Codificada por: Ayleen Baümler
Última Atualização: 27/10/2025Portland, Oregon.
O cheiro de látex barato e maquiagem vencida impregnava o interior do carro de Jonas. No banco de trás, Ayla vestida de vampira gótica, tentava acender um cigarro enquanto desviava da ponta do tridente de plástico de Ethan, que estava espremido ao seu lado, fantasiado de Poseidon com uma barba falsa que pinicava.
— Jonas, tem certeza de que esse é o caminho? – a voz de Pietra veio do banco do passageiro. Ela era a única sem fantasia completa, usando apenas uma máscara de coelho veneziana que agora descansava em seu colo. — O GPS parece maluco.
— Relaxa. – Jonas acrescentou com um sorriso moldando seus lábios, enquanto batucava o dedo no volante. Sua fantasia de lobisomem se resumia a orelhas peludas e dentes falsos que o faziam falar cuspindo. — Eu conheço essa área. Tem um atalho que corta uns vinte minutos. Chegaremos lá antes das duas.
A festa de Halloween na casa abandonada próxima ao lago era o evento do ano. O relógio digital do automóvel já marcava mais de 1h da manhã.
Jonas virou o volante bruscamente, saindo da rodovia iluminada e entrando em uma estrada de terra batida, escura como o breu. Segurou de forma mais firme na direção e os faróis do carro mal davam conta de cortar a névoa baixa que pairava sobre o mato alto.
— Cara, que sinistro! – Ethan murmurou ao olhar pela janela e não vendo nada, levou uma das mãos e tentou limpar o embaçado do vidro — Não tem nem poste aqui.
— É estrada rural, gênio. É assim mesmo. – Jonas retrucou ao rir fraco.
O grupo de amigos rodou por cerca de dez minutos em silêncio, o único som sendo o “tum-dum” eletrônico da playlist da festa que tocava baixo no rádio. Então, um letreiro surgiu na luz dos faróis: uma placa de madeira velha, quase podre, onde se lia em letras vermelhas descascadas: “POSTO DO CORVO – 5 KM. GASOLINA E CONVENIÊNCIA”.
— Quem coloca um posto desses no meio do nada? – Ayla questionou baixo, depois de conseguir acender o cigarro e abaixando o vidro, soltando a fumaça no ar frio da noite.
Continuaram. A estrada parecia não ter curvas, apenas um risco infinito em terra e cascalho. A nevoa engrossou. O celular de Pietra, que ela usava como lanterna, perdeu o sinal.
Vinte minutos se passaram. A playlist já tinha começado de novo.
— Jonas, isso está demorando mais do que o caminho normal. – Pietra o olhou, mas tentou dizer com a voz firme.
— Calma, eu...
À frente, emergindo da névoa como um fantasma, outra placa de madeira. Letras vermelhas descascadas.
“POSTO DO CORVO – 5 KM. GASOLINA E CONVENIÊNCIA”.
Jonas riu, um riso nervoso.
— Boa piada. Eles colocaram várias placas iguais para... sei lá, marketing?
Ethan não riu. Virou seu rosto e tentou identificar onde estavam.
Jonas pisou mais fundo no acelerador. O carro protestou, o motor gritando a fino.
— Jonas, devagar. – Pietra pediu.
Mais quinze minutos. A estrada era a mesma. As árvores retorcidas eram as mesmas. A névoa era a mesma.
E então, a placa.
“POSTO DO CORVO – 5 KM. GASOLINA E CONVENIÊNCIA”.
— PARA O CARRO! – gritou Pietra.
Jonas freou com tanta força que os pneus cantaram no cascalho. O carro derrapou e parou atravessado na pista. O silêncio caiu como um cobertor e Ethan desligou o rádio. A playlist eletrônica morreu no meio de uma batida.
— Que porra é essa? – sussurrou Ethan, arrancando a barba falsa.
— É um loop. Estamos em um loop. – respondeu Ayla de um jeito baixo e com o coração na boca.
— Isso não existe. – Jonas acrescentou firme, com as mãos tremulas no volante. — Eu devo ter pegado a entrada errada, só isso. Vou dar meia volta...
Ele deu a ré, manobrou o carro com dificuldade na estrada estreita e começou a dirigir de volta.
Eles não precisaram esperar quinze minutos. Em menos de cinco, a placa apareceu de novo, agora virada na direção oposta.
“POSTO DO CORVO – 5 KM. GASOLINA E CONVENIÊNCIA”.
Foi quando o motor do automóvel começou a engasgar. Tossiu uma, duas vezes, como um velho morrendo. Jonas bombeou o acelerador, desesperado. O carro deu um solavanco final e o motor morreu.
As luzes dos faróis piscaram e se apagaram, mergulhando-os na escuridão total da madrugada.
Por um momento, ninguém respirou.
Jonas tentou dar a partida. Nada. De novo. O “clac-clac-clac” da ignição era o único som.
— A bateria...
— Olhem — interrompeu Pietra ao apontar para fora.
A névoa lá fora estava se dissipando, mas não era a escuridão da noite que ela revelava. O céu... o céu estava errado. Tinha um tom doentio de verde-purpura e onde a lua deveria estar, havia duas luas menores, pálidas como olhos de peixe morto.
As árvores que cercavam a estrada não eram pinheiros ou eucaliptos. Eram coisas altas, negras, com galhos que pareciam se contorcer como tentáculos.
Ayla abriu a porta do carro lentamente, o ar que entrou não cheirava a mato ou terra molhada. Cheirava a ozônio e algo doce, como carne apodrecendo.
— Gente – Ethan murmurou como se estivesse prestes a chorar — O posto. Cadê o letreiro do posto?
A placa havia sumido. A estrada de terra havia sumido. Sob seus pés, o chão parecia pulsar levemente, coberto por um musgo que brilhava fracamente.
Eles não estavam mais no atalho. Eles não estavam mais no mundo deles.
