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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 20/09/2025

Londres – 1847

Estava eu naquele momento…

Sentindo-me como um pedaço de carne vindo ao abate. Jamais passou-me pela mente ser a peça central de um famigerado casamento arranjado, menos ainda para pagar as dívidas do meu pai. Meu conhecimento sobre o tal homem com quem havia me casado, era o mais escasso possível, e só o tinha visto uma única vez, no altar de frente para o padre. Difícil digerir tudo o que estava acontecendo comigo, há pouco menos de dois meses, meus sonhos e planejamentos se resumiam ao pedido que Lorde Ulrich Meagher, o Conde de Limerick faria ao meu pai, após um ano me cortejando. Seria um jantar histórico para o Lewis Castle, até o menu estava programado e muito bem escolhido, porém, meu pai desfez os laços de cordialidade que mantinha com o conde e vossa família.

Sem dar as menores explicações para mim e para Lorde Ulrich, não pude mais vê-lo ou sequer mencionar seu nome, até chegar-me o anúncio de que me casaria com um burguês regado a discrição e mistérios. Não conseguia entender que brincadeira o destino planejava, para que meu pai tomasse uma decisão tão insensata para meu futuro. Afinal, desde sempre, nobres e burgueses não se misturavam em circunstâncias matrimoniais, e era aquilo que estava acontecendo em minha família. Uma nobre de sangue puro casando-se com um burguês, que poucos o tinham visto, mas todos sabiam qual era o vosso nome e a dimensão do vosso sobrenome.

Winchester.

O cavalheiro que havia desposado-me, e a partir deste momento passaria o restante de vossos dias sendo o meu marido. Não sabia nada sobre ele, só o que havia ouvido escondida atrás da porta. Membro de uma família desconhecida e hereditariamente desprovida de riquezas, fora adotado quando criança por um açougueiro, após a esposa insistir muito, pois a mesma sendo doente, tinha dificuldades em gerar filhos de seu próprio ventre. Detalhes que despertavam meu lado relutante, fazendo-me sentir momentaneamente contrariada por ter aceitado contrair tal matrimônio. E todo aquele mistério que envolvia o vosso passado enigmático que ninguém conhecia, nem mesmo os pais adotivos, era como um ímã para minha curiosidade inconveniente.

Curiosidade esta que levou-me a descobrir sua fixação por minha família, ou melhor, mais especificamente por mim. Um dos motivos de vossa oferta ao meu pai, comprando para si às suas dívidas de jogo.

Sua única condição?
Casar-se comigo!


— Que futuro este lugar me reserva. — sussurrei para mim mesma, após a criada sair do quarto.

Meus olhos temerosos pelo futuro, passaram lentamente pelas paredes daquele gélido lugar. A criada havia direcionado-me para o quarto principal da Wincher Hall, a mansão que ele havia mandado construir há três anos desde que voltou para Londres. Exclusivamente na melhor localização da melhor região da cidade. Seu estilo clássico que lembrava os templos gregos, se misturava ao neogótico de algumas catedrais conhecidas, algo que havia tornando-se muito comum na arquitetura atual.

Confesso que esperava algo mais pomposo e extravagante, como nas casas francesas.

Afinal… Ele é um burguês.

A frieza do ambiente em minha volta, logo fez-me sentir saudades da Lewis Castle. O lugar onde nasci e fui criada, minhas memórias naquele pequeno castelo em Derbyshire estariam sempre presentes, dos momentos mais pequenos aos mais memoráveis. Com ás memórias latejantes em minha mente, repentinamente voltei meu olhar para a camisola de seda branca bordada com fios de prata, em meu corpo. Um tecido tão nobre que havia escolhido diligentemente e importado da China, há um tempo, como parte principal do enxoval que preparei desde a minha infância.

Respirei fundo enquanto passava a mão naquele tecido.

Como não imaginar como seria aquela primeira noite com ele? Minhas inquietações internas parecem incontroláveis neste dia. O pouco que consegui observar nos pequenos momentos que estivemos juntos, desde o altar até o nosso almoço íntimo de celebração pelo casamento, para a família e amigos mais próximos, parecia uma pessoa reservada e extremamente silenciosa. Em todo o momento, consegui ouvir mais a voz de seus pais e amigos, burgueses barulhentos, do que os poucos movimentos de minha família.

Contudo, ele, mesmo na maior parte do tempo em silêncio, seu olhar profundo permanecia fixo em mim. Ainda que estivesse ao meu lado, algo que deixou-me constantemente constrangida e envergonhada.

— Senhora Winchester. — disse aquela voz grossa vindo da porta, em um tom forte que fez-me arrepiar involuntariamente.

Senhora Winchester…

Seria este o meu sobrenome de agora em diante.

— Sim, meu senhor. — virei-me com suavidade, a serenidade no olhar.

adentrou mais um pouco e fechou a porta, trancando-a em seguida. Senti meu coração pulsar um pouco mais forte, porém, mantive a respiração tranquila e ponderada. Estava vestido com um kimono azul marinho bordado com linhas prateadas, formando alguns arabescos, pelo que tinha escutado de vossa mãe, aquele era um presente de casamento que tinha ganhado de um amigo, um nobre japonês. Forcei-me a não encará-lo, contudo, parecia que vosso olhar em mim era como um ímã que atraía o meu olhar para ele na mesma proporção.

Respirei fundo.

Precisava deixar minha mente vazia para aquele momento, minha madrasta havia explicado algumas coisas básicas sobre nossas núpcias. Entretanto, as vossas palavras soaram-me com tanta indiferença às minhas curiosidades que não ajudaram como deveria. E encará-lo agora em meio ao silêncio, fazia meus pensamentos fervilharem. Como um garoto adotado havia tornado-se um dos cavalheiros mais ricos de Londres? possuía influência sobre muitos da nobreza, além de importantes famílias estrangeiras, principalmente no oriente. Era notório sua inteligência e perspicácia para os negócios, seu modo silencioso o permitia observar mais as pessoas e situações ao seu redor.

Talvez, em circunstâncias contrárias, certamente poderia despertar um pequeno interesse de minha parte, mas não naquela situação em que me encontrava. Entretanto, tinha que admitir, o cavalheiro à minha frente era realmente interessante, apesar de ser um burguês. Sendo capaz de arrancar olhares e suspiros em algumas senhoras e senhoritas, que deixou-me impressionada, algo que aconteceu com minhas primas em nosso almoço de casamento.

— Espero que esteja se sentindo confortável. — disse ele, ao quebrar o silêncio, dando alguns passos até mim.
— Na medida do possível, meu senhor. — abaixei o olhar.
— Diga-me, o que posso fazer para que sinta-se melhor? — num tom baixo e aveludado, com vossa firmeza característica, mantendo o olhar em mim.
— Infelizmente nada. — forcei uma respiração mais leve e controlada, devido a proximidade dele — Apenas faça o que o senhor deve fazer.

Fechei meu olhos esperando vossa movimentação.

Aquela seria a hora em que nosso matrimônio enfim seria consumado e seríamos um do outro para sempre. Senti seu toque em meus cabelos, com o deslizar de vossos dedos suavemente até minha face, um breve arrepio passou por meu corpo, vossas mãos estavam quentes e surpreendentemente, eram macias para um burguês filho de açougueiro.

— Não. — deu um repentino passo para trás, afastando a mão de meu rosto — Não a forçaria a fazer tal coisa, sei que não era eu, quem gostaria de estar agora.
— E… — abri meus olhos e o olhei — Acaso eu tenho outra escolha? Meu pai possui uma grande dívida com o senhor, então… — uma pausa, um suspiro — Este momento deve acontecer.
— Não fora de vossa escolha, então… — notei desapontamento em vosso olhar.
— Meu senhor, se estás a pensar que meu pai me obrigou, pelo contrário, ainda que haja tal compromisso entre ele e o senhor, concordei com este matrimônio por minha livre e espontânea vontade, apesar de jamais me imaginar casando por dinheiro.
— Saibas que jamais desejei que fosse assim, gostaria de te libertar, mas não consigo imaginá-la nos braços de outro homem, não suportaria... — vosso tom frustrado e um pouco baixo, surpreendeu-me — Contudo, sabemos que esta é a única forma de um matrimônio entre burgueses e nobres acontecer.

O que ele queria dizer com aquilo?
Que tinha mesmo a intenção de forçar nosso matrimônio com seu dinheiro?


— Senhor, como podes dizer estas palavras? — senti-me confusa com a afirmação tão sincera e direta — Como o senhor pode ter tais sentimentos se nem mesmo conhecer-me?
— Talvez… A conheça mais do que imagina. — deu um passo para frente voltando a proximidade, então, tocou novamente em minha face — Em um passado distante e esquecido, talvez de uma realidade que tenha se tornado um sonho para… Lady .

Eu não sabia o que dizer...

Nem imaginava se o que ele dizia, fazia algum sentido para mim o devesse fazer. Respirei fundo, sentindo os arrepios involuntários causados pelo deslizar sutil de vossos dedos até apoiarem-se em meu ombro. Em um movimento cauteloso de vossa parte inclinando-se para mais perto, vossos lábios tocaram meu pescoço, demorando segundos a mais do que parecia pretender. Aquele momento, deu início ao meu alvoroço interno, com as inquietações que faziam-me questionar se estava ou não, preparada para o que aconteceria depois.

— Permita-me fazê-la se lembrar daquele passado… — sussurrou, em meu ouvido.

O tom de vossa voz, fazia-me sentir como se correntes elétricas passassem por todo o meu corpo, deixando-o em alerta vermelho.

— Senhor Winches… — meu sussurro fora interrompido por um leve beijo dele, que fez meu corpo meio trêmulo se aquecesse.

Leve, porém, com traços de desejo e desespero.

— Milady… — mais uma vez deslizou os dedos até a alça da minha camisola, do lado direito, fazendo-a cair intencionalmente do meu ombro, e mais uma vez, vossos lábios tocaram meu pescoço por um longo momento — Permita-me amá-la sem reservas?!

Seu sussurro conseguia ser mais enfático ainda.

Fechei meus olhos de forma automática, sem saber como reagir aquele tom doce e envolvente que parecia criar um magnetismo instigante entre nós. Com a aproximação de vosso corpo junto ao meu, e uma das mãos apoiada em minhas costas, seus beijos começaram de forma gradativa a se intensificar. A cada ação do senhor Winchester, em reação, meus pensamentos seguiam descoordenados e incontroláveis. Quanto mais ele pedia permissão para me amar, mais eu ambicionava entender de onde vinha todo aquele sentimento que parecia cada vez mais sincero e obstinado. De fato, não imaginava que seria assim, não imaginava que a muralha que tinha construído em volta de mim e do meu coração seria derrubada com apenas uma pergunta…

“Permita-me amá-la sem reservas?!”

Sempre que sussurrava em meu ouvido, era incontrolável minha resposta positiva em ceder ainda mais de forma automática, fazendo-me perguntar o que estava a acontecer comigo. Externamente, meu corpo estava em sincronia com o dele, assentindo ao seu chamado de forma espontânea, internamente, sentia-me aquecida e inesperadamente amada. Formando um sentimento novo para mim.

Seria paixão, amor ou apenas prazer?
Não!


O que estava sentindo era o misto de tudo aquilo e ainda mais, havia uma pitada de descoberta. O que ele realmente representaria para mim a partir daquele momento? As indagações não haviam partido. Eu estava permitindo… E tudo o que imaginei sobre meu casamento no início, poderia ser lançado no mar do esquecimento. tornava-se algo além do que apenas um enigma na minha vida. Lá no fundo, parecia que o conhecia de fato, e de alguma forma ele demonstrou conhecer minhas dores internas e muito esquecidas.

Dores essas que estavam gravadas em minhas costas em forma de cicatrizes.

A cada toque de vossos lábios em minhas cicatrizes, os arrepios se intensificaram, o deslizar de vossos dedos em minhas costas formando os riscos de cada uma, reforçaram o pulsar mais forte do meu coração. Aquela era uma parte de mim que parecia não ser mais um segredo que eu mantinha em absoluto sigilo, uma parte da minha infância da qual não me lembrava. Contudo, ele demonstrava que também possuía algo gravado de igual modo e importância, e a vossa apontava-me ser um complemento da minha.

— Meu senhor… — um gemido, não silencioso soou de mim, mantive os olhos fechados, enquanto tocava o alto relevo que tinha em vosso braço direito, sua cicatriz.

Em meio às vossas carícias regadas a malícia, meu corpo, mesmo em pequenos sinais de desespero por fôlego, apenas seguia com o fluxo de vossas investidas das quais faziam-me desejar que perdurasse ao longo de toda a noite.

— O que estás a fazer comigo, meu senhor? — sussurrei, ao finalmente conseguir olhá-lo nos olhos, nossas respirações sincronizadas, ambos puxando o ar para os pulmões com certa necessidade agressiva — O estou sentindo!?
— O que sentes… — soou um tom baixo, mantendo a firmeza com aquele toque rouco e ponderado, o olhar de uma profundidade que parecia penetrar em minha alma — É apenas o desejo de amar-me na mesma proporção.

Eu desejava amá-lo?
Sim!


Meu corpo inteiro dizia que sim, e meu coração visivelmente rendendo-se a isso, ao sentimento dele que estava vindo ao meu encontro. Como poderia amar-me com tamanha veemência, e com pequenos e sutis gestos, levar-me a retribuir na mesma proporção. Seu olhar intenso estava combinado ao toque de malícia de vossos dedos deslizando por meu corpo. Um sorriso discreto e sugestivo no canto de vossos lábios me dava sinais de que nossa noite estava apenas começando.

Se meus sentimentos estavam mesmo inclinando-se a ele…

Não privaria-me de estar aninhada em vossos braços, sendo aquecida pela profundidade de vosso doce beijo.


“O 'para sempre', como todos dizem, talvez não exista,
Mas pode ter certeza, independente de tudo, sempre te amarei.
Aos poucos entenderá isso.
Eu não sei por que,
Esse amor é insubstituível, uma surpresa repentina,
Você tornou-se uma pessoa melhor,
Contanto que viva ao meu lado, à vida é colorida.”
— What Is Love / EXO

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Derbyshire – 1833

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Eu estava faminto…

Contavam-se três dias que estava caminhando pela beira da estrada, não sabia para qual destino estava indo, mas tinha a certeza de que não voltaria para a workhouse do senhor Cooper, e jamais seria escravizado novamente. Porém, isso não mudava minha situação atual, nem o fato de precisar encontrar comida para minha sobrevivência momentânea. Foi quando senti um cheiro vindo ao leste do campo de lavanda, que acompanhava toda a estrada, tão atrativo ao meu olfato que fez-me ouvir os ruídos de movimentação em minha barriga. Pulei a cerca e adentrei o campo, seguia movendo-me de acordo com o aroma que sentia, do que parecia ser um pedaço de carne sendo assada.

Em uma certa distância, avistei algumas pessoas, e era notório a separação de classes entre elas, apenas analisando vossas vestimentas, identifiquei os criados que serviam seus senhores que esbanjam orgulho e ostentação, certamente os nobres da casa. Me locomovi de forma silenciosa, poderia até ser comparado a um animal em momento de caça, aproximando-me mais e mais para achar um ponto estratégico, escondi-me atrás duma árvore que tinha perto do cercado.

— O que está fazendo? — uma voz doce e melosa despertou-me no susto.
— Hum?! — olhei para trás e depois olhei para frente novamente, confuso por não ver ninguém.

Será que pela fome, estaria eu ouvindo vozes?

Uma risada baixa soou, até que uma garota caiu em minha frente.

— O que está fazendo? — perguntou ela novamente, um olhar curioso.

Com receio de represálias, movi-me para trás tentando não ficar nervoso, era necessário retirar-me o mais rápido possível.

— Ei, espere! — ela gritou, sendo ignorada por mim.

Não olhei para trás.

Continuei seguindo pelo campo de lavanda, até sentir que estava longe o suficiente para não ser pego. Abaixado em meio às flores, permaneci esperando o tempo passar, quanto mais o sol movia-se, mais sentia minha barriga doer. Com o passar das horas, surgiu uma movimentação repentina no meio do campo, abrindo espaço para a sensação de agonia em meu coração. Em sussurro, pedi a Deus para que não fosse um adulto.

— Boa noite… Imagino que tenhas escondido em meio às lavandas. — era a voz doce e aveludada da menina que pulou da árvore — Ainda estás com fome?

Fechei meus olhos colocando a mão na barriga, os barulhos involuntários de fome intensa haviam retornado.

— Devo confessar que ouvi a vossa resposta. — disse a voz bem próxima de mim, parecendo segurar o riso — E pelo som contínuo, vejo que estás mesmo com fome… Deixarei isto aqui.

Ergui de leve minha cabeça e vi a menina de costas, voltando para a direção da cerca. Quase engatinhando, arrastei-me até onde ela estava e deparei-me com um prato de porcelana com alguns pedaços de carne. Não contive-me em salivar de imediato, sentindo o retorno do fundo em minha barriga. A menina havia deixado de bom grado para mim, então, não recusaria e internamente, estava torcendo para que não estivesse envenenado e que não fosse a última refeição da minha vida. Assim que peguei o prato para voltar ao meu esconderijo, notei uma chave caída.

Será que ela tinha perdido ou deixado de propósito?

Peguei a chave e guardei no bolso da calça. Assim que comi todos os pedaços de carne, mantive-me agachado novamente esperando. Ao cair da madrugada, segui em direção ao que parecia ser um castelo. A primeira impressão? Avistando ao longe certamente parece uma grande construção, porém, vendo-o de perto, passou-me a sensação de ser pequeno para carregar o título de um castelo. Seguindo pelos pontos cegos, no qual não havia a presença de criados. Com os nobres recolhidos em vossos aposentos, veio-me o pensamento mais insano que poderia ter. Não deveria, contudo, se estava com a chave, deveria ao menos tentar abrir uma das portas para devolvê-la. Com os dedos cruzados e torcendo para que ninguém me ouvisse, coloquei-me diante da porta mais importante de todas, a da cozinha. Assim que a tranca fez aquele barulho e a porta se abriu, contive a paralisia momentânea pela sorte inesperada.

Entrei silenciosamente, quase segurando minha respiração.

— Finalmente. — disse a voz feminina, vindo de trás de mim.
— O que? — contive minha reação de susto, contudo, ela percebeu.

Um olhar curioso para mim, parada atrás da porta mantendo o sorriso discreto e meigo no canto do rosto.

— Fez-me pensar que não tivesse visto a chave. — continuou ela, correndo seu olhar por minhas roupas.
— Vim apenas para agradecer-lhe pela comida e devolvê-la. — estiquei a mão, então a abri mostrando a chave.
— Lady Lewis, o que fazes acordada a esta hora? — a voz de uma senhora ecoou pelo espaço, enquanto a mesma adentrava a cozinha, logo ela lançou o vosso olhar para mim — Oh, céus! O que… Quem é esta… — notei vossos olhos focarem na chave em minha mão — Seu ladrãozinho.
— Não! Eu posso explicar. — disse a garota pegando a chave de minha mão com rapidez, colocando-se em minha frente.
— Venha, lady Lewis. — a senhora puxou-a pelo braço bruscamente — Não deveria estar aqui, menos ainda com um ladrão.
— Mas ele… — a garota tentou argumentar.
— O que está acontecendo aqui, estou ouvindo as vozes do corredor?! — reclamou um homem, entrando na cozinha.
— Senhor Rochefort, dê um jeito nessa criança, ela roubou minha chave e invadiu o Lewis Castle. — explicou, olhando para mim em fúria.
— Ah, seu ladrãozinho. — disse o homem vindo em minha direção.

Eu que estava estático naquele momento, tentei me locomover para sair daquele lugar, mas o homem pegou forte em meu braço.

— Solte-me, senhorita Moore. — gritou a garota, debatendo-se como eu para se soltar — Ele é inocente, fui eu quem pegou sua chave e dei a ele.
— Lady Lewis?! — a senhora olhou-a com ar de decepção — Não acredito que tenha feito isso, ajudando um órfão rejeitado a roubar?
— Ele é uma pessoa como eu e a senhorita. — retrucou ela, desviando seu olhar para mim — Desculpe-me, só queria vos ajudar.
— Oh, que audácia. — a senhora segurou ainda mais forte no braço da menina, tanto que senti como se fosse em mim — Lady Lewis não deves desculpar-se com a plebe, venha, terei que te castigar por esse ato de rebeldia.

A senhora saiu arrastando-a consigo.

Mesmo ameaçada, vossos gritos pedindo para que o tal senhor Rochefort me deixasse ir sem me machucar, foram nítidos aos meus ouvidos. Aquela pequena donzela estava a colocar-se em meu lugar, assumindo a inteira culpa do ocorrido. Em meus nove anos de idade, nunca ninguém havia defendido-me como ela… Lady Lewis.

O homem ainda me prendendo pelo pulso, arrastou-me para fora da casa e como castigo, fez um corte profundo em meu braço para que me lembrasse de nunca mais deixar uma dama fazer tal coisa por mim. Nem mesmo invadir a casa de um nobre para roubar. Corri o máximo que pude, por mais que meu lado racional gritasse implorando para eu ir para longe daquele lugar, não conseguia parar de pensar daquela pequena dama. Parei no meio do campo e finalmente olhei para trás, ansiava saber se ela estava bem. Mantive-me naquela mesma posição por mais algum tempo, olhando as estrelas no céu. Repentinamente, uma movimentação surgiu em meio às flores de lavanda, e abaixado em silêncio, o medo surgiu juntamente com o pensamento de que poderia ser o tal senhor Rochefort.

— Ainda estás aqui? — era a voz dela, doce e aveludada, porém, com um toque de tristeza — Consegui pegar a chave novamente, porém, desta vez achei mais prudente trazer a comida, assim não o colocarei em problema novamente.

Colocar-me em problema?
Mas fora eu o problema da noite.


Ergui meu rosto de leve. Ela, estando de costas para mim, vestida com uma camisola de linho, o brilho da lua em suas costas me permitiram ver algumas marcas de sangue em forma de traços. Vosso castigo também havia sido grande, por minha causa.

— Deixarei aqui, e espero que não fique com fome novamente. — continuou ela, ao abaixar-se e deixar uma trouxa de tecido no chão — A propósito, eu não sei o vosso nome, mas quero que saiba o meu, sou a lady Lewis, filha do Conde de Carnarvon.

Esperei até que afastou-se o máximo possível, então caminhei até a trouxa de tecido e olhei superficialmente, havia muita comida. Lancei meu olhar para frente novamente, vossa silhueta permanecia ainda em meu campo de visão, enquanto retornava ao castelo.

— Lady Lewis. — sussurrei vosso nome.

Naquele momento…

Mais do que o vosso nome, eu a estava gravando em meu coração. Vosso gesto de caridade para comigo, havia-me feito decidir que no futuro…

Ela estaria comigo e seria minha, sem reservas.


“Houve um evento que me fez feliz hoje, o momento quando
Te conheci e o fato de que eu sabia que tinha alguém para amar.”
— Creating Love / Personal Taste OST (4minute)



Continua...


Nota da autora: Welcome to Pâms' Fictionverse!!!

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