Chamado
Nuvens carregadas se chuva se arrastavam no céu, deixando o fim de tarde pintado como a mais sombria noite. O sol que ainda caminhava para seu descanso não ousava ultrapassar a densa camada em sua frente, preferindo se esconder de todos os olhos. A cidade costeira tinha ventos silenciosos, frios, que corriam pelas ruas e avenidas mais distantes, revirando as folhas secas e soltas de outono.
— Essa merda de clima — o brado raivoso ecoou pelo estacionamento seguido de uma fungada de nariz rançosa. — Já não basta ter uma ocorrência no fim do turno, ainda parece que vai chover. Ei, ! Até quando pretende ficar no carro?
Batidas soaram no metal do veículo no mesmo momento em que a porta do motorista foi aberta.
— Detetive Chefe, foi apenas o tempo de eu tirar o cinto. — respondeu a jovem sem deixar se abalar pela rispidez do mais velho.
A jovem chamada ajeitou o casaco no corpo fechando os primeiros botões. De certa forma era compreensível a súbita mudança de humor, o departamento de crimes e homicídios estava quase trocando de turno quando um novo caso chegou em suas mãos. Agora, ao invés de passar o aniversário de casamento com sua esposa, o Detetive Chefe Song estava preso num galpão de pesca nos subúrbios da cidade com um aparente assassinato em mãos.
Com o longo suspiro, e palavras de baixo calão murmuradas para o vazio, o homem se virou colocando as mãos nos bolsos andando em direção à cena.
— Deveria ter mudado de profissão quando tive a chance. — murmurou quando passou por debaixo da fita de isolamento.
— Então teríamos muitos casos sem solução — agradeceu o policial com um aceno e também passou pelo isolamento.
— Ah, pare com isso, criança.
segurou o riso quando percebeu as orelhas do detetive ficando avermelhadas, ele poderia soar ríspido na maioria das vezes, porém, é apenas a tradução de uma inabilidade de se expressar. Ele ainda tinha uma foto da esposa e dos filhos sobre a mesa, e sempre que um dos detetives da equipe falava qualquer coisa sobre comida no escritório, ela magicamente aparecia em seguida.
As boas memórias no escritório, com seus colegas, logo sumiram, sendo subjugadas por um cheiro forte, nauseabundo de peixe, metal e sal. ergueu rapidamente a mão para o nariz, tentando bloquear aquela parede de odor repugnante. Até mesmo as feiras livres de frutos-do-mar pareciam agradáveis perto daquele local, tinha uma certa familiaridade com o cheiro, mas nada nem próximo desse nível.
— Tome — Detetive Song estendeu em sua direção uma máscara. — Não podemos fazer muito se estivermos passando mal.
— Obrigada — engoliu seco, só conseguindo em seguida prestar atenção no lado de dentro. Se tivesse que dizer, o cheiro era exatamente o que se esperava do cenário.
Haviam esteiras e mais esteiras de peixes, sobre eles voavam as moscas e poças de sangue se juntavam nos maquinários pela pesca parada. O gelo dos isopores já tinha derretido e criava no chão possas mistas de entranhas, escamas e sujeira. Do teto desciam fios escuros que seguravam em suas pontas uma única lâmpada amarela de aparência turva. Bolor e tinta descascada tomava toda a extensão das paredes, exibindo as imperfeições do balcão que claramente operava fora das regulamentações nacionais.
— Cuidado para não tocar em nada, de duas uma. Ou vocês pegam uma infecção, ou tétano — uma voz vinda do fundo do corredor criado entre as esteiras disse.
— Obrigado pelo aviso — Detetive Song olhou o recém-chegado da cabeça aos pés, vendo estar vestido nas familiares roupas de perito forense. — Não é tão comum ver você fora do instituto, nem mesmo da sua sala.
— Não tive muita escolha quando o diretor do meu departamento apareceu, tinha acabado de processar outro corpo. Era o único disponível.
Jeon Wonwoo era talvez uma das pessoas mais conhecidas pelo departamento de homicídios, era um dos legistas que apoiava a equipe em seus casos. Havia se formado com honras e tendo estagiado com o diretor do NFS, o Serviço Nacional de Medicina Forense, conseguiu um bom passe para entrar no mercado.
— Bom, antes você do que aquele velho cabeça dura — comentou o Detetive Chefe mencionando uma briga antiga com outro legista do departamento. — Onde está nossa vítima?
Wonwoo indicou o caminho por ele mesmo havia passado anteriormente — Nos fundos, se acham que aqui está ruim, não imaginam o que os aguarda lá.
— Ótimo, tudo que eu precisava — o mais velho saiu andando na frente pulando as poças de água.
— O que aconteceu com o velho Song? Geralmente ele é carrancudo, mas hoje está particularmente ácido.
desviou o olhar das costas do chefe para encarar o legista curioso — É aniversário de casamento dele, não imagina como foi o caminho até aqui.
— Ele não podia só mandar outro detetive no lugar dele? — questionou Wonwoo se inclinando levemente na direção da companhia.
A mulher ao seu lado tombou levemente a cabeça para o lado, seus olhos brilhavam de uma maneira gentil, porém afiada, com um toque de brincadeira que trouxe a sua resposta um tom de sarcasmo.
— Até parece, sabe como ele é. Reclama até o fim, mas ainda faz tudo que puder da melhor maneira que puder — e continuou. — Ficou tanto com a equipe de narcóticos que esqueceu como o departamento de crimes e homicídios funciona.
A detetive piscou um olho para ele e saiu andando, a rixa entre os dois departamentos é bem conhecida em toda instituição. Apesar de velado, ambos times competem para ter mais casos solucionados no fim do ano, mesmo na instituição tem aqueles que preferem atender apenas um time ou outro, procuradores, técnicos de coleta, fotógrafos forenses, legistas eram a exceção, logo é comum ver eles atendendo ambos departamentos e outros.
— Estranho, disse que não queria mais ver meu rosto depois do caso do assassino das trilhas de montanha. — rebateu.
— Não disse sentir sua falta e sim que faz tempo que não trabalha com o departamento — ela passou pelos oficiais da polícia guardando a porta. — Tem uma diferença muito grande no meio.
Wonwoo deixou que ela ganhasse essa, não fazia sentido discutir com a joia do departamento de detetives. Se ele era considerado um achado no meio, ela era muito mais. Ninguém da família tinha qualquer relação com a polícia, ela dizia que entrou no ramo influenciada pela literatura e ainda assim, era uma das mentes mais brilhantes que conheceu nas investigações. Não era como os detetives literários que viam detalhes que pareciam místicos para as pessoas comuns, mas sim tinha um pensamento voltado para o método científico que gerava hipóteses e então as testava logicamente para chegar a uma solução.
O fundo do galpão era mais escuro e úmido, e o forte cheiro de peixe agora ganhava uma nota mais metálica e identificável: o odor de sangue. A princípio não dava para ver o corpo, parecia escondido entre as caixas empilhadas, mas a poça vermelha e turva que se formou indicou sua posição. olhou com cuidado o local, não parecia nem de perto como o restante do local, ali havia grandes tanques — similares a aquários —, com as mais diversas espécies de criaturas marinhas vivas e aparentemente bem cuidadas.
As estruturas eram modernas, metal novo repletos de roldanas e estruturas para movimentar os tanques e o que quer que estivesse dentro deles com cuidado. Escadas laterais davam acesso a uma complexa trilha de metal próxima ao teto que permitia ver todo o local de cima. Ao contrário da iluminação amarela do lado de fora, tudo ali tinha uma luz fria, branca e suave. Se não fosse pelo cheiro e a má organização no chão, diria até ser similar a um santuário de vida marinha.
Detetive Song já estava próximo ao corpo, olhando a cena com olhos semicerrados, ele se abaixou um pouco para ter uma melhor da vítima olhando seus ferimentos. estava alguns passos mais atrás, mas não demorou para se colocar ao lado do superior e compartilhar da cena de horror.
Era uma garota, não tão mais nova do que ela mesma, pálida como uma folha de papel, nua como veio ao mundo com a feição trancada numa expressão de agonia. A carne na altura de sua cintura havia sido arrancada deixando a forma de uma meia-lua cavando sua cintura até a espinha. Suas outras extremidades também tinham marcas de mordidas, não tão agressivas, mas que deixaram lacerações.
— Não é muito minha expertise — Wonwoo chamou a atenção para si. — Mas a mordida é definitivamente de algum animal marinho. Dentição múltipla e entrelaçada, mas não saberia dizer se é de um tubarão ou qualquer coisa do tipo.
O legista ajeitou as luvas e se aproximou indicando o ombro dela — Não dá para ver porque não viramos o corpo ainda, mas provavelmente tem dilacerações nas costas dela. A hora da morte é estimada entre 48 a 72 horas, vamos precisar de uma análise mais profunda.
— Quer dizer que o galpão parou de funcionar a dias?
Um policial tomou a frente para responder à indagação do mais velho — Aparentemente o galpão era controlado por contrabandistas, os locais evitam andar por esse lado e também se mostraram relutantes em dar informações. Por medo de se envolverem e se prejudicarem.
A garota olhou com cuidado o lugar, diferente do outro lado não havia poças de gelo derretido ali, havia o sangue, já viscoso e escuro, fazendo uma marcação e apenas isso. Ainda escutando a conversa sobre os relatos, a mulher resolveu olhar um pouco melhor os arredores.
— Encontraram alguma identificação?
O policial virou algumas folhas de anotação — Kim JinHye, 22 anos. Mas também conhecida como Pérola, encontramos as roupas dela e a identificação cuidadosamente dobradas no sofá.
levantou a cabeça seguindo os olhos para onde o policial apontou, quem quer que fosse o dono do local devia gostar de sentar e observar a sua coleção, pois no canto havia sofás e poltronas luxuosas acompanhadas de uma mesa de centro e algo que lembrava um bar. A probabilidade da garota ter sido arrastada até o local a força parecia distante, Pérola, Coral, Crista, todos esses nomes eram comuns na área, eram principalmente mais falados no distrito vermelho onde essas garotas prestavam seus serviços.
— Então o quê? A jovem vem para atender um cliente e acaba num tanque de tubarão?
— É uma hipótese — respondeu em voz alta voltando a olhar para o outro lado. — Se é factual ou não é o que precisamos descobrir.
— A princípio não têm sinais de que ela foi submersa — Jeon comentou. — O que as evidências mostram é que… Bem, tudo aconteceu bem aqui.
Enquanto explorava o local a detetive reparou numa mesa repleta de botões, provavelmente era algum tipo de painel que controlava as instalações da sala. Tinham fitas indicando qual comando era de qual tanque, eram cinco deles. Três tinham criaturas neles, separadas entre águas vivas, pequenos tubarões e raias, o mais longe estava com água, mas vazio, e o do meio — o maior deles —, sem nada. Uma das etiquetas tinha um “garras” escrito, tirou um lenço do bolso e acionou o botão, dando um pouco mais de voz para a curiosidade do que o instinto.
Foi nesse momento que o tanque sem água começou a se mover, do seu chão saíram mecanismos similares a algemas presas a postes maciços de metal.
— O que você fez? — Detetive Song questionou.
— Apertei um botão — respondeu olhando de novo e reparando num outro escrito com a indicação de “porta”. — E vou apertar outro.
Um barulho de descompressão ecoou pelo local, assustando a maioria dos envolvidos na cena do crime, revelando naquele mesmo tanque uma abertura.
— Por que você sempre faz o que quer? — o mais velho desviou a atenção da vítima para o tanque agora aberto.
— Porque geralmente estou certa — rebateu, recebendo apenas um revirar de olhos em resposta. Ambos passaram pela borda porta, nem mesmo a máscara podia ajudar a tapar o cheiro de salgado, definitivamente ali estava cheio de água do mar. olhou para cima tentando colocar nome em seus sentimentos, era grande, mas nem tanto. Numa medida de olho supunha ter espaço para 5 adultos medianos se deitarem.
— A grade ainda está molhada, dá para ver o acúmulo de água do último escoamento — disse o mais velho.
olhou para debaixo dos seus pés para ver a grade fina e o brilho dela, reparando em seguida numa corrente presa na grade junto de um pingente. Enquanto Song olhava ao redor, ela sinalizou para um perito se aproximar e fazer o registro seguido da coleta.
No momento em que deu espaço para ele, sentiu o pé afundar, se desequilibrando e precisando apoiar na lateral de vidro para não cair.
— , está bem? — o mais velho se aproximou rapidamente prestando um suporte.
— Sim — respondeu —, a grade é toda preta, não reparei que uma parte estava… Solta.
Sua voz falou no meio da fala quando reparou onde seu sapato havia enroscado. No metal trançado e escuro haviam cinco grandes talhos que rasgaram a estrutura como se fosse papel, era similar a representação em desenho de garras, mas diferente deles. Era real, bestial, do tipo que só poderia ser feito por um animal carregado de força e ódio.
— É melhor ligar para sua esposa e se desculpar Detetive Chefe — comentou e então se voltou para ele. — Essa será uma longa noite.
— Essa merda de clima — o brado raivoso ecoou pelo estacionamento seguido de uma fungada de nariz rançosa. — Já não basta ter uma ocorrência no fim do turno, ainda parece que vai chover. Ei, ! Até quando pretende ficar no carro?
Batidas soaram no metal do veículo no mesmo momento em que a porta do motorista foi aberta.
— Detetive Chefe, foi apenas o tempo de eu tirar o cinto. — respondeu a jovem sem deixar se abalar pela rispidez do mais velho.
A jovem chamada ajeitou o casaco no corpo fechando os primeiros botões. De certa forma era compreensível a súbita mudança de humor, o departamento de crimes e homicídios estava quase trocando de turno quando um novo caso chegou em suas mãos. Agora, ao invés de passar o aniversário de casamento com sua esposa, o Detetive Chefe Song estava preso num galpão de pesca nos subúrbios da cidade com um aparente assassinato em mãos.
Com o longo suspiro, e palavras de baixo calão murmuradas para o vazio, o homem se virou colocando as mãos nos bolsos andando em direção à cena.
— Deveria ter mudado de profissão quando tive a chance. — murmurou quando passou por debaixo da fita de isolamento.
— Então teríamos muitos casos sem solução — agradeceu o policial com um aceno e também passou pelo isolamento.
— Ah, pare com isso, criança.
segurou o riso quando percebeu as orelhas do detetive ficando avermelhadas, ele poderia soar ríspido na maioria das vezes, porém, é apenas a tradução de uma inabilidade de se expressar. Ele ainda tinha uma foto da esposa e dos filhos sobre a mesa, e sempre que um dos detetives da equipe falava qualquer coisa sobre comida no escritório, ela magicamente aparecia em seguida.
As boas memórias no escritório, com seus colegas, logo sumiram, sendo subjugadas por um cheiro forte, nauseabundo de peixe, metal e sal. ergueu rapidamente a mão para o nariz, tentando bloquear aquela parede de odor repugnante. Até mesmo as feiras livres de frutos-do-mar pareciam agradáveis perto daquele local, tinha uma certa familiaridade com o cheiro, mas nada nem próximo desse nível.
— Tome — Detetive Song estendeu em sua direção uma máscara. — Não podemos fazer muito se estivermos passando mal.
— Obrigada — engoliu seco, só conseguindo em seguida prestar atenção no lado de dentro. Se tivesse que dizer, o cheiro era exatamente o que se esperava do cenário.
Haviam esteiras e mais esteiras de peixes, sobre eles voavam as moscas e poças de sangue se juntavam nos maquinários pela pesca parada. O gelo dos isopores já tinha derretido e criava no chão possas mistas de entranhas, escamas e sujeira. Do teto desciam fios escuros que seguravam em suas pontas uma única lâmpada amarela de aparência turva. Bolor e tinta descascada tomava toda a extensão das paredes, exibindo as imperfeições do balcão que claramente operava fora das regulamentações nacionais.
— Cuidado para não tocar em nada, de duas uma. Ou vocês pegam uma infecção, ou tétano — uma voz vinda do fundo do corredor criado entre as esteiras disse.
— Obrigado pelo aviso — Detetive Song olhou o recém-chegado da cabeça aos pés, vendo estar vestido nas familiares roupas de perito forense. — Não é tão comum ver você fora do instituto, nem mesmo da sua sala.
— Não tive muita escolha quando o diretor do meu departamento apareceu, tinha acabado de processar outro corpo. Era o único disponível.
Jeon Wonwoo era talvez uma das pessoas mais conhecidas pelo departamento de homicídios, era um dos legistas que apoiava a equipe em seus casos. Havia se formado com honras e tendo estagiado com o diretor do NFS, o Serviço Nacional de Medicina Forense, conseguiu um bom passe para entrar no mercado.
— Bom, antes você do que aquele velho cabeça dura — comentou o Detetive Chefe mencionando uma briga antiga com outro legista do departamento. — Onde está nossa vítima?
Wonwoo indicou o caminho por ele mesmo havia passado anteriormente — Nos fundos, se acham que aqui está ruim, não imaginam o que os aguarda lá.
— Ótimo, tudo que eu precisava — o mais velho saiu andando na frente pulando as poças de água.
— O que aconteceu com o velho Song? Geralmente ele é carrancudo, mas hoje está particularmente ácido.
desviou o olhar das costas do chefe para encarar o legista curioso — É aniversário de casamento dele, não imagina como foi o caminho até aqui.
— Ele não podia só mandar outro detetive no lugar dele? — questionou Wonwoo se inclinando levemente na direção da companhia.
A mulher ao seu lado tombou levemente a cabeça para o lado, seus olhos brilhavam de uma maneira gentil, porém afiada, com um toque de brincadeira que trouxe a sua resposta um tom de sarcasmo.
— Até parece, sabe como ele é. Reclama até o fim, mas ainda faz tudo que puder da melhor maneira que puder — e continuou. — Ficou tanto com a equipe de narcóticos que esqueceu como o departamento de crimes e homicídios funciona.
A detetive piscou um olho para ele e saiu andando, a rixa entre os dois departamentos é bem conhecida em toda instituição. Apesar de velado, ambos times competem para ter mais casos solucionados no fim do ano, mesmo na instituição tem aqueles que preferem atender apenas um time ou outro, procuradores, técnicos de coleta, fotógrafos forenses, legistas eram a exceção, logo é comum ver eles atendendo ambos departamentos e outros.
— Estranho, disse que não queria mais ver meu rosto depois do caso do assassino das trilhas de montanha. — rebateu.
— Não disse sentir sua falta e sim que faz tempo que não trabalha com o departamento — ela passou pelos oficiais da polícia guardando a porta. — Tem uma diferença muito grande no meio.
Wonwoo deixou que ela ganhasse essa, não fazia sentido discutir com a joia do departamento de detetives. Se ele era considerado um achado no meio, ela era muito mais. Ninguém da família tinha qualquer relação com a polícia, ela dizia que entrou no ramo influenciada pela literatura e ainda assim, era uma das mentes mais brilhantes que conheceu nas investigações. Não era como os detetives literários que viam detalhes que pareciam místicos para as pessoas comuns, mas sim tinha um pensamento voltado para o método científico que gerava hipóteses e então as testava logicamente para chegar a uma solução.
O fundo do galpão era mais escuro e úmido, e o forte cheiro de peixe agora ganhava uma nota mais metálica e identificável: o odor de sangue. A princípio não dava para ver o corpo, parecia escondido entre as caixas empilhadas, mas a poça vermelha e turva que se formou indicou sua posição. olhou com cuidado o local, não parecia nem de perto como o restante do local, ali havia grandes tanques — similares a aquários —, com as mais diversas espécies de criaturas marinhas vivas e aparentemente bem cuidadas.
As estruturas eram modernas, metal novo repletos de roldanas e estruturas para movimentar os tanques e o que quer que estivesse dentro deles com cuidado. Escadas laterais davam acesso a uma complexa trilha de metal próxima ao teto que permitia ver todo o local de cima. Ao contrário da iluminação amarela do lado de fora, tudo ali tinha uma luz fria, branca e suave. Se não fosse pelo cheiro e a má organização no chão, diria até ser similar a um santuário de vida marinha.
Detetive Song já estava próximo ao corpo, olhando a cena com olhos semicerrados, ele se abaixou um pouco para ter uma melhor da vítima olhando seus ferimentos. estava alguns passos mais atrás, mas não demorou para se colocar ao lado do superior e compartilhar da cena de horror.
Era uma garota, não tão mais nova do que ela mesma, pálida como uma folha de papel, nua como veio ao mundo com a feição trancada numa expressão de agonia. A carne na altura de sua cintura havia sido arrancada deixando a forma de uma meia-lua cavando sua cintura até a espinha. Suas outras extremidades também tinham marcas de mordidas, não tão agressivas, mas que deixaram lacerações.
— Não é muito minha expertise — Wonwoo chamou a atenção para si. — Mas a mordida é definitivamente de algum animal marinho. Dentição múltipla e entrelaçada, mas não saberia dizer se é de um tubarão ou qualquer coisa do tipo.
O legista ajeitou as luvas e se aproximou indicando o ombro dela — Não dá para ver porque não viramos o corpo ainda, mas provavelmente tem dilacerações nas costas dela. A hora da morte é estimada entre 48 a 72 horas, vamos precisar de uma análise mais profunda.
— Quer dizer que o galpão parou de funcionar a dias?
Um policial tomou a frente para responder à indagação do mais velho — Aparentemente o galpão era controlado por contrabandistas, os locais evitam andar por esse lado e também se mostraram relutantes em dar informações. Por medo de se envolverem e se prejudicarem.
A garota olhou com cuidado o lugar, diferente do outro lado não havia poças de gelo derretido ali, havia o sangue, já viscoso e escuro, fazendo uma marcação e apenas isso. Ainda escutando a conversa sobre os relatos, a mulher resolveu olhar um pouco melhor os arredores.
— Encontraram alguma identificação?
O policial virou algumas folhas de anotação — Kim JinHye, 22 anos. Mas também conhecida como Pérola, encontramos as roupas dela e a identificação cuidadosamente dobradas no sofá.
levantou a cabeça seguindo os olhos para onde o policial apontou, quem quer que fosse o dono do local devia gostar de sentar e observar a sua coleção, pois no canto havia sofás e poltronas luxuosas acompanhadas de uma mesa de centro e algo que lembrava um bar. A probabilidade da garota ter sido arrastada até o local a força parecia distante, Pérola, Coral, Crista, todos esses nomes eram comuns na área, eram principalmente mais falados no distrito vermelho onde essas garotas prestavam seus serviços.
— Então o quê? A jovem vem para atender um cliente e acaba num tanque de tubarão?
— É uma hipótese — respondeu em voz alta voltando a olhar para o outro lado. — Se é factual ou não é o que precisamos descobrir.
— A princípio não têm sinais de que ela foi submersa — Jeon comentou. — O que as evidências mostram é que… Bem, tudo aconteceu bem aqui.
Enquanto explorava o local a detetive reparou numa mesa repleta de botões, provavelmente era algum tipo de painel que controlava as instalações da sala. Tinham fitas indicando qual comando era de qual tanque, eram cinco deles. Três tinham criaturas neles, separadas entre águas vivas, pequenos tubarões e raias, o mais longe estava com água, mas vazio, e o do meio — o maior deles —, sem nada. Uma das etiquetas tinha um “garras” escrito, tirou um lenço do bolso e acionou o botão, dando um pouco mais de voz para a curiosidade do que o instinto.
Foi nesse momento que o tanque sem água começou a se mover, do seu chão saíram mecanismos similares a algemas presas a postes maciços de metal.
— O que você fez? — Detetive Song questionou.
— Apertei um botão — respondeu olhando de novo e reparando num outro escrito com a indicação de “porta”. — E vou apertar outro.
Um barulho de descompressão ecoou pelo local, assustando a maioria dos envolvidos na cena do crime, revelando naquele mesmo tanque uma abertura.
— Por que você sempre faz o que quer? — o mais velho desviou a atenção da vítima para o tanque agora aberto.
— Porque geralmente estou certa — rebateu, recebendo apenas um revirar de olhos em resposta. Ambos passaram pela borda porta, nem mesmo a máscara podia ajudar a tapar o cheiro de salgado, definitivamente ali estava cheio de água do mar. olhou para cima tentando colocar nome em seus sentimentos, era grande, mas nem tanto. Numa medida de olho supunha ter espaço para 5 adultos medianos se deitarem.
— A grade ainda está molhada, dá para ver o acúmulo de água do último escoamento — disse o mais velho.
olhou para debaixo dos seus pés para ver a grade fina e o brilho dela, reparando em seguida numa corrente presa na grade junto de um pingente. Enquanto Song olhava ao redor, ela sinalizou para um perito se aproximar e fazer o registro seguido da coleta.
No momento em que deu espaço para ele, sentiu o pé afundar, se desequilibrando e precisando apoiar na lateral de vidro para não cair.
— , está bem? — o mais velho se aproximou rapidamente prestando um suporte.
— Sim — respondeu —, a grade é toda preta, não reparei que uma parte estava… Solta.
Sua voz falou no meio da fala quando reparou onde seu sapato havia enroscado. No metal trançado e escuro haviam cinco grandes talhos que rasgaram a estrutura como se fosse papel, era similar a representação em desenho de garras, mas diferente deles. Era real, bestial, do tipo que só poderia ser feito por um animal carregado de força e ódio.
— É melhor ligar para sua esposa e se desculpar Detetive Chefe — comentou e então se voltou para ele. — Essa será uma longa noite.