Enquanto caminhava pela Clareira, pensava sobre aquele lugar, sobre o porquê de estarem ali e sobre não se lembrar de nada. Às vezes, pensamentos melancólicos tomavam conta de sua mente e a faziam ficar totalmente sombria.
— ! — alguém chamou a garota, tirando-a de sua melancolia.
Ela virou-se e viu um dos socorristas vindo atrás dela.
— Já está tudo certo. Se quiser ver como o Minho está, pode ir! — ele falou.
— Sim, vou. Obrigada por me chamar. — E lhe deu um sorriso.
Ela, então, se dirigiu à enfermaria e, quando estava prestes a entrar, encontrou Newt.
— Oi, Newt!
— Oi, ! — ele a cumprimentou rapidamente. — Desculpa a correria, mas as coisas com o Logan estão complicadas. Tenho que correr.
—Tudo bem... — ela respondeu, mas ele já estava longe.
seguiu seu caminho e foi até o quarto onde Minho estava.
— E aí, trolho? Como estão as coisas? — ela perguntou ao vê-lo.
— Bem, na medida do possível — ele respondeu, sorrindo. — Thomas saiu daqui tem pouco tempo. Ele disse que vocês ainda não se falaram.
— Verdade — disse ela, sentando-se ao lado da cama. — Não tô com paciência para conversar com ele agora e nem sei quando terei — completou. — Mas eu quero saber de você... Como será nos próximos dias?
— Pelo que me disseram, vou ficar inútil por alguns dias, mas, depois, vou poder voltar ao trabalho normalmente.
— Alguns dias? Quantos dias especificamente?
— Sei lá! Não deve ser mais de 2 semanas.
— Wow! Isso é um tempo razoável. As coisas estão tão ruins assim?
— Pelo que me disseram, a mértila da trepadeira me deu um corte de uns 5 cm de profundidade e, pra não correr o risco de infeccionar, vão me deixar mofando aqui por um tempo — falou e rolou os olhos, fazendo rir.
— Boa sorte nessa jornada! — ela disse, rindo.
Eles ficaram conversando até a hora do jantar.
foi até o refeitório, pegou sua comida e sentou-se a um dos mesões. Paz. Era tudo o que ela queria, naquele momento, mas é claro que isso era impossível.
Gally chegou e sentou-se ao lado dela.
— Desta vez, não é você lá na enfermaria, não é mesmo?
— Vá se ferrar, Gally.
— Oxe! Mas eu ainda nem comecei a te incomodar! — ele falou sarcasticamente.
olhou para ele com todo o ódio que tinha dentro de si. Como ele a irritava! “Que maldição!”, pensava ela. Gally devolveu o sorriso cínico a ela. Aquilo só aumentou o ódio que ela nutria por ele, mas ela sabia muito bem como fazê-lo parar. Era bem simples, na realidade: bastava envergonhá-lo.
Então ela aproximou bem seu rosto do dele e sussurrou:
— Você já parou pra pensar que, de todos os garotos aqui dentro, apenas 2 vão conseguir uma namorada? Porque as únicas garotas existentes nesta clareira somos eu e a Teresa, e, pelas minhas observações, você não agrada a nenhuma de nós, portanto tenha a plena certeza de que tem uma coisa que você é e que vai continuar sendo pelo resto da sua vida: VIRGEM. Então, se eu fosse você, pra tentar mudar seu triste cenário, começaria a tratar a gente melhor e a tratar os garotos bem também, porque nunca se sabe... — Terminou de falar, levantou-se e saiu triunfante, deixando Gally com cara de tacho.
Ela foi sentar-se debaixo de uma árvore, ali perto do refeitório mesmo. Ah, a paz... Finalmente, a paz! ficou lá e comeu calmamente. Quando já estava acabando de comer, viu Newt aproximando-se com um semblante cansado.
— Oi, Newt! Como estão as coisas?
— Complicadas — ele respondeu, sentando-se ao lado dela.
— Ele piorou tanto assim?
— Infelizmente — disse cabisbaixo. — Nosso medo, agora, é que a infecção piore a ponto de termos de amputar a perna dele.
sentiu um arrepio subir pela coluna.
— Espero, de verdade, que isso não seja necessário.
— Eu também. — Ele suspirou. — As coisas parecem que só correm para baixo.
— Pare com isso! É só uma fase. Garanto!
— Garante? — ele disse com um sorriso no rosto.
— Garanto! — ela falou firmemente. — Sabe, eu acredito que as coisas tendem ao equilíbrio: se tudo estiver bom demais, as coisas vão piorar; mas, se estiverem ruins demais, as circunstâncias tendem a melhorar. Tudo para manter um equilíbrio.
— Devo dizer que é uma boa filosofia de vida. — Newt falou.
— Você tá mais mórbido que o normal. O que aconteceu?
— Nada...
— Começou... Fala logo!
— Vi algumas coisas que não queria.
— Noooossaaa! Super esclarecedor!
— EU VI VOCÊ QUASE BEIJANDO O GALLY! — falou, exaltando-se. — SATISFEITA?
Wow! Aquilo foi um soco no estômago. Primeiro, ela não sabia que ele tinha visto aquela cena. Segundo, ELA NUNCA BEIJARIA O GALLY!
— EU NUNCA BEIJARIA O GALLY! — falou, exaltada e com nojo.
— Tem certeza? — Newt falou, magoadinho.
— Tenho.
— Então por que...
— Chega, Newt. Você me conhece muito bem pra saber que eu não beijaria o Gally.
— Sei? — Newt disse, e rolou os olhos.
— Não. Vou. Discutir. Com. Você — ela disse pausadamente e levantou-se.
— Eu também não vou discutir com você. — Newt disse, levantou-se e foi embora, deixando sozinha lá.
Ele estava PUTO da vida. Sabia que não deveria sentir ciúme dela, mas não podia evitar. Só a ideia de Gally beijando fazia seus músculos retesarem. Ela conseguia mexer com ele de um modo diferente. Conseguia deixá-lo com raiva, mas, ao mesmo tempo, deixá-lo bobo. Conseguia fazê-lo se sentir guiado e perdido, confuso e esclarecido. Tudo ao mesmo tempo.
estava confusa. Por que eles sempre discutiam? Por que não podiam passar um dia sem brigar? Por que ela se importava tanto com ele? Por que a opinião dele era tão importante para ela? Ela não tinha a resposta para nenhuma dessas questões.
Ela sentia que precisava fazer algo, que precisava resolver essa situação agora. Não podia deixar isso fermentar. foi, então, atrás de Newt.
Foi ao refeitório, aos dormitórios, à cozinha, à enfermaria... E nada.
— Droga, Newt! Onde você está? — falou a si.
Ela passou pelas portas do labirinto e ouviu o barulho dos verdugos andando por ali; sentiu um arrepio subir pela espinha e passou as mãos pelas paredes, sentindo-as tremerem levemente.
— Verdugos...
Ela deixou as paredes para trás e foi atrás do garoto.
Já estava para desistir quando o encontrou sentado perto dos Amansadores. Ele viu a garota se aproximando e desviou o olhar.
Ela foi chegando de mansinho
— Oi — falou com a voz baixa.
— Oi — ele disse rudemente.
— Posso me sentar? — Ele não respondeu. — Quem cala, consente... — ela completou e sentou-se ao lado dele.
— Por que você está aqui? — ele perguntou, após alguns minutos em silêncio.
— Não sei, só achei que deveria. — respondeu.
— Sabe, acho que isso não vai dar certo.
— Isso o que?
— Nossa amizade — ele disse. Aquilo atingiu como uma adaga em seu peito. Tudo bem que eles brigavam, mas amigos brigam, de vez em quando, não é? — Acho que não vale a pena insistir.
— Isso... Eu... — Ela não sabia o que dizer. Estava profundamente triste com a situação. Aquilo estava a magoando de verdade. — Newt... — falou baixinho, mais a si que ao garoto loiro que estava ao seu lado.
— , é que isso está ficando insustentável! A gente sempre briga. Ficamos mais tempos brigados que juntos, e isso não tá certo! Não é assim que uma amizade funciona.
— Eu sei, mas... A gente pode dar um jeito nisso. Não podemos?
— Como você disse, há um tempo, eu não vou mudar, e você também. Sabemos disso.
— Mas... Você é o meu melhor amigo, Newt! Você é a única pessoa que eu realmente confio aqui dentro! — ela disse, e o garoto fitou o chão. — Você é o meu porto seguro.
Ela não sabia como aquilo estava sendo difícil para ele. Ele gostava dela, de verdade, mas ficar brigando o tempo todo... Estava complicado.
— É que... E-Eu... Eu realmente gosto de você. Gosto mesmo. E não quero... Perder você. — disse a última parte mais baixo.
Newt olhou para ela, em choque.
UAU! Aquilo foi uma surpresa e tanto para Newt. Um baque. Saber que ela sentia o mesmo que ele... UAU!
— ... Talvez...
— ORA, ORA, ORA! VEJAM SE NÃO É O CASAL MAIS FOFO DA CLAREIRA! — Gally gritou, aproximando-se com sua pequena “gangue”. — Desculpem-me por atrapalhar esse momento tão lindo, mas tenho alguns assuntos a tratar com essa fedelha aí.
— Gally...
— Pode vazar daqui, Newt, ou vai acabar sobrando pra você — um dos “capangas” de Gally disse, aproximando-se da garota e, imediatamente, Newt se colocou entre os dois.
— Gente, isso não é necessário. Podemos resolver iss... — Foi interrompido por um soco na mandíbula, que o fez cair.
— Avisei pra você sair! — o brutamontes disse, depois lhe deu um chute na cabeça, fazendo-o desmaiar. — Agora, o caminho tá livre, Gally! — falou com um sorriso que deixou apavorada.
Ela tentou correr, mas um dos garotos a agarrou pela cintura e a jogou no chão. Gally aproximou-se e pisou na barriga da garota, fazendo-a ficar sem ar.
— Finalmente... — ele disse e lhe deu um chute nas costelas, tirando toda força que ela ainda tinha.
Ele, então, fez um sinal aos seus “capangas”, que a pegaram pelos braços e saíram, arrastando-a na direção dos retaliadores. Ela se debatia o máximo que podia e gritava, mas ninguém parecia ouvi-la. Ela estava apavorada. Newt estava desmaiado, e ela, sendo arrastada para um lugar horrível por pessoas horríveis. Os garotos largaram-na perto de onde estavam os machados e coisas do gênero.
— Podem sair. — Gally ordenou. — Agora é comigo! — completou, lançando um sorriso aterrorizante para a garota, que se encolheu no mesmo momento.
Os brutamontes saíram, deixando e Gally sozinhos no Retaliador. Ele agachou na frente dela e lhe deu um sorriso horrível mais um olhar de louco.
— Talvez devesse ter pensado melhor sobre como fala comigo, trolha... Agora, com seu namoradinho desacordado, não tem ninguém para te proteger. — Ele se levantou e pegou um dos facões.
— Gally, o que você está fazendo? — disse, apavorada. — Isso não é necessário! Podemos resolver isso sem a utilização de armas...
— CALADA! — ele deu um grito estrondoso. — Não quero ouvir sua voz!
— Gally, pense direito. Você está sob efeito de álcool... — ela presumiu pelo cheiro que ele exalava. — Não está pensando direito...
O garoto se aproximou muito rapidamente e colocou a faca no pescoço de , que congelou instantaneamente.
— Eu já disse que não quero ouvir sua voz! — disse sinistramente, por entre os dentes.
Logo depois, levantou-se e se virou para uma das bancadas, pegando a pedra de amolar. Neste meio tempo, se levantou e conseguiu correr por trás dele, saindo do Retaliador. Quando percebeu o que havia ocorrido, Gally gritou de raiva e foi atrás dela.
corria o máximo que podia, com um Gally armado em seu encalço. Ela ia em direção ao refeitório, esperando encontrar alguém pelo caminho, mas estava muito distante.
— SOCORRO!!!! — Ela gritava a plenos pulmões enquanto corria. — SOCORRO!!!! ALGUÉM ME AJUDA!!!
Ninguém apareceu.
— Ninguém vai te ouvir daqui, sua estúpida! — Gally gritava atrás dela.
Mas ela não se importava, nem que tivesse que ficar correndo dele durante a noite toda. Ela, então, continuou correndo e pedindo socorro quando ouviu Gally gritar e parar de correr. parou e se virou para ver o que havia acontecido, e deu de cara com um Gally desmaiado, com a cabeça sangrando, e uma Teresa com uma enorme pedra ensanguentada em mãos.
— Teresa...
— Você está bem? — Teresa disse, aproximando-se.
— NEWT! — correu em direção aos Amansadores. — Peça ajuda! — gritou para a outra garota enquanto corria.
Quando chegou aos Amansadores, viu Newt caído e desacordado com um fio de sangue saindo da lateral de sua boca. Seu coração quebrou. Ela se ajoelhou ao lado dele e começou a chamá-lo:
— Newt! Newt! Acorda, por favor! — ela dizia, mas ele não respondia. — Newt! — Agora, o balançava, aos prantos, mas ele não respondeu.
Ela, então, parou de balançá-lo e apoiou sua cabeça em seu peito enquanto chorava. Achava que tinha o perdido.
Teresa aproximou-se, junto com Thomas, e viu aquela cena. Sentiu em si o que a outra estava sentindo. Pôde sentir seu coração doendo enquanto via aos prantos sobre o peito do amigo. Ela, então, ajoelhou-se ao lado da garota e a abraçou, e, por mais incrível que pareça, retribuiu e pôde sentir as mãos de Teresa acariciarem seu cabelo como se dissessem “pode chorar, eu estou aqui”.
Segundos depois, ouviu Newt sorver uma grande quantidade de ar e tossir logo em seguida. Aquilo fez a alegria dentro dela transbordar. Ela soltou Teresa e abraçou Newt com força.
— ? — Quando percebeu que era ela ali, a abraçou de volta como se pudesse perdê-la, caso não o fizesse. — Você está bem? O que eles fizeram com você? — perguntava, sem soltá-la.
— Eu estou bem, Newt. — As lágrimas, que desciam de seus olhos, agora, eram a felicidade que não cabia dentro dela e estava vazando. — Por um momento, achei que tivesse te perdido... — ela disse, olhando nos olhos do garoto.
Newt, olhando dentro dos olhos castanhos e intensos de , percebeu que não podia e não queria deixá-la ir. Não podia deixar que o laço que os unia fosse desatado por briguinhas bobas. Ele queria poder protegê-la e... Amá-la... Ele a amava. Neste momento, então, subitamente, ele a beijou... E ela correspondeu.
— Eu... Eu acho que estou apaixonado por você. — Newt disse.
— Pois eu tenho certeza de que sinto o mesmo por você — ela respondeu, sorrindo, e o beijou logo em seguida.
Depois do fim
Algumas semanas se passaram, e e Newt eram oficialmente um casal. Brigavam? Bastante. Mas o que um sentia pelo outro fazia com que as brigas fossem irrelevantes.
Gally ficou preso no Amansador por 2 semanas e, além disso, foi “rebaixado” a aguadeiro, junto com seus comparsas.
Teresa e Thomas tiveram um pequeno avanço na relação. Mas o maior avanço foi o da amizade da garota com . Depois daquele dia, as duas se sentaram para conversar e abriram o jogo, uma com a outra, deixando tudo em pratos limpos e evitando qualquer possível conflito futuro, e, agora, eram amigas.
Minho se recuperou do ferimento e dizia, todos os dias, que faltava só uma garota para ele, para tudo ficar perfeito.
***
Certa manhã, enquanto tomavam um bom e merecido café da manhã, ouviram um barulho.
A caixa estava subindo.
, Newt, Minho, Thomas e Teresa foram até lá para receber o novo clareano. Entretanto, quando a caixa abriu, para a surpresa de todos, não havia um clareano, mas, sim, uma garota morena, de cabelo cacheado e óculos, que franzia o cenho com a luz do sol e com a situação em que estava.
se identificou.
— Bem-vinda à Clareira! Pronta para sair daí? — disse, lhe estendendo a mão.
Sentia que seriam grandes amigas no futuro.