passo.
    Um ruído grave então percorreu a estrutura, fazendo com que eu me assustasse. Logo em seguida, luzes se acenderam e os mostradores que ficavam ao canto, começaram a oscilar.
    — a voz de Reed veio pelo alto-falante que estava ao alto da minha cabeça. — Tente usar seus poderes.
    Afirmei com a cabeça enquanto já fechava os olhos, me concentrando para o que ele havia pedido.
    Procurei a sensação familiar. Algum lampejo de água que pudesse fazer com que eu a utilizasse ao meu redor.
    Por um instante, nada aconteceu.
    Então senti o formigamento na ponta dos dedos e a pressão costumeira que se formava dentro da minha caixa torácica.
    Abri a mão ao mesmo tempo que abri os olhos.
    Uma gota surgiu bem ao centro da palma, sendo seguida de outras que vieram em uma sequência, como se dançassem uma música inaudível aos ouvidos, mas perceptível aos olhos.
    Até que uma pequena corrente de água serpenteasse por meus dedos.
    Quando levantei os olhos, a porta se abriu e Reed me olhou com um grande sorriso no rosto, parecendo prestes a explodir de empolgação.
    — Impossível.
    — Isso é bom ou ruim? — Arqueei uma das sobrancelhas, ansiosa pela resposta.
    — Sim.
    — Não fiz uma pergunta de sim ou não, doutor.
    — Certo. Bom. Provavelmente bom — esfregou as mãos uma na outra, num sinal de animação enquanto seguíamos para fora da sala transparente.
    Johnny ao me ver apoiou os braços na bancada e abriu um sorriso presunçoso.
    — Ele vai ficar insuportável depois disso.
    — Muito mais — Ben esticou as pernas e apoiou as mãos atrás da cabeça de pedra, como se estivesse entediado.
    Os demais testes seguiram pelo restante do dia. A luminosidade natural que entrava pelas janelas já começava a ficar mais alaranjada, num indício de que a tarde começava a se encaminhar para o seu fim quando percebi o cansaço que me pesava os ombros.
    Era como se eu tivesse lutado por uma semana inteira sem descanso. E perdido todas as lutas.
    Porque não era apenas meu corpo trabalhando. Era muito mais. Toda a minha mente concentrada em fazer aquilo dar certo.
    Reed parecia perceber isso. Ou pelo menos fingir perceber.
    — Último teste — anunciou.
    — Você disse isso três testes atrás — resmunguei, sentindo os braços amolecidos e com a parte de trás da cabeça começando a latejar.
    — Agora é verdade, prometo — me olhou e eu analisei sua feição, tomando sua fala como verdade.
    Cruzei os braços e soltei um suspiro pesado.
    — O que quer que eu faça?
    Reed consultou suas anotações antes de me responder.
    — Quero descobrir qual é seu limite.
    Meu coração afundou. Porque eu não tinha certeza se sabia responder aquilo.
    — Tudo bem — respondi, mesmo sabendo que não estava tudo bem.
    Respirei fundo. Fechei os olhos. E deixei a água vir.
    Ela surgiu primeiro ao redor dos meus pés. Depois dos tornozelos. Subiu pelo ar. Deslizou pelas paredes. Serpenteou entre os equipamentos.
    Uma corrente.
    Duas.
    Dez.
    Vinte.
    Quando abri os olhos novamente, o laboratório inteiro parecia respirar junto comigo.
    A água girava ao meu redor como um organismo vivo.
    Era silenciosa, bonita e perigosa.
    Os aparelhos começaram a apitar.
    Reed não parecia nem piscar.
    Johnny havia parado de sorrir.
    Sue observava atentamente.
    Até Ben parecia impressionado.
    ... — ouvi Reed dizer, mas não esperei ele prosseguir, apenas continuei o que eu estava fazendo.
    A água cresceu mais, foi mais alto, mais rápido e mais forte.
    E então percebi uma coisa estranha.
    Eu ainda conseguia ir além. Muito mais além o que eu sequer imaginava. E aquilo me assustou.
    Porque significava que eu nunca havia realmente conhecido os meus próprios limites.
    A percepção me atingiu com força.
    Anos de treinamento.
    Anos de missões.
    Anos sendo usada como arma.
    E ninguém nunca havia perguntado o que eu era capaz de fazer.
    Apenas o que eu poderia fazer por eles.
    A água vacilou.
    Meu foco se rompeu.
    E então, tudo despencou.
    Milhares de litros atingiram o chão ao mesmo tempo.
    O laboratório inteiro ficou ensopado.
    O silêncio durou dois segundos inteiros, mas que pareceram durar décadas.
    — Incrível — murmurou Reed, molhado dos pés a cabeça.
    — Você vai falar "fascinante", não vai? — Provocou Johnny, batendo as mãos para espantar as gotas de água.
    — Eu ia — respondeu Reed, parcialmente ofendido.
    Johnny passou uma mão pelos cabelos molhados.
    — Eu voto por uma pausa — disse erguendo a mão, como se estivéssemos em um júri.
    — Concordo — disse Sue imediatamente. — Precisamos trocar de roupas também.
    — Também concordo — falou Ben.
    Reed abriu a boca para protestar.
    Três olhares o silenciaram.
    Ele suspirou e assentiu ao perceber que não teria mais voz ativa dali pra frente.
    — Vitória esmagadora — comemorou Johnny.
    Eu me sentei na primeira cadeira que encontrei. Eu estava subitamente exausta. A sensação de como se alguém tivesse retirado toda a energia do meu corpo. Mas, mesmo assim, utilizei meu poder para retirar toda a água que me encharcava.
    E antes mesmo que eu pudesse pensar em me levantar novamente, Johnny apareceu ao meu lado com fumaça saindo do seu corpo.
    — Você está bem?
    — Você pegou fogo pra secar a água? — Perguntei genuinamente surpresa e ele abriu um sorriso convencido. — Fascinante.
    — Acho que você está andando muito com o Reed — brincou e eu soltei uma risada pelo nariz. — Mas é sério, você está bem?
    — Estou cansada — falei no meio de um suspiro. — E com muita fome.
    — Ótimo, porque sei exatamente como melhorar a segunda parte — e me estendeu a mão.
    — Aonde vamos? — Questionei arqueando as sobrancelhas, sem saber se aceitava o convite ou não.
    — Tem uma lanchonete mais afastada... — Deixou a frase no ar, como se o mistério pudesse me conquistar.
    — Sem fãs ou fã-clubes? — Arqueei ainda mais a sobrancelha e ele riu pelo nariz.
    — Sem fãs nem fã-clubes, nem gente querendo tirar foto, juro — e, a partir disso, aceitei sua mão.
    — Nós vamos de carro voador? — Perguntei com curiosidade enquanto caminhávamos pelos corredores e deixávamos o restante do Quarteto Fantástico para trás.
    — Eu tive uma outra ideia, na verdade — coçou a parte de trás da cabeça e me olhou com expectativa.
    Arqueei as sobrancelhas e esperei que ele me dissesse sua super ideia.
    — Pensei em irmos voando — abriu um sorriso branco demais. — Eu e você, pelos céus da cidade.
    Uma gargalhada explodiu da minha boca antes que eu conseguisse segurar.
    — Você é completamente maluco, Johnny — falei ainda rindo. — Você quer me levar pelos céus enquanto pega fogo para irmos comer um lanche?
    — Você falando assim parece meio idiota mesmo... — coçou a nuca outra vez. — Mas eu achei que pudesse ser mais emocionante.
    — Mais emocionante? — repeti. — Johnny, eu atravessei uma fenda dimensional, caí do céu, quase provoquei uma enchente em Nova Iorque e passei a manhã inteira sendo estudada pelo seu cunhado.
    — Então está dizendo que meu plano não consegue competir?
    — Estou dizendo que sua régua para "emocionante" está um pouco torta.
    Ele abriu um sorriso tão despreocupado que eu tive vontade de rir outra vez.
    E ri. De verdade, sem nem pensar ou sentir culpa por isso.
    A realização me atingiu segundos depois.
    Eu não ria daquele jeito desde que chegara ali.
    Talvez desde antes.
    Johnny pareceu perceber.
    Porque seu sorriso diminuiu um pouco ficando mais suave e sincero.
    — Então isso é um não? — perguntou com expectativa.
    Inclinei a cabeça, ponderando sobre seu pedido.
    — Você já carregou alguém voando antes?
    — Claro.
    — E quantas dessas pessoas sobreviveram?
    — Todas.
    — Isso não foi uma resposta rápida o suficiente.
    ! — Johnny colocou uma das mãos sobre o peito, fingindo estar ofendido. — Estou sendo injustamente atacado.
    — Você literalmente pega fogo — fiz uma careta e ele continuou me encarnado como se eu lhe proferisse as piores ofensas.
    — E sou extremamente cuidadoso — estufou o peito. — Por que acha que eu tenho tantas fãs? Eu não sou só um rostinho bonito.
    — Isso parece mentira.
    — Dói ouvir isso — disse enquanto continuávamos caminhando.
    Por algum motivo, os corredores do Edifício Baxter pareciam menores quando eu estava conversando com ele.
    Ou talvez fosse apenas porque eu não estava pensando em portais, universos alternativos ou na possibilidade de nunca mais voltar para casa.
    Pela primeira vez em dias, minha cabeça estava quieta.
    — Você está pensando demais de novo — percebeu ele, diminuindo o passo.
    — Como sabe?
    — Porque você fez aquela cara de novo — e eu entortei o nariz outra vez.
    — Você é irritante, sabia?
    — E você continua andando comigo.
    — Infelizmente — fingi um suspiro desapontado, mas que pareceu não afetá-lo de nenhuma forma.
    — Eu prefiro acreditar que é por escolha.
    Meu coração tropeçou numa batida.
    Mas foi o suficiente para me deixar irritada comigo mesma.
    Johnny não pareceu notar. Ou fingiu não notar. O que, de qualquer maneira, era igualmente perigoso.
    Quando chegamos ao elevador principal, ele apertou o botão e se apoiou na parede ao meu lado.
    O silêncio que se instalou não foi desconfortável.
    — Ei — chamou ele depois de alguns segundos.
    — Sim?
    — Você foi incrível lá dentro.
    Virei o rosto para encará-lo, procurando algum resquício de ironia ou brincadeira. Mas tudo o que encontrei foi honestidade enquanto ele me observava como se eu fosse algo a ser admirado. Senti o coração errar outra batida.
    — Não fui nada — olhei para os meus próprios pés, me sentindo envergonhada.
    — Foi sim.
    — Eu só fiz o que sempre faço.
    — Talvez seja por isso que você não percebe.
    Meu peito apertou. Porque aquela frase parecia maior do que deveria.
    — Você passou horas fazendo coisas que ninguém entende, enquanto um cientista maluco anotava tudo freneticamente — disse ele enfiando as mãos nos bolsos.
    — Quando você coloca dessa forma... — mas ele não me deixou terminar.
    — Continua impressionante.
    Balancei a cabeça, tentando esconder o sorriso que insistia em aparecer.
    — Obrigada.
    — Disponha.
    As portas do elevador se abriram.
    E, por um instante, fiquei observando-o antes de entrar.
    A lista do que Johnny Storm era, era muito grande: arrogante, convencido, impulso, irritantemente bonito. Mas começava a existir uma nova palavra naquela lista.
    Confiável.
    — Eu tô começando a achar que você tá a fim de mim.
    — O quê? — arregalei os olhos.
    O pensamento desapareceu tão rápido que quase ouvi o som dele se espatifando no chão.
    — Tudo bem — ele deu de ombros. — Saiba que é totalmente recíproco.
    E piscou.
    Senti o rosto esquentar imediatamente.
    — Você é inacreditável.
    — Essa não foi uma negativa.
    — Johnny!
    — Estou apenas observando os fatos.
    — Que fatos?
    — Você estava me encarando.
    — Eu estava pensando — tentei me justificar, mas sabia que, àquela altura, era em vão.
    — Em mim — pude ver o brilho do seu próprio ego passar pelos seus olhos.
    — Não estava.
    — Estava sim.
    — Você é insuportável.
    — Mas bonito.
    Soltei uma risada incrédula.
    — Meu Deus.
    — Obrigado.
    — Isso não foi um elogio.
    — Eu escolhi acreditar que foi.
    Balancei a cabeça e entrei no elevador antes que ele conseguisse piorar a situação.
    O problema era que o sorriso continuava ali.
    E, quando as portas se fecharam, vi o reflexo dele no metal polido, sorrindo também, como se tivesse acabado de ganhar alguma aposta invisível.
    Voltei a observar os meus próprios pés enquanto o elevador subia e o silêncio preenchia o lugar.
    — Espera aí... — disse assim que percebi para onde o elevador estava nos levando. — Estamos indo para o terraço?
    — Você é muito inteligente, — respondeu Johnny com sarcasmo.
    — Não — disse indo para o fundo do elevador, como se isso pudesse me salvar da sua ideia idiota.
    — Por quê?
    — Porque a sua ideia continua sendo péssima — apontei o indicador para ele, que riu.
    — É uma ideia excelente.
    — Você quer me jogar do alto de um prédio.
    — Eu literalmente voo.
    — Continua não sendo reconfortante.
    Johnny suspirou dramaticamente.
    .
    — Johnny.
    — Você confia em mim?
    A pergunta me pegou desprevenida.
    Meu primeiro impulso foi responder não.
    Meu segundo foi perceber que seria mentira.
    Suspirei.
    — Isso é golpe baixo — resmunguei e quase bati os pés no chão como uma criança sendo contrariada.
    — Então é um sim? — A expectativa no tom de sua voz quase me fez achar aquilo bonitinho.
    — Talvez.
    — Eu vou aceitar como sim, então.
    Revirei os olhos ao ver o sorriso dele aumentando.
    — Você sabe que eu posso controlar a água, certo? — disse o óbvio enquanto passávamos pelas portas do elevador.
    — Sei.
    — E que posso me defender sozinha?
    — Eu vi tudo o que você fez antes, sabe?
    — E que, se você me derrubar... — ignorei o seu comentário e continuei levantando hipóteses.
    — Você vai me afogar.
    — Exatamente.
    — Então estamos seguros.
    Soltei uma risada sem conseguir evitar.
    Johnny deu um passo à frente e depois estendeu a mão.
    — Vamos?
    Olhei para a cidade. E depois para os prédios, as ruas e todo o movimento que estava lá embaixo.
    Aquele mundo que ainda não era meu. Mas que, aos poucos, começava a parecer menos assustador.
    Respirei fundo.
    E aceitei sua mão.
    O sorriso que surgiu no rosto dele foi tão genuíno que quase me arrependi imediatamente.
    — Não me faça me arrepender disso.
    — Nunca.
    E, antes que eu pudesse pensar sobre aquilo, as chamas começaram a percorrer seu corpo. Douradas. Vivas. Bonitas.
    Não me pareceram destrutivas ou assustadoras. Apenas... quentes.
    Johnny aproximou-se mais.
    Uma de suas mãos encontrou minha cintura, onde ele segurou firme e quente.
    Meu coração tropeçou muitas batidas, mais do que eu conseguia contar.
    Senti o calor dele irradiando próximo a mim quando me segurou pela cintura.
    E então voamos pelos céus de Nova Iorque.
    Continua...
    Nota da autora
    Sem nota.
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