Revisada por: Lightyear 💫
Última Atualização: 25/07/2025Os olhos pesam, úmidos — não importa o quanto tente, olhar é uma tortura lenta, incômoda.
Por todo canto, dentro e fora, parece chover.
— Não temos muito tempo...
As vozes ao longe soam entrecortadas, irreais.
O som em volta é denso, incapaz de romper a bolha que envolve o seu corpo.
Tudo está preso.
Preso em um corredor que cheira a antisséptico.
Lentamente, pisca os olhos ardidos e cansados. Na terceira vez, está de volta à rua.
Há faróis por todo canto. Estilhaços de vidros se espalham pela avenida, alcançando um sapato perdido no asfalto enquanto enquadram pedaços de um buquê lançado ao relento.
O som incessante de uma buzina ecoa ao fundo junto de sirenes estridentes.
Algo molha os contornos do seu rosto.
Gotas de água? Lágrimas?
Pisca outra vez — nada tem foco na vista embaçada — e a luz transforma tudo em fragmentos que não pode mais alcançar.
Agora, o corpo repousa, mas o peso em seus ombros atravessa a matéria plástica do banco.
As mãos tremem. A respiração é falha.
Alguém transforma sílabas em frases desconexas mais de uma vez, só que a silhueta marcada pela luz fria detém uma boca da qual nenhum som ecoa.
O mundo é só um pano branco estendido entre o que foi e o que ainda não é.
Com as palmas contra as pálpebras cansadas, fecha os olhos de novo em busca de um respiro antes que a dissonância sufoque, mas isso não impede que volte àquele lugar.
Ali, há porcelana cara e boa comida em uma bela mesa posta.
Tudo parece perfeito, contudo, o prato está frio.
Duas taças repousam em um tecido translúcido sob luz quente, mas o outro assento permanece vazio. Por um momento, o som da porta abrindo-se devagar ressoa e seu corpo se ergue em antecipação. Espera ver algo. A sombra de alguém. Qualquer coisa. Todavia, o clarão ofuscante engole e silencia tudo — novamente.
