Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 25/06/2025Bucky, impaciente, pressionou ainda mais o corpo de contra a parede, com a mão de metal prendendo os pulsos da mulher acima da cabeça, enquanto a outra mão explorava sua cintura com uma fome que só o tempo e a saudade sabiam alimentar. Não era a primeira vez que eles cediam um ao outro, mas, dessa vez, Barnes parecia querer devorá-la, como se algo dentro de si houvesse mudado. Ela apenas não sabia o que era.
— Isso não é certo… — ela sussurrou com os olhos fechados, como se tentasse se proteger do que sentia. — Eu preciso ir embora… Ah, James.
James. Era curioso o fato dela usar o seu primeiro nome de forma tão doce. Não Sargento Barnes, Bucky ou Soldado. Não. Apenas James. Como se ela enxergasse todas as suas camadas expostas ali. Era intrigante o quanto um nome podia deixá-lo tão atordoado, completamente louco por ela.
— Nunca foi, boneca — ele murmurou contra sua boca, respondendo sua primeira pergunta, antes de puxá-la de volta para um beijo urgente e brutal, que exigia tudo o que ela não conseguiu negar.
Aquela era uma clara resposta que ele não a deixaria ir embora. Ela sabia que precisava sair dali urgentemente, pois nem em sua cama ela deveria deixar rastros. Era uma missão invisível, implacável e rápida, que se transformaram em dias de sexo e conexão intensa com Bucky. Ambos quebrados, precisando extravasar e escolhendo a pior maneira de se aliviar do estresse em que estavam. Mesmo com todos estes agravantes, era perceptível a química entre eles, que era como pólvora exposta: um toque, e o incêndio começava. Como se fossem incapazes de não incendiarem um ao outro.
E talvez não fossem.
Ele pressionou seus corpos e a levou até a cama, como se ela fosse a única coisa que ainda fizesse sentido num mundo em ruínas. A camisola fina que ela usava caiu ao chão com a mesma facilidade com que seus muros desabavam diante dele. Não era assim com Sebastian, não era assim com nenhum outro homem que tinha noites casuais. E não deveria ser assim com Bucky. Tudo que era sobre ele a deixava em uma névoa de confusão e angústia, mas agora substituídos pela ardência do desejo e tesão que sentia.
O metal frio do braço dele encontrou a pele quente dela — e ela estremeceu, não de medo, mas de prazer. Ele deslizou por toda a pele macia da mais nova, que se arrepiou com o toque e não pôde deixar de arfar com o ato, soltando um leve gemido.
— Você quer mesmo ir embora? — ele sussurrou em seu ouvido, enquanto os lábios percorriam seu pescoço, traçando um caminho de lembranças pelo corpo dela.
Ela não respondeu com palavras. Apenas gemeu. Apertou os lençóis e arqueou as costas conforme ele a devorou, gravando memórias permanentes em sua pele, como se soubesse que aquela noite jamais voltaria. Ela sabia que aquilo não podia se repetir. Nunca mais. Ele a conhecia demais. Sabia onde tocar, como pressionar, como puxar os cabelos dela no exato ponto em que o controle virava delírio. Se sentia em um tiroteio sem coletes à prova de balas. Como se a qualquer momento Bucky fosse atacá-la.
E talvez fosse. Mas foda-se. Ela precisava daquilo uma última vez.
As mãos dele ainda estavam cravadas na cintura dela, como se quisessem impedir o tempo de avançar. A respiração de ambos era descompassada, misturada ao calor abafado daquele quarto clandestino, em que o desejo queimava mais forte que qualquer presente.
O gosto dele ainda estava em sua boca. Ela o observou por um segundo a mais — olhos nos olhos, como se quisesse gravar aquilo na pele. Havia algo de desesperadamente humano naquele silêncio: uma súplica muda, uma rendição que nenhum dos dois ousava nomear.
Algum tempo depois, finalmente se vestiu, lutando contra seus desejos e ambições. Lenta, precisa. Como se cada gesto fosse uma armadura voltando ao lugar. Quando virou de costas, ele não tentou impedi-la. Não houve adeus. Nem promessas. Sequer uma olhada para trás. Apenas o som dos saltos dela ecoando pelo corredor de concreto e o rastro de um desejo que jamais teria fim.
Ele queria dizer "fica, mesmo sem mensurar quais seriam as consequências". Ela queria ficar e finalmente cultivar um sentimento normal por alguém. Mas nenhum dos dois disse nada. Ela nunca mais atendeu as ligações de James. E ele nunca mais foi o mesmo.
Não depois de conhecer Valdez.
O som grave da batida em reggaeton vibrava nas paredes vermelhas da Infernum, a nova boate mais exclusiva — e criminosa — de Madripoor. Do lado de fora, os becos fediam a bebida e sangue, com alguns drogados e pedintes à beira da marginalidade. Lá dentro, contudo, havia luz vermelha, luxúria e perigo disfarçado de diversão, com muitas mulheres seminuas à disposição. Além do bom e velho contrabando de drogas e armamento.
observava do alto da sacada interna, com o copo de uísque em mãos, enquanto dançarinas mascaradas se misturavam ao público embriagado e entorpecido de prazer. Sua postura era elegante, mas seus olhos estavam particularmente inquietos naquela noite. Talvez fossem os hormônios dos homens à sua volta que a deixavam louca. Ou talvez porque ela simplesmente não gostava quando Luther sumia por mais de uma hora sem dar sinal — ainda mais com uma nova carga chegando. Normalmente, ela era a responsável por tais questões, graças ao fato de ser extremamente controladora e metódica em todos os aspectos. Por isso, odiava depender dos outros em qualquer que fosse a circunstância. Mas algo estava deixando inquieta. Por isso, ela preferiu ficar na Infernum e observar o movimento, pelo menos por ora.
— Achei que fosse você que mandava aqui — disse Sebastian, se aproximando por trás, com um sorriso torto, carregado do tom de provocação familiar. — Desde quando deixa Luther brincar de trabalhar?
não se virou, apenas apreciando o delicioso aroma de uísque que Casanova exalava. Sebastian era deliciosamente sedutor, mesmo que ela não pudesse vê-lo naquele momento. Apenas sua voz causava-lhe arrepios, a fazendo suspirar de tensão.
— Eu ainda mando, Casanova. Mas não posso fazer tudo sozinha o tempo todo.
Ele riu e pegou o copo dela, atraindo a atenção dos olhos âmbar para si. Assim como , Sebastian sempre se vestia majoritariamente de preto, com peças em couro um tanto quanto sensuais. Os cabelos negros caíam em camadas e os olhos castanho claros destacavam-se com o lápis de olho — acessório que Casanova particularmente adorava usar. De qualquer forma, ele estava sedutor como costumava ser em todas as noites. Do jeito que ela costumava não resistir.
— Às vezes esqueço como você fica linda quando ‘tá irritada, Vênus. — O homem segurou sua cintura, se sentindo tentado pela altura da minissaia. Prensou ela entre seu corpo e a parede do camarote. — Mas só vim avisar que a carga chegou. Luther disse ter um problema e pediu para irmos até o galpão verificar pessoalmente.
bufou. Se a tarefa tivesse ficado sob sua responsabilidade, a carga já estaria íntegra e armazenada no local correto, pronta para ser transportada no dia seguinte. Mas Luther era sempre assim, meticuloso, contrastando completamente com o resto de seu time, que era puramente reativo e violento. Sebastian, contudo, percebeu a irritação da mais baixa, passando devagar o polegar sobre seu lábio inferior.
— Calma, docinho. Você anda muito impaciente.
— Sem porra de docinho, Marte — ela respondeu, levemente irritada. — Vamos logo resolver isso.
Sebastian sabia que ela odiava aquele apelido. costumava desprezar algumas interações românticas, entre elas, apelidos. Aquilo também não era do feitio de Sebastian Casanova, mas ele tinha um prazer particular em irritá-la. E frequentemente obtinha êxito, graças à curta paciência de . Com sorte, a irritação se transformaria em tesão violento mais tarde.
Deixando a provocação do colega de lado, desceu os olhos até o palco principal e viu Julie se livrando de dois caras sozinha — nada novo sob o sol. Era geralmente tarefa dela dar um jeito nas brigas, já que era uma das mais fortes em combate corporal. Do outro lado do salão, Luther finalmente apareceu com um dos seus ternos brancos impecáveis, recepcionando alguns computadores, mas aparentemente suado e tenso. Com todos restabelecidos em seus devidos papéis, com exceção de Karyn — que pouco importava para —, ela se viu pronta para começar a agir.
Ambos saíram discretamente de onde estavam e desceram as escadas, caminhando rapidamente para atravessar o salão. Graças aos poderes que tinham, conseguiam passar despercebidos, quase que invisíveis aos olhos civis, o que era extremamente benéfico para os negócios.
Alguns cidadãos frequentavam a Infernum pelas bebidas importadas, outros pelas damas extremamente convidativas, mas outros, os mais importantes, iam fazer negociações, grandes e notórias. Há alguns anos, o grupo conseguiu transformar aquele local em um ambiente propício para tais convenções, que exigia o máximo de discrição, ultrapassando até mesmo o Mercador do Poder. E a melhor parte era que eles conseguiam permanecer desconhecidos até então, usando seus codinomes: Venus, Marte, Apolo, Ártemis e Juno. Era um plano integralmente perfeito, considerando a segurança, o poder e a influência que conseguiram alcançar.
, focada, passou pela multidão com a escolta de Sebastian, já que nenhum homem ousaria tocar ou se dirigir a ela com a proteção de Casanova. Mesmo com os cabelos caindo em cascatas, macios e sedosos, com a pele amplamente exposta pela minissaia e aquele ar sedutor de sempre, ninguém ousaria abordá-la. Não apenas por Sebastian, mas pelo seu olhar fatal e sensual.
Sebastian, por sua vez, também não passava despercebido. Seus músculos marcavam de forma nada discreta em sua camiseta, deixando todas as mulheres ao seu redor interessadas. E homens também. Ele tinha esse efeito de encantar por todo lugar que passava — e sabia se aproveitar disso.
Após cruzarem todo o ambiente barulhento, deu o comando para acessar a área VIP. Havia uma cortina vermelha que separava a área das demais, além de dois capangas enormes à frente. Por conhecê-los, os seguranças liberaram ambos, que prontamente adentraram o pequeno cubículo. A sala seguinte era bastante moderna, toda em metal nobre, e possuía uma identificação biométrica que prontamente fez a leitura da íris de . A porta metálica revelou a passagem para uma garagem subterrânea, com os milhares de carros que utilizavam.
escolheu a Porsche e prontamente ela e Sebastian foram em direção ao galpão. Para não chamarem a atenção, como a Infernum já ficava na região de Hightown, o galpão era em uma área pouco vigiada de Lowtown. Mas, felizmente, o trajeto não contava com um longo percurso. De fato, estava um pouco irritada enquanto dirigia, já que Luther poderia ter resolvido aquele descarregamento, ou tê-la deixado agir caso não o quisesse. Como sempre, no entanto, ela tinha que se encarregar de tudo — e aquilo era extremamente exaustivo.
Contudo, Valdez deixou a irritação de lado assim que estacionou, poucos minutos depois. Sebastian e desceram do carro e se estreitaram em um beco escuro da cidade baixa. sentiu uma vibração estranha no ar, mas ignorou inicialmente. Talvez devesse ser apenas o vento gelado em meio ao vestido minúsculo.
— Você pode ir na frente, docinho.
revirou os olhos, ignorando a perversão de Sebastian. Subiu as escadas devagar, tentando não fazer barulho com os saltos altos. Estavam em uma região que parecia precária e abandonada, mas, por dentro, guardavam muita tecnologia. Sebastian permanecia na escolta, posicionando sua mão ao coldre da arma, mesmo que não precisasse dela para se defender. A mais nova destrancou a pequena porta com um cartão magnético, e quando o sensor deveria pedir novamente um leitor biométrico, ele não o fez. Isso gerou estranhamento na mulher.
— O sistema de alarmes está desativado — ela comentou, desconfiada.
Sebastian bufou, revirando os olhos. Desde o início da noite percebeu a impaciência da mais nova, mas estava começando a se irritar com ela.
— Deve ter sido só o idiota do Luther, . Vamos logo.
Ela deu de ombros, bufando um pouco. Ambos adentraram o local e as luzes se ligaram. As milhares das caixas de vibranium estavam ali — menores, compactadas, blindadas. Nada no sistema acusava a entrada de militares ou intrusos, fez questão de checar de forma minuciosa em seu Apple Watch. Mas algo naquela entrega parecia… estranho.
— Isso não ‘tá certo — comentou Sebastian, abrindo uma das caixas de amostra. — É como se alguém tivesse mexido na estrutura molecular. Até a coloração está estranha, não é?
andou em direção ao enorme painel, que era inteiramente digitalizado. Quem observava de fora, jamais imaginaria a riqueza que havia lá dentro, além de, claro, toda a tecnologia. Ao passo que analisava os dados no grande computador, suor escorria em sua nuca, algo estava deixando-a particularmente tensa naquela noite. Seus hormônios não estavam controlados. Os detalhes da entrega constavam como comuns, os alvos foram abatidos e a carga extraviada. Como e por que a carga parecia alterada se nada havia acontecido fora do previsto?
— … Isso aqui não tá com cara do tráfico de metal comum que conhecemos, alguém interceptou isso antes e nos deixou saber, como se fossem rastros. Eu ‘tô intrigado com essa merda. — Sebastian continuava tagarelando e levantando hipóteses.
Ela olhou pra ele com uma sombra nos olhos — a primeira vez que deixava transparecer medo. Receio por várias questões, dentre elas, o que o governo poderia querer com eles após mais de uma década. engoliu em seco, digitando mais algumas informações no painel digital à sua frente.
— … Se eles conseguirem reproduzir… Quem sabe do que serão capazes? — começou Sebastian, tomado pela ansiedade. — Deveríamos ligar para Apolo e…
Valdez respirou fundo, encarando o mais alto. Ele estava claramente nervoso. Mesmo que fosse de falar, aquilo era incomum para Sebastian. Como se sentisse algo, pressentindo algum mal existente. Mas era racional. Não precisava de uma situação ainda mais tensa, por isso, o encarou nos olhos antes de cortá-lo:
— Não acho que essa seja nossa maior questão, Casanova. — recostou, cruzando os braços. Havia entendido o porquê Luther não se intrometeu com aquele descarregamento, ele sabia que havia algo errado antes mesmo de averiguar. — Você já pensou que eles podem… Estar vivos? Acho que esse não é o momento de alertarmos todo o grupo.
Sebastian engoliu em seco. Deixou a pequena amostra do tubo de volta na caixa, a encarando, antes de respondê-la:
— Eu não sei. Mas se estão... Significa que o governo pode estar alinhado com quem fez essa entrega… E que retomaram a Iniciativa. E pior: sabem onde estamos. Isso foi um recado.
Ela não teve tempo de terminar o raciocínio proposto por Sebastian, em vista que percebeu um sussurro. Talvez já estivesse lá, mas a tensão não permitiu que ela ouvisse. fez menção para Sebastian ficar calado, levemente incomodada com a ideia de poder haver outras presenças ali. Pela primeira vez em tempos, sentiu a adrenalina real correr por suas veias, além, é claro, de uma explosão de testosterona.
Quem quer que fossem os homens que estavam ali, não haviam chegado em um bom momento.
A chuva caía fina, persistente, tornando o beco ainda mais escuro e úmido. Sam Wilson esperava sob o toldo de uma loja abandonada, com a mão no coldre e os olhos alertas. O traje usual de Capitão América, projetado exclusivamente para ele, deixava imponente — mesmo com as asas nada discretas acopladas em suas costas. Joaquin tagarelava algo em seu ponto, o deixando levemente impaciente, mas optou em permanecer calmo, por ora. Aquela investigação paralela exigiria muito da sua concentração.
Quando os passos ecoaram no fundo do corredor estreito do beco, no entanto, ele nem se virou. Já aguardava que em algum momento eles fossem se encontrar, só não imaginou que seria ali, diante daquele tipo de situação.
— Já era hora.
Sam ouviu uma risada levemente sarcástica ao fundo, ao passo que a figura se aproximou dele. Os olhos azuis estavam frios e distantes graças aos últimos acontecimentos entre “ambos”, mas, mesmo assim, se encararam. Havia uma certa distância naquela troca de olhares, somada a uma desconfiança que não era usual de James e Samuel.
— Você nunca teve paciência — respondeu Bucky, emergindo das sombras com a jaqueta estampada encharcada. Seu olhar permaneceu glacial, longe de encará-lo como um amigo, como era costumeiro. — Achei que o novo Capitão América fosse mais equilibrado. Isso não é do seu feitio, Wilson.
Sam virou de leve, sem esconder o escárnio no canto da boca. Ele até tentaria ignorar a ironia, se não fosse aquele maldito uniforme ridículo que Bucky trajava, com um enorme A estampado em seu peito. O novo visual remetia tudo que Wilson detestava naquela formação de equipe, que causaria aversão aos Vingadores originais. Era quase que ultrajante para ele ter de observar um amigo tão querido naquela posição, ainda mais aliado aos interesses governamentais.
Sam estava em um conflito interno desde os últimos ocorridos entre Sterns e Thaddeus Ross. A aparição do Hulk Vermelho, a briga pelo adamantinum, a preocupação entre Isaiah e Joaquin consumiram os últimos meses de Wilson em um embate emocional desgastante. Bucky estava a par — e era por isso que Samuel estava tão chateado. Descobrir que o amigo se juntou a uma figura que Sam desprezava (em vista do histórico nada leal de Valentina), o deixava chateado.
Bucky e Sam, apesar de todas as circunstâncias, compartilhavam um laço que ia além das batalhas travadas lado a lado. Não era apenas camaradagem — era confiança construída com suor, perdas e decisões difíceis. Eles já haviam se salvado mais de uma vez, e, mesmo nas diferenças, existia respeito mútuo. Por isso doía tanto. Doía ver Bucky se alinhar a algo que Sam julgava como tudo o que eles prometeram jamais se tornar. A escolha do amigo parecia uma quebra silenciosa dessa promessa, e Sam ainda não sabia se conseguiria perdoá-lo por isso — ou não sabia se queria.
— E eu achei que o antigo Soldado Invernal tivesse aprendido a escolher melhor os aliados. Tá trabalhando pra Valentina agora, deputado?
Bucky finalmente parou a poucos metros, os braços cruzados, como se ponderasse o quanto queria respondê-lo com algo grosseiro. Mesmo com o remorso, não queria brigar com Sam. Ele não entendia suas motivações, e mesmo se quisesse explicar, ele não permitiria; já havia tirado suas próprias conclusões sozinho. Isso obviamente frustrava James, já que uma das poucas pessoas com quem compartilhou parte de seus sentimentos fora Sam Wilson.
— Não é tão simples assim. O alerta também veio de Wakanda, Okoye falou comigo. Você sabe que eu os devo minha lealdade — Bucky enfatizou, suspirando frustrado. — Eles estão muito preocupados com essa questão, ainda mais com a questão do adamantinum.
— … E você atendeu como bom cachorrinho da Condessa — Sam rebateu, seco, prosseguindo sua fala sem se importar com o que Barnes dizia. Seu tom carregava ironia e escárnio, ainda uma raiva reprimida do amigo. — Enquanto isso, eu tô aqui tentando entender por que o governo anda apagando rastros demais. Gente sumindo, bases abandonadas… e tudo aponta pra essa cidade podre. Mas, como sempre, eu tô tentando fazer a coisa certa, mesmo que isso signifique bater de frente com quem deveria ser aliado.
Houve um momento de silêncio denso. A chuva preenchia os espaços entre as palavras não ditas, ao passo que a noite escura se fazia protagonista daquela discussão.
— Acha que eu gosto de trabalhar com ela? — Bucky perguntou com a voz baixa, carregada de algo entre culpa e raiva. — Isso é maior do que nós dois. Você nem sabe o que aconteceu. Sequer deixou que eu me explicasse.
— Ela te colocou uma coleira e você deixou. Foi isso que aconteceu. Não preciso saber de nada além disso.
O olhar de Bucky cortou como navalha. Ele finalmente aproximou-se o suficiente de Sam para iniciar uma briga se quisesse. Ambos se encararam no fundo dos olhos, mas não houve nenhum tipo de ataque. Apenas fúria.
— E você ainda acha que é o único com senso moral aqui? Tá sozinho nessa, Sam. Não é mais Vingador, não tem mais equipe. Não tem mais Steve. As coisas não são mais como antes. Poderíamos ser aliados, mas você não quer jogar no mesmo time.
Sam deu um passo à frente, respirando fundo, como se lutasse contra o impulso de socar algo — ou alguém. Alguém específico demais. No entanto, fechou as mãos em punho e praticamente rosnou contra o amigo.
— E você? Tentando preencher o vazio com ordens da Valentina, se agarrando ao que restou do seu passado. Me poupe.
Um silêncio venenoso se instalou entre os dois. Denso, carregado de tudo o que não foi dito. Mas não era hora de resolver aquilo. Não ali. Não naquele momento. Seria idiotice alimentar aquela briga de ego e remorso, por mais que os dois estivessem à beira do estouro.
Bucky, entretanto, deu um passo para trás, desviando o olhar. Havia algo quebrado em sua expressão — não de raiva, mas de mágoa. Aquelas palavras o atingiram fundo, como uma flecha mal direcionada, mas certeira. Mesmo que fosse impensado, o comentário de Sam o desmontou por dentro. Sabia que o amigo estava tentando ferir, assim como foi ferido, mas fora pego desprevenido. Até um homem de armadura — ou braço de vibranium — se machucava às vezes.
— A entrada da base é a dois quarteirões daqui — disse Sam, finalmente, com a voz fria. — Joaquin tá no ponto, dando cobertura. Se algo sair do previsto, ele entra com o protocolo sombra.
Barnes suspirou, encarando o relógio digital em seu pulso direito:
— Já escaneei. Dois níveis subterrâneos. Desativei as câmeras com um recurso silencioso mais cedo. Alarmes desintegrados.
Eles caminharam juntos, lado a lado, em silêncio tenso. Naquele momento, eram parceiros forçados. De novo. Mas algo estava errado. O ar parecia mais carregado, como se alguém estivesse ali. Bucky parou de repente, sentindo uma tensa familiaridade no ar.
— Espera. Você sentiu isso?
Sam não respondeu, apenas adentrou o galpão de fachada discreta. Bucky o seguiu, mesmo à contragosto, brutalmente impressionado com as instalações. Fora bastante difícil invadir aquele sistema, e ele entendeu exatamente o porquê. As paredes eram reforçadas em metal e vibranium, e o espaço era muito maior do que pensavam. Em passos lentos, desceram as escadas que os levaram até os andares subterrâneos, com o mesmo estilo de decoração ampla e moderna.
“Sam, tô no ponto aqui, mas o sinal tá falhando — Joaquin avisou, a voz firme, mas carregada de preocupação. — Tem alguma coisa bloqueando a entrada do sinal, parece interferência pesada. Se alguém ou algo tá ali, não vai permitir nosso acesso fácil.” Torres disse a Wilson, em meio a uma voz eletrônica e levemente cortada pela interferência.
O corredor pelo qual caminhavam estava frio e úmido, proveniente dos vários ar condicionados que havia no local. O som do metal arranhando o chão ecoava a cada passo de Sam e Bucky, ambos atentos, mas com o rosto fechado em uma concentração pesada. O plano era simples: infiltrar, hackear o sistema, descobrir o que ou quem estava fazendo com aquela quantidade infinita de vibranium ou rastreá-lo... Mas algo no ar estava errado. O silêncio era opressor demais, como se o lugar estivesse esperando por algo.
Ou alguém.
— Não tem nada aqui — Sam falou, quebrando o silêncio. Ele ajustou o escudo nas costas, franzindo a testa. — Isso não parece certo. Joaquin?
Sam tentou chamar Torres, mas fora em vão; o sinal havia se perdido. James sentia, mais do que via, que algo estava por trás da quietude, algo se aproximando. Ele sabia que não estavam sozinhos, pois a inquietação não permitia ignorá-lo. De repente, uma luz piscou e estourou com um estalo elétrico. O estalo reverberou pelas paredes do corredor, e uma sombra apareceu na esquina à frente deles.
Sam se assustou, virando violentamente para frente. Piscou algumas vezes quando percebeu a sombra tomando forma, revelando uma figura feminina caminhar até eles.
Ela estava ali, para o completo desprazer de Bucky Barnes. Estava como sempre fora, linda, com roupas pretas e apertadas — além do salto altíssimo, seu traje usual. O perfume doce e sedutor exalava de tal forma que, mesmo com a distância, eles conseguiam sentir sua presença. Seus olhos levemente puxados e seus lábios vermelhos ainda eram os mesmos: cínicos e sensuais, despertos em um sorriso sacana ao observar sua expressão facial.
Sam não parou no lugar, pegando o escudo em mãos, pronto para o combate. Mas Bucky ficou parado, com os olhos arregalados, e o coração batendo de forma irregular. Ele a reconheceria em qualquer lugar do mundo. Aquela presença, aquele olhar, eram inconfundíveis. Aquele maldito sentimento de impotência que tanto tentou se livrar.
A mulher, no entanto, deu um passo à frente, fazendo a tensão no ar se intensificar. Seus olhos âmbar eram frios como gelo, e o sorriso no rosto parecia quase cortante de tão letal. Quando ela falou, sua voz dela parecia flutuar no ar, aveludada, mas venenosa:
— James Barnes… Não posso dizer que é um prazer revê-lo.
Sam engoliu em seco, encarando Bucky, tentando entender o que estava acontecendo. Mas Bucky estava imóvel, as palavras parecendo faltar em sua boca. Vênus, no entanto, olhou para Sam, ao passo que seus olhos brilharam em uma curiosidade calculista. Wilson prontamente atacou o escudo em sua direção, mas a garota prontamente conseguiu pará-lo com a mão esquerda.
— Eu não sei o que vocês acham que vieram fazer aqui… Mas vocês vão embora. Agora.
Sem aviso, ela ergueu a mão lentamente, deixando os dedos curvados com uma leveza assustadora, como se estivesse brincando com a gravidade. Bucky estremeceu com o leve gesto. O mundo ao seu redor parecia ficar mais pesado, e então ele... travou. Não era apenas uma sensação de paralisia. Era como se cada músculo de seu corpo estivesse sendo pressionado por algo invisível, como se a energia que o fazia se mover tivesse sido retirada dele. Ele não podia respirar direito. Não podia se mexer. Não podia fazer nada. Estava impotente.
— Que merda é essa? — Sam gritou, tentando entender, mas as palavras pareciam pesadas demais para sair.
Sam deu um passo para trás, mas antes que pudesse reagir, algo invisível o atingiu. Uma força sutil, mas brutal, o fez cambalear para frente, e ele caiu de joelhos com um gemido. A respiração dele se descontrolou de repente, e ele sentiu uma náusea crescente. Tudo o que ele podia fazer era olhar para Bucky, que estava estirado no chão com os olhos vazios. Apesar das asas tentarem defendê-lo, fora em vão. Joaquin falava coisas incompreendidas no ponto, ao passo que a cabeça de Wilson apenas doía.
Ela avançou, observando os dois no chão de braços cruzados, praticamente indiferente. Cada passo dela parecia fazer o ambiente tremer. Não havia pressa, como se estivesse dançando uma coreografia sensualmente mórbida. Ela se aproximou de Bucky, se agachando lentamente até ficarem à mesma altura, já que Barnes estava ajoelhado com alguns fios de cabelo no rosto. A visão dela, com os olhos brilhando de uma intensidade ameaçadora, estava agora a centímetros do rosto de James. A respiração dele estava pesada, os pulmões parecendo não conseguir captar ar.
— Eu avisei, James — ela sussurrou com um tom baixo, quase mortal. — Eu avisei para não me procurar novamente.
Com um leve movimento de seu pé, ela levantou-se e o empurrou para trás, fazendo Bucky cair de costas no chão com um baque surdo. Ele tentou levantar, mas as mãos tremiam. O que ela tinha feito com ele? Não havia dor, mas uma sensação de perda total de controle. Como se o oxigênio faltasse de seu peito. Como se ela sequer se importasse.
Sem esperar mais, ela se levantou e deu um passo para trás, olhando os dois com um olhar de desprezo. Com um movimento devagar, Bucky tentou relutar, mas ela apenas sorriu de forma cruel. Deixando que ele caísse sobre o chão gelado, permitiu que sua bota de salto agulha descesse com precisão sobre o pescoço de Bucky. Ele sentiu a pressão imediata, o ar faltando, mas não conseguia reagir. A sensação de sufocamento era real, mas ao mesmo tempo ele sentia uma eletricidade percorrendo sua pele, o calor de uma presença dominadora que lhe arrancava qualquer desejo de reação.
Sam, por sua vez, mal conseguia mover os olhos, em sensação de desamparo e desespero.
— Eu só vou deixar vocês vivos porque sou generosa — ela disse, voz baixa e letal, como quem fala com um animal teimoso. — Mas da próxima vez que se meterem aqui, não esperem misericórdia. Vão se arrepender amargamente.
Ela levantou o pé calmamente, como se tivesse acabado de pisar em algo insignificante, e se afastou, sem pressa, sem olhar para trás. Seus passos ecoaram na sala vazia, enquanto ela deixava Sam e Bucky no chão, imersos em um silêncio gélido, quase sepulcral. Havia um homem atrás dela, observando tudo com um sorriso malicioso no rosto. Sua face era desconhecida, mas seu prazer em observar aquela situação era claramente notável.
Sam, ofegante, tentou se levantar, mas seus músculos estavam doloridos. Ele encarou Bucky, que ainda estava respirando pesadamente, os olhos fixos no vazio. Demorou alguns longos minutos antes que formulasse uma frase que fizesse sentido, como se estivessem entorpecidos, drogados ou bêbados de uma substância desconhecida e sufocante.
— Bucky… — Ele hesitou, olhando para o amigo, a expressão desconfiada. — De onde… de onde vocês se conhecem? Ela parecia saber exatamente quem você era… Quem é essa mulher? E o que ela fez com a gente?
Bucky não respondeu de imediato, mas seu olhar estava distante. Havia um terror silencioso em seus olhos. Algo dentro dele sentia que a presença dela era diferente. Que a mulher que acabara de deixá-los caídos no chão não era uma ameaça comum. Ela não era apenas alguém com poder. Ela era algo maior do que a ameaça que investigavam. E ele não sabia de tamanha intensidade quando a conheceu há alguns anos.
— Sinceramente? Você não quer saber — Bucky respondeu, a voz grave, como se quisesse pôr um ponto final no assunto. Ele deu um passo à frente, evitando o olhar de Sam. — E nem eu.
Sam ficou em silêncio por um instante, o olhar de Bucky não deixando espaço para mais perguntas. Mas ele sentiu que algo estava errado, algo que Bucky não estava contando. No entanto, a resposta de James foi tão evasiva, tão carregada de mistério, que Sam sabia que agora não era o momento certo para continuar pressionando.
Com um suspiro frustrado, Sam apenas observou Bucky se afastar em passos lentos, sentindo que havia mais naquele jogo do que ele imaginava.

