Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 20/02/2026Não tinha vista mais linda do que ver os raios do sol refletindo naquela imensidão de montanhas e gramas. Era o paraíso e nem mesmo a magia conseguia suprir toda aquela beleza.
Nunca nenhum outro amor tinha um tamanho tão grande que comparasse quando passou a conhecer um bebe de dragão húngaro. Desde cedo, ela gostava de cuidar dos animais mágicos, vendo sua mãe cuidar e dar atenção às criaturas. foi criada no meio do trabalho de sua mãe. Quando era a temporada do término do ano letivo, ela e sua mãe começavam as viagens para o santuário de dragões, ou até mesmo outros lugares que abrigavam as criaturas mágicas.
E, deste modo, seu amor pelas criaturas nasceu, principalmente pelos dragões.
Algumas horas antes, a equipe Gylden Skjell recebia um correio coruja urgente. Amarrado na perna da coruja, Elin soltou cuidadosamente, acariciando o local. e entregou um camundongo para ela. O papel envelhecido e o selo acobreado destacando o nome do Avdeling for Kontroll av Norrøn Magi.
“Distrikt for Kontroll av Magiske Kreaturer
Kjære dere. Team Gyden Skell.
Solicito uma reunião para o final desta tarde. É imperativo que todos estejam presentes e pontuais. Discutiremos o desligamento de dos cuidados da Smaragd.
øverste minister for Distrikt for Kontroll av Magiske Kreaturer
Kurtz Hagen.”
Elin avisou a todos, e Till começou todo o preparatório.
Naquela tarde, se despediria da sua rotina perfeita no santuário de Dragões. Até o momento, ela não tinha um motivo para seu suposto afastamento temporário, iria voltar para a cidade trabalhando dentro de um escritório. Odiava essa ideia, ficar trancafiada em uma sala, sem a luz do sol, sem o perfume da grama verde e o som das asas dos dragões era a pior maldição que poderiam “lançar” sob ela.
estava sentada na entrada da sua cabana, tomando seu chá, enquanto esperava Elin retornar da pequena vistoria com os ovos de dragões. Elin também fazia parte da equipe de Romana, composta por ela, Till e Elin. A equipe Gylden Skjell fazia de tudo e mais um pouco no santuário. Naquele momento, eles estavam dando uma atenção especial a um dos dragões-fêmeas.
Till se aproximava dela, que ainda estava sentada no chão.
— Rami, vamos? — Till a chamou. — A fogueira já está pronta. — Estava um pouco ofegante por subir a montanha.
A cabana dela ficava no topo de uma das montanhas, onde tinha uma das melhores vistas da região. Logo atrás — mais abaixo —, estavam as outras três cabanas: a de Elin e Till, com seu charme acolhedor, e a terceira, um espaço funcional, onde a equipe mantinha todos os documentos importantes. Era ali que se reuniam ao redor da fogueira para discutir estratégias e conversar com o ministro.
— Estou indo. — Se levantou e limpou a calça. — O ministério já está a par da situação daqui?
— Sim, Elin contou tudo em uma carta. Pode dizer adeus aos seus dragões — brincou com a garota.
— Por mim, eu moraria aqui. Você viu aquele sol? E os dragões? E as escamas deles? E os olhinhos dos bebês dragões? — tinha o olhar apaixonado a cada letra que falava sobre os dragões.
Se aproximaram da cabana.
— Você tem que parar com esse amor por eles. Não existe ninguém que possa entender isso — Elin disse calma e com sinceridade em sua voz. Ela tinha o conhecimento que um dos sonhos dela era ser pedida em namoro em pleno natal.
— Eu sei. — Sentou desanimada. — Porém eu não vou deixar de vir aqui por pouco tempo — disse convicta. — Eles demoram tanto para isso. — Revirou os olhos.
— Devem de estar puxando o histórico todo da missão. — Foi a vez de Elin falar.
— Till? — Uma cabeça apareceu na fogueira. — Till, está tudo certo? Podemos começar?
— Sim, senhor Ministro.
— Certo... Concluímos que o trabalho de vocês está encerrado. O cuidado com o dragão húngaro não é mais necessário, é melhor que se deem conta disso.
— Ele ainda não está melhor — Til começou a falar. — Sua asa ainda está machucada, e o dorso dele precisa ainda ser tratado, existem pontos de queimaduras sem a melhora adequada.
— Sendo assim, apenas você ficará. Senhorita Elin e podem voltar para suas casas.
— Mas isso é trabalho para três pessoas, não uma — disse , inconformada. — Não podem simplesmente deixar uma única pessoa cuidar de um dragão.
Inteligente. não deixava nada passar.
Conhecia os riscos, os cuidados, as formas, como deveria ser, bem mais que o próprio Till.
— Muito bem. — Pensou rapidamente, com um sorriso desdenhoso. — Você vai fazer isso apenas com a Elin. — Ele olhava apenas para Till. A moça ouvia atentamente, como se fosse a única opção. — E você, , volte imediatamente! Não tenho tempo para os seus discursos.
E logo o Ministro sumiu das chamas. saiu aos nervos da cabana. Não ouviu nenhum de seus amigos, seu corpo fervia de raiva e queria pular no pescoço do Ministro e o fazer desmaiar. Os outros membros da equipe foram atrás dela para se despedirem.
Na sua cabana, ela passou a arrumar todos os seus pertences, as fotos que ela registrou dos bebês dragões e até mesmo do dia a dia saíram voando até entrarem em uma caixa. Deixaria lá todas as coisas que ganhou do ministério, não queria levar nada que recebeu pelas mãos do Kurtz.
— Não acredito. — Balançou a varinha, fazendo todos seus pertences entrarem na mala. — Deixar apenas duas pessoas nesse santuário. — Não falava pelo seu amor pelos dragões, mas, sim, o cuidado. — É trabalho para três pessoas ou mais, e o sensato — soou irônica — mantém duas pessoas, duas! — enfatizou. — Além de ignorar minha carta e você também, Till.
— Qualquer coisa, chamamos você. — Elin tentou tranquilizá-la.
— Qualquer coisa — resmungou. — Eu só venho pelos dragões não pelo ministério.
— E nós? — Till questionou. Sua pergunta soou mais na forma do seu amor à bruxa.
— Você sabe se virar. — A mala parou ao lado dela. — Vou indo, e espero que tudo dê certo, Elin. Qualquer coisa, você deve me chamar.
— Sim, sim, Rami.
O trio caminhava junto de até a chave do portal — um patinho de borracha esverdeado, ele seria ativo dali a alguns minutos. Se despediu calorosamente de Elin e avisou que seria a primeira a enviar um correio coruja para assim ter o endereço certinho, estava receosa de deixar Elin sozinha com Till, ele podia ter a aparência de um bom homem, mas sua experiência trabalhando ao lado dele nunca foi uma das melhores.
Ao se despedir de Till, ela foi bem breve, não quis prolongar nada, muito menos aquele abraço em que ele fazia questão de decorar todos os mínimos detalhes das curvas delas com o olhar.
Ela ainda estava irritada, nervosa e incrédula com a atitude deles. Como eles podiam tirar a mulher mais experiente do cuidado do dragão? Conhecia tão bem a fama de Kurtz. Por hora, manteria seu foco em visitar sua mãe e saber como lidar com a nova rotina.
Neste momento, já estava de frente para a entrada do escritório do Ministro. Suas malas estavam ao lado dela, e não estava nem aí para os bruxos que passavam olhando para ela e a mala. batia o pé contra o piso de porcelanato acinzentado, com o olhar fixo na porta marrom envelhecida. Quando a maçaneta girou, ela parou de bater o pé e esperou o homem baixo, barbudo e barrigudo a chamar.
— Ianevski. — O sorriso estava nos lábios.
— Kurtz Hagen, eu não esperava vê-lo tão cedo — disse disparadamente. — Você tem algo a me dizer?
— O Ministério decidiu afastá-la de suas funções.
— E qual é a justificativa para isso? — A voz de , embora firme, revelava a tensão que sentia.
pensava precavidamente para não cometer um equívoco. Não existia uma forma mais educada de se falar que o ministro da Bulgária era machista. Não havia uma mulher que trabalhava no Ministério que suportava olhar para a cara barbuda de Kurtz, e até mesmo alguns homens também não suportavam as atitudes dele.
Kurtz estava no cargo supremo de cuidado das criaturas mágicas dois anos antes da senhora Margareth sair da atividade de campo — e ficar apenas nos escritos. Desde então, ele deixou claro que familiares não poderiam trabalhar no mesmo caso juntos. Sendo assim, e Margareth passaram a trabalhar em horários distintos. Além deste pequeno absurdo, outras normas também foram incrementadas, normas que deixavam vermelha de tanto ódio.
— Espero que não seja o que estou pensando — murmurou.
Kurtz carregava um semblante sério, o ar arrogante que sempre levava consigo dava espaço para uma pessoa preocupada e, pela primeira vez, transmitia um por cento de empatia.
— Sua mãe estava no trabalho conosco. Como de costume, tínhamos uma reunião. Cinco minutos depois, ela desmaiou. Nós fizemos todos os procedimentos adequados para ajudá-la e, dois dias depois, ela retornou e trouxe um parecer médico, entretanto achamos melhor afastá-la.
— Mamãe. — Em um sussurro, a palavra saiu. — Desde quando isso?
— Esta semana. Inclusive, ontem ela tornou a passar mal e seguimos as medidas cabíveis. No entanto, agora ela está bem, foi levada para o hospital.
— Vou até lá, mas o cargo ainda é nosso. Espero que, quando eu voltar, não tenha homens no lugar.
— E tem como evitarmos os Ianevski?
— O senhor está ficando sábio. — Ironicamente sorriu. — Volto quando minha mãe melhorar, e ela também vai voltar. Senhor Ministro — despediu-se, com um aceno.
— .
Acompanhou a mulher até a porta. Encostado no batente, ele viu a mulher se afastar às pressas com a mala em seu encalço. Um outro homem que veio no sentido oposto se aproximou do ministro; cabelo comprido, nariz pontudo e o rosto medianamente fino.
— Você não vai tirar elas do Ministério? — A olhava se distanciar.
— Estou tentado, Igor, estou tentando. — Cansada, foi assim que saiu sua fala.
O hospital Herr Vladislav Alkemist era um dos mais renomados da Noruega. Não havia um bruxo que fosse para lá e não saísse melhor do que o dia que nasceu.
Andar por aqueles corredores imaginando como seria o estado de sua mãe a deixava aflita. Esfregando suas mãos uma na outra, ela parou na frente da porta do quarto, o número duzentos e oito, e colocou seu sorriso mais sincero, numa tentativa de afastar sua preocupação do semblante.
adentrou no quarto quando obteve a permissão da sua inspiração. Ela estava calma, com aspecto pálido dando mais realce aos dourados do cabelo. As bochechas rosadas que ela tinha sumiram. Apenas o brilho no olhar estava consigo.
— Oi, mamãe.
— Minha pequena , oi! — surpresa, ela falou. — Como foi com o dragão?
— Bem, ela está melhor — omitiu. — Com mais ânimo, as escamas estão perfeitas e a saúde impecável. Quer dizer, nem tanto, tenho que cuidar dela ainda, mas, no momento, tem que ser longe. Falei que é fêmea, porém todos ignoraram. — Revirou o olhar.
— Foi só acidente nas escamas?
— Na asa também. Não sei de onde esses bruxos idiotas tiraram a ideia de que jogar fogo em um dragão seria adequado para ele fugir.
— Você sabe que não é isso.
— E como sei. — Puxou a cadeira para sentar. — Não sei como Newt conseguia.
— Da mesma forma que você. O cuidado com a organização, carinho e atenção. Eles sabem que você vai lá para cuidar, eles sentem, mas a dor é maior, então claro que vai reagir.
— Não é tão fácil como eu imaginei quando era pequena. — Riu.
— Não mesmo. Qual dragão é?
— É uma Smaragd, a mais linda que eu já vi.
— Concordo — recordou. — Eu deixei alguns papéis de pesquisa na mesa, você pode concluir?
— Posso, sim. — Deixou o sorriso aparecer. — E como a senhora está?
— Bem. Estou meio irritada por não poder sair. Eu só tive uma leve fraqueza, nada de mais.
— Você não pode mentir para mim, mamãe.
— Senhora Ianevski? — A médica apareceu na porta e entrou depois de ter a atenção para ela. — Podemos conversar?
— Olá, doutora, essa é minha filha, .
— Boa noite, prazer em conhecê-la — cumprimentou a doutora.
— Obrigada por estar cuidando da minha mãe.
— Só estou fazendo meu trabalho. — Sorriu. — Acho que não tem problema conversar com ela aqui, certo? — séria, ela questionou. Não queria passar informações para a sua paciente com a acompanhante sem a autorização.
— Claro que não, doutora, pode falar.
O timbre da voz preocupou , sabia que a conversa seria longa e com diversos detalhes. A cada frase terminada, surgiam inúmeras dúvidas, dúvidas que nem sempre eram respondidas de forma positiva. Sentiu seu estômago embrulhar, a vontade de sair dali era imediata, mas seu amor pela melhor pessoa que já conheceu em toda a sua vida lhe deu forças para se manter ao lado dela.
Charlie estava sentado na pedra, o café coava misturando com o cheiro da terra molhada e as folhas caídas. Aguardava a bebida ficar pronta, desenhando um dragão de dorso prateado. Foi seu último dragão que o protegeu, o levando a um novo santuário. Sempre que encontrava um dragão que nunca tinha visto, ele desenhava e deixava algumas anotações sobre ele, além de fazer esse pequeno ritual — o mesmo que fazia quando estava longe da toca, que fez durante esses três meses de outono em casa.
Desenhar era algo que ele amava. Muitos não sabiam este lado.
Weasley estava cansado do silêncio, da sua pequena rotina parada. Há três meses foi sua última atividade cuidando de dragões e, neste momento, estava na toca, descansando e alegrando os momentos de sua mãe. Por hora, ele queria sair dali e retornar à atividade que sempre amou.
Olhava sua mãe através da janela, a alegria contagiante por ter seu filho de volta em casa por uma breve estadia. Senhora Molly estava preparando seu terceiro prato favorito, aquele aroma o deixava ainda mais com fome. Por hora, Charles iria tentar relaxar, se acalmar e aproveitar o tempo com sua família, mesmo sentido saudades de conviver ao lado de um dragão.
— Charlie, mamãe está chamando você. — Fred apareceu na janela do quarto dele.
— Valeu, irmão.
Charles estava do lado de fora da casa, aproveitando aquele tempo agradável de outono e se recordando dos velhos momentos ao lado de seus irmãos. Levantou, fechando sua caderneta, e entrou na Toca, foi então que aquele cheiro de torta de abóbora intensificou mais ainda, o fazendo sentir seu estômago roncar no mesmo instante.
— Fred disse que você me chamou.
— Ah, sim, querido. — Colocou o refratário em cima da pia e olhou para o filho. — Harry e Hermione estão vindo para cá, consegue deixar mais lenha preparada?
— Pode deixar, eu faço isso.
Charlie se retirou cabisbaixo. Imaginou que poderia ser sua coruja ou a coruja da família trazendo uma carta para ele.
— Charles, filho — sua mãe o chamou. — Você esperava ser, não é?
— É… Eu esperava ser uma carta de algum Ministério, ou de algum santuário.
— Compreendo você. — Movimentou a varinha, colocando a torta novamente no forno, agora ela queria que desse uma dourada. — Quando nossa rotina muda bruscamente, as coisas parecem sair fora de controle, não? — Se aproximou do filho.
— Sim. — Apoiou com seus braços em uma cadeira. — Mas, mãe, não é que não estou feliz aqui.
— Eu sei. — Acariciou o rosto de Charles com ternura. — Logo uma coruja irá aparecer, e, neste meio tempo, aproveite para relaxar, sem nenhuma preocupação. — Uma piscadela ela fez.
— Obrigado, mãe.
Os irmãos mais novos de Charles também estavam fazendo suas respectivas tarefas. Sábia, Molly deu uma das tarefas mais concentradas para o seu segundo filho, deste modo, ele se concentraria ao cortar as lenhas e manteria a calma, sem pensar temporariamente nos dragões.
Charles e sua mãe eram bem ligados um ao outro — não que não fosse com seu pai. Molly era sua melhor confidente, qualquer coisa que precisava compartilhar sempre seria com ela, e deixaria seguros os segredos. No começo de outono, não foi diferente. Com trinta minutos para chegar à casa de seus pais, a coruja do homem chegou com uma carta.
A folha um pouco amassada e o selo colocado às pressas mostravam que era uma carta mais do que urgente para a senhora Molly. O cheiro de pasta de dente estava presente e se intensificava ao abrir a carta, e a letra corrida era sinal de que precisava entrar em contato o mais rápido com a matriarca.
“Querida mãe,
Sou eu, Charles Weasley, acho que você percebeu quando escrevi no envelope, mas vamos deixar passar.
Estava cuidando de um dos dragões, quando ele acabou me atacando por um pequeno erro meu. Fui levado para o hospital e cuidaram de mim lá, mas preciso ficar três meses em casa. Logo eu chegarei aí, tudo bem? Você não conta para os meninos, Ginny e o pai?
Ah, sim, o que o dragão fez. Ele me acertou com a ponta de seu rabo, onde tem uma pequena chama. Minhas costas estão um tanto quanto queimadas, mas estou bem.
Com carinho.
Seu filho, Charlie.”
Aquela carta, quando a recebeu, fez seu coração se apertar.
O abraçou com cuidado e tentou evitar que os outros filhos o machucassem, sem saber que as costas dele estariam machucadas. Arthur, seu marido, não desconfiou de nada, assim como todos, e, sempre no tardar do anoitecer, Molly e Charles se reuniam na copa para ela poder cuidar dos ferimentos dele.
Os convidados — Ron e seus amigos estavam pelo vilarejo de Hogsmeade antes de chegarem junto dos gêmeos — já estavam na casa dos Weasley. Pela primeira vez, Charlie e Harry se conheceram pela primeira vez.
Charlie contou histórias para eles, até mesmo de como ajudou a levar os dragões para o torneio tribruxo. Nesse dia em específico, eles tiveram autorização para irem para casa comemorar o dia de ação de graças, já que depois eles iriam sair para comemorar as festas de fim de ano, na casa dos Black.
Mais tarde, quando o sol atravessava entre os galhos das árvores, eles se reuniram no grande quintal da casa, acenderam uma fogueira e conversaram mais um pouco. Fred, sentado ao lado de George, que contava um conto alegremente, estava mais quieto do que o normal. Charles estranhou o comportamento do irmão e, querendo compreender o que acontecia, se levantou e discretamente o chamou.
— Precisa de alguma coisa? — curioso, Fred perguntou.
— Vamos até ali comigo. — Apontou com a cabeça, mantendo a mão no bolso. Caminharam até o galpão de vassouras. — Você está estranho, muito quieto para o que me recordo.
— Está tudo certo, não há do que desconfiar.
— É uma garota? A escola eu sei que não é.
Fred engoliu a seco, Charlie decifrou muito bem. Já estavam bem próximos ao galpão.
— Digamos que sim.
— Está difícil? Vocês se entenderem.
— Não é bem para este lado. — Encostou na parede do galpão. — Ela mexeu comigo, mas… — Pensou se era certo essa conversa.
— Mas?
— Ela está longe agora, mas acho que não irá retornar a ser a mesma. Desculpe, irmão, mas não é um assunto que quero falar agora.
— Tudo bem, eu respeito seu momento. Entretanto, tenta mudar seu espírito, logo a mãe vai perceber e se preocupar.
— Obrigado pelo alerta. Só não comenta nada perto da Angelina também. — Ela tinha ido com eles. — Não quero que ela saiba.
O mais velho concordou com a cabeça e naquele instante compreendeu todo o dilema do irmão. Charlie sorriu para o irmão, tentando dar um conforto a ele. Para distrair os devaneios do gêmeo, ele contou a ideia de jogarem um pouco de quadribol, aproveitando que ele ainda estava lá e também que Harry estava na Toca. Seria desequilibrado o time, mas gratificante a diversão.
Ao anoitecer, Charles acompanhou Ron e seus amigos, Fred, George e também Angelina até a estação de King’s Cross para o retorno a Hogwarts. Percy voltaria às suas atividades no dia seguinte, e, mais uma vez, Charlie ficaria sozinho em casa, à espera de Pret.
Agoniante. Frustrante. Decepcionante.
Sentir-se assim depois de bons elogios de dois ministros da magia era frustrante. Tudo parecia estranho, nada do que havia imaginado revelava o futuro que estava vivendo. Ferido e na casa de seus pais, sem uma coruja para alegrar seu dia.
O desenho estava finalizado, ele tinha acabado de colocar as informações principais ao lado do dragão e fechou sua caderneta. Puxou o ar e soltou devagar, olhando por toda a extensão do antigo quarto que dividia com Bill. Aproveitaria que Pret não estava em seu poleiro e iria limpar aquele quarto. Ajeitou, limpou, tirou todo o pó e até mesmo limpou os pôsteres de quadribol que estavam nas paredes.
O relógio tocou, anunciando que o horário do almoço se aproximava e, junto dele, o aroma da deliciosa refeição que sua mãe estaria preparando subiria pelas escadas. No entanto, estranhou o silêncio predominante na casa. Colocando seu suéter, desceu as escadas, procurando pela matriarca nos cômodos, mas não a encontrou.
Caminhou até a plantação de legumes e a viu voltando com Pret à sua frente. Um sorriso nasceu em seus lábios, deixando à mostra todos os dentes.
— Filho, tem uma carta para você. — Entregou, enquanto terminava de ler a carta correspondente a ela.
Olhos marejados, lábios tremendo e mãos inquietas, Molly Weasley apresentava sinais de angústia que nem mesmo seu filho conseguia ignorar. Com toda a atenção, Charlie a levou para dentro de casa, limpou o avental sujo de terra e a fez sentar no sofá. Ao seu lado, segurou a mão de sua mãe e, com um feitiço, conseguiu um copo de água para ela. Tentou inúmeras vezes ler a mensagem da carta, mas sua mãe não o deixava.
— Você quer que eu deixe a senhora um pouco sozinha?
— Não será preciso. — Respirou fundo duas vezes. — O que diz a sua carta? — Um sorriso forçado foi surgindo.
Compreendendo o recado, Charles pegou a sua carta.
— Pret trouxe uma carta do Distrito de Controle das Criaturas Mágicas, eles são o ministério da magia da Noruega. Leia você mesma, mãe. — Divertida, foi assim que saiu sua voz.
— Obrigada, Charlie. — Levantou o lacre de cera acobreado. — Vamos ver.
Passando por cada palavra, a letra exibia uma irregularidade desconcertante, quase como um código secreto, dificultando a leitura da mensagem.
— Isso é muito bom, estou tão feliz que te chamaram.
— Agradeço, mãe! Preciso arrumar tudo, mas vou embora assim que jantar com o pai, não vou antes disso.
— Tudo bem, vou preparar o almoço para nós e pensar no que fazer para o nosso último jantar, também deixarei alguns lanches prontos para você levar.
— Não, não precisa. Não quero dar trabalho para você.
— Trabalho — repetiu, balançando a cabeça. — Você é meu filho, desde quando dá trabalho? — Levantando-se, guardou sua carta no avental.
— Certo, certo.
Uma discussão àquela hora por alguns lanches não cairia muito bem, além de que ter comidas preparadas pela sua mãe seria a melhor coisa a levar consigo.
No quarto, ele terminou de limpar o cômodo. Pegou pedaços de papel, uma pena e escreveu uma carta para cada um dos irmãos, se despedindo e prometendo enviar um presente a cada um deles por conta do Natal. Para Ron, sua carta continha um parágrafo dedicado a Harry e Mione. Já para Fred, ele destacou que, caso fosse necessário e se o que sentia pela garota fosse verdadeiro e forte, deveria ir atrás dela e tentar trazê-la de volta.
Por fim, arrumou as malas, guardou o caderno e pegou outro em branco, pensando que nunca saberia quantos dragões novos iria ver e conhecer pelo caminho.
Leu mais uma vez a carta, queria ter a adrenalina passando em seu corpo mais uma vez. Pret tinha acabado de pousar em sua janela, se esticou, entregou um petisco e tornou segura a carta para finalizar a leitura.
Estava ansioso.
— Isso! — Vibrou!
Pret a olhou confusa enquanto comia o biscoito.
— Vamos para a Romênia, Pret, você vai gostar de estar lá.
Como uma carta podia trazer tanta alegria.
Fazer as duas últimas refeições com sua família permanecia estranho. O olhar de felicidade e a profunda tristeza pairava no rosto de sua mãe. Seu pai, por outro lado, exibia um sorriso que chegava até os olhos; a alegria era incomparável. Eles sentiam muito orgulho do segundo filho. Seguir o caminho que ele amava era o bem mais precioso que poderiam comemorar ao lado dele.
Estrelas cintilavam no céu, e o azul escuro tinha seu pequeno toque iluminando. A noite já havia chegado fazia quatro horas, e Charlie estava esperando no hotel que ficaria hospedado em um tempo curto. Pret dormia aconchegante em seu poleiro almofadado em veludo verde, quando uma pessoa bateu à porta duas vezes. Charlie se levantou em um pulo, o toque na porta o assustou, já que estava concentrado lendo um livro de dragões. Colocando um casaco por cima de sua blusa, ajeitou o cabelo ao parar na frente do espelho e colocou seu melhor sorriso.
Ao abrir a porta, ele viu o homem a quem havia encaminhado a carta: baixo, barrigudo e barbudo. Kurtz Hagen.
— Boa noite.
— Charles Weasley, é um prazer conhecê-lo. — Estendeu a mão. — Kurtz Hagen.
— Charles Weasley. — Repetiu o gesto.
O ar de satisfação de Kurtz ao saber que trabalharia com um homem como Charles trazia conforto até mesmo nas palavras escolhidas para conduzir a conversa.
— Desculpe incomodar a esta hora, mas eu trouxe o pergaminho com todas as instruções e informações.
— Kurtz, obrigado, irei ler ainda hoje. — Cada palavra era uma verdade. — Que horas começo amanhã?
— Cinco horas, vamos usar a chave de um portal. Espero encontrá-lo meia hora antes, deixei tudo no pergaminho.
— Claro, não há com o que se preocupar. — Um sorriso confiante, foi assim que deu a certeza ao Ministro.
— Então é isso. — Respirou fundo, estava grato por ser um homem a fazer um trabalho bem feito. — Nos vemos em breve. — Estenderam as mãos e cumprimentaram novamente.
— Até breve, senhor Kurtz.
Charlie acompanhou Kurtz até a porta e, após isso, retornou à sua cama. Pret já havia se ajeitado para ficar em silêncio, pois era uma ave noturna, e Charlie se recusava a deixá-la sair na primeira noite em um país diferente. Ele leu o pergaminho até a madrugada, sem se importar com o horário que teria que acordar logo cedo. Compreender o estado do dragão era mais importante que seu sono, além disso, ele poderia dormir durante os dias em que cuidaria do animal.
Silêncio. Podia se ouvir apenas o som do vento passando pelas árvores e entre as montanhas. As últimas folhas de outono voavam com as correntes de vento. Por alguma razão, os dragões do santuário estavam calmos, como se não estivessem mais ali, sem nenhum cuidado de uma equipe ou monitoramento dos feitiços, e isso era estranho para os cuidadores de dragões.
Kurtz, que andava alguns passos à frente de Weasley, se aproximou de um acampamento de cuidadores. Três cabanas montadas e uma fogueira apagada há bastante tempo, até mesmo ali a tranquilidade pairava. Na cabana mais jeitosa, uma mulher olhou na direção deles. Elin se posicionou no banco de madeira, cruzando as pernas e puxando a blusa cuidadosamente em seu corpo.
— Elin, Till? — Kurtz se aproximou. — Onde está Till?
— Aqui senhor. — De dentro da barraca, saiu com sua blusa torta e a escova de dentes em mão. — Estou aqui, ministro.
— Bom dia, Till. — Educado apenas com Till. — Este é Charles Weasley. Charles veio para ficar no lugar de vocês.
— Mas…
— Elin, pode fazer suas coisas. — Sem querer saber, ele interrompeu Elin. — Till, eu agradeço muito seu trabalho, seus esforços foram excepcionais. Peço que passe em minha sala depois. — Uma piscadela foi lançada.
— Prazer em conhecê-lo, Charles. — Foi a vez de Till falar. — Elin, pode fazer as honras? Quero conversar com o senhor Hagen.
Revirou os olhos, se levantou e pegou o xale verde e colocou em suas costas.
— Vou mostrar o dragão. — Soberana, Elin foi. — Ela sofreu ataques de bruxos e teve o dorso todo queimado. Ela não se mexeu e ficou imóvel, protegendo o rosto. — Passava a informação. — Com isso, nós a trouxemos para o santuário. As queimaduras estão bem cuidadas, , nossa amiga, cuidou adequadamente.
— É aquela bonitona ali? — Apontou. — Uma Smaragd, ela está quase entrando em extinção.
— Sim, e não deixa Till se aproximar — comentou, Elin.
— Não gosta de homens. — Charlie cerrou o olhar.
Charlie se aproximou, prendeu o cabelo, sorriu sem mostrar os dentes e olhou no fundo isso olhos castanhos avermelhados do dragão. O animal indefeso mexeu a cabeça e, com um movimento brusco, foi para cima de Charlie. Bateu um pouco freneticamente as asas e seu som de reprovação saiu junto de um gemido de dor. A pequena dificuldade para se manter de pé mostrou ao Charlie que ele não tinha só o machucado no dorso.
Contornou o momento de medo do Smaragd apenas com o olhar. Não era para atacar, era para se aconchegar no carinho que Weasley demonstrou ter. Passou a mão no focinho um pouco rápido, não tão grosseiramente, e falava baixo para não assustar. Palavras que a calmaria daria confiança.
Charlie tinha conquistado o dragão.
— Nossa! — Surpresa, foi assim que ela expressou sua fala. — ia amar ver isso.
— é guardiã dos dragões? — retornou.
— Ela é uma magizoologista, a melhor que temos, mas ela se afastou. — Omitiu. — Aproveitando que aquele velho barrigudo não está aqui. — Se aproximou. — Você é igual aqueles dois?
— Igual?
— Imbecil, idiota, boboca e machista. — Pausou. — Mulherengo também.
Compreendeu. A pergunta explicou a forma que tratou ele ao levar para ver a Smaragd.
— Meu amor está somente para os dragões e trato todos com respeito e atenção como eu fui ensinado.
— Pelas barbas de Merlin! — Colocou a mão na testa.
— Você está bem? — Se preocupou. — Ela está bem? — Olhando sobre seus ombros, ele viu a Smaragd.
— Não. — Engoliu a seco. — Não é nada, só me recordei de uma coisa, é o aniversário da Romi — descaradamente, ela mentiu.
— Ah, sim.
— Vamos voltar até o Kurtz, me recuso a ouvir alguma coisa dele. — Estava à frente dele, andando. — Principalmente as insinuações dele — sussurrou entre os dentes.
Com a conversa encerrada, Charles se despediu do ministro e da equipe Gylden Skjell.
Colocou a mochila no chão, se alongou e tirou um pequeno embrulho da mochila, andou pela pequena montanha onde estava com a equipe e chegou ao topo, um lugar lindo para a cabana ser montada. A vista do santuário ficava perfeita dali, as árvores balançando e dos dragões voando pelos quatro cantos do céu do santuário. Seria ali onde ele montaria sua barraca.
Colocou ela no chão ao lado da armação, sacudiu a varinha, deixando um feitiço sair da ponta, e assim a cabana se montou sozinha. Estava na sua casa novamente, e de onde não queria ter se afastado por três meses.
Retornava de seu período de quarentena, três meses afastada de todas as coisas que lhe fazia bem. Sua mãe, os animais, a natureza, as viagens. Foram longos meses para ter a certeza que não havia contraído a doença que sua mãe tinha. Quando presenciou a conversa com a médica, como um caso único, nem mesmo a doutora acreditou que pela primeira vez ela estava atendendo aquele caso.
Hoje no hospital Herr Vladislav Alkemist, estava sentada na maca terminando de ser examinada pela a mesma médica. Esperava incansavelmente pelo parecer da doutora.
— , fico muito feliz por ter seguido todas as medidas que te passei.
— Tentei não sair nada do que você pediu, mas confesso que tive alguns momentos que não aguentei e passei uns cinco minutinhos fora de casa.
— E esses cinco minutos ajudaram bastante. — surpresa ela estava. — Você não contraiu a doença.
— Fico aliviada, doutora. E a minha mãe como ela está?
— O estado de saúde dela está regredindo, logo ela melhora, Spattergroit é contraída por um fungo, ela está tomando poções, diminuímos já a quantidade das doses, com isso a consulta dela é daqui a dois dias, vou ver como ela está e assim talvez tirar ela do isolamento.
respirou mais aliviada, não se incomodava tanto com sua saúde, mas de sua mãe ela se preocupar até mesmo em uma mera crise de espirro.
— Quando poderei visitá-la?
— Eu aviso você quando sair da consulta dela, mas estimo que seja no dia seguinte.
— Ah certo… doutora, posso fazer uma pergunta?
— Sim.
— Aquele dia, você já sabia que minha mãe estava com uma doença transmissível, mas não usava paramentos para evitar a doença.
— Claro. — se recordando ela riu. Realmente ela não estava paramentada. — Hoje em dia usamos feitiços, o que eu agradeço por não precisar ficar com muitas roupas.
— Eu deveria ter pensado nisso.
— É isso, qualquer dúvida em relação a você ou sua mãe pode entrar em contato.
— Pode deixar.
— E antes que eu esqueça, todos que ficaram no mesmo ambiente de trabalho não foram infectados.
— Três meses também?
— Sim, uns dias antes que você, mesmo o ministro.
— Ok, bom obrigada. — levantou-se. — Obrigada pelos cuidados, doutora Astrid.
— Nos vemos em breve.
Acompanhou sua paciente até a porta, se despediram e ela retornou às suas atividades.
Estava no pequeno prazo que a doutora falou. Queria receber o retorno da resposta o quanto antes, entretanto enquanto esperava a carta da doutora ela recebeu de Elin Lindström. A carta em um dos envelopes mais bonitos que já viu, e não podia deixar de perceber a caligrafia redondinha dela.
“Oi , eu estou com saudades das nossas conversas, mas na verdade eu queria contar uma coisa, eu sei que eu devia perguntar como você e sua mãe estão, faz três meses desde então.
Nossa três meses e muitas coisas aconteceram, a uma semana mais ou menos, escrevo essa carta numa sexta-feira então acho que você vai recebê-la num domingo, Kurtz foi até o santuário ele e um homem que se diz cuidador de dragões, olha… eu não queria contar isso antes pois você disse que estava afastada e com isso esperei passar essa semana.
Ele está lá a uma semana certinho trabalhando, não sei se sabe o que faz, mas o ministro superior pediu com aquela educação dele para retornarmos a nossas casas. Estranho que Till não ficou decepcionado então acho que tem coisa aí.
Só vou pedir para não fazer nada precipitado, e estamos entrando em dezembro, logo é natal, então manera, pela sua mãe não por você.
Me responde viu!
Até mais e entrega um pedaço de carne para a minha coruja.
Elin Lindströn.”
O pedido para não tomar nenhuma atitude precipitada foi em vão, e Elin tinha a certeza disso e da mesma forma que tinha essa certeza ela sabia que não ficaria apenas por isso. Mesmo não sendo muito confiável, o ministro Hagen tinha falado que não seria outra pessoa ou equipe que tomaria a frente de sua missão.
Furiosa. Incontrolável. Impetuosa.
Pulou da mesa — estava sentada na mesa ao lado da janela, serviu um pedaço de carne. Pelos cômodos, movimentava a varinha rapidamente sem conjurar o feitiço verbalmente, as janelas se fechavam de uma a uma, as trancas iam aparecendo e fechando rapidamente, juntos das cortinas. A casa pequena com apenas cinco cômodos, se ajeitou para alguém que iria viajar naquele instante, o que era exatamente a intenção de .
Mochila pronta, a carta de Elin no bolso de seu casaco junto de sua varinha, agora ela iria até o portal tentar saber se estava funcional, caso ao contrário iria pelo método mais longo.
Pelo caminhou imaginou como ele seria, com todas as certezas do muito ela pressupor que esse novo magizoologista seria da mesma índole que Hagen, irritante, mal educado, machista e principalmente só ele estava certo; para aceitar um trabalho assim a pessoa teria que ter a mesma linha de pensamento do bruxo do distrito.
Mais um estresse, o portal estava fechado, ou melhor, inativo. Ele foi forçado a ser desativado por conta dos Nevŭzm-Mag insistir que ali havia uma movimentação diferenciada, e estava certo.
— Maldito seja esse Nevŭzm-Mag. — bufou.
— Logo ele retornara a funcionar. — o homem, como se fosse o zelador do portal naquele instante, avisou.
— Quando?
— Daqui três horas.
— É muito tempo. — andou de uma lado para o outro. — Vou aparatar, muito obrigada senhor.
— Por nada e boa viagem!
Com um sorriso gentil e sem mostrar os dentes, ela o agradeceu. Não era uma das milhares de fãs de aparatação, mas também não odiava a prática. Segurou a bolsa firmemente em seu ombro, fechou os olhos e aparatou para o santuário de dragões.
Margareth estava sentada em seu quarto temporário, as mãos repousando ao lado do corpo. Seu olhar alternava entre a doutora e suas próprias mãos, onde pequenas marcas das antigas pústulas ainda se faziam visíveis. A doutora, com seus fios platinados, observava Margareth com atenção, usando palavras cautelosas. Seus óculos ovais estavam quase na ponta do nariz, e ela segurava um pergaminho velho, repleto de anotações sobre a magizoologista.
— Uma análise profunda junto de outras médicas foi realizada, a Spattergroit está bem controlada. Não vemos mais a necessidade de você permanecer em isolamento.
— Graças a Merlin! — ela exclamou com toda felicidade. — E essas manchinhas? Elas irão sumir?
— Sim, claro que vão. Igual aconteceu com algumas no início da doença, aquelas pequenas bolinhas no estágio inicial.
A senhora Ianesvski balançou a cabeça demonstrando que compreendia a medica.
— Agora, vou enviar uma carta a sua filha, ela estava contando os dias para visitar a senhora.
— Minha pequena Mony, também não vejo a hora de vê-la.
— Bom, vou deixar a senhora à vontade, qualquer coisa pode chamar uma das enfermeiras, e logo uma delas irá fazer a transferência de quarto.
— Está certo, muito obrigada doutora.
Sua felicidade estava grande. Seu sorriso dava voltas em seu rosto queria contar a novidade logo para sua Mony, e também não via a hora das enfermeiras do hospital Sr Vladislav Alquimista a levarem para um quarto mais aconchegante.
O mundo bruxo ainda tinha seus défices, não podia reclamar, era melhor trato do que nos hospitais dos impossibilitados de magia, além deles não conhecerem as doenças “mágicas”, Margareth sabia que até mesmo um remédio para resfriado deles demora mais que a poção dada pelos hospitais.
E agora era só esperar, esperar e escrever uma carta para sua filha, ou esperar para conversar com ela pessoalmente?
Pela primeira vez, a neve caiu no santuário, cobrindo os topos das montanhas e transformando a paisagem em um espetáculo cintilante, enquanto o ar natalino se aproximava. Charlie estava sentado no chão, com a caderneta apoiada em sua perna e a pena na mão, anotando os cuidados necessários para a dragão. Ao deixar tudo registrado, ele poderia monitorá-la melhor.
O silêncio era seu melhor amigo, interrompido apenas pelo farfalhar das gramas e pelo som dos outros habitantes do santuário voando ao redor. Levantou-se e, com um cumprimento meio curvado, despediu-se da dragão.
Cristalino. Aconchegante. Deslumbrante.
Sua volta para a cabana foi tranquila. Ele pensava em qual das comidas que sua mãe preparou com carinho ele esquentaria. Todas eram deliciosas, mas a picadinho, em especial, parecia irresistível, e esse foi o prato escolhido.
Aproximando mais de sua cabana, Charles estranhou a presença de uma mulher ali, supôs que o ministro Kurtz o enviou até ali, com passos largos ele se apressou para chegar até o local. Limpou o casaco que usava, colocou o caderno debaixo do braço, e com um sorriso genuíno e de boas-vindas ele se aproximou dela.
— Oi, bem-vinda! Posso ajudá-la em alguma coisa? — com um olhar gentil ele sorriu.
— Então é você que está no lugar da Gylden Skjell. — a voz de era firme, mas havia um traço de incredulidade em seu olhar.
— Desculpe, eu realmente não compreendi. — Charlie franziu a testa, tentando entender a situação.
— E ainda é sonso. — ela revirou os olhos, irritada.
— Você é a ? — hesitante, ele perguntou.
— Como sabe meu nome? — a desconfiança se misturou à curiosidade em sua expressão.
— Elin me falou quando eu cheguei aqui. — Charlie gesticulou levemente, tentando parecer mais à vontade.
— Então você sabe que ficou no lugar da minha equipe. — o tom dela ficou mais sério, e ela ajeitou o cabelo, claramente frustrada.
Charlie então se recordou da conversa do ministério com Till; ele tinha mesmo ido para ficar no lugar deles.
— Sim, eu vim, mas fiquei sabendo aqui mesmo. — ele deu um passo à frente, tentando transmitir sinceridade.
— Kurtz é um negodnik! — Ela exclamou, seus olhos refletiam a indignação.
— Você fez um trabalho excepcional. Eu nunca vi um trato tão bom, quanto o meu é claro. — Charlie sussurrou as últimas palavras, um sorriso travesso surgindo em seus lábios.
— Como? Não compreendi o que você terminou de falar. — ela se inclinou um pouco, a confusão em seu rosto se misturava com a curiosidade.
— Não precisei ter tanto trabalho. — ele mentiu, um leve rubor subindo em suas bochechas. — Foi isso que eu falei.
— É claro, eu sou uma das melhores magizoologistas que o santuário já teve. — ela colocou a mochila no chão com determinação, a confiança transparecendo em sua postura. — Vou ver a Smaragd. — Passou por ele sem ao menos esperar, seu foco agora era na dragão. — Como você se aproximou dela? Ela estranhou muito a minha ausência?
— Eu fui. — com uma leve corridinha, ele alcançou . — Ganhando a confiança dela, a Elin falou que...
— Ela não gosta de homens. — completou, sério seu olhar pairou sobre o horizonte. — Você quer saber o motivo? — ela olhou para o lado, vendo Charlie concordar com a cabeça. — Um grupo com seis bruxos homens a atacou. A linda Smaragd tinha acabado de dar à luz a seus três lindos ovos, e após uma longa viagem só para ter eles no habitat natural, o pai dos filhotes, um Smaragd também, morreu horas depois dela ter sido atacada. — a tristeza em sua voz era perceptível.
— Isso explica por ela não ter recuado. — Charlie murmurou, compreendendo a profundidade da situação.
— Nem eu recuaria. Como ela está linda. — os olhos de brilharam com determinação, e um leve sorriso se formou em seus lábios.
— Esperando você voltar. — Charlie a observou, o coração batendo mais rápido ao ver a conexão entre e a dragão.
Charlie a viu se aproximar. Ela colocou as luvas no chão, e esticou a mão para acariciar de baixo do queixo da Smaragd, os olhos castanhos avermelhados da dragão demonstra o amor que tinha pela cuidadora. Com o cair dos flocos de neve repentinos realçou a beleza de , o coração de Charlie flamejando, um sentimento novo surgia em si deixando tantas coisas e perguntas em seu devaneio naquele segundo. Ela era linda, delicada e amorosa com uma animal que precisava tanto de atenção, sua forma de querer saber como a Smaragd estava, e sua atitude deixou tudo tão… inexplicável.
Charlie a olhava, um olhar profundo e brilhante, como poderia existir uma mulher tão perfeita como ?
— Me diz. — elevando sua voz, ela chamou atenção de Charlie apenas para eles conversarem. — Como você a encontrou?
permaneceu ao lado da Smaragd. O semblante tranquilo do animal era de se admirar.
— Os ferimentos estavam mais cicatrizados, só refiz o curativo umas duas vezes desde então, a perna dela eu cuidei, vi que ela não conseguia se manter equilibrada.
— Você cuidou? — olhou para a perna dianteira, ela sabia do machucado.
— Sim, você não sabia que ela se machucou? — a provocou em um tom desafiador.
— Eu sabia, deixei no relatório. — aproximou do Weasley. — Você leu? — serenidade, foi assim que sua pergunta saiu. Ela apenas estranhou já que havia sido entregue. — Mas enfim, eu solicitei para o Till cuidar, mas já vi que ele não fez nada disso, já posso até imaginar a desculpa dele.
— Relatório?
— Charles Weasley, desde quando você acha que uma magizoologista deixa de fazer relatório de um paciente? — parou na frente dele.
— Ninguém entregou relatório. — cruzou os braços. — O ministro Kurtz apenas me trouxe aqui, na verdade. — alternou seu olhar, da cabana para . — Você aceita uma xícara de chá? Ou um almoço? Assim podemos conversar.
respirou fundo e pegou suas luvas, concordou com o rapaz.
— Kurtz conseguiu achar alguém igual a ele.
Passou murmurando por Charles, estava cansada de trabalhar com pessoas soberbas e irracionais.
Desta forma, Charles percebeu que o Departamento não tinha sua melhor fama, o que antes era boatos para ele, agora tudo estava verídico como num pedaço de pergaminho.
Um silêncio nada amigável ficou entre eles até o caminha da cabana. Um caminho com a sensação de ser eterno. Charles puxou o pano que cobria a entrada da cabana, com um gesto educado ele deu passagem para entrar, o sorriso que ele deixou desenhas nos lábios não fez a mulher se sentir mais amigável.
— Pode se sentir à vontade.
— Obrigada. — sentou-se na cadeira da pequena sala de estar. Observava com atenção todos os movimentos. — Till, falou desse lugar? Que era aqui que eu sempre colocava minha barraca?
— Na verdade eu escolhi, era um lugar propício para aproveitar toda a beleza do santuário.
— Terei que concordar contigo.
— Aqui seu chá, se quiser biscoitos só pegar. — apontou para o pote após colocar a xícara na mesa. — Foi minha mãe que fez.
— Biscoitos caseiros. — um sorriso verdadeiro ela deu. amava biscoitos caseiros.
Pegou dois biscoitos redondos, o perfume amanteigado a levou para longe, quando ainda era pequena e passava seus finais de semana e também meses. Com o trabalho de sua mãe e o medo dela em relação ao seu pai, Margareth sempre deixava sua pequena Mony com a sua mãe.
O sabor, tão familiar quanto se recordava, não eram iguais nem mesmo melhores, mas eram aconchegantes.
— Estão tão maravilhosos. — se serviu de mais um. — Sua mãe faz ótimos biscoitos.
— Na próxima carta irei agradecê-la.
Bebeu seu chá, comeu mais um biscoito e observou a sua volta, a decoração e o lado atencioso dele não condizia com o que ela pensou no primeiro momento ao ler sobre o rapaz. Se questionou se não tinha tido ideias precipitadas.
— Esse é o meu almoço, ou melhor, nosso almoço. — Charlie colocou os pratos e logo após a panela. — Minha mãe sempre parara uma quantia para duas a três pessoas, é que eu como muito. — ruborizou.
— Pode se servir primeiro.
— Não, eu faço questão. Com licença. — colocou o picadinho com uma proporção mediana para . — Espero que goste da mesma forma que gostou dos biscoitos.
Na primeira garfada ela sentiu o sabor dos temperos invadindo seu paladar, cada pedacinho do picadinho era um paraíso do sabor. Não compararia com ninguém, mas a mãe dele realmente fazia uma comida deliciosa.
— Por Merlim! — exclamou. — Sua mãe faz uma comida maravilhosa!
— Sim, ela é muito boa no que faz. — comeu um pouco. — Sobre o relatório.
— Ah sim, já ia me esquecendo. Você então não chegou ler o relatório, eu tenho a maior certeza que a Elin enviou ao ministro.
— Eu não duvido disso, mas pelo o que ela me falou.
— O que ela te falou? — descansou o garfo.
— As palavras sobre o Hagen não foram as melhores.
— Eu já devia ter imaginado, ele nunca aceitaria algo vindo de mim. — revirou os olhos, e encostou-se na cadeira. — Sua sorte é que tenho um aqui. — olhou para os lados procurando a mochila.
— Você deixou lá fora.
— Mamka mu!
Levantou puxando seu casaco para mais perto de seu corpo, com cuidado para a neve não entrar, ela saiu da cabana e procurou a mochila. Sem saber o momento exato, mas uma forte queda de neve estava caindo e querendo cobrir o objeto. Algumas batidinhas e a neve saiu de cima, retornou para dentro quase correndo, o frio estava ficando insuportável.
Dentro da cabana, Romi apoiou dia bolsa no sofá, mexeu nela e tirou um pedaço de papel dobrado mais de duas vezes. Escritas rabiscadas, pouco capricho e muita pressa, tudo em um bolinho de papel.
— Aqui, esse é, digamos que um rascunho de todo o cuidado com ela. — entregou ao cuidador. — Mas te garanto que eu enviei sim para ele. Ou melhor a Elin.
— Isso é incrível! Aqui tem todas as informações que eu precisava e pedi ao ministro.
— E ele falou que não tinha?
— Que a última líder da equipe na havia entregado a ele.
— Claro, típico desse inútil. Sabe o que é pior, você acreditar nele.
— Mas não tinha como eu saber.
— Não tô te culpando Charles, só estou falando o que é o óbvio.
— Por esse lado.
— Esse ministro me paga, me tirou do meu posto, fala mal do meu trabalho e ainda fica com aquele sorriso sínico no rosto.
— Se você resolver ficar, eu vou ficar grato, ajuda sempre é bem-vinda.
— Mas é com toda certeza que vou ficar, eu me afastei por motivos pessoais.
— Então passará o natal aqui. — concluiu.
— Não sei, bem provável que sim, já que minha mãe está no hospital.
Charlie balbuciou, não imaginou que a mãe de estava no hospital.
— Tudo bem, pode perguntar, eu não fico muito triste.
— Ela está a muito tempo?
— Sim, passamos longos três meses cuidando dela e também sob quarentena. — bebericou sua água. — Minha mãe está com Spattergroit, sabemos que é uma doença grave, porém a doutora está cuidando dela melhor do que eu poderia imaginar.
— Hm… — cruzando os braços, ele encostou-se na cadeira. — Você não contraiu nada?
— Não, nem o ministro.
— Kurtz? — preocupado perguntou.
— Sim, Charlie pode ficar sossegado. — sorriu para tranquilizá-lo. — Isso tudo foi antes de você chegar aqui no santuário, Elin me falou.
Percebeu que o homem respirou mais fundo.
— Eu sei, eu também fiquei assim, ele pode ser o pior dos homens mas nunca desejaria uma doença dessa para ele.
— Compartilho do mesmo pensamento. Você teve notícias dela?
— Ainda não, mas a médica ficou de me avisar, só que talvez demore para eu saber já que vi até aqui um pouco precipitada. — percebendo a burrada que fez, ela quis se xingar eternamente.
— Ela vai melhorar, são sinceros os meus votos.
— Agradecida. Bom eu agradeço também pelo almoço, agora preciso montar minha cabana.
— Você quer que eu desmonte a minha? Você disse que aqui é o seu lugar favorito.
— Não, relaxa, eu monto do lado da sua.
— Ok.
Acompanhou até a entrada da cabana e se sentou no pequeno banquinho que deixava ao lado de fora, fez companhia para ela enquanto montava a cabana e, para a sua surpresa, lindas guirlandas e festões enrolados em luzinhas mágicas começaram a sobrevoar pelos os arredores da cabana dela.
A mesma que levava um tom terroso ficou destacada com toda a decoração. O cuidado que teve para deixar as luzes mágicas em uma luminosidade mais calma para não irritar os dragões. Ela toda esquentadinha era tão delicada e amorosa com criaturas que… supostamente tinha o mesmo temperamento que ela.
De alguma maneira isso o cativou com um sentimento mais profundo por ela, sentindo pequenos focos flamejantes dentro de seu coração. Baixou a cabeça e depois levantou olhando o horizonte, estava se sentindo meio doido com este pensamento.
— Tudo pronto, mais tarde vamos juntos ver a Smaragd. — parando na frente da cabana, ela falou. — E espero que não atrapalhe você aqui, deixei a entrada bem na direção do seu banquinho.
— Não se preocupe, acho que você pensou o mesmo que eu.
— Sentar do lado da cabana. — sorriu. — Sim, gosto de fazer isso às vezes. Vou entrar, você sabe onde me procurar.
— É…
Sua resposta saiu tão encantado que se intimidou ao pensar que ela poderia achá-lo estranho.
Acenou rapidamente e entrou em sua cabana, iria descansar no lugar que nunca deveria ter saído.
Com toda sua cabana decorada, ela deitou-se na cama de casal e leu um livro para poder passar o tempo. Não sabia explicar, mas sentiu uma confiança em Charlie em relação ao cuidado com os dragões, queria pesquisar mais sobre ele porém só quando voltasse para casa ver sua mãe.
Quase na metade do dia, Charlie a chamou para ir ver a Smaragd. Refizeram o curativo e seguiram com a rotina normal; para duas pessoas todos os cuidados fluíam muito bem, chegava ser imensurável a forma de admiração ia crescendo entre eles ao longo dos dias junto, uma amizade peculiar entre si.
O Natal estava chegando e Charlie recebeu uma carta da mãe, que o deixou desanimado. Ela contou que, infelizmente, naquele ano não poderiam ir até o santuário para visitá-lo. Junto com a carta, veio um suéter para ele usar na noite especial.
, por sua vez, estava em clima de festa. Todos os dias, ela aparecia com roupas natalinas: suéteres, cachecóis e até gorros. Mas o que realmente chamou a atenção de Charlie foi um suéter com dois dragões. Quando a viu saindo da cabana, não conseguiu segurar o riso.
— Qual é a graça? — perguntou , com um olhar irritado.
— Seu suéter! — ele respondeu, ainda rindo.
— Meu suéter? — ela arqueou a sobrancelha, claramente irritada. — O que tem ele? Quer um igual?
— Não achei que ia ver dois dragões em espirito natalino! — Charlie riu mais.
— Pois bem, tá vendo? — apontando ela disse. — Esses dois aqui são eu e minha mãe!
— Dá para perceber, a mais rabugenta é você, acertei? Calma lá. — Charlie levantou os braços em defesa. — É brincadeira. Draguț mic dragon.
— Eu devia fazer você engolir toda a decoração de Natal. — rosnou enquanto passava por ele, entrando na cabana.
— Qualé, . — ele a seguiu. — Como assim decoração de… — olhou ao redor e viu todas as decorações aparecendo. — Você fez isso porque eu brinquei com você?
— Claro que não! No Natal eu não brigo com ninguém. A decoração é para você entrar no clima. Ou você acha que aquela árvore mixuruca é clima natalino? — ela descansou o braço no corpo, segurando o antebraço e gesticulando com a varinha.
— Não vou reclamar, gostei de como ficou. Só uma coisa. — ele ficou mais sério. — Se não gostar das brincadeiras, me avise imediatamente.
— Pode deixar. — ela compreendeu a seriedade dele. — Eu digo o mesmo.
Charlie assentiu.
— A decoração ficou boa, muito agradável por sinal.
— Eu sei, sou especialista nisso desde que me entendo por gente. Você vai fazer a ceia aqui? — ela ficou um pouco acanhada ao perguntar.
— Eu não tenho nada, então vou só dormir mesmo depois de olhar os dragões.
— Se quiser, pode ir até a minha cabana. Vou fazer uma ceia bem simplesinha, mas se quiser participar...
— Eu vou! — os olhos de Charlie brilharam. — Mas não tem nada que eu possa levar.
— Não se incomoda com isso. Você corta o frango. — ela apertou os lábios para não rir.
— Combinado.
Ela se despediu com um sorrisinho fofo e desceu para ver os ovos de dragões escoceses. No caminho, avistou Smaragd, a dragão de escamas douradas, que estava animada pegando flocos de neve que caíam com a boca. parou para admirar a dragãozinha, mas não esperava que ela tivesse encontrado um ovo para cuidar. Mal podia esperar para contar isso a Charlie na ceia.
De volta à cabana, a felicidade de era tanta que contagiou a preparação dos pratos. Balançou a varinha e ligou o rádio, e o doce som da música deixou tudo mais agradável. O aroma maravilhoso do peru a fez recordar dos bons momentos, seu primeiro Natal sem a presença de sua mãe e o primeiro passando com um estranho.
Charlie se anunciou na entrada da cabana, ouvindo a voz de permitindo sua entrada. A mesa estava posta, e Romi usava uma roupa mais bonita, enquanto ele estava apenas com o suéter que a mãe lhe dera e a calça que usava todos os dias.
— Boa noite, trouxe uma bebida para nós.
— Boa noite, bem-vindo à minha cabana no Natal.
— Obrigado! Trouxe uma bebida que estava guardada. Não sou de beber, mas acho que esse é o momento.
— Eu também não, mas além de ser Natal, tenho uma coisa para contar.
— Diga.
— Minha doce Smaragd.
— Nossa!
— Minha Smaragd, ela pegou um dos ovos que estavam sem mãe e passou a cuidar. Isso não é incrível?!
— Isso é maravilhoso! Agora podemos ao menos manter a calma em relação ao ovo. É aquele norueguês?
— Esse mesmo! Tô tão feliz por eles, só espero que mais pra frente não haja problema. Bom, isso eu vejo depois. Pode sentar, a ceia já está quase pronta. Vou só trazer o peru.
— Não vejo motivo para você se preocupar. E se isso te tranquiliza, eu fico monitorando enquanto você estiver descansando, combinado? — ele estendeu a mão.
— Combinado. — com um sorriso de lado, ela apertou a mão de Charlie. — Mudando de assunto... — caminhou até o armário. — Se você não se incomodar, só tenho copo rosa. Tudo bem?
— Tá tudo certo, eu só quero beber mesmo. Chega de deixar essa garrafa parada.
— Perfeito, pode se sentar. Espero que goste da comida. Não é igual à da sua mãe, já vou logo avisando.
Não se incomodou com esse fato, ele pegou a faca e o garfo e cortou o peru para eles. Uma experiência diferente para os dois e engraçada, eles fizeram a ceia juntos conversando de assuntos que nunca imaginaram que tinham.
Charles se sentia à vontade na presença dela, despertava em si um Charles que nunca achou que existia. Foi apenas vinte e quatro dias convivendo com aquela mulher, e nesses vinte e quatro dias se viu diferente a cada segundo; a certeza que tinha, era que o sentimento que estava aquecendo seu coração não era por conta do natal.
Sentaram no sofá perto da árvore que ela decorou, Charlie abria a garrafa deixando aquele aroma de mel de urze e ervas passando por toda a cabana.
— É um whisky escocês. — colocou no copo. — Ganhei em um antigo resgate de dragão, desde então deixei guardado e nunca abri.
— O cheiro é maravilhoso. — um gole, curto e rápido, ela sentiu a queimação na garganta. — É muito bom, nossa.
— Talvez acabe ainda hoje.
Certeiro foi Charles.
A garrafa terminou naquela noite, os dois haviam bebido todo o Whisky escocês. Próximo à meia noite ela o olhou no fundo dos olhos, estava vendo dois Charlie em sua frente. Com o álcool em seu corpo ela precisou se conter para evitar qualquer erro.
— Chalie. — encostou o queixo em sua mão que estava apoiado no encosto do sofá. — Feliz natal.
— Feliz… natal, .
Ele ficou estático analisando toda a situação. Não sabia como conduzir aquela situação.
tinha selado seus lábios aos dele, o leve gosto de whisky podia ser sentido, junto ao calor que a bebida deixou em seu corpo. Charlie, por si só, sentiu uma onda eletrizante, a sensação mais estranha que já teve em toda sua vida. Nem mesmo o balaço que recebeu um dia podia causar aquela sensação por todo o seu corpo.
Se afastou sem olhá-lo. Sentiu por um milésimo de segundo a vergonha aparecer em suas bochechas, não devia tê-lo beijado. Recuou o corpo, se afastando completamente dele e sentindo seus fios passarem entre os dedos de Charlie.
— Feliz Natal, até mais tarde.
Ela desejou, ao se levantar, caminhou até a entrada da cabana e segurou o tecido que cobria e evitava que a neve entrasse. O homem entendeu a deixa e se retirou da cabana de . Andou de um lado para o outro depois de vê-lo sair. Pensava inúmeras coisas. O álcool sumiu, o peso na consciência chegou. Não o conhecia direito para ter aquela atitude.
Confusa. Envergonhada. Arrependida.
se banhou, tentando afastar esse pensamento, mas com o toque dos lábios dele, como poderia dormir com aqueles pensamentos? Ela, por si só, já não sabia qual seria o melhor caminho para não o ver ao amanhecer.
Loucura. então se sentou na cadeira, um bom copo de água a ajudava a refletir seus atos, onde corrigir suas atitudes e, principalmente, se haveria alguma saída naquele momento, já que, mesmo sendo uma mulher de inúmeras atitudes, ela não conseguiria olhar nos olhos de Charles e dizer que foi sem querer.
Levantou-se determinada, arrumou a tenda por inteiro sem usar nenhum feitiço, trocou algumas decorações de lugar e por último sentou-se em seu sofá confortável, estava sem sono e queria ocupar seus devaneios. Recordou que ao lado da mesa deixara alguns livros para poder estudar nos tempos vagos no santuário, então passou a estudar desde a última marcação.
— Por Merlin, eu deveria estar dormindo. — Olhava o relógio. — Impossível. — Jogando as costas para trás, ela reclamou. — Eu serei obrigada a tomar essa decisão.
Movimentos rápidos com a varinha, ela guardou seu material de estudos, colocou a toca e caminhou até a entrada de sua tenda.
Charlie se deitou após colocar o suéter por cima do pijama. Sua mente se recordava do doce toque dos lábios. Seu coração parecia em chamas só de se recordar daquele momento com ela. Virou na cama e agora olhava o teto enfeitiçado de sua tenda. Colocou os braços debaixo de sua cabeça e respirou fundo.
— Se eu mentir que não me recordo de nada. — Esfregou o rosto. — Nunca senti isso, nunca gostei de uma garota tão rápido assim.
Perplexo, Charlie não sabia como lidar com seus sentimentos, a única certeza que tinha era de que precisaria fingir que gostou e ver qual seria a reação dela, a deixaria falar sobre o beijo no momento que ela se sentisse confortável.
Na manhã seguinte, Charles a esperava na ponta da montanha, com uma caneca de café. Ao seu lado, tinha uma pequena mesinha com um bolo redondo de chocolate, havia chegado pela manhã atrás da coruja da família. O maravilhoso sabor da comida de sua mãe ajudou a deixá-lo mais ansioso. Horas passavam e não aparecia. Preocupado, deixou sua caneca na mesa e caminhou até a tenda, chamou por ela duas vezes e não obteve resposta.
— Talvez a bebida deve ter dado uma boa ressaca — pressupôs. — Drăguța dragon? — Adentrou. — Estou entrando.
Ele a procurou intensamente, percorrendo cada cômodo com a esperança de encontrá-la. No entanto, o silêncio reinava, e o olhar dele se detinha em cada detalhe: não havia vestígios dela, nem mesmo uma carta para explicar sua partida. Tudo estava meticulosamente arrumado, como se ela nunca tivesse existido ali. No fundo, uma única certeza o assolava: havia deixado o santuário.
Charles andou por todos os locais que pudera imaginar que ela estaria, até mesmo onde Smaragd estava alocada. Cada espaço que explorava trazia apenas mais frustração; caso conseguisse entender o que havia acontecido com , talvez tivesse conseguido evitar que ela desaparecesse.
— Impossível o Kurtz ter afastado ela sem ao menos me avisar — murmurou, a dúvida pesando em seu coração. Se havia alguém capaz de agir obscuramente, era o ministro. O pensamento o deixou inquieto.
A carta que apareceu em sua mesa a deixou tão aflita quanto qualquer outra. O remetente congelou seus dedos ao abrir, sem lhe dar a menor chance de absorver a mensagem. Sem pensar duas vezes, partiu para o local do portal.
A neve cobria toda a calçada, e suas botas sujas deixavam pegadas frias. O cachecol de sua casa envolvia seu rosto, o protegendo do frio cortante. Parada em frente à casa, respirou fundo, destrancando a porta com um suave movimento da varinha.
O perfume de canela e gengibre permeava o ar, a envolvendo como um abraço quente. Era um convite familiar, a lembrando de momentos felizes. Sentiu a nostalgia tomando conta, enquanto a porta se abria lentamente.
— Mamche?! — chamou, a esperança e a ansiedade se entrelaçando em sua voz.
— Mãe! — gritou , a ansiedade refletida em sua voz. Ela sabia que a mulher estava em casa, mas o estado dela era um mistério. — Você está onde?
Sem respostas, sua mente começou a divagar. A mãe poderia estar dormindo, ocupada, ou talvez algo surreal estivesse acontecendo.
— Mony! — A chamada ecoou pela casa, e logo a voz de Margareth chegou até seus ouvidos como um sussurro distante.
Cautelosamente, caminhou em direção ao quarto, varinha em punho. O frio do inverno penetrava pelas pequenas frestas das janelas, e seu coração palpitava rapidamente, sem um intervalo de calma.
— Mamche, onde você está? Está no quarto? — esperançosa, questionou.
Ao chegar, a luz que saía pela porta e o suave cantarolar da mulher encheram seu coração de felicidade.
— Mãe, você poderia ter me dito que estava aqui. A senhora me assustou com a carta.
Baixou a guarda, se sentindo aliviada por estar com sua mãe.
— Desculpe, minha pequena. Eu me distraí com essas fotos — respondeu Margareth, olhando para as antigas memórias.
— Nossos Natais juntas. Este é o primeiro que passamos longe uma da outra. — A saudade apertou, e um sorriso nostálgico surgiu nos lábios de .
— Bons tempos — disse Margareth, com um semblante distante.
— Sim... — respirou fundo, percebendo que, até então, sua mãe não havia feito contato visual com ela.
— Estava com saudades da senhora — comentou, inclinando a cabeça para encostar nela.
Mas Margareth recuou, levantando a desconfiança de .
— Está tudo bem, mãe? Você está sentindo alguma dor? — deduziu, a preocupação crescendo.
— Dor? — a mãe questionou, incrédula.
— Sim. Você não saiu recentemente do hospital?
A intuição de não a traiu. Ela havia baixado a guarda, mas não deixara de prestar atenção. Foi então que viu uma fumaça verde tomando conta do quarto. Instintivamente, se posicionou em prontidão, varinha erguida, preparada para um eventual duelo.
O sol já estava nascendo, mas Charles sentia mais preocupação do que gostaria de admitir. Não pretendia enviar uma carta ao ministro, mas a necessidade de saber onde estava o consumia. Sentou-se no sofá, fechou os olhos, tentando se acalmar.
Os sons de passos na neve despertaram-no daquele silêncio torturante, e sua conclusão de que era uma mulher o acalmou, mesmo que levemente.
Com o casaco mal colocado, Charles saiu de sua tenda.
— Oi, a está por aqui? Essa é a tenda dela? — perguntou a mulher, apontando.
Sem saber o que responder, ele ficou parado, a observando, atônito.
— Acho que você não entende meu idioma — deduziu, um pouco desconcertado.
— Eu compreendi muito bem. E você seria…?
— Sou da família da . Então essa é a tenda dela?
— não está. Ela precisou sair. — Charles engoliu em seco antes de completar a resposta.
— Disse para onde ia? Se iria visitar a mãe?
— Não, não somos tão próximos assim — revelou, tentando não demonstrar a ansiedade.
— Ah, sim…
— Desculpe a pergunta — ele disse, colocando a mão no bolso. — Mas você seria o que de ?
— Sou tia dela — respondeu a mulher, sorrindo. Notou a preocupação estampada no rosto dele. — Está tudo bem, querido? É Natal e você parece tão preocupado.
— Sim, está… só estou com saudades da família — mentiu mal.
— Compreensível. Vou entrar na cabana e esperar por ela.
A tia de percebeu que o Weasley agia estranhamente, tentando esconder algo importante. O cenário à sua frente deixava tudo tão claro. A confusão nos pensamentos de estava evidente nas anotações relacionadas aos estudos sobre dragões. Não precisaria de muito para entender que ela lera uma carta que não trouxera alívio.
Pegou a carta e a leu com cuidado para não levantar nenhum alarde:
“Minha querida Mony,
Espero que esta carta encontre você bem e em paz. Já estou esperando por você em casa, ansiosa para nosso reencontro. Sei que o Natal sempre foi um momento especial para nós, e gostaria de compartilhar a alegria de estarmos juntas novamente.
Talvez minha mensagem chegue a você após a ceia, mas não se preocupe, venho preparando surpresas para nós. Assim que você puder, seria maravilhoso que viesse me visitar. Será uma oportunidade perfeita para falarmos sobre seus estudos e todas as experiências que você teve em sua jornada — coisas que são valiosas e que sempre teve um talentoso olhar para analisar.
Ao chegar, não se esqueça de prestar atenção às pequenas coisas. Elas poderão mostrar o caminho que devemos seguir. Estou ansiosa para compartilhar um novo momento com você e a ajudar a entender como podemos ser ainda mais fortes juntas.
Estou ansiosa para ver você mais uma vez.
Com carinho e saudades,
Mamãe.”
A atmosfera estava carregada de tensão quando Charles entrou na cabana. O fogo na lareira crepitava, e a fumaça se misturava ao ar gélido que entrava pela porta entreaberta. Ele se sentiu um tanto perdido, a confusão e a preocupação com aumentando a cada minuto. As palavras da carta, embora queimando, deixavam uma impressão inquietante em sua mente.
— “Ver você mais uma vez”? — repetiu, quase para si mesmo, enquanto observava as cinzas dançando no ar.
A expressão de Charles era uma mistura de determinação e desconcerto. Ele precisava entender o que estava acontecendo.
Seus olhos analisavam a senhora à sua frente. Ela guardou a carta depois de reler o conteúdo por longos segundos.
— Eu preciso ir, querido. — Havia urgência em sua voz. — Avise ela que retorno.
— Não. — Charlie ergueu a varinha, a detendo à frente dela. — Você descobriu algo. Você sabe de algo. Kurtz pediu para você vir, não é?
— Abaixe essa varinha — ela disse, firme. — Você não está em Durmstrang.
— Durmstrang?
— Não se faça de sonso. — Cruzou os braços. — Por curiosidade… o que Kurtz está a fazer?
— Ele é um tirano. — A palavra saiu dura, quase cuspida. — E, pelos históricos dele, sei que, ao saber que uma mulher está aqui, ele veria uma oportunidade. Kurtz nunca perdeu a chance de subjugar alguém. Ele se esconde atrás de cargos, mas no fundo é só um homem pequeno que precisa mandar para se sentir relevante.
A mulher baixou a guarda. Havia sentimentos demais ali para serem fingidos — preocupação real, crua, voltada inteiramente para . Ainda assim, se sentou no sofá, mesmo com o coração implorando para correr atrás da garota.
— Compreendo sua raiva — disse, mais baixa. — Também sinto isso… e talvez até mais. Mas não estou trabalhando com ele. Vim porque precisava ver a Mony.
— Você é a mãe dela. — Charlie concluiu. Pela lógica da carta, ela era a única que a chamava de Mony. — Isso não faz sentido. Como vou ter certeza?
— Eu não tenho tempo para te convencer — respondeu, se levantando. — Preciso ir ao encontro dela. Se quiser, pode vir comigo.
Charlie apertou a varinha na mão, os pensamentos colidindo.
— Vamos — disse, decidido. — Mas não confunda minha ajuda com confiança. Se tentar qualquer coisa… eu não vou hesitar.
Rígido. Silencioso. Irredutível.
O Weasley estava sentindo o nervosismo passar por todo o seu corpo. Segurando no braço dela, eles aparataram a uma vila que Margaret tinha a certeza de que lá encontraria sua filha.
Caminhou logo atrás dela, seguindo todos os passos. Passaram por lindas casas decoradas, de fora podia-se ouvir a comemoração, as pessoas rindo ao abrir o presente que estava debaixo da árvore. Em outro instante, estavam passando por um beco frio e sombrio, não aparentava em nada ser a mesma vila que eles chegaram.
Era para ser um dia de Natal, e não um momento de vida ou morte.
Margareth parou na frente de uma porta marrom bonita e elegante, aquela cobra sutilmente desenhada na porta fez Charlie engolir a seco. Para um bom bruxo, uma imagem já bastava.
— É aqui. — Margareth ainda fitava a porta. — Antes. — Umedeceu os lábios. — Não deixe que nenhuma desilusão mágica afete você, revide tudo que se movimentar na sua frente, até mesmo a pessoa que você mais ama na sua vida. — Agora seus olhos estavam sobre o ruivo.
Pesados e profundos, como se aquele momento fosse uma memória tão recente do que ela já tivera.
— Mas e se for a ? Você quer mesmo que eu a acerte?
— Se for ela, você vai saber.
Margareth se aproximou da porta, furou a ponta do dedo e tocou na maçaneta. Como se seu sangue fosse a chave.
Sem rangidos, sem resistência. A porta apenas se abriu levemente, como se já soubesse que eles estavam para chegar a qualquer momento. Sua respiração mudou assim que cruzou o limiar. Já não estava mais confiante como antes, era como se a casa já estivesse fazendo o efeito nele.
Aquele ar, denso e pesado, trazendo o cheiro de incenso velho e a magia antiga; tudo diferente do que Hogwarts tinha em sua vaga lembrança. Daquela casa, a magia, entrava em seus ossos, se infiltrava como um parasita; o chão, aquele chão anulava qualquer ruído feito sob ele, trazendo apenas o som dos batimentos do seu coração que podia ser escutado.
A porta se fechou atrás deles com aquele estalo seco.
— Protego Maxima — Charlie murmurou, mantendo a varinha firme.
A magia respondeu, porém tarde demais. As paredes começaram a se mover. Não só fisicamente, mas também psicologicamente. O espaço se alongou, distorcendo. Logo o corredor mais à frente se multiplicou em três, depois em cinco, cada um com portas idênticas, cada uma marcada por símbolos antigos; runas antigas, de proteção, dominação e sangue.
— Não confie nos seus olhos. — Margareth sussurrou, separando dele.
O grito veio ao longe, ecoando até chegar aos seus ouvidos. Era a voz de sua adorável mãe, Molly Weasley. Ele sentiu seu corpo gelar e o arrepio aproximar a sua nuca.
O cheiro mudou. Agora parado na entrada da toca, ele podia sentir o aroma da canela, do pão recém assado e da lareira acesa. Deu mais alguns passos e já estava na cozinha. Era exatamente igual, não tinha nenhuma mudança, ele estava realmente na casa de seus pais. Ao fundo, pôde ouvir a risada de Fred.
Parou na entrada da cozinha, seus olhos percorreram todo o local até parar em sua mãe. Os olhos marejados, parada ao lado da pia, se apoiando no mármore frio.
— Você demorou. — A voz saiu trêmula. — Eu te esperei para passarmos o Natal juntos.
— Não. — Ele engoliu a seco, recuou alguns passos. — Isso não é real.
Molly se aproximou. O sorriso sumindo, deixando aos poucos o olhar de decepção aparecer, o avental sujo de sangue. Empunhou a varinha, deixando apontada para o rosto de Charlie.
— Todos eles voltaram, todos eles se lembraram de voltar, menos você. — Aproximou do filho. — Ingrato, egocêntrico. Você nunca foi um Weasley, você sempre teve vergonha de sua família. Avad…
As palavras pressionaram no seu peito, o sufocando como seus sentimentos de culpa. Respirou sem ao menos saber como conseguia fazer isso naquele momento.
— NÃO! — gritou, levantando a varinha. — Finite Incantatem!
A cozinha sumiu junto de sua mãe e seus irmãos, envoltos de uma fumaça preta. Ele permitiu-se cair de joelhos, mas, ainda assim, com a varinha em punho. Suava frio, tentava controlar sua respiração, não podia passar mais tempo lá.
Do outro lado, em um outro corredor mais estreito, Margareth caminhava com a ponta da varinha clareando cada passo. A névoa envolta dificultava se localizar para onde o corredor estava indicando. Dobrou à direita, tropeçando em algo no chão.
Levantou, procurando sua varinha, e, ao se dar conta, percebeu um ambiente diferente. Iluminado, o cheiro de limpeza do hospital estava no ar. Sua varinha não estava mais em suas mãos, agora apenas o lençol podia ser achado.
À frente estava , de pé, ao lado da cama. Seus olhos avermelhados, molhados de tanto chorar, transbordavam todo ódio que estava a sentir da mulher que ali estava.
— Você nunca sequer deu o valor. — passou a proferir. — Nem sequer se deu ao trabalho de ser uma boa mãe. Fingiu inúmeras vezes sobre todos os acontecimentos, fingiu que tudo estava certo e que o papai voltaria. — Passou a mão no rosto. — E no fim, no fim, você só me tratou como um porco para o abate, pronto para você fazer eu seguir os seus passos, mas no fundo quem sempre me manteve salva foi o papai.
A porta se abriu, um estalo alto ao bater na parede. Frederick estava ali, parado, com um sorriso satisfatório nos lábios.
— Você sempre foi fraca, Margareth. — Ele caminhava pelo quarto, parando ao lado da filha. — Amor demais. Culpa demais. Foi por isso que eu ganhei. Foi por isso que agora está junto de nós.
Levantando a manga da blusa de , a marca negra foi exposta, deixando Margareth completamente fora de suas faculdades mentais.
— Mentira! A nunca seria uma seguidora dele. REDUCTO!
De todas as vezes que usou aquele feitiço, aquele momento foi o único que ele explodiu intensamente. A parede — de verdade —, à sua frente estourou em inúmeros pedacinhos. Charlie estava do outro lado e quase foi acertado em cheio se não tivesse recuado. Apenas alguns pedacinhos voaram contra ele.
— Merlin… — exclamou de susto.
Vendo a poeira baixar, ele também abaixou a varinha. Tendo a certeza de que era Margareth, ele a ajudou a levantar. A mulher estava estirada no chão cansada e ofegante. Não trocaram nenhuma palavra, apenas deram a entender que estavam bem para poder continuar.
Sem tempo para se recompor e a casa já estava fechando. A parede quebrada se reergueu, o corredor passou a se estreitar. Eles corriam o mais rápido possível, mas, a cada passo dado, o corredor ficava mais longo e cansativo. Corriam incansavelmente. Charlie passou na frente, lançando Bombarda e estourando a porta para passarem.
Estavam agora dentro de uma sala, a mais linda e bem cuidada. Piso de mármore escuro, móveis minimalistas e bem posicionados. Os símbolos pelo cômodo traziam a linhagem dos bruxos noruegueses, como uma casa nítida de uma família de sangue puro.
— Onde estamos? — ele perguntou, controlando a respiração.
— Estamos na casa, entramos agora em casa. Vamos procurar ela em algum lugar, tem vários quartos aqui. Ao leste — apontou — fica a cozinha.
— Senhora Margareth — Charles a chamou. — Como você sabe disso? Como conhece tão bem a casa?
— Aqui. — Engoliu a seco. — Aqui é onde eu e moramos antes de me separar do meu ex-marido.
— Hm, então onde é o quarto dela?
— não tinha quarto, ela dormia em todos, nunca gostou daqui. Caso a encontre, aparate daqui para algum lugar seguro, eu encontro vocês.
— Caso você a encontre, como eu vou saber onde vocês estão? — A voz soou toda sua preocupação.
— Eu avisarei você. Agora anda, precisamos achá-la. Estamos correndo contra o tempo.
Charles andou por toda a extensão da casa, passou de quarto em quarto. Algum sinal, algum objeto que fosse dela e desse indícios de que estava ali, ou ao menos esteve.
Móveis intocáveis e ao mesmo tempo bem cuidados, como se ninguém entrasse ali há anos. Roupas paradas como se estivessem prontas a serem usadas naquele instante.
Apenas uma porta estava fechada, uma que, no fim do corredor, ele andou lentamente até. O Lumos precisou ser expandido assim que entrou no quarto, um vazio acompanhado de uma corrente gelada passando por todo o seu corpo. Dois passos adentro, e uma névoa preta surgiu à sua frente. Como já tinha visto isso antes, Charlie compreendeu de imediato o que era.
Como se seu corpo tivesse sido controlado, a pessoa à sua frente usando uma máscara prata com arabescos pesados parou na sua frente. Sua audição captou mais duas pessoas atrás de si e pressupôs que também estavam mascarados.
O batimento cardíaco aumentou instantaneamente, o timbre da voz do homem trouxe memórias indesejadas.
— Olá, querida.
— O-o que você faz aqui?
— Vamos sair um pouco, precisamos conversar. Faz tempo que não temos um momento de pai e filha.
— Pai? — Cuspiu a palavra. — Você nunca foi meu pai.
— Garota insolente. — Esbofeteou o rosto dela. — Você me deve respeito!
— Respeito? Como se respeita alguém que despreza a própria família? Como se respeita alguém que negou a própria filha?!
— Aqui vai ser inútil — disse aos outros comensais. — Vamos, a levem e tirem a varinha dela.
— Accio. — O da esquerda tirou a varinha dela.
— Para onde vão me levar?
Se debateu ao sentir ser envolvida pelo outro homem, estava agora tentando se soltar para fugir, mas foi em vão. Em segundos, ela estava aparatando contra a vontade para algum lugar que ela nem imaginava qual era. Suas memórias se prenderam naquela virada da noite, onde teve o primeiro Natal ao lado de alguém que sabia o que era amar os dragões.
Uma memória de Natal que, para ela, passaria a ser uma de suas favoritas. Pensou em inúmeras coisas. Se ao menos tivesse voltado para a tenda do Weasley, ou descido até os dragões, ou principalmente ignorado a carta mesmo tendo o nome de sua mãe.
Já no local do destino, ela foi solta pelos comensais. Deixada em um quarto minimalista, sem sua varinha, domada por proteção mágica e apenas aguardando quando Frederick conversasse com ela.
Chorava de desespero, de medo, de raiva. Como podia ter caído em uma armadilha tão fajuta como aquela? Como não havia percebido antes que a pessoa que escreveu a carta era seu genitor? Sua preocupação também estava em sua mãe, e se ela tivesse sido capturada? Estava perdida em seus próprios pensamentos.
Deitou sob a cama, se ajeitou sem ao menos pegar a coberta. Podia ao fundo ouvir uma família cantando a música de Natal tradicional da Noruega. Algo a despertou, ela sabia onde estava e era para o último lugar que ela queria voltar. Estava na sua antiga casa.
Sentou-se para analisar melhor. As cores não eram nada do que ela se recordava. Tons rosas e roxos davam cor às paredes, algumas bonecas que, sim, tinha conhecimento de serem suas. Se levantou, caminhou até o guarda roupa e, para sua surpresa, era como se tudo esperasse por ela. Mas agora nada tinha as paletas de cores alegres, e sim preto, o preto predominou todo o guarda-roupa.
Se assustou e deu alguns passos para trás. Ele queria que ela soubesse que, de alguma forma, ele sempre esteve a observando, mesmo a negando como filha. E agora, por mais estranho que parecesse, Frederick a queria como aliada. Caiu sentada na cama.
— Não, eu me recuso a acreditar.
Conversava consigo. Procurou alguma forma de poder sair dali. Analisou o feitiço de proteção. Era uma proteção boa, não tinha como nenhuma tentativa de feitiço não verbal funcionar, restava a ela aparatar. Ela tentou e parou, se acalmando para não estrunchar. O foco era voltar para o santuário de dragões.
— Mamka mu! — Andou de um lado para o outro, prendendo o cabelo. — Como eu vou sair daqui?
Se aproximou da janela para tentar ver algo, mas também estava enfeitiçada. Sua atenção correu para a porta, e a maçaneta virou, revelando o rosto de Frederick entrando no quarto.
— Minha querida, como você está? Gostou do quarto?
— Você não tem limite mesmo, bem que mamãe avisou.
— Não fale dessa mulher dentro desta casa. Ela não soube cumprir o papel dela.
— Cumprir o papel dela? Você sempre rejeitou a família que tinha por não ter tido filho homem!
— E você acha que desta forma terei como propagar o meu sobrenome?
ficou quieta, discutir com ele não levaria em nada. Ela precisaria se manter calma para poder estudar tudo o que estaria por vir e assim poder fugir dali.
— Bem como eu imaginei, você não tem argumentos para uma conversa decente. — Adentrou no quarto. — Entretanto, eu gostaria de te fazer uma pergunta.
Um silêncio mínimo silêncio ficou entre eles, Frederick aguardava uma resposta da mulher.
— Você sabe onde Harry Potter está?
— Harry Potter?
O nome era sutilmente familiar, mas não tanto quanto deveria ser.
— Sim, o garoto que sobreviveu.
— Nunca ouvi falar dele, muito menos onde ele está.
— Pare com essa mentira. — Estava na frente dela. — Você se aproximou do Weasley, ele com certeza falou sobre o paradeiro dele.
— Eu não sei. — Quase falou pausadamente. — Nunca ouvi falar nesse Harry Potter, e… Como você sabe que eu me aproximei do Charlie?
— Minha princesinha. — Mexeu uma mecha do cabelo dela com a varinha. — Eu estive te observando de longe, precisava saber o quão forte você é.
— Pra quê?
— Você vai se aliar a mim. Vamos servir juntos o Lorde das Trevas, e teremos um mundo bruxo digno.
— Só se for nas suas maiores ilusões. Eu nunca me curvaria a alguém assim.
Ele ignorou a frase dela.
— Você vai me dizer onde ele está. Depois disso, serviremos ao Lorde das Trevas. Caso contrário, você sentirá a consequência.
Frederick saiu do quarto, nervoso. Queria ser o primeiro a receber a honra de poder levar o garoto que sobreviveu para o Lorde das Trevas. Ele sabia que isso daria certo, mas depender de uma garota que era sua filha — e com desprezo disso — só o irritava mais.
Na sua sala privada, onde ele podia simplesmente ver e fazer tudo que desejava, ele passou o tempo, pensando e planejando fazê-la falar. Não havia um amor que ele poderia usar contra ela, apenas Margareth, mas só de se recordar da ex-esposa ele sentia o ódio ferver seu sangue.
No quarto podia-se escutar o relógio tocando ao fundo. estava deitada na cama, olhava pro teto com os pensamentos vazios. A fome começou a aumentar, então ela entendeu que ele passaria a deixá-la sem refeição.
A porta se abriu mais uma vez, e desta vez não era o genitor de . Era um dos homens que a levou para fora do quarto. Segurando o braço dela com força, desceram as escadas sem o menor pudor. Virando o corredor, ela viu a sala onde faziam as refeições naquele lugar, e era exatamente onde ela ficaria com eles.
Os quatros estavam ali. sentada na cadeira, olhando para os três em sua volta. O olhar de Frederick estava diferente, trazia o lado sombrio real dele.
— Me diga, onde Harry Potter está?!
Aquela pergunta passou pelos quatro cantos da casa. Piscou os olhos lentamente pelo grito, e, tentando compreender como poderia saber sobre esse Harry Potter, sua garganta já estava secando, como se previsse o que estava por vir.
— Eu… — Hesitou levemente. — Já disse que não sei.
Frederick sorriu, um sorriso sarcástico, mostrando toda sua insatisfação. Ele não mediria suas palavras, muito menos como poderia agir de agora em diante.
— Interessante. — Caminhava, fazendo um círculo em volta dela. — “Não sei” é o que todos dizem no começo.
A bruxa o seguia com os olhos, decifrando cada movimento dele. Ela fechou os olhos, já prestes a saber o que estava por acontecer. O estalo veio alto, acompanhado da ardência em seu rosto. Puxou todo o ar para conter a dor que estava sentido. Com suas mãos atadas atrás ela, se sentia mais ainda indefesa.
— Respire. Eu quero você consciente.
Deixou a cabeça cair para frente, puxou todo o ar que conseguia.
— Isso… — engoliu aquele gosto de sangue — não vai funcionar. — Levantou a cabeça e falou nos olhos dele.
— Vai, sim. Sempre funciona. O corpo sempre vai trair primeiro do que a mente, principalmente uma mente fraca igual a sua.
Erguendo a varinha, ele lançou um feitiço inaudível. O frio passou pelo seu corpo, cortando sua pele e entrando em seus músculos, contraindo cada parte e a torturando a cada milésimo.
apertou os olhos o mais forte que podia. Sentiu seus dentes sendo apertados por ela mesma e raspando um no outro. Não estava conseguindo manter o controle de seu corpo, estava regredindo tudo o que havia aprendido em Durmstrang.
— Onde. — Baixou a varinha. O corpo dela caiu mole. — Está. Harry. Potter. — Parou diante do rosto dela.
— E-eu… não… sei…
O respondeu pausadamente, exaltado e com dor, trazendo a irritação toda para Frederick.
Novamente, ele moveu a varinha. A dor mudou e desta vez se espalhou. Podia sentir chegar em seus ossos uma dor aguda e pinicante, uma que não havia comparação. Sentiu um peso sobre seu corpo, começando pelos braços, depois pernas e por último seu tronco, dificultando sua respiração. Sem conseguir ver, mas podia ter toda a certeza, os hematomas começaram a aparecer em seu corpo, nas partes onde mais sentia dor.
— Mentir cansa — falou com desdém. — Vamos tentar algo diferente.
Frederick movimentou a mão e apenas a cadeira foi parar do outro lado da sala. caiu no chão, sentindo a dor maior do que deveria ser. Tinha uma respiração controlada, lutando para não desmaiar ali na frente do genitor.
— Levante-se — ele ordenou.
Podia tentar, podia pedir para seu corpo se levantar e assim tentar acabar com aquela tortura, mas, de qualquer forma, seu corpo não a respondia. Estava fraca demais para poder abrir os olhos, quem dirá sentar como ele ordenava.
— Talvez ela precise de ajuda. — Um deles apenas aumentou mais a tortura. Soltou as mãos dela.
Frederick aprovou, claro que aprovaria. Ele não tinha nenhum sentimento de amor por aquela mulher estirada no chão.
— Imperio.
A maldição saiu cantada, como se o feitiço fosse um de seus favoritos.
A magizoologista sentiu como se algo quebrasse por dentro, arfando sem emitir um som. Sua mente saiu, a afastando de tudo, de todas as memórias, como se estivesse sendo empurrada do próprio consciente. Seus braços se moveram sem permissão, as mãos pressionando o chão para erguê-la. Cada gesto não lhe pertencia mais. Era como assistir ao próprio corpo sendo usado por outra pessoa.
Ele quebrou o feitiço de repente.
— Viu? — Frederick sussurrou, ao se agachar atrás dela. — É assim que deveria ser, você sempre me obedecendo.
Estava estirada no chão, suas mãos com a marca das cordas amarradas para fazê-la sangrar durante aquele momento. Queria levantar o olhar, implorar para parar, suplicar que ele parasse, pois era a verdade, ela nunca nem sequer sabia que Weasley tinha ligação com o Potter.
Fechou os olhos e abriu, aquele leve piscar a fez vê-lo levantando a varinha novamente em direção dela.
— Crucio.
A dor a tomou por completo, sem pedir licença; podia sentir seu corpo incendiado por dentro, apertando, rasgando, esmagando cada centímetro dela. Arqueou o corpo contra o chão, seus dedos cravados na pedra fria, o grito que ficou contido nas cordas vocais poderia ser escutado por quase todo o quarteirão.
O tempo deixou de existir, a realidade havia sucumbido ao imaginário, o desejo de que aquele momento cessasse era maior. Quando tudo parou, quando o silêncio pairou nos tímpanos dela, podia sentir seu corpo encostar todo no mármore. Ali ela teve a certeza de que havia acabado, só não sabia por quanto tempo esteve ali.
Sentindo com mais intensidade o gosto de ferro em sua boca, ela ficou ali por dois segundos. O corpo mole incapaz de corresponder, seus olhos semicerrados, sem compreender o cômodo.
Apenas sentiu seu corpo ser levantado e levado novamente para o quarto que estava algumas horas atrás. A porta se abriu e sem nenhuma delicadeza ela foi jogada na cama. A porta se fechou. ficou ali, imóvel, encarando o nada. Cada respiração parecia um esforço consciente. O quarto girava lentamente, como se ainda estivesse sob o efeito de algo que não passaria tão cedo.
O tempo voltou a perder forma.
Quando a porta se abriu novamente, ela soube que tudo começaria novamente. O perfume forte tomou conta do lugar. Frederick estava lá outra vez.
Apenas caminhou pelo quarto, os passos calmos demais para alguém que acabara de destruir a própria filha. Parou ao lado da cama, puxou a cadeira que ali tinha e se sentou ao seu lado. O olhar de insatisfação estava explícito.
— Eu espero que agora você colabore.
Pegou a varinha e encostou na têmpora dela.
— Legilimens.
Passou por cada memória dela, cada dia que ela passou e ficou marcado. Memórias fragmentadas surgiram: livros, dragões, o santuário, o riso contido de Charlie, a voz de Margareth. Nada do que ele queria. Nada de Harry Potter. Nada de mapas, segredos ou rotas.
Instintivamente — quase como um último reflexo de sobrevivência —, ela tentou resistir. Ergueu muros tortos dentro da própria mente, empurrou lembranças para longe, se agarrou ao pouco controle que ainda tinha.
— Oclumens — murmurou , com o resquício de força.
Levantou, deixando a cadeira cair. Seu ódio, sua raiva.
— Nada — repetiu, a frustração clara agora. — Absolutamente nada.
Ele a observou de cima, como quem avalia um erro que não pode ser corrigido.
— Além de não ser capaz de carregar o meu sobrenome. — Sua voz saiu fria, sem raiva, sem emoção. — Você é inútil até para encontrar alguém.
Virou-se em direção à porta.
— Descanse — disse, quase como uma ordem cruel. — Amanhã veremos se ainda vale a pena insistir.
A porta se fechou pela última vez naquela noite.
permaneceu deitada, os olhos abertos, o corpo exausto demais para ceder ao sono. Cada parte dela doía, mas algo mais profundo havia sido tocado.
Como um Natal poderia ser sua pior lembrança mesmo depois de ter beijado Charlie Weasley?


