O céu ainda estava escuro quando voltaram para dentro do complexo esportivo. As luzes do corredor estavam apagadas, mas as do vestiário masculino permaneciam acesas. Era o único lugar que oferecia sombra, silêncio e um pouco de descanso. E talvez, sem que nenhum dos dois admitisse, privacidade.
entrou primeiro, mas não fechou a porta. Apenas olhou por cima do ombro e esperou que ela o seguisse.
hesitou, mas foi.
Dentro do vestiário, o eco das respirações parecia maior do que antes. Ela se sentou em um dos bancos. Ele pegou uma toalha pequena da mochila e jogou sobre a nuca, ainda suado.
O silêncio, de novo, veio como uma onda.
— Quando você joga — ele começou, sem olhar pra ela — parece que está tentando vencer um fantasma.
Ela riu sem humor.
— Quem? — ele perguntou, virando-se de frente para ela, encostando-se nos armários de metal atrás de si.
demorou para responder. Depois sussurrou:
— Eu mesma.
Ele a observou por um tempo longo. Tinha algo no olhar dela que o desarmava completamente. A forma como ela segurava as emoções como quem segura uma raquete prestes a quebrar. Com força demais.
— Eu costumava jogar pra provar que era bom o suficiente — disse ele. — Agora eu jogo pra esquecer quem eu sou quando não tô com uma raquete na mão.
— E consegue?
— Às vezes. Mas você... você me distrai.
Ela o encarou, surpresa pela sinceridade.
— Achei que fosse eu quem te desafiava.
— Também. Mas nem todo desafio é sobre vencer — ele respondeu, dando um passo na direção dela.
mordeu o canto do lábio inferior, como se quisesse esconder um sorriso.
— Você flerta com frequência em vestiários?
— Só quando a garota acabou de me vencer num jogo psicológico sem que eu percebesse.
Ela soltou uma risada curta, nervosa. Os olhos dele a acompanhavam como se memorizassem cada detalhe.
se levantou devagar. Parou na frente dele.
não se mexeu. Só a olhava, esperando.
Ela ergueu a mão, ajeitou de leve a gola da camisa dele — um gesto sem motivo algum além de encurtar a distância. Ele abaixou um pouco o rosto. As testas quase se encostaram.
Dessa vez, nenhum dos dois desviou.
Foi rápido, foi intenso e foi inevitável…
Os lábios se encontraram como se já tivessem feito isso mil vezes — como se cada ponto jogado, cada segredo confessado, tivesse sido apenas uma desculpa para chegar ali.
O beijo não foi tímido. Foi um roubo. Um mergulho. Um alívio.
As mãos dela foram parar na nuca dele. As dele, na cintura dela. Sem pressa. Sem urgência. Mas com uma fome silenciosa.
Não houve hesitação. Nem choque.
A boca dele encaixou-se à dela com uma naturalidade quase absurda, como se os dois fossem feitos sob medida para aquele instante.
Começou devagar, como se ambos quisessem prolongar o momento o máximo possível, saboreando o toque, sentindo a textura, testando o ritmo.
Mas logo ganhou mais intensidade, mais urgência silenciosa — não porque quisessem apressar, mas porque estavam presos demais naquele momento para manter qualquer controle.
As mãos dela subiram pela nuca dele, os dedos se enroscando no cabelo úmido, puxando-o para mais perto como se tivessem medo que ele desaparecesse.
As mãos dele repousaram na cintura dela primeiro, depois escorregaram com cuidado pelas costas, desenhando o contorno do corpo com os polegares, como se quisesse memorizar a sensação.
Ele a beijava com os olhos fechados e o coração exposto.
E ela se entregava com o corpo tenso e a alma trêmula.
O gosto da madrugada estava nos lábios deles — suor, ar frio, desejo guardado demais.
Quando os lábios finalmente se separaram, devagar, os olhos ainda permaneceram fechados por um segundo a mais, como se o mundo lá fora fosse menos real do que o que tinham acabado de viver.
As testas encostadas. As respirações descompassadas.
Era mais que um beijo.
Era o ponto final de tudo o que não teve nome entre eles.
E, ao mesmo tempo, o primeiro saque de tudo o que ainda estava por vir.
🎾🎾🎾
As testas ainda encostadas. As respirações desencontradas.
abriu os olhos primeiro, mas não recuou. Apenas sussurrou, com a voz falhando levemente:
— A gente não devia estar fazendo isso.
sorriu, ainda ofegante.
— Eu sei.
Ela mordeu o lábio inferior, como se quisesse impedir a si mesma de dizer o que vinha a seguir. Mas disse, mesmo assim:
— E por que não consigo parar?
Ele ergueu a mão, tocando com o polegar a pele do rosto dela, abaixo do olho.
— Porque você também tá cansada de fingir que não sente nada.
Ela fechou os olhos por um segundo com aquele toque, como se aquilo doesse e curasse ao mesmo tempo.
— E você? — ela perguntou, quase num fio de voz. — O que você sente?
Ele demorou para responder. Não por indecisão. Mas porque era difícil colocar em palavras.
— Que se eu te beijar de novo, não vai ser só mais um erro.
E então ele fez exatamente isso.
A beijou.
Mas não como antes.
Dessa vez, foi com mais intensidade.
Mais urgência.
Como se ele estivesse disposto a perder o juízo inteiro só para ter mais um minuto daquilo.
As mãos dele passaram pelas laterais do corpo dela, subindo pelas costelas, puxando-a pela cintura com firmeza. cedeu o corpo contra o dele com um suspiro abafado entre o beijo, os dedos agarrando a gola da camisa dele, apertando com força.
O calor entre os dois era tão forte que o vestiário, mesmo frio, parecia em combustão.
Os beijos desceram para o queixo dela. Depois para a linha do pescoço. Ela arqueou o corpo involuntariamente, sentindo a boca dele explorar a pele com uma lentidão quase torturante.
— ... — ela murmurou o nome dele, sem conseguir esconder o arrepio na voz.
— Me diz pra parar — ele sussurrou de volta, com os lábios roçando a clavícula dela. — Que eu paro agora.
Ela não disse nada. Só puxou o rosto dele de volta para o dela e o beijou de novo, com mais fome. Mais entrega.
Como quem finalmente aceitava cair.
Os corpos se encostaram sem nenhuma hesitação agora. As mãos dela exploravam as costas dele por baixo da camisa. As dele deslizavam pelos quadris dela, puxando-a mais perto, como se a distância entre os dois já fosse insuportável.
Ali, entre armários de metal e luzes frias, dois corpos deixavam de fugir.
Não havia mais raquetes. Nem segredos. Nem madrugada.
Só os dois. E um desejo que já não sabia mais esperar…
Com passos lentos, mas calculados, os dois caminharam juntos para dentro de um dos boxes.
Nenhum dos dois dizia nada.
Não precisava.
As mãos de continuavam na cintura dela, como se não quisessem deixá-la escapar. E mantinha os olhos fixos nos dele, como se quisesse ter certeza de que ele realmente estava ali — de que aquilo estava mesmo acontecendo.
O som do tênis contra o chão úmido, o eco abafado da respiração deles, a tensão pairando no ar como eletricidade antes da chuva. Tudo ali parecia carregado demais para ser casual.
Quando entraram no box, ele encostou a porta com o cotovelo, sem trancar. Não havia ninguém por perto — só eles, no fim da madrugada que agora parecia eterna.
Ela parou de frente para ele. A poucos centímetros. O peito ainda subindo e descendo com a respiração acelerada, o olhar fixo nos lábios dele. E quando falou, sua voz saiu em um sussurro rouco:
— Eu não sei o que isso significa.
tocou o rosto dela com as costas dos dedos, desceu até o pescoço, depois até a clavícula…
— A gente não precisa saber, não agora.
Ele a beijou outra vez, mais firme, mais profundo.
respondeu com a mesma intensidade. As mãos subiram pelo peito dele, sentindo os músculos contraídos sob o tecido. Os dedos deslizaram pela barra da camisa, puxando-a devagar, como quem testava os próprios limites.
Os corpos se encostavam com mais liberdade agora. As mãos exploravam. O calor aumentava.
Mas nada era apressado.
Era como se os dois tivessem esperado demais pra agora ter pressa.
Ela passou os dedos pela pele do abdômen dele quando a camisa finalmente subiu. Ele deslizou a ponta dos dedos pela base da blusa dela, os olhos pedindo permissão mesmo quando o corpo implorava por mais.
— Me mostra — ela murmurou, a voz baixa, firme. — Que não sou só eu sentindo isso tudo.
puxou a blusa dela com cuidado, expondo a pele quente, os olhos escurecendo com o desejo contido que agora já não cabia mais dentro dele.
E ali, naquele espaço apertado, onde tudo parecia proibido demais pra ser real... eles se perderam, lentamente, um no outro.
A blusa deslizou pelos braços dela com suavidade, como se aquele tecido fosse um limite simbólico sendo ultrapassado.
a olhou por inteiro — sem pressa, sem pressões — como se ver assim, tão próxima, tão real, fosse algo que ele precisasse guardar na memória.
Ela, por sua vez, sentiu o corpo arrepiar sob o olhar dele. Mas não era vergonha. Era uma entrega silenciosa, que vinha do fundo, da parte dela que não sabia ceder… até agora.
Os dedos de traçaram uma linha tênue da cintura dela até o centro das costas, e ele a puxou devagar, colando os corpos com uma delicadeza que contrastava com o desejo que tremia em suas mãos.
O segundo beijo foi mais profundo, mais necessitado. As bocas se encontravam entre suspiros e murmúrios abafados, as línguas se tocando como se soubessem exatamente onde doer e onde curar.
desceu as mãos pelas costas dele, arrastando as unhas com leveza, sentindo cada músculo reagir sob seu toque. apoiou uma das mãos na parede fria do box e a outra na coxa dela, puxando-a levemente para si. O toque foi firme, mas cuidadoso — como quem pede permissão, mesmo sem palavras.
Ela o guiou com as mãos até que ele a encostasse com o corpo inteiro contra a parede. O contraste da superfície fria nas costas e o calor dele à frente a fez arfar, os olhos fechados, os lábios entreabertos em um suspiro.
pressionou os lábios contra o pescoço dela, deixando beijos molhados e demorados que a faziam tremer por dentro. Desceu lentamente, explorando cada centímetro de pele como se tivesse todo o tempo do mundo.
As roupas foram caindo, peça por peça, num silêncio cúmplice.
E quando já não havia mais nada entre eles, a pele contra a pele trouxe uma nova dimensão ao momento: o real. O palpável. O inevitável.
Ele a segurou com as duas mãos firmes na cintura, os olhos mergulhados nos dela.
— Ainda não quer que eu pare? — sussurrou, com os lábios quase tocando os dela.
— Se você parar agora... — ela respondeu, a respiração entrecortada — eu juro que nunca vou te perdoar.
O que veio depois foi pura verdade.
Os corpos se encaixaram com uma naturalidade crua e íntima, como se tudo que haviam escondido atrás de raquetes, sarcasmo e silêncios estivesse finalmente sendo dito através do toque.
Ela se agarrou aos ombros dele quando sentiu o corpo ser preenchido, um gemido baixo escapando de seus lábios, abafado pelo pescoço dele. Ele a envolveu com força, os movimentos lentos no início, como se cada investida fosse uma pergunta respondida com a respiração dela acelerando.
A sincronia era absurda.
Não havia hesitação.
Não havia máscaras.
A cada estocada, a tensão se dissolvia. A cada suspiro, os segredos viravam pó.
Os nomes foram sussurrados como se fossem promessas. As mãos exploraram, apertaram, acariciaram — não com pressa, mas com fome.
E quando o ápice veio, foi ao mesmo tempo. Ela com a testa encostada ao ombro dele, os dedos fincados nas costas. Ele enterrando o rosto na curva do pescoço dela, o corpo inteiro tremendo de prazer e alívio.
Ficaram ali por alguns segundos, ofegantes, sem se afastar. Como se o mundo tivesse finalmente desacelerado.
foi o primeiro a se mover. Beijou a têmpora dela com ternura, os dedos ainda acariciando suas costas nuas.
— Isso... — ele começou, sem conseguir terminar a frase.
abriu os olhos, o peito ainda subindo e descendo.
— Eu sei.
E, por agora, saber era suficiente.
🎾🎾🎾
Ainda dentro do box, o silêncio entre eles não era desconfortável. Era cheio.
Cheio de tudo o que tinham sentido. Do que tinham feito, do que ainda não sabiam como nomear…
se afastou devagar, os dedos ainda deslizando pela pele dela como se não quisessem perder o último contato. encostou a testa no ombro dele, os olhos fechados, sentindo o coração ainda batendo forte — não pelo esforço, mas pela presença dele. Pelo agora.
— Vem — ele disse, baixo, quase um convite.
Ela assentiu, e ele a guiou até os chuveiros. Um dos boxes ao lado tinha o registro exposto, sem porta. Ela não se importou. Pela primeira vez em muito tempo, não se importava com mais nada que não fosse ele ali.
abriu o chuveiro e testou a temperatura com a mão. Quando a água quente começou a cair, os dois entraram juntos, sem pressa.
Ele a puxou delicadamente para perto, as mãos apoiadas nas laterais do rosto dela, enquanto a água escorria entre os corpos ainda colados. Ela fechou os olhos, sentindo o calor da água e o toque suave dele como um casulo seguro.
— Você não é quebrada, — ele disse, de repente, a voz rouca, firme. — Você só tá cansada de ser forte o tempo todo.
Ela abriu os olhos:
— Eu não sei como ser de outro jeito.
— Eu também não sabia — ele confessou. — Até essa noite.
Ela sorriu de leve, mas havia algo úmido nos olhos — e não era só da água.
Encostou o rosto no peito dele, os braços escorregando pelas costas molhadas…
— Não sei o que isso vai ser, .
— Nem eu. — Ele passou os dedos pelos fios molhados dela. — Mas, pela primeira vez, eu quero descobrir.
Ficaram assim, sob o chuveiro, apenas sentindo a pele um do outro. Sem máscaras, sem fama, sem plateia.
Apenas dois corpos cansados e duas almas encontrando algum tipo de alívio, mesmo que momentâneo.
Quando saíram do banho, ele a envolveu em uma toalha com cuidado, beijando a ponta do ombro antes de puxá-la mais uma vez para perto.
— A gente vai fingir que isso não aconteceu quando o dia amanhecer? — ela perguntou, encostando a testa na dele.
— Não quero fingir mais nada — ele respondeu, simples. — Mas se você quiser, a gente pode fingir juntos.
Ela riu, baixa, tocando o rosto dele.
— Idiota.
— Mas posso ser seu idiota favorito?
Ela não respondeu com palavras.
Apenas se inclinou um pouco mais, encostando a ponta dos lábios no nariz dele, num beijo leve, silencioso, quase infantil — e por isso mesmo, tão íntimo.
Ficaram assim, abraçados sob a água quente, os corpos colados, as respirações se misturando.
O mundo podia esperar. A quadra, os holofotes, os jogos, os disfarces... tudo lá fora podia esperar.
Porque ali, naquele instante, entre os braços dele, ela não era , a tenista. E ele não era , o prodígio.
Eram só dois corações exaustos, finalmente em paz.
Ainda com o rosto encostado no peito dele, fechou os olhos por um instante.
A água escorria pelas costas, o calor do corpo dele contrastava com o frio que sentia por dentro há tanto tempo — e que, agora, parecia estar derretendo aos poucos.
Ela não sabia se aquilo era o começo de algo ou apenas um ponto fora da curva.
Mas pela primeira vez em muito tempo, não se sentia sozinha.
Ali, nos braços dele, entre respirações úmidas e corações ainda acelerados, ela pensou:
"Se for só isso, já valeu a pena."
E então, como quem se permite descansar de uma guerra, ela simplesmente ficou ali. Com ele. Debaixo da água, sem pressa de voltar.