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Revisada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 12/07/2025

Terceira Edição - 2025
Referência: Castlevania The Lament of Innocence.


Castlevania é uma famosa série de jogos eletrônicos de plataforma, ação-aventura e terror gótico desenvolvida e publicada pela empresa japonesa Konami. A história dos jogos, por sua vez, sempre se concentram na eterna batalha da família Belmont contra o temível conde Drácula e seu exército de monstros, que ameaçam a humanidade a cada século.
Essa fanfic tem como principal finalidade fazer uma releitura da franquia, com uma trama marcante inteiramente baseada nos jogos e em sua famosa linha cronológica que vai desde a Alta Idade Média, até os dias atuais, além de homenagear os fãs, mas também toda a saga, completando a história, deixando-a mais rica, mesmo que não envolva alguns elementos, como a religião cristã, por puro respeito a todos e até mesmo ao próprio Deus.
Desde já, espero que apreciem essa obra, que é o começo de uma longa linha temporal a qual imagina-se que poderá surpreendê-los. Aqui falo: Drácula não é sozinho o vilão principal, acreditem se quiser, há coisas que seus olhos devem estar preparados para ver, pois nem tudo é o que parece ser. E agora vos deixo, preparados para receber essa primeira história: Os Lamentos do Inocente, inspirado no jogo, que é o primeiro da cronologia.


Aos fãs da franquia Castlevania que lerem essa obra, que tenham paciência e possam apreciar essa obra com cuidado e carinho, pois escrevi com o coração, pensando na história e como irão recebê-la.


"Quando a coragem se ajoelha diante do poder, a fé é o único sacramento que resta."
— Crônicas Perdidas da Ordem das Duas Deusas



Sara abriu os olhos abruptamente ao despertar de seu sono, então rapidamente sentou-se em sua cama e acendeu uma vela. Levando a mão ao peito, sentiu seu coração acelerado. Estava incrédula, não conseguia acreditar que sonhara com algo tão horrendo, o qual havia feito seus membros estremecerem e se arrepiarem. Seus olhos foram até as janelas de seu quarto, mas uma delas chamava a atenção devido a uma marca de uma rosa desenhada com uma tinta na parede.
A moça arregalou seu olhar quando viu o símbolo e reconheceu a tintura. Era sangue. Sua memória do pesadelo caminhou, de repente, ao momento onde havia assistido aquele traço ser desenhado por algo invisível. Por mais que ela tentasse dispensá-la, não conseguia. A sensação era a de como se tivesse sido, de alguma forma, carimbada por alguém cuja presença era poderosa e imponente, mas que tinha o objetivo de possuí-la, não importando o meio.
Sara tentou acalmar-se, porém, em vão. Suas mãos suavam somente em lembrar do rosto do ser que a amedrontou. Tudo nele exalava poder e excelência, junto a uma sensação de paz. Sua voz era grossa e aveludada, com um ar doce e delicado que tentava trazer um sentimento de segurança diante do perigo, entretanto, sua intuição a alertava, a incomodando. A lembrança infeliz das últimas palavras dele ecoaram em sua cabeça, fazendo-a sentir o estômago embrulhado.

"Não se preocupe, minha flor de jasmim, antes do fim deste ano, serás minha, somente minha. Seu sangue, sua alma e seu coração, tomarei-os para mim e em seu corpo apenas eu irei tocá-lo, já marquei-a como minha. Não importa se tentar fugir, sempre irei encontrá-la, especialmente nos seus sonhos."

A risada maligna a fez franzir o cenho enquanto abraçava a barriga. A ânsia devido a repulsa era imensa, mas nada saía, por mais que forçasse. Seus pés se inquietaram no colchão. Sentiu-se impotente, nada poderia fazer para mudar aquele fato, porém, a sensação de estar impura invadiu o seu ser. Algo precioso havia sido tirado de si naquele sonho, sua pureza. Contudo, mesmo que tudo parecesse ter sido real, seu instinto a dizia para não acreditar no pesadelo.
Quando sua respiração retornou ao normal, ela fechou os olhos e juntou as mãos em oração. Enquanto esvaziava sua mente, seus membros finalmente relaxaram enquanto sentia o calor do ambiente. A lareira estava acesa, com a lenha fresca ainda queimando, trazendo mais conforto ao ambiente. Sara, então, respirou fundo e umedeceu seus lábios rosados claros para começar sua reza, pensando que, se fizesse isso, poderia voltar a dormir, finalmente.
— Santa Helena, mãe da humanidade, protetora e criadora de todos os seres, perdoe-me por qualquer pecado que eu tenha cometido, guardai-me de todo e qualquer mal, garanta-me uma boa noite de sono, proteja cada morador deste castelo. Peço que interceda por meu noivo, Leon, que está nas terras desérticas de Saharim agindo em seu nome contra os hereges que estão sujando-as, oprimindo teus filhos. Desejo o retorno dele em segurança, amém.
Ao soltar um suspiro, a moça deitou-se de maneira confortável no colchão e cobriu-se. Olhando para o lado, por um momento, o vazio tomou conta de seu coração. Podia ver um rapaz sentado de lado em sua cama, com os cabelos loiros curtos e ondulados, pareciam abençoados pelos céus. Seus olhos cor safira, junto à sua presença, lhe transmitiam proteção e alívio, ao mesmo tempo que o calor de suas mãos nuas faziam seu coração aquecer-se e seus lábios formarem um sorriso.
Era como se conseguisse vê-lo ali, com a mão estendida. Lembrava da maneira que ele tocava suavemente as mechas castanhas de seu cabelo e de como acariciava-lhe o rosto. Era com tamanha delicadeza e cuidado, como se para ele, ela fosse uma criatura frágil. Percebia a maneira que ele fitava seus olhos cor de mel, hipnotizado com a visão em sua frente, de uma bela jovem encantadora no auge de sua juventude, pronta para ser desposada.
No instante que estendeu sua mão para tocá-lo, percebeu seu devaneio. Deitando-se de lado, abraçou seu travesseiro enquanto uma lágrima se formava no canto de seu olho e começava a deslizar sobre seu rosto, terminando por pingar em seu pescoço. A moça enxugou-o com o lençol após um soluçar, até que seus olhos foram para a janela. Era como se, naquele momento, mesmo com a escuridão da noite, estivesse buscando uma luz da santa.
Sara franziu o cenho. Seu pensamento poderia parecer um tanto infantil e sem sentido, pois Santa Helena era uma deusa diurna. Contudo, para a jovem, esse raciocínio não importava, pois sempre foi ensinada de que se alguém tivesse fé, mesmo que pouca, poderia brilhar em meio ao véu noturno e realizar até mesmo feitos considerados impossíveis ao homem.
— Santa Helena… eu lhe peço… traga meu amado de volta sã e salvo para casa… não permita que ele morra, e sim, que retorne em paz para que possamos realizar nossos sonhos — murmurou, após tirar de dentro do decote de sua chemise um pingente em formato de lírio, ligado ao seu colar de contas brancas. — Por favor, tenha misericórdia de nós.
Ao beijar o berloque de seu cordão, a moça apagou a vela que iluminava um pouco de seu quarto. Após deitar-se do lado esquerdo da cama e apertar forte seu travesseiro, sentiu suas pálpebras pesando junto ao cansaço de seu corpo. Fechando os olhos, finalmente pôde mergulhar em um sono profundo, tendo convicção de que dormiria bem, pois o dia seguinte seria de preparação para o grande futuro que a aguardava ao lado de seu noivo.

[...]

Sara abriu os olhos de repente. Quando seus olhos começaram a analisar o ambiente, seu corpo paralisou. Estava em um quarto diferente, adornado com itens luxuosos que equivale aos aposentos nobres de alguém da própria coroa. Sua mente ficou confusa enquanto seu olhar era de pura incredulidade, não fazia sentido, aquele sonho era o mesmo que havia tido há muito tempo. Não importava o que fizesse, ele sempre se repetia, junto à mensagem do ser misterioso a qual a atormentava.
Ao descer da cama, seus pés tocaram no chão frio e um arrepio passou por seu corpo. Sentindo o ambiente gélido, ela abraçou-se, buscando alguma fonte de calor que houvesse ali para aquecer-se. Seu olhar procurou por toda a parte daquele local, porém, foi em vão. Não sabia porque ainda tentava, isso acontecia desde a primeira noite do pesadelo. Nada podia ajudá-la, nem mesmo as chamas azuis dos lustres que iluminavam o local, pois eram tão gélidas quanto a própria morte.
Contudo, quando virou-se para trás, encontrou, em cima dos lençóis, um vestido. A vestimenta em si parecia ser de um tecido nobre e fino, feito de veludo vermelho e decorado com algumas pedrarias douradas. Olhando para o lado, pôde ver um par de brincos, sapatos, além de um diadema feito de ouro e incrustado de pequenos rubis. Parecia uma forma de exaltar mais a sua beleza, mas de uma forma mais madura do que a imagem juvenil que normalmente mostrava.
— O que é isso dessa vez? Qual é a intenção desse… — Sara urrou de dor, sentindo seus pulsos queimando quando ia falar algo a mais.

“Ousaria mesmo falar algo contra mim, minha querida? Não se esqueça, estás marcada, se tentar novamente exprimir qualquer palavra torpe, isso irá se repetir.”

— Por que me tortura dessa forma? Que mal eu fiz contra ti? — perguntou ela enquanto franzia o cenho, sentindo as lágrimas molhando seu rosto.

"Doce Sara, sabes bem a resposta. Quando eu pus os olhos em ti pela primeira vez, já sabia que deverias ser minha. E quando quero algo, prontamente o consigo."

— Não tem o direito de desejar a noiva de outro homem! — exclamou, ao acertar o colchão com um soco, então olhou para trás, ouvindo uma alta risada em seu pensamento. — Onde estão os seus princípios?

"Achas mesmo que sou limitado a meras leis morais criada por seres tão fracos? Para mim, não importa, os desejos não têm limites, nem o próprio prazer. Mas não se preocupe agora, ainda há bastante tempo para a diversão, por que não se permite a ter um tempo para entreter-se? Vista-se e venha ao meu salão, caso demore muito… sabe o que a espera."

Sara engoliu seco quando escutou aquelas últimas palavras. Ao passar a mão em seu braço, lembrou-se de sua última recusa. Foi como se recordar das marcas que adquiriu com um instrumento a qual nunca pensou ser possível usar para algo tão grotesco quanto o que viu. Fechando os olhos, ainda podia ouvir os sons pecaminosos do chicote que a ferretearam até seu limite, cuja sensação que passava era de um animal sendo castigado por seu dono por desobedecê-lo.
Sentindo um calafrio em seu corpo, ela não tardou, vestiu o vestido, e por fim, colocou o diadema. Indo até o espelho, olhou analisando cada detalhe de sua aparência. Sentia-se suja, como se estivesse vestida como uma das meretrizes de luxo o qual viu uma vez. Apesar das vestes favorecerem sua beleza, a moça teve a sensação de estar desnuda devido a fenda mostrando uma de suas pernas caso a movimentasse, então pensou se a intenção do sujeito era de expô-la de maneira lasciva.
Levantando seu passo, Sara saiu para o corredor e andou como se conhecesse todo o local. Em sua mente, havia mapeado cada canto daquele enorme lugar desde sua primeira noite que havia chegado ali. Estranhamente, tinha se acostumado, ciente de sua escolha ser algo irrelevante e apenas sua obediência era necessária. Isso a perturbava, sua pergunta era o porquê de ter sido escolhida por um sujeito como aquele, no qual se questionasse, sofria consequências nunca vistas.
Diante daquilo, mal percebeu ter chegado em uma grande porta. Do lado de fora, podia ouvir uma música alegre tocando enquanto haviam pessoas a qual estavam conversando, ao menos, era o que parecia. Quando as portas se abriram, Sara mal foi notada, apenas caminhou por entre as pessoas e observou-as com cuidado. Suas peles eram tão pálidas quanto a própria neve junto a seus caninos afiados, por sua vez, os lábios eram vívidos e bebiam um líquido tão carmim que facilmente era confundido com vinho.
Caminhando para afastar-se, podia ver as mesas de banquete fartas para saciar aqueles convidados. A moça sentiu um arrepio na espinha junto a um embrulho em seu estômago. O cheiro da comida não era comum, pois não era menos que corações e carne humana servidos ali e que a fazia ter a sensação de náusea, mas seu arrependimento, sem dúvida, era aquela descoberta vinda da boca do próprio ser, a qual sabia quem e o que era realmente. Um ser monstruoso.
— Olhe só se não é a mais bela dessa festa. — A voz imediatamente a chamou atenção, fazendo-a abaixar a cabeça e apertar a barra do vestido.
— Bela como a própria meretriz — murmurou ela, ao olhar para o lado, de cenho franzido.
— Afiada como sempre, pelo visto — respondeu ele, ao pegar no queixo dela e apertá-lo. — Acho que se esqueceu do que houve da última vez.
— O senhor interpretou como insulto, lorde Walter, apenas falei uma verdade. Quer me vestir como uma de suas meretrizes e fazer-me uma delas quando, na verdade, sou noiva de um cavaleiro! — comentou ela, enquanto tentava libertar-se.
— Hah, isso é uma piada. O que é um mero cavaleiro da igreja se comparado a mim? — questionou ele, ao soltá-la, gesticulando, abrindo os braços e sorrindo orgulhosamente. — Não vê? Eu posso oferecê-la tudo o que quiser, basta apenas dizer uma palavra, minha querida.
Sara reconhecia bem aquelas palavras. Ao abaixar a cabeça, refletiu. Sua posição não era menos do que uma marquesa à beira da falência a qual um bom casamento poderia salvar seus pais da pobreza. Aquilo era culpa de sua própria irmã mais velha, Camille, conhecida em todo o feudo como a mulher ousada a qual era originalmente destinada a Leon, mas o rejeitou e decidiu depravar-se com seus dois amantes. No final, o resultado foi a primogênita ter sido deserdada após fugir com a riqueza da família e ser isolada em um convento até a morte.
A moça não pôde deixar de cerrar seus punhos com força ao lembrar disso. Contudo, sua atenção voltou até Walter, olhando-o nos olhos e percebendo sua coloração que lembrava o jaspe, enquanto seus cabelos longos e ondulados eram tão vermelhos quanto uma chama carmesim e que caíam em cascata até seus ombros. O lorde tinha uma beleza incomum, podia admitir, junto de uma presença poderosa e imponente em suas vestes tão nobres num tom de vermelho tão escuro que lembrava o vinho.
Contudo, apesar de parecer tão poderoso e tentador, Sara sabia o quão ambicioso e maléfico ele era. Aquele ser começou a cobiçá-la há muito tempo, começando a atormentá-la com pesadelos na tentativa de quebrá-la e convencê-la a ser somente dele, porém, parecia ser em vão, pois não importava o quanto tentasse fazê-la ceder, mesmo oferecendo riquezas ou posições sociais, ela sempre resistia, preferindo ser fiel ao compromisso acertado com o seu noivo.
— Milorde, quantas vezes irá tentar? — interrogou ela, ao olhá-lo nos olhos e engolir seco, tentando conter suas lágrimas. — Por que não me deixa ir? Poderia escolher outra em meu lugar, eu sou uma mulher compromissada, não importa quantas propostas ofereça.
— Porque tu, minha estimada e bela criatura — afirmou ele, ao acariciar o rosto dela de maneira delicada e olhando-a seriamente, com um sorriso leve e cínico — és marcada, algo tão valioso que não posso deixar que outro tenha. Lembre-se: quando desejo algo, não importa, sempre conseguirei.
Ao segurar mais uma vez o queixo dela, ele a encarou enquanto mostrava as presas. Sara, por sua vez, não pôde deixar de sentir um arrepio sinistro em seu corpo. Sabia o desejo o qual o dominava naquele momento, ao mesmo tempo que sentia-se uma presa completamente vulnerável nas mãos dele. Não adiantava tentar fugir ou se esconder, ele a capturaria como um lobo captura sua caça, sendo a única opção naquele momento a de rezar, mesmo que em vão.
Afastando-se, a moça logo sentiu suas costas encostando na parede. Olhando Walter mais uma vez, percebeu o quanto seus olhos se manifestaram em um preto com suas pupilas vermelhas. Era essa a aparência a qual ela sabia pertencer a um predador pertencente à própria noite. Um ser que mataria sem hesitar, como um animal sedento na qual não media esforços para se alimentar da única coisa que o saciaria de verdade. E que estava bem na sua frente.
Ele era um filho da escuridão, envolto de um véu que o fazia parecer um humano. Sara, quando o viu se manifestar pela primeira vez, não deixou de ficar incrédula. Anteriormente, já havia escutado histórias de seres banidos pelo dia e que eram amaldiçoados, condenados a vagar pelas terras e sendo-lhes proibida qualquer tipo de misericórdia. Eram crias da mãe da obscuridade e das lamentações, cujo único alimento era a fonte da própria vida humana.
O lorde, por sua vez, não tardou em usar sua força para prender os pulsos da jovem com apenas uma mão. Colocando-os acima da cabeça dela, usou a outra para inclinar seu pescoço para o lado, para que pudesse ter um melhor acesso à veia, cuja pulsação deixava suas presas ansiosas para perfurá-las. Lentamente, ele abaixou a cabeça. Se aproximando, queria aproveitar o deleite daquela alimentação devagar, enquanto sentia o doce sabor do medo de sua vítima.

[...]

Sara acordou. Ao abrir os olhos, percebeu que ainda vestia sua chemise, mas sentiu novamente seu coração se acelerar. Sua respiração estava rápida e seu corpo arrepiado, havia acordado mais uma vez de um pesadelo como aquele, mas logo o alívio começou a invadi-la, fazendo-a se recostar na cabeceira de sua cama. Havia algo que não conseguia entender, no entanto, por que havia despertado quando Walter iria alimentar-se dela?
Talvez não saberia a resposta naquele momento, porém, algo a dizia que foi algo importante. O lorde deveria ter sido chamado para um assunto de urgência, pois ainda era um nobre e comandava um castelo que necessitava de sua recorrente administração. De qualquer forma, respirou fundo, sentindo-se tranquilizada aos poucos enquanto olhava para o teto, percebendo que a escuridão da noite havia dado lugar aos primeiros raios do dia.
No entanto, ela foi surpreendida pela voz familiar em sua cabeça, que a levou a abraçar com força seu travesseiro.

"Acha mesmo que isso acabou, minha cara? Pode tardar, mas no final, ainda irei conseguir o que tanto almejo e tu serás a minha principal peça. Em breve, terei um evento muito aguardado em meu castelo, querida, e tanto a ti quanto… seu noivo, estarão convidados. Será uma grande noite, podes esperar."

Ao ouvir aquilo, junto a uma risada maléfica, a jovem não tardou em pegar seu colar de contas. Seu corpo começou a tremer e seus pelos arrepiando-se, enquanto seus membros imediatamente agitaram-se, fazendo-a sair da cama e andar de um lado para o outro. A preocupação a fez começar a suar frio, ao mesmo tempo que segurava o pingente e olhava fixamente para qualquer ponto de seu quarto.

"Santa Helena, mãe da humanidade, peço o teu socorro, traga meu noivo em paz, que nós possamos escapar das garras desse ser cruel, sei o que nos aguarda e por isso suplico por tua misericórdia, pois sei o quão cruel Walter pode ser… nesse evento."


Os galopes do cavalo faziam o chão tremer, enquanto rastros de poeira eram deixados para trás. Seu cavaleiro, um jovem rapaz, segurava as rédeas com firmeza, com seus olhos completamente atentos ao caminho da trilha que o levaria ao seu ducado. Seu corpo tremia e suava frio, estando tenso e inquieto, mas não era em vão, desde que esteve confinado em um navio, não só ele, mas muitos soldados apenas sonhavam com o momento de pisar em terra firme, ansiosos para chegar à sua tão amada França o mais rápido possível.
Havia passado meses naquele estado desde que partira para Saharim até seu retorno. Ele não teve escolha, a igreja da Sagrada Ordem havia declarado guerra contra o povo daquelas terras e acabou convocando todos os cavaleiros da Santa Rosa. Uma cruzada era algo que ele não queria, não quando estava prestes a se casar, mas naquele momento difícil, teve de deixar o seu dever falar mais alto que o seu próprio coração.
Foi muito tempo em alto mar até chegarem na França. Toda a comitiva havia desembarcado em território francês no porto de La Rochelle, e após isso, uma longa viagem de 14 dias para a capital, Paris. Foram intervalos pernoitando em cidades locais que deixaram o rapaz inquieto, rezando para que chegasse logo ao destino para ver sua amada, pois se antes sonhara com a terra seca, até então sonhava em retornar às suas terras.
Agora, apressava-se para chegar ao seu ducado. Sua respiração era rápida, com seu maxilar trincado ao ver o caminho que percorria, apressando o passo naquela trilha enquanto seu olhar encontrou o céu tão azul quanto seus olhos, mas que naquele instante estava dando lugar ao final do entardecer. Isso o preocupou, o sol estava começando a se pôr e aquilo era um mau sinal, pois aquele não era um bom horário para se viajar.
— Merda…é melhor encontrar uma estalagem rápido, é perigoso acampar sozinho nessas condições. — Ele parou seu cavalo, que por sua vez relinchou antes de ser acalmado. — O da senhorita Agnes não é muito longe…
O rapaz não pôde deixar de dar um soco curto no ar. Seu maxilar se trincou e sentiu seus músculos ficando mais tensos. Seu cenho se franziu enquanto seu corpo ficou cada vez mais inquieto ao ponto de remexer um pouco seus pés sob o apoio da sela do cavalo. Não tinha tempo para isso, precisava chegar em seu castelo antes do anoitecer, mas aquela estrada era conhecida por ter bandidos noturnos que atacavam qualquer desavisado.
Viajar sozinho durante a noite não era uma boa opção. Ter viajado com seus companheiros oficiais facilitou bastante, pois os acampamentos, além de grandes, tinham tido uma vigia rigorosa e constante, com trocas de turno entre os sentinelas. Agora que estava só, prosseguir naquele momento era um risco a qual ele não queria correr, pois ladrões de trilhas sempre andavam em bandos. Mesmo para um cavaleiro como ele, ainda seria bastante desvantajoso.
Então, mesmo suspirando frustrado, o moço pegou as rédeas com firmeza e continuou. Não poderia perder mais tempo, o sol estava se pondo cada vez mais e isso já dava brecha para salteadores se prepararem para agir. Cavalgando com pressa, ele logo seguiu um desvio a qual sabia que o levaria para uma estalagem muito conhecida não só pelo próprio como também por muitos viajantes que desejavam evitar bandidos.
Ao chegar, o jovem pôde ver uma imensa cabana com um enorme estábulo para cavalos. O lugar era completamente rústico, com dois andares e uma enorme casa ao lado, a qual reconheceu se tratar de um espaço para banhos coletivos. Aproximando-se, então, desceu de seu equino e foi até a entrada. Adentrando o local, então, viu uma boa clientela servindo-se, uma parte deles de bebidas e outra, do que parecia ser uma deliciosa refeição.
— Oh! Lorde Belmont! — exclamou uma senhora, surpresa, com seus cabelos grisalhos presos em um coque coberto por um lenço e um vestido simples, com um avental amarrado em sua cintura. — Que grande prazer em vê-lo, o que o trás aqui?
— Senhorita Agnes, devo dizer o mesmo. — O rapaz forçou um leve sorriso enquanto seu pé batia constantemente no chão.
— Aquele é Leon Belmont? O duque? — Alguns homens cochichavam, uns com admiração, e outros, com um olhar de desprezo, algo esperado pelo nobre, devido a boa parte olhá-lo como se ele possuísse um ar de arrogância.
O rapaz andou com passos firmes até o balcão, onde recebeu um beijo em sua bochecha. Agnes não escondia sua felicidade em vê-lo, e ele não poderia culpá-la, era muito querido naquela região e uma prova disso, sem dúvida, fora o tempo em que outrora estava prestes a partir para a cruzada. Muitos cidadãos demonstraram suas preocupações com comida, entrega de liriares e até mesmo rezas públicas e bençãos de um padre de uma paróquia do ducado.
Leon soltou um suspiro, seus dedos tamborilavam na madeira do balcão. Seus olhos caminhavam ansiosamente pelo local, notando uma música suave de harpas junto a alaúdes. Uma parte das pessoas o ignorava, já outras, o olhavam como se estivessem diante de uma estátua de ouro, admirando-o. O rapaz não pôde deixar de dar um sorriso no canto de seus lábios. Era normal o povo agir daquela maneira, pois querendo ou não, ele ainda era um herói de guerra.
As serventes, ao passarem pelo jovem, deram olhares discretos e sorrisos leves. Já algumas meretrizes que estavam ali, haviam abaixado um pouco mais os decotes, como se estivessem fazendo um convite, o que o fez sentir seu estômago revirar enquanto seus olhos se reviraram. Não sabia porque elas ainda tentavam, mas elas não eram as únicas, praticamente boa parte das mulheres de “vida fácil” das cidades de seu ducado faziam de tudo para chamarem sua atenção, mas completamente em vão.
Ao sacar uma bolsa de pano contendo uma boa quantidade de dinheiro, Leon suspirou. Não queria ter de fazer aquilo, seu desejo era prosseguir o mais rápido possível para poder ver sua amada noiva, mas pelo visto, Santa Helena não o havia favorecido, deixando a viagem durar mais que o necessário. Agnes não perdeu tempo em contar as moedas de ouro, mas após terminar, sabia que aquela quantia seria não só para um pernoite, mas também para uma refeição e um banho.
— Quarto 16, milorde, espero de verdade que tenha uma boa noite — disse ela ao fazer-lhe uma reverência curta, até que ela olhou para um rapaz magro e voceirou. — Géraud! Acomode o cavalo de Lorde Belmont no estábulo, agora!

[...]

Ao despir-se e entrar na piscina da casa de banho, Leon soltou um suspiro frustrado. Por um lado, seu corpo começou a relaxar devido ao contato com a água aquecida, mas sua mente parecia estar em outro lugar. Olhando para a parede, franziu o cenho, seus dedos começaram a se mexer inquietos enquanto sua cabeça parecia recordar do que havia ouvido após ter chegado em Paris com os soldados.
Após a longa viagem de 14 dias, os cavaleiros foram bem recebidos na capital. As pessoas os aclamaram como heróis, enquanto o Alto Padre lhes dava sua bênção e em seguida fez um discurso. O jovem mal ouviu aquelas palavras, apenas parte de como era importante propagar a fé em Santa Helena e valorizar suas raízes em Saharim por ser o berço da humanidade e da religião, e que por conta disso, não poderia ser profanada.
O que o desconcertou, sem dúvida, foi um servo que havia chegado desesperado. O rapaz naquela hora estava acompanhado com seu amigo Mathias na catedral de Santa Louise, e o criado entregou-lhe uma carta que era de Sara, mas que não pôde abri-la até então devido à sua atenção ter sido voltada às ações da igreja. Contudo, as palavras dele foram o suficiente para deixá-lo ansioso para voltar para casa.
Algo como “venha logo, Sara está esperando desesperada e doente” o deixou preocupado. O conselho hierárquico tentou prendê-lo por mais um momento, mas Mathias o salvou, sob a fala “vá atrás de sua noiva”, aliviando-o. Leon não perdeu tempo em montar em seu cavalo e partir às pressas acreditando que chegaria lá antes do anoitecer, porém o mau tempo e sua parada em uma vila cheia de pessoas o fizeram atrasar-se.
— Maldição… Se tudo isso não tivesse acontecido, já estaria no meu castelo a essa hora, vendo o estado de Sara e podendo ajudá-la a tratar-se, mas por que, por que, Santa? O que tens contra mim? Por acaso lutar por teu nome e punir hereges não foram o suficiente? Nem minhas orações e minha própria devoção?
Com um grunhido, Leon acertou um soco na madeira, uma, duas, até que gemeu de dor. Sua preocupação maior estava em sua noiva, as palavras do seu criado haviam beirado à desespero, enquanto seus pensamentos, por sua vez, voltavam-se a qualquer mau estado que ela pudesse estar, no que poderia ter acontecido e o porquê de ela estar desesperada pelo seu retorno. Sua mente vagava por muitas possibilidades, mas internamente, desejava que não passasse de um mal-entendido.
Enquanto sentia as feridas ardendo e sangrando em seus nós dos dedos, o jovem fechou os olhos. Seu coração estava inquieto, ansioso, era fato, mas de repente, uma dor repentina atingiu-lhe, como uma espécie de aviso. Sua alma de repente sentiu-se triste, pesada, o que ele identificou como outro sinal de que algo estava errado e não era pouco, mas naquele momento, agir com pressa não era uma boa opção.
Endireitando-se na piscina, o rapaz abriu os olhos e mergulhou. Ignorou sua dor, tratou de terminar seu banho para que pudesse ir ao seu quarto e vestir-se para ter uma boa noite de sono. Naquele momento, não queria pensar mais naquilo, em sua chegada, em seu atraso, apenas em pernoitar ali e partir antes do amanhecer. De acordo com seu cálculo, no ritmo em que estava iria chegar antes do meio-dia e aquilo era o que importava.
Em sua suíte, Leon, já vestido, foi até sua bagagem. Ao tirar dela uma carta, viu que o papel estava endereçado a ele, que ao abrir, revelou ter a letra da própria Sara, então tratou de sentar-se em sua cama para ler atentamente sobre o que se tratava. De alguma maneira, suas mãos suavam, sua mente começou a pensar em possibilidades sobre o assunto daquela epístola, já seu coração, acelerou-se um pouco.
— Sara… por favor, o que foi que tu escrevestes? — perguntou a si mesmo.

“Meu caro Leon Belmont.

Perdoe-me pela falta de saudações, mas o que preciso escrever-te é demasiado urgente para vossa pessoa. Antes de tudo, quero dizer-lhe que apesar de tudo, eu estou bem, estou melhorando de uma doença que me acometeu. O médico disse que eu estava pálida e que possivelmente meu sangue estava fraco por algum motivo e que mal estava dormindo.

O motivo para tal quero contar-lhe brevemente. Se trata de pesadelos horríveis a qual não consigo explicar o porquê de começarem a me acometer desde que tu havia partido, mas sei que não se trata de bom presságio. Nesses pesadelos, um ser tenta me bajular e fazer de mim dele e a essa altura não sei se é real ou se foi apenas um fruto de minha imaginação.

O padre Étienne veio ver-me nesses dias. Estive acamada, cansada, senti um pouco fraca também e ele me recomendou que comesse mais carne para que eu pudesse melhorar, e receitou-me alguns tônicos de ervas. Ele ainda orou por mim e colocou um lírio de madeira em minha cama para me proteger do mal, acreditando que fora algum espírito maligno que veio me atormentar e me tentar antes que me casasse.

Mas agora, peço que leia atentamente o que vou dizer-lhe. Eu não sei se é real, mas o ser me disse que iria acontecer um evento em seu castelo e que envolvia vossa pessoa e sinto que isso será muito perigoso. Por favor, venha depressa ao castelo que poderei explicar melhor, porém, peço que acredite em mim, sinto que um grande mau presságio irá nos acometer.

De sua fiel e amada, Sara Trantoul.


O rapaz franziu o cenho, ao mesmo tempo que seu coração disparou. Saber que sua amada estava acamada o fez ficar nervoso, com seus membros inquietos enquanto suas mãos tremiam. O medo dela morrer tão jovem logo o aflorou, pois já ouviu casos como aquele antes e não queria que sua noiva fosse mais uma. Ao mesmo tempo, sua mente começou a refletir sobre o que ela quis dizer com “evento”.
Relendo a carta, parecia uma história inventada, e seria, se não tivesse pontadas de verdade. Leon não podia acreditar no que estava acontecendo com sua amada, mas aquelas palavras não deixavam margem para quaisquer brincadeiras. Parecia ser algo bastante sério vinculado àquela doença e naquele instante, somente uma coisa passou-se por sua cabeça: não era apenas um espírito de tormento, era um demônio, fruto da própria corrupção.
Guardando a carta em sua bagagem, o jovem apoiou os cotovelos em seus joelhos e raciocinou. Ficou curioso sobre esse tal evento, mas até mesmo ele começou a sentir seu coração se apertar, como se fosse um aviso: algo terrível iria acontecer e se Sara sabia de tudo, deveria retornar o mais rápido possível para que se preparasse, pois sentia-se, naquele momento, acorrentado de alguma forma, como se não pudesse escapar daquela situação.
Então, ele preparou-se para dormir e se pôs de joelhos próximo à sua cama. Alcançando sua bolsa, pegou de dentro dela uma caixa de madeira de tom bordô levemente decorada, que ao abri-la, revelou ter dentro dela um colar com contas com um pingente de lírio, era seu liriar. Aquele acessório, usado em seus momentos de reza, havia sido dado de presente por sua noiva em seu vigésimo segundo aniversário.
Pegando então o liriar, começou a rezar.
— Santa Helena, mãe da humanidade, protetora de todos os seres, agradeço-te por tudo que tem-me dado, desde o bom retorno à França até chegar aqui. Por favor, quero saber o porquê de tudo isso, de eu não ter chegado ainda em meu castelo, tudo o que fiz para ti já não foi o suficiente? Perdoe teu servo infiel, apenas peço que cuide de Sara, que possamos ficar juntos, livrai-nos de todo mal, peço sua ajuda nos meus caminhos pois sinto que serão de tormento. Amém.

[...]

A manhã foi marcada por uma intensa movimentação. Agnes pôde perceber isso ao ver seu melhor cliente arrumando sua bagagem com pressa, ir descendo até sair da cabana e chegar no estábulo. Seu cenho se franziu um pouco, mas suas mãos tremiam, estava preocupada com o estado do jovem que desde que havia chegado em sua estalagem, parecia inquieto e bastante frustrado, como se quisesse sair dali o mais rápido possível.
Leon, por sua vez, ajeitou bem a sela de seu cavalo. Seus olhos bem atentos cuidavam de cada detalhe, desde a organização de sua bolsa de pano no bagageiro até a análise para saber se tudo estava firme. Sua mão foi em direção à testa, fechando os olhos enquanto tentava acalmar-se, mesmo que naquele momento fosse algo difícil. Não queria perder mais tempo, iria continuar com a sua rota, acreditando que chegaria até mesmo antes do meio-dia.
Mesmo que não quisesse admitir, seu coração estava acelerado. Seus lábios estavam secos e seus pés não paravam de se moverem ou baterem levemente no chão. Logo, um grunhido baixo saiu de seus lábios, enquanto sua mão passava por seus cabelos loiros ondulados, parecendo que iria tentar puxá-los a qualquer momento. Ao mesmo tempo, pôde notar Agnes o observando com as mãos na cintura.
Sua expressão era clara. Leon percebeu a preocupação dela junto a olhares direcionados à sua bagagem. A mulher aproximou-se e tocou-lhe o ombro, ao mesmo tempo que o rapaz acalmava seu cavalo e trincava seu maxilar, mas torcendo para que o animal não se intimidasse diante daquilo. Por um tempo, evitou olhar para ela, mas ela começou a dar leves tapas em suas costas.
— Está muito desde que chegou, milorde, qual o problema? Por que a pressa de ir embora se tem tempo suficiente para chegar em suas terras?
— Quero ver como está minha noiva, é somente isso que precisa saber — respondeu em um tom sério, não deixando espaço para outra pergunta. — Por favor, apenas deixe-me ir, não tem a necessidade de dar-me a primeira refeição.
— Mas… — Agnes parou antes de insistir ao vê-lo montar no equino, então suspirou. — Então vá, que a deusa santa o guie e abençoe seu trajeto.
Com um aceno de cabeça, ele sorriu levemente para aquela senhora para despedir-se. Ao dar uma sacolejada nas rédeas do cavalo, o animal logo começou a galopar apressadamente, deixando apenas uma trilha de poeira para trás. O rapaz tratou de apenas concentrar-se em seu trajeto, não demorando para retornar à trilha, por sua vez, a que deveria seguir em frente na noite anterior para chegar em seu destino final.
Enquanto galopava, seu aperto nas rédeas aumentou. Não conseguiu tirar de sua cabeça as palavras da carta de sua amada. Começou a ficar tenso, seus membros tremeram um pouco. Não queria encontrar Sara acamada, na verdade, esperava que pudesse encontrá-la em boa saúde, isso levando em consideração o tempo desde que a carta fora escrita até o momento que ela chegou em suas mãos.
O trajeto continuou como planejado. A estrada estava tranquila e pelo horário não apresentar quaisquer perigos, Leon pôde chegar na primeira das cinco cidades de seu ducado. Estava em segurança finalmente. As pessoas, ao verem, se aproximaram para ver de perto o herói que havia conduzido a ordem de cavaleiros da Santa Rosa à mais uma vitória. As crianças bradavam e as mulheres se seguravam para não chorarem.
Ao dar um sacolejo em suas rédeas, galopou em alta velocidade. Ainda iria demorar um pouco para passar por todas as cidades até ir em direção ao seu castelo, mais ao fundo no topo duma colina. Todas aquelas habitações e seus camponeses do feudo pareciam, por sua vez, rodeá-lo, formando uma bela paisagem que deixaria qualquer outro nobre com inveja devido à boa localização.
Galopando por mais de uma hora, o cavaleiro finalmente pôde suspirar. Finalmente se aproximou de seu lar, que era cercado por um abismo sem fundo para impedir inimigos invasores. Enquanto esteve parado, não pôde deixar de sentir seu coração palpitar, ao mesmo tempo que sorria aliviado. Suas mãos suavam com expectativa enquanto olhava para a enorme ponte levadiça, que lhe daria acesso ao lado de dentro. Então, ele levantou a mão e olhou para um dos sentinelas da torre de vigia.
— Abaixe a ponte! — bradou, até que viu que chamou a atenção de um deles. — Imediatamente!
Leon soltou outro suspiro e levou a mão ao peito. Estava ansioso e cheio de expectativa. Quando a ponte abaixou-se, pôde finalmente adentrar seu castelo e galopar pelo pátio interno do local. Ali, teve de diminuir a velocidade e trotar. O motivo eram as várias criadas que estavam tratando de varrer o chão enquanto outros cuidavam dos estábulos mais ao oeste. Sem esperar mais, ele desceu às pressas do cavalo, esperando que pudesse correr até a entrada de sua torre.
Contudo, fora parado no mesmo instante por alguns servos que estavam ali. Todos esperavam ter pelo menos uma palavra com o herói da nação, saber como foram as batalhas e quais foram seus feitos heroicos nas terras desérticas. Leon não pôde deixar de sorrir, seus empregados urraram com a sua presença e alguns começaram a comemorar enquanto ele caminhava mais adentro, onde ficava sua moradia principal. Era querido por todos, sem quaisquer dúvidas, o que o deixava lisonjeado.
O carinho deles podia ser visto em músicas que eram cantadas, nas mulheres mais velhas que tratavam de beijá-lo na bochecha e crianças que lhe entregavam flores. Os homens tentavam rodeá-lo para pedir contos sobre o que houve em Saharim, e o jovem, por mais que quisesse estar ali, ainda tinha que chegar ao quarto onde Sara estava, pois aquilo estava o deixando cada vez mais aflito.
“Como ela estava? Os médicos ousaram trocar o tratamento dela para sangrias?”. Pensamentos como esse rondavam a cabeça do jovem. No fundo, tinha medo de perdê-la daquela forma, já houve casos de pacientes com a mesma doença de Sara e que ao serem tratadas com sangramentos, não tardaram em morrerem. No entanto, ele logo fora cutucado por uma das senhoras.
— Meu senhor, como emagreceu! Precisa comer mais carne para ganhar mais músculos, não tinha comida no acampamento?
— Milorde, ouvi dizer que carne de veado pode fazer bem e que é melhor que a de coelho — disse outra. — Irá engordar rapidinho.
— O senhor é tão corajoso por aceitar uma missão tão arriscada, devemos rezar à santa e agradecer pelo lorde chegar são e salvo — comentou uma mais velha, chefe de todas as criadas.
— Por favor, tire essas roupas, estão tão imundas, tenho que lavá-las agora mesmo, os soldados estão andando assim? — perguntou a última, até que uma multidão de idosas se juntou ao redor dele.
— Senhoras, por favor, não há necessidade disso agora — respondeu ele, ao pará-las com apenas um gesto pacífico de suas mãos, sorrindo de canto. — Apenas quero saber como está Sara.
Apenas em mencionar o nome dela, Leon paralisou-se. As senhoras logo começaram a cochichar entre si sobre o que havia acontecido naqueles últimos tempos durante sua ausência e aquilo o preocupou. Foram ocorridos estranhos, pelo pouco que ele ouviu, onde elas começaram a rezar fervorosamente na capela, por proteção contra forças malignas e que o mal pudesse ser afastado. Com aquilo ocorrendo, um padre foi chamado e ele acabou auxiliando ao colocar liriares e flores de lírio por todo o castelo.
O clérigo terminou por abençoar o lugar para evitar a entrada de forças malignas. Aquilo pareceu aliviar o jovem, no entanto, ao ouvir de uma daquelas mulheres sobre o repentino adoecimento de Sara. Outra afirmou que tudo começou com as queixas da Lady de fraqueza e dores de cabeça, que terminou com a pele pálida, dificuldade de respiração e tonturas. Leon pôde se lembrar que na carta, sua amada disse-lhe que não se preocupasse pois estava se tratando, o que o deixou com a consciência limpa.
No entanto, todos ficaram surpresos ao ouvir um grito de uma mulher. No mesmo instante, o cavaleiro ficou em alerta e retirou sua espada da bainha. Sem perder tempo, ele correu em direção de onde o som veio, chegando em pouco tempo na cozinha, onde pôde ver uma criada segurando um cutelo e em estado de choque, ao mesmo tempo em que o corpo dela tremia e suava frio. Leon tocou-lhe o ombro e ela virou-se, revelando que uma enorme mancha de sangue sujava seu avental branco na forma de um lírio virado para baixo.
Ao olhar para a direção que a criada estava olhando, Leon sentiu suas pernas bambearem. Seus olhos não podiam acreditar no que estava vendo, era um animal que nunca tinha visto em toda a sua vida. O ser tinha uma aparência asquerosa, era asqueroso e sem pelos, com a pele enrugada e tinha orelhas como as de morcego, enquanto seus olhos arregalados eram de cor de marfim e seus dentes afiados como o de um felino.
A serva havia matado aquela fera, foi o que passou-se em seu pensamento. O jovem julgou ao ver um enorme ferimento na barriga do monstro e com o sangue formando uma enorme poça pela cozinha, que coincidia com a arma usada para matá-lo. No entanto, o que mais o chocou foi o sangue se mexendo, fazendo com que os servos curiosos tremessem e gritassem de medo enquanto o líquido carmim de repente formava uma mensagem que o fez engolir em seco.

A hora está chegando, Leon Belmont, esteja preparado. Quando a lua cheia aparecer em meio às sombras da escuridão, minha escolhida será levada ante a minha presença e antes da meia-noite da noite seguinte deverá pegá-la de volta.





Continua...


Nota da autora: Sem nota!

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