PRÓLOGO
Eu odeio o câncer. Sem dúvidas. Me pego segurando firmemente o corrimão da escada para não cair. Minha mãe estava morrendo e eu não podia fazer nada. Os médicos vieram me comunicar sobre a situação e como o câncer veio crescendo ao longo dos meses. Essa era a segunda vez que dona Angelina tinha câncer, e, infelizmente, dessa vez, era quase impossível ser curado. Sentia tudo dentro de mim se revirar, pensar em perder a minha mãe doía meu peito. O que seria de mim sem ela? Eu realmente não sei. Não sei como agir diante dessa situação, e mesmo assim crio coragem para ficar de pé e subir as escadas.
Passei pelo enorme corredor da casa, indo em direção à porta que ficava no fundo, o quarto dela. Respirei fundo três vezes antes de tocar a maçaneta, estava com medo, me perguntando como eu lidaria com a morte diante dos meus olhos?
Girei a maçaneta, adentrando o quarto, três médicos estavam de um lado da cama e dois do outro. Minha mãe nunca quis fazer tratamento no hospital, ela odiava, porque foi ali que viu o grande amor da sua vida, meu pai, morrer. Desde então, ela nunca mais pisou em um, tanto que o primeiro e segundo tratamento foram em casa. Olhei para minha mãe, sentada na cama me olhando, mesmo perto da morte ela nunca tirava aquele lindo sorriso de seu rosto, isso meio que me trouxe um conforto por um breve momento, e logo depois uma onda de tristeza invadiu meu corpo. Eu não estava preparada.
— Venha aqui, Adele! — falou, com a voz baixa porém animada, como se ela não estivesse prestes a morrer, como se nada tivesse acontecido. Fiquei paralisada, sentindo meus olhos marejarem, eu não conseguia me mexer, meu corpo travou, e a minha única vontade era de desmoronar. — Por favor, Adele… venha até aqui, minha princesa. — O choro ocupou meu rosto, eu queria explodir, tudo em mim transbordava, e eu não sabia como lidar com isso. Corri até a cama, a abraçando fortemente, sentindo as mãos macias e delicadas dela massagearem minha coluna. — Adele… está tudo bem — disse baixinho no meu ouvido.
— Mãe! Você não pode… eu não quero perdê-la… você… fique comigo, por favor! — Caí em prantos, ainda com meus braços envolvidos nela, com medo de, assim que soltasse, ela sumisse.
— Shh… Adele, meu amor, me escute. — Se afastou, me encarando, sua feição era gentil, mesmo que mostrasse o quão cansada ela estava. — Eu te amo, minha filha, não importa o que aconteça daqui pra frente. Você é a minha joia rara, o motivo de todos os meus sorrisos, você não sabe o quão eu fico feliz por ser sua mãe. Eu sempre estarei com você — passou a mão pelo meu rosto, se aproximando da minha orelha, e acrescentou baixinho: —, minha lamparina.
Um dia, quando ainda era criança, entrei no quarto da minha mãe, vendo ela fitar a lamparina que ficava ao lado da cama. Desde sempre, dona Angelina gostava de objetos antigos, e era fascinada ainda mais por uma lamparina. Então perguntei:
— Mamãe, o que é isso?
— Uma lamparina, meu amor. — Sentou-se na cama, fazendo um gesto para que eu fizesse o mesmo, e quando eu o fiz, ela me puxou para seu colo, me abraçando.
— E o que isso faz?
— Ela nos aquece, deixam nossos corpos quentinhos — me apertou contra ela —, desse jeito em que estamos, viu só? Além de nos aquecer, ilumina toooodo o lugar. — Ela falava tão baixo no meu ouvido que, em algum momento, peguei no sono. — Então, sempre que quiser se aquecer ou fugir da escuridão, acenda uma lamparina, Adel. — Deu um beijo em meu cabelo. — Ah, meu Deus, você já pegou no sono?
— Eu quero ser sua lamparina, mamãe — falei sonâmbula. — Pra aquecer você e te tirar da escuridão sempre.
— Você já é minha lamparina, meu amor.
E, desde aquele dia, minha mãe me chama assim, sempre que pode. Mesmo que não fizesse tanto sentido para outras pessoas que ouvissem, para nós fazia.
— Adel? Posso fazer um pedido? — perguntou, secando minhas lágrimas.
— Sim, por favor, mãe.
— Quero tocar aquele piano pela última vez. Preciso senti-lo antes de partir.
— Mas, mãe… você não pode fazer esforço.
— Vai negar um pedido inocente para uma quase morta?
— Não fale assim, se não irei chorar de novo.
— Estou mentindo? — Soltou um riso fraco. — Mas sério, eu preciso disso — falou, e eu olhei para os médicos, que dessa vez estavam mais, um deles assentiu para mim. — Vamos lá!
Dona Angelina sentou-se em frente ao instrumento, passando os dedos por cada pedaço dele. Começou a tocar, sons suaves e calmos, todos estavam observando. Ela tocava tão lindamente que fez com que eu chorasse novamente. A canção era “Je Te Laisserai Des Mots”. Calma e rápida ao mesmo tempo, podia ver o sorriso grande no rosto dela, e eu sabia exatamente em quem ela estava pensando. Meu pai.
Meu pai e minha mãe, ambos tocavam piano, se conheceram na faculdade no primeiro dia, e desde então nunca mais se desgrudaram, mesmo depois da morte dele. Eles sempre foram tão apaixonados um pelo outro, vê-los quando era pequena me alegrava tanto, o respeito e carinho dos dois era imenso. Minha mãe engravidou de mim ainda na faculdade, meus avós a expulsaram, e então ela teve que morar com meu pai, que desde sempre minha mãe reforçava: “Seu pai pulou de alegria quando dei a notícia da gravidez.” E sempre com aquele sorriso no rosto. O meu favorito. O piano foi dado de presente pelo meu pai um mês depois que nasci, os dois sempre fascinados pelo instrumento, não deixava ninguém tocar, apenas eu, ela e ele podiam. Era sempre a mesma música, parecia como um ritual deles, uma conexão inigualável, algo que já fazia parte do ser de cada um. Nas minhas lembranças mais profundas, aquelas que eu guardo em cada pedaço de mim, ela tocava calmamente como a brisa do mar, e meu pai apenas ficava encostado, observando-a com fascinação. Tentei captar todos os detalhes, todos os seus risos durante a canção, os seus olhos iluminados, tão grandes que pareciam poder caber todo o mundo ali dentro, a forma como ela fechava os olhos, degustando do som. Tudo.
Quando voltou para o quarto, parecia mais exausta, porém satisfeita.
— Estou morrendo mas me sinto viva como nunca — falou, rindo. — Tenho outro pedido, Adel. — Tossiu.
— Ah, não…
— Está tudo bem. — Se ajeitou na cama, me puxando para um abraço. — Adel, me prometa uma coisa… — sussurrou. — Não deixe ninguém tocar naquele piano, está bem, meu amor?
— Mãe… você.. — Um bolo se formou na minha garganta, impedindo as palavras de saírem.
— Me prometa, Adele. — Tossiu, e um dos médicos se aproximou. — Só deixe tocar aquele que você amar de corpo e alma. Seu pai ficaria furioso se um qualquer tocasse no seu bem precioso… então, por favor, me prome..
As palavras morreram em sua boca antes que pudessem sair, seus olhos se fecharam, e tudo o que eu ouvia era o monitor de sinais vitais apitar repetidamente. Ela não teve a chance de terminar sua fala, e eu nem tive chance de respondê-la.
“Eu prometo, mãe", respondi baixinho, deixando as lágrimas escaparem.