Revisada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 15/09/2025
Era estranho olhar para as paredes brancas e vazias do apartamento onde planejei viver os próximos anos da minha vida, com a pessoa que eu imaginei amar mais do que a mim mesma. Aquelas paredes carregavam lembranças demais para estarem tão limpas.
A estante que um dia iria sustentar nossos livros agora só tinha pó. A mesa da sala onde planejamos um futuro que nunca veio estava encostada num canto, à espera do novo dono.
Tudo ali gritava fim. Fim de algo que sequer tinha tido um começo. E, pela primeira vez em meses, eu sentia alívio.
— A venda foi finalizada hoje. Já avisei ao advogado dele — minha advogada disse, com um olhar compreensível.
— É melhor assim… Acho até que demorou. — Forcei um sorriso enquanto passava as mãos delicadamente no sofá ainda envolto por um plástico.
— Então, podemos ir? Você quer levar algo daqui?
— Vou, mas você já pode ir. Obrigada por tudo!
— Não há de quê — ela disse, sorrindo, antes de sair.
Fiquei mais um tempo ali, analisando cada cantinho daquele apartamento. Cada espaço carregava uma parte de um sonho que havia sido sonhado por duas pessoas — e que nunca saiu do papel.
Nunca morei ali. Nunca dormi naquela cama que ainda nem existia. Nunca enchi os armários de louça nova, nem decorei a sala com as almofadas que escolhemos juntos. O apartamento era nosso plano. Nosso começo. O lar que viria depois do “sim”.
Mas o “sim” nunca veio.
A gente adiava o casamento há meses, e eu fingia não perceber os sinais. Dizia que era o trabalho dele, a correria, o estresse. Sempre tinha uma desculpa pra justificar o que, no fundo, eu já sabia: ele não queria mais.
O término veio como vem tudo que a gente empurra por tempo demais — de forma fria, prática, quase indolor pra quem já tinha ido embora muito antes de dizer.
Pra mim, não foi prático.
Foi cruel.
Me mantive firme enquanto falava com a advogada, assinei o que precisava, entreguei as chaves e agradeci. Tudo automático.
Mas agora que estava sozinha, o vazio do lugar parecia zombar de mim.
A mesa encostada no canto. A estante sem livros. A cozinha onde eu imaginei cozinhar pra ele na nossa primeira noite juntos.
Tudo ali era projeção. E tudo ali precisava deixar de ser.
Peguei minha bolsa e dei a última volta pelos cômodos. A luz da tarde entrava pelas janelas e deixava tudo bonito demais pra uma despedida, como se o universo tivesse o dom de ser irônico nas horas erradas.
A chave girou na fechadura com um estalo seco. Última vez.
Fechei a porta atrás de mim, sentindo um nó apertado na garganta. Não era tristeza, exatamente. Era uma espécie de luto silencioso por tudo o que não foi. Por tudo o que esperei e não aconteceu.
Por mim mesma, talvez.
Entrei no carro, joguei minha bolsa no banco do passageiro e arrumei o retrovisor interno quando senti meu celular vibrando no bolso do casaco e então abri a mensagem de .
«: Tá viva, mulher? Já deu entrada na papelada toda?»
Sorri de canto, como se o simples fato de ver o nome dela me trouxesse algum tipo de conforto. A sempre soube o que dizer, mesmo quando não dizia nada.
«Eu: Sim. Apê vendido. Liberdade adquirida»
«: Aleluia! Agora bora recomeçar do zero e fazer história fora dessa cidade. Já pensou naquilo que eu te falei»
Não, eu realmente não tinha pensado na proposta absurda que havia me feito desde que eu e Lucas havíamos terminado.
Assim que meu noivado com Lucas chegou ao fim, me chamou pra passar um tempo indeterminado no Rio, para largar tudo aqui em Brasília e experimentar algo novo, em outro lugar.
De primeira, achei uma ideia maluca, mas de umas semanas pra cá eu comecei a reconsiderar, mas realmente não tinha parado para pensar com carinho.
«Eu: Amiga, para ser sincera, eu não pensei com carinho, mas to reconsiderando»
«: Isso já é um passo! Mas eu tenho uma coisa para te fazer pensar melhor.»
«Eu: Tem é? Me conta!»
«: Daqui a pouco te conto, tô saindo aqui para almoçar com uns amigos.»
«Eu: Okay, estarei esperando! Beijo!»
«: Beijo amiga, até mais tarde»
Bloqueei o celular, coloquei o cinto de segurança e dirigi até a casa dos meus pais.
O trajeto até a casa dos meus pais foi tranquilo, o silêncio era cortado apenas pela música baixa que tocava no rádio, havia poucos carros na rua por conta do horário, o que me fez chegar em questão de minutos.
Estacionei na garagem de casa e logo vi meu pai sentado em uma das cadeiras de madeira, ele estava consertando alguma coisa, como de costume.
— Oi, minha princesa. Você demorou!
— Ai, pai, foi meio complicado. — Suspirei antes de dar-lhe um beijo na bochecha. — Mas fiz o que precisava ser feito.
Entrei em casa e o cheiro de comida caseira vinha da cozinha, junto com o cantarolado baixo da minha mãe.
— Conheço esse cheiro, hein!
— Oi, meu amor! Como você está?
— Bem… Eu acho.
— Foi difícil né?
— É, eu estaria mentindo se dissesse que não. — Forcei um sorriso enquanto me sentava em uma das banquetas do balcão.
— Filha, foi melhor assim! Adiar mais só iria piorar.
— Eu sei, mãe, mas sei lá… Parece que isso foi a verdadeira confirmação de que tudo acabou.
Minha mãe não disse nada, apenas me abraçou e depositou um beijo no topo da minha cabeça.
— Mamãe fez aquela lasanha, só não sei se ela estará tão boa como a da chef — disse, sorrindo.
— Certeza que está até melhor, já que a chef aprendeu com a senhora, dona Laura.
— Você não sabe como eu fico orgulhosa com isso!
Continuamos na cozinha por mais alguns minutos até o forno tilintar nos avisando que a lasanha já estava pronta.
Enquanto estava pondo a mesa, minha mãe foi até a garagem para chamar meu pai para o almoço.
Almoçamos enquanto conversávamos sobre outros assuntos que não fossem relacionados ao fim do meu noivado. Falamos sobre o novo projeto de trabalho do meu pai e dos planos que os dois estavam tendo de adotar um cachorro.
Estávamos nós três na sala, eu e minha mãe sentadas no sofá e meu pai em sua poltrona enquanto assistimos o jornal da tarde, mas na verdade eu nem prestava atenção e, pelo visto, nem meu pai.
Meu pai abaixou o volume da TV e se virou para mim sorrindo fraco.
— E agora? — ele perguntou baixo, com um olhar cuidadoso.
Olhei para o teto por um instante, buscando respostas que não estavam ali.
— Não sei... Ainda nem comecei a pensar direito sobre o que vem pela frente.
O silêncio pairou, confortável e necessário. Seria o Rio? O convite da ? Ou talvez ficar aqui, ajeitar os pedaços do que ficou e tentar seguir em frente?
Meu celular vibrou no bolso, cortando o silêncio. Era a .
— Eu preciso atender.
— Vai lá.
Subi as escadas correndo e atendi a ligação assim que cheguei no corredor dos quartos.
*Ligação On*
— Amiga!! — A voz de sempre animada parecia ainda mais radiante. — Agora eu posso te contar a novidade.
— Então conte-me. — Me joguei na cama com as pernas para o alto.
— Amiga, isso pode mudar tudo!
— Você está me deixando ansiosa — admiti.
— Meu padrasto me chamou pra conversar no início desta semana, ele está abrindo um restaurante novo, aqui no Rio. Ele conversou comigo e disse que precisa de um sócio, mais especificamente de uma chef de cozinha e a primeira pessoa que nós pensamos foi você!
— Amiga… — Eu estava simplesmente sem palavras.
— Eu sei que você precisa pensar, mas pensa rápido e com carinho, o restaurante está praticamente pronto.
— Prometo que irei pensar e te avisar o mais rápido possível!
— Estaremos esperando a sua resposta.
— Obrigada, amiga! Te amo!
— Também te amo!
*Ligação Off*
Desliguei e olhei pela janela, vendo o céu escurecer devagar.
O futuro parecia incerto, mas algo naquele convite me puxava, me desafiava.
Será que era hora de arriscar?
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
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