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Longfic

Bite Your Tongue

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Capítulo 1

O som dos instrumentos atravessava a porta grossa do estúdio de maneira abafada, vibrando contra o vídeo. parou diante dela, respirando fundo uma, duas vezes, enquanto ajeitava a pasta de anotações junto ao peito. Sentia que havia algo indecifrável no ar – talvez fosse o nervosismo ou o medo de lidar com uma nova fase que estava para iniciar. Sabia que as coisas eram tudo, menos simples.
Conseguia ouvi-los do outro lado.
— Não, cara, o tom cai no meio do refrão! — reclamou, enquanto largava os fones sobre a mesa.
— Vocês querem gravar de novo? — Harry perguntou, girando as baquetas entre os dedos, suspirando. — Já é a quinta vez hoje.
— É a quinta vez errada. — respondeu, exausto. Olhava para a tela do computador onde as ondas de som pareciam mais caóticas do que musicais.
— Claro que tá errado, e a culpa é tua, Dougie!
O loiro ergueu uma sobrancelha, incrédulo, e se virou para o amigo bruscamente.
— Minha? Eu nem sou o vocalista principal, porra! No máximo, eu sou o eco do eco do refrão, .
— “Eco do eco” coisa nenhuma! — O guitarrista rebateu, usando o indicador enquanto apontava para o amigo. — Você entra na hora errada e eu fico parecendo um gato sendo atropelado!
Harry ajeitou-se no banco atrás dos amigos e soltou uma risada abafada.
— Você é tecnicamente o gato, . O Poynter só toca baixo e tenta acompanhar a sua afinação. Que, convenhamos, é impossível.
— Obrigado pelo apoio, Judd — murmurou, revirando os olhos. — Isso vindo de quem bate em coisas com pedaço de pau não conta muito.
— É, mas pelo menos eu bato no ritmo certo. — O baterista riu alto da atitude do amigo.
apenas ria enquanto observava o desenrolar do conflito.
— Mano, sério, eu não entendo por que a gente sempre tem que discutir quando o refrão não funciona. — Dougie bufou, passando a mão nos cabelos.
— Porque é sempre o refrão que não funciona. E adivinha quem fez o backing no refrão? — argumentou, retrucando com o baixista.
— Quer que eu cante o lead também, já que você tá tão perdido? — Ele perguntou, rindo sem humor enquanto se endireitava em seu banco.
jurou que o culpado fosse Dougie, mas os garotos não queriam acusá-lo sem as devidas provas. Então olharam em direção a , responsável por ser engenheiro de som e técnico de gravação. O francês estava se divertindo com toda aquela discussão, segurando o riso para não gargalhar na frente dos garotos, que o olhavam em expectativa. Ele apertou o botão de play e a música começou a tocar; os quatro foram pegos de surpresa quando a voz de subiu meio tom além do planejado durante o refrão.
Harry riu tanto que quase caiu do banco de tanto rir.
— Caramba, parece um galo às seis da manhã, cara. Isso aí parece o despertador do inferno!
O vocalista lançou uma almofada em direção ao amigo, mas acabou rindo, se rendendo ao conflito.
— Tá bom, tá bom. Talvez eu tenha me empolgado um pouco.
Dougie sorriu, satisfeito, e cruzou os braços.
— “Empolgado”? Eu chamo isso de assassinato melódico.
— Eu sempre soube que o culpado seria você, cara. — afirmou rindo baixo e balançando a cabeça.
ainda não tinha entrado. Observava a cena através da janela os quatro homens, cada um em seu próprio universo; nem tentavam disfarçar o cansaço que estampavam os rostos bem-humorados. A gravadora havia avisado: o cronograma estava apertado, e eles precisavam de alguém para "colocar as vozes em ordem". E esse alguém, no caso, era ela.
Ao abrir a porta, foi recebida pelo cheiro de café requentado, uma mistura de perfume masculino e madeira. foi o primeiro a notá-la, levantando-se em um reflexo educado.
?
Ela assentiu com um sorriso profissional e se aproximou do cantor, que a cumprimentou em um breve aperto de mão.
— Vim ajudar vocês com o arranjo de voz.
— Ah, ótimo. Mais uma mulher pra querer mandar na gente. — murmurou próximo de Harry, que lhe deu um tapa na cabeça.
— Não seja machista, idiota. — Ele repreendeu o amigo, que encolheu os ombros e permaneceu quieto.
O vocalista suspirou e tentou parecer amigável.
— Vai nos dizer que estamos fazendo tudo errado? — Ele perguntou.
— Eu não costumo dizer que está errado. Só mostro como pode soar melhor.
Dougie estava encostado na parede com o baixo pendurado no corpo, observava em silêncio, apesar do olhar curioso e um pouco desconfiado.
— A gente já soa bem. Só pra constar. — Ele disse isso sem arrogância, mas com aquela autoconfiança que beirava a provocação.
colocou a pasta sobre a mesa de som e sorriu.
— Então vai ser fácil. Porque se já soa bem, imagina quando estiver afinado.
O silêncio que veio depois foi quase audível. abafou um riso. virou os olhos. Harry balançou a cabeça, divertido. Os garotos se entreolharam em um misto de apreensão e curiosidade. Já haviam começado o dia com um toque de constrangimento. , e Poynter se ajeitaram em seus respectivos bancos e limparam a garganta quando viram que ela abriu o caderno; estavam tentando ignorar a tensão.
pediu para eles começarem pela faixa principal e ajustou o microfone. Eles tentavam disfarçar as trocas de olhares, meio nervosos, antes de voltarem a cantar. A garota percebeu que, a base estava perdida no meio da pressa, apesar de estar boa o suficiente. Esperou o refrão para poder comentar.
— As harmonias estão se atropelando, acho que estão cantando sem ouvir uns aos outros.
rolou os olhos, e mordeu a língua antes de fazer algum comentário babaca.
— A gente não precisa de coral de igreja, senhorita , isso aqui é rock.
— Rock também precisa de respiração, . — Ela cruzou os braços. — Não é só barulho.
Dougie deixou escapar um riso quase inaudível, mas que chamou atenção de . Ela virou a cabeça em sua direção e arqueou uma sobrancelha.
— O que foi? — Perguntou.
— Nada. — Ele deu de ombros. — Só achei engraçado o “rock precisa respirar”. Nunca ouvi ninguém dizer isso.
— Talvez vocês não tenham parado para ouvir um ao outro.
O olhar dos dois se manteve firme, enquanto o estúdio parecia menor e mais tenso. Se encaravam como se estivessem esperando qual dos dois iria recuar primeiro, mas quebrou o silêncio ao pigarrear.
, você pode nos orientar nessa parte?
Ela se aproximou dos microfones e assentiu. Estava segura do que estava fazendo, mas se sentia intimidada pelos rapazes, porque percebeu que eles não seguravam as respostas atravessadas e as brincadeiras bestas. Principalmente quando se tratava de .
— Podem cantar o refrão separado primeiro? Preciso ouvir o timbre e o ponto de respiração de vocês. Depois a gente monta o arranjo.
— Isso vai demorar. — ergueu as mãos, um sorriso meio desconfortável plantado em seus lábios.
Estavam a um mês de começarem a turnê, e precisavam treinar as vozes; não só pelos shows, mas para o próximo álbum em que estavam trabalhando. Não era por pouco que estavam tão cansados e estressados com toda a correria da agenda.
— Vai soar melhor. E vocês têm um mês. Então, sim, vai demorar um pouco.
Harry sussurrou algo para Dougie, que riu sem discrição, mas não quis se intrometer. Estava focada no trabalho que teria com eles. Colocou os fones e a música começou de novo. A atmosfera se transformou nos minutos seguintes e o lugar foi substituído por um silêncio atento. Embora Poynter estivesse se sentindo resistente à ideia de precisar de ajuda, esforçou-se para cantar diferente e ela percebeu cada detalhe.
Fez uma anotação sem olhar para eles, mas sabia que eles a encaravam com certa expectativa.
— Melhor. — Afirmou, apenas. O comentário simples chamou a atenção até de , mas ele preferiu não retrucar.
— Só “melhor”? — Dougie perguntou e arqueou uma sobrancelha, deu de ombros.
— Ainda não é o ideal, mas é um começo.
Ele sorriu de canto, aceitando o desafio.
— Então tá. Vamos ver até onde você aguenta.
— Até o som ficar perfeito. — Ela o encarou firme.
— Você é mais exigente do que imaginei. — falou com um sorriso de canto, dedilhando algum trecho em seu instrumento.
bufou, mas tentou se manter calma.
— É meu trabalho, precisa ser perfeito.
Mesmo que ninguém dissesse em voz alta, naquele instante todos souberam que a gravação do álbum seria um campo de batalha. E a preparação para a turnê seria uma tortura sem volta.
As horas seguintes correram em momentos confusos entre uma mistura de fones, som, pausas e anotações; enquanto sentava-se em frente a mesa de som e alternava o olhar entre os quatro homens adiante dela e o notebook. Percebeu como cada um tinha um ritmo e um temperamento diferente, era quase estressante.
era ansioso e queria gravar tudo de uma vez; , mais meticuloso, analisava cada linha das passagens; Harry aproveitava o posto de baterista e fazia piadas no meio das pausas, enquanto Dougie ficava entre a concentração e o tédio. Os dedos do garoto brincavam com a corda do instrumento mesmo quando não era seu momento de tocar. Após um intervalo – considerado curto pelos quatro –, eles voltaram ao ensaio.
— Certo, vamos voltar à ponte. Agora quero ouvir e juntos. — disse, enquanto anotava algo na folha à sua frente.
bufou, já estava impaciente, e apenas assentiu. Quando cantaram, ergueu a mão discretamente, pedindo que parassem. derrubou a cabeça e bateu a testa ao microfone, causando um barulho quase estridente dentro da sala.
, você entra um compasso antes. É por isso que o final parece atropelado. — Ela se aproximou, sem levantar o tom. — Tenta contar dois tempos antes de começar.
Ele imitou a contagem, sorrindo de lado, e a garota concordou. Ele tentou mais uma vez, e o refrão se encaixou perfeitamente com a melodia do amigo, causando um sorriso de satisfação em .
— Muito melhor, garotos! O timbre de vocês combina bem, mas precisa respirar junto.
Harry bateu as baquetas no joelho, animado, e apontou para .
— Tá vendo? Falei que o problema era o .
— O problema é todo mundo. — respondeu com naturalidade, arrancando uma risada coletiva.
— Até eu? — O baterista perguntou, na defensiva. Sua cara demonstrava insatisfação, o que arrancou gargalhadas dos amigos.
— Você não canta, mas faz piadas demais, Judd.
— É meu papel pra quebrar o climão. — Ele deu de ombros.
sorriu de lado e tombou a cabeça, sentindo pena da expressão do baterista.
— Tudo tem sua hora, Harry.
Até Dougie riu. Um riso curto, surpreso, mas sincero. percebeu, sem comentar.
O momento durou pouco, já que logo em seguida ela o chamou para testar uma linha de um vocal mais baixo que ajudaria a sustentar o refrão.
— Quero que experimente segurar a nota aqui em “but you chose to let me down, down, down”. Mantém o ar e pensa como se fosse um baixo de voz, não de instrumento. — Disse ela, apontando para o papel.
O garoto inclinou a cabeça e coçou o queixo.
— Nunca pensei em cantar como se tocasse.
— Então é hora de tentar.
Ele obedeceu, e a sala se encheu daquele som grave e aveludado. sorriu sem disfarçar.
— É isso. É exatamente esse o som que faltava.
Ele deu um sorriso meio envergonhado, ganhando uns acenos dos amigos.
— Tá vendo? Às vezes eu acerto.
— Quase sempre, pelo que ouvi até agora.
Foi a primeira troca leve entre eles que não fosse carregada de ironia, nem disputa. Só a música. O sol do fim de tarde atravessava o vidro do estúdio, marcando o chão com uma cor dourada. Os artistas já estavam com as vozes roucas, mas o clima já havia mudado completamente – estavam rindo mais e a pressão pareceu menor.
— A boa notícia é que vocês têm potencial. A má é que precisam dormir e beber água antes de tentar de novo.
— Dormir é overrated. — Harry disse, esticando-se na cadeira.
— Então pelo menos água. Não dá pra desmaiar na turnê.
ainda dedilhava a guitarra, inquieto.
— Posso tentar uma última coisa?
riu baixo.
— Uma. Prometo que se for boa, deixo você quebrar o cronograma amanhã.
Ele se animou com a provocação e começou a tocar. e Dougie acompanharam, improvisando. observava, anotando pequenas ideias no caderno. Reparou que as harmonias que poderiam encaixar, frases melódicas que surgiam espontaneamente. Eles tinham muito potencial como uma banda, principalmente depois de terem se tornado independentes.
O improviso acabou terminando com risadas e aplausos.
— Não sei o que você tanto anota aí. — Harry comentou, curioso, o queixo apontado para o bloco de .
— Segredo de profissional. — Ela sorriu de maneira nociva e ele ergueu as sobrancelhas. — Relaxa, é só o que tem funcionado. E o que não funciona também. Mas, de modo geral, é mais sobre elogio. Então, aproveitem.
Quando o estúdio ficou quase vazio, mais tarde, ela aproveitou para ficar e revisar os áudios. A sala vazia foi tomada pelo zumbido dos alto-falantes apenas. Viu passar pela porta antes de ir embora, e ele sorriu.
— Obrigado por hoje. Acho que eles precisavam de alguém que os fizesse ouvir. Literalmente.
Ela sorriu de volta, mas sem tirar os olhos da tela do computador.
— Vocês têm talento de sobra, só precisam de uma direção melhor.
— E paciência. — Ele piscou. — Boa sorte com isso.
Esperou o rapaz sair e soltou um suspiro leve; estava satisfeita, apesar de bastante cansada. Já tinha ciência do tanto que seria puxado trabalhar e lidar com quatro personalidades tão intensas, jamais seria simples. Mas tinha algo ali que a desafiava de uma boa maneira. Ela aumentou o volume do som e ouviu as vozes individualmente, preenchendo o ambiente. Todas soavam firmes, e ela sorriu sozinha pela primeira vez desde que tinha começado o novo projeto.

A casa de Harry estava tomada por uma energia caótica, como sempre. Os garotos faziam bagunça quando estavam juntos. Estavam jogados em sofás diferentes, comidas espalhadas pela mesa de centro. A risada alta de ecoava pelo ambiente, e as garrafas de cerveja quase chegavam ao fim antes mesmo de terminarem a partida de futebol no videogame. O assunto principal, naquela noite, era obviamente a respeito do treinamento com a coach. Dougie segurava uma garrafa de cerveja na mão enquanto se reclinava no sofá, bagunçando os cabelos.
— Cara… eu juro que nunca vi alguém olhar pra gente daquele jeito — Começou ele, balançando a cabeça devagar. — Aquela mulher tem o olhar de quem poderia te demitir de uma turnê com uma única sobrancelha arqueada.
Harry riu alto, estalando os dedos e se jogando de lado no sofá.
— “Respirem pelo diafragma, meninos.” — Imitou ele, cruzando as pernas e fazendo uma pose debochada, o sotaque de saindo arrastado e quase teatral. — Ainda bem que eu sou só o baterista.
Os amigos o vaiaram e ele foi atingido por diversos salgadinhos no rosto e na cabeça, rindo ainda mais alto da cara que fazia, mesmo que o vocalista estivesse tentando segurar o riso.
— Sorte a sua, seu idiota. Eu tava esperando o momento em que ela ia mandar a gente fazer ioga no meio do estúdio. Aquela calma dela é assustadora. Parece que sabe o que a gente tá fazendo de errado antes mesmo da gente abrir a boca.
— E sabe mesmo — Dougie interrompeu, com um meio sorriso. Segurou o controle para inicar outra partida. — Ela me corrigiu antes de eu começar a cantar. Tipo, antes. Como é possível isso?
Eles estavam se divertindo, mas Poynter sabia que teria um período difícil com ela. Logo de cara, já a achava chata e exigente demais. Não parecia ter senso de humor e, se duvidasse, não sabia nem o que era sorrir.
ergueu uma sobrancelha.
— É, mas você mereceu. Você fez aquela cara de “não preciso de aquecimento vocal”, e ela percebeu.
— Eu não fiz cara nenhuma. — Ele retrucou, tentando parecer ofendido. — Só tava… pensando.
— Pensando em como fugir da aula — Harry completou, fazendo os outros dois amigos rirem.
Dougie bufou, mas o canto da boca traiu um sorriso.
— Tá, admito, ela é boa. Só… é intimidadora pra cacete.
concordou, apoiando o queixo na mão.
— É o tipo de pessoa que entra numa sala e muda o ar, sabe? Você sente que tem que se endireitar, cantar direito, respirar direito… até pensar direito.
— E o pior. É que ela nem precisa levantar a voz pra te deixar desconfortável. É só aquele olhar. Aquele olhar tipo “ou você faz direito, ou arranco seu fígado”. — completou, fazendo as aspas com as mãos enquanto segurava a garrafa.
— E o pior é que é bonito, né? — Harry soltou em um tom nada sutil, com um sorrisinho nos outros e os outros três olharam pra ele em silêncio. — O quê? Só tô dizendo o óbvio! — Ele se defendeu, erguendo as mãos.
Dougie jogou uma almofada nele, rolando os olhos.
— Cala a boca, Judd.
— Vocês também acharam, só não têm coragem de falar. — Ele provocou dando de ombros, enquanto tentava desviar da segunda almofada.
— Ela me corrigiu no primeiro verso e eu fiquei tão envergonhado que nem consegui olhar pra cara dela depois. — suspirou e ouviu dar uma risadinha ao seu lado.
Dougie desviou a atenção da televisão e olhou para os amigos, balançando a cabeça, concordando.
— É… acho que a moral da história é: ninguém tá a salvo.
Judd estalou a língua na boca e soltou um riso bastante irônico, sabendo que levaria almofadadas se continuasse provocando os amigos.
— Falem por vocês, eu não preciso dessa frescura toda.
— Ainda bem, né? Imagina ter que ouvir você cantar como se fosse uma galinha botando ovo. — provocou e viu quando o amigo lhe mandou o dedo do meio.
— Mas pelo menos ela não jogou nada em ninguém. Isso já é um bom começo.
O grupo caiu na risada novamente. O clima leve contrastava com o nervosismo que todos sentiram no estúdio horas antes. tinha deixado uma impressão marcante, não só pela postura, mas pela forma como parecia entender cada um deles com uma precisão quase desconcertante.
Mesmo assim, eles sabiam que ela não seria uma coach qualquer. Precisavam ser disciplinados e respeitá-la, por mais que fosse insuportável aos olhos deles. E talvez isso mudasse com o tempo.
Ou talvez, não fossem se acostumar tão logo quanto imaginavam.
ajustava alguns trechos em seu tablet, enquanto ouvia uma música baixa no celular. Estava sentada no pequeno escritório em seu quarto, imersa nos detalhes dos próximos dias de trabalho com o McFLY. Não sabia muito o que esperar deles; claro que já viu falarem bastante do grupo, e não nega que costumava ouvi-los em sua playlist. Mas lidar com os rapazes pessoalmente era totalmente diferente, precisava ser criteriosa e atenciosa. Ainda mais já sabendo como era a personalidade de cada um.
Difícil. Eles eram bastante difíceis. Pelo menos no que se diz respeito a prestar atenção e corresponder com as exigências dela.
Largou o tablet para responder às mensagens da amiga, , e fez uma pausa para que pudesse respirar. Em seu tempo livre, gostava de compartilhar memes engraçados com a garota. Percorreu pelos apps das redes sociais e ficou surpresa ao reparar que Harry e seguiram ela. Não esperava que fosse tão rápido, sabia que eles se assustaram e se sentiram intimidados com ela. Então, a resposta mais evidente seria que eles não se aproximassem com tanta rapidez e facilidade.
Como já seguia os garotos de volta, apenas sorriu e voltou a conversar com a amiga, que surtou com a novidade. era tão fã da banda quanto era boa em ser arquiteta, e estava feliz por estar trabalhando com algo que ela faria se soubesse pelo menos acertar uma nota alta.

Capítulo 2

Os garotos estavam reunidos em uma mesa afastada da cafeteria favorita do grupo, que ficava próximo ao centro de Londres. Tinham decidido não usar o fim de semana para ensaiarem, apesar de estarem trocando ideias a respeito das novas músicas para o álbum. olhava o celular, rolando os vídeos do aplicativo. Os outros três conversavam sobre o trecho do refrão de “Sorry’s Not Good Enough” e, mesmo que Harry não fosse cantar, gostava de colaborar com a construção das faixas e era sempre mais do que bem-vindo.
— Por que tem um vídeo nosso no clipe de Lies viralizando no TikTok? — questionou com a sobrancelha franzida, chamando atenção dos amigos.
As três cabeças se viraram para ele, olhando o celular do vocalista. Era um vídeo editado, que mostrava cada um deles em momentos diferentes do clipe. A publicação tinha inúmeros comentários e mais de 20 mil curtidas.
— Deve ser uma thirst trap. — Dougie respondeu com certa naturalidade, dando de ombros e ficou com cara de tonto.
— Uma tirst–o quê? — Perguntou com um tom cômico, que fez os garotos rirem dele.
— Tipo uma “armadilha” pra caçar atenção dos fãs. — Poynter explicou de maneira breve, mas ainda assim, os três rapazes continuavam sem entender nada.
— Eu não entendi nada, cara. — Harry resmungou. — Como você sabe disso, afinal?
— Eu vi alguém comentando isso em uma publicação minha, e não me pergunte como eu ainda me lembro disso.
— Huh. Galera é doida. — voltou a atenção à tela, dando de ombros. Mas curtiu o vídeo de qualquer maneira.
— É que não chegou pra você as fanpages com legendas bastante explícitas. — acrescentou, arrumando o óculos no rosto. — Eu quase não dormi depois que descobri que existem infinitas histórias fictícias sobre a gente e que elas são bastante inapropriadas.
Dougie e Harry gargalharam do semblante de , mas já tinham ouvido falar sobre as histórias fictícias. achava tudo aquilo bastante fora do normal e não entendia nada do que se tratava todo esse “sex appeal” que causavam no público.
— Por isso eu prefiro ficar fora da internet. — Dougie completou, enquanto bebericava seu café.
— E mesmo assim, você tá bem por dentro das gírias das redes sociais, né? — apontou, rindo. Deixou o celular de lado e puxou o caderno de anotações de , olhando os trechos rabiscados.
— Não tenho culpa que tenho tempo de sobra. — Poynter levantou as mãos em rendição em riu com o amigo.
Os quatro voltaram a olhar para o papel nas mãos de e conversaram sobre as próximas estrofes e o ritmo da música. Gostavam de sair e escrever de maneira mais liberal, apesar de acabarem chamando atenção de algumas pessoas vez ou outra, principalmente com a risada alta de . Ele sempre levava uma bronca ou olhares mais apertados dos amigos, porque não sabia se controlar. O lugar normalmente recebia clientes mais velhos e que não conheciam os rapazes, mas tinham muitos fãs que sempre acabavam descobrindo onde eles estavam.
Tinham fãs que se comportavam com educação, mas também tinham fãs que os perseguiam por qualquer lugar que fossem – e aquilo se tornava um pouco desconfortável.
Harry estava voltando para casa, quando passou por , que andava pela calçada em direção ao bar que havia combinado de encontrar . O baterista parou o carro perto do meio-fio e buzinou para chamar atenção da garota, que o olhou um pouco distraída, se assustando com o barulho do veículo.
— Sério, Judd? Você quer me matar do coração? — Perguntou, aproximando-se do carro.
Harry abaixou o vidro, apoiando o cotovelo na janela.
— Ah, desculpa, achei que fosse um ladrão de microfones. — Brincou, piscando pra ela. — Tá indo pra onde sozinha a essa hora?
— Encontrar uma amiga. Num barzinho aqui perto. — Ela respondeu sorrindo.
Harry batucou os dedos contra o volante, antes de inclinar o corpo para frente e abrir a porta do passageiro num gesto automático.
— Entra aí, eu te deixo lá.
— Ah, não precisa, obrigada. Posso ir andando…É pertinho.
Harry chacoalhou a cabeça, ainda encostando no banco do passageiro.
— Pertinho, nada. É uns dez minutos andando. E vai esfriar.
Ela se deu por vencida com um suspiro, mas sorriu e entrou no carro. Sentiu o perfume dele emanando dentro do veículo, com um misto de aromatizador de ambiente. Quase quis rir – nunca conheceu um homem que gostasse desses tipos de coisa, ainda mais dentro de um carro. Mas afastou os pensamentos.
— Você é bastante insistente, né? — Ela disse, cruzando os braços com um meio sorriso.
— Faz parte do pacote de baterista e motorista ocasional. — Harry deu de ombros, divertido, arrancando um riso da garota.
— Tá bom. Mas se você começar a fazer perguntas, eu saio do carro andando.
— Fechado. Cinto, por favor. Não quero ser processado.
Os dois seguiram o caminho ao som do rádio do automóvel, que tocava alguma música da playlist de Harry, mas não quis prolongar o assunto porque ainda se sentia um pouco desconcertada. Mal havia conhecido os garotos, não se sentia tão próxima deles assim, apesar de ter ficado grata pela carona do baterista. O silêncio talvez fosse um pouco desconfortável, mas ainda assim parecia tranquilo. Quando chegaram ao bar, desatou o cinto e se inclinou um pouco em direção a ele.
— Obrigada pela carona, Harry. Não precisava se incomodar.
O músico sorriu, e lhe deu um breve aceno com a cabeça. Harry era bastante calmo, amigável e atencioso. Era assim com todo mundo, sem exceção. Costumava ser, ao lado de , o mais responsável do grupo e quem eles iam atrás quando precisavam conversar. sabia que ele era solteiro, mas se fosse pensar muito, se perguntava por que esse cara ainda estava sozinho.
— Não foi um incômodo. Fica tranquila. — O garoto sorriu pra ela de novo, e ponderou por um momento antes de deixá-la sair do carro. — E desculpa as palhaçadas, é meu jeito de lidar com as situações de vez em quando. Gosto de fazer piada e aliviar o clima tenso.
ergueu o lábio. Talvez tenha sido dura com eles nos dois dias que passou com a banda na última semana.
— Tudo bem, Judd. Acho que também fui um pouco grosseira com vocês, mas estou tentando fazer o meu trabalho.
— Vai ter que se acostumar com a gente, principalmente com o . E o Dougie. — Ele pontuou.
riu, sabendo que lidar com seria o seu maior desafio. Ele era extremamente inquieto, não cala a boca, faz piada demais. Às vezes é meio machista, o que a incomoda, mas também sabe que ele pode ser carinhoso.
Rolou os olhos ao mesmo tempo em que riu.
— Deus, vou precisar de ansiolítico!
Harry gargalhou com a resposta dela.
— Vai dar tudo certo.
Eles trocaram um sorriso amigável antes da garota sair do carro e descer. Hesitou por um segundo, observando-o com um olhar mais suave.
— Boa noite, Judd.
— Boa noite, . — Ele respondeu, observando enquanto ela entrava no bar, antes de arrancar com o carro.

se aproximou da mesa em que a amiga estava sentada. bebericava vinho, enquanto lia um livro e subiu o olhar quando viu a amiga chegando.
! — exclamou, fechando o livro. — Sentia sua falta!
se sentou na cadeira, sorrindo para a arquiteta. Estava dando graças a Deus que escolheu tirar o fim de semana para descansar.
— Como está sendo no estúdio?
— Mais intenso do que eu esperava. Eles são talentosos, mas tem dias em que parece que nada agrada.
assentiu, sorrindo.
— Normalmente músicos costumam ter uma postura meio rebelde, né? E e Dougie Poynter não são exatamente certinhos pelo que eu vejo nas redes sociais.
— Você sabe bastante deles, né? — viu o brilho nos olhos dela e riu. — Você é fanática, esqueço disso.
— Amiga, claro que sim! Me conta alguma fofoca de bastidor?
A coach riu mais ainda com o pedido da amiga, dando um gole em seu Moscow Mule antes de suspirar de novo e procurar na memória momentos com os rapazes. Rolou os olhos antes de contar.
, por exemplo, decidiu testar minha paciência com comentários… digamos, antiquados. Dougie parece sempre entediado e é um grosso quando quer.
— Dougie não aparenta ser mal-educado. Ele é sempre muito bonzinho com os fãs.
— Primeiro: Não sou fã, amiga. Quer dizer… — Ela parou para pensar por alguns segundos. — É, não diria que sou fã. Pelo menos, não fanática. E segundo: não parece nem um pouco que ele é bonzinho.
— Ah, eu sempre gostei dele. Acho meio misterioso, gostoso demais.
estreitou os olhos e chacoalhou a cabeça com o comentário. Gargalhou um pouco alto, porque diferente dela, a amiga não sabia se portar. E ela era profissional, tinha que ter respeito com quem trabalhava, então sabia se policiar melhor.
— Mas eu quero saber… no final, eles te respeitam?
— É, no começo estavam todos relutantes. Mas pelo que parece, percebo que estão começando a ouvir. Pequenas mudanças, nada dramático, mas progresso.
— Isso é ótimo! Olha, prometo que vou tentar não falar de projetos de arquitetura, mas preciso te contar: o GP da semana passada foi incrível! O duelo entre Verstappen e Leclerc… aquele ritmo, as ultrapassagens, a estratégia da equipe!
Do nada, a arquiteta mudou de assunto, o que fez rir mais uma vez. Adorava as aleatoriedades da amiga, e se divertia com as conversas.
— Você realmente ama Fórmula 1, né?
— Ah, como você adivinhou? — brincou e deu um longo suspiro. — Charles é uma gracinha.
— Você sempre consegue transformar a conversa sobre um garoto bonitinho, né? — sorriu, achando engraçado como a amiga balanceava a vida de fã e de profissional.
— Você também acha ele lindo, ! Tá querendo dizer o quê?
Não podia negar, também costumava ter momentos assim. E ainda se perguntava como conseguia ser tão séria a ponto de ser profissional o suficiente para não comentar sobre os músicos nesse sentido.
As duas passaram boa parte da noite conversando, fofocando e rindo. conseguiu se distrair do trabalho e esqueceu do McFLY naquele momento, mesmo que estivesse no grupo de mensagens dos garotos; ela teve que silenciá-lo por estar recebendo dezenas de mensagens, como se eles não passassem tempos juntos o suficiente para ficarem enchendo o chat.
Depois que chegou em casa e já estava deitada em sua cama, decidiu abrir o celular e ver o que tanto eles falavam. Ela deu uma risada.
: Alguém viu o vídeo do gato que toca piano? Haha
: Vi! O meu cachorro tentou imitar e quase quebrou a mesa hahahaha
Harry: Vocês dois e seus animais… Dougie, me diga que você não está ficando de fora disso.
Dougie: Claro que não! Só estou esperando o meu peixe aprender a fazer solo de baixo.
: Hahaha, imagina se os vizinhos escutam isso… vão achar que a gente enlouqueceu de vez hahahahaha
: Falando em enlouquecer, alguém lembra da nossa última pizza de madrugada? Isso sim foi caos total.
Harry: Eu ainda lembro do molho voando na parede… nunca mais consegui olhar pra cozinha do mesmo jeito.
Dougie: Se alguém gravou aquilo, por favor, me envia. Preciso rever a obra-prima hahahaha
: Tá bom, vou enviar, mas silêncio… nunca pode ver hehehe
: Perfeito. Silêncio garantido. O grupo virou só nosso arquivo secreto de piadas internas. Shhhh.
Percebeu como estava se sentindo mais leve, menos intimidada. Mesmo que eles não tivessem a incluído naquela conversa em si.
— Não é à toa que silenciei isso…

A luz da manhã entrava baixo pelas janelas altas do estúdio silencioso, iluminando os papéis espalhados pela mesa de som e os instrumentos. Ela aguardava os rapazes chegarem, enquanto ajudava o notebook para deixá-lo pronto para o ensaio. sentava confortavelmente em sua cadeira. Estava quieto e ainda tinha vergonha de puxar assunto com a coach, apesar de já terem trocado alguns olhares cúmplices na última semana.
e chegaram juntos, murmurando apenas um “bom dia” preguiçosamente, enquanto se arrumam em seus respectivos bancos com os instrumentos. Harry não demorou muito para chegar logo em seguida, cumprimentando , e os amigos. Estavam todos descansados, mas aparentemente ainda era difícil de funcionar durante a manhã. ainda estava tentando acordar, enquanto fazia alguns aquecimentos vocais. Esperaram Dougie, que estava atrasado quinze minutos.
Quando chegou, o baixista entrou pela sala meio envergonhado, dando um “bom dia” mais quieto e reservado. Sentou-se no banco e ajustou o baixo em seu corpo.
— Podemos começar com “Nothing”? — perguntou, ainda meio sonolento, e assentiu com um sorriso.
Os três estavam alinhados à frente de Harry, e tocaram algumas linhas da música recém-escrita. ajustava a mixagem de som conforme os acordes mudavam, enquanto observava os garotos cantarem. Ela interrompia para fazer pequenas correções, o que fazia com que eles voltassem desde o início da música. Quando Dougie recebeu a primeira sugestão, já estava zangado.
— Dougie, segura um pouco mais o final da nota. Tenta soltar mais o ar em “putting me through, oh”.
Ele suspirou pesadamente, enquanto mantinha o rosto inexpressivo.
— Sério… nada que a gente faça parece agradar você, não é?
manteve o olhar firme, sem se assustar com o tom exasperado. Já imaginava que fosse receber uma resposta atravessada hora ou outra; e que provavelmente seria Dougie o responsável pelo conflito.
— Não se trata de agradar, Dougie. É sobre fazer com que a música funcione. É por isso que estamos ensaiando.
— Tá, mesmo assim. Você fica toda hora interrompendo, parece que estamos regredindo em vez de melhorar.
Os dois vocalistas olharam para ele, com os olhos arregalados. Poynter sempre foi o mais quieto, o que chamou atenção deles foi a atitude inesperada. O silêncio que veio logo em seguida pareceu assustador, e nem mesmo se dispôs a falar qualquer tiração enquanto isso. Ela respirou fundo, não queria começar com o pé direito logo na segunda semana trabalhando com a banda.
— Olha, Poynter, sendo chata ou não, eu exijo respeito. — Ela quebrou o silêncio, e o rapaz a encarou ainda com uma expressão fechada. — Ou fazemos isso, ou eu pego minhas coisas e vou embora.
— Foi mal. — Ele murmurou, desviando o olhar dela para o próprio instrumento.
limpou a garganta, um pouco incomodado com o climão, e olhou para .
— Podemos começar de novo? Eu garanto que o Dougie não vai mais abrir a boca, não é? — O guitarrista olhou para o amigo com uma expressão totalmente dura, mas Dougie apenas deu de ombros.
Ainda estava um pouco embaraçado com a situação, mesmo que tivesse se desculpado. Só queria acabar logo com aquela porra daquele ensaio e ir para casa logo. A coach chacoalhou a cabeça, olhando para trás em direção a , que esperou para que ela lhe desse o sinal certo.
O músico ajustou o microfone, concentrando-se no timing, e os quatro voltaram a tocar a faixa desde o começo. começou a conduzi-los com cuidado, apontando apenas algumas correções durante o ensaio.
, segura um pouco mais o final da nota, senão o refrão perde sustentação. , respira antes de começar a frase, assim não vai tropeçar na letra.
A garota mantinha sua postura firme, com o tom de voz mais encorajador, mesmo que tivesse acabado de dar uma bronca em Dougie Poynter. As notas começaram a se encaixar e o silêncio foi se tornando menor aos poucos. Um pouco afastado, o garoto parecia meio deslocado e ela percebeu que ele se mantinha mais atento, mesmo que estivesse irritado ainda.
Ele ainda acompanhava as pausas e as retomadas, com um olhar quase absorvendo as instruções sem reclamar.
— Isso mesmo, garotos. Estão começando a se ouvir melhor, amanhã vamos fazer mais algumas tentativas dessa música; seria legal tentar manter esse foco.
Os rapazes deixaram o estúdio não muito tempo depois, deixando o ambiente silencioso apenas com os instrumentos desligados e alguns papéis espalhados sobre a mesa de som. se sentia cansada. Estava sentada e anotando observações sobre os ensaios do dia. Elas pontuavam harmonias, ajustes da respiração de cada um, além dos destaques de cada membro.
aproximou-se devagar, segurando uma pasta, e sentou-se ao lado da colega.
— Como acha que foi hoje? — Ele perguntou, tentando interpretar a expressão dela, sem invadir seu espaço pessoal.
— Difícil. — Ela suspirou. — Você viu que é complicado, nunca pensei que tivesse que lidar com músicos que agem como adolescentes.
— Sim, o clima estava meio pesado de manhã. — concordou cautelosamente e viu que a coach estava realmente exausta.
Os dois ficaram em silêncio por um momento enquanto ela olhava para os papéis a sua frente.
— Você acha que eles vão reagir bem ao longo do processo? — perguntou, curioso.
— Eu espero que sim. — admitiu, sorrindo fraco para ele. — Eu sei que é só questão de tempo, hoje foi bem complicado, mas senti que algumas mudanças já começaram a tomar forma. O problema mesmo é o Dougie.
Ele riu baixinho.
— Esse vai ser difícil.
— Nem me fale. E bastante desafiador. Se ele brincar demais, vai ouvir de novo. Já aprendeu hoje que não pode ser grosso e mal-educado.
Ela sentiu uma mistura estranha de satisfação e cansaço quando olhou ao redor do estúdio. Fechou o notebook, organizando as folhas bagunçadas.
— Amanhã será outro dia, acho que eles vão acabar te respeitando. Sabem que precisam.
Naquele dia, ofereceu carona para levá-la embora e, mesmo relutante, aceitou a oferta. Foram conversando durante o caminho e percebeu que o rapaz também parecia um pouco tímido, como se estar fora da própria zona de conforto fosse mais desafiador do que realmente pensasse. Ela ficou mais aliviada de saber que não era a única que se sentia daquela maneira. E mais feliz por fazer amizade em meio a todo aquele caos. Tinha alguém com quem conversar e desabafar, se precisasse. E principalmente xingar.
Céus, queria muito poder ser desbocada com alguém que lidava com os músicos e foi o escolhido. O francês sorriu consigo mesmo, precisava de alguém com quem desabafar também. O trabalho não era fácil.

Capítulo 3

— Eles estão fora do tempo, né? — perguntou, sentado ao lado de . Ela concordou e deu um suspiro baixo.
— Estão. E eu nem sei por quê.
A garota tirou os fones de ouvido e levantou-se da cadeira, pondo-se encostada na mesa de mixagem. Apertou o botão que liberava a caixa de som para o outro lado do estúdio, e os quatro rapazes olharam para ela. balançava a perna, ansioso, enquanto apenas esperava pelo feedback. Dougie já sabia o que estava por vir. Ultimamente não estavam se entendendo tanto entre si, e ele não estava se sentindo tão à vontade assim depois da curta discussão que teve com . Mas estava tentando dar o seu melhor.
— O metrônomo não tá em sincronia nessa música. Tentem encaixar o ritmo junto.
Ela colocou a contagem do aparelho nos alto-falantes e apontou para , que iniciou a música. Ainda assim, estava fora de ritmo. Contorceu o rosto, o que chamou a atenção do guitarrista logo em seguida; ele parou de tocar na mesma hora.
Harry estava um pouco incomodado com a repetição, mas se divertia vendo como os amigos estavam sofrendo sob as instruções dela. Down Goes Another One começava com apenas três contagens, o que não deveria ser um desafio para eles, mas não estavam conseguindo encaixar o tempo certo. Dougie propôs iniciarem a música com o baixo para que o ritmo funcionasse melhor, mas as vozes começaram a se perder durante o refrão. trocou um olhar com , e eles deram uma pausa.
Poynter suspirou um pouco pesado, colocou o baixo no suporte e se jogou no sofá próximo à parede do estúdio. Odiava como a gravação do novo álbum andava de mal a pior e sabia que uma das maiores causas eram por conta dos problemas de sua mãe com o padrasto. Não queria deixar que aquilo afetasse sua vida profissional, mas não conseguia ignorar o que estava acontecendo. Não queria contar aos outros, então inventou que estava com dificuldade de se concentrar ultimamente - o que não deixava de ser uma verdade.
A garota se sentou em uma banqueta no meio do estúdio, em frente aos músicos, que a fitavam com alguma esperança de que ela tivesse alguma outra solução para aquele desastre.
— Tem alguma coisa que vocês querem que mude? Algo que deva ser adicionado? — Ela perguntou com calma.
deu de ombros, não sabia o que realmente precisava ser feito, e olhou para .
— Acho que estamos com um bloqueio essa semana. Normalmente conseguimos lidar bem quando alguma coisa foge do esquema. — comentou, viu que os amigos concordaram.
— A tour também tem consumido nosso tempo quando precisamos ensaiar. Deveríamos estar seguindo um cronograma, mas tá tudo uma merda. — Harry girou os ombros, esticando os braços. Os amigos assentiram com a cabeça.
também balançou a cabeça e viu os olhares de frustração estampando o rosto dos quatro. Até mesmo de Harry, que normalmente consegue acompanhar o ritmo e o tempo com o instrumento sem qualquer problema.
— Precisamos entrar em um consenso. Vocês têm um prazo pra entregar o álbum, e a tour não pode esperar. Se conseguirmos gravar pelo menos 30% até a primeira parte dos shows, então não teremos tantos problemas depois.
— Não dá pra empurrar esse álbum. A gente já tá atrasando demais pra terminar um terço dele. E estivemos sem fazer show por muito tempo, temos que ensaiar. — Dougie relatou, e se sentiu um pouco constrangido quando a viu fita-lo.
O tom de voz era um pouco duro, e ela sabia que não seria tão fácil deixá-lo confortável. Mas tentaria.
— Vamos tentar de novo? — perguntou, e os garotos concordaram.
assistiu ao ensaio sem tentar interromper a gravação, mas sabia que precisava ajustar aquilo. O francês já estava ficando exausto da quantidade de vezes que colocou e tirou a contagem do metrônomo. reparou que ele e a garota estavam se segurando para não encerrarem logo aquele fiasco de ensaio. Tentou alertar com o olhar algumas vezes, e virou a cabeça para encarar Dougie, que mantinha a cabeça baixa; estava focado em não errar os acordes.
Eles não haviam brigado, mas também não conseguiram entrar em um consenso no fim de semana sobre qual faixa seria melhor começarem primeiro naquela semana. afirmou que Bubble Wrap era mais difícil, então demandava mais tempo. Dougie disse que Corrupted precisava de mais atenção, mas insistiu que deveriam tentar Room On the 3rd Floor.
Harry apenas ficou observando os três discutirem sobre a escolha, encostado na pilastra da sala da casa de Dougie. Não estavam se matando, o que era bom. Mas não conseguiram concordar com a mesma ideia. O que levou o baterista a dar a cartada final e ele mesmo escolheu, a contragosto dos amigos. E ali estavam eles, precisando de uma ajuda que não era o papel de . Ficariam de conversar com o produtor musical, Jason Perry. Ela era só a produtora vocal da banda. Tinha tanta responsabilidade quanto Jason, claro, mas ele era responsável pela banda para que eles alcançassem a melhor performance e também pudessem tomar as decisões que mais se adequam.
No entanto, em um consenso, eles decidiram encerrar a gravação. Não iria resolver nada ficarem nessa tentativa falha, então preferiram acabar com o ensaio. sugeriu que eles fossem a um bar que conhecia, era um lugar onde um de seus amigos tocavam. Os garotos concordaram e também aceitou. Estava cansada e sabia que não ia conseguir avançar nos ensaios se continuasse os forçando.
***
A luzes baixas piscavam em tons quentes dentro do bar cheio, que ecoava com o som de guitarras. Era um ambiente com uma energia acolhedora e vibrante, e sorriu para a colega enquanto ela ajustava o casaco.
— Eu sei que eles têm ensaios intensos e precisam desse deadline. Mas acredito que um pouco de música ao vivo vai ajudá-los também. Meu amigo vai tocar hoje, então queria que vocês viessem e pudessem aproveitar. — Ele murmurou ao lado de , que pareceu ainda um pouco hesitante com a ideia.
Eles precisavam estar inteiros para o dia seguinte, tinham que se lembrar das responsabilidades no estúdio.
caminhava entre eles com a postura mais relaxada e sorria, rindo das piadas dos garotos e se deixando fazer um comentário sobre a música ao vivo.
— Cara, ela tem uma mistura de humor que não consigo entender… — sussurrou para Dougie, com um sorriso. — E olha como ela parece… solta. Quase irreconhecível em comparação com o estúdio.
— Nem me fala… Ela não exige nada. Ri e brinca, não achei nem que ela soubesse o que era sorrir. — O baixista respondeu, tomando um gole de seu negroni.
Ele se encostou na parede, enquanto conversava com o amigo. mal percebeu os olhares que recebia enquanto puxava uma cadeira para se sentar ao lado de . Conseguiu sentir quando a tensão acumulada do dia começou a se dissipar.
— Acho que… quando estou fora do estúdio, consigo relaxar mais. E, honestamente, ouvir música assim é revigorante.
Tu vois? — disse baixo, e ela olhou com o cenho franzido. — Claro que consegue, a música precisa de um espaço para respirar.
Ele piscou para a colega, que entendeu o trocadilho sobre a técnica vocal, mas continuou perdida com o comentário em francês do garoto.
— O que você acabou de falar?
Ele riu baixo, os olhos claros a encarando com sinceridade.
— “Você vê”. É como dizer “sabe o que eu quero dizer?” — Ele respondeu com o sotaque arrastado, um pouco rouco.
— Gostei disso, achei bastante sofisticado.
Ele se encostou na cadeira e sorriu satisfeito.
— O francês sempre soa melhor, non?
— Convencido. — riu e rolou os olhos, enquanto ainda sorria.
Ele sabia que ela precisava de um intervalo para poder respirar, e reconhecia a rotina cansativa que era trabalhar com músicos. Ele gostava, mas não podia negar que algumas vezes era um pouco torturante.
Ele ergueu o copo para um pequeno brinde e murmurou para ela.
Tourojurs. Sempre.
— Eu tenho um hábito horrível de querer que tudo lá fora funcione da maneira que eu quero, mas aqui… Aqui, ninguém depende de mim.
A garota tentou disfarçar a cara de confusa quando o amigo não traduziu o que havia falado.
— Você deveria colocar legendas quando fala desse jeito.
— Mas perde o charme. — Ele retrucou com um sorriso um pouco meticuloso.
Os continuaram conversando, rindo algumas vezes enquanto contava sobre sua vida na França. Estavam distraídos e alheios ao bar, antes de Harry e se sentarem com eles e engataram uma conversa sobre o assunto. conseguiu se sentir mais leve e mais solta perto dos músicos. Mesmo que já tivesse encontrado o baterista alguns dias atrás na rua. E ela sabia que eles eram extremamente gentis e encantadores, mas sabia que precisava impor um limite quando estavam trabalhando juntos para que não virasse bagunça.
A produtora vocal se levantou e seguiu até o balcão do bar, não queria esperar a disposição de um garçom para ir até a mesa. E mesmo que tivesse se oferecido para ir pegar a bebida, ela negou e agradeceu o favor. estava de costas e não viu quando um sujeito apareceu por trás, falando alto demais enquanto se aproximava dela. No começo, ela tentou ser educada e desviava o olhar do rapaz para o bar, dando respostas curtas ao homem. Mas ele não parecia entender ou sequer se importar com o recado.
Odiava esse tipo de assédio. Sabia se impor, mas odiava ter que ser provocada até o limite e isso a deixava extremamente nervosa.
— Vem, só uma dança. — O rapaz insistiu, o hálito forte emanava cerveja e ele lhe lançava um sorriso bêbado.
— Eu já disse que não. E também não é não. — Ela respondeu firme, com o maxilar travado.
estava mais afastado e ria de uma piada de e Harry, então não via daquele ângulo. E ela não queria causar uma cena, mas, mesmo assim, ele se aproximou ainda mais - os dedos dele quase encostando em seu braço, fazendo-a recuar. Estava pronta para dizer algo e xingá-lo, mas uma voz atrás dela cortou o ar antes que pudesse abrir a boca.
— Eu acho que ela deixou bem claro que não quer, cara. — Dougie apareceu, o olhar gélido e o cotovelo apoiado no balcão como se nada estivesse acontecendo.
O homem se virou e mediu o baixista de cima a baixo, confuso.
— E quem diabos é você?
— O cara que vai te ensinar o significado de “não enche”, se continuar insistindo. — Ele respondeu, ainda duro, mas com um sorriso calmo para contrastar com o tom seco.
O rapaz hesitou, mas saiu bufando, percebendo que não valia a pena. Ainda murmurou algo inaudível enquanto se afastava dos dois e soltou o ar que estava prendendo.
— Não precisava, Dougie. — Ela disse, a voz um pouco tensa e o corpo completamente travado.
— Precisava sim. Eu vi que você estava a ponto de socá-lo. — Poynter rebateu sem tirar os olhos dos homem que ainda se afastava.
— Talvez eu faria isso.
Ele se encostou de leve no balcão, rindo baixo. Por um momento, teve a impressão de que aquela era a primeira vez que o via sorrir em duas semanas. Mal se lembra de tê-lo visto rir ou sorrir em todos os momentos em que eles estavam no estúdio.
— Seria uma ótima cena, pra ser sincero.
— E o herói da noite ia acabar assistindo de camarote. — Ela balançou a cabeça, pegando o copo que estava em cima do balcão há alguns minutos.
Ele inclinou a cabeça, sorrindo maliciosamente para ela. Tentou disfarçar a maneira que seu corpo quase respondeu com uma falha na Matrix por um momento, talvez estivesse precisando de um tapa na cabeça.
— Quem disse que eu sou o herói? Eu só odeio babacas.
Ela soltou uma risada curta e a tensão pareceu diminuir. Talvez não fosse tão ruim se comunicar com Poynter, talvez só precisavam estar no lugar certo e na hora certa. Estavam se distraindo do trabalho, as coisas pareciam mais fáceis assim.
O resto da noite se estendeu com diversas risadas e algumas bebidas. ficou feliz de ver e os garotos se soltarem e se conhecerem mais. Curtiram a banda do amigo do francês e se divertiram com o som do ambiente, era bom poder estar ali durante a semana porque sabia que o trabalho não estava o matando. Ele sentiu que Dougie também parecia menos travado e menos intimidado perto da produtora, mas reparou que algumas vezes ele parecia mais cabisbaixo que o normal.
Poynter tinha certeza que sabia disfarçar quando algo não estava bem, mas não imaginava que alguns olhares ali conseguiam decifrá-lo sem dificuldade alguma.
Ele acordou com a cabeça meio pesada no dia seguinte. No minuto que abriu os olhos, percebeu que tinha bebido álcool e resmungou. Estava se odiando por estar com uma ressaca porque, primeiro, não bebia mais há muito tempo. E segundo, justamente quando estava ensaiando para os shows. Ele ficou com raiva quando se lembrou da merda que foi a gravação no dia anterior. Não estava arrependido de ter saído e se divertido, mas não estava feliz por beber e sabia que já teve dificuldade para ficar sóbrio antes.
Levantou-se e seguiu para o banheiro, onde fez toda sua rotina matinal em um banho quase frio. Agradeceu que a primavera estava morna, então não teve tanto problema para se arrepender depois. Ficou dissociando diversas vezes enquanto tomava seu café da manhã e olhava as redes sociais. Entrou no Instagram e viu que havia sido marcado em um carrossel de fotos que postou em seu perfil. Alguns cliques borrados propositalmente, enquanto todos saíam sorridentes para a foto. Percebeu como estava feliz na foto, mas tinha noção de que o álcool sempre ajudava a melhorar seu humor. Colocou o aparelho de lado e terminou de se arrumar antes de ir para o estúdio de novo.
Ligou a moto e seguiu o caminho até o endereço, cantarolando Down Goes Another One durante o trajeto. Precisava que terminassem a faixa o quanto antes para que pudessem seguir com as outras músicas. Chegou antes mesmo de e aproveitou para aquecer a voz. já estava lá ao lado de , e caminhou até o baixista para ajudá-lo.
Os primeiros cinco minutos foram tranquilos, mas ela percebeu que o rapaz estava soltando o ar antes do tempo. E pelos olhares que ele recebia, já sabia que seria interrompido a qualquer momento. Talvez não estivesse com o melhor dos humores naquela manhã, e ele entendia que a culpa de estar zoado era completamente dele. Mas ela não estava colaborando. Dougie bufou e esfregou os olhos, bagunçando o cabelo logo em seguida.
— Sinceramente, tivemos produtores e coaches vocais antes e nunca foi esse show de horrores. — Ele resmungou.
— Show de horrores? — se afastou minimamente e arqueou a sobrancelha. — Não sou eu que estou soltando o ar antes do tempo, Poynter.
O garoto rolou os olhos e apoiou as mãos na cintura. Ele sabia que aquele era o trabalho dela e sabia que ele precisava fazer a parte dele.
— Tá tudo ruim, sério. E você olhando com essa cara não ajuda em porra nenhuma.
A atitude grotesca dele a assustou. Depois da última vez que se desentenderam, não imaginou que fosse discutir com ele de novo, principalmente porque ele tinha plena consciência de que o ambiente de trabalho precisava ser respeitado.
E ele estava longe de ser respeitoso. E era tudo culpa dele.
— De novo, porque acredito que você não entendeu quando falei… — Ela retrucou, a voz carregada com dureza. — Estou fazendo o meu trabalho, estou tentando ajudar o máximo que eu posso.
Ele riu debochado, balançou a cabeça uma vez e mordeu o lábio.
— Ou você realmente não gosta do nosso trabalho, ou não está conseguindo dar conta. Das duas uma, . Não vai resolver você ficar interrompendo e fazendo essa cara de que nada está bom.
estava dentro da cabine e não ouvia muito, não sabia se deveria intervir ou ficar em seu lugar e deixar os dois se resolverem.
— Ou você não gosta de mim, Dougie. É o que me parece. Já pedi para que me respeite e respeite o meu trabalho, se não consegue fazer isso, o problema não é meu.
O baixista estava prestes a responder, quando a porta principal se abriu e adentrou com em seu encalço e Harry logo atrás. Os dois olharam para os outros rapazes, afastando-se um do outro imediatamente. Os três perceberam o clima e reconheceram o olhar estampado no rosto dele. não deu esse direito a eles, já que se virou de costas e voltou para a cabine, onde se manteve firme e preferiu ignorar o que havia acabado de acontecer. O problema, na verdade, era com ela. E ela tinha certeza disso, porque os outros rapazes não haviam falado nada diretamente a ela. Mesmo que não estivessem contentes com os aquecimentos e com as instruções, mas eles sabiam que precisavam de um apoio, e que o trabalho dela era esse. Ela só não entendia o motivo para ser alvo de retaliação de tal maneira, quando tudo o que estava fazendo era tentar ajudá-los.
tentou conversar sobre o assunto, mas repensou diversas vezes em respeito ao espaço pessoal da colega. Mas quando deixaram o estúdio, ele ofereceu carona e a levou para casa. O francês tentou quebrar o silêncio algumas vezes para que ela não ficasse tão chateada, mas não adiantou de muito. ia precisar de muita paciência e empoderamento para poder lidar com um cara amargurado e mal-educado.
Ela chegou em casa e correu para tomar um banho demorado, pensando no que jantaria. Estava evitando a todo custo relembrar do ensaio que havia se tornado completamente caótico. Os amigos quase brigaram, Dougie parecia estar tentando sair do tom propositalmente, mas levou bronca de e imediatamente colaborou. Era só o começo.
Estava deitada no sofá, o cabelo preso de qualquer jeito, pois não poderia se importar menos. Bebericava um chá morno, enquanto olhava um programa aleatório que passava na televisão. Não estava prestando atenção, no caso. O que a tirou de seus devaneios foi a mensagem que recebeu em seu celular, que vibrou ao lado da almofada. Era .
: É impressão minha ou a semana começou completamente caótica?
Ela deu um meio sorriso.
: Sim. Mal estamos na quinta-feira e já estou meio viva e meio morta. (Mais pra morta, pra ser sincera).
: Quer que eu te leve café e flores ou já é tarde demais pra te salvar?
A garota riu baixo, pensando em como ele sempre arranjava um jeito de arrancar uma reação dela, mesmo nos piores dias.
: Acho que café ajudaria, as flores morrem rápido demais.
: Igual você, aparentemente. Hehe.
: Engraçadinho.
: Eu tento. O que você tá fazendo?
: Tentando assistir alguma coisa, mas não tô conseguindo focar.
: Tá assistindo o que, grognon?
: Eu vou pesquisar isso no Google, mas aposto que você criou um adjetivo pra mim e que eu vou odiar.
: Nem sei, só deixei a TV ligada.
: Hahahaha. Você vai gostar, vai.
: Péssima companhia, então. Ainda bem que tô aqui pra salvar sua noite.
: Nossa, que modesto.
: Realista.
Ela se ajeitou no sofá, sorrindo. O tom da conversa era leve e quase terapêutico, principalmente porque não tinha nenhuma menção do trabalho, de brigas. Só sendo ele mesmo. Um pouco convencido, meio gentil, mas impossível de ignorar.
Talvez bastasse uma conversa boba com o rapaz mais insistente e atencioso que ela conheceu para que pudesse se sentir mais leve. Pelo menos tinha a companhia dele no trabalho. Ele só queria uma pessoa para conversar, e ela precisava se soltar.

Capítulo 4

— Cara, não dá pra você continuar tratando a assim. A gente trabalha com ela. — Harry falou enquanto se sentava no sofá da casa de Dougie.
— Eu já tô ficando irritado com o jeito que ela trata nosso trabalho também. — O amigo resmungou, abrindo uma lata de cerveja. Sem álcool, claro.
— Mas esse é literalmente o trabalho dela. — Harry rolou os olhos. — Você tem sido muito babaca com ela. Tá acontecendo alguma coisa?
Dougie se remexeu com a pergunta, não queria entrar no assunto e muito menos ter que desabafar sobre. Estava querendo deixar as coisas o mais normal que pudesse.
— Não. — A resposta era firme, mas o tom de voz foi suficiente para que o amigo fosse esperto para entender que aquilo era mentira.
— Você mente que nem sente, cara. O que aconteceu?
— Nada, Harry.
O baterista quis insistir, e talvez seria errado continuar forçando o garoto a falar quando ele não queria. Mas precisava entender qual era o problema dele e se ele poderia ajudar. Os dois permaneceram em silêncio por alguns segundos, antes de Judd se virar para ele de novo.
— Você sabe que…
— Porra, Judd! — Ele reclamou, assustando o amigo. — Você é muito insistente, Deus do céu. Minha mãe tá com problemas em casa, por causa do meu padrasto.
Eles se olharam com uma certa intensidade e Harry entortou a boca, assentindo vagarosamente.
— E… isso tem me tirado toda a concentração porque estou aqui e não posso fazer nada por ela. Jazzie tem passado um tempo lá com ela, mas ela tem que cuidar do meu sobrinho.
— Ah, cara. Você deveria ter falado isso antes, nós teríamos dado um jeito de te ajudar.
— Eu sei, e agradeço. Mas preciso lidar com os meus problemas sozinho sem envolver ninguém. — O garoto bebeu um gole da cerveja, fazendo careta logo em seguida. O amargor se misturou com o ressentimento que estava preso em sua garganta.
— Você precisa falar pros caras. A gente vai entender se você precisar de um tempo… Podemos arranjar uma desculpa pra também–
— Não. — Dougie o interrompeu imediatamente. — Quero que se foda. Não devo satisfações a ela.
— Mas ela precisa entender o que tá acontecendo, Poynter. Ela vai achar que você tá fazendo isso de propósito.
— Que ache. Não tô nem aí. Só quero terminar esse álbum logo e ficar livre só com a turnê.
Os dois passaram as próximas horas jogando e conversando. Dougie encerrou o assunto e não voltou a falar dele, pelo menos por um bom tempo. Sua cabeça estava cheia e ele se sentia pressionado com a gravação do álbum, os ensaios e a turnê; principalmente porque sabia que sua mãe estava lidando com um momento bastante vulnerável em casa. Sua irmã estava tentando dar conta da situação, mas ele sentia-se fraco por não poder estar lá. Queria que Londres fosse mais perto de Essex, queria poder ajudar a mãe.
Os próximos dias para ele correram quase no automático, simplesmente obedecendo os pedidos de , enquanto ensaiavam as músicas que davam mais trabalho para tocarem. cochichava quase o tempo todo, tentando não chamar atenção de , mas recebia cotoveladas discretas de , que tentava disfarçar a risada enquanto aproveitava o curto intervalo entre uma música e outra.
A garota se esforçava para não dar bronca nos rapazes a cada meia hora, mesmo que isso estivesse quase a corroendo por dentro. Na verdade, o melhor seria mesmo eles se distraírem durante o ensaio, ou acabariam se cansando rápido. Dougie evitava muito contato visual com ela, já não bastava ter respondido ela como um ogro, não precisava ter que sentir o olhar enfurecido dela em cima dele.
Estavam saindo do estúdio mais cedo, seria bom para poderem aproveitar melhor o fim do dia para descansarem e se organizarem melhor; tanto para a finalização do álbum, quanto para o início da turnê. foi embora, sobrando só , e Dougie.
O músico mais velho saiu para ir ao banheiro, deixando os dois sozinhos e um clima nada amistoso entre eles no ar. Ela arrumava as coisas na bolsa, enquanto o loiro guardava o baixo no case, em silêncio. Mas ela odiava o silêncio, coisas mal-resolvidas – e odiava gente com o cenho franzido o tempo todo.
— Vai ficar com rugas muito cedo, Poynter. — Ela quebrou a calmaria, não esperava que ele fosse responder mesmo. — Tá com a testa toda franzida.
Ele ignorou, fingiu que não ouviu, e continuou guardando as coisas.
queria quebrar o gelo, queria irritá-lo, tirá-lo dos eixos. Só por um pouco de diversão.
— Eu sei que não sou a pessoa mais fácil. — Ela começou de novo. Dessa vez, ouviu a lufada de ar que ele soltou pela boca, rolando os olhos. — Estou tentando amenizar essa tensão toda entre a gente, vamos entrar em turnê e acredito que essa não é a melhor maneira pra começar os trabalhos.
Ele parou o que estava fazendo, endireitou a coluna, mas continuou parado de costas para ela. Segurou a cintura com as duas mãos, apertando os lábios.
— Você reclama de tudo o que fazemos, e isso irrita. Você vai falar “ai, mas é pro bem de vocês”... — Ele a imitou, o que arrancou dela uma puxada de ar, chocada. — Mas na real, , estamos nessa há anos.
— Eu sei disso, Jason Perry é um profissional maravilhoso. — Ela soltou os ombros. — Acho que falta um pouco de maturidade, vocês brincam o tempo todo, e…
Dougie se virou bruscamente, as sobrancelhas ainda arqueadas.
— Agora, além de tudo, somos imaturos?
se arrependeu amargamente pela escolha das palavras, passando uma mão na nuca.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Parece bastante com isso.
— Dougie, escuta–
— Não, eu tô escutando direitinho. — Ele riu sem humor, apontando de leve pra ela. — Primeiro você critica a forma que a gente trabalha, depois age como se ninguém aqui soubesse cantar, agora somos um bando de crianças. Tá ficando divertido.
respirou fundo, sentindo o maxilar tensionar.
— Eu quis dizer que vocês se distraem fácil demais. Só isso.
— E qual o problema de brincar um pouco?
— Nenhum, quando vocês conseguem focar depois. Mas às vezes eu preciso repetir a mesma coisa quatro vezes porque vocês começam a fazer piada no meio do exercício.
Dougie desviou o olhar por um instante, bufando baixo.
— Talvez porque o ensaio de vocal não precise parecer um funeral.
— E talvez vocês levassem menos bronca se me ouvissem na primeira vez.
O silêncio caiu pesado entre os dois por um segundo. Dougie a encarava com os braços cruzados, a mandíbula travada, enquanto tentava desesperadamente não piorar a situação.
— Você chegou agora… — Ele disse mais baixo dessa vez, mas ainda duro. — Não faz ideia de como a gente funciona.
sustentou o olhar dele, mesmo sentindo o desconforto apertar no peito.
— E você não faz ideia da pressão que eu tô recebendo pra que isso funcione.
Aquilo pareceu fazê-lo hesitar por um instante. Muito rápido, quase imperceptível. Mas Dougie recuou antes que qualquer compreensão pudesse aparecer.
— Então boa sorte tentando mudar a gente, .
Ela apertou os lábios.
— Não tô tentando mudar vocês. Só tô tentando ajudar.
— Pois parece o contrário às vezes.
sentiu o estômago afundar levemente. A discussão tinha saído completamente do controle, e ela odiava perceber que parte da culpa era dela também. Escolhera mal as palavras, deixara a irritação escapar num momento em que deveria ter sido profissional.
Dougie passou a mão no cabelo bagunçado, claramente irritado demais pra continuar ali.
Quando voltou do banheiro, o que demorou quase cinco minutos, o clima já estava completamente diferente. Constrangedor. Os dois já não se encaravam mais, porém, ele reparou em como o amigo tirava algumas coisas e guardava com certa força.
— Ai, Deus, vocês dois nesse clima de novo? — O vocalista falou, a entonação um pouco divertida, mas ao mesmo tempo meio autoritário.
sorriu para ele, adorava .
— Toda grande amizade começa com um pouco de atrito, não é Dougie? — Ela respondeu, um pouco debochada.
O baixista virou-se para ela bruscamente, um sorriso completamente à altura do deboche dela.
— Claro.
apenas semicerrou os olhos, claramente não acreditando na resposta dela, mas preferiu ignorar.
— Pra mim isso é tensão sexual, isso sim. — Ele murmurou.
Os dois abriram a boca, evitaram se olhar, mas ele sabia o que havia feito. Plantou a sementinha da discórdia para causar um alvoroço; e havia dado certo.
— Ai, , sério. Vai se foder. — Dougie retaliou.
pendurou a bolsa no ombro e se virou para o amigo antes de deixar o estúdio.
— Eu acho que é TPM. — Ela se despediu de , deixando o loiro atrás dele com cara de tacho.
O cantor riu da cara de Dougie, jogando a cabeça para trás, enquanto o rapaz bufou, terminando de arrumar as coisas. Ela passou por Dougie sem encostar nele, mas sentindo claramente o olhar do rapaz acompanhando seus movimentos por um segundo longo demais.
A porta do estúdio bateu atrás dela. O silêncio durou exatamente dois segundos.
Então começou a rir outra vez. Dougie bufou irritado, terminando de guardar o baixo.
— Você é insuportável.
Os dois foram embora do estúdio juntos, na moto do baixista, que deu carona para o amigo.
Dougie chegou em casa, jogou a mochila na poltrona e foi para o banho. O dia foi puxado, como sempre, mas além do dia corrido ainda tinha sua mãe e o problema com o padrasto. Depois de ter sido traída, Sam queria o divórcio, mas o marido não queria, o que estava causando problemas em sua família. A mãe estava sofrendo, e Jazzie não conseguia dar conta de dar apoio à ela por ter o filho pequeno.
O baixista suspirou embaixo do chuveiro, queria poder estar lá por ela, mas ao mesmo tempo sabia que ela ia preferir que ele focasse no trabalho. Quando saiu do banheiro, foi em busca de algo para comer, mas parou em frente ao frigobar e pegou uma cerveja. Era para ele ter parado com o hábito de beber alguma coisa sempre que estivesse frustrado, mas não conseguia se segurar.
Ele precisava voltar pra terapia urgente.
Não queria ter que pensar no trabalho ou em como sua relação com estava indo de mal à pior. Ele era teimoso. Além de estar estressado, estava descontando na pessoa errada e ele sabia disso, mas não conseguia controlar os nervos cada vez que ela abria a boca pra reclamar de algo. é linda, isso é incontestável. Mas irritante demais.
Ela separou as anotações em uma pasta e mandou mensagem para Jason. Estava preparando os ajustes finais para o ensaio do álbum, organizando as planilhas e os horários. Estava ansiosa para a turnê, sabia que passar tempo demais longe da família era complicado, mas foi o trabalho que ela escolheu. Sentiria falta de chegar de surpresa na casa da mãe carregando um pacote de bagels para o café da manhã, e seu irmão Liam ficava tão feliz em vê-la.
Sentou-se na cama para descansar e pegou o celular para olhar as redes sociais. Precisava se alienar um pouco. Olhou o grupo com os garotos, nada de mais lá. Olhou o Instagram e ficou presa em vários reels divertidos. O celular brilhou com uma mensagem de , as sobrancelhas dela ergueram imediatamente com surpresa.
Mcfly: Preciso ficar preocupado com o meu amigo de TPM?
Ela riu antes de abrir a mensagem.
: Melhor preparar uma bolsa com água quente, um chá inglês e alguma coisa doce.
McFly: Sabia. Ele tá muito irritadinho hoje.
: “Irritadinho” é uma palavra gentil.
McFly: Ele ficou puto porque o começou a cantar Careless Whisper quando você saiu.
Dessa vez ela gargalhou baixo.
: Meu Deus, vocês têm 12 anos?
McFly: Mentalmente? Sim. Fisicamente? Também às vezes.
Que eles agiam feito crianças ela já sabia, agora precisava estar preparada também mentalmente para lidar com o convívio entre quatro rapazes. Talvez três, porque Harry ainda parece ser menos palhaço que os outros. Claro que ela já sabia da personalidade deles, pelo menos quando assistia aos vídeos. Agora, pessoalmente, talvez precisasse de mais preparo.
balançou a cabeça, ainda sorrindo enquanto jogava o celular na cama.
Mas odiou perceber que, no fundo, conseguia imaginar perfeitamente Dougie emburrado no canto do estúdio, bufando enquanto fingia que não tinha se abalado.
Ele já estava puto o suficiente com os problemas em família, não precisava que a produtora o provocasse ou o incomodasse mais do que ele já estava irritado.
Acendeu um cigarro enquanto tentava se concentrar no episódio do seriado que passava na TV, tragou a fumaça e sentiu os músculos relaxarem. Sabia que se arrependeria daquilo depois, já estava sem fumar há muito tempo e mal se lembrava de como era. Estava se deixando levar pelo cansaço mental e a irritação, e claramente aquele não era o melhor caminho. Não esperou a ponta queimar até a metade, decidiu jogá-lo fora assim que sentiu o enjoo subir à garganta, e escovou os dentes para tentar tirar o gosto horrível.
— Como que Harry consegue fazer isso? — Questionou-se. Ambos se acostumaram desde muito cedo com o cigarro, o que se tornou um vício diário.
Depois que passou dos vinte, Dougie decidiu que tentaria largar esse vício. Já Harry, nem tanto, mas já tinha deixado de consumir muito mais do que acostumou.
O baixista mudou muito desde que foi parar na rehab pela primeira vez; a exaustão, frustração e vício com a cocaína e o benzodiazepínico o levaram à ruína. E ele não queria voltar para lá. Já estava limpo há muitos anos, inclusive do álcool. As cervejas que comprava eram todas sem álcool.
Ele precisava estar bem pra começar a turnê. E queria que a mãe estivesse bem também.

Capítulo 5

entrou e sentou na mesa de som, enquanto esperava os garotos chegarem e se organizarem. O álbum estava em processo de finalização, mas eles ainda precisavam gravar alguns trechos e reajustar acordes.
— Bom dia, flores do dia. — falou assim que os quatro se posicionaram em cada banqueta. — Preparados pra mais um dia?
Alguns murmúrios e resmungos, principalmente de , que ainda bebericava seu café. Dougie deu de ombros, e Harry fez um joinha. foi o único que se prontificou em responder, já que os amigos ainda estavam com o cérebro em processamento.
— Acho que, se não terminarmos esse álbum hoje, vamos acabar nos matando.
O técnico deu uma risada, ele sabia muito bem como estava sendo a convivência.
decidiu que precisava deixar o ambiente mais leve, então trouxe algumas ideias para trabalhar com eles. Esperava que Dougie estivesse disposto a ajudar com aquilo, mesmo tendo consciência de que sua relação com ele ainda estava um pouco complicada. Mesmo sabendo que os amigos dele estavam tentando - de algum jeito - fazer com que o baixista pudesse se sentir mais à vontade. Afinal, os outros três também têm o direito de reclamar quando não gostam de algo, mas o "problema" é ele.
Harry mexia distraidamente nas baquetas enquanto observava alguma coisa no computador do estúdio. estava largado no sofá com a cabeça caída pra trás, dramaticamente acabado, enquanto Dougie dedilhava o baixo sem muita força, ainda meio emburrado depois da noite mal dormida anterior.
foi o primeiro a notar entrando com um copo de café numa mão e uma expressão supostamente calma no rosto.
— Ah, não… — murmurou imediatamente, erguendo a cabeça. — Essa cara significa problema.
— Concordo — Dougie respondeu sem nem olhar. — Ela tá muito tranquila.
ignorou os dois, apoiando o café sobre a mesa.
— Como vocês estão insuportáveis hoje, eu decidi mudar o cronograma.
ergueu as sobrancelhas.
— Eu nem fiz nada e tô levando de graça!
— Isso me soa perigoso. — Harry cruzou os braços, mas não se opôs à ideia dela.
apenas sorriu de canto, observando-a. Já conhecia aquele olhar, ela tinha planejado alguma coisa.
— Antes da última sessão, nós vamos fazer uma dinâmica.
soltou um gemido alto.
— Meu Deus, ela realmente virou professora.
— Cala a boca e escuta.
— Sim, senhora . — Ele respondeu tal qual uma criança, obedecendo.
Ela respirou fundo, claramente escolhendo ignorar.
— A dinâmica é simples: vocês vão trocar de funções por alguns minutos.
O silêncio foi imediato, então começou a rir.
— Não. Não, não, não. Isso é brilhante.
Dougie finalmente ergueu a cabeça.
— Espera. O quê?
cruzou os braços, séria demais pro absurdo da situação.
— Cada um vai imitar outro integrante. Jeito de falar, postura, hábitos… qualquer coisa.
Harry praticamente se curvou na bateria de tanto rir.
— Ah, isso vai acabar horrivelmente.
— Exatamente por isso vai funcionar. — comentou calmamente.
levantou num salto do sofá, ainda como uma criança.
— Eu quero ser o Dougie! — Ele praticamente gritou.
— Claro que quer. — Dougie rebateu imediatamente. — Porque seu sonho é ser talentoso.
rolou os olhos, resmungando.
— Não seja tão modesto, você é o primeiro que leva bronca por fazer exatamente tudo ao contrário.
O baixista olhou feio pra ele, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, pegou algumas folhas que havia separado.
— Eu já escolhi quem será quem. Assim evita panelinha.
— Não sei se deveria confiar em você. — murmurou, um pouco desconfiado.
Ela sorriu, um pouco maliciosa, e sentou-se na banqueta de frente para eles.
, você vai fazer o . — Ela começou, e o guitarrista sorriu. Não achou a ideia tão ruim. — , você vai imitar o Dougie.
— Você me odeia mesmo. — O baixista resmungou, rolando os olhos, mas levou na brincadeira e o ignorou.
— Dougie, você vai fazer Harry. E Harry, você faz o .
Eles se entreolharam, e imediatamente levantou do sofá e começou a andar pelo estúdio igual fazia quando ficava agitado, mexendo nas mãos sem parar.
— “Gente, gente, gente, escuta isso aqui.” — Ele começou, aumentando exageradamente o volume da voz. — “Essa ideia é genial. Não, espera. Melhor ainda. E se eu gritasse?”
caiu na gargalhada instantaneamente.
— EU NÃO SOU ASSIM. — Todos olharam pra ele em silêncio. — Tá… talvez um pouco.
Harry quase deixou as baquetas caírem de tanto rir. apontou discretamente pra .
— Você literalmente faz isso toda manhã.
— Isso é energia criativa.
— Isso é hiperatividade — Dougie corrigiu.
observava a cena tentando manter a compostura, mas o sorriso escapava toda hora.
Então foi a vez de imitar o amigo mais novo. Ele se levantou, pigarreou teatralmente e segurou o riso antes de começar a incorporar o personagem. Passou a mão no cabelo de propósito, tentando bagunçar igual o de Dougie, pegou um baixo imaginário e imediatamente assumiu uma expressão emburrada.
— “Não.” — começou num tom arrastado e absurdamente parecido. — “Não quero.”
O estúdio veio abaixo instantaneamente. Até arregalou os olhos.
— Isso foi assustador. — comentou entre risadas.
começou a andar lentamente pelo estúdio com cara de poucos amigos.
— “, cala a boca.”
— “, você é irritante.”
— “Harry, vai se foder.”
Dougie já ria com a cabeça abaixada.
— Eu não falo assim!
— Fala sim! — Harry respondeu imediatamente.
continuou. E, mesmo que Dougie estivesse rindo, odiava como o amigo estivesse o copiando perfeitamente bem.
— “Não tô bravo.” — Ele então cruzou os braços e encarou o nada dramaticamente. — “Só não quero conversar.”
literalmente se curvou de tanto rir.
— Tá perfeito! Tá perfeito demais!
Dougie pegou uma almofada do sofá e jogou nele.
— Vai se ferrar.
— “Vai se ferrar.” — repetiu no mesmo tom seco.
ria baixo encostado na parede enquanto tentava inutilmente recuperar a compostura.
Dougie apontou pro amigo com o indicador em um tom desafiador, mas completamente inofensivo ao mesmo tempo. O baterista levantou as mãos como quem diz “vai em frente”.
— Tá, agora eu vou destruir o Harry.
Harry abriu os braços, rindo.
— Quero ver você tentar.
Dougie levantou devagar do chão, largando o baixo de lado. Então ajeitou a postura absurdamente reta e respirou fundo como se tivesse acabado de virar uma pessoa zen.
— “Guys…” — Começou num tom calmo demais. — “Talvez vocês devessem beber água.”
Harry imediatamente levou a mão ao peito.
— Ah, pronto.
E então, ele começou a andar lentamente pelo estúdio com passos tranquilos demais.
— “, por favor, para de subir nas coisas.”
já ria antes dele terminar.
— “Talvez devêssemos correr pra nos exercitarmos antes de irmos ensaiar.”
Harry escondia o rosto nas mãos, completamente derrotado.
— Eu odeio o fato de você estar acertando.
quase caiu no sofá de tanto rir.
— NÃO, CARA. ISSO FOI EXATAMENTE ELE.
já ria abertamente agora, os ombros tremendo enquanto tentava recuperar o ar. Dougie percebeu antes de qualquer um. Ele viu que a produtora estava, finalmente, se divertindo com eles, e não dando bronca como costuma. Ela estava conseguindo se distrair da rotina corrida, e por um segundo, o rapaz mordeu a bochecha.
Talvez estivesse realmente sendo um pouco duro com ela, afinal.
Na vez de Harry, ele se levantou da bateria e apontou uma baqueta para .
— Tá. Minha vez.
Harry imediatamente começou a andar de um lado pro outro olhando pro nada, fingindo pensar profundamente.
— “Guys…” — Começou num tom absurdamente parecido com . — “Mas e se a música tivesse… mais emoção?”
arregalou os olhos.
— Ei!
Harry continuou, agora gesticulando dramaticamente:
— “Não, espera, eu tive uma ideia melhor.”
— “Não, pera, outra ideia.”
— “Esquece tudo.”
As gargalhadas ecoaram dentro do estúdio, o som causando um alívio momentâneo entre eles. O estresse acumulado e a pressão para entregarem a demanda foi deixada de lado por alguns minutos, eles estavam precisando daquilo.
Aos poucos, eles foram parando de rir, até que Julie levantou-se da banqueta, ainda sorrindo.
— Viram só? Quebramos o paradigma. Estamos mais relaxados, distraídos e menos tensos.
Os garotos concordaram, enquanto os encarava ao lado da colega.
— Ela tá desmistificando o papel de durona, tu vois?
Eles se entreolharam, não entendendo nada do que o francês havia falado. Pelo menos Harry, Dougie e . Já , pelo visto, não faltou às aulas na escola.
— Ele quis dizer “viu só?”
, tem alguma coisa que você não saiba? — questionou o amigo, surpreso com a habilidade do rapaz de falar outra língua.
— Assobiar, talvez. — Dougie provocou. E eles voltaram a rir.
Não demorou muito até que a banda voltasse cada um para o seu devido lugar, preparando-se para finalizar o álbum. Eles estavam nervosos e receosos, precisavam mandar bem para que o disco saísse de acordo com o que Jason planejava. A finalização demorou bem mais que o esperado, mas eles decidiram que não iriam mais adiar aquilo. Seria mais fácil terminar logo de uma vez, mesmo que estivessem exaustos, do que prolongar o projeto por mais um dia.
Os dedos de Dougie ardiam, já estava rouco, e sentia sede. As costas de Harry passaram dessa pra melhor. e não aguentavam mais ouvir as vozes e os instrumentos dos garotos, torcendo para que não tivessem mais que voltar para o estúdio. Pelo menos para a gravação do álbum; teriam, de qualquer jeito, que ensaiar na turnê. Mas isso seria dali a uma semana, teriam tempo para descansar.
Todos já haviam devidamente guardado seus pertences, enquanto conversavam a respeito do convite feito por . Ele oferecera sua casa, onde morava com a namorada, para que fizessem uma comemoração mais íntima do término do novo álbum no dia seguinte. Estavam decidindo se pediriam pizza, ou se cozinhassem alguma coisa. O vocalista tinha habilidade na cozinha e passou opções aos amigos e colegas, o que causou um breve burburinho.
— Então tá. — parou de rir quando se pronunciou. — Vamos comprar pizza.
Concordaram e saíram do estúdio. ofereceu carona para , enquanto Dougie levava para casa e o resto seguiu para seu próprio carro.

Dougie estava meio quieto enquanto sentava na poltrona de e ouvia os amigos conversarem no sofá à sua frente. havia apresentado Sally a , e as duas engataram uma conversa animada enquanto esperavam pelas pizzas. Os garotos falavam sem parar, rindo de alguma besteira que falava para . A cabeça dele estava em Essex, onde sua mãe ainda procurava maneiras de se divorciar do ex-marido. As pontas dos dedos tamborilavam na taça vinho (sem álcool, claro). Ainda estava cansado de todo o tempo em que passou ensaiando e gravando o álbum, sua cabeça ainda não tinha desacelerado.
Viu de soslaio quando se sentou na ponta do sofá, do lado da poltrona em que ele estava, e sorriu amigavelmente. Ele era um público difícil de agradar e ela sabia bem disso.
— Ansioso? — Ela perguntou, vendo que ele apenas deu de ombros. Sua cabeça acenou para os dedos dele que ainda batiam na taça.
Em nenhum momento ele tirou a mão que apoiava em cima do queixo, um dos dedos na bochecha.
— Tá me analisando agora? — O tom saiu um pouco desagradável, mas ela não levou como um insulto.
— Você tá meio quieto, não para de dedilhar a taça.
Dougie tentou não rolar os olhos, talvez ela estivesse apenas tentando se enturmar, fazer amizade. Seriam longos meses juntos, teria que conviver com ela por muito tempo ainda.
— Talvez eu esteja tocando algo na minha cabeça. — Ele respondeu, ela acenou, mas não acreditou tanto naquilo.
— Você tá bem?
Foi uma pergunta genuína, ele sentiu isso. Só não sabia como responder sem parecer um poço de grosseria, ainda mais porque não estava a fim de conversar. Ele sabia que os amigos o conheciam o suficiente para saberem o momento de lhe darem espaço pessoal, ela não.
— Claro. — Ele sorriu, sem humor nenhum, mas se esforçou para que aquilo não soasse tão sarcástico.
apenas sorriu de volta, sua atenção agora na conversa dos colegas ao seu lado.
Ele reparou que ela ficava mais leve e solta quando não estava trabalhando, viu que ela ria muito e era verdadeiro.
Estavam sentados à mesa enquanto cortavam pedaços da pizza, ouvindo gargalhar descontroladamente enquanto Harry relembrava um dos momentos mais memoráveis da carreira deles quando começaram. O baixista ria com a lembrança, um pouco mais leve, mesmo que não estivesse bebendo nada com álcool. Às vezes era difícil lidar com momentos mais complicados sem poder beber.
ficou pelado pra fora de casa aquele dia, e tava uns 2 graus lá fora. — O baterista explicou, em meio aos risos.
— Sem toalha, sem nada? — questionou, vendo o rapaz assentir com a cabeça. — Mon dieu.
— Aí ele ligou pro Fletch, falou que faria um escândalo se não abríssemos a porta. — Dougie relatou, também rindo.
sabia de algumas coisas sobre eles por vídeos que rodam na internet. Mas outras histórias, como essa, nunca foram compartilhadas nem nos primórdios do YouTube. Ela sempre se divertiu assistindo o conteúdo deles, sempre teve um carinho especial pela banda e sentia-se feliz e orgulhosa de si mesma por estar ali. Faria bons amigos.
quase engasgou com o vinho, o líquido saiu pelo nariz quando ele riu demais. Aquilo arrancou risadas da mesa inteira, e ele precisou se levantar para pegar guardanapo e limpar a bagunça que fez.
Os ombros de Dougie estavam tensos desde que chegaram. O celular dele permanecia virado pra cima perto do prato, algo incomum para alguém que normalmente largava o telefone em qualquer canto. E, de tempos em tempos, ele parecia simplesmente se desligar da conversa por alguns segundos. já tinha notado aquilo no estúdio mais cedo também. Distraído. Impaciente. Quieto demais.
— Não foi no mesmo dia que a polícia bateu na nossa porta? — perguntou, e os amigos assentiram.
— Pera aí, polícia? — indagou, um pouco surpreso que o McFly tinha sido interrogado pela polícia.
Harry pareceu se lembrar de tudo tão claramente, que começou a rir.
— Estávamos chapados na cozinha. Bateram na porta, saiu correndo pro quarto do , que já tinha ido dormir. Dougie se trancou no próprio quarto. — Ele contou entre risos, os três amigos vividamente se lembrando da cena. — Me deixaram sozinho lá, e eu tive que abrir a porta.
— Ele estava desesperado, falando “caralho, é a polícia, e agora?” — acrescentou, tentando não se engasgar com o vinho que segurava.
— Esses filhos da puta me deixaram na mão. E aí, eu tava lá parado, tentando me segurar pra não parecer chapado. — O baterista mostrou a cara de desespero que fez no dia, aterrorizado com a ideia de ter dado de cara com um policial. — No fim, ele tava perguntando por outra pessoa.
— Certeza que você tava se tremendo todo! — riu do rapaz, que acabava sempre se divertindo com a lembrança.
— Ele tava se cagando. — Dougie falou, sorrindo. Era perceptível que ele ainda permanecia mais na dele, quieto, mesmo que estivesse prestando atenção na história.
— O viado do tava ajoelhado rezando na cama do , e o Dougie só saiu do quarto quando viu que o cara já tinha ido embora.
O grupo riu por mais alguns minutos enquanto tentavam não se engasgar com a comida e o vinho. sabia que eles sempre se divertiram durante o começo da banda, principalmente porque moraram juntos.
ria baixo ao lado de quando o celular de Dougie vibrou sobre a mesa. O baixista olhou a tela e o sorriso desapareceu quase imediatamente. Foi sutil, mas ela percebeu. Talvez só tenha percebido porque, quando tentou puxar assunto com ele antes, ele foi um pouco duro. Mesmo que tentasse disfarçar, ela soube diferenciar.
Dougie pegou o telefone rápido demais, levantando-se da mesa com uma cara quase de quem se desculpasse pelo incômodo.
— Já volto.
Ninguém pareceu ligar muito. continuou a história no mesmo instante. As gargalhadas voltaram imediatamente. Mas acompanhou Dougie saindo da cozinha pelo corredor da casa de até desaparecer na sala ao lado, desviando os olhos logo depois, tentando não parecer curiosa.
Porque mesmo que estivesse atenta à conversa, a voz abafada de Dougie atravessava parcialmente o corredor. Não dava pra entender direito, só o tom; aquele timbre baixo e tenso. tomou um gole do vinho enquanto começava a discutir com sobre qual deles era mais caótico no começo da banda. Mas, mesmo tentando focar na conversa, ela percebeu o tempo passando. Cinco minutos, ou talvez mais.
E quando ele voltou, parecia diferente, mais retraído. Sua mandíbula travada marcava o rosto, e o telefone ainda preso na mão com força demais. Ele sentou de novo na cadeira sem olhar muito pra ninguém.
— Tudo bem? — Harry perguntou primeiro, naturalmente.
Dougie assentiu rápido.
— Sim.
Harry sabia que não, mas não iria forçar o assunto na frente de e . Talvez o francês não tivesse percebido os olhares e a entonação, mas ela observou em silêncio enquanto Dougie pegava a latinha ao lado do prato e tomava um gole longo sem realmente prestar atenção ao que fazia. O olhar dele estava distante outra vez.
Porque, apesar das brigas, sarcasmos e discussões constantes… ela nunca tinha visto Dougie parecer tão longe dali.
***

Faltando só três dias para a tour, os garotos se reuniram na casa de para finalmente escolherem a setlist. Colocariam as músicas clássicas de sempre, os singles e algumas do último álbum. Harry sugeriu que escolhessem pelo menos uma do álbum novo como uma prévia, isso causaria alvoroço nos fãs.
Os quatro brigaram por meia hora até entrarem em consenso se deveriam colocar Room on the Third Floor na lista.
— Vocês falam como se nunca tivéssemos cantado essa na vida. — reclamou, se jogando no sofá enquanto bebia a cerveja da lata que segurava.
— Tudo bem, podemos colocar. Mas depois sustenta o vocal. — Dougie digitou no laptop em seu colo, tentando provocar o vocalista.
— Eu sou o cantor principal, docinho. — Ele apertou as bochechas do amigo, que lhe deu um tapa na mão, se desvencilhando dele.
— Vocês são crianças. — jogou a almofada neles, o que causou o começo de uma briga de almofadas.
Harry concordou, eles eram crianças. Talvez ter esse espírito seja mais leve. Já tinham uma pressão muito grande com o trabalho mesmo.
— Tá ansioso pra passar quase três meses com a ? — perguntou enquanto o cutucava com o cotovelo.
Dougie rolou os olhos enquanto ainda digitava.
— Pra caralho. Não vou nem conseguir dormir.
— Admite, Dougie, você até gosta dela. — Harry pôs o dedão do pé no ouvido dele.
Imediatamente ele se levantou, indo se sentar no outro sofá. Bem longe dos palhaços.
— Ela não me suporta. E eu não tenho paciência com ela. — Ele fechou o laptop e o colocou em cima da mesa de centro.
— Ah, cara. Ela faz isso com todo mundo, por que você deveria se sentir especial? — estava certo, e os outros dois concordaram. — Além do mais, ela nem sabe da sua mãe.
Os ombros dele retesaram, a lembrança da mãe lidando com traição era dolorosa até para ele.
— E nem deveria, não tem nada a ver com a minha vida e que fique assim.
Eles seguiram com a setlist. O assunto sobre Sam foi encerrado, e eles continuaram pegando um no pé do outro até que se cansaram e cada um foi para sua respectiva casa. Teriam um longo caminho pela frente.

Capítulo 6

Ninguém estava atrasado. Combinaram no grupo da tour - criada por , a contragosto de todo mundo - que estariam na frente do ônibus às 6h30. Harry estava acostumado em acordar cedo. Quando corria as maratonas, às 4 horas já estava de pé. não gostava muito mas não tinha como se opor, então decidiu que dormiria durante o caminho para Leeds sem problema nenhum. Seriam quatro horas de sono mesmo. estava animadíssimo, trouxe a câmera e determinou que seria o filmmaker da tour. Dougie não gostou nada daquilo; assim que entrou no ônibus, viu o amigo enfiando a câmera em sua cara e bufou.
— Eu nem sei porque ainda me surpreendo com você.
— Humor matinal, que coisa boa. — O cantor ironizou quando ele quase empurrou para o lado.
— Se você começar a me irritar com essa coisa, eu vou enfiar essa câmera na sua bunda.
apenas gargalhou e voltou a gravar Harry e conversando, enquanto esperavam e , que chegariam juntos.
Quando a crew estava completa, o motorista deu partida na viagem. Harry insistiu para que Poynter jogasse videogame com ele, e os dois foram para o lounge no fundo do ônibus.
chamou os dois colegas para acompanharem o que ele chamou de "show de horrores".
— O que vocês costumam jogar? — A produtora se sentou ao lado de , vendo eles ligarem o PS5.
— Fifa. — Harry sorriu.
— Bem previsível! — Ela brincou, mas viu de relance como Dougie a olhou com os olhos semicerrados.
Sorriu. Já estava começando com a provocação logo cedo.
— A gente começa com uma coisa bem humilhante de café da manhã. Principalmente porque o Harry é péssimo jogando. — explicou, fazendo todos, menos o baterista, rirem.
— Ele só aprendeu a jogar Stardew Valley. — riu, deitado no sofá do outro lado.
— Você não tava tentando dormir? Então cala a boca. — Harry retrucou, em um tom mais amistoso, mas mesmo assim arrancou risadas.
— E você joga alguma coisa, afinal? — Dougie olhou para , queria não parecer um adolescente rebatendo uma provocação, mas sabia que ela iria irritá-lo o tempo todo.
Ela sorriu, antes de falar que adorava jogar qualquer coisa que fosse de ação e aventura. Estava viciada em jogar Star Wars Fallen Order e Jedi. Conseguiu causar surpresa nele e . Principalmente , que era a pessoa mais geek naquela banda. O baixista até tentou não parecer interessado em descobrir o que mais ela gostava de jogar e assistir, mas descobriu através do amigo que não parava mais de falar. também adorava jogar, então foi convidado para desafiar Dougie, e acabou sendo massacrado pelo mesmo. Ele e eram habilidosos demais, e Harry só faziam média durante a tour para não passarem tédio. Harry chamou , que negou. Ela relutou bastante, mas acabou dando-se por vencida quando o baixista resmungou para que ela se decidisse logo. Aquela turnê seria longa demais com o mau humor dele.
dormiu o caminho todo como havia previsto. Dougie e Harry seguiram jogando por mais duas horas. assistia a algum documentário, enquanto lia um livro e trabalhava em seu laptop.
Quando chegaram em Leeds, cada um se acomodou em seu respectivo quarto no hotel. Teriam almoço em pouco tempo, e depois já seguiriam para a arena.
Lá dentro, a crew já montava os arranjos e organizava os instrumentos do grupo, enquanto eles conversavam sobre o lugar. O mais difícil ainda seria ensaiar, sabendo que estava ali. No caso, sua função era principalmente o aquecimento, mas seria responsável pela adaptação do repertório e preparação física. Ali ela sabia que não poderia deixá-los na mão, mesmo que estivessem acostumados com o público e os shows.
Ela respirava junto com eles, enquanto Harry se alongava. estava na mesa de mixagem no meio da arena, focado no trabalho.
— Cuidado pra não levantar os ombros, Dougie.
As mãos dele se fecharam em punho para que ele segurasse a vontade de rolar os olhos e bufar.
— Eu conheço uma cara feia de longe, Poynter. — Ela disse, sorrindo.
gargalhou ao lado dele e acabou levando uma cotovelada no estômago.
Ele sorriu de volta, dessa vez, com muito esforço. E um pouco de sarcasmo.
— Eu estou tentando.
se aproximou dele devagar, o que o assustou um pouco, e apoiou as mãos em seus ombros, mantendo-os estáticos. Ficou de frente para ele para que pudesse guiá-lo com mais facilidade.
— Deixe os ombros parados... — Ela começou, enquanto contava a respiração dele. Dougie não queria manter o contato visual, mas não era criança para ficar evitando. — E respira.
Ele repetiu algumas vezes, sentindo os ombros parados sob as mãos de .
Ali que ele pôde sentir, talvez pela primeira vez, o perfume dela. Foi como um curto-circuito, seu cérebro imediatamente entrou em estado de alerta, e ele quis se afastar. Sorriu pra ela da maneira mais forçada do mundo, e murmurou um "obrigado". Isso a fez voltar aos outros três.
Ela continuou com técnicas de vibração e resistência antes de eles subirem ao palco para o ensaio.
, respira mais fundo nessa próxima nota. — Instruiu ela, voltando a atenção para o palco. inclinou-se ligeiramente para ouvir melhor, quase como se compartilhasse silenciosamente o foco dela, e percebeu que, mesmo em meio à correria e ao barulho, havia um conforto inesperado na presença do amigo francês ao seu lado.
O ensaio foi mais tranquilo que o esperado, eles faziam algumas piadas entre uma música e outra. Dougie estava se sentindo menos pressionado por ela, por incrível que pareça. Pelo menos até aquele momento. Mas assim que se lembrou de sua mãe, errou o acorde e sua voz desafinou. Fechou os olhos com força, franzindo o cenho.
Que merda, Poynter.
— Que isso, Doug? — perguntou, vendo que ele sorria de um jeito desajeitado.
— Perdi a porra do tempo.
Recontaram o tempo e voltaram à música. Ele errou mais umas duas vezes e decidiram dar continuidade com as outras músicas e voltariam em Too Close For Comfort depois. Durante o intervalo do ensaio, Dougie foi até o camarim e ligou para a mãe. Sentou no sofá com uma garrafa de água na mão e dedilhou o plástico. Mania de ansiedade. Realmente, ele precisava voltar pra terapia.
— Oi, minha rainha. — Ele disse assim que Sam atendeu. — Como você tá hoje? Estou bem, intervalo do ensaio. Foi tudo bem na viagem. A Jazz tem ido aí?
Ele não notou que o banheiro estava ocupado. estava lá, não viu quando ela saiu primeiro.
— Como você tá? Eu sei que liguei ontem, mãe. Aquele filho da puta falou o quê?
Ele gritou, e evitou fazer algum barulho ou sair do banheiro. Seria grosseiro, já era falta de privacidade ainda estar ali, imóvel. Mas se sentiu mal em sair dali e ele ver que ela ouviu tudo.
— Se eu vir esse cara na minha frente, eu quebro a cara dele! Não quero saber, mãe! Ele te traiu com uma mulher mais nova que eu, são trinta anos de diferença.
A produtora tapou a boca, surpresa, e sentiu por ele. Não devia ser fácil estar passando por isso e não poder estar com a mãe.
Dougie passou a mão pelo rosto, frustrado, coçou a cabeça e respirou fundo.
— Eu posso ir aí esse fim de semana. — A voz dele abaixou um pouco. — Eu não me importo com o dia livre se for preciso ir aí!
sentiu imediatamente que já tinha ouvido demais. Muito mais do que deveria, ela girou a maçaneta devagar, tentando sair sem fazer barulho. Como diabos faria aquilo, afinal? Não teve tempo para pensar em um plano, porque logo em seguida Harry entrou cautelosamente no camarim, falando baixo por conta da ligação.
— Oi… ela já saiu do—
Harry parou no meio da frase, Dougie virou automaticamente ao ouvir a voz do amigo, encontrando parada perto da porta do banheiro. O choque atravessou o rosto dele no mesmo instante.
— …Você tava aí?
imediatamente ergueu as mãos num gesto defensivo.
— Eu não sabia que você tinha entrado.
Harry olhou entre os dois, percebendo o clima estranho na mesma hora.
— Ah. Tá. Eu vou… hm… voltar depois.
Ele saiu do cômodo quase imediatamente, fechando a porta atrás de si sem a menor intenção de participar daquilo. O silêncio ficou pesado.
Dougie ainda segurava o celular contra o ouvido, quando avisou a mãe que precisaria desligar.
— Quanto você ouviu? — Ele perguntou, a mandíbula travada, tensa.
hesitou, tentando se livrar do desconforto que se instalou em seu corpo no momento em que olhou para os olhos azuis.
— O suficiente.
Ele fechou os olhos por um segundo curto, claramente amaldiçoando a situação inteira.
— Ótimo.
— Eu não estava tentando ouvir nada, Dougie. — Ela se defendeu, torcendo desesperadamente para que ele reconheça aquela frase genuína.
Ele abaixou a cabeça, suprindo uma vontade enorme de gritar, mas se segurou. Apertou a ponte do nariz com força, e voltou a olhar para ela. O rosto ainda estava em um gesto duro, mas seus olhos já não pareciam carregar alguma raiva sequer.
— Não fala disso com ninguém. — Ele pediu, quase suplicando.
assentiu, não conseguindo falar mais nada. Ele saiu dali primeiro, deixando ela sozinha parada no meio da sala, sem dar qualquer explicação do que ele havia conversado e do que ela tinha entendido.
Não precisava de um gênio para entender o que tinha acontecido e o motivo de ele estar tão desligado e irritado ultimamente.
O restante do ensaio fluiu melhor, mesmo que o problema com a mãe de Dougie ainda não tenha sido resolvido. O clima estava mais leve, e os garotos conseguiram arrancar algumas risadas entre eles durante uma música e outra. tentava evitar de ficar chamando muita atenção deles, mesmo que já tivesse feito o aquecimento antes. estava concentrado na mesa de mixagem; às vezes, de propósito, ele mexia no volume dos microfones só para irritá-los. E acabou conseguindo.
Ao final do dia, o grupo foi para o hotel descansar, e aproveitou para conversar com a amiga, com quem não falava direito há alguns dias. Já havia a convidado para alguns shows, e conseguiu ingressos VIP para que ela pudesse acompanhá-los de perto e surtou com a novidade. Estava deslumbrada com a sorte da amiga de trabalhar com uma de suas bandas favoritas. sabia do talento dela, e estava orgulhosa de ver até onde ela havia chegado.
A produtora se jogou na cama assim que terminou o banho, ligou a televisão e colocou em qualquer canal que estivesse passando um filme. Não se deu ao trabalho de prestar atenção, pois logo em seguida, ligou para a amiga. Falou sobre a viagem, em como estava se dando bem com os garotos, mesmo sendo a única mulher entre eles, e que estava feliz por estar sendo respeitada. Contou, também, como foi realizar o aquecimento e o ensaio com eles pela primeira vez e se sentiu como uma garota de 12 anos dentro de uma fanfic. Quase deixou escapar o momento constrangedor que passou com Poynter, mas lembrou-se da maneira com que ele pediu para que ela não contasse a ninguém.
Mesmo sendo sua melhor amiga, queria respeitar o pedido dele. E assim o fez.
— Só de vê-los suados depois de um show, acho que já valeria toda a minha vida. — suspirou do outro lado da linha, arrancando uma risada sincera de .
— Amiga, às vezes você esquece que não tem mais 14 anos, né?
fez um barulho com a boca, como quem não se importa de agir como uma menininha.
— Ah, amiga. Eles estão no auge da beleza, né? Já não têm mais 17 anos.
concordou. Não podia deixar de reparar em como estavam bem mais maduros e lindos.
e Dougie ainda andam te dando trabalho?
— Ah, é até um anjo perto do outro. — Ela fez a amiga rir pela maneira como chamou Dougie, e suspirou. — Não tem sido tão fácil, ele é bem cabeça dura. Não aceita muita crítica ainda, acha ruim quando eu reclamo.
— Nossa, o Dougie sempre foi tão bonzinho.
— Tem certeza de que é o mesmo Dougie que estamos falando? — A produtora riu, quando ouviu que a amiga bufou.
— Claro que sim, é o único Dougie que existe. — Disse ela, com um tom de voz meloso e sincero, mas que acabou fazendo rolar os olhos e quase perder a paciência.
— Ele é bonzinho, . Mas é chato pra cacete, pelo menos comigo.
As duas seguiram a conversa e acabaram mudando de assunto, conforme os minutos foram passando. adorava ouvir as histórias que a amiga tinha pra contar, porque sabia que sempre ouviria uma fofoca de bastidor. Sabia que estava solteiro, a garota fez questão de pedir que fizesse uma “ponte” entre os dois e os apresentassem.
Tinha certeza que iria enlouquecer antes mesmo do final da turnê.
Levantou-se depois de pedir um lanche pelo serviço de quarto e abriu a janela, dirigindo-se para a sacada. Não se lembra de já ter viajado para Leeds, então aproveitou para contemplar a vista. Sentou-se na cadeira de descanso, olhando o céu estrelado. Estava feliz de estar ali, trabalhando com o que gosta, mesmo que tenha alguns entraves que lhe tirassem um pouco a paz.
Olhou para o lado quando ouviu um suspiro, e viu que Dougie, encostado no parapeito, olhava para a cidade. Ali, ele parecia mais ele. Aquele cara tranquilo que comentou, mas por dentro sabia que havia uma batalha grande entre tentar se manter calmo, tocar e cuidar da mãe. E ela não sabia nem metade do que estava acontecendo. Pegou-se pensando como ele era quando estava descontraído, leve. Pôde ver um pouco disso durante a dinâmica no ensaio e na casa de , mas foi só uma pequena fração do que ele realmente era. Sabia como os outros eram palhaços, e já viu vários vídeos dele. Sabia da história dele – do vício, da reabilitação.
Quando o rapaz percebeu a presença dela do lado de seu quarto, torceu para que ela não iniciasse uma conversa. Não estava ali para abrir a boca, somente para curtir a movimentação e tomar um ar antes de descansar. Precisava estar bem para o show no dia seguinte, e não queria ter dor de cabeça antes. Os dois ouviram as gargalhadas escandalosas de e Harry no outro quarto, e acabaram se olhando por alguns segundos. Ele chacoalhou a cabeça em indignação; não estava surpreso, já tinha se acostumado com a dificuldade dos amigos em serem discretos.
— Boa noite, Poynter. — falou calmamente, vendo quando ele acenou de volta com a cabeça sem dizer uma palavra.

Dougie estava mordiscando a palheta antes de subirem no palco. Ainda faltavam cerca de vinte minutos, e estavam praticando o aquecimento passado por antes de subirem. mascava um chiclete para tentar diminuir o nervosismo, mas parou no instante em que ela se virou para ele e esticou a mão bem embaixo de seu queixo.
— Por favor, . Cospe isso antes que você trave sua mandíbula. — Ela pediu encarecidamente e, mesmo assim, ele rolou os olhos.
O cantor suspirou teatralmente antes de cuspir a goma na mão dela. Fez o favor de devolver o chiclete com cuspe o suficiente para tirá-la do sério, e riu logo em seguida. fechou os olhos por um segundo inteiro, Dougie imediatamente desviou o rosto porque já estava começando a rir.

— Eu mereço. — Ela murmurou, jogando a goma no lixo, limpando a mão na toalha que estava no ombro dele.
— EI!
— Consequências das suas ações.
gargalhou alto enquanto Harry abaixava a cabeça rindo. Até Sally, sentada no sofá no canto do camarim observando tudo, precisou esconder um sorriso atrás da garrafa de água. Sally observava a interação em silêncio, claramente entretida. Ela conhecia Dougie havia anos — o suficiente pra perceber coisas que outras pessoas talvez não notassem.
E o que mais chamava atenção era justamente aquilo: Ele não costumava se irritar com as pessoas facilmente. E não era como se a produtora fosse realmente uma ameaça para ele, mas ele se sentia incomodado com a maneira pela qual ela os tratava. Ela juntou os três à sua frente e iniciou o aquecimento com vibração dos lábios e humming. Aquilo ali era tranquilo, eles sabiam fazer aquilo de ponta cabeça. A respiração diafragmática que era mais complicada – alguém sempre subia o ombro, em vez de mantê-lo fixo.
Alguém era sempre Dougie. Principalmente porque ele tinha outras coisas na cabeça para se preocupar também. Mas às vezes também tinha mania de ficar mexendo os ombros excessivamente, mesmo que soubesse a maneira certa de fazer o exercício.
, segura os ombros, não deixa eles subirem. — Pediu ao rapaz, que assentiu e obedeceu. Fez a vibração e a respiração ao mesmo tempo para que conseguisse ter mais movimentação.
Viu de olhos fechados, concentrando-se tanto nos movimentos que mal se movia. Chegou em Dougie e ele a olhou, o cenho franzindo imediatamente.
— Sério que tô fazendo isso errado? — Ele resmungou, entre uma respiração e outra. apenas sorriu, apoiando as mãos em seus ombros.
— Poynter, você tá tenso. Solta o corpo um pouco, vai gerar mais oxigenação.
Ele quase, quase bufou na cara dela. Mas se segurou, porque reconhecia que precisava se aquecer do jeito certo para poder ter uma performance melhor no palco.
— “Vai gerar mais oxigenação”. — Ele remedou, em um tom um pouco mais debochado. — Faço isso há anos, professora.
O tom de voz não era rude e nem alto, mas aquilo a incomodou do mesmo jeito. Era como se ele estivesse fazendo de propósito para que ela se irritasse e largasse a mão de vez. Mas estava ali para isso, seu trabalho era esse. Se precisasse corrigir, iria corrigir. Se tivesse que mostrar, fazendo junto, faria.
— Cala a boca e se concentra, Dougie. — O rapaz se surpreendeu com a resposta dela, as sobrancelhas se ergueram imediatamente.
Aquilo foi dito com todas as letras e todos ouviram. , parado perto da porta com o copo de café, percebeu na mesma hora o jeito como ela respirou fundo antes de responder. Harry deu uma risadinha, que parecia ter sido imperceptível, mas que ela percebeu. Os outros dois rapazes seguraram o riso, os rostos deles se contorcendo com a boca torta. Sally se surpreendeu com aquilo, sabia que ela poderia ser durona com os garotos, mas foi algo inesperado.
Ele não falou mais nada, mas tinha se incomodado com a resposta dela. Pudera, queria que ela fizesse o que? Ele estava agindo como um menino mimado, em vez de um adulto responsável que deveria ter respondido “tudo bem”. Mas parecia que, quanto mais ela falava com ele, mais ele tinha vontade de ser grosseiro. Isso que no dia anterior tinha pensado que não teria dor de cabeça antes do show.
percebeu o ombro dele tensionar outra vez durante a próxima respiração e automaticamente ergueu a mão, tocando rapidamente o braço dele.
— Relaxa aqui.
O toque foi breve, técnico. Sem intenção nenhuma além da correção, mas Dougie travou por meio segundo. Sentiu aquela vibração esquisita onde ela o tocava, mas preferiu ignorar e seguir com a preparação antes que sua cabeça começasse a lhe perturbar.
Eles esperavam do lado do palco, os instrumentos em mãos. Harry girava as baquetas, conversando com a manager, Rachel. Ajustaram os fones de retorno cada, e seguiram cada um ao seu devido lugar assim que as luzes se apagaram. já estava na mesa de mixagem, enquanto e Sally acompanhavam a performance do lado do palco.

Capítulo 7

Dougie estava frustrado com a noite anterior. O show foi incrível, era maravilhoso estar de volta aos palcos. Eles arrancaram gritos e divertiram os fãs, como sempre. O problema foi sua desafinação em sua música. A única música que não era pra ele ter errado, porque era a do novo álbum. Foi algo sutil, mas suficiente para deixá-lo frustrado e quase errar o resto do set. Talvez tenha percebido, provavelmente ela viu e não gostou nada daquilo, principalmente depois de passarem esse tempo todo ensaiando.
Em sua cabeça, ele soltou o "puta que pariu" mais genuíno que já havia falado em toda sua vida. Quando chegaram no ônibus, ele se esforçou para conversar e não transparecer irritação. Esperava que fosse falar alguma coisa, que fosse reclamar da falta de aquecimento. Mas ela apenas os parabenizou e eles seguiram o caminho até o hotel de Manchester sem tocarem no assunto.
Ele estava largado na cama do seu quarto no hotel, dedilhava qualquer coisa no baixo, enquanto via algum seriado bobo que passava na TV. Olhava o celular de vez em quando, com medo de Jazzie ou sua mãe mandarem alguma mensagem. Aquilo não era pra tomar grande parte de seu tempo, e sabia que a mãe não queria que ele se preocupasse tanto com ela. Tinha decidido que tentaria evitar de ficar falando com Sam ao telefone, preferia mandar mensagem ou até mesmo mensagens de voz se precisasse. Só não queria que mais ninguém ficasse ouvindo suas conversas com a mãe.
Estava cansado e com sono, e precisava dormir bem para poder acordar para o café da manhã.
Ele foi o último a chegar à mesa. Sally conversava com de um lado, enquanto sentava-se do outro lado da namorada. Ele lia algo nos panfletos do hotel - o que por si só já é algo muito Thomas - enquanto comia. e Harry conversavam sobre algo inaudível. passou pelo baixista enquanto segurava um prato e murmurou um "bonjour". Ele apenas acenou.
Viu que o rapaz se sentou ao lado de e ela sorriu para ele rapidamente, voltando a conversar logo em seguida. Dougie franziu a testa, mas ignorou aquilo e foi se servir. Ele não falou tanto durante o café da manhã, mas riu algumas vezes e fez alguns comentários. Rachel enviou mensagem para os integrantes, lembrando-os da entrevista que teriam no final do dia.
— Eu achei o show incrível. E a música nova definitivamente surpreendeu o público. — Sally comentou assim que eles terminaram o café, ainda na mesa.
— Eu tava com as pernas tão bambas que fiquei com medo de tropeçar em algo. — riu ao se lembrar do momento, e todos riram junto.
— Essa energia de arena é muito doida, né? — viu todos eles assentiram.
— Nem me fala, ainda não sei como aguentam a gente.
— E você já parou pra pensar que talvez nem aguentem e só vão pela música? — O baixista brincou, sendo vaiado pelos amigos.
— Ninguém se recusaria a ver quatro caras bonitos tocando. Esquece isso. — O comentário de surpreendeu até mesmo Harry.
Eles viram que e Sally concordaram com o que ele disse.
— Pode admitir que você nos ama também, . — Harry piscou para ele, que lhe atirou um guardanapo e arrancou risada de todo mundo.
Talvez Dougie estivesse ansioso esperando pelo momento em que fosse receber uma bronca de , mas isso nunca aconteceu. E era como se estivesse lhe escutando, já que logo em seguida perguntou à ela a respeito dos vocais.
— Mandamos bem, professora ?
Ela sorriu, semicerrou os olhos em um tom brincalhão e fingiu pensar.
— Só não foram piores porque os instrumentos sobressaem.
Todos riram, sem exceção. Poynter olhou para baixo, chacoalhando a cabeça.
Sally continuou rindo do namorado, que estava com a cabeça apoiada em seu ombro, fingindo estar triste.
— Vocês foram ótimos. Graças a mim.
Em meio aos risos, os garotos tentaram vaiá-la, mas só conseguiram se acabar de rir mais ainda.
Sério que ela não vai falar nada? Ele pensou. Talvez estivesse ansioso demais por uma resposta que não viria. Ou talvez ela esteja esperando o momento pra poder falar algo. Ainda que ele tentasse superar aquilo, até mesmo porque o show já tinha acontecido, estava com receio de que aqueles erros pudessem se tornar recorrentes.
A chuva fina batia contra a janela do hotel desde cedo, transformando a cidade num borrão úmido e silencioso do lado de fora. Pela primeira vez em semanas, eles não tinham passagem de som, sessão de fotos ou ônibus pra pegar imediatamente. Mas teriam uma entrevista em um podcast no final da tarde. Mesmo assim, Dougie não conseguia relaxar. Estava largado na cama do hotel com uma camiseta velha e o baixo apoiado ao lado do colchão, mexendo distraidamente nas cordas sem realmente tocar nada específico.
A cabeça continuava voltando pro show da noite anterior.
As notas erradas em Transylvania, a desafinação. A insegurança em One For The Radio. O momento exato em que sentiu a voz falhar.
E pior: o jeito como tinha visto observando do canto do palco. Ela não parecia irritada. Nem decepcionada exatamente, mas ele percebia as pequenas coisas agora.
O franzir discreto entre as sobrancelhas. O olhar atento demais durante os backings.
A maneira como ela evitou comentar imediatamente depois do show justamente porque sabia que ele já estava frustrado sozinho. Aquilo quase era pior.

Alguém bateu na porta do quarto.

— Entra.

apareceu segundos depois com um violão em mãos.

— Você tá deprimido demais pro meu gosto.
Dougie soltou uma risada fraca pelo nariz.
— Bom dia pra você também.

entrou sem cerimônia, chutando a porta pra fechá-la atrás de si antes de se jogar na poltrona perto da janela.

— Trouxe minha companhia. É o máximo de cuidado emocional que consigo oferecer.

— Muito gentil da sua parte.

— Eu sei.

O silêncio confortável caiu por alguns segundos enquanto a chuva continuava batendo no vidro.

observou o amigo dedilhando o baixo sem muita força.

— Você tá encucado por ontem, né?

Dougie nem tentou negar.

— Desafinei pra caralho.

— Nem foi tudo isso. — O guitarrista rolou os olhos, irritado com o drama do amigo.

— Foi sim.

Ele largou o instrumento de lado com mais força do que pretendia.

— Principalmente em Transylvania. E naquela porra do refrão em One For The Radio.

dedilhou o violão devagar.

— Você tá sendo dramático.

— Não tô.

— Tá sim. Você age como se tivesse destruído o show inteiro.

Dougie apoiou os cotovelos nos joelhos, esfregando as mãos no rosto.

— Não era pra estar acontecendo de novo.

observou o amigo em silêncio por alguns segundos, porque sabia que não era só sobre desafinar. Fazia dias, talvez até mesmo semanas. A família. As mensagens constantes para a mãe. A sensação de estar longe enquanto tudo desmoronava em Essex. E agora aquilo começava a respingar no palco também.

não pareceu puta com você — comentou casualmente.

Dougie soltou uma risada seca.

— Você percebeu isso também?

— Ela tava mais preocupada do que irritada.

Aquilo fez ele encarar o chão por alguns segundos. Porque era verdade. provavelmente teria dado bronca se fosse qualquer outro contexto. Mas ela claramente tinha percebido que havia alguma coisa errada fazia tempo. E isso sinceramente o incomodava mais do que se ela tivesse brigado.

— Odeio quando ela faz aquela cara.

franziu a testa.

— Que cara?

— Aquela cara de “tô tentando não pegar pesado com você”.

O cantor soltou uma gargalhada curta.

— Nossa, você presta atenção nela pra caralho.

Dougie ergueu os olhos imediatamente.

— Cala a boca.

— Tô falando sério. Você nota até expressão facial específica agora.

— Porque ela vive olhando torto pra gente.

— Mhmm.

Dougie pegou uma almofada da cama e jogou no amigo. riu, desviando sem dificuldade.

— Idiota.

— Você que tá emocionado porque a professora não brigou com você.

Dougie bufou baixo, mas o canto da boca acabou subindo por um segundo, pequeno o suficiente para

percebeu imediatamente.

— Aí. Finalmente parece vivo.

O baixista ficou quieto outra vez depois disso, encarando a chuva pela janela.

A voz saiu mais baixa quando falou de novo:

— Acho que tô cansado.
— Já cansou da minha presença? — perguntou de maneira afetada e recebeu outro travesseiro do amigo no rosto.
O quarto ficou silencioso, além do som distante da chuva e do ar-condicionado.
conhecia ele há anos demais pra não entender aquilo.

— Sua mãe?

Dougie assentiu devagar.

— Ela liga quase todo dia agora. E eu não sei o que fazer porque tô preso em tour a maior parte do tempo e ela lá em Essex tentando resolver tudo sozinha.

A mandíbula dele travou antes de continuar:

— E aí eu subo no palco com a cabeça uma merda e começo a errar coisa idiota.

apoiou os cotovelos nos joelhos, parecendo mais sério agora.

— Cara… ninguém tá esperando perfeição o tempo todo.

Dougie soltou uma risada sem humor.

espera.

— Não. — respondeu imediatamente. — Ela espera esforço. É diferente.

Aquilo fez Dougie ficar quieto. Porque, no fundo, sabia que era verdade. cobrava, corrigia e pegava no pé. Mas também era a primeira pessoa a perceber quando algum deles não estava bem. Mesmo que fingisse não perceber às vezes. E, no fim, ela sabia sobre o problema no qual ele estava passando. inclinou a cabeça.

— Você tá indo melhor do que acha.

Dougie arqueou uma sobrancelha cansada.

— Nossa, que discurso motivacional horrível.

— Vai se foder. Tô tentando ser um amigo sensível.

— Tá parecendo um coach de LinkedIn.

pegou uma meia e jogou na direção dele.

— Beleza. Próxima vez eu só mando você parar de choramingar igual velho divorciado.

Dougie finalmente riu de verdade. Foi uma risada curta e baixa, mas perceptível.
E talvez fosse exatamente isso que ele precisava naquele momento.

***


estava sentada na poltrona do lounge enquanto conversava com Sally logo depois de almoçarem. Os garotos decidiram ir fazer coisas de garotos antes da banda sair para a entrevista.

— Como você consegue fazer isso? Digo, viajar com um bando de marmanjos e ainda dar conta de não surtar. — sorriu com a pergunta de Sally, estava acostumada com a vida corrida.
Ela deu de ombros.
— É questionável eu dizer que gosto? — As duas riram. — Acho que acabei pegando gosto por poder acompanhar tudo de perto.
Sally e estavam juntos há menos de um ano, mas já tinha acompanhado o namorado em algumas viagens e shows. Era amiga de Poynter antes mesmo de conhecer o guitarrista. Essa seria sua primeira vez em uma turnê, mesmo que não fosse acompanhá-los por três meses pois também precisava trabalhar.
— Toda vez que eu penso no tempo que eles passam no ônibus e em hotéis, eu entro em surto. — Sally contou para a amiga.
— Não, mas faz sentido. O que mais me conforta é saber que eles são limpos e organizados.
As duas gargalharam com o comentário. Se isso fosse dez anos antes, estaria pedindo pra ir em um ônibus separado.
— E como você lida namorando um rockstar?
Sally suspirou e seus olhos brilharam.
é um cara extremamente agradável. Ele é atencioso, carinhoso e muito legal.
— Ele é mesmo, normalmente vejo ele como o mais normal entre eles.
— Ah, ele e Harry, com certeza! Dougie é bastante maduro, mas colocar ele e no mesmo ambiente é quase como esperar por um acidente nuclear.
As duas riram de novo.
— Nenhum dos outros têm tido companheiras? — questionou, e a garota parou para pensar por alguns segundos.
Sally fez algumas caretas, não tinha proximidade com e Harry pelos dois primeiros meses em que começou a sair com .
— Vez ou outra eu vejo Harry com uma garota, mas não sei se são namorados. deve estar aproveitando os 30 anos e nem se atreve em se enroscar com alguém. — Aquele comentário arrancou uma risada anasalada de . Típico . — Dougie teve uns problemas com o último relacionamento, não sei o que aconteceu. Mas ele é um cara muito gentil.
— Falamos do mesmo Dougie Poynter? — tombou a cabeça para o lado, e Sally rolou os olhos, o canto dos lábios curvado em um sorriso.
– Não seja tão durona com ele, às vezes ele age como um adolescente.
Sally não sabia que o garoto estava com problemas na família, e a produtora sabia que não poderia comentar nada
As duas seguiram conversando no lounge e o tempo passou voando. A namorada de viu o horário e disse que precisava voltar para o quarto para se arrumar e acompanhar a banda para a entrevista. aproveitou para se levantar e seguiu para a saída do lounge.
— Nos vemos depois! — Sally se despediu, indo em direção ao elevador.
— Se o não incendiar nada até lá!
ouviu a gargalhada da amiga enquanto seguia em direção ao corredor dos elevadores.

Foi justamente alguns instantes depois que virou a esquina distraída... e quase bateu de frente com Dougie.
— Caralho. — Ele resmungou, antes de ver que era ela. — Se eu não trabalhasse com você, diria que me odeia.
Os dois recuaram ao mesmo tempo.
— E você anda olhando pra onde, pro nada?
— Eu que devia falar isso. — Dougie retrucou, mas o tom em sua voz não era grosseiro.
— Desculpa, eu virei muito rápido.
— Tudo bem, eu não costumo olhar direito pra frente. — Ele deu de ombros.
— Então você tá assumindo a culpa?
Ele a observou cruzar os braços com um sorriso no rosto e rolou os olhos.
— Não força a barra, .
Dougie segurava uma garrafa de água e um Ipod na mão.
"Pera aí, um Ipod?"
percebeu que ele parecia melhor do que na noite anterior.
Não exatamente bem. Mas menos carregado. Menos fechado.
— Como tem sobrevivido depois do show? — Ela parecia incerta com a pergunta, mas ele não desviou o assunto.
— Acordei com vontade de me enforcar com a corda do meu baixo, mas depois conversei com o e, aparentemente, ele me ajudou bastante.
— Não é pra tanto, Poynter. Vocês estão acostumados com o nervosismo dos primeiros dias. É normal não sair tudo certo.
— É, mas ensaiamos pra caramba. Se eu não consigo acertar a nota da música que supostamente é pra eu cantar, então eu não ensaiei o suficiente.
apoiou a mão no ombro dele, que não recuou e nem sentiu repulsa pela atitude.
— Não se cobre tanto por isso.
disse a mesma coisa. — Ele murmurou, um pouco derrotado. — Odeio quando ele tá certo.
Ela deu um sorriso, apertando o ombro dele. Se os outros caras estivessem ali naquele momento, com certeza cantariam Careless Whisper. Mas, como não estavam, aquela interação passou em branco.
— Tá tudo bem. Na verdade, o público não nota erros discretos.
— Ninguém percebeu que eu desafinei no refrão de Transylvania?
A voz dele saiu esganiçada e ela quis rir, mas evitou de fazê-lo se sentir humilhado e apenas lhe deu um sorriso amigável.
— Bom, eu percebi.
Ele piscou algumas vezes.
— Isso pra mim já é suficiente.
— De verdade, se preocupa menos com isso. Talvez você esteja no caminho errado, pensa nisso.
Ela acenou para ele, mas antes que saísse da porta do lounge, seu celular vibrou.
Uma mensagem de .
"Você desapareceu?"
Ela olhou a tela e respondeu rapidamente. Dougie não viu quem era, mas reparou no sorriso que ela deu ao responder a mensagem.

?

— Sim. — Ela assentiu, guardando o celular dentro da bolsa.

— Procurando você?

— Basicamente.

— Entendi.

Houve uma pausa curta e inexplicavelmente estranha. Então apontou para os elevadores.

— Acho que vou subir.
— E eu vou pra lá, ouvir música e tentar descansar antes da entrevista. — Ele apontou para dentro do lounge.
— Gostei do Ipod. — Ela disse antes de andar até o elevador. Ele olhou para o aparelho e riu.
— É bom se desconectar às vezes.
Ela assentiu.
— Divirta-se.
Os dois se despediram, e aquela sensação esquisita parou no ar. Eles não estavam tentando se matar, não estavam dando resposta afiada um ao outro. O que diabos houve ali?
Dougie ficou quase uma hora no lounge, esticado na grande poltrona enquanto ouvia música. Não queria levar o celular para não ficar o tempo todo preso à possibilidade de ter que lidar com os problemas familiares o tempo todo, ele sabia que Jazzie estava sempre disponível quando pudesse.
O baixista saiu de lá e entrou no quarto de , com e Harry em seu encalço. Ele não explicou o motivo da suposta reunião, só pegou os dois amigos e os trouxe junto consigo. Assim que fechou a porta, ele apoiou as mãos na cintura tal qual uma fofoqueira, e estalou os lábios.
– Eu tenho que falar uma coisa que eu vi agora pouco. – Poynter disse, vendo que sorriu, e os outros dois apenas o olharam com os braços cruzados.
– Meu Deus! Finalmente uma fofoca! – O guitarrista se sentou na cama, esperando que o amigo continuasse.
– Eu acho que e estão de rolo. – Ele falou como se estivesse dizendo que gostava de chantilly no sorvete e ouviu o som de surpresa vindo da boca de .
– O quê? – Harry não estava entendendo nada, muito menos . O que era meio de se esperar por isso vindo do pobre coitado.
– Trombei com ela enquanto ia pro lounge, ela recebeu uma mensagem dele e disse que estava com pressa.
– E você deduziu a partir disso? – soou um pouco desapontado, rolando os olhos como se aquela fofoca fosse conversa fiada.
– Não, idiota. Ela abriu o maior sorriso quando olhou pro celular. – Dougie pareceu um pouco incomodado, pelo menos foi o que percebeu. Mas logo percebeu que era apenas coisa da sua cabeça.
— Faz sentido estarem de conversinha, estão juntos quase o tempo todo. Já trabalham juntos mesmo. — afirmou com uma voz animada, típico de quem gosta de fofocas mesmo.
Dougie só fez rolar os olhos. Mas, afinal, quem havia trazido aquela informação foi ele mesmo.
Harry estalou a língua nos dentes.
— Anyway, melhor irmos nos arrumar para não nos atrasarmos.
Eles chegaram ao estúdio para a entrevista cerca de meia hora antes do horário combinado. Estavam se ajeitando e conversando com o host, um homem mais velho que parecia bem simpático. conversava alguma coisa com Poynter sobre um documentário que tinha visto antes de saírem para a turnê, enquanto Harry falava com Rachel. não parava de tagarelar com Sally, que acompanhava a banda.
O entrevistador soube conduzir bem as perguntas. Evitou perguntas repetitivas e clichês, optando por se aprofundar melhor no trabalho recente dos garotos. Ao final, decidiu descontrair o programa com uma conversa mais leve e divertida.
***

terminou de se arrumar e seguiu até o quarto de , entrando após bater. Ele estava terminando de colocar o casaco e calçava o coturno.
— Nossa, mas com toda a pressa na mensagem, pensei que já estivesse pronto.
Ele mostrou o dedo do meio a ela de forma divertida e ela sorriu.
— O que vamos fazer hoje?
— Dar uma olhada na cidade. Aproveitar que parou de chover. — Ele respondeu enquanto ajeitava o cabelo em frente ao espelho.
o observou de maneira discreta. Ou achou que havia observado, já que ele reparou no olhar dela e evitou comentar. Preferia fingir que ela não estava reparando nele.
— Já estava feliz em não ter que olhar mais pra cara da banda, agora você só melhorou meu dia!
sorriu e pousou as mãos sobre o peito.
— Estou encantado.
o empurrou pelo ombro e o acompanhou até a porta.
Desde que começaram a trabalhar juntos, os dois foram obrigados a se aproximarem por conta da turnê. E, por consequência, criaram uma certa afinidade que acabou indo além do trabalho. E era bom ter alguém que não fosse só um colega. Primeiro, o francês a arrastou para uma cafeteria bistrô que ficava no centro. O lugar era aconchegante e as diversas opções do cardápio chamavam atenção pela qualidade e preço.
Os dois riam enquanto conversavam, e aquilo ajudava a esquecer um pouco a rotina. Ambos gostavam do que faziam, mas tentavam manter todo o profissionalismo separado do lazer.
— Vai querer assistir ao podcast? — Ele perguntou enquanto dividiam uma sobremesa. fez uma careta.
— Poxa, . Você tava indo tão bem até agora.
Ele riu, assentindo. Não ia mentir a si mesmo e dizer que não tinha ficado feliz em ver que ela não estava nem aí para os quatro. Quando terminaram, procurou no Google os pontos turísticos da cidade e decidiu que iriam ao museu. Ele adorou a ideia. Aquela tinha sido a melhor ideia que ela teve, na verdade. Viram toda a exposição, se distraiam enquanto conversavam sobre tudo o que viram, e ainda passaram na lojinha na saída do museu.
— Já ouviu a palavra souvenir? — Ele perguntou enquanto pediam um uber para voltarem ao hotel.
negou.
— Significa lembrança. Recordação. Não é só uma decoração ou algo que achamos bonitinho. É pela lembrança e memória de um lugar que visitamos ou vemos. Ou até mesmo um evento.
— Eu acho que já até ouvi mas não me lembrava. Estou tão acostumada com "gift shop".
sorriu para ela. Literalmente. E ela percebeu e corou.
— É muito mais comum também. Mas como um francês nativo, quis compartilhar uma curiosidade.
sorriu para ele antes de entrarem no Uber e continuarem a conversa, até ela receber uma mensagem de Harry.
Harry McFLY: Vocês estão por aqui?
: No hotel? Não, estamos voltando agora.
Harry McFLY: Onde vocês foram que não nos chamaram?
: Fomos dar uma volta pela cidade, tiramos uma folga de vocês. 😂😜
Harry McFLY: 😮
Harry McFLY: Traidora.
Harry McFLY: Estamos no bar do lounge, venham pra cá.
Quando Harry bloqueou o celular, precisou de alguns segundos para entender o que aconteceu. E tudo bem, eles são amigos e tá tudo certo serem amigos e saírem juntos. Mas lembrou do que Dougie disse mais cedo.
Bebeu um shot de tequila que desceu rasgando pela garganta e se virou para os amigos.
— Eles foram passear. Juntos.
— Eu sabia! — quase se esgoelou, e faltou muito pouco para que chamasse atenção das outras pessoas ali.
— Cala a boca, idiota.
Sally escondeu um sorriso atrás do copo de Grenadine, o que fez imediatamente se virar para ela.
— Você sabe de alguma coisa.
— Talvez.
— Sally. — Ele insistiu.
— Talvez.
— Sally. — tentou mais uma vez.
— Ai, Daniel. Você é irritante, sabia? — Sally resmungou, sorrindo maliciosamente.
começou a rir e Dougie continuou olhando para o próprio copo. Estava achando aquilo engraçado de certa forma.
— Eu não sei de nada, na verdade. — Ela finalmente explicou. — Eles são amigos e saíram juntos, só.
— Como assim só? — Harry quase cuspiu a própria cerveja.
Ela deu de ombros.
— Vocês são piores que as mulheres. — Rolou os olhos, enquanto bebia seu drink.
— Eu tô me sentindo numa roda de senhorinhas fofoqueiras. — Dougie riu, vendo que e concordaram com ele.
— Vocês praticamente estão sendo uns.
Sally foi vaiada pelo grupo, mas a brincadeira foi interrompida quando viram que os dois estavam se aproximando da mesa. Imediatamente, todos os presentes sentados sorriam em direção a eles. A namorada de até tentou chutá-los por baixo da mesa para que disfarçassem, e o que menos conseguiu foi .
Ele era um caso perdido.

Capítulo 8

O show já está acontecendo. A banda está na metade do setlist, as luzes mudam constantemente, o público canta junto e o calor do palco começa a ficar sufocante. Durante uma música mais instrumental, corre para um lado da passarela enquanto interage com a plateia.
Dougie aproveita os poucos segundos livres para atravessar discretamente até a lateral do palco onde está. Com o tablet nas mãos, observando tudo como sempre. Ela anota algumas coisas, acompanha os retornos e ocasionalmente observa a respiração deles durante as músicas mais exigentes.
Ela ergueu os olhos ao perceber a sombra do baixista em sua frente.
— Tá tudo bem?
Ele apontou para a própria garganta.
— Pergunta rápida.
— Isso nunca é bom. — cruzou os braços ao vê-lo ali, parado à sua frente.
— Eu tô forçando?
piscou diversas vezes, porque essa definitivamente não era a pergunta que esperava ouvir. Não naquela hora, pelo menos.
— O quê?
— Minha voz.
— Agora?
— Agora.
Ela olhou para o palco, vendo que os outros dois rapazes nem se deram conta de que Dougie estava ali pedindo feedback, e depois para ele.
— Você veio pedir feedback no meio do show?
— Tenho uns quarenta segundos.
— Meu Deus. — colocou uma mão livre na testa, chacoalhando a cabeça.
Dougie sorriu, estranho vê-lo sorrindo assim para ela, porque normalmente ele resmunga e grunhe.
— Então?
Ela pensa por alguns segundos.
— Não.
— Nem um pouco? — A incerteza dele fez perceber o quanto aquilo era importante para ele.
— Você tá apoiando melhor a respiração hoje.
Aquilo claramente o surpreende.
— Sério?
— Sim.
Ele parece processar aquilo e percebe, porque aquela era uma característica dele. Quando algo o preocupava de verdade, ele prestava atenção em cada palavra.
— Então não tô destruindo minhas pregas vocais?
— Ainda não.
— "Ainda não" é preocupante.
A produtora tentou reprimir um resmungo porque, apesar de já ter explicado que estava tudo bem, ele ainda parecia inseguro.
— Se você não voltar pra lá agora, eu vou jogar esse tablet na sua cabeça.
Ele levantou as mãos, se rendendo, e voltou ao seu lugar no palco.
Aquele show tinha sido melhor do que o anterior e era apenas o terceiro. Dougie estava se sentindo satisfeito pela performance, e percebeu que o ajudou a sentir-se mais confiante para terminar o set. Os amigos estavam conversando enquanto se secavam com uma toalha e bebiam água, seguindo a caminho do ônibus. estava mais atrás com Sally e .
Já a caminho do próximo hotel na cidade seguinte, todos estavam aconchegados em seus lugares. deu a ideia de assistirem a um filme para poderem relaxar durante a curta viagem. reparou que se acomodou ao lado de e cutucou Judd, segurando o riso. A produtora sentiu o calor do corpo do amigo francês e quase suspirou quando ele passou o braço em volta de seu ombro. O movimento foi tão simples que demorou um segundo para ela processar.
também pareceu perceber isso.
— Tudo bem?
A pergunta veio baixa, discreta e sem pressão. sentiu o calor do hálito dele batendo em seu rosto.
— Sim.
Um pequeno sorriso surgiu no rosto do francês.
— Ótimo.
Ela voltou a olhar para a televisão. Ou pelo menos tentou, porque agora conseguia sentir a proximidade dele de forma muito mais evidente. O perfume dele, o calor do corpo. A maneira como o ombro dele encostava no seu sempre que o ônibus passava por alguma curva. parecia completamente confortável. Como se aquele lugar fosse exatamente onde ele queria estar.
Em determinado momento, se levantou para pegar alguma coisa na geladeira do ônibus. Ao passar pelo corredor, seus olhos encontraram os dois. Imediatamente. Aquele sorriso surgiu. Aquele sorriso perigoso e malicioso estilo , mas ele não falou nada. E, do outro lado do corredor, Dougie ergueu os olhos da palheta pela terceira vez naquela cena. Não porque estivesse interessado no filme, mas porque toda vez que olhava naquela direção, encontrava sorrindo para .
E, por algum motivo que não conseguia definir direito, aquilo o fazia girar a palheta entre os dedos com um pouco mais de força.
No meio da noite, acordou com sede, e se deu conta que tinha esquecido de trazer sua garrafa de água para o bunker. Teve que se levantar e deu de cara com Dougie sentado na pequena mesa da cozinha, com o olhar baixo direcionado para a janela.
Por um instante cogitou simplesmente pegar a água e voltar, mas o piso rangeu levemente sob seus pés, o que o fez erguer os olhos em direção a ela. Ele tomou um susto quase imperceptível.
— Você ainda tá acordado?
A voz dela saiu baixa para não acordar ninguém, ele soltou uma risada curta pelo nariz. Poynter segurou a vontade de responder algo debochado, mas não queria parecer mal educado.
— Tecnicamente.
— Insônia?
— Mais ou menos.
abriu a geladeira e pegou a garrafa de água, que era o que havia planejado quando se levantou e foi até lá.
— Eu ia perguntar se estava tudo bem, mas acho que essa pergunta é inútil às três da manhã.
— Bastante. — Ele deu de ombros, voltando a olhar para fora da janela.
— Sinto muito pela situação. Não deve estar sendo fácil, ainda mais você estando aqui.
Ele não respondeu ao comentário, mas sentiu que ela estava sendo generosa com ele naquele momento.
— Minha mãe é forte, eu sei que ela vai conseguir se ajustar.
Dougie se levantou para pegar alguma coisa para comer, estava começando a ficar com fome e odiava ter que dormir de estômago vazio. A coach deu espaço para ele no pequeno cômodo enquanto enchia sua garrafa. Ele tinha sorte de ser o responsável por escolher os alimentos e snacks, senão, estariam sobrevivendo de farinha e açúcar.
O rapaz mal teve tempo de reagir quando o ônibus passou, sem querer, por um buraco no meio da estrada. O chacoalhão jogou o cantor para frente, fazendo-o trombar com , derrubando os dois no chão.
— Meu Deus, presta atenção! — Ela falou em meio a uma lufada de ar. Ele estava em cima dela, segurando sua cabeça para evitar uma batida.
— Ai, porra. Desculpa, não tive tempo de me segurar.
— Sai de cima de mim, Poynter! — murmurou, enquanto o rapaz tentava se apoiar pelas mãos no chão.
Os rostos estavam separados por poucos centímetros, ela piscou algumas vezes.
— Eu tô tentando, esse espaço é apertado. Se acalma, mulher. — Ele sustentou o corpo e o ergueu.
Dougie dobrou os joelhos e sentou em cima das pernas, olhando para a garota que ainda estava caída no chão. Ele estendeu uma das mãos para que ela segurasse. percebeu que ainda estava quase embaixo dele quando sentou no chão.
— Você se machucou? — Ele perguntou, um pouco apreensivo. — Eu não sabia onde segurar com o solavanco.
— Não, mas poderia ter machucado todo esse peso seu.
Os dois se levantaram juntos, um pouco perto demais um do outro. Aquela cozinha era muito apertada para caber duas pessoas, e ele estava quase se sentando sobre a mesa.
Dougie franziu o cenho e fechou a cara.
— De nada por ter evitado de você ter um traumatismo craniano.
Ela soltou um riso anasalado.
— Você quem me derrubou.
Dougie rolou os olhos, pegou uma barra de cereal no armário e voltou para o corredor.
— Boa noite, .
ficou ali parada, talvez tenha sido um pouco grossa sem necessidade, deve ter sido o susto. Estava meio atordoada ainda pela aproximação repentina com o garoto. O que é que tinha acontecido, afinal?

acordou com o tumulto dos fãs do lado de fora do hotel. Gente cantando, gritando nomes e pedindo fotos. Ela se levantou, se arrumou e andou até a varanda. Viu que os garotos estavam lá embaixo, tirando fotos e dando autógrafos. Olhou para a varanda do lado e viu Sally, que a cumprimentou sorridente. Pegou o celular para checar as mensagens e abriu para responder . Seria a primeira vez que elas se encontrariam desde que a coach saiu em turnê.
: Chego à tarde.
: Tô ansiosaaaa.
: Eu também 😭
Saiu do quarto e foi em direção ao de , batendo na porta. Esperou que ele a atendesse e foi recebida com um sorriso, enquanto ele secava o cabelo com uma toalha. O rapaz já estava vestido e perfumado, o que chamou atenção dela. Percebeu que, quando se viam, o francês costumava estar mais bem apresentável, e sorriu.
Ele arrumou o cabelo, pegou o celular, a chave da porta do quarto e foram ao elevador. Os dois haviam combinado de tomarem café da manhã juntos, se deram ao luxo de não acompanharem a agenda da banda. E nem deveriam.
Tinham fãs do lado de dentro do hotel, e alguns causavam mais burburinho que outros.
— São nove da manhã e essas meninas já estão surtando. — Ele comentou enquanto se servia, e riu ao lado dele.
— Eu era assim na adolescência.
— Falou bem, na adolescência!
Os dois riram de novo, e ele olhou para o grupo de garotas que se sentava na mesa do restaurante.
— Eu tenho certeza que aquelas ali são groupies. — Ele apontou com a cabeça.
olhou disfarçadamente, fazendo uma avaliação minuciosa, e se deu conta de que ele estava certo.
— Aposto que uma delas vai querer flertar com você, .
Ele fez um barulho estranho com a boca e olhou para ela com cara de ofendido.
— Você tá me confundindo com o , chérie?
Ela riu, sentando-se em uma mesa longe do grupo.
— Qual é o problema? Parlez vous français, elas vão amar.
precisou de alguns segundos para processar o que tinha acabado de fazer. Ele sabia que estava atraído pela amiga, mas achou aquilo um golpe baixo.
Tentou disfarçar como ficou desajeitado e forçou uma risada.
— Não é comigo que elas querem ir pra cama. Tu le sais.
Ela o olhou com uma cara inexpressiva, e ele entendeu, rindo.
— Quis dizer "você sabe disso".
Os dois aproveitaram o café da manhã de maneira divertida. A movimentação era maior por conta dos fãs, e a cada cinco minutos ouviam gritos exasperados do lado de fora. As groupies ainda estavam sentadas lá, esperando a banda dar um sinal de vida.
— Estava pensando em irmos em um bar amanhã, aproveitar a folga. — falou depois de terminar o café.
— Eu ia adorar. Faz um tempo que não vamos a um bar.
sorriu para ele, sabia que ele quis dizer que era todo mundo. Mas estava ansiosa para poder beber alguns drinks e dançar.
O rapaz abriu a boca para falar algo, quando foi interrompido pela entrada dos garotos no restaurante ao lado de três seguranças. estava carregando a câmera, enquanto ria de algo que Harry falava. O grupo avistou os dois e andou até eles, Sally logo atrás. Sentaram-se à mesa, e mal tiveram tempo de conversar, quando as garotas apareceram ali perto. Vestiam saias curtas e regatas, o que não condizia tão bem com o tempo que estava fazendo. Estava chovendo desde que saíram de Manchester e nem calor estava.
Elas tentaram acesso aos quatro, mas foram barradas pelos seguranças. Tentaram convencê-los a tirarem fotos e darem autógrafos, mas o máximo que conseguiram foi um "oi".
— Eu gostei da morena. — falou depois que elas foram embora, e levou um tapa de na cabeça.
— Nem temos mais idade pra isso.
Sally e trocaram um olhar e rolaram os olhos.
— Falem por vocês, eu sou mais novo. — Dougie deu de ombros.
— Você nem gosta de groupies, cala a boca. — Harry tentou chutá-lo por baixo da mesa.
tentou esconder a decepção, mas acabou rindo ao mesmo tempo.
— Vocês são ridículos. — Sally rolou os olhos e a produtora concordou.
— Devia ter registrado a cara que você fez lá fora na câmera, . A garota quase tentou arrancar seu cabelo. — riu ainda mais da feição assustada do amigo.
— O quê? — A boca de quase foi parar no chão.
O guitarrista contou que, com tanta euforia, uma das garotas na frente do hotel puxou seu cabelo da nuca, o que quase o deixou careca. A cena foi bastante engraçada e traumatizante ao mesmo tempo, o que resultou neles voltando para dentro, evitando um acidente.
***

Estavam ensaiando durante a tarde antes do show. estava na mesa de mixagem fazendo a passagem de som. Os garotos testavam os instrumentos, enquanto conversava com Sally e esperava entrar na arena. Estava ansiosa para receber a amiga, principalmente porque conseguiu credencial de acesso geral para ela.
— Dougie, não esquece da ressonância em Transylvania. Vamos tentar não forçar.
O baixista assentiu, limpando a garganta antes da intro da música. Ela acompanhou, concentrada em notar qualquer erro ou deslize. Mesmo em cima do palco, o baixista reparou que ela fez careta no meio do refrão, deixando passar pra poder conversar depois.
Mas ele nem esperou.
— Qual é a da careta agora?
— Você não tá usando o drive vocal. Tá apertando a garganta. — Ela explicou, andando mais para perto do palco.
— Eu tenho quase certeza que estou usando a técnica que você mesma me passou antes.
pressionou ambas as mãos nas têmporas. Achou que estava indo tão bem sem ter que retrucar com ele.
— Dougie, o tom é registro de peito. Se forçar demais na garganta você vai desafinar toda vez.
e trocavam olhares entre si e voltavam ao amigo. Eles sabiam que o garoto sempre dificultava.
— Volto do refrão? — Ele perguntou e ela assentiu.
Ele forçou a voz de novo.
— Mais uma vez? — concordou de novo, e ele rolou os olhos. — Quantas vezes vou ter que voltar no refrão?
— Até você acertar.
— Canta direito, Poynter. — Harry provocou lá do fundo e recebeu um dedo do meio do amigo.
A produtora precisou parar o ensaio para poder receber que havia acabado de chegar. Trouxe a amiga até o palco, vendo os garotos se aproximarem para poderem cumprimentar a garota. Ela se apresentou a eles, sorridente. Por dentro estava morrendo, e por fora evitou demonstrar que estava suando frio e surtando.
— Prazer. — respondeu .
— Ela já começou bem. — comentou .
As apresentações aconteceram rapidamente. cumprimentou Harry. Depois e Sally. . E por fim Dougie.
— Vou fingir que você não nos xingou, . — fez cara de ofendido, arrancando risada dela.
— Espera um pouco. — Disse , estreitando os olhos. — Você tá nervosa?
— Não.
— Tá sim.
— Não tô.
— Tá. — O guitarrista insistiu, e os amigos começaram a murmurar algo como “cala a boca logo”.
olhou para .
— Ele sempre é assim?
— Infelizmente. Quanto mais você dá corda, mais ele continua. — sorriu.
— Entendi.
— Com o tempo você se acostuma. — Sally piscou para ela e concordou com a amiga.
— Ei, eu estou bem aqui! — resmungou ao notar que as duas estavam rindo dele.
— Quanto tempo você vem aguentando sua amiga, ? — Dougie perguntou de um jeito provocativo, vendo a careta que havia lhe lançado.
— Há muitos anos já, quer dizer, nós nos aguentamos.
estava encantado. Não havia conhecido uma mulher tão bonita e elegante como ela. Além de inteligente, ainda gostava das músicas deles e, nem de longe parecia como uma groupie. Ele estava realmente muito fascinado, precisou de um momento para voltar à realidade quando recebeu um tapa de Harry nas costas.
— Ouvi falar muito de você, Dougie. — falou enquanto os garotos aproveitaram um intervalo do ensaio para se hidratarem.
O baixista levantou a cabeça e a encarou com um olhar preocupado.
— Deve ter falado muito mal, eu suponho.
mal teve tempo para se defender, vendo a maneira com que ele a olhava.
— Falou que você dá trabalho.
, sua filha de uma mãe!
Os três rapazes riram da cara do amigo, que não sabia se aceitava como um elogio, já que ela passava o tempo todo reclamando dele. Ou se ficava ofendido porque estava reclamando dele. , por outro lado, não sabia onde enfiar a cara. Mal a amiga já tinha chegado e já estava a envergonhando.
— Espero que ela tenha falado bem de mim pra você, preciso causar uma boa impressão. — falou assim que parou de rir.
— Ela fala bem de todos.
— Eu espero que algo de bom ela fale.
Dougie ainda parecia um pouco chateado pelo o que tinha falado da amiga. E estava desconcertada.

O show estava sendo incrível. estava alucinada e cantava todas as músicas à altura, não se importando se tinham mais pessoas em volta delas na lateral do palco. Sabia que a amiga estava trabalhando vez ou outra, então tentava evitar de ficar surtando toda hora. Ela estranhou quando Dougie apareceu de repente, ainda tocando o baixo, sem falar nada.
Trocou olhares com e . Estava se exibindo para a amiga da produtora, que quase entrou em colapso com aquilo.
— Meu Deus, ! Eu vou desmaiar. — Ela gritou em seu ouvido depois que o baixista voltou para o próprio microfone.
deu risada, olhando para Sally, que entendeu bem a reação de , e voltou a prestar atenção no show. As três aproveitaram a performance, rindo vez ou outra das brincadeiras da banda.
voltou no ônibus com o resto, embora e Harry tenham se oferecido para irem em outro ônibus pela falta de espaço naquele.
Era uma quinta-feira, escolheu um dos melhores bares de Sheffield pra aproveitar a noite de folga, já que iriam embora no dia seguinte. Estavam sentados na bancada do bar, enquanto bebiam e conversavam. Sally estava agarrada em enquanto falava com e . Dougie e Harry discutiam sobre futebol. estava com no meio do bar, os dois conversavam próximos e trocavam risadas vez ou outra.
— Gostei da sua amiga, ela é bem divertida. — Ele falou em seu ouvido.
— Ela é incrível, tô super feliz que ela tá acompanhando a gente.
sorriu, e o rapaz não pôde deixar de notar como ela estava bonita.
Tu es belle. — O elogio de a fez corar e sorrir desajeitada.
Merci.
— Não fala comigo assim, eu fico sem graça. — Ele brincou, arrancando uma risada divertida dela.
— Então somos dois.
Ele não deu tempo para que falasse algo, inclinando-se para frente e fechando o espaço entre os dois. Ela se surpreendeu com o beijo. Não que não tivesse ideia de que isso aconteceria, mas não esperava que fosse rápido. Seus lábios colaram e, entre carícias delicadas dele em seu rosto, ambos já estavam absortos em meio ao beijo. Era gostoso, atraente.
— Uau, você sempre surpreende. — murmurou após se separarem, os narizes quase encostando.
O francês deu um sorriso ainda um pouco encabulado.
— Você luta com as armas que tem. — Deu de ombros, arrancando uma gargalhada dela, e a beijou de novo.
Todos viram que os dois se beijaram, o que não foi muita surpresa pra ninguém. Ambos deixaram claro que só queriam aproveitar, sem compromisso em meio a trabalho e uma agenda de shows de quase três meses.
ainda teve que aguentar os garotos fazendo piadinhas e brincando com ele como se ainda fossem adolescentes. Dougie ainda soltou um "boa sorte com ela". Óbvio que ela escutou. Óbvio que foi brincadeira e que levou um soco de leve no ombro.
A mesa inteira ria de alguma história contada por quando uma garota se aproximou. Ela parecia ter reconhecido a banda há algum tempo, porque não chegou com aquele choque típico de quem encontra um artista. Parecia que tinha criado coragem aos poucos. A moça se aproximou cautelosamente, parando em frente aos garotos, que pararam de conversar e se viraram para ela. Ao lado de , empurrou a amiga com o ombro de maneira disfarçada, e a amiga entendeu imediatamente.
Groupies.
— Desculpa interromper.
— Você já interrompeu. — respondeu, tentando fazer gracinha, mas acabou sendo repreendido.
. — Harry o olhou com as sobrancelhas franzidas.
— O quê?
A garota riu.
— Eu sou fã de vocês.
— Aí está. — murmurou para Dougie, que assentiu com a cabeça.
Ela conversou alguns minutos com todos.
As três garotas se entreolharam. trocou um olhar rápido com , que também percebeu a situação. Lembrou-se do dia anterior quando os dois estavam falando sobre groupies e quase riu. Mas mesmo falando sobre shows, músicas e pedindo uma foto, tudo parecia normal. Até começar a concentrar a atenção em Dougie.
A garota se inclinou levemente para o lado dele.
— Então vocês ficam quanto tempo aqui?
— Até amanhã.
— Que pena.
— Depende do seu ponto de vista. — Ele sorriu um pouco nervoso.
— Você sempre foi meu favorito.
— Vocês precisam parar de dizer isso.
— Por quê? — Ela perguntou em um tom meloso, entortando a cabeça, flertando abertamente com ele.
— Porque eu nunca sei o que responder.
— Obrigada?
— Acho que sim. — Poynter batucava os dedos no copo que segurava, claramente nervoso.
A garota sorriu e depois levantou o próprio copo.
— Falando nisso...
Ela apontou para o balcão.
— Vou buscar outra rodada. — Ela encarou o baixista, os olhos percorrendo toda a extensão do corpo dele antes de voltar aos olhos azuis dele.
— Quer uma tequila?
Dougie abriu a boca, mas não conseguiu nem responder, porque alguém respondeu por ele com rapidez absurda.
— Ele não bebe álcool.
A frase saiu imediatamente, tão natural que fez Dougie virar a cabeça para o lado, sem entender nada. A garota piscou, e só havia percebido o que tinha falado quando percebeu que todos olharam pra ela.
— Ah.
Poynter voltou a olhar para a mulher parada em sua frente, sorrindo amigavelmente para ela.
— Desculpa, eu realmente não bebo.
— Nossa, eu não sabia. — Ela provavelmente estava envergonhada e sentia-se um pouco rejeitada pela resposta. — Foi mal.
— Não tem problema. — O garoto pareceu perceber que ela estava nervosa, e tentou amenizar o clima.
— Então vou deixar vocês em paz.
Ela ainda se despediu dos outros antes de voltar para a própria mesa. Assim que se afastou, a conversa do grupo retomou. Dougie estava encarando e ela percebeu, lutando contra a própria vontade de ignorar o olhar dele e voltar a falar com . Só que o francês estava virado conversando com Harry, o que a deixou sem saída a não ser olhar para o vocalista.
— O quê? — Ela perguntou, sabendo exatamente o motivo de ele ainda estar olhando para ela.
— Nada. — Poynter falou com os lábios grudados na borda do copo, antes de virar sua cerveja.
— Você está me encarando.
— Você respondeu por mim.
— Ah, foi automático. — Ela tentou desconversar, bebendo seu drink, olhando para qualquer ponto que não fosse para ele.
Sally e pareceram notar a conversa dos dois, porque pararam de fofocar sobre a groupie só para prestarem atenção neles.
— Desculpa.
— Eu não precisava ser salvo de uma tequila.
— Eu sei. — Ela se virou para olhá-lo, sentindo uma sensação estranha quando viu que ele ainda a estava encarando com aqueles olhos azuis.
— Então por que respondeu?
Ela abriu a boca, fechando-a. Fez o movimento mais uma vez, mas nada conseguiu falar. Porque como diria para ele que foi uma coisa involuntária? Ou talvez porque as groupies são completamente repugnantes? E mesmo assim, ela não deveria ter respondido por ele, porque ele tem boca pra falar por si.
Então acabou dando de ombros.
— Reflexo profissional.
— Mentira.
— Como assim mentira? — Sua voz quase saiu esganiçada, se não fosse pelo som alto do bar, talvez ele teria percebido.
Mas Dougie não era burro assim, e ela sabia que não.
— Você não é minha segurança.
Ele se levantou, indo conversar com e , deixando completamente estática. Claro que ele reagiria daquela maneira com ela, até porque não havia motivo sequer para ela ter agido assim. Os outros nem pareciam perceber, ainda conversava e ria com os amigos. Olhou para o outro lado e viu quando Sally e tentaram disfarçar que não ouviram nada da conversa e ela riu.
Quando estavam indo embora, tentou aliviar o constrangimento, passando ao lado do baixista antes de pagarem a conta.
— Eu literalmente te impedi de ganhar uma tequila grátis.
— Uma tragédia. — Ele respondeu inexpressivo, debochado.
Talvez ele quisesse aproveitar a noite com uma garota, mesmo que fosse uma groupie. Mesmo que talvez se arrependa depois.
— Exatamente. — Ela ignorou o tom seco dele, respondendo como se estivessem conversando normalmente.
Ele piscou várias vezes, vendo-a andar até e puxar assunto com o rapaz.
Dougie não soube dizer o que diabos tinha acontecido naquela noite.
Continua…
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