1.
Londres – 1847
Estava eu naquele momento…Sentindo-me como um pedaço de carne vindo ao abate. Jamais passou-me pela mente ser a peça central de um famigerado casamento arranjado, menos ainda para pagar as dívidas do meu pai. Meu conhecimento sobre o tal homem com quem havia me casado era o mais escasso possível, e só o tinha visto uma única vez, no altar, de frente para o padre. Difícil digerir tudo o que estava acontecendo comigo. Há pouco menos de dois meses, meus sonhos e planejamentos se resumiam ao pedido que Lorde Ulrich Meagher, o Conde de Limerick, faria ao meu pai, após um ano me cortejando. Seria um jantar histórico para o Lewis Castle, até o menu estava programado e muito bem escolhido, porém, meu pai desfez os laços de cordialidade que mantinha com o conde e vossa família.
Sem dar as menores explicações para mim e para Lorde Ulrich, não pude mais vê-lo ou sequer mencionar seu nome, até chegar-me o anúncio de que me casaria com um burguês regado a discrição e mistérios. Não conseguia entender que brincadeira o destino planejava para que meu pai tomasse uma decisão tão insensata para meu futuro. Afinal, desde sempre, nobres e burgueses não se misturavam em circunstâncias matrimoniais, e era aquilo que estava acontecendo em minha família. Uma nobre de sangue puro casando-se com um burguês, que poucos o tinham visto, mas todos sabiam qual era o vosso nome e a dimensão do vosso sobrenome.
Winchester.
O cavalheiro que havia desposado-me e, a partir deste momento, passaria o restante de vossos dias sendo o meu marido. Não sabia nada sobre ele, só o que havia ouvido escondida atrás da porta. Membro de uma família desconhecida e hereditariamente desprovida de riquezas, fora adotado quando criança por um açougueiro, após a esposa insistir muito, pois ela, sendo doente, tinha dificuldades em gerar filhos de seu próprio ventre. Detalhes que despertavam meu lado relutante, me fazendo sentir momentaneamente contrariada por ter aceitado contrair tal matrimônio. E todo aquele mistério que envolvia o vosso passado enigmático que ninguém conhecia, nem mesmo os pais adotivos, era como um ímã para minha curiosidade inconveniente.
Curiosidade esta que me levou a descobrir sua fixação por minha família, ou melhor, mais especificamente por mim. Um dos motivos de vossa oferta ao meu pai, comprando para si as suas dívidas de jogo.
Sua única condição?
Casar-se comigo!
— Que futuro este lugar me reserva — sussurrei para mim mesma, após a criada sair do quarto.
Meus olhos temerosos pelo futuro passaram lentamente pelas paredes daquele gélido lugar. A criada havia direcionado-me para o quarto principal da Wincher Hall, a mansão que ele havia mandado construir há três anos desde que voltou para Londres. Exclusivamente na melhor localização da melhor região da cidade. Seu estilo clássico, que lembrava os templos gregos, se misturava ao neogótico de algumas catedrais conhecidas, algo que havia tornando-se muito comum na arquitetura atual.
Confesso que esperava algo mais pomposo e extravagante, como nas casas francesas.
Afinal… Ele é um burguês.
A frieza do ambiente em minha volta logo fez-me sentir saudades da Lewis Castle, o lugar onde nasci e fui criada. Minhas memórias naquele pequeno castelo em Derbyshire estariam sempre presentes, dos momentos mais pequenos aos mais memoráveis. Com as memórias latejantes em minha mente, repentinamente voltei meu olhar para a camisola de seda branca bordada com fios de prata em meu corpo. Um tecido tão nobre que havia escolhido diligentemente e importado da China, há um tempo, como parte principal do enxoval que preparei desde a minha infância.
Respirei fundo enquanto passava a mão naquele tecido.
Como não imaginar como seria aquela primeira noite com ele? Minhas inquietações internas parecem incontroláveis neste dia. O pouco que consegui observar nos pequenos momentos que estivemos juntos, desde o altar até o nosso almoço íntimo de celebração pelo casamento, para a família e amigos mais próximos, parecia uma pessoa reservada e extremamente silenciosa. Em todo o momento, consegui ouvir mais a voz de seus pais e amigos, burgueses barulhentos, do que os poucos movimentos de minha família.
Contudo, mesmo na maior parte do tempo em silêncio, seu olhar profundo permanecia fixo em mim. Ainda que estivesse ao meu lado, algo que me deixou constantemente constrangida e envergonhada.
— Senhora Winchester — disse aquela voz grossa vindo da porta, em um tom forte que me fez arrepiar involuntariamente.
Senhora Winchester…
Seria este o meu sobrenome de agora em diante.
— Sim, meu senhor. — Virei-me com suavidade, a serenidade no olhar.
adentrou mais um pouco e fechou a porta, a trancando em seguida. Senti meu coração pulsar um pouco mais forte, porém mantive a respiração tranquila e ponderada. Estava vestindo com um kimono azul marinho, bordado com linhas prateadas, formando alguns arabescos. Pelo que tinha escutado de vossa mãe, aquele era um presente de casamento que tinha ganhado de um amigo, um nobre japonês. Forcei-me a não encará-lo, contudo, parecia que vosso olhar em mim era como um ímã que atraía o meu olhar para ele na mesma proporção.
Respirei fundo.
Precisava deixar minha mente vazia para aquele momento. Minha madrasta havia explicado algumas coisas básicas sobre nossas núpcias. Entretanto, as vossas palavras soaram-me com tanta indiferença às minhas curiosidades que não ajudaram como deveria. E encará-lo agora, em meio ao silêncio, fazia meus pensamentos fervilharem. Como um garoto adotado havia tornado-se um dos cavalheiros mais ricos de Londres? possuía influência sobre muitos da nobreza, além de importantes famílias estrangeiras, principalmente no oriente. Era notório sua inteligência e perspicácia para os negócios. Seu modo silencioso o permitia observar mais as pessoas e situações ao seu redor.
Talvez, em circunstâncias contrárias, certamente poderia despertar um pequeno interesse de minha parte, mas não naquela situação em que me encontrava. Entretanto, tinha que admitir, o cavalheiro à minha frente era realmente interessante, apesar de ser um burguês. Sendo capaz de arrancar olhares e suspiros em algumas senhoras e senhoritas, o que me deixou impressionada, algo que aconteceu com minhas primas em nosso almoço de casamento.
— Espero que esteja se sentindo confortável — disse ele, ao quebrar o silêncio, dando alguns passos até mim.
— Na medida do possível, meu senhor. — Abaixei o olhar.
— Diga-me, o que posso fazer para que sinta-se melhor? — Num tom baixo e aveludado, com vossa firmeza característica, mantendo o olhar em mim.
— Infelizmente, nada. — Forcei uma respiração mais leve e controlada, devido à proximidade dele. — Apenas faça o que o senhor deve fazer.
Fechei meu olhos, esperando vossa movimentação.
Aquela seria a hora em que nosso matrimônio enfim seria consumado e seríamos um do outro para sempre. Senti seu toque em meus cabelos, com o deslizar de vossos dedos suavemente até minha face. Um breve arrepio passou por meu corpo. Vossas mãos estavam quentes e surpreendentemente eram macias para um burguês filho de açougueiro.
— Não. — deu um repentino passo para trás, afastando a mão de meu rosto. — Não a forçaria a fazer tal coisa. Sei que não era eu com quem gostaria de estar agora.
— E… — Abri meus olhos e o olhei. — Acaso eu tenho outra escolha? Meu pai possui uma grande dívida com o senhor, então… — uma pausa, um suspiro — este momento deve acontecer.
— Não fora de vossa escolha, então… — Notei desapontamento em vosso olhar.
— Meu senhor, se estás a pensar que meu pai me obrigou, pelo contrário, ainda que haja tal compromisso entre ele e o senhor, concordei com este matrimônio por minha livre e espontânea vontade, apesar de jamais me imaginar casando por dinheiro.
— Saibas que jamais desejei que fosse assim. Gostaria de te libertar, mas não consigo imaginá-la nos braços de outro homem, não suportaria... — Vosso tom frustrado e um pouco baixo surpreendeu-me. — Contudo, sabemos que esta é a única forma de um matrimônio entre burgueses e nobres acontecer.
O que ele queria dizer com aquilo?
Que tinha mesmo a intenção de forçar nosso matrimônio com seu dinheiro?
— Senhor, como podes dizer estas palavras? — Senti-me confusa com a afirmação tão sincera e direta. — Como o senhor pode ter tais sentimentos se nem mesmo conhecer-me?
— Talvez… A conheça mais do que imagina. — deu um passo para frente, voltando à proximidade, então tocou novamente em minha face. — Em um passado distante e esquecido, talvez de uma realidade que tenha se tornado um sonho para… Lady .
Eu não sabia o que dizer...
Nem imaginava se o que ele dizia fazia algum sentido para mim, ou devesse fazer. Respirei fundo, sentindo os arrepios involuntários causados pelo deslizar sutil de vossos dedos até apoiarem-se em meu ombro. Em um movimento cauteloso de vossa parte, se inclinando para mais perto, vossos lábios tocaram meu pescoço, demorando segundos a mais do que parecia pretender. Aquele momento deu início ao meu alvoroço interno, com as inquietações que me faziam questionar se estava ou não preparada para o que aconteceria depois.
— Permita-me fazê-la se lembrar daquele passado… — sussurrou, em meu ouvido.
O tom de vossa voz fazia-me sentir como se correntes elétricas passassem por todo o meu corpo, o deixando em alerta vermelho.
— Senhor Winches… — Meu sussurro fora interrompido por um leve beijo dele, que fez meu corpo meio trêmulo se aquecesse.
Leve, porém com traços de desejo e desespero.
— Milady… — mais uma vez deslizou os dedos até a alça da minha camisola, do lado direito, a fazendo cair intencionalmente do meu ombro, e, mais uma vez, vossos lábios tocaram meu pescoço por um longo momento. — Permita-me amá-la sem reservas?!
Seu sussurro conseguia ser mais enfático ainda.
Fechei meus olhos de forma automática, sem saber como reagir àquele tom doce e envolvente, que parecia criar um magnetismo instigante entre nós. Com a aproximação de vosso corpo junto ao meu, e uma das mãos apoiada em minhas costas, seus beijos começaram de forma gradativa a se intensificar. A cada ação do senhor Winchester, em reação, meus pensamentos seguiam descoordenados e incontroláveis. Quanto mais ele pedia permissão para me amar, mais eu ambicionava entender de onde vinha todo aquele sentimento que parecia cada vez mais sincero e obstinado. De fato, não imaginava que seria assim, não imaginava que a muralha que tinha construído em volta de mim e do meu coração seria derrubada com apenas uma pergunta…
“Permita-me amá-la sem reservas?!”
Sempre que sussurrava em meu ouvido, era incontrolável minha resposta positiva em ceder ainda mais de forma automática, me fazendo perguntar o que estava a acontecer comigo. Externamente, meu corpo estava em sincronia com o dele, assentindo ao seu chamado de forma espontânea, internamente, me sentia aquecida e inesperadamente amada, formando um sentimento novo para mim.
Seria paixão, amor, ou apenas prazer?
Não!
O que estava sentindo era o misto de tudo aquilo e ainda mais. Havia uma pitada de descoberta. O que ele realmente representaria para mim a partir daquele momento? As indagações não haviam partido. Eu estava permitindo… E tudo o que imaginei sobre meu casamento no início poderia ser lançado no mar do esquecimento. tornava-se algo além do que apenas um enigma na minha vida. Lá no fundo, parecia que o conhecia de fato, e, de alguma forma, ele demonstrou conhecer minhas dores internas e muito esquecidas.
Dores essas que estavam gravadas em minhas costas em forma de cicatrizes.
A cada toque de vossos lábios em minhas cicatrizes, os arrepios se intensificaram. O deslizar de vossos dedos em minhas costas, formando os riscos de cada uma, reforçaram o pulsar mais forte do meu coração. Aquela era uma parte de mim que parecia não ser mais um segredo que eu mantinha em absoluto sigilo, uma parte da minha infância da qual não me lembrava. Contudo, ele demonstrava que também possuía algo gravado de igual modo e importância, e o vosso apontava-me ser um complemento da minha.
— Meu senhor… — um gemido não silencioso soou de mim. Mantive os olhos fechados, enquanto tocava o alto relevo que tinha em vosso braço direito, sua cicatriz.
Em meio às vossas carícias regadas a malícia, meu corpo, mesmo em pequenos sinais de desespero por fôlego, apenas seguia com o fluxo de vossas investidas, as quais faziam-me desejar que perdurasse ao longo de toda a noite.
— O que estás a fazer comigo, meu senhor? — sussurrei, ao finalmente conseguir olhá-lo nos olhos. Nossas respirações sincronizadas, ambos puxando o ar para os pulmões com certa necessidade agressiva. — O que estou sentindo!?
— O que sentes… — soou um tom baixo, mantendo a firmeza com aquele toque rouco e ponderado, o olhar de uma profundidade que parecia penetrar em minha alma. — É apenas o desejo de amar-me na mesma proporção.
Eu desejava amá-lo?
Sim!
Meu corpo inteiro dizia que sim, e meu coração, visivelmente rendia-se a isso, ao sentimento dele, que estava vindo ao meu encontro. Como poderia amar-me com tamanha veemência, e com pequenos e sutis gestos? Levar-me a retribuir na mesma proporção? Seu olhar intenso estava combinado ao toque de malícia de vossos dedos deslizando por meu corpo. Um sorriso discreto e sugestivo no canto de vossos lábios me dava sinais de que nossa noite estava apenas começando.
Se meus sentimentos estavam mesmo inclinando-se a ele…
Não me privaria de estar aninhada em vossos braços, sendo aquecida pela profundidade de vosso doce beijo.
“O 'para sempre', como todos dizem, talvez não exista,
Mas, pode ter certeza, independente de tudo, sempre te amarei.
Aos poucos entenderá isso.
Eu não sei por quê,
Esse amor é insubstituível, uma surpresa repentina,
Você tornou-se uma pessoa melhor,
Contanto que viva ao meu lado, à vida é colorida.”
— What Is Love / EXO
Derbyshire – 1833
- :Eu estava faminto…
Contavam-se três dias que estava caminhando pela beira da estrada. Não sabia para qual destino estava indo, mas tinha a certeza de que não voltaria para a workhouse do senhor Cooper e jamais seria escravizado novamente. Porém, isso não mudava minha situação atual, nem o fato de precisar encontrar comida para minha sobrevivência momentânea. Foi quando senti um cheiro vindo ao leste do campo de lavanda, que acompanhava toda a estrada, tão atrativo ao meu olfato que me fez ouvir os ruídos de movimentação em minha barriga. Pulei a cerca e adentrei o campo, seguia movendo-me de acordo com o aroma que sentia, do que parecia ser um pedaço de carne sendo assada.
Em uma certa distância, avistei algumas pessoas, e era notória a separação de classes entre elas. Apenas analisando vossas vestimentas, identifiquei os criados que serviam seus senhores, que esbanjavam orgulho e ostentação. Certamente os nobres da casa. Me locomovi de forma silenciosa, poderia até ser comparado a um animal em momento de caça. Me aproximando mais e mais para achar um ponto estratégico, me escondi atrás duma árvore que tinha perto do cercado.
— O que está fazendo? — Uma voz doce e melosa despertou-me no susto.
— Hum?! — Olhei para trás e depois olhei para frente novamente, confuso por não ver ninguém.
Será que, pela fome, estaria eu ouvindo vozes?
Uma risada baixa soou, até que uma garota caiu em minha frente.
— O que está fazendo? — perguntou ela novamente, um olhar curioso.
Com receio de represálias, me movi para trás, tentando não ficar nervoso. Era necessário retirar-me o mais rápido possível.
— Ei, espere! — ela gritou, sendo ignorada por mim.
Não olhei para trás.
Continuei seguindo pelo campo de lavanda, até sentir que estava longe o suficiente para não ser pego. Abaixado em meio às flores, permaneci esperando o tempo passar. Quanto mais o sol movia-se, mais sentia minha barriga doer. Com o passar das horas, surgiu uma movimentação repentina no meio do campo, abrindo espaço para a sensação de agonia em meu coração. Em sussurro, pedi a Deus para que não fosse um adulto.
— Boa noite… Imagino que tenhas te escondido em meio às lavandas. — Era a voz doce e aveludada da menina que pulou da árvore. — Ainda estás com fome?
Fechei meus olhos, colocando a mão na barriga. Os barulhos involuntários de fome intensa haviam retornado.
— Devo confessar que ouvi a vossa resposta — disse a voz bem próxima de mim, parecendo segurar o riso. — E, pelo som contínuo, vejo que estás mesmo com fome… Deixarei isto aqui.
Ergui de leve minha cabeça e vi a menina de costas, voltando para a direção da cerca. Quase engatinhando, me arrastei até onde ela estava e me deparei com um prato de porcelana com alguns pedaços de carne. Não me contive em salivar de imediato, sentindo o retorno do fundo em minha barriga. A menina havia deixado de bom grado para mim, então não recusaria e, internamente, estava torcendo para que não estivesse envenenado e que não fosse a última refeição da minha vida. Assim que peguei o prato para voltar ao meu esconderijo, notei uma chave caída.
Será que ela tinha perdido, ou deixado de propósito?
Peguei a chave e guardei no bolso da calça. Assim que comi todos os pedaços de carne, me mantive agachado novamente, esperando. Ao cair da madrugada, segui em direção ao que parecia ser um castelo. A primeira impressão? Avistando ao longe, certamente parecia uma grande construção, porém, o vendo de perto, me passou a sensação de ser pequeno para carregar o título de um castelo. Seguindo pelos pontos cegos, nos quais não havia a presença de criados. Com os nobres recolhidos em vossos aposentos, me veio o pensamento mais insano que poderia ter. Não deveria, contudo, se estava com a chave, deveria ao menos tentar abrir uma das portas para devolvê-la. Com os dedos cruzados e torcendo para que ninguém me ouvisse, me coloquei diante da porta mais importante de todas, a da cozinha. Assim que a tranca fez aquele barulho e a porta se abriu, contive a paralisia momentânea pela sorte inesperada.
Entrei silenciosamente, quase segurando minha respiração.
— Finalmente — disse a voz feminina, vindo de trás de mim.
— O quê? — Contive minha reação de susto, contudo, ela percebeu.
Um olhar curioso para mim, parada atrás da porta, mantendo o sorriso discreto e meigo no canto do rosto.
— Fez-me pensar que não tivesse visto a chave. — Continuou ela, correndo seu olhar por minhas roupas.
— Vim apenas para agradecer-lhe pela comida e devolvê-la. — Estiquei a mão, então a abri, mostrando a chave.
— Lady Lewis, o que fazes acordada a esta hora? — A voz de uma senhora ecoou pelo espaço, enquanto adentrava a cozinha. Logo ela lançou o vosso olhar para mim. — Oh, céus! O que… Quem é esta… — Notei vossos olhos focarem na chave em minha mão. — Seu ladrãozinho.
— Não! Eu posso explicar — disse a garota, pegando a chave de minha mão com rapidez, se colocando em minha frente.
— Venha, lady Lewis. — A senhora puxou-a pelo braço bruscamente. — Não deveria estar aqui, menos ainda com um ladrão.
— Mas ele… — A garota tentou argumentar.
— O que está acontecendo aqui? Estou ouvindo as vozes do corredor?! — reclamou um homem, entrando na cozinha.
— Senhor Rochefort, dê um jeito nessa criança. Ela roubou minha chave e invadiu o Lewis Castle — explicou, olhando para mim em fúria.
— Ah, seu ladrãozinho — disse o homem, vindo em minha direção.
Eu, que estava estático naquele momento, tentei me locomover para sair daquele lugar, mas o homem pegou forte em meu braço.
— Solte-me, senhorita Moore — gritou a garota, se debatendo como eu para se soltar. — Ele é inocente. Fui eu quem pegou sua chave e dei a ele.
— Lady Lewis?! — A senhora olhou-a com ar de decepção. — Não acredito que tenha feito isso. Ajudando um órfão rejeitado a roubar?
— Ele é uma pessoa como eu e a senhorita — retrucou ela, desviando seu olhar para mim. — Desculpe-me, só queria vos ajudar.
— Oh, que audácia. — A senhora segurou ainda mais forte no braço da menina, tanto que senti como se fosse em mim. — Lady Lewis, não deves desculpar-se com a plebe. Venha, terei que te castigar por esse ato de rebeldia.
A senhora saiu arrastando-a consigo.
Mesmo ameaçada, vossos gritos pedindo para que o tal senhor Rochefort me deixasse ir sem me machucar foram nítidos aos meus ouvidos. Aquela pequena donzela estava a colocar-se em meu lugar, assumindo a inteira culpa do ocorrido. Em meus nove anos de idade, nunca ninguém havia defendido-me como ela… Lady Lewis.
O homem, ainda me prendendo pelo pulso, me arrastou para fora da casa e, como castigo, fez um corte profundo em meu braço para que me lembrasse de nunca mais deixar uma dama fazer tal coisa por mim. Nem mesmo invadir a casa de um nobre para roubar. Corri o máximo que pude. Por mais que meu lado racional gritasse implorando para eu ir para longe daquele lugar, não conseguia parar de pensar naquela pequena dama. Parei no meio do campo e finalmente olhei para trás, ansiava saber se ela estava bem. Mantive-me naquela mesma posição por mais algum tempo, olhando as estrelas no céu. Repentinamente, uma movimentação surgiu em meio às flores de lavanda, e, abaixado em silêncio, o medo surgiu juntamente ao pensamento de que poderia ser o tal senhor Rochefort.
— Ainda estás aqui? — Era a voz dela, doce e aveludada, porém com um toque de tristeza. — Consegui pegar a chave novamente, porém, desta vez, achei mais prudente trazer a comida, assim não o colocarei em problema novamente.
Colocar-me em problema?
Mas fora eu o problema da noite.
Ergui meu rosto de leve. Ela, estando de costas para mim, vestida com uma camisola de linho. O brilho da lua em suas costas me permitiu ver algumas marcas de sangue em forma de traços. Vosso castigo também havia sido grande, por minha causa.
— Deixarei aqui, e espero que não fique com fome novamente. — Continuou ela, ao abaixar-se e deixar uma trouxa de tecido no chão. — A propósito, eu não sei o vosso nome, mas quero que saiba o meu. Sou a lady Lewis, filha do Conde de Carnarvon.
Esperei até que afastou-se o máximo possível, então caminhei até a trouxa de tecido e olhei superficialmente. Havia muita comida. Lancei meu olhar para frente novamente, vossa silhueta permanecia ainda em meu campo de visão, enquanto retornava ao castelo.
— Lady Lewis — sussurrei vosso nome.
Naquele momento…
Mais do que o vosso nome, eu a estava gravando em meu coração. Vosso gesto de caridade para comigo havia-me feito decidir que no futuro…
Ela estaria comigo e seria minha, sem reservas.
“Houve um evento que me fez feliz hoje, o momento quando
Te conheci e o fato de que eu sabia que tinha alguém para amar.”
— Creating Love / Personal Taste OST (4minute)
2. My Little Princess
Londres — Primavera de 1847
•Aquela noite havia se estendido em meus sonhos. A lembrança mais vívida foi dos sussurros de em meu ouvido. Comecei a me espreguiçar em meio aos lençóis que estavam ao meu redor. Aos poucos, a claridade da janela foi tomando conta do quarto, o que me fez abrir meus olhos. O motivo da claridade se chamava Isla, a governanta da Wincher Hall.
— Bonjour, lady Winchester — disse ela, ao abrir uma pequena fresta na janela para o ar adentrar.
— Bom dia. — Em um sussurro, observando seus movimentos. — Onde está o senhor Winchester?
— No escritório, milady — respondeu, se virando para mim, com um olhar atento e analítico. — Em reunião com o lorde Lewis, conde de Carnarvon.
— Meu pai?! — sussurrei, pensando em qual possível motivo para que ele estivesse aqui a esta hora da manhã.
— Milady, deseja algo em especial?! — perguntou, ao manter-se parada de frente para minha cama.
— Não — respondi, me levantando da cama. — Apenas ajude-me a me vestir.
Ela assentiu com a face. Isla parecia uma pessoa relativamente agradável de se conviver, sempre dizia o necessário e se mantinha em silêncio, uma excelente profissional. Minhas roupas ainda estavam no baú que tinha trago de Lewis Castle. Demorei um pouco para escolher, pois não havia levado todos os meus pertences. Como estávamos na primavera, optei por colocar o vestido salmão pastel, com bordados em linha verde musgo.
— Deixe-me sozinha, por favor — pedi a ela.
— Como quiser, milady. — Isla fez uma breve reverência com a cabeça e se retirou do quarto.
Respirei fundo, ajeitando o vestido em meu corpo. Caminhei até o espelho e, pegando meu estojo de toilette, que estava na mesa ao lado, me sentei na cadeira. Minha maquiagem seria suave, evidenciando somente meus lábios, como o campo de lavanda na primavera. Ao final, peguei o frasco de metal com arabescos de ouro decorado, com meu perfume preferido, e borrifei com leveza.
Fiquei alguns minutos me olhando no espelho.
Desde que tinha acordado, me senti estranha, contudo, era um estranho bom, como se algo de diferente tivesse sido estabelecido em minha vida. Bem, oficialmente, estava casada. Oficialmente, tinha me tornado a esposa do homem mais influente e rico de Londres, porém meus sentidos não estavam tendendo para isso. O que eu sentia estava ligado diretamente a , descartando seu sobrenome ou tudo que envolvia ele socialmente. Talvez aquela sensação estranha que estava sentindo pudesse ser convertida em sensação de complemento, como se tivesse completado em mim, em uma única noite, o que eu sentia que faltava todos esses anos.
— Lady Winchester — disse uma voz grossa vindo da porta. Era ele, provavelmente para saber se eu já estava acordada.
— Senhor. — Desviei meu olhar para seu reflexo no espelho. — Bom dia.
— Bom dia — respondeu ele, se mantendo imóvel na porta.
Apesar de poder olhar meu reflexo, notei que seu olhar estava diretamente para mim, e, mesmo de costas para ele, a intensidade era a mesma. Aquilo me deixava ainda mais intrigada. Se ele podia olhar em meus olhos através do espelho, por que se contentava em olhar diretamente para mim, ainda que de costas para ele?!
— Acredito que já saiba que vosso pai veio esta manhã. — Continuou ele.
— Sim. — Me levantei da cadeira e me virei em sua direção. — Isla me informou que estavam no escritório.
— Ele a espera na entrada, para se despedir — confirmou, abrindo um pouco mais a porta para que eu passasse.
Disfarcei um breve sorriso no canto do rosto e caminhei em sua direção. Assim que passei por ele, fez uma breve reverência com a face, movendo seu corpo para o lado para que eu pudesse passar com mais liberdade. Retribuí a reverência com minha face e segui em direção às escadas. Assim que cheguei ao hall de entrada da casa, meu pai já estava parado perto da porta, olhando para o vaso chinês que estava na mesa em frente à porta.
— Papai! — disse, indo a seu encontro e lhe abraçando.
— Olá querida. — Ele retribuiu meu abraço. — Como está?!
— Venho de uma noite relativamente agradável — respondi, me mantendo reservada aos detalhes. — Não me diga que veio por estar com saudades de mim? Mal se fez vinte e quatro horas que fui desposada.
— Ah. — Ele riu de leve, mantendo seu olhar no vaso chinês. — Acabou descobrindo meu segredo. Estava mesmo com saudade de minha filha amada. Está se sentindo confortável nesta casa?
— Um pouco. Não é tão grande quanto a Lewis Castle, contudo, é maior e mais luxuosa que muitas casas em Londres.
— Fico aliviado em saber que minha filha estará vivendo bem.
— O senhor ficará para o desjejum? — perguntei, demonstrando um pouco de animação.
— Oh, não. Não quero atrapalhar seu primeiro dia como uma senhora casada. — Ele desviou seu olhar para trás de mim. — E tenho certeza de que o senhor Winchester gostaria de passar esta manhã sem convidados indesejados.
Eu virei minha face para . Ele estava parado no último degrau da escada, seu olhar estava fixo em mim, sua face séria, porém com traços suaves.
— Tenho certeza de que o senhor não é um convidado indesejado — retruquei, mantendo meu olhar em .
— Minha querida, teremos muitas manhãs pela frente. — Meu pai tocou em minha mão, me fazendo olhar para ele. — E tenho outro compromisso para esta manhã.
— Está sendo sincero? — reforcei.
— Claro que sim. — Assentiu ele, me abraçando novamente. — Prometo lhe visitar com frequência.
Assenti com um sorriso e o acompanhei até a porta. Assim que fechei, desviei minha atenção para , que continuava olhando-me fixamente. Respirei fundo, desviando meu olhar para o vaso chinês. Era complicado ficar encarando-o com toda aquela intensidade, parecia invadir minha alma e ver meus pensamentos.
— O que meu pai realmente veio fazer aqui? — perguntei, me mantendo parada no mesmo lugar.
— Ele não lhe disse? — retrucou.
— Disse que estava com saudade de mim, porém sei que é mentira — respondi.
— Se lorde Lewis não a quis contar, não serei eu a fazer isso — pronunciou, ao descer o último degrau, então dirigiu-se para a sala. — Venha, nosso desjejum será no jardim.
Ele estendeu o braço para que eu pudesse o acompanhar. Dei alguns passos até ele e, pousando minha mão em seu braço, seguimos para o jardim. Ao contrário da arquitetura clássica acompanhada do neogótico, que existia no interior da mansão, em sua fachada frontal e nas laterais, o jardim era mais gracioso e delicado. Algo que muito admirei. Saímos pela porta lateral da sala de jantar, seguidos por mais alguns passos silenciosos e lentos pela trilha de seixos claros entre a grama baixa. Havia alguns pequenos arbustos espalhados por todo o espaço, usados como contorno dos canteiros de margaridas, rosas, peônias e lavandas.
O que deixava o lugar ainda mais perfumado e colorido.
Aquela trilha nos direcionou a uma fonte bem ao centro. pegou em minha mão e me soltou de seu braço, então se afastou para se aproximar da mesa, que estava posta mais à frente, arrastou a cadeira e me olhou como se estivesse me convidando para sentar. Sorri de leve, caminhei até o lugar e me sentei na cadeira. Mantive meu olhar no jardim, observando os bancos que ficavam do outro lado da fonte.
— Senhor Winchester, me permita servi-los — disse o mordomo, ao se aproximar de nós.
— Agradeço, Lee — consentiu .
Enquanto o mordomo nos servia, desviei meu olhar para por algumas vezes e, como presumi, sua atenção permanecia fixa em mim. Impossível não ficar envergonhada com tamanha intensidade no olhar, o que me deixava em curiosidade. Desejava saber o motivo de sua aparente obsessão por mim.
— Com sua licença, senhor, milady. — O mordomo se afastou, permanecendo no jardim, porém um pouco distante de onde estávamos.
— O jardim é muito bonito — comentei, desviando meu olhar para o pedaço de bolo no prato de porcelana, que, pelos ornamentos desenhados, parecia de origem francesa.
— Sinto-me aliviado que tenha gostado. Foi feito para você, como tudo que existe nesta casa. — Seu tom de voz permanecia inalterado, firme e grosso, com aquele toque suave.
— Suas palavras ainda me deixam sem reação, senhor — disse, me sentindo um pouco desnorteada.
— Pode me chamar de , se preferir. — Ele tocou de leve em minha mão. — Não precisa ser tão formal assim quando estivermos sozinhos.
— Como quiser. — Assenti com um sorriso.
Permaneci em silêncio enquanto saboreava meu desjejum.
Ao mesmo tempo que queria perguntar sobre sua enigmática vida, ainda tinha um certo receio no que provavelmente poderia descobrir. Em alguns momentos, eu fechava meus olhos, sentindo a brisa tocar minha pele, me deixando envolver pelo aroma que deixava o lugar ainda mais confortável para se estar. Mantive minha atenção nas flores do jardim, pois sabia que estaria com a sua em mim, o que me fazia sorrir de forma involuntária em alguns momentos, me permitindo ter a sensação de que ele retribuía meu sorriso com outro um pouco discreto, atraindo meu olhar para ele.
Assim que tomei o último gole de chá que estava em minha xícara, o mordomo Lee se aproximou com uma bandeja de prata contendo uma carta dentro. Mantive-me em silêncio enquanto o observava entregar a . Sempre lutei contra a curiosidade que vivia em mim. Talvez fosse uma carta de felicitação por nosso casamento, ou alguma mensagem importante de alguns de seus muitos negócios.
— Algo urgente?! — perguntei, mantendo meu olhar fixo na carta.
— Não, apenas imprevistos que tenho que resolver — respondeu ele, se levantando da cadeira. — Perdoe-me por não poder apreciar esta manhã com você.
Ele desviou seu olhar para a carta, era visível sua frustração por ter que se ausentar logo em nossa primeira manhã juntos.
— Terei vossa companhia para o almoço? — perguntei, me levantando também.
— Sim — respondeu, com um sorriso disfarçado. — Tudo que quiser, não hesite em pedir ao Lee ou a Isla. Você é a nova dona desta casa.
Assenti com a face, mantendo meu olhar nele.
se aproximou de mim e, pousando sua mão em minha cintura, acariciou minha face de leve com a outra, o que me fez ansiar mesmo que de leve por um beijo dele. Fechei meus olhos lentamente e logo senti seus lábios tocando os meus. Em segundos, meu corpo se arrepiou. Seu beijo era doce e suave, com nuances de intensidade. Ao mesmo tempo que me aquecia por dentro, me deixava estática. Era estranho um simples beijo de uma breve despedida ser tão intenso, como se fosse o beijo de uma partida eterna. Comecei a me perguntar se ele tinha medo de voltar e não me encontrar naquela casa.
ainda manteve seu rosto encostado no meu por alguns instantes, o que me fazia ter a sensação de que aquele beijo era insuficiente para ele. Abri meus olhos, deixando meu olhar baixo. Percebi que nossas respirações estavam sincronizadas, recuperando o fôlego daquele beijo. Por dentro, meu coração se manteve acelerado todo o tempo, talvez estivesse concordando com ele que aquele beijo era, sim, insuficiente, mas consegui descobrir a primeira coisa sobre ele.
não queria se afastar de mim, nem por um segundo.
"Por favor, espero que você veja como eu cresci.
Quero ser um homem que combine com você.
Por favor:
Permita-me entrar em seu coração,
A qualquer hora que eu quiser."
— My Little Princess / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)
3. Hug
Londres — 1847
•Ele se afastou de mim em silêncio, seguindo em direção à porta. Continuei imóvel onde estava, observando seus passos com meu olhar. Respirei fundo, sentindo meu coração se acalmar, porém uma certa melancolia por ele ter que partir logo em nossa primeira manhã juntos.
— Milady Winchester?! — disse Isla, ao se aproximar de mim.
— Sim?! — Eu a olhei, me despertando de meus pensamentos.
— Milady deseja que algo em especial seja preparado para o almoço? — perguntou ela, de forma natural, o que atestou ainda mais que eu era a nova dona daquela mansão.
Respirei fundo, não sabia o que responder, ainda mais por não conhecer os gostos e hábitos de . Aquela simples pergunta acabou me deixando um pouco insegura, pensando que se escolhesse de forma errada o cardápio a ser servido, talvez ele ficasse decepcionado ou irritado.
— Bem, eu ainda não… — A olhei. — Preciso de alguns minutos para me decidir.
— Como quiser, milady. Caso queira me chamar, basta tocar — disse ela, deixando o sino de mão sobre a mesa.
Isla fez uma breve reverência e se retirou.
Desviei meu olhar para a fonte ao meu lado, mantendo meu corpo de frente para ela. Um lado novo em ser a dona da casa, ter que decidir por tudo que acontecia. Por mais que tenha sido preparada para isso durante toda a minha infância, estar casada e ter uma família para cuidar era bem mais complexo quando não se conhecia o seu marido. O que me despertava a vontade de descobrir quem ele era, internamente. Seus gostos, desejos, seus pensamentos, quem era o por trás daquele olhar intenso e silêncio constante.
— Milady Winchester — disse Lee, retornando ao jardim. — O senhor e a senhora Winchester, e o senhor Aidan, estão no hall, aguardando a senhora.
— O quê? — sussurrei de leve.
O que a família de estava fazendo aqui? Perguntei para mim mesma, tentando não imaginar o que eles queriam. Acompanhei Lee até o hall de entrada da mansão. Eles estavam perto da porta, conversando entre si enquanto me esperavam.
— Bom dia — disse, no meu tom baixo e habitual de falar.
— Oh, aqui está ela! — disse a senhora Poppy, vindo me abraçar com euforia. — Confesso que contei as horas para vir aqui esta manhã. Estava curiosa para saber como foi a primeira noite do casal.
— Hum?! — No susto, tentei retribuir o abraço com mais suavidade e me afastei um pouco. — Foi tranquila, na medida do possível.
— Não seja tímida. Meu filho esperou tanto por esse casamento com a primogênita da família Lewis, tenho certeza de que tranquilo é um adjetivo que não classifica o que viveu esta noite. — Ela riu alto e deu um leve tapa em meu ombro.
Dei um sorriso meio tímido, desviando meu olhar para o senhor Zachary, pai de , e depois para o senhor Aidan, sobrinho deles.
— Oh, sim. — Ela riu ainda mais, olhando para seu marido. — Me esqueci que estamos na presença dos senhores.
— Não se contenha por minha causa. — Aidan deu um leve sorriso malicioso. — De minha parte, adoro saber sobre essas coisas. A visão feminina sobre o amor é tão atraente.
— Modere suas palavras diante de duas senhoras casadas — repreendeu o senhor Zachary, num tom mediano.
Eu me encolhi um pouco, me sentindo desconfortável com a presença deles e mais ainda com as indagações da senhora Poppy.
— Senhores, fiquem à vontade na sala — disse a senhora Poppy, me pegando pela mão. — Quanto a nós, vamos ter conversas femininas.
Ela me puxou em direção à escada sem que eu conseguisse me opor. Subimos correndo e entramos no quarto principal. A senhora Poppy fechou a porta assim que entramos, então me fez sentar no sofá que tinha em frente à janela, ao seu lado.
— Senhora... — Comecei a tentar fazê-la não se animar muito com o assunto.
— Minha querida, sei que está envergonhada. — Ela segurou minha mão e me olhou de forma gentil. — A primeira noite de uma mulher é como um marco em sua vida. Tenho certeza de que não é somente eu que estou curiosa sobre isso.
— Sim. — Assenti com a face.
Ela realmente poderia não ser a única, porém sabia que minha família conseguiria ser bem mais discreta que ela. Mesmo com costumes visivelmente diferentes, conseguia sentir que a senhora Poppy era muito gentil e queria ser minha amiga. Estava tentando encontrar alguma forma de retribuir seu carinho evidente por mim, só não sabia como iria retribuir.
— Senhora Poppy... — disse, num tom mais baixo que de costume. — A senhora disse que o senhor Win... me esperou por muito tempo. O queria dizer com isso?
— Minha querida, não sabes?! — indagou ela, me olhando surpresa.
— Não, senhora. — Neguei com a face.
— Bem. — Um sorriso disfarçado surgiu no canto de seu rosto. — Eu disse isso me referindo aos três anos que ele passou interessado em vossa pessoa, desde que retornou para Londres.
Sua explicação não me parecia convincente, menos ainda sincera. Parecia que algo a mais existia nesta história. A senhora Poppy passou a mão em seus cabelos e ajeitou um pouco a saia do vestido azul marinho que estava em seu corpo, suspirou um pouco, como se escolhesse suas próximas palavras.
— Bem, voltemos para sua noite de núpcias — disse, se animando novamente. — Como foi? Meu filho foi gentil convosco?
— Senhora Poppy, não quero ser indelicada com a senhora, mas gostaria de não mencionar sobre isso. É algo muito íntimo para mim. — Me encolhi um pouco mais.
— Ah, sim, eu imagino que esteja me achando muito curiosa. — Ela riu alto. — Mas, em partes, é preocupação de mãe. é um homem muito silencioso e pouco sociável, fico imaginando como poderia ser a convivência de ambos.
— A senhora não deveria se preocupar tanto. Já percebi algumas características do vosso filho, certamente me acostumarei com elas de acordo com o tempo. — Assegurei.
— Posso ver em seus olhos uma ponta de curiosidade. — Deu um largo sorriso. — Se quiser, posso lhe contar como encontrei ainda criança.
— A senhora faria isso? — disse, me surpreendendo por ela ter confirmado os boatos de ele ser adotado. — Sempre ouço comentários indiretos com este boato.
— Bem, eu chamo de meu pequeno anjo. Ele salvou minha vida em um momento que eu não queria ser salva — explicou ela, com um pequeno brilho nos olhos. — E mesmo tendo passado alguns anos longe de casa, estou feliz e orgulhosa por ele ser meu filho, mesmo que adotivo.
— A senhora não pôde ter filhos? — perguntei, meio receosa.
— Não. — Ela suspirou fraco. — Infelizmente, Deus não quis que eu tivesse esse prazer. Tenho um certo alívio por meu marido nunca ter me cobrado, mas fico triste.
— Eu lamento. — Coloquei minha mão sobre a dela e sorri de leve. Não sabia ao certo o que falar.
— Ah, mas a vida me deu dois filhos lindos de criação. — Ela sorriu também, era notável as pequenas gotas de lágrimas no canto de seus olhos. — Aidan às vezes me dá um certo trabalho, porém me divirto com ele.
— Soube que os pais dele morreram em uma tempestade — comentei.
— Soube de muitas coisas sobre nossa família. — Ela riu um pouco.
— Perdoe-me, senhora, se fui intrusa nos assuntos pessoais da família.
— Não precisa se desculpar. — Ela riu novamente. — Não é novidade que minha cunhada e seu marido morreram em uma viagem de navio para a Espanha.
Ela se levantou, respirando fundo.
— Mas vamos deixar o passado para trás e olhar para o futuro. — Ela pegou em minha mão e me levantou da cama. — Temos um almoço para preparar. Acredito que esteja curiosa para saber as preferências do seu marido.
— Um pouco, senhora. — Assenti.
— Vou adorar te contar tudo. — Ela riu ainda mais alto, me puxando para fora do quarto.
Descemos as escadas com suas gargalhadas, enquanto me contava algumas histórias de quando era criança. Passamos pela sala de visitas, indo diretamente para a cozinha. Fiquei um pouco próxima à porta, observando a senhora Poppy montar todo o cardápio do almoço de forma bem detalhada, explicando à cozinheira com a companhia da senhorita Isla, sempre reforçando como deveria sair o sabor dos alimentos.
O cardápio, segundo a senhora Poppy, seria Yorkshire puddings de entrada, roast beef ou, como ela costumava pronunciar, rosbife, acompanhado de purê e vegetais cozidos para o prato principal. Era um pouco engraçado ver como minha sogra pronunciava o nome dos pratos, e admirável a forma que ordenava tão bem os empregados. Nunca imaginei que uma mansão em Londres pudesse ter tantos empregados, além do que já havia visto. Ao chegar à sobremesa, segundo a senhora Poppy, seria uma surpresa para os recém-casados, e precisei conter minha curiosidade. Assim que todas as instruções foram passadas, retornamos para a sala de visitas. O senhor Zachary e Aidan estavam conversando, sentados nas confortáveis e luxuosas cadeiras que compunham o mobiliário.
— Estou surpreso que tenha saído logo pela manhã — comentou o senhor Zachary.
— Deve ter sido algum problema grave no porto para deixar sua esposa logo na manhã de recém-casado. — Aidan deu uma risada discreta, se levantando e caminhando em direção ao quadro de William Hogarth, que estava na lateral direita da sala.
Eu o segui com meu olhar e analisei um pouco a obra de arte que estava dentro da moldura. Vagamente poderia afirmar que já tinha visto este quadro quando criança, talvez na casa de algum aristocrata amigo do meu pai. Era curioso uma obra de arte de tanto valor estar na casa de um burguês. Será que teria comprado? O tempo foi passando, e o senhor Zachary continuava seus assuntos sobre os negócios da família com Aidan. Enquanto isso, a senhora Poppy, que se sentou na cadeira ao lado da minha, sempre puxava alguns assuntos triviais relacionados ao meu cotidiano em Derbyshire. Ela havia me contado que morou por anos em uma casa ao sul de Nottinghamshire, contudo, após Aidan ir morar com eles, decidiram vir para Londres.
— Oh, ! — A senhora Poppy se levantou da cadeira assim que o viu chegar e caminhou em sua direção. — Estávamos à sua espera.
— O que fazem aqui? — perguntou ele, num tom rude, porém com vestígios de surpresa.
— Viemos acompanhá-los para o almoço — respondeu a senhora Poppy, com um sorriso descontraído.
Ela parecia não se importar com o tom da voz dele, menos ainda com sua face séria. Seu olhar veio de encontro ao meu, estabelecendo assim aquela intensidade que sempre me deixava envergonhada.
— Não me lembro de tê-los convidado — retrucou , se mantendo sério.
— Ah, deixe de pedir formalidade com sua própria família, queríamos fazer uma surpresa. — A senhora Poppy fez que iria se irritar, porém se virou para mim e piscou de leve.
Como se sua reação fosse uma forma de ensinamento para mim. Logo me levantei da cadeira e caminhei até ele. Sorri de leve, desviando meus olhares pelo percurso.
— O senhor retornou cedo — disse no meu tom baixo de sempre.
— Assegurei que retornaria para o almoço. — Seu olhar em mim sem nenhum constrangimento de toda aquela intensidade que colocava. — Sempre cumpro minha palavra.
Senti um breve arrepio em meu corpo.
— Com este tom rude e de mau humor, vejo que não pode ter a companhia de sua família — pronunciou a senhora Poppy, que estava ao nosso lado, nos olhando. — Será que devemos ir embora?!
Aquele era seu lado dramático o qual ouvi os criados comentarem.
— Sejamos honestos, querida. Estamos invadindo a privacidade do casal em seu primeiro dia juntos — disse o senhor Zachary, de forma franca.
— É claro que estamos agradecidos pela presença de vocês — afirmei, mantendo meu olhar em .
— Eu já imaginava que sim. — A senhora Poppy riu um pouco e se dirigiu para o centro da sala, sentando ao lado do seu marido.
pegou em minha mão com suavidade e me guiou até o jardim.
Ele parecia um pouco nervoso e desconfortável, mas não conseguia identificar se era pela presença de sua família, ou pelo motivo que o fez sair pela manhã. De qualquer forma, parecia sério, pois, a cada instante, segurava minha mão ainda mais forte sem perceber.
— — disse, ao parar de andar, puxando um pouco minha mão para que percebesse o grau de sua força.
— Perdoe-me. — Num tom baixo, soltou minha mão e olhou para o céu. Parecia tentar controlar sua voz. — Eles não deveriam estar aqui.
— Eu gostei da visita deles — disse, tocando de leve seu rosto para que olhasse para mim.
Ele permaneceu em silêncio, me olhando. Comecei a constatar que o problema não era realmente sua família.
— Sua mãe é muito simpática — disse, suavizando ainda mais minha voz. — Ela me ajudou a descobrir suas preferências para a gastronomia, além de contar sobre sua infância...
Em um piscar de olhos, senti os lábios de tocarem os meus em uma profundidade incomum que fazia minhas pernas estremecerem. Suas mãos se envolveram em minha cintura, aproximando nossos corpos. Eu pousei de leve minha mão direita em seu tórax e senti seu coração um pouco acelerado.
— Pelo aroma, teremos um almoço especial — comentei, ao me afastar um pouco dele.
sorriu de leve, mantendo seu olhar em mim.
Voltamos para o interior da mansão. Ao chegar à sala, Aidan estava contando mais uma de suas aventuras vividas em sua última viagem para a Espanha. Eu caminhei até a cadeira do canto, me sentando de frente para a senhora Poppy. permaneceu de pé, ao lado da lareira, com sua atenção em mim. Sua face estava um pouco mais serena, o que me fez ficar estranhamente bem mais aliviada.
— , já mostrou à sua bela esposa, Milady Winchester, seus dotes artísticos? — perguntou Aidan, que estava de pé, em frente ao outro quadro de Rembrandt.
— Ah, sim. Toque para nós, — insistiu a senhora Poppy. — Tenho certeza de que minha nora ficaria admirada em ver como é talentoso.
Meu olhar, que estava na mesa de centro, se desviou para ele, encontrando os seus. Naquele momento não conseguiria reagir de uma outra forma, além de estar surpresa. Contudo, percebi uma certa movimentação na porta, era o mordomo Lee, que discretamente acenou sua face para , que, assim como eu, tinha olhado em sua direção.
— Vamos — disse , ao se aproximar de mim e estender sua mão. — O almoço está servido.
Assenti com a face, pousando minha mão em seu braço. O senhor Zachary estendeu seu braço para a senhora Poppy e nos seguiu em direção à sala de jantar, acompanhado de Aidan. Uma refeição genuinamente saborosa, constatando o que o suave aroma alertava. A surpresa especial para a sobremesa foi gelado de baunilha. Diferente do que costumávamos ver na sorveteria, havia sido encomendado com um sabor diferenciado, especialmente para aquele dia. Foi um momento descontraído, que contava sempre com os comentários espontâneos da senhora Poppy. Eles não demoraram muito para partir, após as xícaras de café que foram servidas na sala de visitas. Apesar de sempre se mostrar alegre para , ela havia percebido que ele precisava ficar a sós comigo.
Assim que me despedi deles na sala, deixei que os levasse até a porta.
Caminhei para o jardim e me sentei em um dos bancos com encosto que estavam na frente da fonte no lado esquerdo. Fiquei por um tempo olhando as águas que caíam do chafariz de escultura em mármore. Fechei meus olhos por um momento. Graças à presença da família dele, aquele dia havia sido um pouco agitado para mim. Logo senti alguém sentar ao meu lado, permanecendo em silêncio. De olhos fechados, tombei minha cabeça para o lado, encostando em seu ombro. Uma breve sensação de conforto passou por mim, o que me fez suspirar de leve. O aroma do seu perfume foi me envolvendo, acompanhado de suas carícias em meu cabelo, e me fez adormecer lentamente.
"Quero te ver dormir confortavelmente, carinhosamente nos meus braços,
Por você, resolvo todos os problemas e tudo o que te incomoda,
Inclusive o monstro dos teus pesadelos.
[...]
Fico curioso pensando o quanto você gosta de mim,
Quero ser como seu diário, para saber os segredos do seu coração."
— Hug / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)
4. Destiny
Derbyshire — Outono de 1833
•Passei os dias racionando a comida que tinha na trouxa de tecido.
Não sabia quando iria encontrar mais. Não podia retornar ao castelo da Lady Lewis, não a colocaria contra sua preceptora novamente e nem queria que fosse castigada por minha causa uma segunda vez. Continuei caminhando pelas beiras das estradas, não sabia ao certo em que lugar da Inglaterra me encontrava. Tinha perdido toda noção de tempo e espaço. Em alguns momentos até pensava estar andando em círculos, quando me aventurei pelos bosques e vales. Se ficasse muito tempo nas estradas, poderia ser preso e levado novamente para algum workhouse por ser um órfão.
O pouco que consegui contar das noites que se passaram, desde que olhei lady de costas pela última vez, foram dez dias de caminhada, ou mais que isso. Continuei seguindo pela borda da nascente, que tinha encontrado ao leste daquela colina, era um final de tarde tranquilo, até que comecei a ouvir de longe uma voz que parecia de desespero. Fui seguindo em direção de onde a voz surgia. Quando cheguei próximo a uma árvore, avistei uma senhora na ponta do que parecia uma queda d’água. Eu conseguia ver nitidamente que estava chorando, mesmo que suas palavras fossem para o nada, ela agia como se estivesse falando com alguém.
Em um piscar de olhos, aquela senhora abriu seus braços e se jogou. Por um breve momento, meu corpo congelou, contudo, de forma automática, corri até a ponta e me joguei atrás dela. Mesmo que tudo estivesse mal, não seria certo deixar aquela senhora se matar. Mergulhei em meio ao impacto na água e nadei até ela, tentando segurar o máximo de fôlego que conseguia. Tinha nadado apenas uma vez até aquele momento, ou melhor, eu tinha lutado contra a morte para sobreviver quando o senhor Cooper me jogou no rio, após eu roubar a comida da despensa para dar às crianças mais novas.
Esse foi o principal motivo para ter fugido da workhouse dele.
Assim que consegui passar por algumas rochas que apareceram pelo caminho, alcancei a senhora e, a segurando pelo braço, deixei a correnteza nos levar até chegarmos à margem do rio. Com uma certa dificuldade, pois era um pouco robusta, a arrastei até chegarmos a um arbusto e tentei acordá-la, não sabia o que fazer e lutava contra o pânico que estava se formando dentro de mim.
— Hum… — disse ela, tossindo um pouco, abrindo seus olhos. — Vós és um anjo?
— Não — disse, num tom baixo, me encolhendo.
— Salvou-me a vida — sussurrou, erguendo seu corpo e me abraçando. — Meu anjo.
— Senhora, eu não sou um anjo — repeti, sem saber se deveria ou não retribuir seu abraço.
— É claro que és. — Ela sorriu de leve. — Oh, estamos bem molhados, precisamos nos secar antes que peguemos um resfriado.
— Hum. — Eu olhei para minhas roupas, até mesmo a trouxa de tecido que tinha amarrado em minhas costas estava encharcada e vazia.
— Venha, me ajude a levantar — disse, pegando em minha mão. — Vamos para casa.
Eu me levantei primeiro e a ajudei a se levantar, estava tentando entender a que casa a senhora estava se referindo, afinal, eu não tinha nenhum lugar para ir. Ela começou a seguir na frente, mas parou e se virou ao perceber que eu tinha permanecido no mesmo lugar.
— Por que não está andando? — perguntou ela.
— Desculpe-me, senhora, mas não tenho casa, nem mesmo família. Não posso ir para lugar nenhum.
— Mas é claro que pode. — Ela abriu um largo sorriso novamente. — Venha comigo. És o meu anjo e minha casa agora é sua casa.
Ela estendeu a mão para mim.
Seu nobre gesto e suas palavras de conforto fizeram minha memória refletir a face de lady Lewis, o olhar doce que me ajudou sem nem perguntar quem eu era. Uma gota de lágrima se formou no canto de meus olhos. Como minha face ainda estava molhada, facilmente a senhora não notaria que estava um pouco emotivo naquele momento. Segurei, ainda receoso, sua mão, e andamos mais algum tempo. Sua casa parecia ser longe, pois chegamos ao anoitecer. Quando entramos, um homem também robusto veio ao nosso encontro e abraçou a senhora. Em sua face, a preocupação resplandecia de forma curiosa.
— Oh, querida — disse ele. — Estava preocupado e atormentado pelo desespero de não a ver novamente.
— Eu estou bem agora, graças ao meu anjo — disse a senhora, ao desviar seu olhar para mim.
— Quem é este garoto? — perguntou o senhor, me olhando de cara fechada.
— Este é meu anjo. — A senhora se aproximou de mim e colocou sua mão em meu ombro. Ela sorriu de leve e olhou novamente para o senhor. — Ele será meu filho agora.
— O quê? — O senhor alterou sua voz. — Como pode dizer tal coisa? Mal sabe sobre ele, e se tiver família?
— Ele não possui — retrucou ela. — Agora somos a família dele. Foi graças a esta criança que eu tive uma segunda chance.
A face dela começou a aparentar tristeza.
— Quando me joguei no rio, estava desistindo da minha vida, mas ele me salvou. — Ela acariciou meus cabelos com carinho. — Meu anjo, e não aceito que digas o contrário.
— Mas ele… — O senhor se calou por um momento, permanecendo com seu olhar em mim. Respirou fundo. — Esta criança não vai substituir todos os bebês que perdemos.
— Eu sei. — Ela me abraçou. — Mas tenho certeza de que vai preencher o vazio que sinto dentro do meu coração, Já o considero meu filho, e se não fizer o mesmo…
— Tudo bem. — Concordou o homem, mesmo contrariado. — Qual o seu nome, garoto?
— , senhor — disse, em sussurro.
— Você tem família? — Continuou ele.
— Não, senhor — respondi.
— Quantos anos tem?
— Oito, senhor.
— A partir de agora, será nosso filho. — O senhor manteve seu olhar em mim. — Eu sou Zachary Winchester e essa senhora que deseja lhe dar o amor de mãe se chama Poppy.
— E a partir de agora, me chame de mãe — disse a senhora Poppy, com um largo sorriso em seu rosto.
Assenti com a face.
Mesmo com minhas desconfianças, no fundo estava feliz por ter encontrado uma família para chamar de minha, o que me fez sentir que aquilo estava relacionado a lady . Conhecê-la tinha me dado sorte. A senhora Poppy, ou melhor, minha mãe pegou em minha mão e me levou para o segundo quarto da casa. Em suas palavras, eu precisava de um banho quente para não pegar um resfriado.
— Obrigado — disse, assim que terminei de vestir as roupas novas que tinha me dado.
— Não precisa agradecer por isso, sou sua mãe agora, meu dever é garantir que esteja sempre confortável e amado. — Ela me abraçou novamente. — Sonhei tanto com este momento, poder abraçar meu filho! Prometa que será para sempre meu anjo, querido .
— Eu prometo, mamãe — disse, num tom baixo e tímido.
Ela soltou um grito de felicidade que me fez ficar assustado.
Contudo, era reconfortante que aquela senhora, que há poucas horas desejava a morte, estava feliz por eu ter entrado em sua vida. Lá no fundo, era eu que estava agradecido por ela ter entrado em minha vida, tinha ganhado uma família e um lar, além da esperança de poder ver lady Lewis novamente. Minha família morava ao sul de Nottinghamshire, e meu novo pai era um açougueiro, o que explicava ele sempre estar cheirando a carne. Mesmo não gostando de mim e disfarçando seu desconforto por uma criança estranha chamá-lo de pai, o senhor Zachary era muito gentil comigo e estava me ensinando tudo sobre sua profissão, ofício que tinha aprendido com seu pai.
Passei dois anos aprendendo o básico com ele, até que finalmente pude acompanhá-lo aos mercados de carnes para vender as poucas peças que tinha. Aparentemente, seu ofício lhe dava mais prejuízo do que lucro, além de alguns clientes que nunca lhe pagavam ou barganhavam a carne, dando outras coisas em troca.
— Conseguiu entender? — disse ele, ao levantar a mão que estava a faca. — É assim que se corta a carne de javali.
— Por que o senhor só mata alguns machos? — perguntei, um pouco curioso.
— Dizem que os javalis estão extintos aqui na Inglaterra desde mil e setecentos e alguma coisa, porém, atualmente, basicamente sou o único açougueiro da região que ainda vende dessa carne — explicou ele. — Então, para continuar o negócio, preciso ser esperto e inteligente. Não mato as fêmeas, pois procriam, e deixo alguns machos para o acasalamento.
— Hum. — Desviei meu olhar para o animal que estava ali morto em minha frente. — E as pessoas gostam de comer javali?
— É uma das melhores carnes para se ter em um banquete. — Ele deu um suspiro de satisfação.
— Se o senhor disse que está extinto na Inglaterra, como podem existir estes? — perguntei confuso.
— Digamos que tenho um amigo sueco que me presenteou com um casal de javalis há alguns anos — respondeu ele. — Fui criando, e hoje minha pequena criação é o suficiente para vender a alguns nobres, clientes antigos.
— Hum. — Me levantei do chão e arrastei a caixa de madeira até ele. — Senhor, o que sabe sobre eles?
— Eles quem? — indagou, desviando seu olhar para mim.
— Os nobres, o que sabe sobre os obres? — repeti a pergunta.
— Ah, o pouco que conheço, posso afirmar que esses aristocratas são esnobes, arrogantes e sempre pensam ser melhores que as pessoas que não tem título. — Ele suspirou fraco. — Ah, fique longe deles, ou então pode correr o risco de parar na forca.
— Mas, senhor, pensei que seus clientes fossem amigos.
— Ah, não. Esses aristocratas metidos só nos suportam porque a burguesia é o que movimenta a economia do país, mas um simples açougueiro como eu jamais teria espaço, além do mais nobres só socializarem com nobres.
— Mas e se alguém da burguesia quisesse ser amigo de um nobre? — perguntei, de forma inocente.
Ele começou a rir de mim, como se eu tivesse feito uma piada ou algo do tipo.
— Meu filho, um burguês só consegue ser notado por nobres se for realmente bem sucedido e muito rico. — Ele respirou fundo. — Alguém como nós nem chegamos perto dos grandes comerciantes.
Permaneci em silêncio, o observando manipular a carne do javali. Nossa conversa trouxe-me algumas reflexões. De certa forma, não éramos ricos. A casa da minha nova família era um pouco humilde e pequena, nem se comparava ao castelo da família Lewis. O que me deixou triste naquele momento, ao me lembrar dela. Um sentimento de frustração e revolta começou a tomar conta de mim. Comecei a perceber que tudo naquele mundo realmente girava em torno de ter ou não ter dinheiro. Eu não tinha, menos ainda minha família, então como eu poderia ser amigo dela? Respirei fundo, engolindo seco, e tentei manter minha atenção no que estava aprendendo. Aquele javali seria entregue na Morg House, que pertencia à família Morgan.
Os dias se passaram… Cada vez mais meus pensamentos continuavam borbulhando sobre meu futuro e como poderia ver lady novamente. Logo à noite, após me recolher em meu quarto, minha mãe veio para me desejar boa noite, uma rotina que tinha criado todas as noites desde que tinha me adotado.
— Mamãe — disse, assim que ela fechou as cortinas da janela.
— Sim, querido? — Ela me olhou com suavidade.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro. — Ela caminhou até minha cama e se sentou. — O que deseja saber?
— As pessoas só respeitam aqueles que têm títulos de nobreza ou dinheiro? — perguntei, já sabendo vagamente a resposta.
— Infelizmente, sim, querido. — Ela pegou em minha mão, seu olhar era de curiosidade. — Por que a pergunta?
— Uma vez o papai disse que nobres jamais eram amigos de pessoas que não eram nobres, mas eles respeitavam os grandes comerciantes que tinham muito dinheiro — expliquei, de forma objetiva.
— Sua curiosidade tem alguma finalidade? Alguém te maltratou no mercado?
— Não — respondi, desviando meu olhar para a janela. — Hum, é sobre outra coisa.
— Que coisa? — perguntou ela. — Sou sua mãe, pode dizer.
— Uma garota me ajudou quando estava com fome — contei, quase em um sussurro. — Queria que ela fosse minha amiga.
— E ela é uma nobre? — perguntou ela, como se estivesse decifrando o real motivo de minha pergunta.
Assenti com a face.
— Querido, não fique triste, você ainda é uma criança, e a sua vida ainda não está traçada por completo — disse ela, com palavras de ânimo. — A vida de uma pessoa é como um vale cheio de relevos, altos e baixos. Se for seu destino ser amigo dessa pequena dama, tenho certeza de que nada e ninguém impedirá isso.
Ela deu um leve beijo em minha testa e se retirou, deixando a porta fechada e a vela ao lado da minha cama acesa. Deitei mais meu corpo e fiquei olhando para o teto. As palavras positivas de minha doce mãe haviam caído em meu coração como sementes férteis, e meus planos para o futuro seriam a água que regaria minhas esperanças. Minha vida ainda não estava escrita por completo, isso significava que eu não era obrigado a aceitar a vida simples que meus pais tinham, significava que eu tinha o direito de ser rico assim como os comerciantes importantes.
O sentimento de mudança estava vivo em meu coração. Se ser rico e respeitado pelos nobres significava poder ser amigo de lady …
No futuro eu seria o homem mais rico de toda a Inglaterra.
"Você é linda, eu sonhei com você,
Eu me apaixonei por você,
mesmo antes de saber seu nome."
— Destiny / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)
5. My Answer
Londres — Primavera de 1847
•Duas semanas se passaram desde o nosso casamento.
Eu estava tentando me adaptar à rotina agitada que Londres me proporcionava, mas especificamente estava tentando me adaptar aos passeios constantes pela cidade, que a senhora Poppy me convencia a realizar em sua companhia. Mesmo sendo gentil e atenciosa comigo, ainda me sentia um pouco desconfortável com suas perguntas e curiosidades sobre minha vida íntima com seu filho.
Naquela manhã da primeira semana de maio, o sol estava formoso e convidativo a um breve passeio. Logo após me vestir, com a ajuda de Sophie, a acompanhante que o senhor Winchester tinha contratado para que eu não ficasse tanto tempo sozinha em casa, tomei meu desjejum no jardim juntamente a ela. havia partido cedo para o porto, afinal, não podia deixar seus negócios sem supervisão. Sophie era uma amiga de infância de minha prima, Emilly. Ambas cresceram juntas onde meu tio ainda mora, ao leste do condado de Northamptonshire, porém, naquele momento, a família de Sophie estava desamparada após a morte de seu pai. Ela e sua mãe haviam perdido todo o patrimônio para um parente distante. Um dos problemas de não se nascer um homem, nossa sociedade em alguns momentos era cruel com as mulheres.
Eu havia me sensibilizado com isso, quando Emilly me contou em sua breve visita, há três dias, então, ao saber que planejava contratar alguém para ser minha acompanhante, sugeri uma pessoa que eu conhecia e poderia, em parte, confiar. Sophie era discreta e muito educada, silenciosa quando necessário, o que era um ponto positivo em sua contratação, além de poder ajudá-la de alguma forma, principalmente consentindo em sua mãe morar conosco, nos aposentos dos criados.
— Espero que sua mãe esteja confortável em seu quarto — disse, mantendo meu olhar na fonte ao nosso lado.
— Ah, sim, milady. Estamos muito bem instaladas e lhe sou muito grata por ter me contratado e acolhido minha mãe em vossa casa também — agradeceu ela, com um olhar esperançoso.
— Fico feliz em ajudar uma amiga de minha prima. — Sorri com gentileza.
Passamos um longo tempo em silêncio, dava para se ouvir até mesmo os pássaros nas árvores.
— Milady, seria refrescante um passeio pelas ruas de Londres hoje — sugeriu ela, ao terminar de tomar seu chá.
— Sim. — Concordei, me levantando da cadeira. — Uma boa ideia. Estou admirada de minha sogra não ter aparecido ainda para me convidar.
— A senhora Poppy é muito divertida em seus passeios — comentou ela, disfarçando o riso, se levantando da cadeira.
— Ela é espontânea a todo momento. — Dei alguns passos em direção à porta de entrada da sala.
Sophie me acompanhou até a sala, eu a deixei por um instante e subi para meu quarto, precisava pegar minha bolsa. Assim que saímos, o cocheiro já estava com a carruagem preparada, nos esperando próximo à entrada da mansão. Entramos sem muita demora e seguimos em direção ao centro comercial de Londres. Não demorou muito para que avistasse um rosto conhecido caminhando pelas ruas. Pedi para que o cocheiro parasse e desci da carruagem. Sophie me acompanhou e, juntas, atravessamos a rua até que cheguei de surpresa atrás de minha querida irmã Margareth, que olhava para a vitrine com seus olhos brilhando.
— Aposto que está pensando em comprar — disse em seu ouvido, como uma forma de assustá-la.
— AH. — Ela se virou para mim, surpresa. — !!!
— Estava mesmo concentrada. — Eu ri de leve.
— Sim. — Assentiu ela, respirando fundo. — Que saudade.
Nos abraçamos por alguns segundos, então voltei-me para minha acompanhante.
— Margareth, acho que se lembra da Sophie — disse, desviando meu olhar para minha irmã novamente. — Uma amiga de infância de Emily.
— Hum, acho que me lembro, sim. — Margareth vez uma breve reverência. — Como está?
— Já estive um pouco melhor — respondeu Sophie, meio tímida. — Mas graças à lady Winchester, não estou tão mal assim.
— Oh, soube que perdeu seu pai, lamento por isso. — Margareth desviou seu olhar para mim. — Mas, mudando de assunto, adivinha quem está animada para passar uma temporada em Londres?!
— Hum. — Fingi estar pensando. — Para ser honesta, estou curiosa para saber o que fazes em Londres.
— Inicialmente, eu não viria, mas quando soube que minha mãe e Freya viriam, não me contive em desejar vir — explicou minha irmã caçula.
— O que vossa mãe e Freya estariam querendo em Londres? Lady Evelyn nunca gostou desta cidade — comentei, direcionando meu corpo para frente e começando a caminhar.
— Ah, ambas começaram a ficar cheias de segredos entre si. — Margareth apoiou sua mão em meu braço, ficando ao meu lado. — Isto está acontecendo desde que o papai veio te visitar.
Enquanto caminhávamos na frente, conversando, Sophie continuou nos seguindo, atrás de nós, em uma certa distância, respeitando nossa privacidade.
— Eu ainda tenho curiosidades sobre isso — afirmei. — Ele disse que estava preocupado. Queria saber se estava confortável em minha nova casa.
— Nem sabe mentir. — Margareth riu baixo. — Casou-se com o homem mais rico de Londres, desde quando não estaria confortável em vossa nova casa?
— Hum. — Desta vez, eu tinha que concordar. — Margareth, onde estão hospedados aqui?
— Estamos hospedados na casa de lorde Wood — respondeu ela, demonstrando um pouco de tédio. — Mas não posso afirmar que seja um bom lugar para se ficar, principalmente por sua adorável esposa.
— Ele é um grande amigo do papai — disse, mantendo meu olhar para frente. — Mas vós poderíeis ficar na minha casa.
— Sério?! — Uma ponta de esperança surgiu em seus olhos.
— Sim. — Assentiu com um sorriso. — Temos tantos quartos. Além do mais, vou ficar muito feliz em receber minha irmã.
— Mas e o senhor Winchester? — indagou. — Achas mesmo que seu marido vai gostar da ideia? Ainda estão em lua de mel.
— Ah. — Deu um suspiro fraco. — Não estamos em lua de mel. Para ser sincera, nem sei se teremos. Só o vejo à noite e vagamente pela manhã.
— Hum. — Ela me olhou. — Isso é triste. Não imaginava que os burgueses trabalhavam tanto assim. Nem mesmo almoçam juntos?
— Os primeiros dois dias, sim — sibilei um pouco. — Acho que houve um problema no porto, e ele está resolvendo isso há semanas.
De um simples passeio com minha acompanhante, minha caminhada se estendeu muito com a presença de minha irmã, tanto que até nos esquecemos da hora do almoço. Para nossa surpresa, encontramos minha madrasta, Evelyn, e nossa irmã, Freya, saindo de uma perfumaria com algumas sacolas. Fiquei um pouco intrigada e curiosa, já que papai estava em uma péssima situação financeira.
— Boa tarde, lady Evelyn — disse, ao nos aproximarmos delas. — Boa tarde, Freya.
— Olá, mamãe. Olá, Freya — disse Margareth, permanecendo ao meu lado.
— Boa tarde. — Freya não demonstrou satisfação em nos encontrar.
— Boa tarde, senhora Winchester. — Evelyn me olhou de cima para baixo, permanecendo seu olhar um pouco mais no colar de pérolas negras que estava em meu pescoço. — Margareth, não disse que iria ficar na casa do lorde Wood até retornarmos?
— Fiquei entediada — respondeu Margareth. — Mas estou feliz, pois encontrei no caminho.
— E como vai o casamento, minha querida enteada?! — Evelyn manteve seu olhar disfarçado em meu colar. — Está conseguindo sobreviver aos costumes dos burgueses?
— Meu casamento vai muito bem, afinal, os burgueses são tão normais quanto nós da nobreza — respondi a ela, deixando minha voz permanecer suave. — Hum, acho que em uma coisa eles são diferentes.
— Em quê? — Evelyn subiu seu olhar para meu rosto.
— Eles conseguem ser sinceros a todo momento, mesmo sendo julgados por isso — expliquei, de forma direta.
Claro que, tanto ela, quanto Freya, tinham pegado minha indireta, ambas conseguiam ser mais falsas que a cobra que enganou Eva no paraíso. Ainda não entendia como meu pai tinha se casado com aquela mulher após a morte de minha mãe, menos ainda como Margareth, tão gentil e legal, poderia ser filha dela. Desviei meu olhar para Freya por um instante e notei que no canto do seu rosto havia um disfarçado sorriso de deboche, o que me deixava um pouco irritada. Desde criança, Freya sempre era assim comigo, invejava tudo que eu tinha e tentava pegar para ela.
Passei minha mão de leve em meu colar e devolvi o seu deboche com um sorriso gentil.
— Já que nos encontramos aqui, gostariam de tomar um chá em minha casa? — perguntei, de forma natural e espontânea.
— Agradecemos, mas… — iniciou Evelyn.
— Oh, por favor, não aceito recusa — intervi, de forma suave. — Ambas ainda me devem uma visita.
Minha madrasta assentiu com a face.
— Vamos então — disse, me virando para trás. — Ah, acho que já conhecem Sophie, ela é minha acompanhante agora.
— Boa tarde, milady Evelyn. Senhorita Freya — cumprimentou Sophie.
Segurei um pouco meu riso, enquanto caminhavam pelas ruas. Logo avistei minha carruagem, nós quatro entramos e nos sentamos, Margareth ficando ao meu lado, enquanto isso, Sophie iria na frente, junto ao cocheiro. Assim que chegamos, Lee nos recebeu na porta. Pedi para Isla preparar a mesa do chá no jardim, enquanto isso, nos reunimos na sala de visitas. Era visível os olhares admirados de Evelyn para os muitos quadros que estavam nas paredes da mansão, além de algumas esculturas que já havíamos visto em casas de alguns aristocratas de renome. Ficamos sentadas conversando um pouco, ou melhor, Margareth era quem mais falava, contando sobre sua experiência ao explorar a pequena biblioteca da casa de lorde Wood.
Assim que Isla deu-me o sinal de que tudo estava pronto, guiei minhas convidadas até meu lindo jardim, as deixando ainda mais encantadas com minha nova casa. Nos sentamos ao lado da fonte, nosso chá seria acompanhado por deliciosos crumpets com geleias, queijos e compotas.
— Nossa — disse Margareth. — Isso é porcelana francesa?
— Não. — Segurei um pouco o riso e expliquei. — É porcelana chinesa, as cores são mais vibrantes.
— São muito bonitas — elogiou Freya. Por seu tom de voz, parecia estar engolindo sua inveja junto ao chá que tomava.
— Sim, foi um presente de casamento de um nobre chinês, acho que foi do sobrinho do imperador. — Continuei, de forma espontânea.
— Nossa, então são verdadeiros os boatos de que o senhor Winchester tem muitos amigos orientais — comentou Evelyn.
— Segundo minha sogra, sim. — Assenti sem medo. — Isso é bom, principalmente para os negócios.
Degustamos do nosso chá com paradas para breves comentários sobre meu jardim e a decoração da casa, até que Isla se aproximou de mim discretamente.
— Milady, o senhor Winchester retornou — disse, quase em sussurro.
Logo que assenti com a face, desviei meu olhar para minha madrasta, e ela estava olhando para trás de mim. Meu coração pulsou um pouco mais forte, de certo era meu marido que estava em seu campo de visão. Virei minha face para trás, e lá estava , com seu olhar intenso e fixo em mim.
— Senhoras, me deem licença. — Eu me levantei.
Fiz uma breve reverência para elas e me afastei, indo em direção a , que já havia entrado novamente para a mansão. Ao chegar à porta, respirei fundo. Era estranho meu coração estar daquela forma só por eu tê-lo visto, mas era um estranho bom.
— — disse, após adentrar a sala de visitas.
Ele, que estava de costas, se virou e estendeu sua mão para mim. Dei mais alguns passos até ele e segurei em sua mão. deu mais um passo, se aproximando ainda mais de mim, pousando minha mão em seu coração. De leve, acariciou minha face e, aproximando seu rosto do meu, nossos lábios se tocaram em um beijo intenso e aquecedor.
“Você é o meu tudo, eu tenho certeza,
Eu serei mais cuidadoso e te protegerei,
Então o seu coração nunca será machucado,
Eu nunca me senti assim antes,
Como se minha respiração fosse parar.”
— My Answer / EXO
6. Fallin in Love
Londres — Primavera de 1847
•Seu beijo estava tão doce que comecei a cogitar a ideia de não voltar para a mesa de chá, porém tinha que terminar o que havia começado, principalmente por causa de minha não tão querida madrasta.
— Estarei no escritório — disse ele, em sussurro, ao se afastar de mim. — Tenha um bom chá.
Eu sorri de leve em agradecimento e, após uma breve reverência, voltei para o jardim. Minhas convidadas estavam falando sobre enxovais de casamento. Freya fez questão de contar-me a novidade sobre seu possível noivado e casamento com um nobre, o que tinha me deixado curiosa em saber o nome do pretendente.
— Assim não vale — disse Margareth. — Conta-nos a novidade, porém, pela metade.
— Concordo com a Margareth, também estou curiosa para saber — disse, rindo de leve.
— Bem, esta informação somente será revelada em nosso jantar de noivado — explicou Freya, num tom de satisfação. — E tenho certeza de que ambas irão se surpreender.
— Esperarei ansiosa por meu convite oficial — retruquei, um pouco pensativa sobre quem poderia ser o “sortudo”.
— Vós e o senhor Winchester serão os primeiros da lista — confirmou Evelyn, dando um sorriso de superioridade.
— Agradeço a consideração. — Fiz uma breve reverência com a face e desviei meu olhar para Margareth. — Ah, Marg, disse para elas que ficará aqui em minha casa?!
— Oh, ainda não. — Margareth pegou em sua xícara. — Estava para contar sobre isso assim que retornasse.
— Margareth aqui?! — A face de Evelyn ficou mais séria.
— Sim, eu a convidei hoje mais cedo — confirmei. — Algum problema?
— Nenhum, porém… — Freya desviou seu olhar para o lado.
— Porém?! — insisti.
— Não acha que nossa irmã aqui atrapalha a vossa lua de mel?! — Freya terminou a frase.
— Bem, minha lua de mel foi adiada temporariamente — respondi, não demonstrando estar abatida por sua pergunta. — Meu marido tem estado ocupado com os negócios.
— Ah, burgueses e seus deveres. — Evelyn riu de leve do próprio comentário. — É uma pena, minha querida, que tenha se casado com alguém tão diferente de nós.
— Eu não acho — retruquei com segurança. — Pelo contrário, estou imensamente satisfeita com a minha escolha.
— Vossa escolha? — Freya riu. — Sabemos o real motivo de vosso casamento, a dívida do papai.
— Freya está correta — confirmou Evelyn.
— Não exatamente. Claro que existia, sim, uma dívida, mas nosso pai nunca me obrigou a dizer sim perante o padre, então a escolha foi minha. — Soltei um suspiro de satisfação. — E jamais farei uma escolha tão certa em toda a minha vida quanto a que fiz ao casar-me com o senhor Winchester.
Meu coração acelerou um pouco e senti que minhas palavras eram reais e verdadeiras. Eu não estava arrependida de ter me casado com , melhor ainda, eu ansiava conhecê-lo ainda mais do que já o conhecia. Minhas palavras tiveram um grande efeito sobre o sorriso de deboche, que se apagou na face de ambas.
— Bem, estou imensamente feliz por terem aceitado meu convite — disse, me levantando da cadeira. — Porém, agora irei me recolher. Isla irá acompanhá-las até a porta, e, Margareth, mandarei que busquem vossas coisas na casa do lorde Wood.
Eu fiz uma breve reverência a elas e segui em direção à mansão.
Ao passar por Isla, dei minhas ordens e pedi para que um dos cocheiros levasse minha madrasta e Freya para a casa de lord Wood e aproveitasse para pegar as bagagens de Margareth. Segui, indo diretamente ao escritório onde estava. Dei alguns toques na porta antes de entrar.
— . — Entrei, fechando a porta. — Estás ocupado?
— Não. — Ele fechou o livro que estava em suas mãos e manteve seu olhar em mim. — Desejas algo, minha senhora?
— Desejo saber se está tudo bem. Como foi o vosso dia?! — Continuei dando mais alguns passos até sua mesa.
Ele sorriu de canto disfarçadamente e se levantou de sua poltrona, se mantendo em silêncio e com o olhar fixado em mim. era de poucas palavras, o que me deixava intrigada pelo fato de ser filho de burgueses. Por mais que lhe perguntasse coisas sobre seu dia ou sobre sua infância, ele respondia da forma mais breve e direta possível.
— Está tudo bem. — Assentiu ele.
Silencioso e observador, eram as maiores e mais marcantes características dele, o que me deixava irritada. Sua voz grossa e marcante havia me deixado um tanto fascinada, principalmente quando sussurrava em meu ouvido. Mais dois passos até ele, tentava desviar um pouco meu olhar dele, ainda não conseguia confrontar toda a intensidade do seu olhar em mim.
— Eu… — Precisava dizer sobre meu convite a minha irmã. — Convidei Margareth para passar alguns dias em nossa casa, enquanto está em Londres.
Levantei meu olhar. Eu já havia percebido que ele não gostava muito de visitas inesperadas, a senhora Poppy era uma prova disso — suas aparições para o almoço ou jantar faziam atiçar os olhares de reprovação de .
— A casa é vossa, tens a permissão de convidar quem quiser. — Assentiu ele.
— Não quero deixá-lo desconfortável em vossa própria… — Ele tocou em meus lábios com seu dedo indicador.
— Só há um momento em que me sinto desconfortável. — Ele desceu sua mão até minha cintura, me deixando ainda mais próxima a ele. — Quando não está ao alcance dos meus olhos, ou longe o bastante para que eu não possa tocá-la.
Ele encostou seus lábios em minha testa por alguns instantes, até que enfim meu coração se acelerou um pouco com o gosto doce do seu beijo, suave no início e se intensificando ainda mais a cada segundo. Minhas pernas sempre bambeavam quando sentia suas mãos segurando em minha cintura, assim como meus sentimentos por ele estavam pouco a pouco crescendo e se fortalecendo. Eu já poderia admitir que estava apaixonada pelo meu marido.
— … — sussurrei, me afastando um pouco. — Quem é você?
— Por que a pergunta?! — Ele me olhou confuso. — Sou o vosso marido.
— És bem mais que isso. — Suspirei de leve. — Como pode saber tudo sobre mim, e eu não saber nem a metade sobre vós?!
Ele sorriu de canto, mantendo seu olhar em mim.
— Um dia saberá. — Ele segurou em minha mão e deu um leve beijo.
Assenti com um sorriso.
Não estava muito conformada, porém tinha esperanças de obter todas as respostas dele, mesmo que superficiais e sem nenhum tipo de detalhe. Permanecemos no escritório por um longo tempo, ele, sentado em sua mesa, concentrado nos documentos de seus negócios, e eu, sentada na chaise, lendo o livro de poesias que ele estava lendo quando entrei. Foi um pouco engraçado o ver tentando concentrar sua atenção nos papéis, pois seus olhos sempre vinham em minha direção. Mantive meu riso disfarçado, porém, sempre que o via me olhando, não conseguia deixar de sorrir para ele antes de desviar meu olhar e voltar à minha leitura.
— Senhor Winchester?! — disse Lee, ao bater à porta.
— Entre — respondeu .
— Senhor, milady. — Lee caminhou até ele e disse algo em sussurro.
Se afastando um pouco, fez uma breve reverência com a face para mim e saiu.
— Algum problema? — perguntei.
— Não. — se levantou e caminhou até mim, esticando sua mão. — Venha, o jantar nos aguarda.
Assenti com a face e segurei em sua mão, assim seguimos em direção à sala. Sophie e Margareth estavam sentadas no sofá, nos aguardando. Seus olhares para mim pareciam curiosos e cheios de perguntas sobre o que possivelmente eu estaria fazendo no escritório com o senhor meu marido. Nos sentamos à mesa e fomos servidos pelos valetes. Para minha surpresa, nosso jantar foi um pouco silencioso, acho que Margareth estava com um pouco de vergonha de , entretanto, mesmo que suas palavras não saíssem, seus olhares para mim diziam tudo. Após o jantar, permanecemos mais algum tempo na sala de visitas, e Margareth me fez tocar a canção da noite que meu pai tinha me ensinado quando criança.
Aquela foi a primeira vez que toquei na presença de .
— Ele é bem silencioso, — comentou Margareth, assim que entramos no quarto que Isla e uma das criadas havia preparado para ela.
— Sim. — Assenti, permanecendo na porta. — Acho que já estou me adaptando a isso. Em alguns momentos, sinto que seu olhar pode dizer mais do que mil palavras.
— Hum. — Ela sorriu de leve. — Seus olhos estão brilhando.
— Estão? — perguntei surpresa.
— Está gostando dele, não está? — indagou Margareth, se sentando na cama.
— Sinto que sim. A cada dia consigo gostar ainda mais de estar ao vosso lado. Será que posso considerar estar apaixonada por meu marido?
— Claro que sim. — Margareth riu de leve. — A maneira como o defendeu dos comentários da minha mãe e Freya hoje no chá já é o suficiente para perceber que está se apaixonando por ele.
— Ah. — Dei um suspiro forte. — Vou me recolher agora. Desejo-lhe uma noite confortável.
— Neste quarto maravilhoso?! Minha noite será encantadora — brincou ela, tombando seu corpo sobre a cama.
— Boa noite, Marg — disse, abrindo a porta.
— Boa noite, ! — Ela sorriu de leve.
Eu pisquei de leve para ela antes de fechar a porta do quarto. Assim que entrei em meu quarto, a criada já estava me esperando. Ela me ajudou a me banhar e colocar minha camisola nova de linho egípcio, um presente da senhora Poppy. Segundo ela, uma senhora casada não deveria repetir suas roupas íntimas nos primeiros meses do matrimônio.
— Agradeço, pode ir agora — disse a criada.
— Com sua licença, milady. — Ao se retirar.
Eu me coloquei em frente ao espelho e comecei a pentear meus cabelos com a escova. Por um momento, fiquei um pouco distraída e perdida em meus pensamentos. Estava pensando na notícia do noivado de Freya. Inegável minha curiosidade em saber quem seria o corajoso a se casar com a pessoa mais materialista que eu conhecia. Em meio a muitos pensamentos desnecessários, senti de repente um longo arrepio em meu corpo, proveniente de um beijo que tinha dado em meu pescoço. Toda minha atenção se voltou para ele de imediato, meus olhos direcionados para seu reflexo no espelho.
Respirei fundo, tentando manter meu coração calmo. Virei-me para ele.
— Pensei que demoraria mais — disse, com minha voz meio falha. — Sua conversa com Lee parecia séria e importante.
— Hum. — Ele acariciou minha face suavemente.
— Posso saber sobre o que conversavam? — perguntei, mordendo meu lábio inferior.
— Estava confirmando minhas ordens sobre… — Ele parou por um momento, seu olhar suavizou um pouco.
— Sobre?!
— Aprontarem minha casa em Paris. — Finalizou ele.
— Vais viajar para Paris?!
— Não. — Ele segurou em minha cintura, acho que já tinha descoberto meu ponto fraco. — Nós vamos a Paris, em lua de mel.
— Paris?! — sussurrei, sentindo meu coração acelerar um pouco.
— Perdoe-me por adiar tanto — disse ele, sorrindo de leve.
— Não há o que perdoar, sei que possui muitos compromissos. — Desviei meu olhar para o chão.
— Sim, tenho. — Ele tocou em meu queixo, erguendo minha face e me fazendo olhar para ele. — Contudo, a senhora é o mais importante que todos.
Me senti um pouco sem ar com aquela declaração. Senti sua aproximação e logo fechei meus olhos. Instantes depois, seus lábios já estavam tocando os meus. Era como se toda a intensidade que ele tinha em seu olhar se transferisse para seus beijos maliciosos e, ao mesmo tempo, doces, que faziam meu corpo se aquecer de forma incontrolável. O toque de seus dedos em minhas costas fazia meu corpo se arrepiar, e quando ele alisava todas as linhas das minhas cicatrizes, eu perdia até mesmo os sentidos. Todos os músculos do meu corpo se moviam em sincronia com os dele, principalmente minha respiração, que, a cada beijo, parecia ainda mais ofegante.
— Perguntou-me quem eu era — disse ele, assim que nossos corpos tocaram os lençóis de seda da cama.
— Sim. — Assenti, o olhando nos olhos.
Ele aproximou seus lábios do meu ouvido e sussurrou.
— Permita-me mostrá-la quem sou eu.
Senti meu corpo se arrepiar por inteiro. Eu queria, sim, saber quem realmente era e porque eu tinha me apaixonado tão rápido por ele. Por que meu coração acelerava simplesmente ao ouvir sua voz, por que minhas pernas ficavam bambas com o toque de suas mãos, por que de forma tão intensa meu corpo reagia ao amor dele sem nenhuma resistência.
"Estou apaixonada por você, eu devo ter perdido a cabeça,
No momento em que as pontas dos seus dedos tocaram meu corpo,
[...]
Meu coração,
Está batendo tão rápido."
— Falling In Love / 2NE1
7. Destination
Nottinghamshire — Inverno de 1837
•Havia passado alguns anos e recentemente nossa casa havia recebido mais um hóspede. Aidan era sobrinho dos meus pais e devido a uma fatalidade acontecida com seus pais, que vieram a falecer em um desastre, sua única opção além de um orfanato foi morar em nossa casa. Ele era um pouco mais novo que eu, porém nem sua pouca idade impediu meu pai de lhe ensinar o ofício da família. Claro que eu seria responsável por Aidan.
— Estou com fome — disse aquela pequena criança pela quinta vez, ao se sentar no chão.
— Não podemos comer agora. — Abaixei a faca que estava em minha mão e o olhei, precisava manter a paciência com ele. — Ainda estamos trabalhando, meu pai deixou tudo isso para fazermos.
— Mas estou com fome. — Suspirou fraco, me olhando como um cachorro abandonado.
— Hum, tudo bem, pode ir comer, eu termino de fazer isso. — Assenti, voltando meu olhar para os cortes do porco que estavam em minha frente.
— Obrigado, . — Ele se levantou mais que depressa e saiu correndo em direção à casa.
Respirei fundo e voltei ao trabalho.
A parte boa de finalmente aprender todos os segredos daquele ofício foi aprender também o básico sobre negócios, o que me levou a perceber que meu pai era um tanto ruim neste quesito. Além de não anotar todas as dívidas dos seus clientes, ele também não sabia negociar e nem cobrar o que lhe deviam, e o resultado era a nossa vida precária e miserável. Eu sentia lá no fundo que deveria fazer algo a respeito, mas não sabia o que, ninguém daria ouvidos a uma criança. Mesmo assim, já estava determinado a mudar meu destino. Uma vida de pobreza não estava nos meus planos para o futuro, principalmente por causa do meu propósito inicial, que era me aproximar da lady Lewis. Continuei meu trabalho em silêncio, fazendo minha mente funcionar constantemente, arquitetando soluções.
A primeira delas veio juntamente a um brilho no olhar.
Mesmo que inicialmente meu pai não quisesse seguir, eu estava decidido a insistir, então, assim que terminei de colocar todos os cortes dos porcos em seus lugares para conservar, corri para casa para compartilhar a ideia com minha mãe.
— Oh, anjo, pensei que não viria comer também. — Minha mãe me olhou com aquele doce sorriso em seu rosto, que sempre me fazia sentir acolhido.
— Estava terminando meus afazeres, mas confesso que estou mesmo com fome. — Desviei meu olhar para o chão, colocando a mão na barriga, a sentindo fazer alguns barulhos estranhos.
— Ah, estou percebendo. Você se dedica muito a este ofício, estou orgulhosa que esteja ajudando seu pai. — Ela manteve aquele sorriso no rosto. — Agora lave as mãos e venha comer.
Assenti e corri até o balde com água que estava em cima de uma cadeira ao lado da porta, lavei minhas mãos rapidamente e voltei para a mesa.
— Estaríamos muito melhor se o papai conseguisse receber dos seus clientes — comentei.
— O que está falando de mim?! — Logo sua voz soou, vindo da porta. Assim como eu, sua roupa estava suja de sangue.
— Nosso filho só está falando a verdade. — Consentiu minha mãe. — Os clientes do açougue são nobres, deveriam pagar pelo que compram.
— Não devemos reclamar… — Ele suspirou com um ar de cansado. Sua face parecia mesmo cansada, ele estava trabalhando nas entregas desde a primeira hora do dia. — Temos clientes e isso já é uma benção.
— Clientes que não pagam, e, quando fazem, são somente restos de seus castelos. — Mantive meu olhar para o prato, me sentindo frustrado.
— E o que sabe sobre isso? Ainda é uma criança. — Ele levantou seu tom de voz. — Acha que consegue fazer melhor que eu?
— Não, senhor — sussurrei.
— Deixemos de discutir, a hora do almoço é sagrada, então vamos nos sentar e agradecer a Deus pelo que temos. — Minha mãe se sentou na cadeira ao meu lado. — Tenho certeza de que mesmo sendo uma criança, quer fazer o melhor pela nossa família, isso me deixa ainda mais feliz.
Dei um sorriso fraco. Por dentro, me sentia incapaz de tudo por ser uma criança. Queria ser um adulto e poder resolver tudo no lugar deles. Para mim, aquele almoço foi amargo, ainda mais por todos os defeitos que meu pai ainda apontava em tudo que eu fazia. Talvez ele estivesse chateado por minha reclamação, mas eu estava certo, não seríamos pobres se ele fosse um bom comerciante. Passei o resto do dia pensando sobre como eu poderia ajudar minha família e minha única solução foi a mais perigosa.
Eu fugiria de casa.
Sem o menor remorso, eu teria que aprender longe de casa. Precisava crescer não somente fisicamente, mas também mentalmente, e não conseguiria fazer isso perto da minha família. Meu pai era um bom homem, mas tinha medo da nobreza. Eu não conseguiria aprender o que era ser respeitado ou temido com ele, precisava aprender com alguém que não tinha receio nenhum de enfrentar aqueles nobres. Eu precisava me tornar um homem forte e respeitado. No meio da madrugada, me levantei da cama, já havia deixado uma trouxa de tecido com alguns suprimentos escondida debaixo da minha cama e respirei fundo ao pegá-la, tentando não fazer muito barulho. Não queria acordar ninguém, pois daria uma enorme confusão.
— ?! — disse Aidan, se remexendo na cama. — Aonde está indo?!
— Na cozinha, pegar um pouco de água — sussurrei, ao olhar para ele. — Volte a dormir.
O cobri mais um pouco e me afastei de sua cama. Olhei novamente para minha cama, fixando meu olhar no pequeno bilhete. Meu coração estava apertado, pois a segunda pessoa que mais amava choraria com meus atos. Minha mãe ficaria triste sem seu anjo, mas faria isso por ela também. De alguma forma, beneficiaria a minha família. Respirei fundo pela última vez, deixando aquele quarto, aquela casa, aquela família. Eu voltaria, porém não como uma criança, mas como um homem de respeito.
Segui pela estrada secundária do condado, até que avistei algumas tropas da nobreza e me escondi no meio dos grandes arbustos. Já havia ouvido sobre a visita de um grão-duque ao condado de Nottinghamshire, primo de terceiro grau do príncipe, que vagamente se lembravam que estava na linha de sucessão, mas com um título de nobreza tão alto, já era o bastante para ser bajulado por toda a população.
— Odeio os aristocratas — sussurrei, vigiando a passagem das tropas.
Todos com sua impecável postura de cavaleiros da realeza, com o brasão britânico serigrafado em suas armaduras e o estandarte logo à frente, guiando os demais. Tive que continuar meu caminho pelos arbustos, pois a comitiva parecia grande. Aproveitei aquele momento para comer uma das frutas que estavam na trouxa, além de descansar também. Demorou vários dias, até que consegui chegar a Nottingham, considerado o centro administrativo do condado. Para mim, aquela cidade poderia representar uma oportunidade. Comecei aproveitando a estadia do tal nobre, para oferecer meus serviços a um mercador que precisava de mais funcionários. Apesar de ser uma criança, mostrei a ele o quanto poderia ser útil no esforço físico. Aproveitando, observaria como seu comércio funcionava e como ele comercializava seus produtos diante da nobreza. Aquele homem era um mercador de peles de animais, era conhecido como Jones das peles, e parecia ser muito famoso entre os outros comerciantes, principalmente alfaiates e costureiras.
Segundo o senhor Jones, suas peles eram as mais raras que as pessoas encontrariam, o que fazia seus produtos ficarem mais caros, já que todos procuravam. Esta foi a primeira coisa que aprendi longe de casa, um comerciante deve sempre valorizar seus produtos e fazê-los serem mais raros e preciosos aos olhos dos clientes. Isso me lembrava das criações de javali que meu pai tinha, eram raras e ele não as valorizava, já que estavam extintas em nosso país.
— Ei, garoto, vais ficar parado aí? — gritou o senhor Jones. — Se apresse e coloque as peles no baú.
— Sim, senhor. — Corri até a carroça onde estavam as peles, peguei as duas que o homem tinha comprado e levei até onde estava o baú, em sua carruagem.
Passei toda aquela temporada aprendendo sobre peles com o senhor Jones e principalmente como conservá-las. Aprendi também algumas coisas sobre como negociar com os clientes, aquilo havia me deixado maravilhado. Continuei trabalhando com ele durante alguns anos, indo de condado em condado, até que chegamos à grande capital, Londres. Meus olhos brilharam com todas aquelas construções monumentais e luxuosas. Fiquei ainda mais tentado a passar algum tempo naquele lugar para aprender um pouco mais como aquela desigual sociedade funcionava. Foi neste momento que comecei a trabalhar na mais famosa padaria da cidade.
— Tem certeza de que conseguirá fazer todas estas tarefas ao dia? — perguntou novamente a senhora Hill.
— Sim, senhora. Eu consigo fazer muitas tarefas ao mesmo tempo, tenho muito conhecimento em conservar mercadorias. — Assenti, me encolhendo um pouco.
A senhora Hill era uma mulher robusta e suas expressões faciais eram de causar medo. Mulheres independentes como ela eram consideradas pela sociedade má influência às damas da nobreza, porém, mesmo assim, todos faziam diversas encomendas à sua padaria. O segredo do seu sucesso eram os famosos pães de mel, que faziam toda a cidade reverenciar e aplaudir aquela padaria. E tinha que admitir que eram realmente gostosos, principalmente por serem feitos com puro mel de abelha das colmeias que ela cultivava no jardim, nos fundos da padaria.
— Você já trabalhou em açougue e com mercador de peles. Sabe que o tipo de alimento que eu produzo não é algo para se conservar. — Ela se levantou de sua cadeira, com aquele olhar sério que fazia minha espinha tremer. — Todos os pães, bolos, croissants, biscoitos que existem nessa padaria são feitos e vendidos diariamente, não guardamos nada.
— Então, o que a senhora faz com o que sobra? — perguntei confuso.
— Vendemos para um senhor, para alimentar seus porcos — respondeu, com um leve ar de superioridade, como se estivesse fazendo um bom negócio.
— Mesmo assim, senhora, tenho certeza de que conseguirei fazer todas estas tarefas — afirmei, com confiança.
— Muito bem, lhe darei uma chance. Se falhar no primeiro dia, te enxotarei daqui. — Assegurou ela, com aquele tom intimidador.
Assenti, pensando se aquilo era um bom negócio, pois havia visto alguns pães dormidos semelhantes aos da sua padaria sendo vendidos mais barato, o que me levou a acreditar que não eram porcos que comiam. Felizmente, consegui sobreviver ao primeiro mês, tinha certeza de que minha motivação estava nas duas pessoas que mais amava na vida, minha mãe e lady . A cada amanhecer, eu mantinha meus pensamentos nela para aguentar mais um dia.
— , já limpou toda a área pública da padaria? — perguntou Oliver, ao se aproximar de mim. Ele era o filho único da senhora Hill, que apesar desse grau de parentesco, era tratado da mesma forma que os demais funcionários pela mãe.
— Sim, é o primeiro lugar que eu limpo. Sei que a padaria abre para o público na primeira hora da manhã. — Confirmei minha tarefa inicial do dia, que me fazia acordar de madrugada. — Precisa de mais algo?
— Sim, que limpe o escritório. A senhora Hill receberá um cliente especial — pediu ele, dando demonstrações de estar cansado.
— Está tudo bem, senhor?! — perguntei preocupado.
— Não muito. Estamos com problemas de sobra, como se as pessoas estivessem parando de comprar em nossa padaria — explicou ele.
— Acho que sei a causa. — Eu estava guardando aquilo para mim, pois a senhora Hill jamais daria ouvidos a um subalterno como eu, mas seu filho talvez… — Eu acabei presenciando uma cena bastante curiosa, já vem acontecendo desde que comecei a trabalhar aqui.
— O que seria?! — Ele parecia curioso por minha informação.
Contei a ele sobre as vendas de produtos semelhantes aos da padaria. Oliver, por incrível que pareça, acreditou em mim de imediato e pediu para que eu comprasse um desses produtos para servir de prova. Eu o ajudaria a convencer sua mãe a acreditar e experimentar uma ideia que ele havia tido tempos atrás e, em troca, ele me daria uma recompensa além do salário que eu ganhava ao trabalhar lá. Assim que apresentamos a prova à senhora Hill e Oliver propôs novamente a solução de reutilizar as sobras como outros produtos, ela ficou um tempo em silêncio olhando para aqueles pães dormidos.
— Você acha que minha padaria deveria fazer isso? Somos seletos em nossos pães e derivados, como poderíamos vender algo passado? — Ela parecia confusa e furiosa ao mesmo tempo.
— Senhora, tenho certeza de que dará certo. Pelo menos da forma que desejo fazer — argumentou seu filho. — Dê-me esta chance que eu lhe mostrarei resultados positivos.
— O que este funcionário está fazendo aqui?
— Ele está me ajudando, senhora. Foi ele quem me contou sobre as vendas falsas — explicou Oliver.
— Darei somente uma oportunidade. Se falharem, já conhecem o caminho da porta — anunciou ela.
Um frio gelado passou por meu corpo.
A senhora Hill teria mesmo coragem de expulsar o próprio filho?!
Foi trabalhoso para Oliver conseguir colocar em prática suas ideias, porém, após cinco noites em claro de testes e mais testes, conseguimos chegar ao resultado esperado. Ele havia finalmente provado para sua mãe que seria o melhor padeiro de Londres, e eu, finalmente tinha aprendido todo o ofício deles, além de como funcionava a cozinha de uma padaria, o que resultou na segunda coisa que aprendi longe de casa, jamais se contentar com o que está fazendo e sempre se superar. Oliver superou todas as expectativas com os pães dormidos, os transformando em coisas melhores e mais saborosas. Finalmente a padaria voltaria à sua fama e riqueza inicial.
Os meses foram passando, quando finalmente o glamour de Londres começou a me deixar tedioso. Além da padaria, trabalhei em quase todos os comércios da cidade, sempre adquirindo mais conhecimento e experiência. Porém um mercador de peixes do porto cruzou o meu caminho, me deixando ainda mais curioso para saber como funcionava o comércio marítimo, algo que estava gerando muito lucro atualmente. Logo me ofereci para trabalhar em seu ofício, e, graças à toda minha experiência com os burgueses da cidade, ele me contratou sem o menor problema, e naquele trabalho eu ganharia bem mais. O que me fazia lembrar que tinha que ser mais cuidadoso com minha pequena fortuna. Como não tinha despesas e sempre comia as sobras, guardava cada moeda de prata que recebia de pagamento.
Foi no porto de Liverpool, no condado de Merseyside, que a coisa mais imprevisível aconteceu comigo, eu a vi ao longe, lady também estava naquela cidade. Por um breve momento, mas tinha certeza de que era ela. Estava linda como da primeira vez que a vi. Segui sua carruagem ao longe, até chegarem à casa do governador. Fui me aproximando aos poucos, até que percebi uma movimentação suspeita aos arredores da casa.
Pela primeira vez, me deparei com piratas, os mesmos das histórias que minha mãe me contava.
— Lady — sussurrei, já me preocupando com ela.
“Os golpes da bandeira ao vento, minha visão se torna mais escura
Eu serei capaz de ver o meu destino
O vento agitava a bandeira, os meus passos estão perdidos ao longo da frente
Eu seria capaz de chegar ao meu destino”
— Destination / SHINee
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.