Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 18/03/2026Bucky, impaciente, pressionou ainda mais o corpo de contra a parede, com a mão de metal prendendo os pulsos da mulher acima da cabeça, enquanto a outra mão explorava sua cintura com uma fome que só o tempo e a saudade sabiam alimentar. Não era a primeira vez que eles cediam um ao outro, mas, dessa vez, Barnes parecia querer devorá-la, como se algo dentro de si houvesse mudado. Ela apenas não sabia o que era.
— Isso não é certo… — ela sussurrou com os olhos fechados, como se tentasse se proteger do que sentia. — Eu preciso ir embora… Ah, James.
James. Era curioso o fato dela usar o seu primeiro nome de forma tão doce. Não Sargento Barnes, Bucky ou Soldado. Não. Apenas James. Como se ela enxergasse todas as suas camadas expostas ali. Era intrigante o quanto um nome podia deixá-lo tão atordoado, completamente louco por ela.
— Nunca foi, boneca — ele murmurou contra sua boca, respondendo sua primeira pergunta, antes de puxá-la de volta para um beijo urgente e brutal, que exigia tudo o que ela não conseguiu negar.
Aquela era uma clara resposta que ele não a deixaria ir embora. Ela sabia que precisava sair dali urgentemente, pois nem em sua cama ela deveria deixar rastros. Era uma missão invisível, implacável e rápida, que se transformaram em dias de sexo e conexão intensa com Bucky. Ambos quebrados, precisando extravasar e escolhendo a pior maneira de se aliviar do estresse em que estavam. Mesmo com todos estes agravantes, era perceptível a química entre eles, que era como pólvora exposta: um toque, e o incêndio começava. Como se fossem incapazes de não incendiarem um ao outro.
E talvez não fossem.
Ele pressionou seus corpos e a levou até a cama, como se ela fosse a única coisa que ainda fizesse sentido num mundo em ruínas. A camisola fina que ela usava caiu ao chão com a mesma facilidade com que seus muros desabavam diante dele. Não era assim com Sebastian, não era assim com nenhum outro homem que tinha noites casuais. E não deveria ser assim com Bucky. Tudo que era sobre ele a deixava em uma névoa de confusão e angústia, mas agora substituídos pela ardência do desejo e tesão que sentia.
O metal frio do braço dele encontrou a pele quente dela — e ela estremeceu, não de medo, mas de prazer. Ele deslizou por toda a pele macia da mais nova, que se arrepiou com o toque e não pôde deixar de arfar com o ato, soltando um leve gemido.
— Você quer mesmo ir embora? — ele sussurrou em seu ouvido, enquanto os lábios percorriam seu pescoço, traçando um caminho de lembranças pelo corpo dela.
Ela não respondeu com palavras. Apenas gemeu. Apertou os lençóis e arqueou as costas conforme ele a devorou, gravando memórias permanentes em sua pele, como se soubesse que aquela noite jamais voltaria. Ela sabia que aquilo não podia se repetir. Nunca mais. Ele a conhecia demais. Sabia onde tocar, como pressionar, como puxar os cabelos dela no exato ponto em que o controle virava delírio. Se sentia em um tiroteio sem coletes à prova de balas. Como se a qualquer momento Bucky fosse atacá-la.
E talvez fosse. Mas foda-se. Ela precisava daquilo uma última vez.
As mãos dele ainda estavam cravadas na cintura dela, como se quisessem impedir o tempo de avançar. A respiração de ambos era descompassada, misturada ao calor abafado daquele quarto clandestino, em que o desejo queimava mais forte que qualquer presente.
O gosto dele ainda estava em sua boca. Ela o observou por um segundo a mais — olhos nos olhos, como se quisesse gravar aquilo na pele. Havia algo de desesperadamente humano naquele silêncio: uma súplica muda, uma rendição que nenhum dos dois ousava nomear.
Algum tempo depois, finalmente se vestiu, lutando contra seus desejos e ambições. Lenta, precisa. Como se cada gesto fosse uma armadura voltando ao lugar. Quando virou de costas, ele não tentou impedi-la. Não houve adeus. Nem promessas. Sequer uma olhada para trás. Apenas o som dos saltos dela ecoando pelo corredor de concreto e o rastro de um desejo que jamais teria fim.
Ele queria dizer "fica, mesmo sem mensurar quais seriam as consequências". Ela queria ficar e finalmente cultivar um sentimento normal por alguém. Mas nenhum dos dois disse nada. Ela nunca mais atendeu as ligações de James. E ele nunca mais foi o mesmo.
Não depois de conhecer Valdez.
O som grave da batida em reggaeton vibrava nas paredes vermelhas da Infernum, a nova boate mais exclusiva — e criminosa — de Madripoor. Do lado de fora, os becos fediam a bebida e sangue, com alguns drogados e pedintes à beira da marginalidade. Lá dentro, contudo, havia luz vermelha, luxúria e perigo disfarçado de diversão, com muitas mulheres seminuas à disposição. Além do bom e velho contrabando de drogas e armamento.
observava do alto da sacada interna, com o copo de uísque em mãos, enquanto dançarinas mascaradas se misturavam ao público embriagado e entorpecido de prazer. Sua postura era elegante, mas seus olhos estavam particularmente inquietos naquela noite. Talvez fossem os hormônios dos homens à sua volta que a deixavam louca. Ou talvez porque ela simplesmente não gostava quando Luther sumia por mais de uma hora sem dar sinal — ainda mais com uma nova carga chegando. Normalmente, ela era a responsável por tais questões, graças ao fato de ser extremamente controladora e metódica em todos os aspectos. Por isso, odiava depender dos outros em qualquer que fosse a circunstância. Mas algo estava deixando inquieta. Por isso, ela preferiu ficar na Infernum e observar o movimento, pelo menos por ora.
— Achei que fosse você que mandava aqui — disse Sebastian, se aproximando por trás, com um sorriso torto, carregado do tom de provocação familiar. — Desde quando deixa Luther brincar de trabalhar?
não se virou, apenas apreciando o delicioso aroma de uísque que Casanova exalava. Sebastian era deliciosamente sedutor, mesmo que ela não pudesse vê-lo naquele momento. Apenas sua voz causava-lhe arrepios, a fazendo suspirar de tensão.
— Eu ainda mando, Casanova. Mas não posso fazer tudo sozinha o tempo todo.
Ele riu e pegou o copo dela, atraindo a atenção dos olhos âmbar para si. Assim como , Sebastian sempre se vestia majoritariamente de preto, com peças em couro um tanto quanto sensuais. Os cabelos negros caíam em camadas e os olhos castanho claros destacavam-se com o lápis de olho — acessório que Casanova particularmente adorava usar. De qualquer forma, ele estava sedutor como costumava ser em todas as noites. Do jeito que ela costumava não resistir.
— Às vezes esqueço como você fica linda quando ‘tá irritada, Vênus. — O homem segurou sua cintura, se sentindo tentado pela altura da minissaia. Prensou ela entre seu corpo e a parede do camarote. — Mas só vim avisar que a carga chegou. Luther disse ter um problema e pediu para irmos até o galpão verificar pessoalmente.
bufou. Se a tarefa tivesse ficado sob sua responsabilidade, a carga já estaria íntegra e armazenada no local correto, pronta para ser transportada no dia seguinte. Mas Luther era sempre assim, meticuloso, contrastando completamente com o resto de seu time, que era puramente reativo e violento. Sebastian, contudo, percebeu a irritação da mais baixa, passando devagar o polegar sobre seu lábio inferior.
— Calma, docinho. Você anda muito impaciente.
— Sem porra de docinho, Marte — ela respondeu, levemente irritada. — Vamos logo resolver isso.
Sebastian sabia que ela odiava aquele apelido. costumava desprezar algumas interações românticas, entre elas, apelidos. Aquilo também não era do feitio de Sebastian Casanova, mas ele tinha um prazer particular em irritá-la. E frequentemente obtinha êxito, graças à curta paciência de . Com sorte, a irritação se transformaria em tesão violento mais tarde.
Deixando a provocação do colega de lado, desceu os olhos até o palco principal e viu Julie se livrando de dois caras sozinha — nada novo sob o sol. Era geralmente tarefa dela dar um jeito nas brigas, já que era uma das mais fortes em combate corporal. Do outro lado do salão, Luther finalmente apareceu com um dos seus ternos brancos impecáveis, recepcionando alguns computadores, mas aparentemente suado e tenso. Com todos restabelecidos em seus devidos papéis, com exceção de Karyn — que pouco importava para —, ela se viu pronta para começar a agir.
Ambos saíram discretamente de onde estavam e desceram as escadas, caminhando rapidamente para atravessar o salão. Graças aos poderes que tinham, conseguiam passar despercebidos, quase que invisíveis aos olhos civis, o que era extremamente benéfico para os negócios.
Alguns cidadãos frequentavam a Infernum pelas bebidas importadas, outros pelas damas extremamente convidativas, mas outros, os mais importantes, iam fazer negociações, grandes e notórias. Há alguns anos, o grupo conseguiu transformar aquele local em um ambiente propício para tais convenções, que exigia o máximo de discrição, ultrapassando até mesmo o Mercador do Poder. E a melhor parte era que eles conseguiam permanecer desconhecidos até então, usando seus codinomes: Venus, Marte, Apolo, Ártemis e Juno. Era um plano integralmente perfeito, considerando a segurança, o poder e a influência que conseguiram alcançar.
, focada, passou pela multidão com a escolta de Sebastian, já que nenhum homem ousaria tocar ou se dirigir a ela com a proteção de Casanova. Mesmo com os cabelos caindo em cascatas, macios e sedosos, com a pele amplamente exposta pela minissaia e aquele ar sedutor de sempre, ninguém ousaria abordá-la. Não apenas por Sebastian, mas pelo seu olhar fatal e sensual.
Sebastian, por sua vez, também não passava despercebido. Seus músculos marcavam de forma nada discreta em sua camiseta, deixando todas as mulheres ao seu redor interessadas. E homens também. Ele tinha esse efeito de encantar por todo lugar que passava — e sabia se aproveitar disso.
Após cruzarem todo o ambiente barulhento, deu o comando para acessar a área VIP. Havia uma cortina vermelha que separava a área das demais, além de dois capangas enormes à frente. Por conhecê-los, os seguranças liberaram ambos, que prontamente adentraram o pequeno cubículo. A sala seguinte era bastante moderna, toda em metal nobre, e possuía uma identificação biométrica que prontamente fez a leitura da íris de . A porta metálica revelou a passagem para uma garagem subterrânea, com os milhares de carros que utilizavam.
escolheu a Porsche e prontamente ela e Sebastian foram em direção ao galpão. Para não chamarem a atenção, como a Infernum já ficava na região de Hightown, o galpão era em uma área pouco vigiada de Lowtown. Mas, felizmente, o trajeto não contava com um longo percurso. De fato, estava um pouco irritada enquanto dirigia, já que Luther poderia ter resolvido aquele descarregamento, ou tê-la deixado agir caso não o quisesse. Como sempre, no entanto, ela tinha que se encarregar de tudo — e aquilo era extremamente exaustivo.
Contudo, Valdez deixou a irritação de lado assim que estacionou, poucos minutos depois. Sebastian e desceram do carro e se estreitaram em um beco escuro da cidade baixa. sentiu uma vibração estranha no ar, mas ignorou inicialmente. Talvez devesse ser apenas o vento gelado em meio ao vestido minúsculo.
— Você pode ir na frente, docinho.
revirou os olhos, ignorando a perversão de Sebastian. Subiu as escadas devagar, tentando não fazer barulho com os saltos altos. Estavam em uma região que parecia precária e abandonada, mas, por dentro, guardavam muita tecnologia. Sebastian permanecia na escolta, posicionando sua mão ao coldre da arma, mesmo que não precisasse dela para se defender. A mais nova destrancou a pequena porta com um cartão magnético, e quando o sensor deveria pedir novamente um leitor biométrico, ele não o fez. Isso gerou estranhamento na mulher.
— O sistema de alarmes está desativado — ela comentou, desconfiada.
Sebastian bufou, revirando os olhos. Desde o início da noite percebeu a impaciência da mais nova, mas estava começando a se irritar com ela.
— Deve ter sido só o idiota do Luther, . Vamos logo.
Ela deu de ombros, bufando um pouco. Ambos adentraram o local e as luzes se ligaram. As milhares das caixas de vibranium estavam ali — menores, compactadas, blindadas. Nada no sistema acusava a entrada de militares ou intrusos, fez questão de checar de forma minuciosa em seu Apple Watch. Mas algo naquela entrega parecia… estranho.
— Isso não ‘tá certo — comentou Sebastian, abrindo uma das caixas de amostra. — É como se alguém tivesse mexido na estrutura molecular. Até a coloração está estranha, não é?
andou em direção ao enorme painel, que era inteiramente digitalizado. Quem observava de fora, jamais imaginaria a riqueza que havia lá dentro, além de, claro, toda a tecnologia. Ao passo que analisava os dados no grande computador, suor escorria em sua nuca, algo estava deixando-a particularmente tensa naquela noite. Seus hormônios não estavam controlados. Os detalhes da entrega constavam como comuns, os alvos foram abatidos e a carga extraviada. Como e por que a carga parecia alterada se nada havia acontecido fora do previsto?
— … Isso aqui não tá com cara do tráfico de metal comum que conhecemos, alguém interceptou isso antes e nos deixou saber, como se fossem rastros. Eu ‘tô intrigado com essa merda. — Sebastian continuava tagarelando e levantando hipóteses.
Ela olhou pra ele com uma sombra nos olhos — a primeira vez que deixava transparecer medo. Receio por várias questões, dentre elas, o que o governo poderia querer com eles após mais de uma década. engoliu em seco, digitando mais algumas informações no painel digital à sua frente.
— … Se eles conseguirem reproduzir… Quem sabe do que serão capazes? — começou Sebastian, tomado pela ansiedade. — Deveríamos ligar para Apolo e…
Valdez respirou fundo, encarando o mais alto. Ele estava claramente nervoso. Mesmo que fosse de falar, aquilo era incomum para Sebastian. Como se sentisse algo, pressentindo algum mal existente. Mas era racional. Não precisava de uma situação ainda mais tensa, por isso, o encarou nos olhos antes de cortá-lo:
— Não acho que essa seja nossa maior questão, Casanova. — recostou, cruzando os braços. Havia entendido o porquê Luther não se intrometeu com aquele descarregamento, ele sabia que havia algo errado antes mesmo de averiguar. — Você já pensou que eles podem… Estar vivos? Acho que esse não é o momento de alertarmos todo o grupo.
Sebastian engoliu em seco. Deixou a pequena amostra do tubo de volta na caixa, a encarando, antes de respondê-la:
— Eu não sei. Mas se estão... Significa que o governo pode estar alinhado com quem fez essa entrega… E que retomaram a Iniciativa. E pior: sabem onde estamos. Isso foi um recado.
Ela não teve tempo de terminar o raciocínio proposto por Sebastian, em vista que percebeu um sussurro. Talvez já estivesse lá, mas a tensão não permitiu que ela ouvisse. fez menção para Sebastian ficar calado, levemente incomodada com a ideia de poder haver outras presenças ali. Pela primeira vez em tempos, sentiu a adrenalina real correr por suas veias, além, é claro, de uma explosão de testosterona.
Quem quer que fossem os homens que estavam ali, não haviam chegado em um bom momento.
A chuva caía fina, persistente, tornando o beco ainda mais escuro e úmido. Sam Wilson esperava sob o toldo de uma loja abandonada, com a mão no coldre e os olhos alertas. O traje usual de Capitão América, projetado exclusivamente para ele, deixava imponente — mesmo com as asas nada discretas acopladas em suas costas. Joaquin tagarelava algo em seu ponto, o deixando levemente impaciente, mas optou em permanecer calmo, por ora. Aquela investigação paralela exigiria muito da sua concentração.
Quando os passos ecoaram no fundo do corredor estreito do beco, no entanto, ele nem se virou. Já aguardava que em algum momento eles fossem se encontrar, só não imaginou que seria ali, diante daquele tipo de situação.
— Já era hora.
Sam ouviu uma risada levemente sarcástica ao fundo, ao passo que a figura se aproximou dele. Os olhos azuis estavam frios e distantes graças aos últimos acontecimentos entre “ambos”, mas, mesmo assim, se encararam. Havia uma certa distância naquela troca de olhares, somada a uma desconfiança que não era usual de James e Samuel.
— Você nunca teve paciência — respondeu Bucky, emergindo das sombras com a jaqueta estampada encharcada. Seu olhar permaneceu glacial, longe de encará-lo como um amigo, como era costumeiro. — Achei que o novo Capitão América fosse mais equilibrado. Isso não é do seu feitio, Wilson.
Sam virou de leve, sem esconder o escárnio no canto da boca. Ele até tentaria ignorar a ironia, se não fosse aquele maldito uniforme ridículo que Bucky trajava, com um enorme A estampado em seu peito. O novo visual remetia tudo que Wilson detestava naquela formação de equipe, que causaria aversão aos Vingadores originais. Era quase que ultrajante para ele ter de observar um amigo tão querido naquela posição, ainda mais aliado aos interesses governamentais.
Sam estava em um conflito interno desde os últimos ocorridos entre Sterns e Thaddeus Ross. A aparição do Hulk Vermelho, a briga pelo adamantinum, a preocupação entre Isaiah e Joaquin consumiram os últimos meses de Wilson em um embate emocional desgastante. Bucky estava a par — e era por isso que Samuel estava tão chateado. Descobrir que o amigo se juntou a uma figura que Sam desprezava (em vista do histórico nada leal de Valentina), o deixava chateado.
Bucky e Sam, apesar de todas as circunstâncias, compartilhavam um laço que ia além das batalhas travadas lado a lado. Não era apenas camaradagem — era confiança construída com suor, perdas e decisões difíceis. Eles já haviam se salvado mais de uma vez, e, mesmo nas diferenças, existia respeito mútuo. Por isso doía tanto. Doía ver Bucky se alinhar a algo que Sam julgava como tudo o que eles prometeram jamais se tornar. A escolha do amigo parecia uma quebra silenciosa dessa promessa, e Sam ainda não sabia se conseguiria perdoá-lo por isso — ou não sabia se queria.
— E eu achei que o antigo Soldado Invernal tivesse aprendido a escolher melhor os aliados. Tá trabalhando pra Valentina agora, deputado?
Bucky finalmente parou a poucos metros, os braços cruzados, como se ponderasse o quanto queria respondê-lo com algo grosseiro. Mesmo com o remorso, não queria brigar com Sam. Ele não entendia suas motivações, e mesmo se quisesse explicar, ele não permitiria; já havia tirado suas próprias conclusões sozinho. Isso obviamente frustrava James, já que uma das poucas pessoas com quem compartilhou parte de seus sentimentos fora Sam Wilson.
— Não é tão simples assim. O alerta também veio de Wakanda, Okoye falou comigo. Você sabe que eu os devo minha lealdade — Bucky enfatizou, suspirando frustrado. — Eles estão muito preocupados com essa questão, ainda mais com a questão do adamantinum.
— … E você atendeu como bom cachorrinho da Condessa — Sam rebateu, seco, prosseguindo sua fala sem se importar com o que Barnes dizia. Seu tom carregava ironia e escárnio, ainda uma raiva reprimida do amigo. — Enquanto isso, eu tô aqui tentando entender por que o governo anda apagando rastros demais. Gente sumindo, bases abandonadas… e tudo aponta pra essa cidade podre. Mas, como sempre, eu tô tentando fazer a coisa certa, mesmo que isso signifique bater de frente com quem deveria ser aliado.
Houve um momento de silêncio denso. A chuva preenchia os espaços entre as palavras não ditas, ao passo que a noite escura se fazia protagonista daquela discussão.
— Acha que eu gosto de trabalhar com ela? — Bucky perguntou com a voz baixa, carregada de algo entre culpa e raiva. — Isso é maior do que nós dois. Você nem sabe o que aconteceu. Sequer deixou que eu me explicasse.
— Ela te colocou uma coleira e você deixou. Foi isso que aconteceu. Não preciso saber de nada além disso.
O olhar de Bucky cortou como navalha. Ele finalmente aproximou-se o suficiente de Sam para iniciar uma briga se quisesse. Ambos se encararam no fundo dos olhos, mas não houve nenhum tipo de ataque. Apenas fúria.
— E você ainda acha que é o único com senso moral aqui? Tá sozinho nessa, Sam. Não é mais Vingador, não tem mais equipe. Não tem mais Steve. As coisas não são mais como antes. Poderíamos ser aliados, mas você não quer jogar no mesmo time.
Sam deu um passo à frente, respirando fundo, como se lutasse contra o impulso de socar algo — ou alguém. Alguém específico demais. No entanto, fechou as mãos em punho e praticamente rosnou contra o amigo.
— E você? Tentando preencher o vazio com ordens da Valentina, se agarrando ao que restou do seu passado. Me poupe.
Um silêncio venenoso se instalou entre os dois. Denso, carregado de tudo o que não foi dito. Mas não era hora de resolver aquilo. Não ali. Não naquele momento. Seria idiotice alimentar aquela briga de ego e remorso, por mais que os dois estivessem à beira do estouro.
Bucky, entretanto, deu um passo para trás, desviando o olhar. Havia algo quebrado em sua expressão — não de raiva, mas de mágoa. Aquelas palavras o atingiram fundo, como uma flecha mal direcionada, mas certeira. Mesmo que fosse impensado, o comentário de Sam o desmontou por dentro. Sabia que o amigo estava tentando ferir, assim como foi ferido, mas fora pego desprevenido. Até um homem de armadura — ou braço de vibranium — se machucava às vezes.
— A entrada da base é a dois quarteirões daqui — disse Sam, finalmente, com a voz fria. — Joaquin tá no ponto, dando cobertura. Se algo sair do previsto, ele entra com o protocolo sombra.
Barnes suspirou, encarando o relógio digital em seu pulso direito:
— Já escaneei. Dois níveis subterrâneos. Desativei as câmeras com um recurso silencioso mais cedo. Alarmes desintegrados.
Eles caminharam juntos, lado a lado, em silêncio tenso. Naquele momento, eram parceiros forçados. De novo. Mas algo estava errado. O ar parecia mais carregado, como se alguém estivesse ali. Bucky parou de repente, sentindo uma tensa familiaridade no ar.
— Espera. Você sentiu isso?
Sam não respondeu, apenas adentrou o galpão de fachada discreta. Bucky o seguiu, mesmo à contragosto, brutalmente impressionado com as instalações. Fora bastante difícil invadir aquele sistema, e ele entendeu exatamente o porquê. As paredes eram reforçadas em metal e vibranium, e o espaço era muito maior do que pensavam. Em passos lentos, desceram as escadas que os levaram até os andares subterrâneos, com o mesmo estilo de decoração ampla e moderna.
“Sam, tô no ponto aqui, mas o sinal tá falhando — Joaquin avisou, a voz firme, mas carregada de preocupação. — Tem alguma coisa bloqueando a entrada do sinal, parece interferência pesada. Se alguém ou algo tá ali, não vai permitir nosso acesso fácil.” Torres disse a Wilson, em meio a uma voz eletrônica e levemente cortada pela interferência.
O corredor pelo qual caminhavam estava frio e úmido, proveniente dos vários ar condicionados que havia no local. O som do metal arranhando o chão ecoava a cada passo de Sam e Bucky, ambos atentos, mas com o rosto fechado em uma concentração pesada. O plano era simples: infiltrar, hackear o sistema, descobrir o que ou quem estava fazendo com aquela quantidade infinita de vibranium ou rastreá-lo... Mas algo no ar estava errado. O silêncio era opressor demais, como se o lugar estivesse esperando por algo.
Ou alguém.
— Não tem nada aqui — Sam falou, quebrando o silêncio. Ele ajustou o escudo nas costas, franzindo a testa. — Isso não parece certo. Joaquin?
Sam tentou chamar Torres, mas fora em vão; o sinal havia se perdido. James sentia, mais do que via, que algo estava por trás da quietude, algo se aproximando. Ele sabia que não estavam sozinhos, pois a inquietação não permitia ignorá-lo. De repente, uma luz piscou e estourou com um estalo elétrico. O estalo reverberou pelas paredes do corredor, e uma sombra apareceu na esquina à frente deles.
Sam se assustou, virando violentamente para frente. Piscou algumas vezes quando percebeu a sombra tomando forma, revelando uma figura feminina caminhar até eles.
Ela estava ali, para o completo desprazer de Bucky Barnes. Estava como sempre fora, linda, com roupas pretas e apertadas — além do salto altíssimo, seu traje usual. O perfume doce e sedutor exalava de tal forma que, mesmo com a distância, eles conseguiam sentir sua presença. Seus olhos levemente puxados e seus lábios vermelhos ainda eram os mesmos: cínicos e sensuais, despertos em um sorriso sacana ao observar sua expressão facial.
Sam não parou no lugar, pegando o escudo em mãos, pronto para o combate. Mas Bucky ficou parado, com os olhos arregalados, e o coração batendo de forma irregular. Ele a reconheceria em qualquer lugar do mundo. Aquela presença, aquele olhar, eram inconfundíveis. Aquele maldito sentimento de impotência que tanto tentou se livrar.
A mulher, no entanto, deu um passo à frente, fazendo a tensão no ar se intensificar. Seus olhos âmbar eram frios como gelo, e o sorriso no rosto parecia quase cortante de tão letal. Quando ela falou, sua voz dela parecia flutuar no ar, aveludada, mas venenosa:
— James Barnes… Não posso dizer que é um prazer revê-lo.
Sam engoliu em seco, encarando Bucky, tentando entender o que estava acontecendo. Mas Bucky estava imóvel, as palavras parecendo faltar em sua boca. Vênus, no entanto, olhou para Sam, ao passo que seus olhos brilharam em uma curiosidade calculista. Wilson prontamente atacou o escudo em sua direção, mas a garota prontamente conseguiu pará-lo com a mão esquerda.
— Eu não sei o que vocês acham que vieram fazer aqui… Mas vocês vão embora. Agora.
Sem aviso, ela ergueu a mão lentamente, deixando os dedos curvados com uma leveza assustadora, como se estivesse brincando com a gravidade. Bucky estremeceu com o leve gesto. O mundo ao seu redor parecia ficar mais pesado, e então ele... travou. Não era apenas uma sensação de paralisia. Era como se cada músculo de seu corpo estivesse sendo pressionado por algo invisível, como se a energia que o fazia se mover tivesse sido retirada dele. Ele não podia respirar direito. Não podia se mexer. Não podia fazer nada. Estava impotente.
— Que merda é essa? — Sam gritou, tentando entender, mas as palavras pareciam pesadas demais para sair.
Sam deu um passo para trás, mas antes que pudesse reagir, algo invisível o atingiu. Uma força sutil, mas brutal, o fez cambalear para frente, e ele caiu de joelhos com um gemido. A respiração dele se descontrolou de repente, e ele sentiu uma náusea crescente. Tudo o que ele podia fazer era olhar para Bucky, que estava estirado no chão com os olhos vazios. Apesar das asas tentarem defendê-lo, fora em vão. Joaquin falava coisas incompreendidas no ponto, ao passo que a cabeça de Wilson apenas doía.
Ela avançou, observando os dois no chão de braços cruzados, praticamente indiferente. Cada passo dela parecia fazer o ambiente tremer. Não havia pressa, como se estivesse dançando uma coreografia sensualmente mórbida. Ela se aproximou de Bucky, se agachando lentamente até ficarem à mesma altura, já que Barnes estava ajoelhado com alguns fios de cabelo no rosto. A visão dela, com os olhos brilhando de uma intensidade ameaçadora, estava agora a centímetros do rosto de James. A respiração dele estava pesada, os pulmões parecendo não conseguir captar ar.
— Eu avisei, James — ela sussurrou com um tom baixo, quase mortal. — Eu avisei para não me procurar novamente.
Com um leve movimento de seu pé, ela levantou-se e o empurrou para trás, fazendo Bucky cair de costas no chão com um baque surdo. Ele tentou levantar, mas as mãos tremiam. O que ela tinha feito com ele? Não havia dor, mas uma sensação de perda total de controle. Como se o oxigênio faltasse de seu peito. Como se ela sequer se importasse.
Sem esperar mais, ela se levantou e deu um passo para trás, olhando os dois com um olhar de desprezo. Com um movimento devagar, Bucky tentou relutar, mas ela apenas sorriu de forma cruel. Deixando que ele caísse sobre o chão gelado, permitiu que sua bota de salto agulha descesse com precisão sobre o pescoço de Bucky. Ele sentiu a pressão imediata, o ar faltando, mas não conseguia reagir. A sensação de sufocamento era real, mas ao mesmo tempo ele sentia uma eletricidade percorrendo sua pele, o calor de uma presença dominadora que lhe arrancava qualquer desejo de reação.
Sam, por sua vez, mal conseguia mover os olhos, em sensação de desamparo e desespero.
— Eu só vou deixar vocês vivos porque sou generosa — ela disse, voz baixa e letal, como quem fala com um animal teimoso. — Mas da próxima vez que se meterem aqui, não esperem misericórdia. Vão se arrepender amargamente.
Ela levantou o pé calmamente, como se tivesse acabado de pisar em algo insignificante, e se afastou, sem pressa, sem olhar para trás. Seus passos ecoaram na sala vazia, enquanto ela deixava Sam e Bucky no chão, imersos em um silêncio gélido, quase sepulcral. Havia um homem atrás dela, observando tudo com um sorriso malicioso no rosto. Sua face era desconhecida, mas seu prazer em observar aquela situação era claramente notável.
Sam, ofegante, tentou se levantar, mas seus músculos estavam doloridos. Ele encarou Bucky, que ainda estava respirando pesadamente, os olhos fixos no vazio. Demorou alguns longos minutos antes que formulasse uma frase que fizesse sentido, como se estivessem entorpecidos, drogados ou bêbados de uma substância desconhecida e sufocante.
— Bucky… — Ele hesitou, olhando para o amigo, a expressão desconfiada. — De onde… de onde vocês se conhecem? Ela parecia saber exatamente quem você era… Quem é essa mulher? E o que ela fez com a gente?
Bucky não respondeu de imediato, mas seu olhar estava distante. Havia um terror silencioso em seus olhos. Algo dentro dele sentia que a presença dela era diferente. Que a mulher que acabara de deixá-los caídos no chão não era uma ameaça comum. Ela não era apenas alguém com poder. Ela era algo maior do que a ameaça que investigavam. E ele não sabia de tamanha intensidade quando a conheceu há alguns anos.
— Sinceramente? Você não quer saber — Bucky respondeu, a voz grave, como se quisesse pôr um ponto final no assunto. Ele deu um passo à frente, evitando o olhar de Sam. — E nem eu.
Sam ficou em silêncio por um instante, o olhar de Bucky não deixando espaço para mais perguntas. Mas ele sentiu que algo estava errado, algo que Bucky não estava contando. No entanto, a resposta de James foi tão evasiva, tão carregada de mistério, que Sam sabia que agora não era o momento certo para continuar pressionando.
Com um suspiro frustrado, Sam apenas observou Bucky se afastar em passos lentos, sentindo que havia mais naquele jogo do que ele imaginava.
A conexão era limpa, mesmo com o atraso de algumas horas entre os fusos horários das regiões de Wakanda e Madripoor. A imagem de Okoye surgiu em uma pequena projeção holográfica emitida pelo dispositivo wakandano sobre a mesa do hotel abandonado em que Sam e Bucky escolheram se abrigar naquela noite; não por opção, mas por necessidade. A carga de vibranium havia sumido conjuntamente às pessoas que os desviaram dali.
A imagem da Dora Milaje parecia desgostosa. Apesar de estar milimetricamente alinhada, como sempre, com a pele reluzindo de forma natural e aquela aura dominadora com o semblante sério, era notório o quanto Okoye performava decepção. Wakanda sempre fora uma sociedade discreta, que protegera seus bens e população, e nem mesmo os Estados Unidos conseguiram perturbar tanto a paz daquela nação quanto aquele maldito grupo de jovens. Quem eram aqueles que haviam conseguido tirar as coisas dos eixos após tantos anos?
— Capitão Wilson — ela começou, a voz firme como sempre, em um tom incisivo e mandão. — Sabemos que você está com Barnes. E suponho que ele também saiba que não estamos fazendo essa chamada por acaso.
Sam lançou um olhar breve para Bucky, que estava encostado na parede, com os braços cruzados e expressão impassível. James havia passado por um desgaste emocional suficiente estando na equipe dos Novos Vingadores pelo comando da insuportável Valentina Allegra de Fontaine. Não precisava de outra mulher mandona tirando-lhe do sério naquele momento — por mais apreço e admiração que tivesse por ela.
— Sabemos que houve movimentação de vibranium em Madripoor. Níveis detectáveis apenas com nosso tipo de tecnologia — continuou Okoye, sem cerimônia. — Precisamos que prossigam com a investigação. As coordenadas foram enviadas, apesar do rastreio ter sido desativado. E esperamos a cooperação de ambos. Afinal, Wakanda esteve presente quando vocês precisaram.
O holograma se apagou sem espaço para discussão ou até mesmo um suspiro. Era uma ordem travestida de pedido. Não havia nada político ou pacífico ali. Sam, no entanto, passou a mão pelo rosto, cansado, ao passo que Bucky bufou.
— Isso não foi sutil — murmurou, antes de virar-se para Bucky com uma expressão mais dura, com o corpo retesado.
Bucky observava o mofo das cortinas. Os quadros caíam aos pedaços, ao passo que a lâmpada amarelada piscava ritmadamente. A camurça nas paredes era embolorada, talvez tivesse a mesma idade de Barnes. Refletir sobre todas aquelas banalidades era menos duro do que encarar a realidade que viviam: correndo em círculos por uma mulher altamente perigosa, que parecia voltar para infernizá-lo mais uma vez.
— Bom, agora que estamos com tempo… — Sam finalmente se dirigiu a James, cruzando os braços. — Quem era ela?
O antigo Soldado Invernal ficou em silêncio por um momento, como se pesasse o que podia — ou queria — revelar sobre aquele assunto tão delicado. Haviam tantas camadas que ele parecia incapaz de saber por onde começar, e até mesmo se deveria. E, por alguns malditos segundos, seu corpo vibrou e arrepiou, como se retornasse à Lituânia naqueles mesmos dias chuvosos anos atrás.
A tempestade lá fora fazia o vidro da janela tremer, mas no quarto abafado, o calor vinha de outro lugar. sempre era como uma explosão, seja de luz ou de calor, que aquecia e incendiava James aos poucos. Era uma combustão gradativa e minuciosa que beirava à explosão, cedo ou tarde. Ele sabia disso e não parecia se importar. Pelo menos, não naquele momento.
— Você vai ficar me encarando a noite inteira, Barnes? — sussurrou, escorada na janela enquanto fumava um cigarro clandestino.
Seus cabelos estavam soltos e fluidos, a pele morena iluminada apenas pela luz da cidade, e o robe de hotel que utilizava não escondia quase nada. Marcava e delineava cada curva perfeita de seu corpo, sendo um convite delicioso para o chão. era uma provocação em forma humana, com a jovialidade que apenas os dezoito anos poderiam oferecer.
Bucky estava sentado na beira da cama, com a camisa aberta, os olhos escuros seguindo cada movimento dela com a intensidade de um homem à beira do abismo. Talvez estivesse ficando louco, afinal de contas. Estava confuso, havia perdido sua identidade, vagava por cidades e povos. Fugia, se escondia, mas caiu na maior armadilha de todas: uma mulher que, em pouco tempo, o tinha nas mãos.
James nunca soube dizer como foi a primeira investida, mas, quando notara, já estava nua em sua cama. Muitos dias se seguiram em tal configuração, em que parte da busca por suas memórias reprimidas transformaram-se em noites de sexo e uísque ao lado dela. Ela não se importava com seu passado ou identidade — que nem mesmo ele era capaz de descrever, de qualquer forma —, apenas levando-o ao pico de prazer. Ele estava completamente entregue e rendido por alguém que sabia apenas o primeiro nome e não tinha nenhuma pretensão de permiti-lo avançar além disso.
— Você sabe que sim — ele respondeu, com a voz rouca, carregada de algo que era mais do que desejo.
Era guerra. Era loucura. Era ela.
Como um tornado.
percebeu a inquietação de James e se aproximou devagar, deixando o cigarro no cinzeiro com uma batida sutil. A mão dela repousou sobre o peito dele, subindo até o ombro metálico, em que ela passou os dedos sob a superfície gélida. Ela sentou em seu colo com ternura, próxima o suficiente para ele se embargar no cheiro doce de rosas. Não havia medo ali, só fascínio. E era aquilo que o intrigava.
Barnes havia se perdido entre suas próprias memórias e aquilo que lhe foi condicionado. Anos sob a custódia da H.Y.D.R.A. podiam alterar a percepção de qualquer pessoa, afinal de contas. E desde os últimos acontecimentos com Steve Rogers, James se encontrava mais do que confuso. Mas ali, naquele momento, ele não precisava pensar sobre tais inquietações. Ele sequer precisava pensar nas consequências, havia apenas ela. Era o mais perto de sentimento que se aproximara em muitos anos.
— Por que você me olha desse jeito?
Vênus era uma figura curiosa, controversa. Sua aparência beirava ao doce e angelical, assim como sua fala. Mas ela era letal, perigosa, alguém que não hesitaria em se salvar caso necessário. E se nesse processo ela precisasse te matar, assim o faria, sem hesitar.
— Porque eu ainda não decidi se vou embora… Ou se deixo você me dominar mais uma vez.
sorriu, lenta, perigosa. Aquele tipo de sorriso que avisava que ninguém sairia inteiro dali. Mordeu o lábio, deliciosamente excitada com a confissão de James.
— Então para de pensar tanto e… só relaxa.
Foi o bastante. Ela o beijou como se fosse a última vez. E talvez, naquele momento, ambos quisessem que fosse. Roupas foram esquecidas, respirações se fundiram, e quando ele a deitou sobre os lençóis bagunçados, o mundo inteiro sumiu. Só existia ela. E a forma como ela dizia seu nome em meio a gemidos abafados pelo travesseiro.
Por fim, falou, com a voz baixa, se sentindo vencido:
— Codinome Vênus. Seu nome real é . A conheci há alguns anos… na Lituânia.
Sam arqueou a sobrancelha. Parecia vago demais para a raiva momentânea da mais nova e o paralisar estático de Bucky. Ele havia visto guerras, sangue nas mãos e batalhas letais, mas havia paralisado com uma única simples mulher — muito bonita, mas não o suficiente para deixá-lo daquela forma. Aquilo não era de seu feitio, e Sam não conseguiu ignorar.
— “Conheci”? Você precisa ser específico; aquilo pareceu bem mais íntimo do que apenas conhecidos, Bucky. Vocês se envolveram?
Bucky bufou, desviando o olhar. Mesmo em meio a tensão que estavam, ele quis rir com a graça do amigo, mas apenas por um breve momento antes de prosseguir.
— Mais ou menos, sei lá. Na época, eu não sabia nada sobre ela, só… ela aparecia, depois sumia. Eu quero tantas respostas quanto você, Wilson. Ela também é uma maldita incógnita para mim.
Sam cruzou os braços, pensativo. Sentou-se na beirada da cama de solteiro antes de prosseguir, acariciando o músculo tenso graças à falha tentativa de ceder à batalha mais cedo. De fato, Wilson ainda estava impressionado com tudo aquilo, o desvio de carga, os poderes daquela mulher… Tudo o deixava completamente intrigado.
— Wakanda costuma rastrear vibranium, não necessariamente pessoas. Se essa mulher, Vênus, , sei lá, tá no epicentro dessa bagunça, isso deve significar algo valioso. Ficou claro que Okoye quer a cabeça dela.
O silêncio entre os dois foi quebrado apenas pelo bip do comunicador confirmando o envio das coordenadas. Eles se entreolharam por um segundo — a trégua silenciosa firmada mais uma vez.
Bom, por ora.
INFERNUM
A chuva fina caía sobre Madripoor, ao passo que o céu ficava cada vez mais escuro e nublado, fazendo as luzes roxas da Infernum contrastarem de uma forma sombria com o clima. Conforme cercaram o local, puderam notar o grave da música que vibrava pelas paredes externas, quase como um batimento cardíaco artificial.
Sam e Bucky atravessaram a entrada sob olhares avaliadores, mas despretensiosos. O cheiro de álcool caro, suor e perigo se misturava ao perfume pesado das dançarinas com minúsculas vestes. Nada ali era acidental ou inocente; era puramente pensado e arquitetado para prender pessoas cada vez mais tempo ali.
Antes que pudessem avançar, uma figura feminina os cortou quase que imediatamente. Olhos e cabelos castanhos compunham a face angelical da mulher, que parecia uma verdadeira boneca. Sua feição contrastava com sua roupa, um terno feito sob medida e um par de tênis Nike. Ao passo que ela era pequena, também demonstrava ser altamente intimidadora.
— Vocês estão perdidos, presumo. Não são muito discretos — Julie comentou com graça, tombando a cabeça para o lado direito.
Wilson deu de ombros, claramente irritado. Não era como se eles estivessem tentando se esconder, afinal de contas. Queriam ser vistos.
— Estamos procurando respostas.
— Ninguém aqui tá muito disposto, ou de bom humor, mas… talvez vocês tenham sorte. — Julie riu com graça, ironicamente.
— Julie, certo? — Bucky tomou a vez de dizer, atraindo a atenção da mais nova.
Ela sorriu, interessada no fato de que eles haviam interceptado sua verdadeira identidade. Haviam se passado anos, e eles ainda se escondiam atrás do pseudônimo, mas era inevitável que fossem encontrados em algum momento. E, pelo que parecia, a hora havia finalmente chegado.
— Você sabe meu nome, que fofo. Mas pro seu bem, não me chama assim de novo. Para você, é Clark — Julie resmungou, cruzando os braços, olhando em seu Apple Watch. — Vocês têm cinco minutos. Depois disso, ou saem por bem... ou mal.
— Você é sempre tão acolhedora? — Sam ironizou.
— Só com homens presunçosos e intrometidos.
No lounge privado, longe do barulho da pista, girava um copo de uísque entre os dedos. O vestido preto moldava cada linha do corpo como se tivesse sido feito sob medida para intimidar; os longos saltos eram seu uniforme oficial, e seu cheiro, como sempre, exalava pecado.
Sebastian, inevitavelmente, estava próximo demais dela. Eles normalmente eram assim. Presos naquela energia de sensualidade e provocação, até que o outro cedesse. Era um jogo perigoso, mas extremamente excitante. Por isso, ela cruzou as pernas, sentada em sua mesa, atraindo a atenção do mais velho para suas coxas desnudas pelo pequeno vestido.
— Sabia que eu detesto quando você mexe nas minhas coisas — Sebastian resmungou, bebendo um gole do próprio uísque.
— Você detesta quando eu mexo com você, isso sim.
— Você adora testar os meus limites. — Sebastian ficou de pé, parando a centímetros dela. — Quer ver até onde eu aguento antes de te colocar contra essa mesa?
— Me parece uma oferta generosa. Mas… — ela desceu da mesa, colocando um limite naquela interação — hoje eu já tenho outros planos de entretenimento.
— Posso saber quais planos?
Sebastian não pôde deixar de franzir o cenho. era imprevisível, e aquilo era um tanto quanto perigoso. Como se não bastasse ela o provocar, agora estava com joguinhos — e ele particularmente não estava com um pingo de paciência. A pergunta dele, no entanto, não fora respondida. A porta fez um pequeno barulho e destravou, revelando a figura de Luther adentrando a sala privada em passos rápidos.
— Você tem o péssimo hábito de entrar sem ser convidado — Sebastian resmungou, se sentando de volta em sua cadeira.
— E você tem o péssimo hábito de achar que marca território — Luther retrucou, tão ácido quanto o colega.
, no entanto, interrompeu a pequena discussão para não evoluir para algo crítico, se colocando entre os dois.
— Meninos, não briguem. Estamos prestes a receber visitas... importantes.
— Visitas, no plural? — Sebastian encarou os dois, com o tom de voz subindo. — Que merda é essa?
— Wilson e Barnes vieram por conta própria — Luther respondeu. — Julie acabou de me avisar no ponto.
— E a culpa é sua. — Sebastian virou pra , apontando o dedo. — Isso aqui era pra ser discreto. A boate, os acordos, tudo. E agora você está distribuindo convites para agentes do governo? Eu sei que você deixou margens.
— Eles não vieram só por mim. Vieram pelo vibranium. Eu só deixei a localização visível — respondeu , séria agora, dando de ombros. — E se a gente quiser continuar respirando, é bom manter os dois amigos. Pelo menos por enquanto, não sabemos quem está por trás, ou o que querem.
— Eles não são amigos, — Sebastian rosnou, quase que tomado pela fúria. — E muito menos nossos aliados. A gente não vai colaborar com o governo, caralho!
Ela o encarou de volta, sem piscar. Havia uma névoa tempestuosa nos olhos dela na cor avermelhada. Ele sabia que tirá-la do sério poderia ser perigoso — ou até mesmo letal. E talvez por isso, eles funcionam tão bem. Ambos amavam o perigo, afinal.
— Você não é meu dono, Sebastian. Eu decido como as coisas são feitas por aqui.
Por um segundo, o silêncio foi tão denso que dava pra ouvir o gelo tilintando no copo de uísque deixado em cima da mesa. Sebastian fechou as mãos em punho, mas incapaz de iniciar uma briga com a mulher que amava. Apesar de tudo, ele temia pela segurança de todos, principalmente a dela.
— Julie vai levá-los para a sala de reunião. Eu acho melhor… irmos para lá — Luther comentou, dissipando o clima tenso que se formava.
O loiro não esperou pelos colegas. Deixou e Sebastian sozinhos, indo rapidamente em direção à sala de reunião. Casanova, por sua vez, se levantou e se posicionou em frente a , segurando em seu queixo com uma delicadeza pouco usual para ele.
— Você joga sujo, .
— Eu jogo pra sobreviver. Então tira suas emoções da frente e seja estratégico. Dependemos disso.
Ela retirou a mão de Sebastian e saiu andando, o deixando sozinho e pensativo, como costumava fazer. E, mesmo assim, ele ainda não havia se acostumado com o jeito instável e magnético que a mulher pela qual estava apaixonado tinha. Ele estava furioso e permaneceu ali, por um tempo, respirando fundo antes de ir atrás dela.
Como sempre fazia.
, por sua vez, começou a caminhar saindo do lounge, ao passo que os seguranças abriram caminho sem que ela precisasse pedir. O barulho de seus enormes saltos ecoou de uma forma nada suave sobre o piso polido, ao passo que sua postura ereta e olhar firme chamavam a atenção.
Ao atravessar o mezanino, a música ficou levemente abafada. O corredor que levava às salas privadas era mais escuro, iluminado apenas por arandelas vermelhas e douradas que projetavam sombras longas nas paredes. Casualmente, ela passou por dois homens armados na entrada do setor restrito. Nenhum a encarou diretamente, apenas cumprindo seu trabalho.
No final do corredor, a porta da sala de reuniões estava fechada. E antes de entrar, parou por meio segundo, pousando a mão sob a maçaneta e respirou; não por nervosismo, mas porque, ao atravessar aquela porta, ela não seria apenas a dona da Infernum; teria de ser estrategista. Manipuladora. Jogadora. E principalmente perspicaz, pois a vida de todos os seus amigos dependia que o governo continuasse fora de seus caminhos.
Ela empurrou a porta pouco tempo depois.
— Que surpresa... por um instante, achei que seguiram o meu conselho. Mas homens são teimosos demais.
Mesmo em meio ao nervosismo, ela ainda carregava aquele jeito sarcástico que beirava ao ácido. Sam e Bucky estavam de pé, com os braços cruzados, desconfiados demais para relaxar à mercê de seus inimigos. Julie e Luther mantiveram posturas semelhantes, ao passo que apenas sentou-se na ponta da mesa, cruzando as pernas. Demonstrar nervosismo naquela situação não ajudaria em nada.
— Não era nossa intenção incomodar, só queremos o vibranium de volta — Sam ironizou, a encarando diretamente. — Custe o que custar.
— Vocês realmente não desistem…
— Wakanda tem direito sobre ele, temos autorização para recuperá-lo. — Bucky deu um passo à frente. — E também permissão para eliminar qualquer alvo em nosso caminho.
encarou Bucky. Mesmo com as vestes discretas, o braço metálico sempre chamava a atenção. Os olhos azuis pareciam mais gélidos que o normal, ao passo que seu corpo denunciava uma tensão impossível de esconder. Ele obviamente percebeu o olhar da mulher perdendo-se em si, mas não por muito tempo.
— Isso aí pode enganar burocratas, mas essa autorização não vale de nada. Aqui o jogo é outro. — Sebastian entrou esbaforido na sala, abrindo a porta como um furacão interrompendo o assunto.
— Sebastian, por favor. — tentou alertá-lo, olhando para trás.
Obviamente que o mais sentimental do grupo estragaria tudo. Sebastian agia à flor da pele, completamente dominado pela emoção. Possivelmente, estava ouvindo toda a conversa atrás da porta antes daquela entrada triunfal. O que ele não sabia, de fato, era o envolvimento quase que palpável daqueles dois. E preferia que continuasse assim.
— Vocês estão interferindo em algo muito maior do que imaginam. E as consequências não são seletivas. — Sebastian continuou, parando em frente ao Lobo Branco e ao Capitão América. — Vocês estão se metendo em coisas perigosas demais.
— Perigoso é deixar o vibranium em mãos erradas — Sam rebateu, quase que instintivamente.
Sam era um homem mais do que moral, talvez incapaz de entender o que se passava ali. De fato, não havia justificativas plausíveis, não moralmente aceitáveis. Mas havia uma motivação muito mais profunda do que eles podiam compreender naquele momento. Compartilhar com qualquer um significava condená-lo.
— E vocês acham mesmo que são os mocinhos nessa história? — Sebastian retrucou, com um olhar afiado. — Todo mundo aqui tem sangue nas mãos. Vocês não são melhores que a gente porque usam roupas de super-herói.
— Se a gente fosse os mocinhos, essa conversa já teria acabado. Estamos tentando ser pacíficos — Bucky interveio, encarando Sebastian há poucos centímetros de distância — e não uns filhos da puta brincando com a vida dos outros.
— Não é como se precisássemos temer confronto com vocês. — finalmente se colocou à frente, cruzando os braços. — Ou querem uma outra amostra do que aconteceu no outro dia?
Luther ergueu a mão antes que qualquer um deles avançasse mais um passo. Levantou-se quase que em um solavanco, com uma fúria nos olhos que não era usual.
— Chega!
A palavra não saiu baixa, praticamente bradou sobre os lábios do loiro. Instintivamente, todos encaram a figura, antes repleta em calmaria, agora tomado por uma fúria quase que elétrica. Literalmente.
Pequenas faíscas azuladas estalaram entre seus dedos, ao passo que o ar ao redor dele vibrou por um instante, como se houvesse eletricidade acumulada antes de uma tempestade. A lâmpada suspensa sobre a mesa piscou duas vezes, reagindo ao campo que se formava ao redor de seu corpo.
Luther nunca fazia aquilo de propósito, mas era inevitável quando saía do controle. Aquela situação era altamente estressante, afinal, eles passaram anos vivendo de forma sigilosa e discreta — na medida do possível — e aquilo parecia poder ruir a qualquer momento.
— Eu não vou permitir que vocês transformem essa sala numa briga de ego. — Luther voltou a dizer, quase que em um rosnado.
A sala de reuniões da Infernum parecia menor do que realmente era. As paredes de vidro escuro refletiam fragmentos distorcidos de todos ali dentro. A mesa de madeira negra dominava o centro do espaço, longa e imponente — projetada para negociações silenciosas, não para confrontos armados.
Julie permanecia encostada perto da porta, braços cruzados, observando tudo com aquele olhar clínico que não perdia nada. Ela era perigosa demais para descontrolar-se por algo tão banal. Sam mantinha o escudo preso ao antebraço, com a postura em alerta, enquanto Sebastian estava rígido como uma lâmina, o encarando de forma nada amistosa.
E, entre todos, o olhar de Bucky e permanecia preso um no outro. Ambos se sentiam incapazes de desviar o olhar, por mais desconfortável e estranho que aquilo parecesse. Barnes reparou o peito da mulher subir e descer com uma respiração ofegante, ao passo que seus olhos ficavam vermelhos. Aquilo não podia ser um bom sinal.
A eletricidade ao redor de Luther estalou novamente, como se respondesse a tensão do corpo do loiro. Mas aquilo não havia sido um gesto deliberado. Fora reflexo. Pequenos arcos azulados correram pela pele de seus dedos, saltando entre as articulações como nervos expostos à tempestade. O ar na sala mudou de densidade — carregado, pesado, como se uma pressão invisível tivesse se instalado entre aquelas paredes.
também pareceu responder, com os olhos tomando uma coloração avermelhada e a respiração perigosamente descompassada. O silêncio provava que todos naquela sala sentiam a tensão que parecia prestes a explodir. E, por um segundo que se alongou mais do que deveria, ninguém se moveu.
Através do silêncio ensurdecedor, um barulho alto ecoou tão rapidamente que os deixou desconcertados por um minuto. A explosão rasgou o andar superior como um trovão dentro do prédio. O impacto, tão forte quanto o barulho, reverberou pelas paredes estruturais da Infernum, fazendo o chão vibrar sob os pés deles, ao passo que eram derrubados no chão. Uma poeira fina se desprendeu das luminárias suspensas e caiu sobre a mesa de reuniões em uma chuva fina de partículas.
A lâmpada acima da mesa piscou uma vez antes do segundo estouro — fazendo com que a lâmpada também se quebrasse devido ao impacto. O grave constante da música da boate morrera abruptamente, substituído por gritos distantes, o som seco de disparos e o estilhaçar de vidro vindo do salão principal.
Por um instante, ninguém falou. Todos apenas escutaram os passos correndo acima deles, barulho de móveis sendo derrubados e o eco metálico de algo pesado caindo. Havia um ataque e ele era real.
Incrivelmente, Sam foi o primeiro a reagir. O escudo já estava em sua mão antes mesmo que ele terminasse de se virar em direção à porta.
— Merda.
estreitou os olhos, o instinto tomando conta antes mesmo do raciocínio. Prontamente ela foi em direção a um dos painéis de controle, disparando:
— Julie. Protocolo Delta. Esvazie o saguão com Karyn. — Ela digitou antes de prosseguir.
Julie sequer aguardou que a amiga terminasse a frase, saindo em direção à parte externa da boate. Luther abriu e fechou a mão lentamente, como se estivesse testando a própria força. Um arco elétrico percorreu seus dedos com um estalo seco, iluminando brevemente a sala com um brilho azul.
Ele ergueu os olhos para Sam e Bucky.
— Parece que temos companhia. Espero que isso não tenha a ver com vocês.
No andar de baixo, outra rajada de tiros ecoou pelo prédio e parecia cada vez mais próximo. E a Infernum — que minutos antes era apenas uma boate luxuosa, um antro e esconderijo deles — começou a se transformar em um campo de guerra.
