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Revisada por Nyx 🌙

Finalizada em: 27/07/2025

Após sete anos longe de casa…

Eu não me imaginava voltando para a cidade de Austin no Texas agora, não nessas circunstâncias, porém, a necessidade fez oportunidade e estava mesmo sentindo que deveria tirar umas férias merecidas. Não queria mais ocupar minha cabeça com tantos problemas, menos ainda com paparazzi e a mídia querendo saber sobre minha vida privada.

Tudo culpa do Josh.

— Ainda não entendo o motivo de estar tão preocupada, Clair. — voltei meu olhar para minha assessora de imprensa — Nós duas sabemos que meu suposto romance com o Josh era puro marketing.
— Eu sei que você está bem com esse término conturbado, mas querendo ou não, as idiotices que ele vem fazendo pode respingar em sua carreira. — ela parecia ainda mais preocupada que meu empresário.
— Não vai, e se mais uma revista ou site de notícia ligar, diga que como sempre não falarei sobre minha vida pessoal. — me virei novamente para minha cama e comecei a revirar minha bolsa procurando o celular — Já desativei algumas redes sociais, a única coisa que quero funcionando é meu site, em breve começaremos a promoção do meu novo filme e…
— Como está minha atriz favorita? — perguntou Dimitri, ao adentrar meu quarto — Está pronta para voltar para casa?
— Sim. — respondi.

Dimitri era um homem sensato e mesmo em casos extremos, sempre concordava comigo, era um sonho de empresário, além de pai de família, muito honesto e gentil. Já Clair era a assessora de imprensa mais estressada que eu conhecia, sempre preocupada com minha imagem e com a opinião pública sobre mim.

Como se eu me preocupasse.

Dei mais algumas recomendações para Clair, principalmente o ponto em que ninguém deveria saber para onde eu estava indo, para todos os efeitos, minhas férias seria em um resort nas Bahamas. Dimitri concordava comigo, seria bom para minha mente ficar longe de todos os holofotes e especulações sobre meu rompimento com Josh, afinal, agora a vida do meu ex-namorado era problema só dele.

--

— Minha querida! — disse minha mãe, assim que eu desci do carro em frente à casa principal da fazenda.
— Oi, mãe. — a observei, descendo os três degraus e vindo ao meu encontro.

Ela me abraçou forte e calorosamente.
Parecia que não me via há séculos, mas ela sempre foi assim comigo, atenciosa e carinhosa.

— Ah, querida, estava com tanta saudade. — ela me olhou com brilho nos olhos — Quando o senhor Fox disse que passaria um tempo em casa, meu coração pulou.
— Calma, mãe. — ri baixo de sua empolgação — Eu também estava com saudade, mas a senhora me viu mês passado.
— Sua ingrata. — fez a indignada e me deu um tapa forte em meu braço.
— Aí, mãe. — reclamei.
— Saudade de mãe é diferente. — retrucou — Agora venha, eu fiz um bolo de milho para sua chegada, receita da vovó Somália.
— Um bolo na chegada era tudo que eu mais queria. — assenti acompanhando-a.
— Steve, por favor, leve as malas para o quarto dela. — ordenou minha mãe ao funcionário que havia me buscado no aeroporto particular.

Assim que entramos na casa, uma sensação de nostalgia me invadiu por completo. Lembranças da minha infância misturadas a parte da adolescência, foram surgindo em minha mente, estava realmente de volta ao lar.

— Onde estão todos? Essa casa está muito vazia. — reclamei, ao perceber o silêncio dos cômodos.

O que me lembrava de sete anos, era a casa cheia de amigos e música alta vindo do quarto de Freya. Minha irmã mais velha sempre foi fã das clássicas divas do pop, então a casa vivia ao som de Madonna, Toni Braxton, Celine Dion e Whitney Houston.

— Freya está de plantão no hospital, então só a veremos à noite. — explicou, enquanto retirava a forma de bolo no forno — Sua sobrinha está na escola, estamos na semana de provas, e está cuidando de alguns assuntos administrativos da fazenda.
?! — tossi de leve — Ele ainda trabalha aqui?!
— Claro que sim, quem mais ajudaria sua mãe a administrar tudo isso e gastar com sabedoria? — seu olhar estava surpreso por minha pergunta — Além do mais, você sabe muito bem que ele prometeu ao seu pai que cuidaria da gente.
— Claro, ganhando 120 mil por ano, até eu trabalharia aqui. — retruquei de forma racional.
— Então é assim que você me vê? Como um mercenário? — a voz grossa e firme, que eu não ouvia há uns três anos, veio na direção da porta.

Voltei meu olhar para sua direção.

Estava encostado na porta de braços cruzados me encarando, um sorriso disfarçado no rosto, camisa xadrez e uma calça jeans desbotada com rasgos na região do joelho. Seu olhar sereno e profundo de sempre, harmonizando com os traços asiáticos de seus avós coreanos. Eu me lembrava vagamente daquela bota camurça surrada da última vez que o vi, dois meses após o enterro do meu pai.

era o que eu chamava de passado mal resolvido.

Quando saí de casa para seguir meu sonho de ser atriz, ele foi o primeiro a me apoiar, mesmo sabendo que a distância nos afastaria. Eu tinha 14 anos naquela época e uma oferta de ter um pequeno papel em Waffle House, um seriado famoso daquele ano. Foi a oportunidade que a vida me deu para conquistar o público e obter mais papéis notórios na televisão, até chegar o meu primeiro filme de drama e romance: I Need U. Algo que me rendeu prêmios como o Oscar de melhor atriz principal. Foi este meu sonho e o sucesso inesperado em minha carreira, que garantiu o pagamento das dívidas da fazenda, que vinham se arrastando desde quando meu avô era vivo. Eu não imaginava que poderia dever por tantos anos uma hipoteca.

Mas enfim, ali estava eu, novamente em casa, olhando para a pessoa que mais me deu forças para me mudar para Manhattan.

— Vamos combinar que 10 mil dólares por mês é um salário tentador. — retruquei, lançando um sorriso sapeca.
— Bem-vinda ao lar. — ele se afastou da porta, adentrando a cozinha — Senhora Penny…
— Já disse para me chamar de tia Penny. — minha mãe o repreendeu, como sempre — Eu e sua mãe somos amigas e eu a ajudei a te criar.
— Eu trabalho para a senhora, não acha que fica estranho? Para os outros funcionários? — questionou.
— Os outros funcionários não são da família. — ela colocou a mão na cintura e o olhou séria.
— Tudo bem, tia Penny. — assentiu, rindo baixo.
— Comem com moderação os dois, eu vou levar esses pedaços para o John, e quando voltar nos falamos. — ordenou, pegando um prato coberto com uma toalhinha floral.
— Eu acabei de chegar e a senhora vai sair? — reclamei.
— Já volto, tenho que levar para ele enquanto ainda está quente. — explicou, saindo pela porta dos fundos, que dava para o jardim de trás da casa.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, até que me moveu e pegou um pedaço do bolo.

— Tia Penny… — ri da cara dele, então me aproximei e peguei o pedaço que estava em sua mão — Você ainda reluta em não chamá-la assim?
— Aish. — reclamou, e fez uma careta — Esse pedaço era meu, sua folgada.
— O bolo foi feito para minha chegada, então o primeiro pedaço é meu. — retruquei, mordiscando a beirada do pedaço.
— Teoricamente o primeiro pedaço foi naquele prato para o senhor John. — segurou de leve em minha mão e deu uma mordida grande no pedaço.
— Ei! — reclamei.
— Agora sim. — um sorriu de canto discreto se formou em seu rosto.

Nos olhamos mais um pouco, até que senti que deveria desviar meu olhar para outro lado. Ele também pareceu ficar sem graça. Talvez por estarmos tentando agir como no passado, não sabendo como agir no presente após anos de distância.

— Você sabe como anda esse namoro disfarçado da minha mãe com o velho John? — perguntei, curiosa.
— Eles não costumam falar muito sobre isso. — continuou me encarando, enquanto levava as mãos ao bolso — Mas já tive o prazer de pegá-los agarrados em alguns lugares da fazenda.
— Eu não acredito que minha mãe está agindo como uma colegial. — ri de nervoso.
— Eles se gostam, então, acho que vai dar certo. — soltou um suspiro alto — Sempre dá certo quando tem que dar certo.

Senti a indireta.

— Além de fazendeiro também é filósofo. — brinquei com ironia, ao olhar para a janela.
— E você? — indagou ao dar alguns passos até a bancada da pia, e encostar nela.
— Eu o quê? — demonstrei curiosidade.
— Como está? — continuou.
— Bem, terei dois meses de férias, então, estou muito bem. — respondi, voltando meu olhar para ele.
— Não foi exatamente isso que quis perguntar. — esclareceu, engolindo seco.
— Eu estou bem, é só isso que importa. — peguei outro pedaço do bolo e saí da cozinha.

Tinha a plena certeza que ele estava falando sobre meu término com o Josh…

Juntamente com tudo mais que envolvia o assunto, e sinceramente não queria falar sobre. Menos ainda com ele. Subi para o meu quarto me deliciando com o bolo de milho. Outro choque de nostalgia veio assim que meus olhos viram a colcha de retalhos em cima da minha cama. Minha mãe sabia mesmo como me deixar assim. Estava tudo em seu devido lugar, do jeito que havia deixado sete anos atrás, meus livros nas duas prateleiras ao lado da porta, a escrivaninha ao lado da janela, a cama na outra lateral do quarto.

— Bem-vinda ao lar, . — sussurrei para mim mesma.

Um breve banho para relaxar, roupas limpas e confortáveis. As horas se passaram comigo tendo inúmeras reflexões sozinha no jardim dos fundos.

Ao final da tarde…

— Tia ! — Margareth desceu do carro e veio correndo em minha direção e me abraçou.
— Pequena! — retribui o abraço, sorrindo, olhei para minha irmã — Boa tarde, Freya.
— Miss Texas. — disse ela, com aquele apelido que adorava me batizar — Chegou quando?
— Hoje pela manhã. — respondi — Estava caminhando um pouco pelo jardim.
— E certamente pensando na vida, acho que todo mundo que vem aqui, faz isso nesse jardim. — riu de leve — Vamos entrar que estou morrendo de cansaço, e você mocinha direto para o banho.
— Mas mãe, eu quero ficar com a tia . — reclamou Marg.
— Depois do banho. — reforçou Freya.

Eu as acompanhei rindo da cara emburrada de Margareth.

Não sabia muito sobre a vida amorosa de minha irmã, lembro que quando saí de casa, Margareth estava fazendo um ano. Foi um ano conturbado para nossa família, principalmente pelo ex-namorado de Freya, tê-la deixado para ir para faculdade. Nunca fui com a cara de Carl, mas depois daquela atitude, só piorou meu conceito sobre ele. Contudo, estava satisfeita por pelo menos não ter abandonado cem por cento a filha.

--

Toc… Toc… Posso entrar? — disse Freya, da porta do meu quarto.
— Sim. — assenti.

Entrou em silêncio e fechou a porta.

Um tempo me olhando como se analisasse minhas expressões faciais.

— Pode até tentar esconder, mas todo mundo sabe o motivo de voltar para casa. — direta e precisa como sempre.
— Freya, eu sinceramente não quero falar sobre isso. — suspirei fraco — Estou cansada pela viagem e por brincar com Marg após o jantar, preciso dormir.
— Você não vai fugir dessa conversa. — reforçou.
— Eu quero fugir dessa conversa, preciso. — a olhei com sinceridade — Não se preocupe que eu estou muito bem com relação a isso.
— Tem certeza?
— Sim, eu conversei com a mamãe pouco antes do jantar, só quero um tempo de paz e uma rotina normal. — assegurei.
— Rotina normal você não vai encontrar aqui. — foi sincera.
— Ah, não, por favor, eu preciso. — pedi de forma engraçada.

Nós rimos.

— E o ?! — perguntou, entrando em outra assunto mais delicado ainda.
— O que tem ele?! — tentei disfarçar.

Sabia plenamente o que ela queria.

— Tudo bem pra você ele estar morando aqui? — uma notícia inusitada.
— Como assim, ele está morando aqui? Que história é essa? — indaguei.
— A mamãe não falou?!
— Não.

Certamente havia muita coisa que eu não sabia que estava rolando naquela casa.

Já imaginava que dois meses seria pouco tempo para saber sobre tudo, ou talvez não. Na manhã seguinte acordei bem cedo como de costume — odiava quando isso acontecia comigo, mas já estava acostumada a dormir pouco e trabalhar muito. Era final de outono, e estranhamente o nascer do dia estava com ares de frescor, saí do quarto me espreguiçando, ainda com o pijama lilás de bolinhas brancas que havia encontrado no fundo do guarda-roupa.

— Olha, a cinderela acorda cedo. — disse , assim que entrei na cozinha.

Ele estava encostado na bancada da pia, com uma xícara de café na mão e sem camisa. Por que sem camisa?

— Você acha que artistas acordam meio-dia e ganham um milhão por mês? — senti um leve tom irônico da minha voz — E você não tem camisa não?
— Derrubei café na que estava em meu corpo. — respondeu tranquilamente me olhando, parecia segurar o riso — Está servida?
— Eu não…
— Bebe café. — completou antes de mim — Eu fiz chá de camomila, está na garrafa vermelha.
— Obrigado. — caminhei até a mesa e peguei a xícara, despejei um pouco do chá nela e adocei com açúcar mascavo que estava em um pote branco.

Ele permaneceu em silêncio me observando.

— Estou impressionada que ainda lembre. — comentei.
— Existem coisas que são difíceis de esquecer, principalmente quando tem um grande valor para nós. — explicou.
— Saber que eu odeio café tem valor para você?! — perguntei.
— Talvez, para você, tem?! — seu olhar ficou mais intenso — Soube que é uma das coisas mais importantes que alguém deve saber sobre você.
— Hum… — senti um sorriso discreto surgindo no canto do meu rosto — Olha só quem andou lendo minhas entrevistas.
— Freya comentou uma vez. — retrucou — Não preciso ler nada sobre você, eu já sei tudo que deveria saber.

Ele colocou a xícara na bancada e passou por mim, seguindo para sala.

Fiquei estática? Sim. Sem reação? Também. Respirei fundo e me voltei para a porta, mamãe e Freya entraram na cozinha aos risos, estava torcendo para que os comentários maldosos não fossem sobre mim.

— Bom dia, Miss Texas. — disse Freya, indo se sentar na cadeira — Dormiu bem sob os macios lençóis de linho fino?

Ela e mamãe riram.

— Não tem graça nenhuma. — dei de ombros — Mas eu dormi bem sim, para ser honesta, assim que me deitei na cama meu corpo se lembrou do colchão e desmaiei.
— Aff… — Freya me olhou com uma pontinha de inveja — Você sempre foi boa quando o assunto é dormir em qualquer lugar, que raiva.
— Desculpa, irmãzinha, se meu problema é acordar e não dormir! — ri da careta que ela fez.
— Ah, vocês duas. — mamãe nos olhou — Sabia que eu estava sentindo falta dessas trocas de amores?
— Por favor, mãe, não chore. — disse minha irmã, servindo sua xícara com café.
— Não vou. — respirou fundo, reprimindo as lágrimas — Hum… Parece que além do café, andou fazendo outras coisas.
— Ele se lembrou que odeio café. — expliquei.
— Isso te deixou surpresa?! — o olhar curioso da minha mãe me deu medo.
— Um pouco. — suspirei fraco.

Deixei-as na cozinha e fui para sala, Margareth estava descendo as escadas ainda sonolenta.

— Tia , onde está a mamãe? — perguntou ela, esfregando seus olhos.
— Está na cozinha, vai lá tomar café. — eu bati de leve na bunda dela, rindo — E cuidado para não tropeçar.

Subi as escadas ainda rindo, e entrei em meu quarto.

Caminhei até a janela, me encostando nela, olhei para o horizonte enquanto bebericava o chá. A vista era linda e o nascer do sol mais ainda, já não me aguentava mais de saudade daquele lugar, da minha família e talvez até de . Certamente lá no fundo eu tinha uma saudade incubada dele, mas não queria admitir.

— Cinderela. — disse , ao bater na porta do quarto que deixei entreaberta.
— Entra. — me voltei para sua direção, para minha surpresa, o funcionário do ano já estava com uma camisa lisa azul marinho vestida no corpo.
— Estou indo até o estábulo, quer me acompanhar e ver como seu funcionário que ganha 10 mil por mês, trabalha? — perguntou, com um tom de ironia.
— Meu Deus, que garoto rancoroso. — ri dele.
— Não sou rancoroso, só estou repetindo suas palavras. — sorriu de forma presunçosa.
— Você já foi mais humilde. — retruquei, fazendo bico.
— Agora eu ganho 120 mil por ano. — provocou.
— Céus, que monstro eu criei. — o olhei, impressionada.

Havia me esquecido esse seu lado.

— Me desculpe pelo comentário de ontem. — disse em rendição — Prometo não tocar mais no assunto. Ok?!
— Ok, cinderela. — assentiu ele.
— Mercenário.

Nós rimos.

— Me dê cinco minutos para trocar de roupa.
— Não demora. — advertiu, saiu do quarto fechando a porta.
— Sem graça. — sussurrei, rindo.

Não havia levado tanta roupa.

Pior, todas que estavam na mala eram de grifes famosas, ou seja, meu coração até doía ao imaginar elas sendo sujas ou surradas pela vida no campo. Abri novamente o guarda-roupa olhando as poucas peças que haviam sido deixadas para trás, seria estranho vesti-las novamente, mas se estavam ali. Encontrei minha velha blusa dos Backstreet Boys, fazia tanto tempo que não os ouvia que até deu vontade, coloquei uma calça jeans com rasgos no joelho e o all star amarelo desbotado. Lembro-me que era o preferido para ir à escola.

— Que demora. — disse , encostado na parede do corredor.
— Por que ficou parado aí me esperando? — perguntei enquanto prendia meu cabelo em um rabo de cavalo — Eu ainda sei onde fica o estábulo.
— Mal-agradecida. — o tom de ofendido soou, e seguiu em frente.
— Desculpa. — falei num tom debochado, juro que tentei não soar assim — E obrigado por me esperar.

Ele deu um suspiro forte e permaneceu calado.

Prendi o riso e o segui até o estábulo. Pelo que me lembrava havia muita coisa nova e reformada, o lado externo estava pintado de vermelho escuro com as portas e detalhes brancos. Vermelho era a cor favorita do papai. Do lado de dentro toda a madeira parecia ter sido tratada e envernizada, estava tudo organizado e bem limpo, já tinha dois funcionários cuidando dos animais e fazendo a manutenção do espaço.

— Fizemos a reforma no ano passado. — comentou, seguindo em direção a uma das baias, logo acariciou uma vaca de pele malhada — Oi, menina, como está nossa cria?
— Ficou bonito, a reforma foi bem-feita. — tentei elogiar.

Ele voltou o olhar para mim.

— Isso foi um elogio?!
— Sim, foi um elogio. — confirmei, sem receio — E farei outro, parabéns, pelo que vejo está cuidando muito bem da fazenda do meu pai.
— Você chegou ontem, tem certeza das suas palavras? — riu de leve.
— Eu sei que você faz um bom trabalho aqui. — admiti.
— 120 mil por ano. — lembrou, num tom de brincadeira.
— Seu chato, eu ia dizer isso em segundos.

Nós dois rimos.

— Apesar de não ser minha, eu gosto de trabalhar aqui, cresci nesse lugar, sabe que amo o que faço. — seu olhar sincero parecia querer me despedaçar.
— Essa fazenda é tão sua quanto minha. — retruquei — Talvez mais sua que minha.
— Não é o que diz o testamento. — ele riu.
— Testamentos podem ser mudados. — comentei.
— Está dizendo que vai compartilhar sua herança comigo? — seu olhar ficou surpreso.
— Não foram essas minhas palavras. — ri também — Então, quem é a moça?

Disse me referindo a vaca que ele acariciava, me aproximando.

— Você se lembra da Tulipa?! — perguntou ele.
— Não acredito, desse tamanho e já é mamãe. — abri um largo sorriso voltando meu olhar para a vaca — Tulipa, não acredito que cresceu tanto.

Toquei em seu rosto de leve e espichei o pescoço para ver o pequeno bezerro que se alimentava do leite da mãe.

— Já deram um nome para ele? — perguntei, curiosa.
— Ainda não, sua mãe disse para esperar você escolher. — respondeu.
— Eu? Que honra. — me alegrei — Hum… Que tal .

Brinquei, soltando uma gargalhada maldosa.

— Engraçadinha. — fez uma careta, me fazendo rir mais.
— Desculpa, não podia perder a piada. — ri — Acho que pode ser Algodão.
— Algodão?! — sua testa enrugou — Por favor, você já foi mais criativa.
— Eu ia falar Bambi, mas né… não dá, direitos autorais. — retruquei.
— Escolhe logo. — reclamou.
— Yah, seu chato, pare de me apressar, senão eu deixo .

Ele me olhou sério.

— Que tal Cookie? Você gosta de cookies. — sugeriu ele.
— Gostei. — sorri de leve — Então o nome desse mocinho será Cookie.

Eu voltei meu olhar para o pequeno bezerro, mas consegui notar que mantinha seu olhar em mim. Ficamos mais algum tempo ali, com ele me mostrando detalhadamente tudo que havia sido reformado, e nitidamente eu via seus olhos brilhando.

— Uau, para quem não está acostumada, você ainda leva jeito com a ordenha. — disse.
— Eu cresci fazendo isso, se lembra? — retruquei.

Ele logo foi pegando os dois baldes que tiramos de Lavanda, Azaléia, Camélia e Catleia, nossas outras vacas que também possuíam nomes de flores.

— Quer ajuda? — me ofereci.
— Não precisa, já estou acostumado com isso. — respondeu, seguindo para o portão.

Eu o acompanhei até chegar do lado de fora e ver Margareth brincando no pequeno lago com os patos, caminhei até ela e agachei ao seu lado.

— O que está aprontando, mocinha? Tomou seu café?
— Sim, tia . — ela sorriu sapeca e voltou seu olhar para o filhote de pato — Agora estou brincando com o Kiko.
— Hum… Oi, Kiko. — disse ao patinho — E onde está a mãe dele?
— Com os outros filhotes ali na frente. — Marg apontou.
— E você não foi à aula hoje, por quê? — perguntei.
— Tia, hoje é sábado. — respondeu ela.
— Ah, verdade.

Acabei de chegar e já perdi a percepção do tempo. — Pensei comigo.

— E por que acordou tão cedo?! — perguntei a ela.
— Vou passar o final de semana com o papai. — respondeu ela.
— Ele vai vir aqui te buscar?!
— Sim.

Não demorou muito tempo até que uma caminhonete parasse em frente à casa e dela saísse Carl acompanhado de uma mulher. Eu avisei a Marg e juntas seguimos até lá.

. — disse Carl, surpreso ao me ver.
— Papai. — Margareth o abraçou.
— Oi, querida. — ele retribuiu o abraço.
— Bom dia, Carl. — o cumprimentei, desviando meu olhar para a mulher ao seu lado.
— Bem, esta é minha noiva. — apresentou ele — Hilary.
— Prazer, eu te vejo na tv, nunca imaginei que a conheceria pessoalmente. — disse ela.
— Ah, bem, aqui estou eu. — sorri, meio sem graça — Só peço que não conte a ninguém que estou aqui no meu refúgio particular.
— Então é assim que você chama a sua casa? — reclamou minha mãe, descendo os degraus da varanda.

Eu dei um sorriso e pisquei para ela, então me despedi de Margareth e entrei dentro de casa, Freya passou por mim na porta, consegui observar em seu rosto que não estava confortável com a ideia de Marg ir com o pai.

— Ah!!! — me espreguicei de leve seguindo em direção a cozinha.

Minha mãe já estava preparando o almoço, tão cedo.

Pouco antes de sentar na cadeira para esperá-la, me lembrei que havia deixado meu celular debaixo do travesseiro. Voltei para o quarto e chequei as inúmeras mensagens de Clair no whatsapp, ela queria saber sobre meu primeiro dia em casa e se eu precisava de algo. Lhe enviei outra mensagem para tranquilizá-la e garantir que estava tudo bem.

Os dias foram se passando lentamente.

Tentava seguir o ritmo da vida no campo, algo que me fazia lembrar de uma personagem que tinha feito em um filme para a Netflix, chamado 1985. Logo após o almoço eu cismei de dar uma volta pelos arredores da fazenda, como a enfermeira Freya estava no hospital de plantão e minha mãe na casa de uma amiga com Margareth. Não quis incomodar , que parecia ocupado analisando alguns documentos e muitas faturas no escritório.

O céu estava razoavelmente nublado naquele dia, não tinha previsão de chuva, por isso não me preocupei com proteção, somente peguei uma blusa de tricô, pois ventava um pouco. Já no final da tarde, percebi que estava meio longe da trilha que costumava pegar para chegar à clareira. E dava para piorar? Claro que dava, eu estava perdida. Foi o som de um forte trovão, que fez com que meu corpo congelasse, me fazendo ficar em estado de choque.

! ! — a voz de me despertou.

Seu rosto diante de mim me fez assustar, como ele havia chegado ali?!

, está tudo bem? — seu olhar preocupado fixado em mim.
— Não, eu não consigo me mover. — disse, sentindo agora as gotas de chuva cair em meu rosto.
— Temos que sair da clareia, estamos expostos. — reforçou ao segurar em minha mão.
— Não. — me retrai um pouco.
— Confie em mim, vai ficar tudo bem.

Por um breve momento senti segurança em suas palavras.

Eu não sabia o quão longe estávamos da fazenda, não até chegarmos na trilha e eu ver sua caminhonete. Assim que entramos ele deu a partida, poucos metros depois ela atolou na lama, o fazendo sair novamente para o lado de fora. Outro som de trovão me fez ficar ainda mais em pânico.

— Não podemos ficar aqui. — disse, abrindo a porta do meu lado.
— Eu não vou sair daqui. — sussurrei.
— Eu conheço essa região, tem uma velha cabana aqui perto, era do clube das escoteiras, mas está abandonada agora. — ao falar, olhou para trás, observando as árvores balançando devido à forte ventania.
— Eu não vou sair daqui. — disse mais alto — Não vou.
— Não vou te deixar sozinha no meio da trilha e não podemos ficar aqui, estamos vulneráveis.

sabia do medo, ou melhor, pavor que eu tinha de trovões, relâmpagos e tudo que a chuva trazia consigo. Ele me olhou com carinho e vindo para me abraçar, aproveitou a deixa e me pegou no colo.

— Fecha os olhos e confie em mim. — sussurrou em meu ouvido.

Assenti, fechando os olhos e me agarrei em sua jaqueta.

Contei os minutos até que finalmente chegamos na tal cabana e entramos. Ele me colocou sentada em uma poltrona e retirou sua jaqueta para me entregar.

— Você está molhada demais, tem que tirar pelo menos essa blusa. — disse, se voltando para a porta.
— Aonde você vai?! — perguntei pegando em sua mão.
— Preciso voltar para a caminhonete, não vou demorar.

Assenti mesmo com medo de ficar sozinha no meio daquela tempestade. Não demorou muito, até que ele voltou com uma sacola nas mãos, eu já estava vestida com sua jaqueta e havia deixado minha blusa pendurada no encosto de uma cadeira.

— Viu, eu disse que não demoraria. — sorriu ao fechar a porta e deixar a sacola no chão.
— O que vamos fazer? — perguntei.
— Esperar a chuva passar. — respondeu, enquanto vasculhava o lugar.
— O que tanto procura?
— Madeira seca, para acender a lareira. — respondeu.

Não tinha nada nos armários, nem ao lado dos móveis.

Em minutos de busca, ele finalmente encontrou a madeira em um alçapão escondido embaixo da poltrona. Assim que acendeu a velha lareira, empurrou a poltrona para frente e me mandou sentar nela. Antes que eu me movesse, um raio caiu próximo a cabana, nos dando a oportunidade de ver o clarão formado.

— AHHHHH!!! — soltei um grito, me encolhendo.
— Calma, eu estou aqui. — me abraçou forte.

Aquele era o abraço do qual eu me lembrava. Me fazia sentir segura e confortável. Após tantos anos eu não havia superado o meu medo da chuva, mas estava aliviada que era ele ali, me abraçando.

— Você também está molhado. — sussurrei.
— Não se preocupe comigo. — assegurou.
— Claro que vou me preocupar com você. — o olhei, séria.

Ele sorriu de canto e retirou a camisa molhada.

Então abriu o zíper da sua jaqueta que estava em meu corpo e retirou, me deixando apenas com meu sutiã. Vestindo-a logo depois, sentou na poltrona e me lançou um olhar sugestivo.

— Não está pensando que…
— Pare de forçar sua mente e vem logo, nós dois sabemos que calor humano aquece mais rápido. — explicou ele.

Outro estrondo de trovão soou, me fazendo me sentar rapidamente entre suas pernas.

— Não pense que fiz isso por… foi o barulho. — expliquei com ele rindo de mim — E não vai achando que pode tirar proveito da situação.
— Por quem você me toma?! — se fez ofendido — Não sou tão mercenário assim.

Ri baixo, mantendo meu olhar no fogo que ardia na lareira, sentindo o calor do seu corpo, meu coração foi acelerando gradativamente, assim como os pelos do meu corpo arrepiando-se. Talvez fosse eu a me aproveitar da situação naquela noite, me aninhei em teus braços e fechei os olhos, assim que ele começou a acariciar meus cabelos.

— Me lembro da primeira vez que te vi. — comentou ele — Em um dia de chuva, você se escondeu debaixo da mesa.
— Eu era uma criança boba… e continuo sendo boba. — resmunguei.
— Eu não acho, você apenas precisava de alguém para estar ao seu lado. — um suspiro surgiu.
— Como agora. — completei — Você também ficou ao meu lado debaixo daquela mesa.
— Me pergunto como você consegue gravar cenas debaixo da chuva.
— Simples, não há barulho no estúdio, somente água. — expliquei.

As horas passaram bem devagar.

Nos mantivemos em silêncio por um bom tempo, apenas sentindo a respiração um do outro e o som da chuva como fundo sonoro. Ouvindo as batidas aceleradas do coração dele, adormeci em seus braços sentindo total conforto. No início da manhã, a chuva havia cessado, deixando uma densa neblina.

— Acho que já podemos ir para casa. — disse ele, vestindo sua camisa já seca.
— Mesmo com a neblina? — perguntei, enquanto ajustava minha blusa em meu corpo, estava quentinha por causa do calor da lareira.
— Você quer esperar?! — indagou, voltando o olhar para mim.
— Se for mais seguro, prefiro esperar. — respondi — A menos que queira voltar rápido, porque minha companhia é desagradável.
— Deixe de bobagens, sua companhia jamais foi desagradável. — sorriu.
— Obrigada. — o abracei em um impulso louco vindo de mim — Por vir atrás de mim e tudo mais.
— Não precisa agradecer. — disse ao envolver seus braços em minha cintura, retribuindo o abraço — Eu prometi ao seu pai que a protegeria.
— Você prometeu que protegeria minha família. — me afastei de leve e o olhei.
— Você faz parte da família. — reforçou.

Faz sentido.

Quanto mais nos olhávamos, mais meu coração acelerava. Eu ainda sentia algo por , e visivelmente ele também sentia por mim. Mas será que valia a pena remexer em algo que estava aparentemente ajustado? Ele acariciou minha face e deixou formar um sorriso singelo no rosto.

— O que foi? — perguntei.

Provavelmente meus olhos estavam brilhando pelo momento.

— Por que você faz isso comigo?! — sussurrou, mantendo a suavidade nos dedos tocando meu rosto.
— Isso quê? — confusa eu estava.
— Vai embora e agora volta agindo como se estivesse tudo bem entre nós. — esclareceu.
— E não está?! — questionei.
— Você realmente não imagina o que está causando em mim. — confessou.

Em um piscar de olhos me beijou com doçura e intensidade.

Todas as vastas lembranças de nós dois juntos no passado invadiram minha mente, eu já não sabia mais o que estava acontecendo comigo, só queria parar o tempo e não voltar para a fazenda. Ele parecia querer o mesmo, envolvendo-me ainda mais em seus braços, e isso durou alguns minutos até que voltamos a realidade.

— Me desculpe. — disse, se afastando de mim, como se tivesse cometido o maior crime da vida — Eu não deveria ter feito isso.
— Calma, está tudo bem. — eu falei retomando o fôlego — , foi só um beijo, eu não vou te processar por isso.

Brinquei.

— Não é isso, eu… — se calou por um tempo e respirou fundo — Acho melhor voltarmos.

Eu não quis argumentar, para ser honesta, só queria manter o gosto do beijo dele por mais tempo em minha boca. Devo admitir que era o que mais sentia falta, do amor de .

--

, graças a Deus voltaram. — disse minha mãe, assim que entramos em casa — Fiquei preocupada com você assim que a chuva começou.
— Está tudo bem agora. — respondi num tom baixo.

Voltei meu rosto para uma mulher desconhecida, parada ao lado de Freya.

— Nos abrigamos na antiga cabana dos escoteiros, ficamos lá até agora, quando a chuva parou. — explicou .
— Que bom que tudo saiu bem. — a mulher caminhou até ele e lhe abraçou — Temi pelo pior, meu amor.

Meu amor?! — Senti um nó na garganta.

— Hum. — me olhou — , esta é minha noiva, Taylor.
— Noiva?! — respirei fundo, tentando processar a informação.
— É um prazer conhecê-la. — a mulher sorriu para mim.

— Queria poder dizer o mesmo. — tentei disfarçar minha frustração — Estou cansada devido ao ocorrido, vou para o quarto.

Me afastei de minha mãe e subi as escadas. Não conseguia pensar em nada, só na palavra: noiva.

. — Freya entrou no quarto logo atrás de mim.
— Noiva, Freya, noiva. — eu a olhei, indignada.
— Você achou que ele iria te esperar para sempre?! — ela mantinha seu olhar de compaixão, mesmo com a afirmação sincera — Ainda mais, com todos os namorados loucos que já anunciou na mídia?
— Por que não me disseram?! Por que me deixaram no escuro?! — eu não sabia se me sentia chateada ou com raiva.
— Essa era uma notícia que deveria saber por ele, não por nós. — explicou — Talvez essa seja a deixa para vocês colocarem um ponto final na história de vocês.
— Que legal, estou aqui há quase dois meses e ele não disse nada. — prendi o grito de indignação.

Voltei meu olhar para a janela, sentindo meus olhos lacrimejarem.

.
— Me deixa sozinha, Freya. — pedi — Por favor.

Ela não disse mais nada e logo ouvi o barulho da porta se fechando.

Um aperto veio sobre meu coração e as lágrimas tomaram força para cair. Todos esses anos elas nunca me disseram nada sobre a vida amorosa de , talvez eu não tivesse o direito de me achar injustiçada, mas um mínimo de consideração por mim já valia. Tive alguns rápidos relacionamentos com atores e cantores famosos, a maioria era por marketing em benefício mútuo, nenhum dos meus relacionamentos depois de foram intensos e talvez verdadeiros. Pela primeira vez naquelas férias me senti triste e vazia por dentro, como se algo importante tivesse sido arrancado de mim para sempre.

Esse algo tinha nome: .

— Posso entrar? — disse do corredor, ao bater na porta.

Já passava da hora do almoço, e eu não tinha saído do quarto até o momento.

— O que você quer? — perguntei, limpando as lágrimas.
— Saber se está bem. — respondeu.
— Eu estou bem, pode ir. — garanti, não o encarando.
— Me deixa entrar. — pediu.
— Para quê?
, por favor. — seu tom insistente, tinha um toque de preocupação.

Respirei fundo e caminhei até a porta.

— Satisfeito?! — indaguei, ao abrir a porta para que entrasse.
— Sabe que não. — adentrando, voltou seu olhar para minha cama — O que está fazendo?!
— Arrumando minhas malas.
— Para quê?!
— Não imagina? Vou voltar para onde não deveria ter saído. — passei por ele e cheguei até minha cama, então fechei a última mala.

Irônico, pois só tinha usado três peças que havia levado.

— Pare de dizer bobagens. — ele segurou a minha mão — Não precisa voltar por minha causa.
— Não estou voltando por sua causa, estou voltando por minha causa. — soltei minha mão da dele — Por que não me contou?!
— Me desculpe. — seu olhar abaixou — Eu estava tentando encontrar a melhor hora para isso.
— Ah sim, e seria antes ou depois de me beijar?! — o confrontei, indignada — Você me fez pensar que…

Me virei para a janela, olhando para o céu.

— E sei que nada que eu disser vai consertar as coisas, mas acredite, estou tão confuso quanto você. — declarou, ao pegar novamente em minha mão — Me desculpe, mais uma vez.

Me esforcei para me manter indiferente àquilo.

Mas não conseguia, me rendi as lágrimas e deixei a primeira rolar em minha face, logo senti o abraço confortável de me envolver, seus braços fortes me fizeram aninhar-me a ele, enquanto continuava a chorar. Tudo estava silencioso entre nós, exceto seu coração que permanecia tão acelerado quanto o meu.

— Então é assim que vamos terminar?! — perguntei em sussurro.
— Temos nossas vidas agora. — respondeu, engolindo seco.
— Seria egoísta demais se eu te pedisse para não se casar com ela?! — eu o olhei.

Ele sorriu singelamente, limpando a lágrima que escorria.

— Nossos sonhos não se cruzam, . — disse ainda me acariciando — Aqui é sua casa, mas sua vida está em Manhattan, e eu…
— Ela não é a mulher da sua vida, é?! — insisti.
— Não. — respondeu com sinceridade — Mas é a pessoa que compartilha do mesmo sonho que eu.

Doeu ouvir suas palavras, mas sabia que eram o melhor caminho para nós dois.
Aquele era o fim.

Não foi fácil para minha mãe aceitar minha volta precoce para Manhattan, menos ainda Freya e minha pequena Margareth, que só se convenceu após minha promessa de ela passar as próximas férias de verão comigo. A volta foi monótona e fria, talvez pelo início do inverno, que trazia consigo uma certa tristeza para mim. Mesmo com a recepção calorosa de Clair e Dimitri, e as semanas que seguiram com a notícia de que o lançamento do meu filme estava próximo e as expectativas eram boas, eu não tinha nem mesmo ânimo para celebrar nada.

— Seu olhar está triste. — comentou Clair, se sentando ao meu lado no sofá.

Estávamos na sala do meu apartamento duplex na cobertura, em Upper East Side.

— Desde que voltou da viagem. — continuou ela.
— Não é nada. — mantive minha atenção na lareira que permanecia acesa esquentando o ambiente.
— Tem certeza que não quer conversar?
— Já disse que estou bem. — dei um sorriso forçado — Pode ir para casa, seu namorado está te esperando e eu não quero ser acusada por estragar o relacionamento de ninguém.
— Tem certeza que não quer passar o feriado com a gente? — insistiu ela — Já que não quis voltar para o Texas e ficar com sua família.
— Tenho, não estou no clima para o Natal. — me levantei e caminhei até a escada — Tranque a porta quando sair.

Eu iria me isolar nas próximas semanas.

Contudo, sabia que após o ano novo, teria que mostrar o sorriso mais convincente para a mídia. Foi o que aconteceu na segunda semana de janeiro, quando meu filme Havana estreou nos cinemas do país e do mundo, e minha maratona de entrevistas e holofotes começou.

— E como foi para você filmar ao lado do ator Sebastian Stan?! — perguntou Charlie, a entrevistadora.
— Foi tranquilo e um grande momento de aprendizado para mim, apesar de todos esses anos, ainda me considero uma novata perto de atores como ele. — respondi, desviando meu olhar para Sebastian sentado ao meu lado e sorri.
— E você, Sebastian?!
— Eu ainda estou tentando entender a parte que ela se considera uma novata perto de mim. — brincou ele, arrancando risadas de todos que estavam no estúdio — Foi um prazer trabalhar com uma profissional como , tenho certeza de que todos vão gostar de nos ver juntos em Havana.
— O lançamento de Havana está sendo um sucesso, e tenho certeza que ficará em cartaz por mais algumas semanas. Vocês já possuem outros projetos em vista? — Charlie nos olhou, curiosa.
— Bem, eu falo, você fala? — Sebastian me olhou.
— Pode falar primeiro. — eu disse.
— Daqui a dois meses vamos iniciar as gravações do meu próximo filme Chicago, é um romance policial meio sobrenatural também. — respondeu ele.
— Eu ouvi dizer que será seu primeiro filme participando da produção. — indagou Charlie.
— Sim, meu primeiro desafio como produtor executivo também, vamos torcer para que dê certo. — brincou.
— E você, ? — Charlie me olhou.
— Hum, eu estava pensando em tirar férias novamente, mas amo minha vida de atriz e as gravações da segunda temporada de Smooth Criminal vão começar na próxima semana. — respondi prontamente — E tenho o prazer em dizer que terei que conciliar a série com as gravações do novo filme em parceria com a Netflix que fui convidada para o elenco.
— E você poderia nos dizer o nome do próximo filme? — perguntou Charlie.
— O nome provisório está sendo Ice Cream Cake. — respondi.
— Foi um prazer essa entrevista com você e gostaria de dizer que todos estão encantados com Havana! — disse Charlie encerrando a entrevista — Gostariam de deixar um recado para os fãs?!
— Continuem nos apoiando e se divirtam com Havana. — disse Sebastian.
— E agradecemos o carinho! — completei mandando um beijo para a câmera.
— E corta. — disse o diretor.

Os staffs começaram a se locomover.

— Muito obrigado por aceitarem a fazer a entrevista. — disse Charlie, já se afastando de nós.
— Nós que agradecemos. — Sebastian se levantou da cadeira — Eu estou de carro, quer uma carona?
— Ah, não, obrigado. — mantive meu olhar em Charlie, que ia falar com um dos staffs — Eu vim de carro também.
— Está preocupada deles acharem que estamos juntos? — perguntou Sebastian.
— Talvez. — sorri, meio sem graça — Mas pelo que vi nas filmagens, você está muito bem acompanhado agora, seus olhos estão brilhando.
— Ah, sim. — ele riu — É incrível quando estamos apaixonados, e por quem menos esperamos.

Nos despedimos e ele se afastou retirando o celular do bolso.

Eu peguei minha bolsa que estava guardada com Dimitri que havia chegado ao final da entrevista para ver como eu estava. Agradeci a preocupação e segui até o estacionamento, assim que entrei no carro, peguei meu celular e verifiquei algumas mensagens de Clair. Eu tinha mais três entrevistas para aquela semana e uma sessão de fotos para a revista Elle. Mandei uma mensagem de volta dizendo que estava seguindo para casa e a encontraria no dia seguinte na empresa, após o almoço. Já era noite e não imaginava que a entrevista iria demorar tanto para terminar.

— Senhora . — disse Carmen, assim que entrei no meu apartamento — Que bom que chegou.

Era estranho ela estar ali até aquela hora.

— Carmen, era para você estar em casa. — disse retirando a bolsa do ombro e deixando sobre a mesa de apoio ao lado da porta — O que faz aqui até tão tarde?
— A senhora tem visita. — explicou ela.
— Como assim visita?! — a olhei, confusa.
— Um senhor chegou à tarde após a hora do almoço, eu tentei entrar em contato, mas seu celular estava no silencioso. — respondeu — Ele está no terraço.
— Obrigada, Carmen. — me afastei dela e segui para a escada.

Todos os meus funcionários sabiam que era restrito o número de pessoas que podiam entrar no meu apartamento. Então, certamente era uma pessoa de confiança.

— A quem devo a honra da visita?! — perguntei ao sair no terraço e ver o homem debruçado no guarda-corpo de vidro.
— Ao funcionário do ano. — ele se afastou e se virou.
. — meu coração pulsou mais forte.

Estava surpresa.

— O que faz aqui?! — perguntei.

Ele não disse uma só palavra, somente seguiu em minha direção e me beijou. Doce e suave no início, foi ficando intenso e malicioso. O que estava fazendo? Ele queria me enlouquecer de vez?

. — eu me afastei de leve dele, respirando fundo — O que faz aqui?!
— Você me bateria se eu dissesse que me pergunto a mesma coisa? — brincou — O que eu faço aqui?
— Não tem graça. — bati no braço dele — Nenhuma graça.
— Me desculpe, não podia perder a piada. — sorriu de canto.
— Por que veio até Manhattan?! — insisti.
— Porque você é a única que consegue abalar minhas estruturas. — segurou em minha mão — Eu não consegui deixar de pensar em você durante todos esses anos, e depois dos dias em que ficou na fazenda, só me fez ver o que eu não queria enxergar.
— Mas, e a Taylor?! — perguntei.
— Nós conversamos, uma semana depois que voltou para cá. — respondeu com serenidade no olhar — Eu contei sobre o beijo na cabana e ela me perguntou o que eu ainda sentia por você.
— E o que você respondeu?
— O que você acha?
— Responde logo.
— Que ainda te amava, com a mesma intensidade de sete anos atrás. — um tom sincero, respirou fundo — Não posso me enganar mais e nem a ela, nem a você.
— Vocês terminaram, então. — concluí.
— Sim.
— Uma semana depois que voltei para Manhattan.
— Sim.
— E só agora você veio atrás de mim? — eu o empurrei ficando um pouco irritada.
— Yah. — gritou, segurando o riso — Eu atravesso estados para me declarar e você me bate?
— Porque você demorou. — retruquei.
— Se quiser, eu posso voltar daqui alguns meses, quando estiver mais calma. — se afastou para sair.
— Espera. — segurei em sua mão — Me desculpa.

Respirei fundo.

— Eu… — pensei em minhas próximas palavras.

Mas ele me puxou para perto me abraçando forte, antes que eu pudesse completar a frase.

— Eu te amo, apesar da distância, sempre vou te amar. — sussurrou ele.
— Eu também te amo. — sussurrei de volta — Apesar da distância, sempre vou te amar.

E agora tinha a certeza que mesmo com todos os desafios que enfrentaremos a mais, eu sempre voltaria para seus braços, onde me sentiria segura e amada. Ainda que todos os holofotes nos distancia-se, eu manteria meus olhos nele.

“Meus sentimentos brilham para você
No meu coração, mantenha seus olhos em mim,
Eu quero te levar embora agora.”
- Spotlight / MONSTA X

Amor: O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. - 1 Coríntios 13:6-7” - by: Pâms




Fim.


Nota da autora: Welcome to Pâms' Fictionverse!!!

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