Codificada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 01/09/2025Estava em tempo de abrir o chão, havia perdido a conta de quantas voltas já havia dado em meu quarto pensando no que fazer. Eu tinha que arranjar a desculpa perfeita para atrair a polícia de uma forma que eles quisessem ficar próximos a mim a qualquer custo. O plano já estava todo armado: eles iriam receber um chamado anônimo de um suposto vizinho dizendo que uma garota havia sofrido um atentado em sua casa, a polícia viria até mim e eu só precisava dizer que foi a máfia com a qual meu irmão estava envolvido, só. Isso faria uma trupe de policiais ficar na cola de qualquer pessoa, porém, essa era a parte fácil da coisa toda. Eu precisava me causar ferimentos de tal forma que nem o melhor legista do mundo pudesse identificar que eles foram feitos por mim. Mas como diabos eu iria fazer isso? Não poderia envolver ninguém nisso, era arriscado demais, haviam digitais, e um fio de cabelo de outra pessoa com meu sangue e ela estaria perdida, assim como a minha parte da missão.
Parei no centro do quarto e olhei os móveis à minha volta, teriam que servir.
Corri até a penteadeira tentando acertar a minha cabeça na quina do móvel.
— Merda.
Senti minha cabeça latejar na hora e me xinguei imediatamente, uma puta dor de cabeça para nenhum filete de sangue. Teria que ser em outro lugar. Encarei o espelho acima da penteadeira e juntei toda minha coragem pra jogar minha cabeça contra ele, fechei os olhos assim que senti os estilhaços se partirem contra meu crânio, a ardência no canto de minha testa veio logo depois, trazendo pequenos cortes consigo. A pancada havia sido tão forte que mal consegui conter o grito de dor. Ótimo, os verdadeiros vizinhos não poderiam negar que tinham escutado algo.
Notei uma gota de sangue pingar em um dos meus perfumes e decidi aproveitar aquela deixa, empurrando tudo que havia ali para o chão só para depois golpear a minha cabeça ao menos três vezes naquela superfície plana e branca, deixando um rastro de sangue notável.
Caminhei devagar até o outro espelho querendo ver os meus resultados, a dor já começava a ficar grande demais, mas assim que olhei meu reflexo, senti que faltava algo: meu cabelo estava quase impecável, porém eu soube como resolver assim que meus olhos encontraram o banheiro.
Fechei o ralo da banheira e abri a torneira deixando que ela fizesse seu trabalho enquanto eu terminava o meu. Usei o secador para deixar o meu cabelo o mais bagunçado possível e arranquei alguns bons fios de cabelo somente de um lado da minha cabeça, descartando-os no vaso sanitário logo depois. Havia tomado o máximo de cuidado possível para não encostar minhas unhas em meu couro cabeludo, não poderia haver nenhum vestígio nelas.
Olhei-me mais uma vez no espelho e sorri feito uma psicopata admirada com meu trabalho, enquanto tentava não pensar na dor. O meu rosto estava perfeito para o meu objetivo. Eu só tinha que dar um jeito no meu corpo e estaria tudo pronto.
A banheira estava quase cheia e eu tinha pouco tempo. Juntei toda a coragem que eu ainda não tinha usado e me afastei com o secador em minhas mãos, ainda ligado na tomada, se aquilo não desse certo e a polícia não chegasse a tempo eu iria parar no necrotério. Puxei tudo o que havia de fio no aparelho tomando distância da entrada do banheiro, quando senti que não dava mais, parei no lugar e implorei a Deus que aquilo desse certo, eu não queria morrer, principalmente daquela forma. Olhei para o relógio em minha parede, a polícia já havia sido acionada pela equipe, era hora do truque final.
Fechei meus olhos e arremessei o secador na banheira que já transbordava e espalhava água pelo banheiro, mal pude o ver cair na água, o curto foi certeiro, tudo ficou escuro em questão de segundos. O secador continuava estralando, soltando faíscas vez ou outra.
Escutei sirenes ao longe e vi que estava na hora do truque final, eu não tinha mais do que alguns minutos. Dei alguns passos para trás tomando distância do espelho, tentando ao máximo não pensar no que faria a seguir. Coloquei todas as minhas forças naquilo e me atirei contra o grande espelho que estava à minha frente.
Os pedaços de vidro estavam por toda parte, assim como o meu sangue muito provavelmente. O estalo do meu corpo se chocando contra o chão depois do golpe no espelho foi inconfundível, eu havia quebrado uma costela e choviam vidros em mim, queria gritar, mas não tinha forças. Quando o secador soltou outra faísca, pude notar duas coisas, uma: água da banheira já invadia o meu quarto, dois: se alguém não me encontrasse logo, eu iria morrer.
Sentindo meus cabelos empapados de sangue e ouvindo passos ao longe, deixei a escuridão me dominar.
POV. Nicolás
Eu sentia meu coração disparar a cada passo que eu dava, disparava tanto que por vezes eu pensava que ele iria parar de bater. Metade da casa havia sido vasculhada e nada parecia fora de seu lugar, parte de mim dizia que aquilo poderia ser uma armadilha, mas outra parte me incentivava a continuar, eu só não entendia por que diabos meu coração estava daquele jeito, era como se ele estivesse pressentindo algo. A casa estava totalmente escura, nenhuma luz funcionava, que merda havia acontecido ali?
Subi as escadas em direção ao segundo andar pestanejando por aquela porcaria de escuridão, o lugar era enorme e as lanternas embutidas nas armas eram uma porcaria maior ainda. Estava quase abrindo uma porta quando escutei um estouro vindo da outra direção, o barulho foi tão grande que eu quase disparei a minha arma por reflexo, um ato burro. Corri na direção oposta e um odor de algo queimando invadiu minhas narinas, foi quando notei que uma das portas exalava fumaça. Por algum motivo eu temi o que encontraria ali, meu coração bateu ainda mais rápido.
Guardei minha arma e cobri meu rosto, algo me dizia que eu precisaria da minha mão livre quando entrasse ali, além de eu ter o resto da minha equipe com a arma em punho logo atrás. Dei sinal para que três dos meus homens me acompanhassem e me empenhei em derrubar a porta. A fumaça era absurda, se já era difícil enxergar no escuro, naquele quarto era praticamente impossível. Estava a ponto de adentrar o ambiente quando algo chamou minha atenção, tinha água correndo no quarto. Água, estouro, fumaça. Senti meu coração parar por dois segundos.
Peguei a lanterna da mão de e apontei para o quarto. Não era uma armadilha, havia uma pessoa lá, parecia que estava morta, mas algo me dizia que ainda havia esperança para aquela vida, que talvez pudesse ser salva. Não pensei duas vezes antes de entrar no quarto, apontava a lanterna para o chão na tentativa de evitar a água, eu não queria ser eletrocutado. A cada passo que eu dava em sua direção eu sentia meu coração acelerar mais, foi absurdo o modo como ele disparou quando eu a encontrei. Segurei seu rosto em minhas mãos e achei que fosse descobrir como era ter um infarto. O seu rosto tinha traços tão familiares que eu me senti assombrado, a semelhança era assustadora. Não era à toa que diziam que para uma pessoa existem mais 7 parecidas.
Eu teria ficado naquele devaneio por horas se não tivesse escutado outro estouro e não tivesse me chamado. Olhei novamente para a garota em meus braços e desejei com todas as minhas forças que ela estivesse viva. Levei meus dedos ao seu pescoço e quando pude sentir sua pulsação irregular, meu coração pareceu se acalmar instantaneamente.
— — chamei com um tom de desespero, não sabia se pela água ou se pela impressão que havia acabado de ter. — Joga a sua jaqueta, rápido — gritei.
estava quase entrando no quarto e eu quis matá-lo, ele não tinha notado a água?
— NÃO ENTRA AQUI — gritei mais alto — Só joga a sua jaqueta, faz o que eu to mandando antes que a gente a perca.
O tecido foi arremessado em minha direção de forma tão rápida que eu quase não consegui pegar. Depois de cobrir com a jaqueta a garota que estava só de toalha, me levantei da forma mais rápida possível com ela em meus braços. Coloquei a lanterna na boca e fiz o caminho de volta ao corredor.
Meus olhos continham uma umidade indescritível, e eu sabia que não era pela fumaça.
Olhava para a garota repousada na cama hospitalar e não conseguia encontrar nenhuma outra resposta – além da mais óbvia – para aquela tentativa de homicídio. Aquilo me parecia uma cobrança de dívida, mas de que tipo? Drogas? Dinheiro de jogo? Informações? Eu apostaria em drogas. O que levava uma garota como aquela a se envolver com coisas do tipo? Jude, pelo que eu havia visto até o momento em minhas investigações, parecia ter uma vida perfeita, e agora estava em um estado lastimável, foi surrada e deixada para morrer. Tinha outra hipótese que eu pudesse levantar além de drogas? Não sei, talvez eu estivesse sendo muito raso. A pior parte (depois da garota quase ter morrido) era a falta de pistas no caso. Depois que ela foi resgatada, a pareicia tomou conta da casa e nada foi encontrado, nenhum fio de cabelo, nenhuma pegada e nenhuma digital que não fosse de pessoas próximas. Quem fez isso era extremamente profissional, provavelmente um assassino de aluguel. Eu tinha até cogitado que ela pudesse ser esquizofrenia e ter feito tudo aquilo sozinha, por mais insano que soasse, mas os exames não detectaram nada, ela era perfeitamente normal. O que nos levava de novo à estaca zero. Só teríamos resposta quando ela acordasse.
Faziam dois dias que ela estava no hospital, em coma. Havia tantos hematomas em seu rosto, mas ainda sim, era possível ver como era bonita.
Não conseguimos contato com ninguém da família, o mais perto que chegamos foi encontrar sua melhor amiga, que por sinal era sua vizinha. Segundo ela, os pais de se encontravam no Egito, totalmente incomunicáveis, e seu irmão, Lucas, não aparecia em casa já a uns bons dias. Aquilo me incomodou um pouco, teria algo haver?
Outra coisa que estava me incomodando bastante era o Nicolás. Ele andava um tanto quanto perturbado desde que saiu da casa com a garota nos braços. Murmurava coisas sem sentido toda vez que olhava para ela, fora o fato de eu ter certeza que ele chorou quando tirou ela do quarto – mesmo ele tendo negado e colocado a culpa na fumaça. No começo eu achei que era só emoção por ter salvo uma vida, mas tinha algo mais que isso, algo que ele não queria me contar. Estávamos revezando a segurança no quarto do hospital onde ela estava, caso alguém tentasse ataca-lá outra vez, e Nicolás assumia uma postura estranha cada vez que entrava no ambiente. Era como se ele tivesse medo dela e ao mesmo tempo sentisse uma preocupação absurda com seu estado, e era mais que uma preocupação de um policial com um caso.
Fui tirado de meus pensamentos por uma tosse baixa, vinda da cama em minha frente. Ela estava acordando. Pensei em apertar o botão de emergência perto da cama, mas achei melhor não, temi assusta-lá se chegasse perto demais. Levantei da cadeira e fui em direção a porta, chamando a primeira enfermeira que vi no corredor. Encostei-me ao batente, observando a enfermeira tomar notas sobre a paciente — que ainda não tinha aberto os olhos por completo — só para sair logo depois dizendo que iria chamar um médico.
Aproximei-me da cama com as mãos no bolso da calça.
— ? – Chamei por seu nome, vendo seus olhos se abrirem devagar. Eles eram tão verdes, tão brilhantes. Faziam uma sincronia perfeita com seus cabelos levemente acastanhados.
— Eu não morri? – Perguntou mais para si mesmo do que para mim, com a voz fraca.
— Não, você não morreu. – Respondi com um riso, voltando a me sentar na cadeira. Por que todo mundo que acorda num quarto de hospital depois de um acidente acha que morreu? Seria pelas paredes brancas e a claridade gritante? – Você sofreu uma tentativa de homicídio, mas graças a uma ligação anônima e a ação rápida da polícia, se salvou. – Ela me olhava atentamente enquanto eu relatava a situação – Você ficou em coma por dois dias.
Eu esperava qualquer reação, menos uma risada.
— Desculpe, eu disse alguma coisa engraçada? Está tudo bem com você? – perguntei, me sentindo perdido.
Mesmo puxando um pouco o ar para falar, ela respondeu mais do que depressa.
— Eu estou numa cama de hospital, é claro que eu não estou bem. – respondeu, num tom grosseiro, mas sua voz voltou ao que parecia ser o seu normal logo depois – Eu só estou feliz por estar viva.
Senti-me constrangido na mesma hora por sua resposta afiada, mas ainda sim, achei sua reação estranha. De novo pensei que ela pudesse ser esquizofrênica.
— Certo, me desculpe. Eu só não esperava esse tipo de reação, é que uma pessoa normal teria ficado assustada.
— É – ela concordou – e só uma sádica daria risada não? – Rebateu de forma irônica. — Você é psicólogo por acaso para me dizer se eu sou ou não normal?
Céus, como ela era afiada, apesar da voz fraca, se fazia ouvir em alto e bom tom. Baixei minha cabeça tentando pensar em uma resposta para aquilo. Entretanto, não havia. Decidi mudar de assunto então. Voltei a olhar para ela, que ainda tinha seus olhos em mim.
— Quer saber quem eu sou?
— É meio óbvio, eu não preciso de explicações. – Respondeu de forma grosseira, apontando a cabeça para o bracelete da polícia que estava acima do meu cotovelo, por cima do blazer preto.
Irônica, grosseira, esquisita e provavelmente masoquista. Eu estava tentando ser cuidadoso devido a seu estado, mas já que ela parecia não se importar, eu também não me importaria.
— Certo, você não precisa, mas a polícia sim. – disse sério, já de pé – Assim que o médico chegar eu irei pedir uma autorização para recolherem seu depoimento, já que você parece em perfeitas condições, mesmo no seu estado.
— Fala comigo como se eu fosse uma criminosa, eu sou a vitima aqui. E eu não tenho nada a esconder – ela fez uma pausa, olhando para a etiqueta do hospital no meu blazer – Policial Green.
— Eu não disse que você tinha – respondi rápido, me sentindo surpreendido com suas palavras. Ela havia se entregado sozinha, assim que ela ouviu minhas palavras ficou quieta, seu sorriso irônico sumiu, ela abriu a boca duas vezes para falar algo, mas acabou desistindo.
O médico entrou no quarto, me tirando a chance de fazer-lhe qualquer pergunta. Não havia problema. Mais cedo ou mais tarde, eu iria descobrir o que escondia Jude.
POV.
O meu plano havia dado certo. Na verdade, tinha saído melhor do que eu esperava, eu não pretendia entrar em coma, mas como aconteceu, era algo mais a meu favor. Pobre .
Eu não parecia ser suspeita do crime, então decidi melhorar meu plano, só para me assegurar de que a polícia iria mesmo querer ficar perto de mim, então em vez de apenas dizer que meu irmão pertencia à máfia, eu daria a entender que estava escondendo algo, e pareceu funcionar. O tal havia ficado um tanto quanto inquieto quando eu deixei escapar aquelas palavras, não deixou de me olhar estranho desde então.
Quando o médico entrou para me analisar ele pegou um celular e foi para o corredor, me tirando a chance de observá-lo melhor. Já sabia que ele estava intrigado comigo, mas queria mais. Talvez provocá-lo, me desse algo. Isso não seria tão difícil, uma vez que eu era mestre em irritar as pessoas e fazia com mais gosto ainda quando eu não ia com a cara de alguém, o que era o caso dele, ainda estava inconformada que ele praticamente me chamou de anormal.
Ele parecia ter saído de um filme policial, tinha um ar de mocinho de trama romântica e era o típico galã que faria a protagonista suspirar. Seus cabelos eram castanhos e seus olhos eram contrastavam entre o castanho e o verde, sua pele era clara e a boca perfeitamente desenhada, contendo um tom levemente rosado. Vestia calças skinny na cor preta e seu peito estava coberto por uma blusa branca, com um blazer na mesma cor de sua calça. Típico.
Sai de meus devaneios quando o médico me disse que eu era uma garota de sorte por ter sobrevivido, agradeci mentalmente a Deus por me ajudar a sair viva daquele quarto, apesar da minha loucura – que no final, era por um bom motivo. O doutor também disse que minha alta viria de acordo com minha evolução. Ele saiu logo depois, mas não sem antes me dizer para agradecer ao policial que havia salvado a minha vida.
Então havia sido quem me tirou do quarto antes que a água chegasse até mim? Droga, eu ia ter que ser agradecida justo com aquele cara? Infelizmente parece que sim.
Vi minha chance de agradecer quando ele entrou no quarto novamente. O policial Green caminhou até perto de minha cama e se sentou na cadeira, sem me dizer uma palavra, em seu rosto só havia um sorrisinho cínico.
— Então – comecei – você foi o policial que salvou minha vida?
Ele riu.
— Não – respondeu mudando de posição na cadeira, seu cotovelo estava apoiado no braço do móvel, e ele despenteava o próprio cabelo. Sua outra mão repousava em seu colo, segurando seu celular. – Foi Nicolás.
— Nicolás? – quem era Nicolás?
— Meu parceiro, ele arriscou ser eletrocutado pra tirar você de lá, poderia ter morrido. — Eu estava doida ou ele estava reclamando?
– E depois disso você o espantou com esse seu mau humor? — Retruquei, no mesmo tom.
Ele bufou, demonstrando que estava irritado, e por dois segundos eu achei que ele iria me sufocar com o travesseiro.
— Ocupado com coisas mais importantes. Aliás – fez uma pausa cruzando os braços e assumindo uma postura mais séria – eu preferia estar no lugar dele a ter que ficar cuidando de uma garotinha mimada, grosseira e sem educação. E eu não deveria nem ter que te lembrar de que eu represento a lei, então você deveria ter um pouco mais de respeito quando se dirigir a mim.
Grosso
— Essa é a sua análise sobre mim? – questionei irônica, me ajeitando na cama – Excelente, . — Frisei seu nome, o pirraçando de propósito.
— Você só me mostrou isso até agora. Além do mais, acredito que você já esteja metida em encrenca demais, e não gostaria de ser presa por desacato. E para você, é Oficial Green.
Ele sabia quem eu era? Meu Deus, que cara insuportável. Pelo menos eu não era obrigada a ser gentil com ele, uma vez que não foi ele quem me salvou.
— Vê se eu vou levar a sério alguém cujo o sobrenome é Green. Descansa, Shrek. E você nem é verde. — Cutuquei debochando de seu nome, só para depois rir de minha própria piada, mesmo que fosse sem graça.
— Já chega – ele disse se levantando – Eu tentei ser gentil com você, mas já que você tá ótima pra fazer piadinhas, eu posso muito bem pedir uma autorização pra te levar pra delegacia assim que você tiver alta.
Observei o policial retirar uma algema do bolso de trás da calça. Ah mas ele não ia mesmo.
Puxei meu braço assim que ele se aproximou com uma das algemas.
— Olha só — comecei, olhando bem feio em seus olhos avelã — você tem um sério problema de mau humor. – Além do mais – fiz uma pausa, mudando o meu tom de voz para um tom sexy e diminuindo em um sussurro quase inaudível – só deixaria você me prender em um outro tipo de cama.
Ele me olhou incrédulo por quase um minuto. Estava quase rindo da cara dele quando ele pegou um rádio no bolso de seu blazer e chamou uma viatura. Como foi que eu deixei a minha boca grande me foder tão rápido?
Formulei na minha cabeça uma desculpa o mais rápido que pude, eu queria a polícia na minha cola, mas isso não poderia ser na cadeia. Estava prestes a falar quando a porta do quarto foi aberta, revelando um moço de aparência jovial que tinha mais ou menos a minha altura.
andou até onde ele estava e se dirigiu ao rapaz, que mantinha os olhos em mim. Olhei o bracelete em seu braço. Nicolás.
Talvez pelo sentimento de gratidão, meu sorriso se abriu instantaneamente.
— Você chegou na hora certa, Nicolás.
Aquele policial parecia mais amigável.
Seus olhos estavam em mim, ele sorria ignorando completamente o seu parceiro.
— Você acordou! – Disse, ainda sorrindo. Meu sorriso se alargou, foi quase de imediato.
— É, ela acordou, e eu vou levar ela para a delegacia. – Disse , tomando atenção do rapaz parado na porta que finalmente pôs atenção em seu amigo.
— Não – respondeu, sem entender o outro policial direito – Ela acabou de sair do coma, você nem deve ter autorização pra tirar ela daqui, sem falar que depois ela pode dar o depoimento sem sair do hospital.
bufou.
— Ela tá presa. – o outro policial fez uma careta de confusão, e quando ia perguntar o porquê, se apressou em responder – Por desacato – explicou, vendo que seu parceiro não entendia a situação — assim que ela tiver alta ela vai pra delegacia, vou deixar dois policiais na porta.
— Eu não fiz nada. – me intrometi, adoçando o tom da minha voz. – Você me chamou de anormal, sua presença estava me incomodando, eu só queria te irritar pra que você saísse do quarto. – Menti.
— Primeiro, eu não te chamei de anormal, isso foi o que você interpretou. Em segundo, se era só isso, por que não me pediu? Eu teria ficado do lado de fora do quarto.
Fiquei sem ter o que responder. O quarto ficou em silêncio por alguns segundos, até o outro policial começar a falar.
— Qual é cara, ela só está com medo! – Ele se dirigia a , mas gesticulava na minha direção. – Não precisa ter medo, nenhum de nós vai te machucar — completou, me olhando de forma terna.
Eu tinha minhas dúvidas quanto a isso caso alguém descobrisse minha identidade.
Quando ele começou a caminhar na minha direção, pude olhar seu rosto melhor. Seus olhos eram azuis e oscilavam para o verde cada vez que a luz entrava pela janela e batia em seu rosto, seus cabelos eram um pouco mais castanhos que o meu. Ele não parava de sorrir.
— Obrigada – disse baixo.
Ele assentiu, sentando-se, na cadeira e colocando uma caixa marrom em seu colo. Ia começar a falar quando foi interrompido pela porta batendo.
tinha saído.
— Nervosinho – disse Nicolas, e eu ri, mas ainda queria perguntar algo, então me recompus.
— Eu ainda vou presa? – mordi meu lábio com medo da resposta.
— Não – Nicolás respondeu com um risinho e eu senti um alívio. – Ele não vai fazer nada, você pode ficar tranquila, eu não vou deixar.
Ok, esse policial era mais legal, e ele parecia preocupado o suficiente comigo, eu não precisava fazer mais nada, então procurei saber mais sobre seu parceiro.
— Ele é sempre assim? – perguntei.
— Não, ele só anda estressado nos últimos dias. Não é fácil ser filho do chefe. – Sorriu.
— Ele é filho do chefe? – Aquilo era interessante. Se eu conseguisse que ele ficasse na minha cola eu poderia conseguir informações mais fácil ainda.
— Sim, por quê? – Quis saber o policial Nicolás, erguendo sua sobrancelha.
— Nada, só sou curiosa. – dei de ombros, mentindo. Eu era curiosa mesmo, mas não era por isso que eu havia perguntado.
— Então temos uma coisa em comum. – disse sorrindo outra vez, seus dentes eram perfeitamente brancos – E no momento eu estou curioso para saber como você está.
— Minha cabeça ainda dói um pouco, minha cintura fica latejando, e também sinto um pouco de desconforto quando eu falo muito rápido ou dou risada, mas acho que eu tô bem dentro do possível – Respondi, parando pela primeira vez desde que acordei para analisar minhas dores.
— É normal — ele assentiu — você sofreu pancadas fortes e quebrou duas costelas.
— Duas? – eu pensei que fosse só uma.
— Sim.
Superou-se, .
Olhava pela janela do quarto apreciando o pouco de sol que entrava e batia em minha pele. O ambiente tinha ficado em silêncio pelo que eu supus ser quase cinco minutos. Eu não me importava, Nicolas parecia agradável, mesmo quando não dizia nada. Estava me lembrando de que não deveria me sentir confortável assim – mesmo que ele tenha me salvado da minha própria armadilha – afinal ele poderia ser um dos meus suspeitos. Ele começou a falar novamente.
— Eu fico muito feliz que você tenha acordado. – Ele soava sincero. – Eu fiquei com tanto medo quando vi você naquele quarto – ele fez uma pausa, parecendo perdido no tempo, e fez uma expressão que eu não consegui interpretar – eu achei que você estivesse...
Ele parou de falar, sem conseguir completar a frase, sua cara amarga me fez ter a impressão de que seu estômago estava embrulhado. Seria ele tão bom policial que sentiria remorso por não poder salvar uma vida?
— Morta – completei sua frase e ele assentiu.
Decidi mudar de assunto, uma vez que aquilo parecia deixar ele perturbado.
— Você pode me dar um copo de água? – pedi olhando para o filtro no canto do quarto.
— Claro.
Ele se levantou e deixou a caixinha marrom na cadeira, voltando logo depois para ajeitar a cama de modo que eu pudesse me sentar, logo depois me estendeu o copo de plástico, cheio. Vi ele pegando novamente a caixinha nas mãos, o interessante é que ele estendeu ela na minha direção.
— Ninguém merece comida de hospital. – disse sorrindo novamente.
Olhei para ele sem entender, mas Nicolás nada disse. Coloquei o copo já vazio na mesinha ao lado da cama e abri a caixa assim que a peguei de suas mãos. Senti-me uma criança.
— Doces. – Disse empolgada, olhando o conteúdo que tinha ali dentro, havia muffins, cookies, rosquinha cobertas de chocolate e até cupcakes. Foi inevitável sorrir abertamente.
— Shhh – ele levou um dedo ao lado da boca me pedindo silêncio, e eu mordi os lábios travessa. – Às enfermeiras não podem saber — apesar de parecer estar me repreendendo, ele tinha um sorriso nos lábios.
— Certo.
Meus olhos brilhavam enquanto eu pegava um muffin com gotas de chocolate, era meu favorito, ofereci a caixa a ele, que agora se encontrava sentado novamente. Nicolás pegou um cupcake, fazendo sujeira em seu nariz ao dar a primeira mordida. Eu comecei a rir e ele me acompanhou, limpando a cobertura com as costas de sua mão. Estava prestes a pegar uma rosquinha quando a maçaneta da porta fez barulho. Nicolás pegou a caixa de meu colo na velocidade da luz, para nossa sorte, pois era uma enfermeira, a mesma de mais cedo.
— Como a senhorita se sente? – perguntou ela, com um olhar terno enquanto me examinava rapidamente.
— Tenho um pouco de dor na cabeça e na cintura, mas não está mais tão ruim.
Aquilo não era mentira, eu tinha certa resistência à dor.
— Certo. – Assentiu me olhando, seus olhos pararam no fino cobertor que estava em cima de mim. – Isso por acaso é farelo de bolinho?
Seus olhos passaram da minha coberta direto para o policial na cadeira. Ele tampou a boca com uma das mãos, tentando esconder um riso. Fechei a minha boca imediatamente, antes que eu mesma desse risada da situação. A enfermeira cruzou os braços, assumindo uma postura informal enquanto se virava na direção dele.
— Você andou dando bolinhos para a minha paciente que acabou de sair do coma, Sr. Nicolás?
— Ah qual é, Annie — me surpreendi ao ver ele falar com ela de forma tão familiar. — Comida de hospital é horrível. — Tentou se defender.
Será que eles se conheciam? Tive certeza que sim quando ele abriu a caixa na direção dela.
— O seu favorito ainda tá aqui — ele falou, estendendo um cupcake de baunilha na direção dela.
— Só hoje. Ok? – Ela olhou para nós dois, que assentimos praticamente ao mesmo tempo. A enfermeira, que era pura delicadeza, aceitou o cupcake e se retirou do quarto, sendo acompanhada até o último segundo pelo olhar de Nicolás.
Ele soltou um suspiro quando ela saiu pela porta, me deixando intrigada.
Queria perguntar se eles eram amigos, mas nós voltamos a comer os doces logo depois e Nicolás já havia começado um assunto, conversando sobre coisas aleatórias e me arrancando um riso vez ou outra. Me permiti esquecer o porquê de estar ali, só aconteceu.
Nicolás me perguntou se eu me incomodaria se ele me tratasse pelo primeiro nome, deixando de lado a formalidade, eu disse que não e logo passei a chamar ele pelo nome também, estava realmente à vontade com aquele policial. Em momento algum ele quis me interrogar ou me encher de perguntas sobre o suposto ataque, ele parecia mais preocupado comigo do que com a sua investigação. Ele tinha um olhar tão sincero, eu não conseguia ver mentiras nele, parecia tão preocupada por mim. Por esse motivo, quando estava prestes a cair no sono novamente, eu desejei que ele não fosse quem eu procurava, não queria que aquela história acabasse comigo colocando Nicolás atrás das grades.
— , acorde — alguém me cutucou de leve pela quarta ou talvez quinta vez.
Murmurei algo sem sentido e me ajeitei mais na cama, tentando voltar ao sono profundo, mas seja lá quem fosse tentando me acordar, parecia que não iria desistir tão cedo.
— — dessa vez foi um chacoalhão. Bufei irritada abrindo meus olhos, os coçando logo depois tentando deixá-los em foco. Era Nicolás, parecia sem graça. — Desculpa, não queria te acordar assim.
— Então por que acordou? — Retruquei irritada.
Ele me olhou constrangido, colocando as mãos no bolso da calça.
Eu odiava que me acordassem. Virei para o outro lado querendo dormir de novo, mas quando fechei os olhos me lembrei da conversa com Nicolás mais cedo, ele não merecia meu mau humor. Passei um tempo refletindo e com toda a certeza aquele policial merecia um pouco mais de educação da minha parte, além do mais, Nicolás parecia ser feito de algodão doce e unicórnios. Eu riscaria seu nome da lista de suspeitos, mas não baixaria a guarda.
Virei-me para ele de novo e sorri amarelo, quis me sufocar com o travesseiro na mesma hora, o olhar constrangido ainda estava ali.
— Desculpa — pedi fazendo um biquinho — Eu não gosto que me acordem, é um convite para um homicídio.
Ele riu da minha piada horrível — como todas as outras — e se aproximou de novo da cama.
— Tudo bem. — Respondeu, parecendo mais tranquilo.
— Por que me acordou? Aconteceu algo? — Fiquei curiosa.
Ele cruzou os braços, mordendo os lábios sem parar. Não era coisa boa.
— Hm… chamou a policia pra você — meus olhos se arregalaram na mesma hora — Se sua intenção era tirar ele do sério, você conseguiu.
Ele estava rindo e eu continuava incrédula.
— Você está rindo do que? Você me disse que eu não iria ser presa.
Acabei me exaltando, como eu ia fazer meu trabalho da cadeia?
— E você não vai, fica calma. — ele tirou minhas mãos de meus cabelos e as repousou na cama. Vendo a minha cara perdida, ele se apressou em explicar. — Ele te achou suspeita. Alegou que você parecia muito bem e tinha condições de dar o depoimento aqui mesmo. Eu sinto muito, como eu passei a noite aqui, só fiquei sabendo agora. Não pude fazer nada para adiar isso um pouco.
— Como assim você ficou aqui a noite toda? — Eu não havia dormido nem meia hora.
— Você dormiu ontem um pouco depois que a enfermeira Annie entrou aqui, e não acordou mais. — explicou. — Não entendo muito disso, mas imagino que sejam os remédios.
Cocei a cabeça tentando ajeitar minhas ideias, eu me sentia um pouco lesada pelos medicamentos, era verdade, além dos vários compridos, eu ainda tomava um remédio esquisito na veia que me deixava enjoada. Talvez por isso eu não percebesse o espaço de tempo. Terminei assentindo para Nicolás.
Ficamos em silêncio por alguns minutos até que eu senti vontade de fazer xixi.
— Me ajuda a levantar?
— Você vai querer fugir do depoimento? — Questionou rindo, mas já se movimentando para me ajudar.
— Não me tente — brinquei. — Mas por enquanto só quero ir ao banheiro.
Ele puxou a fina coberta que me cobria e eu apoiei a mão em seu ombro, me ajeitando para pôr os pés no chão, mas antes mesmo que eu me sentasse direito, eu já estava sendo carregada feito uma noiva. Só fui colocada no chão novamente quando chegamos à porta do banheiro que ficava no quarto. Eu senti uma pontada abaixo do peito na mesma hora, levei minhas mãos até lá, arfando com a dor, as mãos de Nicolás que mal tinham me abandonado, já estavam de volta, tentando me manter em pé. Senti outra pontada mais forte, que atrapalhava a minha respiração, tentei puxar o ar e só doeu mais ainda.
Eu havia extrapolado, não era uma gênia, era burra, iam arrancar minha cabeça. O estrago tinha sido exageradamente maior do que eu previ, nem os remédios que me deixavam lesada pareciam o suficiente para que eu pudesse me levantar, eu só ficaria bem deitada e por um bom tempo.
Quando dei por mim estava chorando aos gritos de dor, tinha uma das mãos apoiada no ombro de Nicolás — que parecia desesperado. Ele tinha uma mão em minha cintura e a outra em minhas costas, era nítido que ele estava com medo de me machucar mais ainda caso me pegasse no colo. O policial murmurava para eu ter calma, enquanto eu só ficava mais nervosa. Eu estava começando a ficar com falta de ar e o esforço para respirar só aumentava mais a dor. A porta abriu e eu implorei por socorro, mas não era uma enfermeira.
O policial Green correu até nós dois, deixando a porta aberta. Eu não me importava com quem ele era naquele momento, eu só queria que alguém fizesse aquela dor parar, então não me incomodei quando ele passou uma de suas mãos por debaixo de minhas pernas e levou a outra até minha cintura, me pegando no colo. Quando já estava em seus braços, minha cabeça rodava devido à falta de ar e o choro. Eu desmaiei antes mesmo de chegar à cama, a última coisa que vi foi o outro policial gritando em direção ao corredor.
Acordei na manhã seguinte após o incidente na porta do banheiro. Meu corpo estava tão leve que mais uma vez tive a sensação de que havia morrido, teria realmente acreditado nisso se não tivesse escutado o bip do monitor cardíaco. Abri os olhos lentamente para checar o aparelho, mas meu raciocínio foi interrompido quando meus olhos encontraram um rosto familiar.
— Oi — comprimentei com a voz fraca — Eu… fui demitida?
Clarice se levantou da cadeira bufando e marchou até a porta, achei que iria derrubar a estrutura de madeira pela cara que fazia, mas pareceu ter se lembrado que estávamos em um hospital.
— Eu não acredito que você fez isso, — ralhou enquanto voltava para perto da cama. — Qual o seu problema? Por acaso estava tentando comprar uma passagem só de ida para o inferno?
Respirei fundo, pensando em como explicar o que na teoria nem precisaria de uma explicação. Clarice sabia muito bem porque eu tinha feito o que fiz, eu tinha noção de que havia extrapolado, mas em momento algum pensei que chegaria a tanto, de todo jeito, acho que ela deveria entender que eu fiz o que era necessário para cumprir o meu objetivo. Entendia a sua preocupação, ela não era só uma colega de trabalho, também era minha melhor amiga e logo seria parte da minha família. Quando eu ia começar a falar ela se debruçou sobre mim e me abraçou.
Por um momento, temi sentir dor de novo, mas quando seus braços chegaram até mim, eu não senti nada. Deveria estar entupida de sedativos ou sei lá o que.
— Você não sabe como eu fiquei desesperada quando eu recebi a ligação — sua voz tremia um pouco, era uma mescla de preocupação, emoção e raiva.
— Clarice, eu não vou me desculpar porque sei muito bem onde você mandaria eu enfiar minhas desculpas. Mas estou feliz por estar viva e agradeço sua preocupação.
Ela revirou os olhos e se sentou novamente na cadeira, ela sabia como eu era. Ri baixinho do nosso modo, Clarice tinha 27 anos e eu 25, mas às vezes agíamos como duas crianças birrentas. Ela acabou rindo também, eu estava bem dentro do possível e não adiantaria ela me dar mais broncas, não havia como desfazer aquilo. Além do mais, só havia uma pessoa para quem eu — às vezes — baixava a guarda, e ela sabia que essa pessoa não era ela.
Corri os olhos pelo quarto e me deparei com uma bolsa preta perto da minha cama, eu conhecia aquela bolsa muito bem. Apertei o botão para ajustar o leito, seria mais fácil de alcançar se eu estivesse sentada. Consegui pegar com um pouquinho de dificuldade, só para ouvir Clarice começar a reclamar logo depois.
— Que mania insuportável — ela tentou pegar a bolsa de volta, mas desistiu quando fiz cara feia e dei um tapa em sua mão. — Você não cansa de mexer nas coisas dos outros?
— Disse a Hacker — debochei. — Que ironia vindo de alguém que invade sistemas e descobre até quantos centavos alguém tem no bolso.
— O nome disse é trabalho. O que não é o seu caso, porque você é xereta e folgada.
Revirei a bolsa dela até encontrar o que procurava, ignorando as ofensas e tirando sarro do modo como ela falava. Peguei a pequena necessaire e deixei a bolsa de canto, revirando suas maquiagens atrás de um espelho.
— Por que ao invés de falar mal de mim você não me conta o que o médico disse depois que eu desmaiei e todo o resto.
— Pff, agora você quer saber da sua saúde? Você quebrou duas costelas — seu tom de voz voltou a ficar sério — não podia ter levantado da cama sem ajuda de um enfermeiro e muito menos ter tentado andar. Muito me espanta um policial ter sido tão imprudente.
Parei de mexer na necessaire e olhei séria para ela.
— O policial imprudente foi quem salvou minha vida — voltei a mexer na bolsinha, já sem paciência. — Que droga, Clarice, não tem a porcaria de um espelho nessa coisa.
Ela se levantou e pegou sua bolsa, tirando um espelho do bolso lateral.
— Tem certeza que quer ver?
— A coisa tá tão ruim assim? — Ok, agora eu estava realmente preocupada. Peguei o espelho de sua mão e me arrependi assim que abri e vi meu reflexo. Eu tinha um dos olhos roxos, minha bochecha esquerda tinha um corte enorme, meus lábios estavam inchados e cortados e haviam diversos curativos perto da minha sobrancelha. Apertei os lábios em uma linha reta, eu odiava me sentir feia, suja ou desleixada.
— Eu preciso escovar meus dentes e lavar meu rosto. Minha voz saiu baixinha, mas Clarice pode entender. Foi ótimo ela estar ali, ela sabia como eu deveria estar me sentindo.
Não demorou muito e ela voltou do banheiro com uma coisa que parecia uma tigela cheia de água, não tinha ideia do que era aquilo, mas o importante é que era útil. Clarice ergueu o pote (ou o que quer que aquilo fosse) numa altura em que eu pudesse pegar a água e jogar no meu rosto. Senti várias gotas respingando na cama, mas aquilo não era um problema. Alívio, essa era a palavra perfeita pra definir o que eu senti conforme jogava a água no meu rosto, não estava nem me importando em molhar os curativos. Quando achei que já era o suficiente, ela pegou o pote e me estendeu uma toalha, agradeci assim que comecei a secar meu rosto. Ela apenas assentiu e voltou para o banheiro, como ele ficava quase de frente para a cama, eu consegui ver ela revirando o ambiente, e fiquei feliz quando vi ela retirando o plástico de uma escova de dentes, que pouco depois já estava em minhas mãos e com uma pasta refrescante. Enquanto eu escovava meus dentes, Clarice deixou um copinho de água na mesinha ao meu lado, e logo depois trouxe a “tigela” novamente, mas dessa vez vazia. Terminei de escovar os dentes, usando a água que ela havia deixado para enxaguar a boca e cuspindo naquela coisa arredondada. Eu já tinha visto aquilo, só não me lembrava onde.
Me senti relativamente mais limpa. Sorri agradecendo a Clarice. Ela retribuiu o sorriso de um jeito meio triste e pegou a nécessaire que estava na cama.
— Clarice, eu preciso que você me conte o que aconteceu depois que a polícia me trouxe pra cá, quero o máximo de informações possíveis para formular um bom depoimento. Quem conversou com eles?
Ela se sentou na cama e começou a pegar algumas maquiagens, enquanto falava.
— Eles me ligaram assim que te trouxeram pra cá, mas como eu supostamente teria que estar longe na hora do atentado, não pude vir na hora. Falei com eles por telefone e fiquei em choque quando me falaram do seu estado — sua voz voltou a ficar trêmula — não era pra ter chegado a tanto. Eu queria correr pra cá, mas não me deixaram.
Clarice colocou base em uma esponjinha e começou a passar devagar debaixo dos meus olhos, bem devagar, tentando não encostar em nada do meu rosto que já estava suficientemente horrível.
— Continua — pedi quando ela abaixou a esponja e me olhou triste. Ela ia começar a falar, mas eu interrompi, levando sua mão novamente ao meu rosto, dando a entender que deveria continuar com a maquiagem — Os dois.
Ela assentiu e voltou a trabalhar no meu rosto, substituindo a esponja por um pincel macio com blush logo depois.
— Eu cheguei aqui ontem a noite, me contaram o que aconteceu e logo depois me encheram de perguntas. Um policial chamado Green, na verdade, fiquei com vontade de socar a dele. Um grosso.
— Não foi a única. — Ri baixinho. — Ele queria me prender por desacato.
Clarice se afastou para me olhar.
— Inacreditável — disse chacoalhando a cabeça. — Eu não sei o que aconteceu, mas tenho certeza de que você provocou.
— Talvez, mas continua. E não esqueça do rímel.
— Enfim, me perguntaram se alguém teria algum motivo pra te atacar — continuou contando, enquanto passava um gloss em mim — e eu disse o combinado. Você era uma pessoa sem inimigos, mas seu irmão vendia drogas e tinha envolvimento com a máfia italiana. Aquele grosso ficou bem intrigado e acho que ele vai ficar no seu pé, como a gente tinha planejado, mas acho que você vai ter problemas.
— Por que? — Perguntei sem entender.
— Porque a ideia era que você tivesse um só policial na sua cola — explicou enquanto passava o rímel nos meus cílios — mas parece que vão ser dois. Aquele irresponsável que te tirou da cama.
— Nicolás — interrompi.
— Tanto faz, ele me deixou um pouco intrigada. Enquanto o outro parecia mais preocupado com a situação em si, ele parecia mais preocupado com você.
Fiquei pensando naquilo, eu também havia notado a preocupação do policial Cooper comigo, mas meu instinto não apontava nada pra ele, e eu confiava muito no meu instinto, ainda pensava em riscar ele da minha lista de suspeitos. Meus pensamentos foram interrompidos por batidinhas na porta, e meu visitante não esperou resposta para entrar.
— Tudo bem por aqui? — Era Green, estava sério. — Eu ouvi vozes enquanto fazia a ronda — ele já estava me vigiando? Perfeito. — Imaginei que tivesse acordado, acho melhor chamar uma enfermeira? — Sua última palavra saiu mais como uma pergunta enquanto ele percebia que alguém me pintava.
Eu iria responder, mas Clarice não me deu chance. Ela apertou o botão para chamar a enfermeira sem tirar os olhos de mim, ignorando completamente a presença do policial no quarto.
— Já chamei — sua voz era firme e não deixava brechas para qualquer conversa. Ele havia mesmo irritado ela, até mais do que a mim pelo jeito. — Pode sair, fecha a porta.
Ele saiu sem dizer nada, sem sequer fazer uma cara feia. Era só eu que recebia deboche e careta?
— Não suporto homens grosseiros — falou, como se não tivesse acabado de ignorar um policial. — Acabei.
Peguei o espelho novamente, não dava pra dizer que eu estava linda, mas também não estava tão horrorosa como antes.
— Obrigada.
— Você vai conseguir fazer seu trabalho com dois policiais na sua cola? A gente pode tentar dar um jeito pra ser só um, eu não sei.
— Vou — respondi, ajudando ela a arrumar a bagunça de volta em sua bolsa. — Nicolás parece ser mais tranquilo, vai ser interessante porque ele trabalha com o Green e pode me dar mais informações. Green parece ter sido um ótimo acerto, ele é filho do delegado.
— O pai daquele grosso é um delegado? — Ela parou de mexer na bolsa e me olhou séria.
— Sim, eu já ia tocar nesse assunto com você. Você já sabe o que fazer, o nome dele é Green, procure toda a informação que puder.
— Só dele? — sua sobrancelha estava erguida, questionando algo que eu não queria entregar — Você chamou o outro policial duas vezes pelo nome e ele não te tratou por Jude também enquanto falava comigo. O que tá rolando? Vocês já se conheciam? Ele é um ex seu ou algo assim?
De onde ela tirou isso? Meu Deus.
— Você tá maluca? Eu juro pra você que eu nunca tinha visto esse policial até eu acordar nessa cama — ela cedeu, sabendo que eu não mentiria sobre esse assunto. — O nome dele é Nicolás Cooper, ele tem 25 anos e é policial a cinco, fica à vontade para investigar, mas o meu instinto não falha, e não tem nada perigoso nele.
Ela assentiu, não tinha a mínima ideia do que se passava na cabeça dela agora, mas me vi obrigada a voltar em um assunto que eu não queria tocar com medo da resposta, mas com a curiosidade falando mais alto.
— E ele? — perguntei baixinho.
Clarice coçou os olhos e respirou fundo.
— Ele tá furioso, sinceramente eu acho que se você tivesse morrido ele não iria se perdoar nunca.
— E o meu irmão? — Interrompi.
— Ok. Lucas está bem, preocupado com você mas bem. Ele vai ficar escondido pra nenhum policial ir atrás dele, como a gente já tinha acertado.
Assenti. Meu irmão era tudo pra mim, desde que toda aquela loucura começou, foi a primeira vez que senti culpa, quando pensei em Luke. Meus pais passavam o tempo todo viajando, eram carinhosos, mas ao mesmo tempo eram ausentes, por um lado era bom porque facilitava o nosso trabalho, mas por outro eu sentia falta deles. Durante a maior parte do tempo, eu só tinha o meu irmão e éramos muito unidos. Quando eu quis entrar no meio disso tudo, ele relutou muito, afinal um de nós em perigo já era o suficiente, mas quando eu me encontrei no meio das investigações e ele viu que eu realmente amava fazer isso, não pode mais me impedir. E assim chegamos até aqui, Lucas estava a 5 anos no FBI e eu a 2, era esperta demais para fazer somente trabalho de escritório, com menos de um ano já tinha virado a gente de campo, e eu amava aquilo.
Olhei para Clarice e sorri, às vezes eu me perdia pensando nessas coisas. Ela namorava com meu irmão desde a adolescência, nós éramos vizinhas e crescemos juntos, naquela época mal sabíamos que terminaríamos todos metidos na mesma equipe trabalhando no FBI. Diferente de mim, ela odiava o trabalho de campo, mas tinha a vantagem de ser uma hacker muito boa, o que lhe permitia ficar fora do radar.
Clarice vinha de uma família que exercia a lei, seus avós serviram a marinha e seus pais serviram no exército, eram herois. Ela seguiu no caminho a favor da lei, embora de outra maneira. Sua escolha era completamente diferente da de seu irmão, ele era...
Tive meus pensamentos interrompidos pelo barulho da porta, minha amiga que quase cochilava na cadeira, se virou para olhar. Quando a porta abriu de vez meu sorriso foi se desmanchando, e seu nome escapou pela minha boca antes mesmo que eu pudesse pensar.
— Aaron.
Quando vi a expressão nada amigável de Aaron, sua cara fechada me dava um leve sinal do que eu poderia esperar nos próximos minutos.
— Clarice — ele chamou a irmã, apontando a cabeça na direção da porta, ainda sem me olhar nos olhos.
— Ok — ela levantou sem a menor cerimônia, entendendo o que ele queria.
Segurei o braço da minha melhor amiga, em um pedido silencioso para que ela ficasse até eu ter certeza de que as coisas não fossem seguir um rumo muito ruim, mas sabia que não adiantaria. Ela deu um beijo na minha testa e saiu a passos lentos do quarto, pude perceber ela murmurando um "pega leve" para Aaron antes de fechar a porta. Se Clarice tinha brigado comigo, a coisa com ele seria muito mais séria.
Me ajeitei na cama, tentando ficar o mais ereta possível enquanto Aaron caminhava em minha direção finalmente me olhando. Seus olhos queimavam de fúria, eram raras as vezes em que eu conseguia tirar ele do sério, normalmente no trabalho nos dávamos bem em 90% do tempo, mas daquela vez ele parecia estar com raiva de um jeito que eu nunca tinha visto.
Só notei que estava prendendo o ar quando precisei fazer força para respirar, o monitor cardíaco disparou como louco quando ele estava a apenas alguns passos da cama. Me preparei para começar a me justificar quando Aaron tomou a atitude que eu menos esperava, eliminando qualquer espaço entre nós.
Aconteceu tão rápido, eu mal pude me dar conta de quando fui tomada pelos seus lábios, não sei quando ele se sentou na cama e eu cedi ao seu beijo, mas fiquei com raiva de mim mesma. Droga, tanto esforço jogado fora, eu não tinha percebido o quanto havia sentido falta do seu toque até aquele momento. Uma de suas mãos passeava pela minha cintura enquanto a outra permanecia agarrada aos meus cabelos, mantendo meu rosto colado ao seu. Eu sabia que aquilo era errado. Eu entendia o desespero dele, mas aquilo não era justo comigo.
Coloquei a mão no peito dele e o afastei de leve, mantendo o rosto baixo na tentativa de esconder as lágrimas que ameaçavam sair. Depois disso, não demorou muito para que ele se afastasse por completo, Aaron estava quase ofegante, mas tentava sustentar uma expressão mais séria — o que não estava dando muito certo, já que eu o conhecia muito bem.
Com Aaron afastado de mim, pude finalmente reparar no monitor cardíaco de novo, lá estava ele disparando como louco novamente, acho que eu não estava muito diferente do homem próximo a mim. Coloquei a mão no peito tentando controlar a minha respiração, até que Aaron se levantou e apertou o botão para silenciar o aparelho, atitude inteligente, pois se aquela coisa não parasse de fazer barulho logo uma enfermeira viria até o quarto e o colocaria para fora dizendo que ele estava me agitando e eu precisava de repouso, o que de certa forma não era mentira.
Ao invés de se sentar novamente, vi ele se dirigir até o outro lado do quarto e encher um copo de água no filtro que ficava ali. Não sei se era resultado das pancadas ou dos últimos acontecimentos, mas eu andava muito perdida nos meus pensamentos desde que havia acordado do acidente, não vi quando ele voltou para perto de mim, no momento em que eu voltei para Terra, ele já estava sentado na poltrona, me estendendo um copo de água.
Bebi aquilo o mais devagar possível, sabendo que assim que acabasse, eu levaria uma bronca e ele tentaria me demitir, mas infelizmente o copo não era tão grande. Depois do último gole, não havia mais como adiar aquela conversa.
— Vai, pode começar. Clarice já me passou um sermão, é a sua vez.
— Eu não sei o que dizer pra você. — Arqueei a sobrancelha, ouvindo sua resposta. Não consegui decifrar seu tom de voz.
— Você entrou com uma das piores caras que já te vi fazendo e agora me diz que não sabe o que dizer?
— Você é uma filha da puta, — disparou enquanto esfregava a testa — Eu entrei aqui pronto pra brigar com você e dizer umas boas verdades que você com certeza tá merecendo escutar, mas você me desarmou completamente quando eu te vi. — Sua voz continha um tom de raiva que crescia a cada palavra. — Você por acaso parou pra pensar nas pessoas que gostam de você enquanto quase se matava naquele quarto?
Levantei a cabeça, engolindo todas as minhas lágrimas, ele não tinha o direito de falar daquele jeito comigo, nem como homem e nem como chefe. Encarei ele de forma séria, obrigando a minha voz a sair o mais firme possível.
— Eu sei que passei dos limites, mas minha intenção não era me machucar tanto. E eu também não seria estúpida ao ponto de tentar me matar. — disse sincera
— Eu sei. Quero deixar bem claro pra você também que esse é o único motivo de você ainda ter um distintivo. Você arriscou sua vida para conseguir chegar ao fundo de um caso e não seria justo afastar você agora. Mas saiba que foi a última vez que eu te designei para fazer algo assim. Você não tem juízo.
Concordei com a cabeça, eu já esperava aquilo. Mas pelo menos ainda tinha o meu emprego e continuava naquela missão.
— Obrigada por reconhecer meu sacrifício. — respondi de forma irônica enquanto ele permanecia sério.
— Não tem graça, . Você poderia ter morrido.
— Aaron — falei séria — EU-JÁ-SEI. — Começava a perder a paciência com aquilo. — Todo mundo vem aqui e me fala isso, eu já sei que poderia ter morrido. Por quê ao invés de bater na mesma tecla você não…
— Você não tem jeito mesmo. — Aaron me interrompeu bufando. Hoje os irmãos Smith decidiram testar a minha paciência, só faltava entrar naquele quarto de novo para que eu explodisse de vez.
Respirei fundo tentando me manter calma.
— Eu amo você — sussurrou — Não me assuste mais assim.
— Será que você pode parar de me dizer esse tipo de coisa? - Respondi brava. Quando ele ia entender que não tinha esse direito?
Antes que ele pudesse me responder, ouvimos um barulho na porta, era Annie, com seu sorriso amigável.
— Por que isso está mudo? — Questionou com a voz tranquila enquanto mexia no monitor, ligando o som dele novamente.
— Desculpa, eu pedi para minha amiga desligar antes de sair. O barulho estava me dando dor de cabeça.
Annie apenas assentiu, acreditando na minha mentira
— Preciso que o som fique ligado, do contrário, se ocorrer algo e você estiver sozinha, ninguém virá te socorrer — concordei. — Sua cabeça ainda dói?
— Um pouco, mas tudo bem. Se puder me dar um analgésico, estou com um pouco de dor na cintura também, nas costelas.
— Tudo bem.
Vi Annie mexer no armário que permanecia trancado e tirar de lá o que supus ser um analgésico. Tomei assim que ela me entregou o comprimido junto com um copo de água. Depois de checar que estava tudo certo, ela se retirou do quarto.
— Desculpa. Como você está? Sem mentiras.
— Eu só não posso fazer movimentos muito bruscos, às vezes rir dói um pouco também. Mas no geral, acho que estou bem.
Ele assentiu e ficou em silêncio por alguns minutos, depois ele fez aquela expressão de quando queria me dizer algo e não sabia como, se inclinou umas quatro vezes para frente e desistiu. Não era nada agradável pelo jeito.
— Fala.
— Não dá pra esconder nada de você mesmo, né? — ele riu sem humor — Olivia quer te ver.
— Não.
— , ela não sabe de nada. Pra ela você foi realmente atacada, ela ficou preocupada. Olivia nem sabe que você trabalha comigo, imagina o susto que ela tomou quando a Clarice disse que você estava em coma.
Eu evitava qualquer contato próximo com Olivia, depois daquela noite era muito difícil estar perto dela sem me sentir um lixo humano. Às vezes eu achava que eu nunca iria me perdoar.
— Já fazem anos, — ele voltou a falar, antes que eu pudesse abrir a boca. — Ela nem sabe o que aconteceu. Você sabe quantas vezes ela me perguntou se tinha feito algo pra você se afastar de repente?
Revirei os olhos. Aaron não tinha um pingo de vergonha na cara, com certeza não sentia nenhum remorso também.
— Você quer que eu diga o que pra ela? — Continuou. — "Olha Olivia, ela não quer te ver porque se sente mal toda vez que olha pra você porquê lembra que transou com seu marido." É isso que você quer que eu fale?
— Cala a boca, Aaron — respondi já alterada. Ele adorava tocar no assunto, mas nunca mencionava a parte em que ele havia me enganado.
Fechei os olhos, lembrando do que aconteceu na casa de Clarice a alguns anos atrás.
Flashback — 5 anos atrás.
Estávamos comemorando com um grupo de amigos o fim do nosso período na faculdade e algum ímbecil decidiu que iríamos jogar o jogo da garrafa. Metade do nosso grupo já se encontrava ligeiramente bêbado, exceto por mim e meu melhor amigo, Clarice acabava de virar outro copo, já bastante fora de si. Kyle se levantou e foi até a cozinha, provavelmente atrás de comida.
No centro do tapete, a garrafa girou novamente e terminou apontada para mim.
— Vamos lá — começou Clarice, que havia girado a garrafa — Com quem Jude perdeu a virgindade?
Ok, por aquela eu não estava esperando, mas eu sabia porque ela fez aquilo. Eu nunca contei para minha melhor amiga com quem eu perdi a virgindade, não por não me sentir confortável ou algo do tipo, mas a outra pessoa envolvida não era muito fã de Clarice. Logo eu imaginei que ele não ia querer a minha melhor amiga por dentro de sua intimidade.
— Desafio — respondi.
— Ok, vai lá no quarto do meu irmão e da Oliva e chama eles pra um ménage — arregalei os olhos. — Mas você tem que ir de lingerie e tem que descer com um deles aqui.
O QUE? Olhei pra Clarice com um pouco de desespero e ela ria sem parar, já estava tão bêbada que parecia ter perdido completamente a noção.
Eu poderia simplesmente ter recusado e ido embora, mas em um ato de estupidez, eu aceitei o desafio. Acho que era ok fazer certas estupidezes quando se tem 19 anos. Tirei minhas roupas e corri seminua em direção aos quartos, tentando me esconder em minha própria lingerie enquanto eles voltavam a girar a garrafa. Minha ideia era passar no quarto de Clarice antes, pegar qualquer roupa e bater na porta do casal só atrás de Olivia, sabia que ela mentiria que eu cumpri o desafio. O problema foi que quando eu cheguei perto do quarto da minha melhor amiga, Aaron estava abrindo a porta do seu, me encontrando de lingerie no meio do caminho.
Abri a boca várias vezes mas não consegui dizer nada, estava constrangida por estar seminua e não conseguia tirar os olhos do corpo, que se encontrava somente com uma toalha na cintura. Seus olhos passaram descaradamente pelas minhas curvas e ficaram um bom tempo parados nos meus seios cobertos pelo sutiã, que eu tentava tampar sem sucesso.
— Preciso falar com a Olivia — disparei, obrigando meus olhos a se manterem na porta atrás dele.
— O-Olivia n-não está — ele gaguejou, provavelmente tão constrangido quanto eu. Ele pigarrou umas duas vezes e virou a cabeça para o lado. — Você quer alguma roupa dela emprestada?
Porque é que eu ainda estava ali? Parecia que minhas pernas tinham travado. Mas eu sabia o que me impedia de correr — a atração que eu senti por Aaron durante toda a minha adolescência. Era ridículo, ele tinha 6 anos a mais que eu e nunca me deu bola. E eu sempre mantive o respeito pelo fato dele ter namorada e agora era um homem casado.
— ? — ele chamou novamente.
Chacoalhei a cabeça saindo dos meus devaneios e tirando olho das suas entradas.
— Eu... eu
— Você...? — não dava, eu voltei a encarar seu corpo perfeitamente definido. Vendo que eu não respondia, ele me chamou de novo. — ? Acho melhor você entrar e se vestir.
Ele se afastou, dando passagem para que eu entrasse no quarto, mas eu não sabia se aquilo era uma boa ideia. Agora, Aaron não era só um rosto bonito, era um corpo extremamente gostoso e convidativo. Eu permaneci travada na porta até ver ele esticar a mão na minha direção com uma camisa, sua camisa. Entrei no quarto aceitando a camisa e a vesti o mais rápido possível, Aaron era muito mais alto do que eu, logo a peça cobriu meu corpo até quase o joelho, o que era um alívio. Não tive coordenação motora para fechar os botões, então só cruzei os braços tentando tapar o máximo possível, estava morta de vergonha e queria correr dali, só que minhas pernas continuavam sem me obedecer. Observei o rapaz bastante calmo à minha frente, enquanto ele vestia uma calça de moletom por baixo da toalha.
— Quer me contar porque subiu aqui assim? — Aaron sentou no pé da cama, sua voz estava séria, apesar do seu tom de voz ser o de sempre.
Porque eu sou idiota.
— Eu... — respirei fundo e olhei pra cabeceira da cama, tentando não olhar pro seu peito sem camisa — eu não quis responder a uma pergunta e me desafiaram a vir aqui só de lingerie chamar vocês pra um ménage.
Aaron começou a rir, uma risada extremamente sexy. Ele sempre riu daquele jeito e eu nunca percebi?
— Você ia mesmo fazer isso? — Questionou enquanto continuava rindo.
— Não, eu ia até o quarto de Clarice e depois eu ia chamar Olivia pra que ela dissesse que eu crumpi o desafio. Ninguém precisava saber que era mentira — eu gesticulava enquanto falava, um pouco nervosa, tinha quase certeza de que acabei fazendo uma careta também.
Aaron umedeceu os lábios, tentando esconder um sorriso e eu vi que realmente precisava sair dali, meus hormônios começavam a mexer comigo e com minha sanidade.
— Acho melhor eu ir — comecei a falar e dei um passo em direção a porta. Por ironia do destino, eu tropecei em um cinto que estava no chão e cai para frente, fechei os olhos para evitar medir o tombo que ia levar, mas Aaron foi mais rápido e me segurou antes que eu atingisse a madeira da cama. O problema foi que ele acabou me puxando para o seu colo.
Droga, droga, droga, droga.
Eu estava sentada em seu colo seminua. Aaron me olhava cheio de luxúria, com os lábios entreabertos e parecendo cheio de desejo. Seus cabelos molhados pingando água em seu peito deixavam a situação ainda mais sexy. Minha respiração ficou descompassada, eu tive que lembrar a mim mesmo que ele era casado. Quando juntei forças para me levantar, ele segurou meu braço, me mantendo sentada sobre ele.
— Porque você não fica? — Ele sussurrou no meu ouvido, fazendo meu coração acelerar.
— Casado — falei, sem conseguir raciocinar direito. Tentei me levantar outra vez, mas Aaron me segurou novamente.
— Então hoje é seu dia de sorte — seus lábios passaram pelo meu pescoço, e ele segurou meu rosto, fazendo com que eu encarasse seus olhos. — Olivia foi para a casa dos pais dela porque a gente tá se separando.
Meu coração acelerou novamente. Divórcio. Eu poderia ceder ao que nossos corpos queriam sem culpa? Sem magoar outra pessoa? Sua boca roçou novamente no meu pescoço, e foi o suficiente para que eu cedesse. Não haveria motivo de culpa se eles estavam se separando.
Soltei o peso do meu corpo sentando de vez em seu colo, sentindo um certo volume no lugar. Uma de suas mãos escorregou pelas minhas costas enquanto a outra subiu pelo braço até chegar no meu pescoço. Aaron ficou tão próximo do meu rosto que seus lábios roçaram o meu quando ele foi falar.
— Você não está bêbada, está? — Sua voz era um sussurro sexy, provocativo, parecia proposital.
O jeito que ele falava fez meus hormônios gritarem dentro de mim, acabei me movimento em seu colo involuntariamente, sentindo uma excitação no meio das minhas pernas.
— Dois copos de tequila — respondi baixinho.
Sua boca subiu até meu ouvido, enquanto a mão que estava em meu pescoço parou na gola da blusa. Deslizei meus braços pelo seu pescoço e senti seu olhar queimar novamente nos meus.
— Me diz seu nome — sussurrou novamente — e quantos anos você tem.
Seu nariz passou pelo meu pescoço, me provocando arrepios de cima a baixo.
— Meu nome é Jude — devolvi o sussurro, pressionando minha intimidade contra sua ereção que crescia cada vez mais. — Tenho 19 anos e eu juro que não estou bêbada — respondi, mordendo o lóbulo de sua orelha esquerda.
Foi o suficiente para que ele terminasse de tirar a "minha roupa". Aaron colou seus lábios nos meus, sua boca era tão gostosa quanto eu havia fantasiado na minha adolescência, sua língua se entrelaçava à minha com pressa e sua mão em minhas costas me puxava cada vez mais para si. Entrelacei minhas pernas em sua cintura terminando com qualquer espaço entre nós.
— Isso é tão errado — disse baixinho enquanto ria.
Me afastei, encarando-o. Ele não podia estar mentindo. Quando viu que eu fiquei séria, ele abriu a boca mas demorou um pouco para falar.
— Você tem 19 anos — começou — é melhor amiga da minha irmã, é um erro. — Respirei aliviada, pensei que ele ia dizer algo sobre seu término com Olivia não ser algo certo. — Mas é um erro que eu quero cometer — completou, me beijando novamente.
Meu corpo queimava, Aaron passou a beijar meu pescoço e instintivamente eu comecei a rebolar em seu colo, eu sentia minha intimidade cada vez mais úmida. Passei minhas mãos pelo seu peito, descendo devagar e arranhando levemente suas entradas enquanto seus lábios iam em direção aos meus seios ainda cobertos pelo sutiã. Encontrei o elástico de sua calça e puxei para baixo, entendendo o que eu queria ele puxou a peça de uma vez, sem desgrudar os lábios do meu corpo. Procurei sua boca novamente, cada vez mais excitada com sua ereção raspando em minha intimidade através da calcinha. Senti sua mão abaixar a alça do meu sutiã e rebolei mais em seu colo, incentivando para que ele eliminasse qualquer peça de roupa logo.
Para a minha surpresa ele se levantou comigo no colo, só pra me jogar na cama logo depois. Ainda de pé ele encarou meu corpo de cima a baixo, passando a mão nos cabelos e puxando para trás, ele riu sem emitir som nenhum.
Vi Aaron correr até a porta e escutei o barulho da chave logo depois. Quando ele se virou ainda sorrindo, eu decidi acelerar as coisas, me ajeitei na cama pra abrir o sutiã e me livrei daquela parte da lingerie o mais rápido possível. Aaron parou na metade do caminho, admirando a visão, logo eu fui pega completamente desprevenida quando ele decidiu tirar a única peça de roupa que ainda lhe restava no meio do caminho, eu mal pisquei e ele já estava em cima de mim distribuindo beijos por todas as partes do meu corpo.
Sua mão que estava em minha coxa subiu um pouco e se enroscou em minha calcinha, torcendo o tecido na lateral.
— Tem certeza de que quer fazer isso?
— Você não quer? — arqueei as sobrancelhas, um pouco confusa.
— Eu to perguntando se VOCÊ quer.
Assenti. Se ele estava se separando, não haveria motivos para remorso.
Aaron tirou a minha calcinha da mesma forma que havia feito com a camiseta antes, eu sentia meu corpo se arrepiar cada vez que sua mão encostava em minha pele. Ele se inclinou de leve, procurando uma camisinha na gaveta da mesinha próxima a cama.
Perdi o ar quando seu corpo se encaixou novamente no meu e ele buscou espaço entre minhas pernas. Aaron me pegou de surpresa e me penetrou de uma vez só, me fazendo soltar um grito que era mais de dor do que prazer, ele fez menção de sair de dentro de mim quando olhou pra mim, imaginei a cara péssima que eu deveria ter feito, mas o impedi fincando as unhas em seus ombros e beijando sua boca do jeito mais apressado possível. Ele começou a se movimentar devagarinho enquanto eu fazia o máximo pra disfarçar a careta, não é que eu não estivesse gostando, só não conseguia me sentir relaxada o suficiente, ainda mais depois de ter sido pega desprevenida.
Ele soltava gemidos e palavras sem sentido, mas sem descolar sua boca da minha. Suas mãos rápidas levaram uma de minhas pernas até seu quadril, parecia uma posição mais confortável e se eu pressionava minha perna ali, podia sentir seu corpo mais próximo ao meu. Quando ele começou a gemer um pouco mais alto, eu já não sentia tanto desconforto e começava a aproveitar mais, parecia que quanto mais excitada eu ficava, mais meu corpo relaxava. Deixei alguns gemidos escaparem e acho que isso acabou motivando Aaron a ir mais forte, imaginei que ele não fosse demorar muito para gozar e eu me recusava a não ter um orgasmo com ele. Levei minha mão até minha intimidade, esfregando de leve enquanto ele me penetrava. Me lembrei das vezes em que me toquei pensando nele durante a minha adolescência, e agora ele estava ali, dentro de mim. Intensifiquei o movimento nos meus dedos, sentindo alguns espasmos chegarem. Não levou nem 10 segundos para que eu gozasse depois disso.
Aaron me penetrou mais algumas vezes,e quando ele chegou ao seu ápice, tive certeza de que se eu me tocasse novamente, gozaria em menos de um minuto só por escutar seu gemido. Ele investiu mais algumas vezes e depois saiu por completo, se afastando de mim com selinhos.
— É melhor eu voltar para sala.
— Fica, se ninguém deu sua falta até agora é porquê já devem estar desmaiando de tanto beber.
— Você sabe que sua irmã tá no meio desses bêbados, né? — disse rindo.
Aaron por sua vez puxou os cabelos para trás e soltou o ar pesadamente, pensando na minha melhor amiga que a essa hora poderia estar vomitando no tapete.
— Ai Clarice, Clarice. Só me dá trabalho. Se o Lucas estivesse por perto ela .... — ele parou de falar, ficando sério de repente — Meu Deus. Lucas. Seu irmão não pode saber disso, ele não pode nem sonhar que você dormiu comigo.
Eu comecei a dar risada. Ele estava pensando o que? Que eu pretendia anunciar pros mais chegados que havia passado a noite com ele?
— Aaron pelo amor de Deus — comecei ainda rindo — você acha que eu vou chegar no meu irmão durante o almoço e falar "Boa tarde, Lucas. Eu transei com seu melhor amigo casado ontem, mas tá tudo bem porque ele está se divorciando"? Eu não pretendo falar disso nem mesmo com a Clarice.
Ele riu, vendo que eu dizia o óbvio e se aproximou pra me beijar de novo.
— Dorme aqui. Antes da Clarice subir você vai pro quarto dela e diz que passou a noite lá.
Concordei, pensando em desfrutar mais um pouquinho da companhia (e do corpo) de Aaron.
Flashback off
Depois que eu saí do quarto de Aaron naquele dia, nós não tocamos no assunto por dias, até que Olivia voltou e disse que já não era necessário continuar cuidando de sua tia, uma vez que ela já se encontrava bem. Aaron havia me enganado.
Me lembro de como me senti suja, estava na sala dos Smith conversando com Clarice quando a sua cunhada entrou atrás do marido. Tive vontade de vomitar, me recusava a acreditar que eu tinha sido tão ingênua. Contei para Clarice o que tinha acontecido algumas semanas depois, fiz ela prometer que não contaria nada a Lucas e nem tocaria no assunto com o irmão dela. Depois de muita conversa e uma série de reclamações, ela concordou. Se guardar um segredo do namorado era difícil para ela, esconder aquilo da cunhada era o oposto, Clarice não suportava Olivia. Eu nunca entendi o porquê, ela sempre me pareceu boa pessoa, mas ela dizia que Olivia era insuportável com suas regras e Aaron a deixava mandar na casa e em todo o resto, imaginei então que a convivência era outra coisa.
Depois do acontecido, passei a frequentar a casa do Smith só quando era necessário, tinha vergonha de Olivia e tanta raiva de Aaron que eu queria que ele explodisse. Ele tentou me procurar algumas vezes depois, mas eu me recusava a falar com ele. Para a minha má sorte, aquilo não durou muito, já que quando eu entrei para o FBI, descobri que teria que me reportar a ele, não havia como uma novata ter tanto azar.
Com Olivia, foi um pouco mais fácil já que eu não tinha que trabalhar com ela. Mas ainda assim, quando ela voltou, aconteceu uma situação que me deixou ainda mais triste. Ela me procurou uma semana depois de voltar, disse que precisava de ajuda com um assunto e eu deveria ser discreta, já que nem Aaron e nem Clarice deveriam saber, como se tratava de algo muito pessoal, queria que eu a acompanhasse, já que "era praticamente da família". Se tratava de uma bateria de exames, pois o médico estava desconfiado de uma condição grave em seu coração. Não tive como recusar.
Pra piorar a situação, chegando lá ela teve uma crise e ficou dizendo que não queria fazer os exames , até que o médico teve a infeliz ideia de me pedir que eu fizesse os exames junto para motivá-lá. Por pura culpa eu acabei aceitando, fiquei ainda mais triste quando pegamos os exames alguns dias depois e os resultados de Olivia eram tão ruins, que eu desejei estar no lugar dela. Ela tinha uma condição gravíssima no coração e o médico disse que pequenas situações de estresse e nervosismo poderiam levá-la à morte. Ela me fez jurar que não contaria aquilo a ninguém, não fui capaz de negar.
Me perdi nos pensamentos e só me lembrei da presença de Aaron no quarto quando o celular dele começou a tocar.
— Oi Oli. — era ela. — Ela tá bem dentro do possível, mas não quer receber visitas, me botou pra fora do quarto assim que eu entrei — mentiu, me encarando — Eu não sei, ela tá muita machucada e você sabe como ela é, nem a Clarice ela deixou ficar muito tempo no quarto com ela.
Aaron comentou mais um pouco sobre meu estado com a esposa, até que ela finalmente pareceu desistir da ideia de me visitar e ele desligou o telefone.
— Desculpa.
Concordei com a cabeça, não tinha muito o que dizer sobre. Olivia não sabia de nada, o problema era minha culpa.
— Sobre o que trouxe a gente até aqui, o depoimento da Clarice foi o suficiente pra deixar os dois policiais que estão à frente do caso intrigados e continuar a investigação, os dois vão vigiar você e vão fazer sua segurança também. Eles têm certeza que seu irmão é um peixe grande e vai acabar indo te encontrar em algum momento, também temem outro ataque, o que não vai acontecer, mas eles não precisam saber disso.
Assenti, e ele continuou falando.
— Você precisa ser muito convincente com o seu depoimento, precisa deixar eles mais intrigados ainda. Depois você vai precisar se aproximar aos poucos e conseguir o máximo de informação possível. Tem alguém na polícia que é muito grande dentro dessa organização criminosa e essa é a nossa única chance de descobrir quem é. Se a gente conseguir chegar até essa pessoa nós podemos acabar com tudo, um cartel inteiro. Se essa conversa fosse a alguns dias atrás eu nem precisaria falar isso, mas como você tem se mostrado bastante imprudente, estou te pedindo por favor pra você tomar muito cuidado, pois pode ser um desses dois também.
Pensei em Nicolás, tinha certeza que ele não estava metido em nada disso. Já era uma incógnita e ia ser muito difícil me aproximar para arrancar informações. Não comentei nada com Aaron sobre Nicolás, preferi guardar minhas certezas só para mim, já tinha o suficiente com os questionamentos de Clarice.
Escutei batidinhas na porta e depois de autorizar a entrada, vi Nicolás adentrar o ambiente.
— Com licença. — ele definitivamente precisava ensinar seu bons modos para . Ri baixinho quando ele cumprimentou Aaron com um aceno da cabeça, lembrando dos comentários de Clarice um pouco mais cedo. Ele caminhou até perto do monitor. — Você precisa dar seu depoimento. Eu tentei segurar mais um pouco, mas é ...
— Insuportável — interrompi, rindo.
— Eu ia dizer impossível, mas às vezes insuportável também serve.
Ele me acompanhou rindo, e eu não pude deixar de perceber o olhar intrigado de Aaron, que parecia questionar tanta intimidade.
— Posso chamar a investigadora que vai colher seu depoimento?
— Sim, quanto antes a gente fizer isso melhor pra eu poder ficar em paz.
Vi ele olhar para o homem de terno sentado ali e depois voltar o olhar para mim, com uma pergunta silenciosa.
— Tudo bem, ele pode ficar.
— Ok. Antes de eu sair, alguém já conversou com você sobre como as coisas vão ficar depois que você sair do hospital?
Aaron ergueu a sobrancelha mais uma vez. Nicolás se dirigiu a mim por "você" e não por "senhorita". Nós tínhamos eliminado as formalidades, mas as outras pessoas não sabiam disso. Quando eu ia responder a pergunta do policial, ele tomou a palavra.
— Eu contei a ela — disse, ajeitando o paletó — não se preocupe. E eu também pretendo ficar de olho nela. — sua voz era firme e ele falava cada vez mais sério. — é alguém por quem eu tenho muito apreço e seu irmão era meu melhor amigo antes de se meter com coisas erradas. Ela não está sozinha.
Aaron estava sendo ridículo sem motivo algum, eu ia ter que deixar o meu medo de uma demissão de lado e começar a colocar ele em seu lugar. E qual era o problema dos Smith com aquele policial?
— Não temos a intenção de deixá-la isolada de ninguém — Nicolás respondeu no mesmo tom. — Mas a segurança dela é assunto da polícia, pode ficar perto o quanto quiser desde que não atrapalhe nosso trabalho. Com licença.
Ele deixou o quarto logo depois. Aaron estava pronto para começar seu interrogatório, mas já havia sido demais por um dia, que aliás ainda estava na metade.
— Nem começa. Quando é que você vai entender que eu não sou...
Não deu tempo de terminar, uma morena alta bateu a porta para colher meu depoimento. Repeti todo o combinado, reforçando o depoimento de Clarice e me fiz de coitada o máximo possível. Estava feito.
Já faziam duas semanas e meia que eu estava no hospital, passei a me xingar mentalmente todos os dias por aquilo, não aguentava mais ficar presa a quatro paredes. Eu já conseguia ficar de pé sozinha e caminhar um pouco, não entendia porque não podia ir para casa.
A única pessoa mais sem paciência do que eu naquele hospital, era . A convivência era insuportável (assim como ele), ele deixava bem claro que estava ali contra a sua vontade e trocava o mínimo de palavras possíveis comigo. Nicolás andava muito ausente por algum motivo que eu não sabia e o outro policial ficava responsável pela minha segurança na maior parte do tempo. Toda vez que eu pensava que teria que conviver com e sua ignorância dentro da minha própria casa, eu tinha vontade de estourar meus miolos. E isso sem falar que ainda teria que dar um jeito de me aproximar dele e ganhar sua confiança.
Eu odiava pessoas com aquele ar de arrogância, e desde o começo meu santo não havia batido com o seu, talvez por isso eu tivesse começado a implicar com ele.
Nesse momento eu estava sentada na cama com um dos livros que Clarice havia me trazido, enquanto o digníssimo policial permanecia sentado na cadeira perto da porta. Aliás, essa cadeira era a mesma que ficava ao lado da minha cama, mas que ele fazia questão de arrastar para bem longe de mim toda vez que ficava de guarda no meu quarto, como se eu tivesse alguma doença contagiosa, ridículo.
Voltei a atenção para o meu livro, mas acabei desistindo da leitura quando vi que havia lido 4 vezes seguidas o mesmo parágrafo e as palavras continuavam sem sentido algum para mim. Fechei o livro e comecei a tamborilar os dedos na capa, pensando em algo que me ajudasse a sair do tédio, fiquei quase quinze minutos assim, até que algo passou pela minha cabeça. Se funcionasse eu poderia ganhar duas coisas de uma vez só.
— — chamei, fazendo com que ele passasse a atenção de seu celular para mim, a habitual cara de merda que sempre fazia quando me olhava, estava de novo ali — Tenho uma proposta para te fa..
— Não — me interrompeu antes que eu pudesse terminar, voltando a mexer no celular.
— Você nem sabe o que eu ia falar — retruquei indignada.
Sério, aquele cara era detestável, como Nicolás conseguia trabalhar com ele era uma incógnita que meu cérebro parecia não ser capaz de decifrar. E ele me deu um nó maior ainda quando me contou que havia conhecido na faculdade e que eles eram melhores amigos desde então, sério, como alguém tão legal poderia ser amigo por tanto tempo de alguém tão insuportável?
— Não faço tratos com gente problemática. — falou com um sorrisinho cínico sem desgrudar os olhos do aparelho em sua mão.
Ah não, agora ele passou dos limites.
— Do que é que você me chamou?
— Você não é surda, ouviu muito bem.
Sentei com os pés pra fora da cama e me ajeitei, arremessando o objeto que estava em minha mão na sua direção. Eu tinha uma ótima mira, sorri debochada quando o livro de 500 páginas acertou seu rosto em cheio. Já que ele me chamou de problemática, então eu iria dar motivos de verdade pra isso.
— Argh — urrou assim que o livro lhe atingiu — SUA MALUCA.
Vi cobrir o rosto e massagear o nariz, com certeza tinha doído. O celular que estava em sua mão havia caído no chão e se espatifado.
— QUAL É SEU PROBLEMA GAROTA — esbravejou já de pé, com o livro na mão.
— O meu problema é você, eu fui falar com você numa boa mas você é um grosso insuportável.
— PRO-BLE-MÁ-TI-CA — me insultou outra vez, me deixando mais irritada.
Olhei para a mesinha do lado da cama e peguei outro livro para jogar nele, que acabou desviando. Quando eu ia jogar o terceiro, infelizmente ele já tinha chegado até mim e segurou meu braço, me fazendo soltar o objeto no chão. Encarei seu rosto já bastante irritada e fiz questão de que minha expressão mostrasse o quanto ele me deixava puta. Meu Deus aquele cara me tirava do sério, eu não era assim.
Ele soltou meu braço e abriu a boca para falar, mas acabou desistindo quando algo começou a escorrer pelo seu nariz. Sangue.
— Ai meu Deus...
Tapei a minha boca numa tentativa boba de esconder minha cara de espanto, acho que eu havia quebrado seu nariz. Que merda, eu estava pedindo pra ser presa. Mas a culpa era dele, com que direito ele falava daquela forma comigo? Totalmente culpado. Droga, como eu ia me aproximar para arrancar informações dele depois daquilo?
— , me desculpa, eu não achei que ia machucar assim — levantei da cama devagar e fiz menção de me aproximar, mas ele logo me afastou com a mão que estava livre.
— Não chegue perto de mim — ele estava furioso — Você é louca.
— Tá vendo, é por isso que eu joguei o livro em você, idiota.
Sai de perto dele revirando os olhos, ele era mesmo um ridículo. Fui até o banheiro e procurei pela bolsinha de primeiros socorros que havia visto ali a alguns dias atrás, voltando com ela para o quarto.
— Senta — disse apontando pra cama.
olhou para a bolsinha na minha mão e começou a rir.
— Você realmente deve ser maluca pra achar que eu vou deixar você chegar perto do meu rosto depois de quebrar o meu nariz. — Ele cobria metade do rosto enquanto falava, tentando estancar o sangue que já começava a escorrer por suas mãos.
Coloquei a necessaire na cama já sem paciência alguma. Eu não deixaria ele sair dali com o nariz daquele jeito, era tudo o que ele precisava pra me prender por desacato e acabar com meus planos. Ele iria conhecer meu lado autoritário mais cedo ou mais tarde, então que fosse naquele momento.
— Você vai sentar nessa droga de cama agora e vai me deixar consertar essa porcaria que você chama de nariz antes que eu decida quebrar outro osso seu — esbravejei.
— Já disse que não — respondeu, se afastando mais de mim. — E como se uma garota como você soubesse colocar o nariz de alguém no lugar, faça me o favor.
Ok, seja feita a minha vontade. Ia ser na marra. Me aproximei de com a cara mais cínica que consegui fazer, tentando disfarçar a raiva, ele nem se moveu, provavelmente achando que eu só iria gritar mais um pouco. Fiquei cara a cara com ele e com um puxão rápido, afastei a mão ensanguentada que cobria seu nariz e coloquei as minhas no lugar. Quando ele tentou segurar meus braços, já era tarde, minhas mãos empurravam uma de cada lado do osso de seu nariz em direções opostas, fazendo com que ele se encontrasse novamente. Não era o modo correto, muito pelo contrário, mas quando você vive metida em situações de conflito, você aprende a consertar algumas coisas de modo rápido e bruto. Ele poderia consultar um médico depois.
gritou assim que eu coloquei seu nariz no lugar, ele arfava com as mãos no rosto. Colocar o nariz no lugar doía muito mais do que quebrá-lo. Fui até o banheiro limpar o meu braço que ele havia sujado de sangue, achei melhor dar espaço para que ele se recuperasse da dor. Coloquei meu braço embaixo da água e deixei ela correr ali levando todo o sangue consigo, quando já estava com os braços limpos e ensaboados, sequei com as toalhas de papel e peguei mais algumas para levar para o quarto, sabia que iria precisar.
Aproveitei o momento para jogar uma água no rosto e prender o cabelo em um rabo de cavalo enquanto encarava meu reflexo no espelho; não estava 100%, mas também não tinha mais a aparência tão detonada como antes, o que para mim era um alívio.
Quando voltei, ainda estava na mesma posição, mas já respirava de forma mais calma e havia parado de urrar de dor.
— Vai me deixar olhar seu nariz agora ou quer me chamar de maluca de novo? — Coloquei as toalhas de papel junto com a bolsa de primeiros socorros, me encostando na cama de um modo que ficasse de frente para ele.
— Como demônios você saber fazer isso? — me olhava incrédulo. Ele não fez questão nenhuma de esconder a raiva na sua voz.
— Meu irmão me ensinou — respondi, cruzando os braços enquanto dava um sorrisinho debochado — Vai continuar parado aí com esse monte de sangue?
chacoalhou a cabeça em negação, mas andando até a cama. Dei espaço para que ele se sentasse e coloquei uma das toalhas de papel em sua mão, para que ele estancasse o sangue no nariz — que já descia em menor quantidade. Enquanto isso, eu usei as outras toalhas para limpar sua outra mão antes que ele sujasse mais alguma coisa de sangue — se alguém entrasse ali, teríamos que dar boas explicações, o que não ia ser bom para nenhum dos dois.
Abri a nécessaire pegando o necessário para terminar de dar um jeito naquela bagunça. já havia conseguido conter o sangramento em seu nariz, como ele havia ficado quieto, entendi que ia colaborar. Segurei seu queixo enquanto passava o antisséptico com um algodão em seu nariz, não era enfermeira, mas tinha conhecimentos básicos em primeiros socorros, foi uma das primeiras coisas que aprendi no treinamento, então fiz o melhor que pude ali.
— Obrigada — falou, enquanto eu terminava de colocar o curativo. Não esperava um agradecimento dele. — Obrigada por consertar a merda que você mesma fez.
Claro que ele não estava sendo educado à toa. Bufei revirando os olhos, tentada a quebrar seu nariz de novo.
— Você bem que mereceu.
— Claro — ele riu sem humor — você é uma ogra, garota.
— De novo, você mereceu. Eu fui te fazer uma proposta e você foi grosso sem motivo algum.
— Você me dá motivos para ser grosso desde quando acordou — seus braços estavam cruzados na altura do peito, e ele falava sem desgrudar os olhos de mim.
— A Princesa já acabou? — Continuei parada na frente dele, imitando sua pose.
— O que você quer? — seu tom grosseiro estava lá de novo.
— Você me leva pra ficar um pouco no jardim do hospital e eu vou te deixar em paz quando você estiver fazendo a segurança na minha casa, vou ficar quietinha e vou te incomodar o menos possível. Ah sim, tem mais uma coisa — falei rápido antes que ele abrisse a boca — o que acabou de acontecer aqui, você não vai contar pra ninguém.
— Tentador, Jude. Seria uma paz você de boca fechada — ele riu, chacoalhando a cabeça — Mas eu não posso levar você no jardim.
— Por quê? Nicolás me leva quase sempre quando está aqui.
— Por que eu não tenho autorização para fazer isso . Nicolás consegue te tirar daqui porque sua ex tem coração mole e sempre acaba cedendo a qualquer pedido dele.
Ex? Ele estava falando da...
— Annie?
assentiu. Interessante, isso explicava muita coisa. Nicolás sempre ficava meio bobo com ela por perto, e ela sempre encobria as coisas erradas que ele fazia no hospital, como me trazer doces escondido ou me levar para fora em um horário que já não era permitido.
Fiz um beicinho quando percebi que meu plano havia ido por água abaixo antes mesmo de começar. Sentei de novo na cama igual uma criança emburrada, ainda estava lá, empurrei seu ombro com o meu.
— Vai limpar o chão. — falei com a voz xoxa olhando os respingos no meio do quarto.
— Vai você.
— O sangue é seu — retruquei, empurrando seu ombro outra vez.
Ele se levantou rindo baixinho. Vi o policial pegar as toalhas de papel que estavam na cama e passar no chão, limpando os respingos. Não era muito, visto que a maior parte havia ficado em suas mãos, observei ele juntar todos os papeis e ir descartar no banheiro logo depois. Quando ele voltou, suas mãos já estavam lavadas e sem nenhum traço de sangue, assim como seu rosto. Ele devolveu a bolsinha de primeiros socorros ao seu lugar e recolheu os meus livros, colocando-os de volta na mesinha ao lado da cama.
— Sua amiga sabe que você pediu livros emprestados para jogar nos outros?
— Os livros não são dela, são meus, ela só trouxe para mim.
arqueou as sobrancelhas, enquanto ainda segurava o último livro.
— Você gosta de Agatha Christie? — Fiz que sim com a cabeça. — Achei que garotas como você só gostassem de Crepúsculo.
Ri internamente, ele não precisava saber que eu tinha um fraco por Edward Cullen.
"Ele não precisava saber", uma ideia se passou pela minha cabeça assim que essas palavras vieram. Annie era quem não precisava saber. Apertei o botão para chamar uma enfermeira.
— O que você está fazendo?
— Fica quietinho, se concordar comigo nós dois saímos ganhando. Sshh.
não entendeu nada, mas ficou quieto observando o que eu iria fazer.
Uma enfermeira que não era Annie apareceu, perguntei se ela poderia chamar sua colega, pois eu já estava acostumada com seus cuidados, e ela concordou. Dez minutos depois, Annie estava na porta do quarto, seus olhos foram direto no nariz de .
— Foi um acidente com a porta do banheiro, mas tá tudo bem — mentiu. Bom menino.
— Annie — chamei sua atenção para mim, antes que ela perguntasse outra coisa — Nicolás falou com você?
— Sobre o que? — Perguntou, um pouco perdida.
tinha a mesma expressão.
— Ele me disse que conversaria com você para que deixasse me levar ao jardim quando ele não pudesse vir.
O policial do outro lado riu em silêncio, mas não disse nada. Já que ele não me suportava, o melhor era aceitar minha proposta.
— Eu sinto muito, . Ele não falou comigo — Annie me olhou triste, negando. — E acho que também não é uma boa idéia você sair sem ele.
— Por favor, Annie — disse fazendo biquinho — Ele deve ter esquecido. Você sabe que é de confiança, ele pode me acompanhar, e é só um pouquinho.
Ela olhou pro rapaz na porta.
— Tudo bem, eu fico de olho nela — concordou, foi de maneira tão tranquila que eu até me surpreendi.
— Ok, mas vão ser só 30 minutos. Ela não pode ficar muito tempo de pé. Entendido? — Ele assentiu.
— Obrigada — agradeci sorrindo, quase batendo palmas de alegria.
— Vou pegar uma cadeira de rodas, me esperem aqui.
— Não precisa — interrompi. — pode me levar, eu quero sentar na grama.
Annie não viu o policial me fuzilar com os olhos, mas eu vi. Ainda sorria quando ele me pegou no colo para me carregar até o jardim.
— Você é detestável — sussurrou, enquanto passávamos pelo corredor em direção a saída. Apesar da fala, pude observar um sorrisinho de canto em seu rosto.
Annie não precisava saber que eu menti, e no final, eu cumpriria o meu trato com ele, nós dois sairíamos ganhando.
me colocou no gramado perto de um banco vazio, ali batia sol e haviam pouquíssimas pessoas. Só soltei seu pescoço quando senti que ele realmente havia me encostado no gramado, porque ele era bem capaz de me jogar ali. Tirei as sapatilhas e estiquei minhas pernas enquanto permanecia sentada, me apoiando com os braços para trás. O sol estava uma delícia, como a camisola do hospital era de um tecido leve, dava para curtir o tempo sem derreter.
O policial tirou o blazer preto e se sentou ao meu lado. Vi ele pegar os óculos que estavam presos em sua camisa para colar no rosto, evitando o contato direto com os raios solares. Quando ele apoiou o braço em seu joelho, pude reparar em uma cicatriz um pouco abaixo da manga da camisa branca — era uma cicatriz de bala.
— Perdeu alguma coisa aqui, Jude? — disse, sem me olhar.
— Bonita cicatriz — provoquei.
— Não precisa ficar com inveja, você agora vai ter várias também.
Ele não tinha limites? Tudo bem que eu mesma havia provocado elas, mas ele não sabia disso, fiquei um espantada. Um policial deveria demonstrar um pouco mais de compaixão.
— Você é muito abusado — acabei rindo, eu não conseguia acreditar em certos absurdos.
— Falou a lutadora de MMA que quebrou o nariz de um policial e pediu pra ele algemar ela na cama..
— EU NÃO PEDI.
tirou os óculos e se virou para mim, seus lábios sustentavam um sorrisinho debochado que me fez ter vontade de lhe dar um soco. Ia começar a falar de novo, mas me lembrei de uma coisa.
— Ei, você queria me prender por desacato só porque eu fiz uma piada, mas não fez nem menção sobre isso quando eu quebrei seu nariz.
Será que...?
— Você é mais útil para mim fora da cadeia — fiz cara de quem não entendeu (mesmo tendo entendido), esperando que ele explicasse. — Seu irmão com certeza tá preocupado com você, quem te atacou queria deixar um recado pra ele , até onde sabemos — explicou — Então, em algum momento ele vai tentar te ver e isso não vai acontecer se você estiver numa cela.
Perfeito, eles haviam mordido a isca tal qual imaginamos. Decidi dar corda.
— Tá esperando para prender ele, não é? — fiz uma cara triste.
Sua expressão vacilou um pouco, mas acabou assentindo. Engraçado, parecia até ter um pouco de pena.
— Só to fazendo meu trabalho. Você sabe que trabalhar para a máfia e envolvimento com narcotráfico são crimes, e você mesma contou essas coisas.
— Eu sei — assenti.
— Não sabe mesmo onde ele está? — balancei a cabeça em negação, fitando a árvore na minha frente. — Não ia dizer mesmo que soubesse, tenho certeza.
— Errou — virei para ele novamente. — Lucas é meu irmão e eu o amo, sei que ele cometeu erros e tem que pagar por isso. Até porque eu prefiro ele preso numa cela do que se metendo em encrenca com gente perigosa.
Era engraçado falar sobre Lucas daquele jeito quando ele era o total oposto, meu irmão era provavelmente a pessoa mais correta do planeta. Não sei se acreditou, ele apenas concordou com a cabeça e começou a morder a ponta dos óculos. As coisas estavam calmas, deveria aproveitar o momento pra tentar me aproximar e mais pra frente poder arrancar informações, mas toda vez que eu olhava para ele, tinha vontade de dar uma cutucada. Eu sempre gostei de perturbar as pessoas, ele não seria uma exceção.
— Qual desculpa vai dar para Annie quando ela descobrir que você inventou essa palhaçada toda sobre o Nicolás? — falou, interrompendo meus pensamentos. Impressão minha ou ele decidiu ficar mais falante depois do incidente com o livro?
— Nenhuma, porque ela não vai descobrir.
Ele riu.
— Claro que ela vai descobrir, assim que ela conversar com ele isso vai ser descoberto.
— Não vai não, Nicolás não vai me entregar — ouvi ele bufar enquanto eu falava e voltei a encará-lo. — O que é?
— O que vocês dois estão escondendo? Você e o Nicolás já se conheciam.
De onde ele havia tirado aquilo? Eu nunca havia visto ele antes na minha vida. Primeiro Clarice e agora ele
— Por que você acha isso? — Começava a ficar intrigada com essa história.
— Nunca vi ele agir assim com ninguém, trata você como se fosse de porcelana e tem me parecido um pouco perturbado também desde o seu resgate, mas esse último talvez seja por conta da convivência com você.
— Ridículo — Tentei parecer brava, mas acabei rindo, achei mais graça ainda quando ele me acompanhou. — Quando descobrir me conta.
Ele fez uma careta, como quem não compra uma história, mas dessa vez eu falava a verdade. No começo eu estranhei a gentileza de Nicolás também, mas não durou muito o estranhamento, não sabia explicar por que e tampouco sentia vontade de perguntar a ele porque agia daquela forma comigo, para mim parecia algo muito natural — embora não fosse o comportamento comum para alguém que acaba de te conhecer.
POV.
Jude era o verdadeiro significado da palavra problema, meu Deus como ela era irritante. Era petulante, debochada, grosseira e não perdia a oportunidade de me tirar do sério. Eu me recusava a acreditar que ela tinha jogado um livro no meu rosto e quebrado meu nariz. Estava até agora tentando entender como ela tinha conseguido colocar ele de volta no lugar. O que me espantou mais ainda, foi a força que usou para me conter, ela definitivamente não era normal. Cheguei a conclusão de que mesmo sendo menor que eu, ela poderia acabar com a minha raça se quisesse. Mas claro que eu não deixaria ela saber disso.
Também tentava entender a relação dela com Nicolás, eu o questionei diversas vezes sobre o porquê de tanto cuidado com aquele caso (especificamente com ela), e ele sempre dizia que só estava fazendo seu trabalho, mudando de assunto logo depois. Perguntei mais de uma vez se ela era sua ex ou algo do tipo e ele negou em todas às ocasiões, mostrando até certo desconforto com o tema. Ainda assim, nada me tirava da cabeça que eles já se conheciam, tentei arrancar alguma coisa dela também, mas continuei sem respostas.
Aquilo tudo era um saco, a parte do meu trabalho que eu mais odiava era quando eu tinha que bancar a babá de alguém — principalmente de garotas mimadas. E por mais que Jude tivesse dito que ficaria quieta caso eu aceitasse seu trato, eu duvidava muito que aquilo fosse acontecer. Então eu decidi que o melhor a se fazer era levar as coisas pelo caminho da paz (dentro do possível), caso contrário a convivência seria ainda pior. O único problema é que depois do primeiro contato eu não conseguia mais manter uma conversa normal com ela, o fato dela ser totalmente abusada comigo me fez perder o filtro e qualquer delicadeza que eu deveria ter com alguém no estado em que ela se encontrava.
Fiquei na mesma posição que ela e chutei sua perna de leve, fazendo com que ela me olhasse feio.
— Você quer que eu quebre seu pé também?
Um poço de delicadeza. Ri da sua cara emburrada e afastei meu pé, não duvidava de mais nada vindo dela.
— Não abusa, . Eu posso te colocar em prisão domiciliar também — ameacei brincando, enquanto ela revirava os olhos.
se inclinou na minha direção sorrindo, achei que ela queria me xingar me olhando nos olhos — como tinha o costume de fazer, mas ao invés disso, puxou o óculos de sol que eu havia prendido novamente na gola da camisa. Ia segurar sua mão e pegar de volta, mas me lembrei que estava tentando manter a paz, então deixei que ela usasse.
— Educação é bom e todo mundo gosta.
— Engraçado, eu poderia te dizer o mesmo — retrucou com um sorriso. — E isso fica melhor em mim do que em você.
Insuportável, mas bonita. Observei com os óculos de aviador. Ela tinha razão.
— Além de mentirosa e louca, também é convencida — respondi, devolvendo a sua provocação.
— É assim que você fala com as mulheres, Mr. Darcy? — Brincou.
Não fiz questão de esconder o riso, já que sua comparação foi engraçada de algum modo.
— Você não é uma mulher, é um ogro de sapatilhas — esperei que ela me desse um tapa enquanto falava, mas ela riu, então continuei. — Nunca vi uma mulher tão bruta em toda a minha a vida.
— Eu também nunca vi um policial tão indelicado.
— Você começou.
— Talvez.
Ela estava concordando? Que progresso. Parece que os raios de sol tinham melhorado nosso humor. Ri novamente enquanto olhava a árvore que estava à nossa frente, não sei se foi da minha risada ou do rumo da conversa, mas ela acabou me acompanhando.
— Você é bruta assim também com outras mulheres?
— Como assim? — Perguntou confusa.
— Tenho a impressão de que você não briga com as unhas.
— Não faz sentido nenhum arranhar a cara de alguém se eu posso simplesmente dar um soco — disse voltando a ficar séria enquanto eu ria da sua resposta, já por algo assim.
Voltei a olhar pro gramado e vi um rosto familiar se aproximando, era Annie.
— Agora sim você se ferrou, Jude.
— Quer apostar que não? — Ela sorria.
— Se ela tiver descoberto a sua mentira, você me deve uma plástica no nariz.
— Ok — concordou rindo. — Se ela não souber que eu menti você vai me convidar para um jantar na sua casa quando eu sair do hospital. E eu fico com seus óculos.
Um jantar na minha casa? Comecei a rir descontroladamente, ela era mesmo maluca. O que ela queria com aquilo? Que eu a algemasse de verdade na minha cama?
— Lugar de gente louca é no hospício, — provoquei — não na minha casa. — Mas você pode ficar com os óculos. E — acrescentei — eu pago a cirurgia plástica pra você não ficar parecendo o Chucky.
Jude fez cara de tacho enquanto eu ainda ria, ela nem tinha ficado com tantas marcas assim, e as que ficaram provavelmente sumiriam com o tempo.
— Você é ridículo — disse chutando a minha perna como eu havia feito com ela antes. — E eu não preciso de plástica. Os dois ou nada.
— Por que tá pedindo isso? — Não entendia a insistência.
Observei ajeitar os cabelos que escapavam do rabo de cavalo enquanto ela falava.
— A melhor maneira de conhecer alguém é conhecendo sua casa. Se você vai ficar metido na minha residência, nada mais justo do que eu conhecer a sua também. E saber que você não é um psicopata que esconde pedaços de corpos no freezer da cozinha, vai me deixar mais tranquila.
Chacoalhei a cabeça indignado com aquilo, ela realmente não era normal. Que tipo de pessoa pensaria naquilo? Mas tudo bem, caso eu perdesse, não tinha nada a esconder. Além do mais, duvidava que Annie não fosse descobrir sua mentira, então acabei aceitando.
— Fechado — estiquei a mão pra ela, que a apertou com firmeza.
sorria debochadamente enquanto eu a levava de volta para o quarto. Nicolás tinha encoberto sua mentira durante uma ligação para Annie. A enfermeira veio até onde estávamos no jardim para avisar que Nick tinha ligado para saber notícias da endemoniada, já que eu não atendia o celular. O que ele não sabia é que eu já não tinha mais um celular justamente graças a ela.
Para minha tristeza, ela também disse que comentou com Nicolás que eu estava no jardim com Jude a pedido dele, e ele prontamente disse que realmente havia esquecido de pedir a ela. Meu melhor amigo estava de complô com a mentirosa, inacreditável. Eu duvidava cada vez mais que eles tinham acabado de se conhecer.
A pior parte, entretanto, agora era a aposta. era folgada e curiosa, e eu tenho certeza de que ela fuçaria o meu apartamento todo, aquilo não me agradava nenhum pouco — mesmo não sendo o tipo de pessoa que esconde algo.
Além disso, Annie tinha ido prioritariamente até nós não para falar de Nicolás, mas sim porque o médico queria ver a paciente para lhe dar alta.
Andei o mais rápido possível até o quarto, colocando ela na ponta da cama assim que cheguei lá.
— Espera — ela disse, mais pra si mesma do que para mim — quem vai me levar para casa?
— Não sei, algum dos seus amigos que esteve aqui? — Questionei, sem entender a preocupação repentina.
— Não é isso, Clarice não encontrou meu telefone depois do ataque, alguém levou. Como eu vou avisar qualquer um deles que eu tive alta e quero ir embora?
Era meio óbvio que quem quer que a tenha atacado, levou o aparelho na esperança de que ela recebesse uma ligação de seu irmão e eles pudessem rastreá-lo.
— Há quanto tempo sabe disso? — me olhou com uma expressão um pouco confusa. — Que levaram o seu celular — completei.
— Ah sim, faz alguns dias — observei ela coçar a cabeça enquanto levantava da cama. — Eu pedi pra ela trazer junto com os livros, mas ela não encontrou. Imagino que tenham levado, perguntei ao Nicolás se a polícia tinha levado como evidência, mas ele disse que não encontraram nenhum celular. — Por quê a curiosidade?
— Não sei, pensei que talvez você tivesse visto quem te atacou levando o aparelho — ela negou com a cabeça enquanto guardava algumas de suas coisas em uma mala. —Enfim, eu deixaria você usar o meu por sei lá, dois minutos. Mas não vai ser possível porque você quebrou ele — alfinetei, retirando o aparelho estraçalhado do meu bolso e mostrando a ela.
— Engraçado, não me lembro de ter acertado o seu celular.
Preferi não responder ao deboche, com certeza iríamos iniciar outra discussão e eu não estava afim. Decidi que o melhor era sair do quarto, mas parei de andar quando vi ela apertar o botão de emergência.
— Você sabe que isso é só para emergências, não é?
— Ir embora é uma emergência.
— Você parece uma criança birrenta de cinco anos que quer tudo na hora.
Annie apareceu no quarto, tirando a chance dela retrucar. Fiquei boquiaberto quando vi sua expressão mudar de raiva para doçura assim que a enfermeira entrou no quarto, cínica.
Com a voz que fazia justiça a sua feição, pediu o celular de Annie emprestado, que gentilmente lhe disse que sim. Vi ela discar dois números diferentes e tentar repetidas vezes fazer contato com alguém, mas sem sucesso. Parecia que ninguém queria falar com ela naquela tarde, eu também não queria, mas no meu caso eu não tinha muita escolha.
Depois de um tempo ela acabou desistindo e devolveu o celular com uma cara triste. Annie guardou o objeto no bolso e olhou em minha direção.
— ?
— Sim?
— não é menor de idade — começou, parecendo com medo do que ia falar —então ela pode sair do hospital com qualquer pessoa. Inclusive com você.
Quando ela completou a frase, eu entendi o porquê do receio na sua voz.
Por que eu não saí daquela porcaria de quarto antes dessa maluca apertar o botão de emergência? Mais de uma hora dentro de um carro com ele a ainda sozinhos, eu certamente ia querer abrir a porta e me jogar para fora. Mas infelizmente, Annie era tão meiga que eu não conseguia dizer não para ela, ninguém conseguia. Engoli a raiva e concordei com um aceno de cabeça, e ela se retirou do quarto logo depois indo atrás de uma cadeira de rodas — apesar da segunda recusa de , ela disse que era norma do hospital.
— Não fui eu que pedi, só pra constar — sorria, ainda encostada na cama.
— Não adianta fazer essa cara, porque eu tenho certeza que você está rindo por dentro. Vai terminar de arrumar suas coisas.
Ela alargou o sorriso e começou a andar pelo quarto juntando seus últimos pertences. Depois de recolher as coisas que estavam no banheiro, vi ela pegar uma muda de roupas antes de fechar a mala por completo e voltar para lá.
— Aproveita pra ir pensando no jantar que vai fazer pra mim, na sua casa — disse, frisando as últimas palavras.
Joguei a cabeça para trás enquanto soltava o ar pesadamente. No que eu havia me metido?
Esperei mais alguns minutos até ela sair do banheiro, vestia uma calça e uma jaqueta preta, como uma blusa branca por baixo. Ótimo, agora pareciamos uma dupla sertaneja. Revirei os olhos enquanto ela soltava seu cabelo.
— A Princesa vai ficar me olhando ou já podemos ir?
—Não abusa, garota — já era a segunda vez que ela me chamava de princesa naquele dia.
Annie não tinha voltado ainda, então achei que era melhor ir atrás dela. Deixei no quarto e levei quase vinte minutos para achar ela, que se desculpou pois teve uma emergência com outro paciente. Me despedi de Annie e voltei para o quarto com a cadeira de rodas.
Encontrei sentada na cama, parecia triste e não notou minha presença nem mesmo quando coloquei a cadeira de rodas na sua frente e pigarrei para chamar sua atenção. Parecia estar fora de órbita. O que tinha acontecido em tão pouco tempo?
Ela apertava o botão de emergência por qualquer coisa, então ela não estava passando mal, do contrário já teria feito isso. Não sei se era manha dela ou outra coisa, mas eu definitivamente não aguentava mais aquele hospital. Me aproximei da cama e peguei ela no colo para colocar na cadeira.
Finalmente ela pareceu ter notado minha presença, estranhamente só agradeceu, o que me deixou um pouco mais confuso. Ela estava quieta demais para alguém que tinha acabado de conseguir a chance perfeita de me irritar. Eu deixei uma no quarto e quando voltei, encontrei outra totalmente diferente. Arrisquei um olhar rápido quando fui pegar sua mala, sua expressão continuava triste e com um olhar perdido, sua cabeça parecia estar longe. Achei melhor não dizer nada, seus pensamentos não eram da minha conta. Coloquei a mala em meu ombro e comecei a empurrar a cadeira de rodas, indo em direção a saída do hospital.
Assim que chegamos ao meu carro no estacionamento, eu destravei as portas e coloquei sua mala no banco de trás, achei que ela se levantaria e sentaria em um dos bancos enquanto isso, mas não aconteceu. Ela estava com a cabeça baixa mexendo nervosamente em uma gargantilha que estava em seu pescoço.
Não havia nem 30 minutos ela estava me atormentando, não era possível. Talvez o médico tenha se equivocado ao lhe dar alta.
— — chamei, já com a porta do carona aberta.
— Sim? — Ela respondeu um pouco sobressaltada, sendo tirada de seu devaneio ou o que quer que fosse.
Apontei com a cabeça em direção ao banco do carona, felizmente ela pareceu voltar de Marte e se levantou para entrar no carro. Fechei a porta assim que ela se ajeitou e me dirigi até o outro lado.
Os 20 primeiros minutos foram silenciosos como eu nunca teria imaginado, continuava com a cabeça em outro planeta, olhava pela janela fechada enquanto agitava seus pés ansiosamente. Nunca pensei que fosse ficar incomodado com seu silêncio, aquilo só ficava mais esquisito.
— Ei — chamei, atraindo sua atenção quando parei no farol.
Ela me encarou, esperando que eu continuasse.
— Tá com fome? Podemos parar em algum lugar — ela negou com a cabeça e voltou a olhar para fora.
Me lembrei de que só havia visto ela comer no café da manhã, se ela desmaiasse de fome Nicolás daria um jeito de botar a culpa em mim. Decidi que era melhor comer uma porcaria do que nada, com certeza ela não recusaria aquilo. Mexi no porta luvas do carro e tirei uma caixa de chocolate, ela só pareceu perceber quando eu coloquei o doce em seu colo.
— O que é isso?
— Come — meus olhos estavam na estrada novamente, mas pelo seu tom, estava confusa. — Não vi você comendo mais nada depois do café que Annie levou.
POV.
Eu havia sido esquecida. Eu sei que meus pais não sabiam de nada e que eu havia me metido sozinha naquela situação, mas e se fosse um atentado de verdade? Eu ainda continuaria sozinha.
Clarice não atendeu nenhuma das minhas chamadas, e nem Aaron, eles eram as únicas pessoas para quem eu poderia ligar naquele momento — não podia ligar para ninguém do FBI, meu melhor amigo estava em outro país e meu irmão não podia aparecer — e eu ainda havia ligado para Aaron a contra gosto, Clarice não poderia ter atendido a droga do telefone? Me dei conta que, com exceção de Kyle, eu havia me afastado de meus outros amigos por conta do trabalho.
Em meio aos meus devaneios, devo ter ficado completamente fora da Terra, quando dei por mim estava sendo carregada por e colocada em uma cadeira de rodas, pouco depois já estávamos em seu carro e eu continuava pensando no quão sozinha eu estava. Apertava os lábios mais uma vez para segurar o choro, quando senti algo encostando nas minhas pernas.
Virei pronta para gritar com achando que ele estava pondo a mão em mim, mas me surpreendi ao encontrar uma caixa da Neuhaus em meu colo. Eram meus chocolates favoritos.
— O que é isso? — Não era possível, ele não tinha como saber que eram meus favoritos.
— Come, não vi você comendo mais nada depois do café que Annie levou.
— Quem te contou?
— Me contou o que? — Vi ele desviar os olhos da estrada e me encarar por dois segundos, seu rosto era uma interrogação.
— Esses chocolates — disse apontando para a caixa — são meus favoritos. Porquê você tem uma caixa fechada deles no seu carro?
Minha voz acabou saindo um pouco mais alterada do que planejei, mas aquilo era no mínimo esquisito. Aqueles não eram chocolates comuns, a maioria das pessoas nem conhecia o seu nome.
não disse nada até parar em um farol, depois me encarou e começou a rir.
— Você tá ficando paranóica, garota. — Ele tentava disfarçar mexendo no próprio cabelo, mas eu sabia ler as pessoas, estava sem graça, suas mão tamborilava seguidamente no volante enquanto observava a paisagem a fora. — Não é meu, Nicolás come isso o tempo todo, — começou, me olhando aos poucos — às vezes usamos um carro só para fazer algo relacionado ao trabalho e ele sempre larga uma caixa dessas por aqui, nem sempre fechada, mas hoje você deu sorte. — E isso tem gosto de sabão, eu odeio essa coisa.
Nicolás e eu tínhamos o mesmo chocolate como favorito, estranho e engraçado ao mesmo tempo. O problema era que, cada vez que eu descobria uma nova coincidência entre nós, ao invés de ligar um sinal de alerta com isso e sua atenção excessiva, eu simplesmente me sentia mais confortável ainda com ele.
— Mas bom saber que são seus favoritos — falou, interrompendo meus pensamentos. — Vou deixar uma dessas com calmante injetado para quando você estiver me enchendo o saco.
Lá estava o sorrisinho debochado de novo, senti vontade de jogar algo nele, mas a única coisa perto era a caixinha de chocolates e seria um desperdício. Estava tentada a abrir, mas enquanto o meu alarme em relação a Nicolás parecia se desligar, ele ficava em dobro no modo alerta quando o assunto era , talvez porque aos meus olhos ele não era um bom policial, e isso poderia indicar algo. E se ele já soubesse quem eu era? E se tivesse algo nos bombons? Sua última frase... Que droga, eu queria comer.
Estava sentada de lado desde que ele colocou a caixa no meu colo, fiquei pensando enquanto observava ele dirigir, era quase impossível ele ter me descoberto em tão pouco tempo — e eu nem sabia nada sobre ele ainda para achar que de fato ele era quem eu procurava. Talvez eu estivesse mesmo ficando paranoica, mas para uma pessoa como eu, um pouco de cuidado sempre cai bem. Parecia piada falar isso enquanto eu depositava uma confiança enorme na bondade de Nicolás, eu sei.
Abri a caixinha devagar, esperando que ele parasse o carro novamente enquanto eu escolhia um dos bombons. Tirei um da caixinha e estendi em sua direção.
— Eu não sou do tipo que gosta de comer sabão, mas obrigada. — Ele afastou minha mão, mas eu insisti novamente.
— COME — acabei falando alto demais, fazendo ele me olhar assustado. — Eu não vou tocar nisso até você comer, e eu tô com muita vontade, então abre essa porcaria logo e come.
— Eu não acredito nisso — disse chacoalhando a cabeça em negação enquanto encostava o carro. — Você é patética, acha que eu fiz o que? Coloquei veneno nisso?
— Porque não?
— Você é ridícula, não dá mesmo pra ficar numa boa com você. Pode passar vontade, eu não preciso te provar nada — ele virou a cabeça na direção da sua janela, me ignorando.
Ele estava irritado, e não pela possibilidade de não conseguir me envenenar ou algo assim, mas porque se sentia ofendido. Talvez até um pouco estupido e irritado consigo mesmo por tentar ser gentil comigo e receber desconfiança em troca. Quando eu estava prestes a ceder aos bombons, virou na minha direção novamente, observei ele umedecer os lábios duas vezes achando que ia dizer algo, mas parecia ter desistido, ele só se esticou na minha direção pegando um dos chocolates em forma de pedra.
Ele mastigou o bombom enquanto me olhava com raiva, ficou daquele jeito até engolir, quando terminou ele simplesmente ligou o carro e voltou a dirigir, me ignorando novamente. Acho que não tinha nada na caixa.
— Desculpa — murmurei baixinho.
Escutei ele rir, não de uma forma feliz, mas sim irônica, quando ele falou pude notar sua voz carregada de raiva, imaginava que seu rosto ainda deveria ter a mesma expressão de alguns minutos atrás.
— Por que eu iria querer machucar você? — Seus olhos se desviaram da estrada para mim por 2 segundos, e foi o suficiente para que eu confirmasse meu pensamento. — Meu trabalho é proteger, e não matar gente.
Achei melhor me concentrar na caixa de bombons em meu colo, aquilo era tão maravilhoso que me fazia esquecer dos meus tormentos. Eu virava uma criança com doces, e aquele em particular era meu paraíso, sem perceber acabei comendo a caixa toda, o que me renderia uma bela dor de barriga depois, mas no momento aquilo não importava. Talvez eu tenha me descontrolado um pouco, quando dei por mim estava lambendo os dedos que ficaram com um pouco do chocolate que havia derretido. Só me lembrei que não estava sozinha quando escutei rir.
Eu continuei olhando para a estrada, ainda constrangida com a minha atitude infantil. Apesar da vergonha, acabei rindo também.
Quando o riso cessou — o meu e o dele — escutei sua voz falando comigo, agora em um tom já bastante calmo.
— Tem uma flanela no porta luvas.
Ajeitei os papéis dentro da caixa e coloquei ela no painel, abrindo o porta luvas logo depois. Encontrei o paninho laranja limpando o que havia sobrado do chocolate. Enquanto isso, meus olhos curiosos observavam discretamente o interior daquele lugar, mas com a baixa iluminação e a lanterna do carra desligada, não era possível ver muito. Me senti tentada a fuçar ali, mas achei que não era uma boa hora, talvez houvesse outra oportunidade.
Coloquei a flanela perto da caixa vazia e me ajeitei no banco novamente.
— Sabe — olhei em sua direção quando ele começou a falar — Eu iria gostar de você se você não fosse tão... — eu já sabia o que ele iria dizer.
— Insuportável — completei rindo. Ele assentiu, deixando um sorriso escapar.
Ela era um perigo. Tinha a impressão de que ela poderia levar alguém do inferno ao céu em questão de segundos, mas também poderia fazer o contrário.
A forma como ela me tirava do sério chegava a me desconcertar, me irritava tanto que trazia uma versão grosseira de mim que eu detestava, uma versão que só uma outra pessoa conseguia trazer. Mas ao mesmo tempo, sem perceber ela trazia de volta o que eu realmente era. Havia feito isso mais cedo no jardim, e agora depois de se lambuzar com chocolate.
Ela parecia tão leve ali, como se estivesse em um mundo particular onde só existia ela e uma coisa que ela parecia gostar muito. Talvez aquela fosse a melhor versão dela que eu tinha visto até agora, não sei porque a escondia. E estranhamente, aquilo me faz lembrar de uma outra pessoa.
Arrisquei um olhar rápido na sua direção e vi que ela ainda ria (agora em silêncio), enquanto se afundava no banco do carona. Provavelmente achando graça das nossas palavras.
O trânsito estava um inferno, o trajeto que deveria levar apenas uma hora e meia, já tinha tomado quase o dobro do tempo, e parecia que não ia melhorar tão cedo já que agora eu estava preso em um engarrafamento. A noite já começava a cair. Desliguei o carro e encostei a cabeça no banco assim que me livrei do cinto, já cansado por aquele dia.
Olhei novamente para garota ao meu lado e pensei que depois de tantas coisas, perguntar não ofenderia.
— Por que ficou triste de repente? — Perguntei, acendendo a luz no interior do carro.
Ela sentou novamente de lado no banco e ficou me encarando por um bom tempo, achei que não ia responder, mas começou a falar quando fitou o vidro da frente do carro.
— Meus pais nem sabem o que aconteceu comigo e meu irmão, bom eu não vou nem comentar. Quando Aaron e Clarice não atenderam o telefone eu meio que…me senti um pouco sozinha — concluí, voltando a me olhar enquanto cruzava os braços na altura do peito.
Era por isso então? A única coisa que passou pela minha cabeça, é que ela poderia estar com medo de voltar para casa onde foi atacada.
— Não tinha mais ninguém pra quem pudesse ligar? — ela balançou a cabeça negativamente. — Nenhuma?
— Uma pessoa que não se encontra no país nesse momento, então ninguém.
Assenti.
— Posso te perguntar outra coisa? — Ela fez que sim com a cabeça. — Não tem medo de voltar para casa depois do que aconteceu? Eu pensei que era por isso.
— Não. Pra falar a verdade eu mal me lembro do que aconteceu. Eu estava procurando uma roupa e escutei um barulho vindo da porta, quando eu percebi já tava apanhando — sua voz era calma ao relatar o que aconteceu, como se estivesse contando algo tranquilo, seu olhar no entanto, parecia perdido em uma lembrança amarga. — Não sei se foi o choque ou a surra que eu levei, mas não me lembro de quase nada. Não sei como vou me sentir quando chegar lá, mas por enquanto não é algo que me preocupe. Você leu o meu depoimento?
Assenti novamente. Quando li, eu achei tudo muito vago, achei que ela tinha ocultado coisas, que queria esconder algo, mas ela parecia tão sincera ali, falando com tanta naturalidade do assunto, que já não era mais possível duvidar de suas palavras.
— Achei que você era viciada e tinha apanhado de algum traficante.
Comecei a rir, aquilo parecia muito idiota agora. Conhecia viciados e ela estava muito longe disso.
— Não acredito — ela escondeu o rosto com as mãos, mas pude ver que ria. — Mas tudo bem, talvez a minha aparência não tenha ajudado.
— Talvez, Chucky.
pegou a caixa de chocolates vazia e jogou na minha direção, espalhando papéis por todo o carro.
— Acho bom você estar bem disposta amanhã, porque vai limpar meu carro.
— Vai sonhando, .
Fui me ajeitar no banco e senti algo me incomodando, havia esquecido de tirar a arma da cintura, era melhor tirar antes que ficasse com a marca dela.
— Vai me ameaçar com um revólver pra eu limpar seu carro? Meio sádico, mas eu gostei. — tinha a voz carregada de ironia.
— Não vou nem te responder.
Ia guardar a arma no porta luvas, mas pensei que seria uma péssima ideia deixar ela tão perto de . Não que ela soubesse atirar, mas era bem capaz de tentar jogar em mim.
Tirei o carregador e o cartucho da arma e coloquei os três no fundo do tapete aos meus pés. Aproveitei para me livrar do blazer também, já que sentia um pouco de calor.
— Você sempre sai jogando as coisas assim nos outros?
— Não, só em quem me irrita demais.
— Me lembra de esconder as facas quando a gente chegar na sua casa — provoquei.
— Fique à vontade, eu ainda tenho um montão de livros para jogar nessa sua cara feia.
Ela riu enquanto inclinava o banco do carona, buscando mais conforto. Em menos de 20 minutos ela já tinha sujado o meu carro e tinha tirado os bancos do lugar. Eu ia mesmo precisar de muita paciência.
Virei pra frente e fechei os olhos fingindo que não estava vendo para não me estressar novamente. Eu odiava quando Nicolás fazia isso porque ele nunca colocava o banco de volta no lugar, também nunca limpava a sujeira que deixava em meu carro. Eu estava rodeado de gente bagunceira, e eu odiava bagunça.
Fiquei naquela posição por um bom tempo, tentando relaxar. Estava funcionando até ouvir o barulho de uma buzina. Quando abri os olhos, vi que finalmente, os carros à minha frente começaram a se mover novamente. Até que enfim.
Quando coloquei o cinto de volta e fui falar com , vi que ela estava dormindo. Os carros atrás podiam esperar mais um pouco. Procurei pela jaqueta do uniforme que sempre deixava no banco de trás e a dobrei, fazendo quase uma almofada. Ela tinha o sono pesado, não acordou quando eu coloquei a jaqueta entre o vidro da janela e seu pescoço, nem mesmo quando prendi seu cinto de volta. Os sons de buzina já estavam insuportáveis quando eu dei partida.
O trânsito tinha melhorado, mas ainda assim a viagem foi longa. Demorei tanto a chegar na casa dela que parecia que eu estava saindo do interior para a cidade, e quando estacionei na frente da imensa casa, ainda não tinha acordado.
Como Nicolás e eu ficamos responsáveis por ela e por qualquer sinal do seu irmão, tínhamos recebido acesso à entrada da casa, mas não a casa em si. Inseri o cartão na máquina ao lado do portão, esperando que ela lesse o código de barras e abrisse. Ainda me espantava o fato de alguém ter conseguido entrar naquela casa. Estacionei no extenso gramado em frente a entrada principal e desliguei o carro.
A bolsa de estava no banco de trás, com certeza tinha uma chave ali, mas não seria de bom tom mexer nas suas coisas, sem falar que se ela acordasse e me pegasse revirando sua mochila, era capaz de me dar um belo soco. E eu também não queria acordá-la.
Me sentia exausto, e honestamente, já tinha dormido em lugares piores. Pensando bem, aquilo na verdade era até bom, se acordasse eu teria que ficar de guarda na casa até Nicolás dar o ar da graça, e eu não poderia dormir com ela circulando por tantos cômodos. O carro era seguro, bastava trancar as portas, então foi isso que eu fiz. Tirei a chave da ignição e coloquei no meu bolso, apagando a luz do carro logo depois. Finalmente me rendi ao sono e fechei os olhos.
Não sei por quanto tempo estive dormindo, mas escutava um barulho que embora baixo, parecia muito perto e me tirava do meu sono cada vez mais. Fui abrindo os olhos aos poucos e pude ver que parecia estar ainda mais escuro, e o barulho de fato vinha de dentro do carro.
Acendi a luz assim que percebi o que era.
— Eu não acredito nisso.
— Não é o que você tá pensando.
— Eu não quis mexer na sua mala pra procurar a chave da casa porque não seria de bom tom e você tá revirando a minha mochila e o porta luvas — acusei, vendo o porta luvas aberto e minha mochila em seu colo.
— Já disse que não é o que você está pensando.
Fechei o porta luvas e puxei minha mochila de volta, colocando no banco de trás novamente. Encarei ela com a cara mais irritada que consegui fazer, lutando contra a sonolência.
— Eu só estava procurando um remédio para dor de cabeça — ela bufou enquanto cruzava os braços.
Cocei os olhos enquanto pensava naquilo, era muito difícil saber quando ela mentia ou estava dizendo a verdade, mas a garrafa de água que eu deixava no carro estava em seu colo, então talvez ela só quisesse o remédio mesmo. Abri o tapa sol e puxei a cartela de analgésico que deixava sempre ali, jogando em seu colo. Ela destacou dois compridos e engoliu logo depois, seguido pela água.
— Porque não me acordou pra perguntar se eu tinha algum remédio?
— Pelo mesmo motivo que não me acordou para perguntar da chave — retrucou.
1, 0.
— Abre o carro, eu quero um banho e a minha cama.
Destravei as portas do carro e peguei minha arma novamente, juntando todas as partes. Quando sai do carro e tirei a mala dela do banco de trás, fiquei esperando por mais alguns minutos enquanto ela largava a garrafa de água. Quando abriu a porta para sair, simplesmente puxou a mala da minha mão e colocou no capô do carro, jogando uma série de coisas para fora tentando achar a chave. Não sabia de quem era a culpa, mas parecia que a paz tinha acabado, tão depressa como havia começado.
Depois de encontrar suas chaves, ela ia pegar a mala novamente, mas puxei de volta assim que percebi — os livros faziam um peso absurdo e o médico fez questão de dizer "sem esforço" pelo menos cem vezes na hora de dar alta a ela. Se ela tivesse que voltar para o hospital, eu mesmo me daria um tiro, odiava hospitais e não aguentava mais fazer guarda lá, sem falar que seu irmão não ousaria tentar ir atrás dela naquele lugar. não disse nada, apenas se dirigiu à porta da frente enquanto eu a seguia e travava o carro novamente.
Ela acendeu a luz assim que entrou. Eu já havia estado lá algumas vezes depois do ataque, também voltei atrás de pistas com outros policiais e algumas vezes acompanhando peritos, mas só haviam digitais de gente que sempre parecia estar naquela casa. Dessa vez, porém, entrar ali foi estranho. Eu sempre estive com um grupo de pessoas, com uma única companhia ali a casa parecia ter o dobro de tamanho. Era bonita, por dentro era toda de uma madeira escura, mas parecia ser um lugar muito solitário.
parou na frente da escada, com as mãos nos bolsos do jeans.
— Consegue subir sozinha?
Ela se virou para mim.
— Não sei, acho que sim. Estava pensando em outra coisa.
Esperei que ela continuasse mas ela não falou mais nada.
— No que? — Perguntei, curioso.
apenas chacoalhou a cabeça, como se não valesse a pena explicar. Não disse nada, não era da minha conta.
POV.
Nunca pensei que me sentiria uma estranha em minha própria casa. A ideia de que eu havia sido esquecida e estava sozinha, não deixava de martelar em minha cabeça. Eu sei que teria companhia ali pelos próximos tempos, mas aquilo era trabalho, eu os vigiaria enquanto eles pensavam me vigiar, não era companhia de verdade. Estava começando a ficar irritada com isso, o tempo que eu desperdiçava pensando na minha solidão, era o tempo em que eu deveria estar fazendo meu trabalho.
Não havia encontrado nada de interessante no porta luvas de , sua mochila não tinha nada fora do normal também, o que me fez pensar que eu teria que conquistar sua confiança o quanto antes. Precisava focar no meu trabalho.
— — chamei, já no primeiro degrau. — Vou cumprir minha parte do trato e vou te deixar em paz. Mas não se esqueça que você perdeu uma aposta e também tem algo a cumprir.
Ele apenas assentiu e me seguiu carregando a minha mala. Eu subia a escada a passos lentos, tentando me lembrar de que ainda não estava 100% recuperada, até que cheguei na porta do meu quarto. Achei que o correto era fazer um pouco de drama, afinal ninguém sofre um ataque e volta numa boa para o lugar onde quase perdeu a vida. Coloquei a mão na maçaneta e fui girando bem devagar, para depois fazer o mesmo com a porta. Procurei pelo interruptor logo depois, mas não precisei mais fingir nada, fiquei seriamente espantada em como encontrei meu quarto.
Eu me lembrava de ter feito a maior parte daquilo, mas havia esquecido que em boa parte do que fiz, a luz estava apagada, claro que eu não medi o estrago.
Eu ainda segurava a maçaneta quando senti a mão de por cima da minha puxando a porta de volta.
— Acho que não é uma boa ideia você ficar aqui.
Soltei a porta, deixando que ele a fechasse e apagasse a luz.
— A gente pode chamar alguém para cuidar disso amanhã. Imagino que tenha quarto de hóspedes aqui, não? — Assenti, ainda em choque enquanto ia para o quarto ao lado.
Clarice e Aaron disseram que dariam um jeito na bagunça antes que eu voltasse, mas parece que eles tinham se esquecido disso também. Aquilo deveria ter sido arrumado assim que a polícia parou de fuçar.
Sem paciência, acabei abrindo a porta do quarto de Lucas, era mais familiar que um quarto vazio de hóspedes. Eu só queria subir as escadas e me trancar no meu quarto, pensando que lá não me sentiria tão sozinha já que ele sempre foi meu refúgio, mas não foi o que aconteceu. colocou a mala no canto e saiu dizendo que iria ficar no corredor, também me pediu para não trancar a porta, do contrário ele teria que derrubar caso ouvisse algum barulho.
Eu me sentei na cama e fiquei lá olhando para o nada, me sentia triste e com raiva ao mesmo tempo, nem tanto pelo meu refúgio destruído, mas sim porque mais uma vez a voz dizendo que eu estava sendo esquecida ecoava na minha cabeça.
Depois de meia hora daquele jeito, vi que precisava mesmo do meu quarto.
Assim que abri a porta, me deparei com andando feito uma barata tonta no corredor. Seus olhos atentos me acompanharam até o momento em que eu alcancei a maçaneta da minha porta.
— ?
— Vou limpar meu quarto.
— Não, você não vai — disse vindo atrás de mim. — O médico disse repouso e isso inclui não fazer esforço. Eu não quero voltar a ficar te vigiando no hospital. Você já passou muito tempo longe do seu quarto, não vai morrer se dormir mais uma noite em outro lugar.
— O hospital não é minha casa, . Você não entenderia — estava sendo sincera, sem falar que me sentia exausta para trocar farpas, e teria que parar com isso também se quisesse ganhar sua confiança.
— Realmente, eu não entendo — respondeu, já com certa impaciência.
— Não quero explicar — falei, apertando os lábios enquanto reprimia uma leve vontade de chorar de desespero. — Me ajuda a limpar a bagunça então, assim eu não me esforço tanto e você não dorme em pé, porque você tá quase — propus, vendo que ele parecia prestes a desmaiar de sono.
— Se eu falar que não, você vai fazer sozinha não vai?
Concordei com a cabeça.
— Onde vocês guardam o material de limpeza? — Não acredito que ele cedeu tão rápido.
— Embaixo da escada, a porta tá aberta.
desceu para pegar o necessário e eu aproveitei para respirar. O que estava acontecendo comigo? Chorar por causa de um quarto?
Voltei a entrar no ambiente, acendendo a luz novamente. Depois de olhar tudo, decidi começar pelo banheiro que era o lugar menos bagunçado, não fiquei muito tempo ali, uma vez que só precisei colocar alguns frascos de volta no lugar e alguém já havia secado o chão — provavelmente a equipe da perícia, já que ninguém deveria querer morrer eletrocutado enquanto procurava provas.
Quando voltei para o quarto, tirei toda a roupa de cama e as almofadas do mini sofá, junto com sua capa. Enquanto eu ia para o banheiro colocar tudo no cesto, entrou trazendo algumas coisas para utilizarmos na limpeza, eu não precisei falar nada, depois de colocar um par de luvas e me entregar um outro par, ele foi até a penteadeira e começou a colocar todos os itens quebrados em uma caixa que estava dentro de um saco de lixo, fazendo o mesmo com os cacos de vidro que estavam no chão.
Achei que era uma boa ideia limpar os móveis conforme ele retirava a bagunça, assim eu não fazia tanto esforço e podia me livrar logo das manchas de sangue, algumas estavam mais difíceis do que as outras, mas foram saindo aos poucos.
Eu já havia estado em muitas cenas de crime, mas nunca tinha limpado uma, principalmente de um falso crime — que naquele momento não parecia ter nada de falso. , que já havia varrido o chão, agora enrolava o tapete — com o que um dia foi meu sangue — para tirar ele do quarto.
Não estávamos conversando, fazíamos tudo em silêncio. Eu já havia limpado todos os móveis e aproveitei a saída dele para arrastar a moldura do espelho quebrado pra fora, mas fui pega na metade do caminho e recebi um olhar feio. Foi até engraçado. Deixei que ele terminasse de empurrar.
— Só falta passar um pano no chão, vai tomar banho e eu termino. Seus pontos vão abrir se fizer mais alguma coisa e...
— Você não está afim de me vigiar em um hospital — Interrompi, completando o que ele iria dizer. Ele concordou com um leve aceno de cabeça. — Obrigada, .
— Seu quarto não tem janelas, o único jeito de alguém entrar é pela porta, então se quiser pode trancar por dentro quando sair do banho.
Enquanto o policial ajeitava o necessário para limpar o chão de madeira, eu fui até o closet atrás de um pijama leve, achando um sem muita dificuldade, o que era um milagre naquele armário. Quando fechei a porta do banheiro, parte de mim queria muito deitar na banheira, mas a outra parte estava muito cansada e temia cair no sono e se afogar, então decidi que o melhor era um banho de chuveiro.
Deixei que a água e o sabão levassem todo o cheiro de hospital e a sujeira pós limpeza do meu corpo. Devo ter ficado quase trinta minutos lá, a água estava tão quentinha e me fazia relaxar cada vez que escorria pelo meu corpo, evitei pensar em qualquer coisa naquele meio tempo, precisava cuidar um pouco de mim.
Quando estava prestes a desligar o chuveiro, vi que tinha um pouco de sangue no chão, sangue que escorria da minha barriga. Ótimo, parecia que um dos pontos estava abrindo. Castigo, ou talvez fosse só praga do policial mesmo. Desliguei o chuveiro e coloquei a toalha no local, por baixo da toalha que eu tinha me enrolado. Fiz o pior curativo que já havia feito na minha vida, mas pelo menos já não sangrava mais.
Quando coloquei o pijama e saí do banheiro, já não estava, provavelmente tinha voltado para o corredor. A porta estava fechada com a chave pendurada, esperando para ser trancada, e o chão estava tão limpo que eu jamais diria que quase fui encontrada morta ali poucas semanas antes.
Liguei a tv e deixei praticamente no mudo, colocando legendas automáticas, gostava de fazer as coisas com o aparelho ligado. Agradeci mentalmente a equipe que consertou a energia depois do curto, mesmo que eles só tenham arrumado para os policiais fazerem seu trabalho e não para mim.
Enquanto sentia o cheirinho agradável de limpeza, arrumei o sofá e coloquei uma nova muda de roupas na cama também. Depois de alguns minutos, tudo já estava no lugar, era hora de cuidar um pouco mais de mim.
Me sentei na cama para pentear meu cabelo molhado, pensando que um pequeno tempo no meu refúgio, já tinha renovado um pouco da minha saúde mental. Eu queria fazer outras coisas, mas me sentia exausta demais, era hora de ir para a cama.
Já tinha apagado a luz e me preparava para dormir quando lembrei de no corredor, ainda que seus motivos fossem diferentes dos meus, ele havia me ajudado apesar de todo o seu cansaço, então coloquei um travesseiro no Sofá junto com uma coberta e decidi fazer uma boa ação.
Abri a porta do quarto e encontrei o policial no corredor, igualzinho antes.
— — chamei — vem aqui, por favor.
Dei passagem pra que ele entrasse.
— Tudo bem? — Ele parecia meio confuso, mas talvez fosse apenas sono.
Tranquei a porta assim que ele entrou.
— Dorme no sofá. — Disse apontando para o móvel e jogando as chaves em sua direção. — Tá montando guarda desde ontem, e sei que deu trabalho limpar isso aqui.
— Eu não posso, mas obrigada — pude notar um pouco de timidez na sua voz.
— Sim, você pode. Tava dormindo no carro e você mesmo disse que o único jeito de entrar no meu quarto seria pela porta. A chave tá com você, eu não vou sair e se alguém derrubar para entrar você vai ouvir. Agora dorme — falei, já me dirigindo à cama.
Ele não tinha argumentos, uma vez que eu usei as próprias palavras dele contra ele. cedeu logo depois e se sentou no sofá, um pouco largado.
Eu não acreditava que finalmente poderia dormir na minha cama. Me aninhei no monte de travesseiros que havia colocado lá, desfrutando sorridentemente do aconchego que aquilo me trazia.
Estava de bruços quando coloquei a mão debaixo do travesseiro e senti o canivete que havia colocado ali.
— Boa noite, Green.
— Bons sonhos, Jude — escutei sua voz sonolenta, apagando logo depois.
POV.
Algumas vezes era muito difícil entender o que se passava na cabeça de , já em outras era praticamente impossível.
Jamais pensei que "o dia" terminaria com ela me chamando para dormir no sofá do quarto dela, claro tampouco havia pensando que eu passaria quase 2 horas limpando aquela cena de crime. Tudo com ela era extremamente imprevisível.
Eu não deveria estar sentado no sofá dela quase dormindo, mas a encrenqueira tinha razão, ela não sairia sem a chave e como o único modo de alguém entrar era pela porta, eu acordaria sem dúvidas.
Eu não dormia a três dias, diferente do que ela pensava, acho que um pouco de descanso era válido e faria bem para os dois. Ainda sentado, me ajeitei no travesseiro que estava lá e usei a coberta para cobrir meus braços, uma vez que havia esquecido a minha jaqueta no carro.
Não fazia ideia de quanto tempo tinha dormido, mas quando meus olhos começaram a se abrir eu já não me sentia mais tão cansado. A única luz no ambiente continuava sendo a da tv. Fiquei ali observando a grande tela por um bom tempo, ainda passava CSI Las Vegas.
Arrisquei um olhar rápido para , ela dormia tranquilamente abraçada ao travesseiro e estava quase sumindo no meio das cobertas.
Depois de alguns minutos acordado, tive vontade de ir ao banheiro. Cogitei sair e procurar algum no corredor da casa, mas temi que o rangido da porta acordasse ela, então imaginei que não teria problema em usar o seu banheiro particular. Felizmente a porta ali era de deslizar e não faria barulho.
Na hora de sair, quando fui até o interruptor apagar a luz, algo chamou minha atenção. Havia uma toalha com uma mancha vermelha jogada perto da banheira, um vermelho que se parecia muito com sangue. Não fiquei muito surpreso quando peguei a toalha — molhada — e vi que era realmente sangue. Já era de se esperar que aquilo acontecesse, aquela garota era uma teimosa.
Coloquei a toalha em cima do assento da privada e fui procurar uma caixa de primeiros socorros. Iria esperar ela acordar sozinha, uma discussão já seria o suficiente.
POV.
Arrumar o meu quarto e descansar naquele lugar tão familiar me trouxe um conforto mais do que necessário. De fato aquele lugar era meu porto seguro. Fiquei um bom tempo deitada com os olhos fechados, apenas desfrutando do aconchego dos meus travesseiros, eu senti tanta falta deles, me sentia no paraíso nesse momento.
Quando finalmente decidi acordar de vez, vi que estava sentado em uma cadeira de frente para a cama.
— Se supõe que você deveria estar dormindo — falei, ainda deitada.
não disse nada, apenas se levantou e começou a andar na minha direção. Tinha alguma coisa na sua mão, mas como havia pouca luz no quarto, não consegui identificar o que era. Três segundos foram suficientes pra ele se curvar em cima de mim com os braços apoiados na cama, automaticamente minha mão buscou o canivete embaixo do travesseiro quando ele aproximou ainda mais seu rosto do meu.
— Se supõe que você deveria ficar quieta e fazer repouso — começou. — Levanta a blusa.
se afastou alguns centímetros e pude ver o que tinha na mão, uma bolsa de primeiros socorros. Ele deveria ter visto a toalha no banheiro.
— Você não é médico. Vai dormir.
— Seu irmão não te ensinou medicina também enquanto te falava como colocar um nariz no lugar? — Retrucou.
Revirando os olhos, me sentei na cama enquanto puxava as cobertas para longe de mim. acendeu as luzes e se sentou próximo ao meu lado.
— Levanta a blusa.
— Por quê você não levanta? — Provoquei, crente que ele não faria e me deixaria em paz com meu curativo meia boca.
O policial fechou os olhos esfregando suas têmporas, depois, contra todas as minhas expectativas, ele se sentou ainda mais perto e me encarou com firmeza. Sem dizer uma palavra e sem tirar os olhos dos meus, usou a mão livre para tocar a minha barriga por cima do pijama, embora ele só estivesse tateando em busca do curativo, não pude deixar de sentir um arrepio quando ele encontrou o que procurava e me segurou com firmeza. Quando seus dedos roçaram minha pele enquanto ele levantava lentamente a barra da minha blusa, um novo arrepio percorreu todo o meu corpo.
aproximou ainda mais o seu rosto do meu, sua mão espalmada pousou sobre o curativo na minha barriga enquanto seu polegar ainda tocava em minha pele. Não sei se era o ambiente escuro, mas o policial estava perto demais, e a pouca luz no quarto realçava sua beleza, seus olhos verdes...os lábios entreabertos...
— Cedo demais para ficar empolgadinha, Jude – sussurrou.
O que? puxou o curativo de uma vez, fazendo com que o esparadrapo levasse até a minha alma junto consigo. Só tive tempo de gritar enquanto saia do meu devaneio. Eu não acredito que estava achando aquele imbecil atrativo e ele... ele... DROGA.
— Você tá ficando louco, SEU MERDA? — Eu ia matar aquele idiota, não me importava quem ele era.
riu enquanto se levantava para acender a luz.
— Ia me beijar, Jude?
— Nos seus sonhos, seu policial de quinta. Sai do meu quarto agora — disse apontando em direção a porta enquanto tentava não explodir de raiva.
, que já tinha colocado um par de luvas, se sentou na cama enquanto ainda ria, me ignorando completamente. Chutei o seu quadril.
— SAI.
— Com muito prazer, mas só depois que eu der um jeito nessa merda que você fez. E antes que você diga que não — emendou, molhando um algodão com anti séptico — queria te lembrar que a chave ainda tá comigo, e nenhum de nós vai sair daqui até você ceder.
Alguém no FBI me entenderia se eu desse um tiro naquele cara? Como eu deixei o meu estúpido corpo se deixar levar pelo toque não intencional daquele idiota? As pancadas com certeza afetaram o meu cérebro, não tinha outra explicação.
Levantei a blusa e deixei que ele arrumasse o curativo. conseguiu dar um nó no ponto solto, evitando que ele abrisse por completo com o decorrer do tempo, não ia admitir, mas o curativo ficou infinitamente melhor que o meu. Rindo de forma silenciosa, ele devolveu a bolsinha ao banheiro e saiu logo depois.
Não pensei duas vezes antes de me levantar e trancar a porta.
Não tinha mais sono, ainda me sentia um pouco cansada, mas tamanha irritação não me deixaria dormir tão cedo. Decidi então focar no que era preciso, assim não pensaria na minha estupidez.
Fazendo o mínimo de barulho possível, soltei o piso falso que ficava embaixo da minha cama e peguei uma chave de fenda pequena e uma chave minúscula que estavam lá. Tomando todo o cuidado possível (com meus pontos e com o barulho), subi em cima da cama e dei um passo para alcançar a mesa de cabeceira, ficando na mesma posição da saída do duto de ar. Não vou mentir que temi abrir outro ponto quando me estiquei para soltar os parafusos da grade que ficava ali, mas eu não tinha muita escolha.
Assim que a tampa se soltou, eu a coloquei em cima da cama e voltei para puxar a caixa cinza de dentro do duto. Ela se camuflava perfeitamente na grade, tinha a mesma cor e era impossível enxergar de longe, teriam que chegar muito perto para ver aquilo e eu sabia que ninguém ia subir na mesa de cabeceira para procurar evidências. Tinha escondido minhas coisas ali antes de provocar o meu "atentado".
Me sentei na cama com a caixinha em meu colo, abrindo com certa ansiedade. Por cima de tudo, estavam um taser e meu distintivo, seguidos pela minha arma e meu celular. Havia guardado ele ali para que a polícia não achasse.
Claro que eles iriam querer grampear meu telefone esperando um sinal do meu irmão supostamente criminoso, qualquer um podia imaginar isso, então aquele aparelho deveria ficar escondido para preservar não só a missão — já que eles iam escutar absolutamente tudo que eu falasse ao telefone , mas também a minha verdadeira identidade. Eu compraria um celular novo assim que possível, com um novo número que eles poderiam grampear à vontade, e meu celular verdadeiro deveria permanecer escondido e ser usado somente para trabalho e assuntos muito pessoais.
Deixei somente o meu telefone e o taser fora da caixa, o resto voltaria a ficar escondido no alto. Deixei o celular ligando enquanto eu colocava a caixa de volta no duto de ar — dessa lembrando de deixar os parafusos mais frouxos, para facilitar caso eu precisasse da minha arma. O taser foi enfiado na gaveta, não era preciso escondê-lo mais.
Apaguei a luz logo depois, me escondendo debaixo das cobertas. Queria tranquilidade para a enxurrada de coisas que estavam por vir.
No whatsapp, havia uma série de mensagens do meu irmão, algumas em que ele estava totalmente puto e outras em que ele estava feliz por eu estar viva e bem. Não iria me explicar e nem responder mensagem por mensagem, acho que já estávamos todos fartos do ocorrido e ninguém queria outra discussão. Achei melhor ser objetiva.
"Estou bem e em casa, vou ficar tranquila e prometo que não farei outra loucura. Sinto sua falta, amo você."
Meus companheiros de trabalho se dividiam entre me dar bronca e me desejar melhoras. Também tinham algumas mensagens de alguns colegas perguntando sobre o meu ataque, mas eu não deveria responder, todo mundo tinha que pensar que o aparelho foi levado. Depois de ler tudo, acabei (com certa tristeza) bloqueando todos eles, exceto um. Enquanto terminava de bloquear pessoas, apareceu uma notificação na tela, era Lucas. Fui até a conversa.
"Eu não preciso te dar uma outra bronca, não é? No momento tenho outras preocupações, como você fechada em uma casa com dois suspeitos, por favor mantenha sempre uma arma por perto. Você sabe que eu nunca estive de acordo com você se colocando nessa situação, mas não tive como impedir. Às vezes eu penso que Aaron matou alguém e você sabe onde ele escondeu o corpo, porque ele simplesmente deixa você fazer tudo o que quer. Então, no mínimo, seja cautelosa. Você já me deu um susto enorme e foi o suficiente, em qualquer sinal de perigo aborte a missão."
"Quem te levou para casa?"
Achei que os sermões tinham acabado.
"Sim senhor. Clarice tem alguma novidade para mim?"
Enviei, ignorando todo o resto. Enquanto Lucas digitava, uma nova notificação apareceu. Aaron.
Claro que Clarice estava com Lucas e correu para soltar a língua.
Eu sinceramente não queria perder o foco e nem o sossego naquela hora. Fui até a tela inicial do aplicativo e silenciei a conversa, voltando à janela que mais importava no momento.
"Como sabe que ela tá comigo?"
"Ela te enviou agora um e-mail com algumas informações. Nada demais em nenhum dos casos, mas isso não deve ser sinal para que você baixe a guarda. Você descobriu algo?"
Eu sei que ela tá com você porque foi correndo falar com o irmão dela, pensei, meus olhos reviraram de tédio. Preferi ignorar sua pergunta na hora responder a mensagem.
"Não encontrei nada por enquanto. Nicolás não tem aparecido e andei revirando algumas coisas de , mas não encontrei nada. Foi ele quem me trouxe. Vou olhar o que Clarice me enviou. Depois conversamos, ok?"
Recebi sua resposta logo em seguida.
"Ok. Amo você, se cuida."
Acessei o e-mail que eu utilizava no trabalho pelo telefone, os e-mails eram na verdade as fichas de e Nicolás.
Green era um policial de classe alta que aparentemente gostava de viver sem luxos. Ele morava sozinho em um apartamento simples e havia se formado em advocacia (essa parte Nicolás já tinha me contado, já que haviam estudado juntos). Seus pais eram divorciados, e enquanto o seu pai, Carter Green, havia se casado novamente e permanecido na Califórnia onde era delegado, sua mãe vivia no Novo México com a outra filha e sua neta, seu nome era Harmony Green. Me perguntei porque ela não havia retirado o nome do marido quando se divorciou.
Quando abri a pasta com fotos da família do policial, não pude deixar de fazer algumas análises; o pai de me passou a impressão de um homem arrogante e soberbo, seu sorriso parecia falso e eu definitivamente não iria com a cara dele caso o conhecesse, esperava não ter que visitar a delegacia tão cedo. Sua mãe já era o oposto, a senhora Harmony parecia gentil e humilde, assim como sua filha — talvez tenha puxado o lado da mãe, e por isso gostasse de viver sem luxos. Fiquei olhando a foto dele por algum tempo e logo me lembrei do ocorrido de alguns minutos atrás, embora ele tivesse os olhos e o sorriso da mãe, parecia ser um merda igual ao seu pai.
Passei para a ficha do outro policial e imediatamente me senti mal por Nicolás. Ele perdeu os pais quando era criança em um acidente de carro, tinha 3 anos e foi parar em um orfanato onde ninguém adotou ele, pelo que dizia ali, nunca nem tentaram. Passou a vida de orfanato em orfanato até os 16 anos, quando teve autorização para trabalhar. Fez isso por anos em uma lanchonete para pagar os estudos, até a metade da faculdade onde depois conseguiu uma bolsa.
Sua vida não tinha sido fácil. Pensei em sua gentileza, na simpatia que estava sempre presente com ele. Como alguém poderia sofrer tanto e ainda ser gentil?
Senti meus olhos marejarem. Era sensível demais, esperava mudar isso com o passar dos anos, mas nem a rigidez do trabalho ajudou. Fechei o e-mail, antes que terminasse chorando pela vida dura de um policial quase desconhecido.
Por hora, eu não tinha muito o que fazer, então decidi me dar ao luxo de ter companhia. Abri o WhatsApp e busquei a única pessoa que não era do trabalho — e que não tinha sido bloqueada — e digitei uma mensagem:
"Acordado?"
Enquanto esperava, voltei a ler suas mensagens, foi a única pessoa com quem eu não me importei por me dar uma bronca. Ele sabia do meu trabalho e do falso ataque também, não deveria, mas eu não tinha segredos com ele. Sua resposta não demorou a vir, eu já sabia que ele estava acordado, era uma pessoa noturna assim como eu.
"Tarde demais para eu te fazer uma visita?"
Kyle já havia voltado?
"Quando você voltou? Achei que ia ficar em Londres até a próxima semana"
"Hoje a tarde, pretendia te visitar amanhã, mas se você está com seu telefone, acho que já está em casa. Chego aí em 20 minutos."
Eu ri, adorava como as coisas com ele eram simples. Kyle era o único amigo que sabia quem eu realmente era e o que fazia. Na realidade, acho que se parasse pra pensar bem, ele era o único amigo de verdade que eu tinha, além de Clarice.
"Traz seu computador, por favor."
Enviei, me lembrando que ia precisar de um computador que não fosse o meu. Ele não respondeu, mas eu vi que tinha visualizado a mensagem.
Não sei em que momento da vida Kyle virou meu melhor amigo, mas ele sempre estava lá quando eu precisava. Eu queria que todas as pessoas tivessem um amigo como ele. O engraçado é que ele e Clarice eram meus melhores — e únicos — amigos mas se detestavam, eu nunca entendi porquê ela não gostava de Kyle, já ele tinha motivos claros para não gostar dela. Durante o primeiro ano da faculdade, alguém soltou um rumor sobre "Kyle Pantton gostar de beijar rapazes" e diziam as más línguas que havia sido Clarice, eu não sabia se de fato foi ela, então nunca toquei no assunto, mas tinha certeza que Kyle não beijava rapazes. Quando eu perguntei a ele sobre o assunto, ele disse que não falaria o motivo, mas que tinha certeza de que Clarice havia espalhado o boato sobre ele. Apesar da curiosidade, decidi respeitar sua decisão e não insistir na conversa. Depois daquilo, eu passei a tomar cuidado com o que dizia a ela, já que Kyle sempre me dizia que ela não era confiável, e ele não falaria mal de alguém se não tivesse motivos muito grandes. Os alertas dobraram quando eu contei que às vezes tinha a ligeira impressão de que Clarice tentava me empurrar para Aaron numa tentativa de se livrar da cunhada.
Apesar de tudo, eu não conseguia considerar ela uma má pessoa, éramos amigas desde crianças. Eu focava nas coisas boas, guardava o que achava arriscado só para mim e tratava de manter a minha amizade com ela separada da amizade que eu tinha com Kyle.
Enquanto ele não chegava, acabei abrindo a mensagem de Aaron. Assim como Lucas, dizia para que tomasse cuidado ao ficar sozinha com os policiais, mas que estaria de olho.
Escutei um barulho de carro e olhei para o celular novamente, não havia nada para responder. Desliguei o aparelho e o escondi de baixo do piso solto, junto com as chaves.
Vesti um robe e calcei meus chinelos para ir a porta de entrada quando escutei o barulho do carro ficar mais alto. Quando abri a porta, vi que estava prestes a descer as escadas, provavelmente alertado pelo barulho do motor também. O policial virou na minha direção.
— Eu vou abrir a porta. Não é nenhum assassino e eu não vou para lugar nenhum. — Falei, antes que ele perguntasse qualquer coisa.
Ele não disse nada, mas parou de andar e ficou ao lado do corrimão enquanto eu descia as escadas a passos de lesma. Eu esperava que aquela moleza não durasse muito.
Cheguei até a porta a tempo de ver Kyle estacionando o Porsche preto atrás do carro de , uma BMW G02. Ele saiu do carro e ajeitou a mochila no ombro, pegando um saco de papel no banco do carona. Me senti ligeiramente animada quando ele começou a caminhar na minha direção, achava incrível como ele parecia sorrir com olhos, ele tinha uma energia maravilhosa e acabava passando aquilo para quem quer que estivesse por perto. Observei como a luz da lua fazia uma sincronia perfeita com seus olhos azuis.
Seus braços me envolveram assim que ele ficou na minha frente, retribui o abraço com gosto enquanto ele afagava — e bagunçava — meu cabelo. Já fazia quase um mês que Kyle estava em Londres, já sentia falta dele. Sua companhia sempre me fazia bem, e ele era a personificação de conforto.
— Me fala que isso na sua mão é um lanche de fast food daqueles bem gordurosos que eu não poderia estar comendo.
Ele riu enquanto desfazia o abraço, entregando o pacote para mim.
— Você não obedece a ninguém mesmo, então decidi te mimar um pouco.
Kyle me abraçou de lado assim que eu fechei a porta, subindo as escadas comigo. Claro que ele não passou batido aos olhos do policial, sabia que eu deveria apresentá-los e dizer que Kyle estaria frequentemente em casa, mas ainda estava irritada demais com , não queria falar com ele agora. Enquanto eu o ignorei, Kyle fez questão de cumprimentá-lo com um aceno de cabeça, que foi prontamente retribuído.
Me joguei na cama assim que fechei a porta, me sentindo cansada novamente. Enquanto Kyle tirava os seus sapatos para fazer o mesmo que eu, tratei de ligar a tv novamente, aumentando o volume para que um certo policial idiota não pudesse escutar nossa conversa.
— Quem é o cão de guarda do lado de fora? — Perguntou, me entregando o notebook que havia tirado da mochila.
— Um idiota que pensa que é policial.
Tirei os lanches da sacola de papel enquanto ele se sentava ao meu lado na cama, ligando o computador que eu coloquei em cima de um travesseiro.
— Parece o seu tipo — brincou.
Dei um olhar atravessado enquanto mordia o hambúrguer. Enquanto ele se sujava com a maionese do lanche, eu criei um novo perfil no sistema, colocando tudo o que eu precisava.
— Ninguém vai mexer no seu computador, certo? — Falei mais em tom de afirmação do que de pergunta.
— Ninguém. Mas se você quiser pode ficar com ele também.
— Não posso, é arriscado, por isso não vou usar o meu. Vou deixar tudo criptografado como a Clarice me ensinou, uma pessoa leiga não vai conseguir mexer, mas se um deles pegar pode saber o que fazer ou pelo menos conhecer alguém que sabia. Vou deixar algumas coisas e sempre que você vier pra cá eu preciso que você traga, tudo bem?
— Sem problemas.
Enquanto Kyle continuava comendo, aproveitei para comprar dois celulares, pedindo uma entrega expressa. Iria repor o celular quebrado de também, seria o próximo passo para tentar me aproximar.
— Porque tá comprando dois celulares? Você já não tem um escondido?
— Eu quebrei o celular do idiota que tá no corredor — revirei os olhos olhando para a tela do computador enquanto desligava ele.
— Ok. Quer me contar agora o porquê disso tudo? — Perguntou enquanto guardava o aparelho novamente na mochila.
Respirei fundo, pensando em como resumir a situação. Kyle sabia que o ataque era uma farsa, mas não tive tempo de contar a ele antes da viagem o que antecedeu aquilo.
— Alguns meses atrás tentamos fazer uma operação contra o narcotráfico, mas assim como das outras vezes eles estavam um passo à frente e saiu tudo errado — ele prestava atenção como uma criança que escuta uma história, completamente concentrado. — Porém, aconteceu uma outra coisa que a gente não estava esperando. Você sabe, a gente sempre trabalha com alguns policiais nesse tipo de operação — ele assentiu — e nesse dia teve uma interferência nos rádios, eu não sei como aconteceu, mas a gente acabou escutando o rádio de um policial que não tava falando com a gente, como se fosse uma interferência.
— Isso não é comum? Nos filmes sempre quando alguém tá com uma escuta, acaba entrando a frequência da polícia.
Tive que rir.
— Você está vendo muitos filmes. Pode até acontecer, mas não dessa forma e é muito raro, principalmente porque a polícia e o FBI utilizam rádios diferentes. Mas o importante aqui é o que a gente ouviu, ele tava passando informações, Kyle. Informações sobre a nossa operação. Como a gente ia conseguir derrubar essa organização se alguém estava entregando a operação para eles? É por isso que nunca dava certo.
— Isso explica muita coisa — disse pensativo, enquanto brincava com umas das almofadas. — Me lembro de algumas coisas que você me contou. Nunca tinha considerado isso? Que tinha alguém jogando nas duas pontas?
— Sempre tem, não é? Mas a gente sempre trabalha com os melhores para evitar isso, só que isso já não tá mais dando certo — ficava um pouco decepcionada quando pensava nisso.
Me afundei nos travesseiros. Naquele dia Aaron ficou furioso, eu estava no carro com ele junto com o agente Adam e Clarice.
— O rádio estava cheio de ruídos por ser uma interferência, nem se a nossa vida dependesse disso nós poderíamos identificar de quem era a voz. Clarice — reparei que Kyle torceu o nariz ao ouvir o nome dela — conseguiu rastrear a ligação e descobrir de qual delegacia vinha, mas não ia adiantar nada chegar com uma acusação dessas para o delegado, nem ele ia conseguir saber qual de seus policiais era. Então a gente teve que montar um plano para tentar descobrir quem é o infiltrado, isso levou meses.
— Vocês levaram meses para fazer um plano que quase terminou com você no caixão? — Ele ria, alto demais até. — Parabéns.
— Cala a boca. Isso foi só um imprevisto — dei um tapa de leve nele.
— Continua, idiota.
— Tori sugeriu que uma de nós devesse ficar com alguém da delegacia, namorando um policial, talvez pudéssemos descobrir algo, mas era muito raso. A ideia era boa, mas um pouco falha, então sugeri deixar um deles na nossa cola. Passei dias pensando em como fazer isso até ter algo que realmente funcionasse e tivesse sentido. Precisaria de um vilão, um culpado e uma vítima. Lucas e eu moramos juntos, pensei que fosse viável a ideia de que ele fosse traficante e tentasse passar a perna em quem lhe fornecia a droga, afinal a gente sabe que isso nunca acaba bem. — Expliquei.
— Lucas seria o culpado — falou enquanto me olhava. — Você ficou com o papel de vítima, não é?
— Sim, a pobre irmã que foi atacada — fingi sofrimento enquanto falava, arrancando risadas dele. — A polícia anda muito em cima com esse tema das drogas, uma pena que nem todos estejam dispostos a colaborar. Mas então entra a ideia de um traficante envolvido com gente de pesada, seria o suficiente para atrair alguns policiais. Pense como eles, me diga o que você faria.
Kyle pensou por alguns segundos antes de responder.
— Deixaria alguns na sua cola esperando seu irmão aparecer, se eu pegasse ele talvez pudesse fazer um acordo, diminuir a sentença em troca de informações.
Sorri vendo que ele tinha entendido perfeitamente.
— Como alguém que bolou um plano desses quase terminou morta com meia dúzia de móveis e um secador?
Comecei a rir, aquilo tinha certo sentido. Talvez eu pudesse mesmo ter sido menos radical.
— Tem uma coisa que me deixou curioso — começou. — Duas na verdade.
— O que?
— Você disse que sempre trabalham com alguns policiais nessas operações — concordei com a cabeça enquanto ele falava — não tem medo de um deles te reconhecer?
— Não. Acho que nunca entrei em detalhes sobre isso com você, mas lembra que eu te falei que nossas identidades ficam muito bem escondidas já que nosso departamento é voltado para missões mais secretas? Trabalhos infiltrados e coisas do tipo?
— Sim, eu brinquei que você era da CIA — nós dois rimos, como na primeira vez que ele disse aquilo.
— Então, por conta disso, quem negocia o empréstimo de policiais para as missões é somente Jake. E esse tipo de operação quase sempre acaba em conflito, então além do colete a gente tá sempre de capacete, touca e óculos. Não tem como. — Realmente eu julgava aquilo impossível.
— Tipo os que a SWAT usa?
— Parecido.
Ele assentiu.
— Não é meio como achar uma agulha no palheiro isso que vocês estão fazendo? — Achei graça da sua expressão, suas sobrancelhas arqueadas deixavam sua cara fofa e confusa ao mesmo tempo.
— Tori deu um jeitinho para que quando Clarice fizesse a ligação, caísse justamente na delegacia que ela rastreou o chamado daquele dia no rádio.
— Tá me dizendo que o cara na sua porta é suspeito?
— Uhum.
Kyle esfregou os olhos e passou vários minutos me encarando. Ele abaixou o volume da TV e fez um "shh" para mim enquanto eu dava risada, pude escutar ele murmurar um "melhor trocarmos de assunto" e ri mais ainda.
— Não sei como você conseguiu pensar em tudo e organizar para não ter falhas. Mas agora eu entendo por que você está onde está. — Disse baixinho, sorrindo.
— As más línguas dizem que é porque eu dormi com o chefe — respondi enquanto ainda ria, Kyle me acompanhou.
— Também é uma opção.
Ficamos ali rindo, já acostumados a fazer piada com qualquer desgraça que nos acontecia.
— Ei — chamei virando a cabeça em sua direção. Kyle já estava jogado em um dos travesseiros ao meu lado. — Obrigada.
— Pela comida ou pelo computador? — Brincou.
— Por tudo.
Ele me puxou para si e eu me aninhei no seu peito.
—Por que tá falando isso agora? Sabe que eu sempre vou estar aqui. — Sua voz era calma e sincera.
— Hoje eu me dei conta que não tenho muitos amigos, o policial babaca que tá lá fora teve que me trazer pra casa porque eu sou a rainha da solidão.
Escutei uma risada baixinha escapando de seus lábios. Tive vontade de olhar, mas estava muito confortável naquela posição.
— , não crie paranoia com isso, você trabalha muito, é difícil ter amigos na profissão que você tem porque nem todo mundo vai entender seus sumiços, mas o problema não está em você. Você sabe que é uma pessoa incrível.
— Não é só isso, eu...
— Shh, cala a boca vai — acompanhei sua risada leve enquanto ele entrelaçou a mão nos meus cabelos e fazia carinho.
— Quase beijei um dos meus suspeitos e torço todos os dias para que o outro não tenha nada haver com isso — sussurrei desabafando, precisava conversar com alguém sobre como eu estava sendo uma péssima detetive naquela semana.
Assustado com o que eu disse, Kyle puxou minha cabeça para trás para me olhar, e sem querer terminou arrancando um monte de fios do meu cabelo, me fazendo soltar um "ai" esganiçado. Aparentemente foi mais alto do que eu pensei, já que abriu a porta.
— Eu escutei você gritando — seu olhar se perdia sobre o meu corpo colado ao de Kyle que ainda tinha meus cabelos em meio aos seus dedos. Podia imaginar seu cérebro trabalhando para descobrir se éramos um casal. — Está tudo bem?
Kyle tentava segurar a risada. não tirava os olhos dele.
— Tudo bem, eu só bati a cabeça na cabeceira da cama — menti.
— Certo.
Ele saiu tão rápido como tinha entrado, fechando a porta novamente. Ia me levantar para trancar, mas fiquei com preguiça.
— Foi ele que você quase beijou, né? — Sua pergunta era mais uma afirmação.
— Como você sabe?
— Você disse que o cara no corredor era um idiota. Você gosta de idiotas, principalmente se usam farda — dei um tapa em seu peito. — Por que ia beijar ele?
— Não sei, ele tava perto demais. Acho que fiquei hipnotizada pelos olhos bonitos dele — brinquei.
— Eu tenho olhos bonitos e você não aceitou meu pedido de namoro — acusou, em tom brincalhão.
Ele me pediu em namoro quando tínhamos 13 anos, eu o empurrei no chão e sai correndo. Isso ainda era piada nas festas de família, nossos pais tinham certeza que um dia seríamos um casal. Sempre riamos quando o assunto vinha à tona, meus pais também não perdiam a chance de fazer alguma piada quando Kyle aparecia para dormir em casa antes deles viajarem.
— E o outro cara? — Perguntou baixinho.
Talvez pelo carinho constante de Kyle na minha cabeça, comecei a sentir o sono aparecer novamente.
— Pode apagar a luz, por favor? — Ele se esticou para apertar o interruptor perto da cabeceira da cama, ajeitando as cobertas logo depois. — Obrigada. Ele se chama Nicolás, vai entender quando conhecer.
— Deveria ter ido ver você no hospital assim que cheguei — sua voz parecia um pouco triste. Talvez pelo que eu contei minutos antes.
— Kyle, eu tenho quase certeza que você largou o trabalho pra vir me ajudar. — Ele não disse nada, então soube que era verdade. — Tenho certeza que nenhuma outra pessoa faria isso por mim, o que é uma ida até o hospital perto disso?
— Eu imaginei que as coisas tinham saído do controle quando passou mais de uma semana e você não falou comigo. Fiquei com medo.
Abracei mais o corpo de Kyle. Estava quase pegando no sono.
— Kyle — chamei com a voz sonolenta, escutei ele responder quase no mesmo tom. — Você tem os olhos mais lindos — brinquei, rindo junto com ele.
Estava deitada no jardim observando a forma das nuvens, eu adorava fazer aquilo quando era criança, então sempre que tinha uma oportunidade me deitava no jardim para manter aquele hábito. Só que todo mundo cresceu, e ninguém mais parecia ter tempo para isso, então eu ficava lá sozinha.
Sorria feito boba admirando os desenhos que minha imaginação fazia no céu, era divertido e me fazia sentir relaxa, eu poderia ter passado horas ali se não tivesse escutado dois homens discutindo ao longe. Me sentei tentando identificar as vozes, mas tive a minha atenção roubada por um cachorro que pulou em cima de mim e me encheu de lambidas.
Espera, cachorro? Não tinha cachorro na minha casa. Claro, aquilo só poderia ser um sonho.
Já que nada ali era real, decidi ignorar as vozes alteradas e voltei a observar as nuvens enquanto fazia carinho no meu cachorro imaginário, só que ele estava mais interessado em arranhar meus ombros do que em receber atenção, o que havia de errado com ele? Céus.
De repente o céu foi ficando distante, assim como o jardim, mas ainda sentia os arranhões do cachorro nos meus ombros, só que agora pareciam mais leves. Percebi então que alguém estava tentando me acordar, e de maneira delicada, massageando levemente os meus ombros. Quando abri os olhos, me deparei com o par de olhos azuis de Kyle, ele parecia preocupado.
— Acho melhor você se levantar, seus dois namorados estão brigando na porta. — Disse baixinho, se afundando nas cobertas novamente.
Meus namorados? O que ele queria dizer com aquilo?
Só então me dei conta de que os homens discutindo não eram fruto do meu sonho, eram pessoas reais que interferiam na minha fantasia frustrada de ter um animal de estimação. Duas vozes masculinas gritavam no corredor sem o menor pingo de respeito pelo meu sono.
Me levantei feito um raio quando identifiquei as vozes, sentindo um leve tremor quando pensei em quem pertencia a segunda. Abri a porta a ponto de derrubá-la, fazendo com que Aaron e se calassem imediatamente.
— Posso saber que merda está acontecendo aqui? — Esbravejei.
Os dois começaram a falar juntos, um por cima do outro e me irritando ainda mais. Não conseguia entender nada, até que o meu vizinho decidiu gritar mais alto que o policial.
— Porque você não cala a boca seu policial de m..
— Não manda ele calar a boca — interrompi Aaron. Que direito ele achava que tinha de ir na minha casa e gritar com as pessoas daquele jeito? Mesmo que fosse com . — O que você tá fazendo aqui? — Sem esperar por uma resposta, me virei para o policial e emendei outra pergunta. — Por que esse escândalo todo?
— Ele queria entrar no seu quarto — se explicou — achei que você não ia gostar porque você estava... — interrompeu a própria fala, imagino que pensando se deveria dizer ou não que eu tinha companhia. Eu assenti, mostrando que tinha entendido.
Cruzei os braços e voltei a olhar para Aaron, que parecia incrédulo.
— O que você tá fazendo aqui?
— Queria ver como você estava, talvez eu pudesse te ajudar com alguma coisa ou até mesmo cuidar de você — ele ajeitava a gravata enquanto dividia seu olhar entre mim e . — Não entendi quem esse policial acha que é…
Sem um pingo de paciência, o interrompi novamente. Talvez na hora certa, porque já puxava um par de algemas de seu bolso.
— Ele está fazendo o trabalho dele. E eu não preciso que você cuide de mim.
Não ia deixar Aaron estragar tudo, já estava farta dele. Além do mais, eu sabia que ele não estava lá por trabalho nem nada do tipo, mais uma vez ele estava me cercando, tentando me levar para cama de novo. Mas eu não era mais ingênua, já foi suficiente ele ter me beijado no hospital, trazendo lembranças que deveriam ser esquecidas. Eu não seria amante de ninguém.
— Vou ficar no jardim — falou enquanto começava a se mover em direção às escadas.
Aquilo não estava certo, Aaron me deixou com toda a bagunça que havia prometido arrumar com Clarice e também me deixou no hospital. , mesmo cansado, passou cerca de duas horas limpando o meu sangue e me trouxe para casa. Talvez ele não fosse uma boa pessoa, mas Aaron também não era nenhum santo.
— — ele parou de caminhar assim que me ouviu chamar pelo seu nome — você não tem que sair, acho que deveria ficar.
Primeiro ele pareceu um pouco confuso, mas acabou se encostou na parede do corredor. Depois de todos os nossos problemas, aquela foi a primeira vez que eu vi ele sendo profissional novamente.
Me virei para o homem perto da porta.
— Eu precisei de você ontem, mas você não fez o mínimo que foi atender essa droga de celular. Nem você e nem Clarice, e ainda por cima eu cheguei aqui e encontrei o meu quarto todo revirado com o meu sangue por toda a parte porque você e a idiota da sua irmã não fizeram nem o que me prometeram. Então acho que daqui pra frente eu posso me virar.
— A gente não sabia que você ia ter alta — ele tentava se justificar.
— Não importa. A única coisa que eu sei é que vocês poderiam ter limpado isso antes. E você não tem o direito de chegar aqui gritando, com ninguém. O policial Green foi quem me ajudou a lidar com toda a bagunça. E acho que você também esqueceu de quem ele é, sabia que ele poderia te prender por desacato?
Escutei uma risada baixinha vindo de , que permanecia encostado na parede do corredor. Apesar dele olhar para os próprios pés, pude ver que ele estava sorrindo.
— Eu sei que a gente pisou na bola, mas você não precisa agir assim — ele tentava manter a calma, mas conhecia ele muito bem, se não estivesse ali, ele já estaria levantando mil questionamentos sobre o modo como eu o estava tratando. — Vai ficar aqui o tempo sozinha porque tá emburrada comigo e a Clarice? Tem certeza?
Escutei a porta atrás de nós abrir.
— Ela não tá sozinha — Kyle apareceu descalço no corredor, parando ao meu lado.
— Não precisa se preocupar com nada. Eu estou bem e segura.
Falei no tom mais firme que consegui, querendo que Aaron sumisse dali logo. Quando ele ia entender que eu só mantinha contato ainda por conta do trabalho?
Ele não disse nada, somente cerrou os punhos tentado a bater em Kyle, eu não sabia mais como colocar ele em seu lugar. Antes de sair, pude ver seu semblante de descrença. Acompanhei com o olhar enquanto ele descia as escadas, me deparando com , ele continuava encostado na parede, olhando para o nada.
— Green, vou fingir que esqueci o que você fez hoje de madrugada, só porque você deu uma dentro. — Ele sorriu de forma irônica, claro eu estava ignorando todo o resto que ele já tinha feito de bom. — Aaron tem uma irmã mais nova e às vezes ele exagera no cuidado comigo pelas nossas famílias serem tão próximas — emendei rápido, inventando mais uma mentira em meio a tantas outras que eu já tinha dito.
caminhou até onde eu estava com Kyle e concordou com a cabeça, mas estava sério. Quando falou não se dirigiu a mim.
— Preciso me preocupar com você? — Sua voz era formal, como no primeiro dia em que nos conhecemos no hospital.
— Não — respondemos em uníssono, Kyle deixou escapar uma risadinha.
— Vigia a encrenca que eu a mantenho sob controle — completou.
— Ei.
Escutei uma risadinha vindo do policial.
Kyle esticou a mão para ele fazendo uma cara amigável, o encarou por algum tempo, mas acabou apertando devolvendo o cumprimento.
— Tem algum telefone na casa que eu possa usar? Preciso falar com Nicolás e me reportar no trabalho também.
— Tem um ao lado da porta de entrada, pode usar.
— Obrigada.
Ele desceu e eu puxei Kyle de volta para o quarto, fechando a porta.
— Tô orgulhoso de você — soltou enquanto colocava seus tênis.
— Porque?
— Se impôs — disse sorrindo. — E Aaron não manda em você. Sei muito bem que se não fosse pelo policial lá fora, ele teria partido pra cima de mim porque ele acha que é seu dono, ele se aproveita da condição dele de chefe pra tentar te dominar — concordei com a cabeça. Enquanto falava, ele foi até o banheiro com uma escova de dentes na mão, mas parou na porta. — Não aconteceu nada aqui ontem, mas se tivesse acontecido não seria problema dele. Ele é seu chefe, não é o seu dono, não se esqueça disso.
Quando ele entrou no banheiro, aproveitei para trocar de roupa e pentear meus cabelos enquanto refletia sobre o assunto. Kyle estava coberto de razão, tinha duas maneiras muito simples de acabar com aquilo, falar com Jake — nosso superior — ou falar com Lucas, mas em qualquer uma das situações eu teria que contar onde começou o assédio de Aaron, e eu não queria trazer aquilo a tona, me sentia envergonhada, além de ter sido ingênua e burra.
Peguei as primeiras roupas que vi, sem paciência de escolher algo melhor.
— Tá chateada só porque eles não atenderam o telefone e não limparam o quarto ou tem algo mais? — perguntou quando saiu, se sentando novamente na cama.
— Não sei te explicar — na verdade eu não conseguia nem entender meus sentimentos direito.
— Tenta.
— Aaron me beijou no hospital… — Kyle fechou os olhos, sacudindo a cabeça. — Me senti uma idiota.
Ele se ajoelhou na minha frente e segurou minhas mãos.
— Sabe o que eu vi hoje? Alguém disposta a não deixar isso acontecer novamente. — Ele fazia carinho na minha bochecha enquanto sorria levemente. — Você mesmo me disse que ele tira proveito das situações para tentar ficar perto de você. A que eu vi hoje, não tá mais disposta a deixar isso acontecer — concordei. Vou fazer algo para a gente comer. Respira um pouco e depois desce.
Estava apoiada no corrimão enquanto escutava no telefone, ele tentava explicar seu sumiço para alguém que parecia não estar dando a mínima para os seus motivos. Nervoso e até um pouco irritado, ele dizia a palavra senhor a cada dois segundos, foi quando me lembrei que seu superior era seu pai. Coitado.
Quando ele colocou o aparelho de volta no gancho, acabou batendo o telefone. Eu entendia, também não era respeitada pelo chefe. ficou parado um bom tempo com a mão apoiada na parede e de olhos fechados, imagino que tentando se acalmar ou controlar a frustração.
Eu fiquei muito tempo de madrugada pensando em como dar o troco pela gracinha que ele me fez, mas teria que deixar qualquer opção de lado — não por sua atitude de manhã — mas porque precisava me aproximar. Talvez aquele fosse o momento para começar.
Dei um tempo e depois acabei soltando uma tosse falsa para chamar sua atenção. Quando se virou, encostou na mesinha do telefone com os braços cruzados, diria até que um pouco envergonhado.
— Tudo bem?
— Nicolás vai trocar de lugar comigo mais tarde. — Disse sem jeito, enfiando as mãos no bolso do jeans, com certeza estava pensando se eu o tinha visto bater o telefone.
O melhor era fingir que eu não tinha visto nada.
— Certo. Já ligou para o seu trabalho?
Quando ele assentiu dizendo um obrigada logo depois, eu fui até a mesinha e arranquei todos os fios da parede. Não estava afim de ser incomodada naquele dia. Faria o mesmo com o telefone do meu quarto quando voltasse lá.
— Por que fez isso? — Ele me olhava como se eu fosse uma louca.
— Clarice vai ligar e um Smith já foi o suficiente por hoje — respondi, indo em direção a cozinha.
Kyle colocava açúcar em uma xícara quando eu entrei lá.
— Demorou, estava paquerando o policial de novo? — Brincou.
— Ridículo, eu não paquerei ele.
Aceitei a xícara que ele me ofereceu enquanto ria, me apoiando na bancada para abrir um pote de cookies.
— Você nem se deu conta, né? — Kyle sorria.
— Do que? — Achei que ele se referia a minha xícara, então cheirei o recipiente para ver se ele não estava me sacaneando e servindo café como da última vez, mas era apenas chá.
Ele parecia achar graça na minha confusão, e eu continuava sem entender do que ele falava. Kyle pegou uma caneca lotada de café e se sentou do meu lado.
— Tá brincando de irritar o policial porque gostou dele.
Me engasguei com o farelo do biscoito, ele estava louco?
Kyle dava tapinhas nas minhas costas enquanto ria. Depois de virar quase toda a xícara de chá tentando limpar os vestígios de farelo na minha garganta, virei para ele com os olhos arregalados.
— Ah o que é — começou, enquanto bebia seu café. — Por que ia tentar beijar ele se não é isso?
Eu não tinha resposta para aquilo.
— Achei que a ideia de namorar um deles tinha sido descartada. Acho que não te mandaram se aproximar de um deles para isso — diante do meu silêncio, ele continuava o deboche.
Ignorando as piadinhas de Kyle, me levantei atrás de uma caneca, pensando mais uma vez em me aproximar de — mas não pelos motivos que meu melhor amigo imaginava, claro. Enchi a caneca com café, assim como ele havia feito com a sua alguns minutos atrás. E é claro que ele soltou outra piadinha quando percebeu o que eu estava fazendo.
— Se eu escutar mais uma, vou encher a sua caneca com veneno de rato — ameacei, indo atrás do policial.
estava perto da porta de entrada, parecendo entediado. Ao me aproximar, tentei fazer a cara mais amigável possível ao lhe oferecer o café.
POV.
— Toma — estava parada na minha frente, me estendendo uma caneca.
O cheiro estava maravilhoso, eu amava café e era sempre bom para despertar. Já havia dormido em seu quarto, um pouco de café não seria problema. Peguei a caneca e agradeci com um aceno de cabeça, mas quando estava prestes a beber, percebi que sorria demais.
— O que colocou aqui? — Claro que ela iria dar o troco pelo que eu fiz ontem a noite.
Diferente do que eu imaginei, ao invés de se irritar, ela começou a rir.
— Veneno de rato, — disse com as mãos na cintura.
— Você não seria tão burra, mas eu tenho certeza que colocou alguma coisa aqui.
— Laxante? — Brincou, ou talvez não. Bem poderia ser.
Me lembrando do que ela fez comigo no carro quando eu coloquei os chocolates no seu colo, estiquei a caneca na sua direção.
— As damas primeiro.
— De jeito nenhum, eu não vou colocar isso na minha boca — ela deu dois passos para trás.
— Tá com medo do que? — Provoquei, avançando na sua direção. — Bebe.
Ela afastou a caneca do seu rosto, fazendo uma cara de nojo. O que ela tinha colocado lá de tão horrível?
— Deixo você me dar um soco se beber. — Propus, sabendo que ela não resistiria. — Sua vingança pelo curativo.
Determinada como parecia ser, vi ela juntar toda a sua coragem e pegar a caneca da minha mão, ela ia mesmo beber. Seja lá o que ela tivesse colocado no café, valia a pena só para me dar um soco. Quando ela aproximou a porcelana dos seus lábios, fez uma careta que me deu vontade de rir, seus olhos estavam fechando e ela tentava não respirar pelo nariz. Foi aí que eu me lembrei de algo e percebi o que estava errado.
Nunca tinha visto ela tomando aquilo no hospital, ela vivia à base de chá. Também torcia o nariz toda vez que eu entrava no quarto dela segurando um copo, e eu apenas ignorava achando que era pela minha presença. Entendi então que não gostava de café.
Tirei a caneca de suas mãos quando ela estava prestes a beber, só conseguia rir enquanto ela ficava confusa.
— Podia só ter dito que não gostava — disse rindo enquanto ia para o jardim desfrutando da bebida quentinha no caminho.
Depois daquela manhã, havia percebido que se chateava facilmente, mas não esquecia das coisas na mesma velocidade.
Ela me daria um soco na primeira oportunidade que tivesse.
Eu gostava de relaxar e não pensar em nada enquanto tomava meu café, era um momento de paz, mas acho que seria impossível fazer isso na casa de — principalmente porque sua vida era uma caixinha de surpresas.
Eu investiguei bastante sobre ela e achava que tinha ido a fundo, mas toda hora aparecia uma coisa nova.
Kyle foi minha maior surpresa, tinha descoberto seu nome enquanto investigava a vida pessoal de , antes dela acordar no hospital. Eu me lembrava de ter visto ele em diversas fotos de uma das suas redes sociais e até onde eu percebi, eram apenas amigos. Mas desde que ele chegou aqui de madrugada eu não podia parar de pensar que havia algo a mais, principalmente depois de encontrar os dois abraçados na cama dela.
Passei vários dias com a no hospital e foram poucas as vezes em que eu a vi rir como ela ria na presença dele, um riso cheio de vontade. A verdade é que as únicas vezes que eu a escutei rir daquela forma, foram na presença de Nicolás e uma única vez na minha frente enquanto se lambuzava com uma caixa de chocolates.
Antes eu achava que escondia sua melhor versão apenas de mim, mas parece que também a escondia de pessoas próximas, já que eu não tinha visto ela se portando daquela forma com mais ninguém.
E qual era a de seu vizinho? Nicolás já havia me dito que cruzara com ele no hospital, me lembro dele resmungar algo sobre não ir com a cara do tal vizinho, agora eu entendia o porquê. Aaron Smith era um soberbo, não vi a sua presença ali como preocupação, parecia mais que ele queria marcar território em cima dela, o que me causava certo desconforto. Quando optou por me defender — mesmo depois da brincadeira na noite passada — vi que realmente teria que me preocupar com ele, assim como percebi o incômodo em seu olhar enquanto seu vizinho ainda estava ali.
Continuava perdido em pensamentos quando escutei a porta da casa abrindo.
Era Kyle. Ele parecia uma pessoa tranquila e que não gostava de se meter em problemas, esperava estar certo sobre ele.
— Achei que fosse vindo me dar um soco — soltei enquanto bebia o resto do café, que já começava a esfriar.
Ele riu e se encostou no carro ao meu lado.
— não suporta café, não consigo imaginar a raiva que ela tem de você para ter aceitado um gole em troca de um soco — suas palavras vinham acompanhadas de uma risada baixinha.
— Odeia tanto assim? — Perguntei, querendo medir o tamanho do seu ódio.
O rapaz cruzou os braços, parecendo buscar algo na memória.
— Há algum tempo atrás, eu aproveitei que ela estava gripada pra sacanear ela, já que com o nariz entupido ela não sente cheiro de nada. Então eu troquei o chá dela por café, ela só percebeu quando bebeu. Dois meses depois eu estava bebendo e ela me deu um copo de vodka misturado com óleo de cozinha. Passei uma semana vomitando.
O rapaz tinha as mãos na barriga, como se sentisse novamente o estômago revirando pela mistura horrenda.
— Então daqui a dois meses ela vai me dar café com óleo de rícino? — Chutei, brincando com a xícara em minhas mãos.
— Não — ele riu — ela te odeia mesmo. Pode esperar ela invocar um demônio para cuidar de você.
Foi minha vez de rir.
— Fala sério, eu já me sinto com um demônio por perto desde que ela acordou — soltei rápido, me esquecendo da minha condição ali.
Por dois segundos, pensei que ele tomaria partido e se ofenderia por ela, mas ele acabou rindo. Os dois tinham uma energia completamente diferente.
— O que você fez pra ela?
— Em qual das vezes? — Ri novamente.
Parecia ser uma pessoa leve, se ele fosse passar mais tempo por lá, talvez me ajudasse a lidar com a fera.
Foi então que me lembrei da noite passada. Não sabia se ele tinha algo ou não com , mas antes que houvesse qualquer mal entendido, preferí esclarecer a brincadeira da noite anterior. Mas enquanto eu falava, Kyle me cortou.
— Acho que você interpretou as coisas de forma errada — disse descruzando os braços — não tenho nada com ela.
Ele estava sério agora.
— Não?
Ele negou com a cabeça e começou a falar enquanto olhava para o céu ensolarado.
— É o sonho dos nossos pais, não o nosso. Ela é minha melhor amiga e um namoro estaria fora de questão.
Aquilo me pareceu um pouco confuso, não entendi o que ele quis dizer sobre os pais deles, mas acho que não era da minha conta.
— Acho que sou eu quem te deve um pedido de desculpas — começou, voltando a me encarar.
Franzi o cenho, sem entender por que ele deveria se desculpar comigo.
— Quando eu cheguei ontem, perguntei para ela quem era o cão de guarda no corredor. Sofia me disse que era um idiota que pensava que era policial e eu disse que era o tipo dela.
Foi a minha vez de rir, é claro que ela não perderia a oportunidade de me alfinetar diante de qualquer pessoa. Kyle se desencostou do carro e começou a caminhar de costas em direção a porta, esperei que ele ainda fosse realmente pedir desculpas por aquela bobagem, mas fui surpreendido por suas palavras mais uma vez.
— Você não me parece um idiota — recomeçou, já pronto para entrar na casa — me parece uma boa pessoa e um bom policial. Pode não ser o tipo que ela gosta, mas talvez seja o tipo que ela precisa.
E ele entrou, me deixando sem reação.
Inquieto. Era assim que me sentia desde a conversa com Kyle, tão inquieto que não me atrevi a entrar na casa novamente. Fazia rondas pelo jardim tentando colocar as minhas ideias no lugar, não estava nem a dois dias naquela casa e já me sentia a ponto de enlouquecer, eram muitas informações.
Que papo foi aquele sobre o tipo certo para ? Só podia ser brincadeira.
Ela era a mulher mais insuportável que eu havia conhecido, tinha tantos defeitos e tantas características que me irritavam que a simples hipótese de imaginar aquela situação já me tirava o pouco humor que eu tinha. Kyle parecia gostar tanto da amiga que não enxergava seus inúmeros defeitos.
Minha repudia a parte, havia mais uma coisa me intrigando. Sem querer, ele acabou me contando que já havia namorado (ou pelo menos saído) com um policial. Sentia que eu não havia feito meu dever de casa direito, e mais uma vez, me questionei sobre a relação entre Nick e ela.
Depois de circular por horas pelo jardim, acabei voltando para perto do meu carro, mas infelizmente escolhi um mau momento.
Ela estava na sacada do que eu me lembrava ser a biblioteca. Observei enquanto pensava nas palavras de Kyle, também na sua tentativa de ser amigável ao me oferecer o café — o que eu achava ter sido sugestão de seu amigo, mas ainda assim, ela tentou. Ela parecia um quebra cabeça de mil peças. Quando percebeu que eu estava olhando para a sacada, me olhou feio e entrou batendo a porta.
Bufei irritado enquanto me encostava novamente no capô do carro. Odiava a forma como ela me deixava confuso e me fazia questionar todas as coisas — inclusive a mim mesmo. Mas eu não ia pedir desculpas, por nenhuma das coisas, posso ter me equivocado em ambas as ocasiões, mas ela bem que mereceu. Ela não tinha limites, se íamos ter que conviver juntos, ela iria aprender a se comportar.
Já era noite quando eu avistei um rapaz no portão da frente — parecia um entregador. Pensei em checar quem realmente era, mas não tive tempo, já que alguém abriu o portão de dentro da casa.
Enquanto o jovem caminhava pelo jardim segurando um pacote, vi abrir a porta da frente e caminhar de encontro a ele. Fui atrás dela devagar, mantendo uma certa distância. O rapaz entregou o pacote a , que agradeceu de forma gentil, e logo depois se retirou. Caminhei de volta para o meu carro, enquanto ela rasgava o papel da embalagem no caminho.
— Alguém entrou na sua casa, você não deveria sair abrindo o portão para qualquer um.
— Não enche.
Ela parou na minha frente, me ignorando. Terminou de abrir o pacote e pegou uma pequena caixa de lá. Era um celular, o qual ela colocou batendo no capô do meu carro.
— Não te devo mais nada — sua voz estava cheia de raiva, e ela não me olhou.
Esfreguei as mãos no rosto tentando conter a vontade de gritar assim que ela entrou na casa novamente. Estava cada dia mais certo de que eu iria pagar todos os meus pecados vigiando aquela insuportável.
Enquanto tentava manter a calma, escutei o barulho do portão se abrindo novamente, acho que nunca agradeci tanto por ver o carro de Nicolás. Eu precisava urgente de um descanso de .
Nick encostou o carro ao lado do meu, mas vi que tinha algo errado assim que ele saiu do carro vestindo a jaqueta do uniforme. Sua cara estava péssima, parecia que não dormia a uma semana.
— O que você tem? — Perguntei depois de nos cumprimentarmos.
Ele respirou fundo algumas vezes, olhando para o jardim.
— Nada — respondeu sem muita vontade. Mas me encarou logo depois. — O que aconteceu no seu nariz?
Eu já havia até me esquecido do curativo.
— Nada.
Se ele não ia falar, eu também não iria. Odiava quando Nicolás ficava assim. Desde que nos conhecemos ele tinha esse costume, algo acontecia e ele se fechava. Não falava sobre o ocorrido, não dividia o problema e nem permitia que alguém tentasse ajudar. Eu o conhecia bem demais, e sabia quando tinha algo errado. Ele vinha estranho desde o resgate de , mas dessa vez eu não podia dizer que o motivo era ela, uma vez que quem estava lidando a dias com o problema era eu.
— Como ela tá? — Ele mexia os pés, de cabeça baixa. Sua voz estava mais baixa que o normal.
Foi minha vez de respirar fundo. Batia o pulso no carro enquanto pensava se era boa ideia contar tudo, mas me decidi por um resumo na tentativa de não perturbar ele com mais problemas.
— Irritada, como sempre quando eu tô por perto — falei, em tom de brincadeira. — Ontem ela abriu um dos pontos — ele levantou a cabeça na hora. — Tá tudo bem, foi só um e eu dei um jeito. Ninguém arrumou a bagunça no quarto dela e ela insistiu que queria dormir lá, não sossegou até a gente limpar tudo.
Ele concordou com um aceno de cabeça, olhando novamente para os próprios pés.
— Vai pra casa. Já tá com ela há dias e eu sei que você está trabalhando na força do ódio. Dá pra ver pela sua cara que você não queria estar aqui.
Ele estava me passando um sermão? Embora ele falasse de forma calma, aquilo era sem dúvidas um sermão. Ri sem vontade, me recusava a ouvir aquilo.
— A porcaria da sua protegida quebrou o meu nariz — disparei, já com raiva, fazendo com que ele me olhasse com a expressão séria. — Ela também quebrou meu celular, me fez mentir para uma enfermeira, mexeu nas minhas coisas e eu ainda tive que bancar a babá a noite inteira. Então me desculpe se eu pareço estar com raiva, mas é que eu realmente estou — esbravejei.
Sai de perto dele, antes que eu socasse sua cara. Me preocupava com o meu melhor amigo enquanto ele me detonava por culpa daquela coisa.
— Desencosta do meu carro, porcaria.
Peguei a caixa do celular e terminei jogando de qualquer jeito no banco do carona. Não dava mesmo para acreditar.
Arranquei o mais rápido que pude, querendo distância de tudo que cercava aquele caso.
POV.
— É feio ouvir a conversa dos outros.
Escutei a voz de Kyle vindo da entrada da biblioteca.
Eu observava Nicolás e no jardim, pareciam discutir. Ignorei Kyle, que se sentou em uma das poltronas, a fim de tentar entender a discussão. Infelizmente não tive muita sorte, parecia o único interessado em brigar, então aquilo não durou muito.
Assim que ele saiu, me apressei em correr (até onde minhas limitações me permitiam) até Nicolás, deixando um par de olhos azuis para trás.
Chegando no jardim, me deparei com uma versão daquele policial que eu nunca tinha visto, perdido, desnorteado e com cara de choro, ele parecia derrotado. Nick deu um leve sobressalto quando a porta se abriu, depois deu apenas um passo e ficou parado enquanto me olhava. Ele estava péssimo, me perguntei se era pela discussão com o outro policial.
Tinha descido pelas informações que eu poderia tirar dele — pelo menos parte de mim — mas lá estava eu, sem saber como reagir diante da forma em que ele estava. Nicolás mais uma vez estava quebrando todos os meus alarmes.
— O que aconteceu? — O que saiu foi quase um sussurro. Minhas mãos foram parar dentro dos bolsos da jaqueta.
— Nada, a gente discute o tempo todo. — Ele tentou forçar um sorriso. — Desculpe por fazer isso na sua casa também, o que você viu?
— Nada, mas não estava falando dele.
Nicolás imitou meu gesto, colocando as mãos nos bolsos da jaqueta. Ele assentiu algumas vezes.
— Você não deixa escapar nada, né? — Nick cutucava a ponta de seu nariz, suas palavras vinham acompanhadas de uma risada fraca. — Obrigada por se preocupar, mas vou ficar bem.
O policial avançou alguns passos na minha direção, até parar na minha frente. Ele abaixou a cabeça e abriu a boca diversas vezes para falar, mas desistiu em todas. Quando finalmente disse algo, senti que não era realmente aquilo o que ele queria me dizer.
— Seus pontos, está tudo certo?
Assenti. Uma brisa gelada passou por nós, fazendo com que eu me encolhesse em meus próprios braços. Nicolás tirou a jaqueta da polícia e colocou sobre os meus ombros, me agarrei a ela, sentindo o frio se aproximar.
Ficamos um bom tempo em silêncio.
Queria investigar algumas coisas, eu tinha perguntas que ele poderia responder sem desconfiar de nada, julgando que seria apenas minha curiosidade. Mas ele parecia péssimo, não me sentia capaz de colocar meus interesses acima do que parecia ser sua dor, naquele momento me interessava mais saber o que ele tinha e tentar ajudar, mas não sabia como agir. Também me recusava a invadir sua privacidade.
— Acho melhor você entrar.
— Não precisa ficar aqui fora.
— Pode ir — disse me empurrando gentilmente até a porta. — Não precisa se preocupar — sua voz era calma, mas soava diferente de todas as outras vezes que eu o tinha escutado.
Tirei a jaqueta e estendi para que ele tomasse de volta, recebendo um sorrisinho que se esforçava para parecer verdadeiro.
— Boa noite, .
Meu coração estava completamente inquieto, por que eu me sentia tão afetada pelo modo como Nicolás estava? Sentia uma necessidade imensa de ajudar.
Me distraí com meus pensamentos, e sem esperar por uma resposta, ele começou a caminhar de volta para o jardim.
— Nicolás — chamei alto, fazendo com que ele parasse. Esperei, impaciente, que ele voltasse até a porta.
Quando ele estava perto o suficiente, não dei tempo para que ele dissesse nada. Puxei ele para dentro de casa e assim que ele estava o mais perto possível, me permiti abraçá- lo. Empurrei a porta com a mão livre logo depois. Demorou um pouco até que ele me abraçasse de volta, mas ele fez.
Abraçar Nick foi mais um instinto do que qualquer outra coisa. Não sabia o que se passava com ele, mas parecia precisar de conforto. Sem nem me conhecer direito, ele havia me reconfortado diversas vezes desde o primeiro encontro no hospital, e antes de qualquer coisa eu também era humana, e ele parecia sempre despertar essa parte de mim, então por que não retribuir toda a gentileza e cuidado que ele tinha comigo? Além do mais, eu tinha certeza de que Nicolás não era quem eu procurava.
Quando os braços do policial envolveram minhas costas aceitando o abraço, me senti mais confortável ainda para continuar ali. Afaguei seus cabelos, tentando fornecer mais conforto. Abraços eram sempre reconfortantes.
Passaram-se alguns segundos até que o que eu menos esperava aconteceu, Nicolás estava chorando, senti um aperto no coração como se aquela carga também fosse minha. Se alguém me perguntasse, não saberia explicar.
Permaneci ali, tentando entender o que se passava (comigo e com ele), enquanto continuava afagando seus cabelos. Me lembrei da sua ficha e fiquei me perguntando se aquilo teria algo a haver com seu passado — bastante dolorido por sinal. Fazia bastante sentido, talvez aquele fosse algum dia marcante para ele.
Seu choro foi cessando, ficando cada vez mais baixo, até que parou. Nick quebrou o abraço devagar, alguns dos meus fios de cabelo ficaram grudados na barba rala dele, mas foram se soltando aos poucos conforme nos afastamos. Seu olhar não parecia mais tão perdido, mas ainda estava triste. Eu queria dizer algo, mas não sabia o que.
Ele pegou minha mão, fazendo carinho nela com o polegar e depositando um beijo nas costas — o que eu achei de uma educação e cavalheirismo gigantescos — e antes de soltar, a apertou algumas vezes, sussurrando um "obrigado" quase inaudível.
Quando o jovem policial soltou de vez a minha mão, uma ideia passou por mim.
Tinha alguém que sempre me fazia sentir melhor, alguém que sempre tirava o melhor de mim e, que por sorte estava a poucos passos dali. Alguém com uma energia tão boa, que talvez também pudesse fazer algo por Nicolás. Kyle sempre tirava o melhor das pessoas.
Me permiti outra vez deixar o trabalho de lado por mais um tempo.
— Pode me dar alguns minutos do seu valioso tempo? — Pedi, esticando a mão novamente.
— Preciso ficar de olho lá fora — ele me olhava de forma confusa.
— passou a noite aqui dentro, você pode fazer o mesmo se quiser. Só quero cinco minutos e você vai poder continuar vigiando a casa mesmo enquanto eu roubo seu tempo. — Além do mais, você vai ficar do meu lado — balancei minha mão esticada novamente.
Nicolás me encarou por mais alguns segundos, mas finalmente cedeu, aceitando o meu convite. Senti algo faiscar dentro de mim quando vi um leve sorriso se formar no seu rosto, parecia que eu estava fazendo as coisas bem, e era bom sentir aquilo às vezes.
Subimos as escadas devagar, eu o levava pela mão, parecia um pouco desconfiado, mas sorria mesmo assim. Parei na porta da biblioteca e a abri devagar, Kyle estava sentado na mesma poltrona de antes, mas dessa vez tinha um livro em suas mãos, parecia bem concentrado, nem sequer percebeu a minha chegada. Soltei a mão de Nick, enquanto pedia um minuto para ele, pude perceber seu olhar curioso no rapaz de moletom preto.
Bati na porta aberta devagarinho, para chamar sua atenção. Ele tirou seus olhos do livro para me encarar, olhos que logo passaram para o policial atrás de mim.
— Oi?! — sua voz saiu quase como uma pergunta.
— Nicolás — me virei para ele, dando espaço para que ele entrasse na biblioteca — quero te apresentar a melhor pessoa do mundo — meu rosto se voltou para Kyle. — Também conhecido como o amor da minha vida.
— Agora pergunta se ela aceitou meu pedido de namoro — disse Kyle, fechando o livro que deixou sob a mesinha. Ele passava os olhos de mim para Nicolás. — Meu nome é Kyle — sua mão se estendeu na direção de Nicolás quando ele estava mais perto — sou o melhor amigo da encrenqueira.
Dei um pisão em seu pé, enquanto o policial apertava sua mão, sorrindo de forma quase amigável.
— Eu não cruzei com você no hospital, cruzei? — Ele perguntou, analisando o rapaz.
— Kyle não estava aqui.
Ele deu um sorrisinho tímido, concordando.
— Eu fiquei um pouco confuso — ele gesticulava conforme falava — Vocês são...?
Rimos da sua confusão.
— é uma idiota, ela sempre fala isso para as pessoas. É uma brincadeira nossa — explicou — eu pedi ela em namoro quando éramos crianças, só que ela me empurrou e a nossa família nunca mais deixou a gente esquecer disso, então a gente faz piada com assunto.
— Vocês se conhecem desde criança? — Perguntou o policial, parecendo curioso sobre o assunto.
— Infelizmente sim.
Dei outro pisão no pé de Kyle, arrancando risos dos dois.
— Tá vendo, é assim que ela me trata.
— É, já me disseram que ela é um pouquinho bruta — Nick soltou, me olhando com o canto do olho enquanto alisava a barba por fazer.
Ele estava me alfinetando? Nicolás me alfinetando? Claro, .
— Eu não vou nem perguntar — ergui as mãos em sinal de defesa enquanto falava. Eu já sabia que tinha aberto a boca, só restava saber de qual parte.
Nicolás assentiu.
— A gente conversa sobre isso depois. — Embora seu tom fosse sério, não senti como se ele quisesse chamar minha atenção.
Foi engraçado pensar naquilo, Nicolás não era ninguém para me dar bronca, mas mesmo assim eu não me senti incomodada com a possibilidade dele fazer isso. A maneira como ele falou comigo me fez lembrar de Lucas, suas broncas sempre vinham acompanhadas de cuidado.
Escutei o policial pigarreando, enquanto era observado pelos olhos azuis de Kyle. Me lembrei então do motivo de estarmos ali.
Apoiei minhas mãos na mesa da biblioteca enquanto falava.
— Nick, não parece ser um bom dia para você — fitei seus olhos que encaravam os meus. — Eu sei que você tá aqui para se certificar de que ninguém vai tentar me matar de novo e para pegar o meu irmão caso ele apareça. — O policial ia me interromper, mas fiz um sinal com as mãos indicando que estava tudo bem. — Você tá fazendo seu trabalho, eu sei e tá tudo bem — ele assentiu. — Você tenta fazer o meu dia melhor sempre que fica responsável por mim, desde o primeiro dia, e eu queria retribuir um pouco do que você tem feito.
— Você não tem nenhuma obrigação comigo, . Eu só estou fazendo o meu...
— Trabalho? — Interrompi — Não, tá fazendo o trabalho dele. Você sabe que tem feito muito mais que isso — ele abaixou a cabeça. — Não era seu trabalho me levar para passear no jardim, me distrair e nem nada do tipo. Não sei porque faz tantas coisas, mas eu fico feliz — completei, abrindo um leve sorriso.
Embora ele ainda mantivesse a cabeça baixa, pude ver um leve sorriso se formar em seus lábios também.
— Não me sinto na obrigação de fazer nada — expliquei. — Você é tão gentil que semeia o mesmo nas pessoas.
— Obrigada — ele levantou a cabeça, me dando a chance de ver seu sorriso tímido.
Mais uma vez tive a certeza de que Nicolás não era uma pessoa ruim. Ele tinha algo, quase como um brilho, que não poderia emanar de uma má pessoa, me arriscaria a dizer que ele carregava a mesma luz que Kyle.
— Kyle é a melhor companhia do mundo — sorri, buscando meu melhor amigo que seguia passando os olhos de mim para Nicolás. Neguei com a cabeça, esperando que ele também não inventasse coisas. — Eu já não sou tão boa companhia assim, mas também não sou das piores — ri. — fez o trabalho dele de dentro da casa, não vejo porque você não pode fazer o mesmo. E enquanto você faz o seu trabalho, a gente pode te fazer companhia. Quando a gente fica sozinho é mais fácil abraçar a tristeza.
— , isso é... — ele parou, respirando fundo algumas vezes antes de falar, parecia um pouco emocionado — muito gentil da sua parte. Não é só um dia ruim, é um dia difícil também, eu não consigo explicar. Mas sua atitude significa muito.
Eu senti muita vontade de abraçá-lo outra vez, mas Kyle estava ali com aquele olhar, e eu não queria alimentar nada que estivesse passando por sua cabecinha maldosa. Me contentei em apenas dar um sorriso.
— Eu vou ativar o sistema de alarme da casa para o nosso policial aqui ficar em paz e poder fazer o trabalho dele dentro de casa.
Escutei sua risada baixinha enquanto ia até o computador ativar os alarmes.
— Isso não estava ligado ontem a noite, estava?
Ótimo, Kyle boca grande.
Nicolás me olhou sério, com os braços cruzados.
Que tipo de pessoa sofre um ataque e depois esquece de ligar os alarmes? E o medo de ser atacada novamente, onde fica?
Enterrei meus rostos nas mãos, aquilo servia como um gesto de vergonha, mas na realidade estava apenas escondendo a minha vontade de arrancar a cabeça de Kyle.
Fiquei daquela forma por um minuto, até conseguir encarar os dois novamente sem deixar transparecer nada.
— Eu esqueci, aconteceram muitas coisas. Eu me distraio fácil e como estava na porta, eu...
— Tudo bem, só não deixa acontecer de novo. Eu imagino que você deveria esquecer com frequência, você mesmo disse no seu depoimento que não se lembrava de ter ligado o sistema de segurança naquela noite — concordei. — Mas agora você tem algo pelo que temer, então deve contar com toda a proteção que puder. Segurança nunca é demais, entende?
Concordei novamente, balançando a cabeça de forma afirmativa.
— O sistema de segurança só pode ser ligado daqui?
— Não, do escritório no andar de baixo também, mas eu quase não vou lá. E tem um tablet com acesso, normalmente deixamos ele na cozinha.
— Tudo bem.
Nicolás se sentou em uma das cadeiras à minha frente. Em silêncio começou a procurar algo na mesa, observei curiosa quando ele pegou um bloco de post it e uma caneta, e rabiscou em várias folhas, uma seguida da outra. Assim que ele devolveu a caneta ao pote, destacou uma das folhas e grudou na tela do computador.
Segurei a parte solta da folhinha amarela, achei graça na sua atitude, foi fofa. Observei ele se levantar e grudar outra folhinha em uma das estantes e mais uma perto das portas da sacada. Kyle estava perto da porta de entrada com um olhar intrigado, tratei de desmanchar o sorriso.
— Você vai espalhar isso na casa toda?
— Sim, te devo um bloco novo — brincou, se aproximando novamente.
Abri a primeira gaveta e retirei outros dois blocos.
— Eu tenho blocos o suficiente, pode me pagar com doces.
— Combinado.
— Vem ver — convidei enquanto começava a ativar todos os alarmes da casa.
Quando ele se aproximou, anotei o login do computador em outro post it e grudei na tela, abaixo do que ele havia posto lá.
— Quando quiser você pode olhar o sistema, não precisa me pedir. Ele mostra onde está cada alarme, e também se alguma das portas que dão acesso à casa estão destrancadas.
— Parece ótimo — assentiu.
— Mais tranquilo agora para fazer seu trabalho daqui de dentro?
— Uhum.
— Não parece — questionei, vendo a cara que ele fazia.
— Não seria bom você colocar um sistema com câmeras também? — O policial sugeriu, observei sua expressão preocupada enquanto ele alisava a barba por fazer.
— Câmeras? — Câmeras ali poderiam me prejudicar, principalmente se ele ou tivessem acesso.
— — Kyle chamou, fazendo com que não só eu, mas que Nick também olhasse em sua direção. — Não é uma má ideia — travei meus dentes, ele havia perdido o juízo? — Eu sei que você gosta de privacidade, mas uma câmera nos corredores e algumas espalhadas pelo jardim não fariam mal.
De fato, poderia não ser uma ideia tão ruim. Serviria para disfarçar e distrair e Nicolás e eu poderia me manter tranquila em qualquer cômodo fechado.
— Tudo bem.
— O ideal seria espalhar câmeras em alguns cômodos também, mas já é um começo.
Ignorei aquilo, querendo encerrar o assunto antes que surgisse outra coisa que pudesse me atrapalhar.
Me levantei da cadeira deixando o computador ligado.
— Nicolás, espero que você goste de massa porquê é a única coisa que o Kyle sabe cozinhar quando vem me visitar — alfinetei, enquanto me afastava da mesa do escritório. — E não aceito recusas para o jantar.
Ele concordou, abrindo um sorriso.
— Pelo menos eu sei cozinhar — Kyle retrucou.
Não pensei que fosse passar um tempo tão agradável enquanto jantava com Nicolás e Kyle. O clima estava tão agradável que eu mal me lembrava do que a presença do policial significava ali. Ele também parecia ter afastado o que quer que o afetasse, e se divertia enquanto Kyle contava coisas da nossa infância, escutando tudo atentamente.
Porque não podia ser assim? Meu trabalho seria tão mais fácil.
Enquanto observava os dois conversando, podia sentir Nicolás ficando um pouco mais relaxado, e de certa forma aquilo me deixava tranquila também.
Brincava com a comida em meu prato enquanto pensava em diversas coisas ao mesmo tempo.
— O que você tanto olha? — Escutei a voz de Nick na minha direção.
— São os vinhos, com certeza — Kyle respondeu, me empurrando a jarra transparente com suco novamente. — Hoje não, gatinha.
Fiz um beicinho enquanto lançava um olhar na direção das garrafas, eu realmente sentia falta de tomar vinho.
— Bom saber que você está sendo responsável com os medicamentos. Isso me lembrou outra coisa.
Ele tirou o bloco colorido do bolso da jaqueta e grudou um post it no balcão, voltando a comer logo em seguida. Sorri com o gesto dele, ele estava mesmo preocupado com a minha segurança.
— Não ela não tá, se ela estivesse sozinha pode ter certeza que não ia ter um copo de suco na mesa.
— Kyle — chamei, com um tom de censura na voz.
Ele continuou mastigando a comida, como se não tivesse dito nada.
— Eu vou precisar ir até o meu apartamento pegar algumas coisas, alguém me chamou para uma visita e agora tá exigindo companhia só para não morrer de fome porque não sabe cozinhar e queima até água.
— KYLE — Apertei o copo na minha mão, pensando se era uma boa ideia jogar o suco nele.
Nicolás havia deixado a comida de lado e ria da nossa discussão. O imbecil que atendia por Kyle, depois de mais uma garfada, continuou a me alfinetar.
— Você vai precisar ficar sozinho com ela por algumas horas, então mantenha ela longe do vinho, ela gosta de uma taça durante o jantar e às vezes durante a noite também. Vigia, detetive — disse, com uma risadinha enquanto me ignorava completamente. — Não deixa ela mexer no fogão também, uma vez ela tentou fazer hambúrguer e quase incendiou o meu apartamento.
— KYLE, PARA DE CONTAR MEUS PODRES.
Enquanto eu me exaltava, o policial se acabava de rir observando a cena. Escondi o sorriso atrás do copo de suco.
— , alguém precisa proteger você de você mesma. A Nina não está aqui agora.
— Nina? — Nicolás perguntou. Assenti, tomando mais um gole.
— Ela era minha babá, ela ficou aqui mesmo depois que eu já não precisava mais de uma, eu gostava de ter ela por perto, e como eu nunca aprendi a cozinhar ela foi cumprindo essa função, meus pais raramente cozinhavam e como você pode ver, eles não são de ficar muito em casa.
— E o que aconteceu com ela? Ela...?
— Não, pelo amor de Deus — respondi, deixando o copo na mesa — Ela casou novamente e já não era mais certo pedir que ela ficasse aqui, Nina cuidou de mim a minha vida toda, era hora dela ter a vida dela. Eu tinha 18 anos quando ela concordou em sair do emprego, disse que a condição era Lucas não me deixar morrer de fome — ri com a lembrança. — Ele sabe cozinhar, quem sabe um dia eu aprenda para não ter que depender da boa vontade dos meus amigos — completei, alfinetando Kyle.
— Vai precisar mesmo, seu irmão não vai conseguir cozinhar para você da cadeia — falou enquanto limpava a boca com um guardanapo.
Nicolás, que havia voltado a comer enquanto me ouvia falar sobre Nina, largou o talher, provavelmente espantado com a indelicadeza de Kyle. Ele me olhava de forma preocupada, no entanto, apesar da minha cara de indignação, eu não tive outra reação que não fosse rir. Não só pela história da cadeia ser mentira, mas mesmo em assuntos sérios, Kyle e eu dávamos alfinetadas um no outro na esperança de arrancar algo de humor para espantar o que quer que fosse, mesmo que temporariamente. Uma espécie de humor ácido que às vezes só nós dois entendiamos.
— Seu cretino. — Joguei o meu guardanapo nele enquanto ainda ria.
Nick permanecia paralisado.
— Tá tudo bem, é nossa forma de lidar com as coisas ruins — expliquei.
Ele apenas assentiu.
Kyle foi o primeiro a terminar seu jantar, pediu licença logo depois e disse que tentaria ser rápido em seu apartamento. Ele desativou o alarme de segurança antes de sair, e Nicolás ativou logo depois, grudando mais um post It no tablet que estava ali.
Depois da brincadeira do meu melhor amigo, ele havia permanecido sério e quieto, tão sério que eu temi ter quebrado toda a harmonia que havíamos construído ao redor dele na última hora.
— Ele estava só brincando.
— Eu sei, é que eu não pensei que você fosse reagir dessa forma, é um assunto...
— Sério — Interrompi, completando sua frase. — Eu sei. Um dia você vai se adaptar ao meu humor e minhas piadas de mau gosto.
Depois de arrancar um risinho dele, terminamos de comer em silêncio.
Nicolás insistiu em lavar a louça e eu acabei cedendo. Quando ele terminou de enxugar o último prato, se encostou de costas para a pia me encarando.
— Eu conheço uma empresa de segurança que faz instalação 24 horas, ainda são 22:00 horas, o que você acha? Ia me sentir muito mais tranquilo se pudesse ter certeza que não tem ninguém se esgueirando pela casa.
— Você pode cuidar disso? — Ele assentiu. — Não quero câmera em todos os lugares da casa.
— Tudo bem.
Nicolás pegou seu telefone e logo estava falando com alguém, pedindo informações e passando dados para acertar o pedido e a contratação. Em poucos minutos, já havia encerrado a chamada e me dito que a companhia chegaria em cerca de 40 minutos para fazer as instalações.
— Então — começou, colocando o pano de prato em um gancho na parede — enquanto a gente espera, que tal a gente ter aquela conversa?
— Vamos para o escritório.
O do andar de cima era o meu favorito, então preferia conversar lá. Nick caminhou ao meu lado até o momento que entramos no agradável cômodo. Me sentei no sofá esperando que ele fizesse o mesmo, mas ele ficou parado no canto do escritório. Indiquei o assento com a mão convidando ele a se sentar também. Era estranho como em algumas horas ele era completamente normal comigo e em outras demonstrava extrema formalidade.
Comecei a brincar com uma das almofadas enquanto ele se sentava, me virei de lado assim que ele se ajeitou, ficando de frente para ele. Eu sabia que a conversa seria sobre , então esperei que ele dissesse algo, mas como ele ficou em silêncio me encarando, achei melhor começar.
— Eu não fiz nada.
— — disse dando uma pausa, enquanto pegava uma almofada e fazia o mesmo que eu — eu sei que não é uma pessoa fácil, mas parece que você também não tem ajudado muito.
Era verdade, eu sabia. Fui a primeira a irritar o policial e a troco de nada, às vezes eu agia feito uma criança mimada. Eu poderia ter negado, claro, mas Nicolás parecia tão disposto a fazer a paz reinar, que eu não tive coragem de contrariar ele, muito menos mentir para me defender.
Percebendo que eu não iria negar, ele continuou.
— Ele me disse que você quebrou o nariz dele, acho que ele não teria motivos pra inventar isso. Teria?
Neguei com a cabeça, erguendo meu olhar até o dele. Não tinha julgamento, parecia tranquilo, como se só quisesse ajudar.
— Quer me contar? — Sua voz era calma e acolhedora assim como os seus olhos.
Deixei a almofada no meu colo enquanto apoiava minha cabeça no sofá, olhando na direção de Nick.
— Meus pais sempre foram meio "distraídos" — fiz aspas com os dedos, dando ênfase na palavra — então eu não tinha muita atenção. Quando eu era adolescente percebi que era mais fácil ter atenção quando irritava eles, e acho que esse jeito de chamar atenção ficou. Mas às vezes, mesmo quando eu não quero a atenção de alguém, irrito as pessoas por tédio.
O policial escutava atentamente.
— Eu irritei ele primeiro no hospital, não sei porque eu provoquei, de verdade, não me pergunta porque eu não sei — fui sincera ao contar. — Mas ele agiu com grosseria quando podia ter só me ignorado e acabou me irritando — bufei lembrando do dia em que conheci ele no hospital.
Passava a mão pelos meus cabelos enquanto pensava nos outros acontecimentos.
— Eu quebrei o nariz dele ontem de manhã, mas foi um acidente — me apressei a falar, quando vi a expressão de Nicolás mudando. — Eu fui pedir um favor e ele foi grosso comigo, um tanto desnecessário também, eu fiquei irritada e joguei um livro nele.
— Você fez o que? — Não era uma pergunta, embora parecesse, ele só estava incrédulo mesmo. Nicolas havia apoiado o cotovelo em seus joelhos e agora escondia o rosto com as mãos.
— Foi um acidente — choraminguei — Eu não sabia que o livro ia acertar o rosto dele. Fala sério, ele é um policial, achei que ele tinha bons reflexos.
Eu esperava qualquer coisa, menos uma risada. Esperei imóvel até que ele dissesse algo, mas ele apenas me encarou, a mão cobrindo a boca que ainda deixava um pequeno riso escapar.
— Você quebrou o nariz dele com um livro? — Assenti. — Eu achei que você tinha batido nele, que tinha dado um soco ou algo do tipo.
— Vontade não faltou.
— — chamou, em tom de advertência. Seus braços cruzados depois da cena de 15 segundos atrás me causaram graça.
— Olha, depois a gente ficou numa boa. A gente conversou por um bom tempo, não só no hospital, mas também no caminho até aqui e depois ele ainda me ajudou a limpar toda a bagunça no meu quarto, só que do nada ele...
Me interrompi, expor a brincadeira imbecil de podia o colocar em maus lençois com o melhor amigo, eu não tinha porque arranjar aquele tipo de problema para ele. Além do mais, se Nicolás fizesse a guerra entre nós acabar, aquilo poderia facilitar meu trabalho.
— Ele o que? — Perguntou, sua sobrancelha arqueada demonstrava o estranhamento com a interrupção.
— Voltou a ser um grosso, SIMPLESMENTE assim.
Nicolás olhou desconfiado, eu respondi de qualquer jeito e de maneira muito vaga. Claro que ele imaginava que tinha algo mais, no entanto eu não ia dizer nada, e duvidava que também fosse. Então ele ficaria no escuro.
— Só o que você precisa saber é que eu tentei ficar numa boa, duas vezes, e na segunda o Kyle estava presente.
— Tudo bem, eu vou falar com ele.
E foi isso, só isso. Eu ainda me surpreendia em como era fácil conversar com Nicolás, parecendo sempre disposto a entender e ajudar, parecia tão compreensível. Ele me escutou, tentou entender o meu lado e faria o mesmo com depois, ele realmente queria que ficássemos em paz.
— Você é sempre o mediador?
— Eu tento — sorriu, sentando de lado também — principalmente no meu trabalho.
Não acredito, ele ia mesmo entrar em um assunto do meu total interesse sem que eu precisasse cutucar? Eu sei que havia dito a mim mesma que deixaria o trabalho de lado naquele dia para ajudar o próximo, mas deixar aquilo passar era um desperdício, eu não podia perder a oportunidade.
— Vocês policiais brigam muito? Eu achei que eram todos muito amigos e passavam o dia comendo rosquinhas — comecei, de forma inocente.
— Não, os filmes te enganaram. Tem muita briga dentro da delegacia, a gente discorda o tempo todo, principalmente sobre qual rumo tomar durante alguma ação. Também tem muita discussão sobre quem vai pegar qual caso e qual função cada um vai desempenhar.
— Porque? As discussões sobre pegar casos, digo.
— Existem casos e casos, alguns são melhores que outros, e quando você se sai bem em casos melhores, ganha pontos com o delegado.
Bem diferente do FBI, pensei comigo, onde todos os casos são considerados bons.
— Lembra que eu te disse que não era fácil ser o filho do chefe? — Assenti — Você ganha muitos pontos com o chefe se for bem em um bom caso, exceto se você for o .
Podia ver um pouco de pesar em seu olhar ao terminar a frase.
— Ele não valoriza o trabalho do próprio filho? — Nick concordou, balançando a cabeça. — Por isso ele é tão rabugento.
— .
— Me conta mais sobre o seu trabalho.Você está há quanto tempo na polícia? Quer ser delegado um dia também?
Ele negou com a cabeça.
— Fazem três anos, entrei assim que fiz 21, acho que você sabe que é a idade mínima para ter essa posição — concordei enquanto via ele gesticular com as mãos ao mesmo tempo que falava. — Nunca quis ser delegado, na verdade eu estudei advocacia porque queria ser advogado, acabei mudando de ideia durante o curso por causa do .
— Vocês me parecem tão diferentes, é engraçado como se dão bem a tantos anos.
— Os opostos se atraem, e isso não vale só para o amor. Ele é uma das melhores pessoas que conheci — fiz uma careta ouvindo ele dizer isso — sei que para você é difícil imaginar, mas talvez com o tempo você mesmo possa ver.
— Vou te dar um voto de confiança.
Nick se inclinou na minha direção, levantando o mindinho, foi impossível não rir.
— Promessa de dedinho?
— Promessa de dedinho — ri, enquanto cruzava o meu mindinho com o seu, como duas crianças.
De repente senti uma coisa estranha, uma tontura rápida seguida de uma sensação de déjà vu. Eu nunca havia feito promessa de dedinho com ninguém, só tinha visto aquilo na tv.
— , tudo bem?
Chacoalhei a cabeça, tentando clarear os pensamentos. O policial me olhava preocupado, alguns segundos depois, senti a sua mão apertar a minha, de forma muito reconfortante e delicada.
— Sim, foi só uma pontada na cabeça — menti, levando a mão livre a testa e esfregando ali.
— Tomou seus remédios?
— Sim, não se preocupe. A gente pode continuar conversando? Fico entediada aqui sozinha.
Apertei a sua mão em agradecimento ao seu gesto.
— O que mais quer saber, curiosa? — Brincou, me fazendo rir.
— O que você mais costuma fazer no seu trabalho?
— Ajudar as pessoas, mantê-las seguras. Casos como o seu.
— Casos complicados — retruquei.
Ele assentiu.
— São meus favoritos, é o tipo de trabalho onde me sinto mais útil.Tive que brigar pelo seu caso, inclusive.
— Você?
— Sim, depois do seu depoimento rolou muita briga pelo caso, outros policiais queriam assumir também. Mas eu tinha a prioridade por ter feito o seu resgate, a ironia é que queria sair e o pai dele o obrigou a ficar.
Ótimo, agora eu sabia que estava contra a sua vontade e isso era mais um motivo para me odiar, o que significava mais uma barreira em minhas tentativas de aproximação.
— Se ele não valoriza o próprio filho, porque quer ele em um caso considerado bom? — Na minha cabeça aquilo não fazia sentido.
— Pirraça.
— Pirraça?
— Sim, chegou até ele que tinha conflitos com o caso em questão. No caso o conflito era você — explicou — disseram que houve um atrito entre vocês dois e por isso ele não queria o caso. O Sr. Green manteve comigo justamente por isso.
— Nem eu seria tão horrível.
— Eu te disse, não é fácil ser filho do chefe.
— Acho que você também não é muito fã dele — cutuquei.
Nicolás brincou um tempo com as cordas da almofada antes de responder.
— Acho ele um pouco injusto, principalmente com .
— De manhã eu escutei ele no telefone, acho que estava passando um relatório do caso ou algo assim, parecia que tinha alguém gritando com ele do outro lado da linha.
— Era o Delegado Green, eu estava na delegacia. Não vi necessidade dele tratar o daquele jeito também.
— Meus pais nunca gritaram comigo, mas imagino que seja uma sensação ruim, e deve piorar quando tem trabalho no meio, acredito que faça você se sentir desvalorizado — Nicolás assentiu enquanto me ouvia falar.
— É exatamente isso. Mas acho que não cabe a mim julgar, principalmente se a gente entrar no quesito família, ele não é o melhor pai do mundo, mas existem piores — sua voz ficou estranha de repente, e ele passou a olhar para os próprios pés enquanto torcia os dedos das mãos.
— Você já viu muita coisa, né?
— Coisas horríveis, . Não queira nem imaginar — Nick manteve o olhar baixo, falava comigo mas não olhava na minha direção. O tema da conversa pareceu inquietar ele em questão de segundos.
Achei melhor mudar de assunto.
— Me fala mais do . Quem sabe você mesmo não muda o meu conceito sobre ele.
— é muito capaz e um excelente policial. Ainda que esteja no caso contra a vontade dele, acho que foi um grande acerto.
— Como assim?
— Nem todos são bons e dedicados como ele. A gente não tá aqui só atrás do seu irmão, parte do nosso trabalho também é te manter segura — ele voltou a me olhar, explicando de forma delicada, como se temesse me machucar com alguma parte da conversa. — E nem todos iriam tomar cuidado com a sua segurança como eu sei que ele faz.
— Parece que não é só do seu chefe que você não gosta muito — provoquei, gostando do assunto.
Era um bom caminho para tirar informações.
— Eu sinceramente não sei como alguns policiais ainda estão ali.
— São muitos?
— Não muitos, mas, se colocados em casos errados podem fazer estrago.
Aquilo já era algo, então decidi voltar o assunto para , me demorar em uma conversa sobre pessoas que eu nem conhecia, poderia chamar atenção dele para algo.
— Kyle dormiu aqui ontem, ele estava no meu quarto comigo — Nick me olhou desconfiado. — Nós somos só amigos mesmo, com o tempo você vai ver — expliquei, e ele concordou. — Aaron apareceu aqui de manhã, acho que você se lembra dele, no hospital.
Nicolás assentiu com cara de poucos amigos. Como eu imaginei, ele também não tinha ido com a cara do meu vizinho.
— Ele e Kyle não se dão bem, coisas de família — emendei mentindo, antes que ele perguntasse algo e eu tivesse que formar um bola de neve. — Acho que pensou que Kyle era meu namorado e não deixou Aaron entrar no quarto, eu achei cuidadoso da parte dele.
— Sim, é algo que ele faria. Viu só, ele tem coisas boas também.
Dei um sorriso de lado, sem concordar nem negar.
Escutamos um barulho de carro se aproximando da casa, Nicolás foi o primeiro a se levantar e ir até a sacada do escritório, eu o acompanhei. Era o carro de Kyle, liberei as entradas através do sistema e aguardei até que ele entrasse.
Voltei para a sacada logo depois, onde Nicolás observa o jardim.
— Obrigada, .
— Me senti tranquila com você aqui.
— Fico feliz em saber disso — ele desviou os olhos do jardim, me observando. — A equipe de instalação deve chegar daqui a pouco, se você quiser eu cuido disso, pode dormir.
Assenti, me afastando da grade em que estávamos apoiados. Não sentia sono, mas me sentia cansada, então aceitei sua oferta. Dei um sorriso me despedindo dele, que retribuiu da mesma forma.
Estava quase deixando a sacada quando senti que havia deixado de fazer algo importante.
Voltei até ele, colocando a mão no seu ombro assim que parei ao lado do policial, que me olhou de forma confusa.
— Esqueci de uma coisa.
— O que?
— Disso — anunciei, jogando os meus braços por cima dos ombros dele e o abraçando. — Boa noite, Nicolás.
Peguei o policial de surpresa novamente, mas dessa vez ele foi mais rápido ao retribuir o abraço.
— Boa noite, — suas palavras vieram acompanhadas de um suspiro.
Antes de me soltar, ele deu um beijo na minha testa e bagunçou meus cabelos de forma carinhosa. Deixei ele na sacada, me sentindo tranquila como eu não me sentia a muito tempo.
Achei que com tantas informações obtidas em um só dia, eu teria dificuldades para dormir, mas não aconteceu. Enquanto Kyle arrumava as nossas coisas no quarto, aproveitei para tomar um banho quente, e quando saí já vestida com o pijama quentinho, me senti pronta para dormir. Apaguei assim que minha cabeça encostou no travesseiro.
Na manhã seguinte, acordei primeiro que meu melhor amigo. O relógio na cabeceira da cama marcava que eram 07:37, cedo demais, mas me levantei mesmo assim.
Foi muito difícil tirar o celular de debaixo do piso sem fazer barulho, o quarto estava silencioso e Kyle tinha o sono leve, como eu não queria acordá-lo, levei o dobro do tempo para pegar o aparelho. Depois de alguns minutos,fui até a conversa com Clarice e digitei uma mensagem, passando algumas informações recentes.
"Parece que alguns policiais não cumprem direito com suas funções. Comece procurando por agentes com penalidades em seus arquivos, não tenho nomes, mas pode ser um bom caminho. Bons policiais costumam fazer seu trabalho direito."
Guardei o celular logo depois. O tempo quase não passou, e eu não tinha muito o que fazer naquela hora da manhã, então decidi voltar a dormir. Deixaria Kyle me acordar mais tarde.

