Codificada por: Ayleen Baümler
Última Atualização: 01/11/2025• SOLIVAGANT
— SHELLY, M. W. Frankenstein ou o Prometeu Moderno
Ao meu caro amigo e doutor, escrevo por meio deste, em contemplação ao vazio que deparo-me.
Tenho pensado bastante, ultimamente, meu caro amigo. Tenho pego-me vagando entre as ruínas de minha casa e repassando momentos que já deveria ter aceitado finalização. Abalizadas dores esta que, outrora periféricas, agora consume-me em sua interinidade. Reconheço, meu velho amigo, que deste tempo todo, pouco possa ter compreensão da dimensão de minhas falhas —— sinto-as, no entanto, enraizadas em meu cerne como a respiração que de meus frígidos lábios escapa. Temo que não exista mais nada a ser feito. Temo que tenha inadvertidamente atravessado a fina linha tênue, invisível a olhos inescrupulosos e vis, a esta altura desacostumados com a etiqueta exercida, que existe entre a depravação completa e o que ainda restava de minha honra. Ah, meu caro amigo, pudesse de mim ver, o escárnio e desprezo que sentiria. Tal como um verme arrasto-me por estas frígidas e desmoralizadas terras, enrosco-me no vão desespero por calor momentâneo de corpos que até o amanhecer, sei que estarão mortos. Questiono-me de minha alma, velho amigo, questiono-me para onde foi? Que vil criatura ousara tomá-la de mim, e a resposta sempre foi a mesma.
era minha alma, meu caro amigo. E tomada de mim, fora.
A fúria tem invadido-me tal qual tormenta, meu velho amigo. Escorre por minhas veias como veneno puro, mutila-me o ser. Ah, minha doce, doce , tal qual cruel teu coração poderia ter tornado-se ao fim de tudo, para que escolhestes seguir a um caminho que tampouco poderia alcançar? Ah, minha doce, doce , porque abraçaste a morte como uma longa amante perdida, e não a mim? Estou enlouquecendo, meu velho amigo. Avisaste-me velho amigo a princípio disso. Avisaste-me das consequências, e eu, parvo em minha dor, transformei a voz de sua razão em mero ruído e clamor de batalha. Palavras distantes e indiferente a elas tornei-me. Ah, meu velho amigo, se o soubesse agora o que carrego em meu peito. Ah, se pudesses ver o que , minha preciosa , em estrago, deixara para trás…
Fiz-me um com estas ruínas, bom amigo. Tornei-me teu solo esfalecido, crie-me de suas raízes, assombrei de suas paredes outrora majestosas agora amontoadas no chão, buscando tal qual espectro maldito, rejeitado pelos céus e infernos, um pródigo a vagar, errático, por entre cidades, pelo o que sei, jamais alcançar. Já desconheço o norte, meu velho amigo, roubaram-me, vermes insolentes implacáveis, minha amada , e agora estou fadado a vagar sem sequer direção saber tomar. Não os perdoarei, velho amigo. Jamais! Para os infernos, que vá a tudo isso, doutor, e digo-lhe mais! Tomo-lhe azáfama este desígnio, bradado ao fundo de meu ser, guiado apenas pelo desalento que a vingança o traga para mim. Tomarei por meu desígnio lembrá-los de quem sou, e obrigar o pagamento do que me foi tomado. Que a vingança seja minha e que as paredes, com sangue e dor, sejam pintadas. Que torne-me o monstro que viam; que sucumba a maldição agora em sua interidade, doutor, que corrompa o que ainda resta-me, que traga-me o que é meu por direito. Pois temo, meu velho amigo, temo que já desconheça o que é viver sem minha preciosa ao meu lado.
Fizeste-me líder um dia, oferecera-me o cabo e com a espada, fiz-me suntuoso. Agora desfaço-me em minha miséria, rodeado pelo reluzente e pelo carnal, que a pouco sequer aplaca minha sede. Tenho sede de minha , velho amigo. Ah, como desejo que a mim escolhestes assombrar, que perturbasse meus profundos sonhos, que reverberasse pelos corredores o arrastar de suas correntes, guiando-a até mim, ainda que por vã momentâneo consolo. Como desejo que de mim fizeste vassalo, mesmo que por efêmero momento depositasse sua fúria espectral febril, e de que seus dedos, agora esqueléticos, arrastasse me em seu tormento, de volta a tua morada eterna. Assombra-me, , minha preciosa ! Atormenta-me! Faz-me de teu servo, mas não abandonai-me ao escárnio penoso do silêncio que agora, sou constrito a hospedar. Como posso aceitar a voracidade do tempo ao cobrar-me suas memórias, minha amada ? Como posso conceber realidade vil e fugaz, em que mesmo o som de tua doce voz, me é roubada? Que já não existam memórias do fulgor que iluminavam seus doces olhos! Que prepotente, oh, tempo, faz-me chacota ao cobrar-me mesmo o cheiro, daquela que amo de volta para si? Egoísmo, digo-lhe de certo, meu bom amigo! A tudo, egoísmo!
Ah, meu velho amigo, desfaço-me em cólera, aos vermes que deslizam por minha pele, mas recusam-se a corroer-me, a morte que outrora fizera-me de amigo, e agora, traí-me injustamente ao tomar-lhe para si, o que a mim, por direito, sempre pertencera! Aos nomes que risco, um por um, por terem feito-se agentes ativos de agora meu padecimento mefistofélico. E ainda assim, velho amigo, de abrandamento desguarnecido sufoco-me tal um moribundo por um fôlego a mais. Fincado algo em meu peito encontra-se, substituindo um coração que já não bate mais. Cólera e sangue tornam-me submisso, e, por meio deste, recorro a ti, meu bom amigo, não para implorar por minha doce , pois a esta, sei que os céus fizeram prisioneira de seus egoístas desígnios, peço-te ajuda, velho amigo, pois uma vez no passado, estendera-me tua mão ao encarniçado sórdido homem que fui. Tomei-lhe, com firme aperto, a ajuda que nunca outrora fora-me oferecida. Imploro-te, mais uma vez, que estenda-me teu auxílio, pois em minha busca por retribuição, não tenho melhor arma senão teu conhecimento; prometo-lhe vigiar ufania maldita, voraz ao relegar-me retorno a verdadeira natureza que permeia meu ser, prometo-lhe velar desejo profana que a afronta e o sangue somente podem condescender-me, mas não posso, meu bom amigo, prometer-lhe que dos desguarnecido desolamento aos pérfidos em declínio por minha fúria, não irei regozijar-me de tamanha lamúria.
Que ao inferno façam morada. Que a Deus, traidor e vil, atormentem com as súplicas frívolas e decadentes de suas condenadas almas aprisionadas. Que seja a meu nome memória vivida, mesmo após o abraço implacável da morte, que seja minha, origem de suas dores e temores. Que seja eu, detentor de seu sangue e promessa futura, que torne-me teu carrasco e algoz, ah, meu velho amigo, pois mesmo em vã mitigação de meus infortúnios receio que não exista êxodo trivial a seguir-se em caminho de meu destino se não a furor abrasado pelas chamas de minha cólera amortecida que clama por sangue. Pois, faço-me vingança, meu velho amigo, e que a meu nome seja memória, sob frígidas e rechaçada pedra, a todos aqueles que um dia ousaram despertar o monstro que a mim, tomara por teu.
Se os céus e o próprio inferno rejeitam-me, faço-me monstro, velho amigo. Faço-me condenação. Faço-me anfitrião de tua genialidade, e tomo-lhe para mim, a lâmina lúgubre que a carnificina anseia, em retorno ao débito que mesmo Deus, agora possui comigo. Rogo-lhe, portanto, meu velho amigo, que venha a meu encontro, realizar a este mórbido enfermo sua última súplica. Faça de mim teu subjeto, velho amigo, aceito o fardo, desde que proporcione o que lhe suplico. Torne-me morte, para que com as brasas infindáveis de minha cólera pintem tela desguarnecida e torpe que destes egocêntricos vermes ousam gabar-se. Pois se não posso ir-me até os céus, que então, trago-lhe o inferno sob essas terras. Há mim, que este direito seja reservado, dentre tudo que me foi roubado.
Que esta carta chegue em tuas mãos de forma segura, caro amigo, e que da tua resposta, tempo não lhe tornes refém.
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