Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 25/02/2026.— O senhor gostou da festa?
Claro que havia gostado. Parte sua esperava ansiosa por um segundo apenas de paz, onde seu cálice de vinho vazio fosse a única preocupação da noite. As conversas amigáveis e muitas promessas, movidas animadamente pelo álcool que ingeriram, brindando à felicidade do mais novo casal e futuros acordos.
— Algumas partes foram curiosamente mais agradáveis. — Sorriu minimamente, lembrando da loira de olhos azuis, sentando em uma das poltronas próxima à janela que olhava minutos antes.
Sim, tinha alguma coisa em si que não o deixava completamente feliz com a união da rainha e do novo rei da Lua, contudo, sabia que era o certo, mesmo que seu coração errasse uma batida ou outra com o sorriso que Hinata distribuía para os presentes. Haviam muitas descobertas naquela noite em especial, e não era apenas Minato, com a fala arrastada pela bebida e as promessas de visitas ao reino do Fogo para dois ou três tratados extraordinários.
— Senhor, deveria pensar com cuidado. Precisamos de uma rainha para que seu reino seja visto como o senhor tanto deseja.
Uma mudança. Tudo o levou até o momento em que enfrentaria suas leis, seu povo e a forma que tudo era feito no país que nasceu. Estava farto do sistema que perdurou por longos anos com seu sobrenome, mas que já não funcionava da forma que deveria. Eram outras épocas, outros tempos, agora era a hora do novo. Hinata começou essa horda e fazia sentido que todos eles, sua geração, fizesse o mesmo para que a velha política com medo e limites muito impostos pudessem ter um fim.
— Ainda não é o momento, temos muito a resolver em nossa chegada. Meu irmão não fez contato? — Com a negativa do homem, apertou levemente os olhos. Não era bom não ter notícias de seu reino, mas se fossem más, chegariam rapidamente.
— Posso deixar uma carta formal para o pai da moça… — Shisui comentou, tirando Itachi de seus pensamentos preocupados.
— E oferecer o quê? — Voltou a olhar para seu guarda. — Uma terra manchada de sangue, um povo desconfiado de seu novo rei, ou apenas um nome pesado demais pelo passado imundo?
— Oferecer a oportunidade de construir do zero algo para se orgulhar. Não foi sempre sobre isso, majestade? — Os olhos escuros o fitavam tão esperançosos, tanto quanto quando eram apenas duas crianças brincando de governar um reino. Shisui o fazia acreditar que dias mais fáceis viriam.
— Não é tão simples. Deixaria sua filha nas mãos de um Uchiha?
— Se esse Uchiha fosse minha alteza, quem sabe? — Deu de ombros, sorrindo. — Reparei que a moça também vê o que eu vejo.
— Ela ainda não deve saber metade do que enfrento. Ouviu a palavra rei e se viu em um dos contos que o pai contava quando era uma criança.
— Não faça pouco daquela bela dama, ela parecia contente com o que via.
— Por mais que tenha sido recíproco, meu caro, não é momento para pensar em belas damas.
— Ou futuras rainhas.
— Pai, não quero vingança…
Sentia cada parte de seu peito arder com a possibilidade de enfrentar outra vez uma frente de batalha sem sentido. Não havia por que irritar a rainha Hinata, ela tinha feito sua escolha dentro de sua capacidade e certezas, ela tinha escolhido o homem sujo e maltrapilho que estava de joelhos diante dele.
Era muito do feitio de seu pai subjugar um homem como aquele, apenas para parecer mais forte e imponente diante dos seus. Estava farto, foram anos de torturas observadas de perto, técnicas ensinadas pelo rei, que não compreendia que um dia uma batalha o arrancaria daquele mundo que ele acreditava ser seu. Seu pai não era o dono de nada no fim, era dele a responsabilidade de guiar seu povo para um futuro menos sangrento.
— Deixe de bobagem…
A voz traiçoeira ousou falar que ela era sua e que o general estava no meio das pernas da rainha. Poderia doer menos do que ele havia imaginado, contudo foi um golpe cruel em seu coração, vindo especificamente de alguém que já treinou muitos como ele e foi treinado por seu avô para fazer o mesmo; despertar em um Uchiha seu pior lado.
— Eu não vejo dessa forma, pai.
Nem se tentasse. As histórias de glórias em batalhas não lhe enchiam os olhos escuros. Itachi nunca quis ser alguém como qualquer outro membro de sua longa linhagem de assassinos, mas faria um sacrifício de sangue em nome de uma paz que ele viu tantas vezes ser ignorada por aqueles homens arrogantes e tão mesquinhos quanto seu pai. Ouviu o que seriam as últimas palavras sujas do rei e viu em seus olhos o sangue de Madara pedir para deixar seu corpo.
— Até eu pediria minha nora emprestada…
Mesmo que ela fosse sua, ninguém jamais poderia encostar um dedo em Hinata. Não teve tempo para pensar, Totsuka pesava em sua destra, e o ombro do noivo da rainha foi seu descanso por poucos e preciosos segundos. Ao cortar o ar, sua espada milenar parecia uma tesoura bem afiada, rasgando a mais fina seda branca, tornando imediatamente vermelho tudo ao redor.
— Não se preocupe, é Uchiha.
Ousou falar em voz alta, para que todos os assustados soldados de seu pai pudessem entender de vez o que havia acontecido. Neji piscou surpreso, e Itachi tirou a espada do peito do antigo dono. Não queria chegar ao limite, mas convencer um Uchiha de seu erro parecia tarefa impossível. Jurou que iria até o fim para salvar seu povo, e assim o faria, mesmo que aquilo o tornasse um Regicida.
Levantou-se no mesmo horário de sempre, se vestiu sem ajuda dos servos do reino da Hyuuga e seguiu com seu guarda ao lado. O café da manhã era sempre um bom momento para manter uma conversa amigável e mais sóbria sobre as devidas alianças.
Ele não havia perguntado nada a Hinata, nem queria atrapalhar a lua de mel do casal, mas tinha que voltar logo para suas terras. Sasuke contava com pouca paciência para o que quer que estivesse acontecendo no reino do Fogo, mas, sem os devidos acertos, voltar de mãos abanando estava fora de cogitação. Chegou à grande sala, ainda decorada com as flores escolhidas pela rainha, sentou e, sendo o último a tomar seu lugar, cumprimentou todos os presentes.
— Como está a estadia? — Hinata, como sempre, fazia qualquer desconhecido se sentir bem-vindo em seu lar.
— Ótima, sempre é bom visitá-los. — Sorriu pequeno, mesmo sabendo o quão falso poderia parecer. Seus pesadelos estavam cada vez mais assustadores, pois sempre se lembrava da sensação de matar o pai, e não sentir remorso o preocupava.
— Tem certeza? Não parece que dormiu muito bem… — A Hyuuga franziu o cenho levemente, parecendo mais divertida que verdadeiramente irritada com o fato de seu convidado não estar tão à vontade em suas dependências.
— Apenas um sonho ruim, nada que atrapalhe o dia. — Sorriu mais abertamente, ainda sem muita animação, e rapidamente voltou sua atenção ao homem ao lado da morena.
— Entendo perfeitamente — Neji afirmou, como se ele também fosse aterrorizado por lembranças dolorosas.
As conversas mais uma vez tomaram a mesa farta, e Tsunade Senju parecia a anfitriã, rindo mais alto que qualquer um. Seu pai e tio pareciam muito concentrados na própria refeição e na conversa baixa que mantinham, olhando de soslaio em diversas direções.
Itachi sentia-se pressionado pelos julgamentos. Ninguém ousou perguntar os detalhes, porém ele sentia que não seria levado a sério tão cedo com a atitude que teve que tomar. Não tinha escolha, era a vida de seu pai ou a do novo rei da Lua e uma guerra pela frente, contudo o nome que tanto o envergonhou foi jogado para mais fundo na lama da história.
— Uchiha? — o mais velho dos Senjus o chamou. — Gostaria de marcar uma visita ao seu reino. Sei que não é momento, contudo gostaria de reaver a velha amizade que tínhamos antes de… — Mirou os olhos castanhos para o irmão ao seu lado. — Você sabe.
— Será um grande prazer recebê-los. — Talvez seu sobrenome não tenha afastado alianças tanto quanto pensou.
— Eu irei, ainda não confio em vocês… — Tobirama se posicionou. Claro, pareceria mais seguro para si mandar o irmão em uma reunião com um antigo desafeto. Mesmo Sasuke não gostando de ser isca, Tobirama não parecia ver problema.
— Provavelmente mandaremos um representante também. — Hinata sorriu de forma meiga.
— Mandaremos? — Neji pareceu entender o mesmo que Itachi: absolutamente nada na jogada da rainha.
— Sim, querido. — Virou-se para o marido. — Estreitarmos nossos laços agora é crucial, e mandarmos um correspondente até que tudo se acalme no reino é essencial. — Voltou-se ao Uchiha, ainda sorridente — Espero que concorde, quero a estabilidade do Fogo para que possamos deixar tudo isso para trás.
De fato, era muita bondade da morena mandar um dos seus para resolver alguns problemas com a confiança que seu povo, provavelmente, espera de um rei que matou a sangue frio o próprio pai. Não seria fácil, mas, mostrando alguns aliados, talvez o medo de uma crise, ou fome em massa, fosse embora com algumas visitas. Tratados, vantagens e tudo que pudesse afastar dias tenebrosos de suas terras, Itachi estava disposto a fazer.
— Ah, bom dia! — A rainha levantou animada para a mais nova, que se mantinha próxima a porta, de cabeça baixa e mãos unidas à frente do corpo.
O Uchiha foi de rei organizando seus novos passos a um garoto bobo, podendo ver pela luz do sol a beleza da mulher que chamou sua atenção na noite anterior. Levantou-se imediatamente, fazendo o barulho da louça tilintar e arrancando sorrisos da Sabaku e da Senju.
— Não vá cair. — Shisui colocou a palma da mão nas costas do rei do Fogo. Itachi mirou seu guarda e amigo de soslaio, julgando o comentário em hora inapropriada. Ele não poderia ajudar nenhuma vez?
— Eu não…
— Ino, sente-se por favor. Sakura não poderá se juntar a nós hoje, infelizmente. — Abraçou o corpo à sua frente, sorrindo animada. — Ela teve um imprevisto com algum familiar.
Itachi foi totalmente ignorado. A conversa entre as mulheres rendia rapidamente aos olhares assustados dos homens, que, felizmente, aproveitaram que o moreno não tinha voltado ao seu lugar e se levantaram, prontos para deixar o lugar.
— Vamos, senhor… — Shisui deu um empurrão em seu braço e o moreno pareceu voltar a si, vendo o sinal do Hyuuga para acompanhá-lo.
Seguiu até Neji poucos minutos após anunciar sua saída da mesa e, seguido por seu amigo, saiu por uma das portas laterais para uma parte desconhecida do jardim.
— Hinata pediu que eu o chamasse até aqui. — Com vestes muito diferentes das habituais, Neji parecia ter nascido para ser um Hyuuga.
— E o que deseja?
— Sei que tem pressa de voltar, e eu e minha esposa temos certas contas para acertar com você, Itachi.
— Não há nada que… — Calou-se ao observar um homem loiro, de face fechada, sair por outra porta lateral.
— Esse é Inochi Yamanaka, mestre das leis e membro experiente do pequeno conselho da rainha. Ele o acompanhará em nome do reino na viagem de volta ao Fogo, e sei que será de grande ajuda na construção de seu legado.
Chegar em casa era bom, deitar em sua cama seria melhor ainda, mas seus passos foram interrompidos por Sasuke. Apenas olhou de soslaio para o irmão, que o esperava ao lado da porta da biblioteca, com a tensão que sentia exposta em seu rosto. Claro, não era sua obrigação ficar responsável pelo reino, ainda mais quando haviam tantas coisas a serem feitas. Caminhou a passos lentos até o caçula, passou o braço pelo seu ombro e sorriu, tentando disfarçar o lembrete que sua mente gritava. Agora ele precisava assumir de vez o que conquistou, seu lugar de direito.
— Não enviou nenhuma carta nesses dois dias. — Entraram na biblioteca e por ali cada um tomou uma cadeira.
— Não tinha muito o que falar, apenas… Pergaminhos chegaram do reino da pedra e da água, querem saber se os acordos continuam os mesmos, você sabe… devido à troca de rei.
Suspirou audivelmente. Estava ali há apenas alguns minutos, e o título já lhe cobrava mais do que seu pai lhe cobrou a vida inteira. Colocar um reino em ordem, modificando todo seu modus operandi, era complexo e cansativo. Itachi sabia disso quando decidiu matar seu pai, mas pensar em como agiria era mais fácil do que agir de fato. E era evidente que todos os acordos diplomáticos e econômicos viriam a lhe cobrar atenção.
— Preciso analisar os acordos e então enviar a resposta. — Massageou as têmporas. — Se puder me ajudar, agradeceria.
— Claro que ajudo, Ita, falei pra você que não precisa carregar esse fardo sozinho. — Sasuke se levantou para se retirar, mas pareceu lembrar de algo e se voltou ao irmão novamente. — Quem era o homem que chegou com você e foi encaminhado para um dos quartos?
— Um dos conselheiros de Hinata, veio ajudar.
— Muita generosidade da parte dela se desfazer de um de seus conselheiros. — Foi até a maçaneta e antes de sair concluiu: — Cuidado para esse também não ser um traidor.
Itachi tentou pensar em algo que não fosse política, mas era impossível, não conseguiria, não quando seu reino estava um caos e o medo iminente de traição vinda de qualquer um dominava suas preocupações. Afinal, Itachi deu um golpe de Estado, com o apoio do conselho, mas a população poderia ignorar a segunda parte. Pressionou os olhos que ardiam, não dormia direito há semanas, pesadelos eram frequentes em suas noites, algumas totalmente em claro. Esperava conseguir ter paz pelo menos para dormir uma noite completa.
Foi tirado de seus pensamentos por Sasuke entrando novamente, dessa vez com um servo carregando uma caixa com vários pergaminhos. Assustou-se com a quantidade e franziu o cenho, não se lembrava de ter tido tantas reuniões assim. Itachi era o herdeiro, participava de todas as reuniões onde se fechavam acordos políticos ou econômicos, porém sua mente fez questão de pontuar os meses que ficou no escuro com a maldita ideia de guerrear com o reino da Lua a troco de nada.
Sem falar que seu pai nunca o orientou para o suceder, talvez Madara acreditasse mesmo que era imortal e que seu filho nunca precisaria tomar o trono. As únicas coisas que foi obrigado a fazer tornaram-se paixões para Itachi, como o treino de cavalaria, luta com espadas e até mesmo seu treinamento para fazer parte do exército, caso quisesse.
Contudo, quando fez 15 anos, Madara o fez sair do exército e começar a participar das reuniões do conselho, afinal, precisava aprender como ser um rei. Como conversar adequadamente com o conselho e seus aliados, mas agora podia ver claramente, talvez tirá-lo do exército fazia parte de esconder o que acontecia nas fronteiras.
— Essa é a caixa com os últimos acordos, majestade. — O servo, que ficava responsável por organizar os pergaminhos, disse, reverenciando o rei e os deixando a sós.
— Parece que teremos um longo dia pela frente, Sasuke. — Itachi apenas estendeu a mão para que seu irmão lhe alcançasse o primeiro de muitos naquele dia, que prometia ser exaustivo.
Com o passar das horas, os dois se remexiam nas cadeiras, a coluna castigada pelo tempo que passaram curvados, analisando papéis velhos. O caçula já queria dar um tempo, mas Itachi, ele estava perdido e concentrado demais em tantos acordos que nem sequer tomou conhecimento através de terceiros. Nunca viu a maioria do que encontrara ali, e aquilo o deixou apreensivo. Seu pai vinha escondendo coisas há muito mais tempo do que imaginava. Sasuke viu as sobrancelhas unidas do irmão e começou a analisar suas expressões, não conseguindo manter sua curiosidade apenas para si, perguntou:
— O que tanto te deixa incomodado, Itachi? — O rei tirou os olhos do papel para enfim encarar o irmão.
— Nosso pai escondia coisas muito antes da trama contra a rainha Hinata, Sasuke. Tudo sempre foi muito bem orquestrado por baixo dos panos. — Largou o papel em cima da mesa grossa de madeira e soltou o ar com força.
— Do que está falando? — O outro também franziu o cenho, sem entender nada.
— De coisas que são realmente vergonhosas. Quando eu achei que o nosso nome não poderia ser jogado ainda mais na lama. — Levantou decidido e completou: — Preciso de uma reunião com o conselho com urgência, preciso saber até onde Madara foi para conseguir o que queria.
Banhou-se e se vestiu com a ajuda dos criados e desceu para seu desjejum, encontrando Sasuke já sentado à mesa e próximo da porta que levava a cozinha, Shisui, com sua costumeira pose de guarda sério. Ele era um Uchiha peculiar, apesar da carranca, era divertido e audacioso, e Itachi gostava disso, mantinham uma amizade desde que se conheceram nos treinamentos do exército. O pai de Shisui era o comandante na época, morreu devido a uma doença que se alastrou pelo reino, os fazendo perder muitos de seus soldados e súditos.
Itachi que sugeriu ao seu pai que Shisui fosse o novo comandante da guarda real. Olhando agora, não sabia ao certo se Madara tinha acatado seu conselho por querer agradá-lo, ou por realmente acreditar no olho certeiro do filho. Sabia que ele seria um ótimo comandante, e não estava errado, havia se tornado seu braço direito muito antes do plano de tirar Madara do poder, mas, nesse plano, ele tinha sido a peça chave para os soldados ficarem ao lado de Itachi.
— Bom dia. — O rei sentou-se na cabeceira.
— Bom dia, alteza. Deveria estar usando sua coroa, não? — Shisui perguntou.
— Não vejo necessidade de usá-la dentro da minha casa.
— Deu muito trabalho consegui-la, irmão, deveria aprender a apreciar o peso da coroa — Sasuke comentou ácido, enquanto bebia seu café.
— Bom dia, alteza. — Inoichi surgiu na sala de refeições, fez uma breve reverência e se sentou ao lado esquerdo de Itachi.
— Bom dia. Espero que seus aposentos tenham sido satisfatórios, Inoichi.
— Sim, estou muito confortável, obrigado rei Itachi.
— Eu tenho uma reunião com o conselho logo após o desjejum, depois gostaria de conversar com você.
— Claro, estarei à disposição.
— Shisui lhe mostrará onde fica a biblioteca. — Apontou para o guarda, que assentiu.
Itachi se levantou assim que terminou sua refeição, pegou os pergaminhos que mais lhe interessavam e foi em direção a sala de reuniões do conselho. Assim que entrou, os homens levantaram, o reverenciando e sentando de novo depois que o rei o fez. Respirou fundo e começou a falar sobre os acordos que havia achado, e, pelas expressões assustadas de seus conselheiros, nem precisou perguntar se eles sabiam algo a respeito. Apertou os olhos com os dedos, pressionando a ponte do nariz, tentava pensar de forma racional, porém a raiva que sentia de seu pai ainda corria por suas veias e a cada descoberta parecia aumentar.
— Majestade, precisamos rever esses absurdos — o estrategista comentou.
— Acha que não sei? Preciso basicamente jogar tudo no lixo e começar do zero. — Os homens o olharam surpresos. — Meu pai, e talvez até meu avô, pegaram esse povo e esse reino para explorar, pra amaciar seus grandes egos. — Bufou e juntou os pergaminhos que trouxera. — A rainha Hinata me disponibilizou um de seus conselheiros para me ajudar. Estamos em desfalque, temos apenas três. Nunca entendi por que meu pai dispensou Asahi, mas agora passo a entender um pouco mais.
— Infelizmente, alteza, tínhamos… medo do rei Madara. Quando Asahi foi contra os quereres de seu pai, ele o escorraçou daqui e disse que o próximo a discordar dele perderia a cabeça. — Itachi arregalou os olhos, não imaginava que seu pai tinha virado um maldito imperador.
— Que os Deuses me ajudem… — Itachi levantou, fazendo todos os outros levantarem também.
— Se me permite, majestade. — O rei voltou seu olhar ao homem. — Gostaria de dizer que o apoiaremos nas medidas que queira implementar. — Sua face repleta de rugas indicava sua idade avançada, e em seus olhos a esperança de ver a melhora do reino depois de tantos anos. — Temos certeza de que fará um bom trabalho, rei Itachi.
— Obrigado, senhores, eu darei o meu melhor. Quero o nosso povo feliz e com uma vida digna. — Pegou seus pertences. — Agora me despeço, preciso falar com Inoichi, ele me ajudará em algumas questões. Avisarei quando será a próxima reunião.
Foi reverenciado antes de deixar a sala, seus músculos estavam tensos e levou a mão ao pescoço em busca de diminuir a dor que sentia nos ombros. Talvez o peso da coroa fosse mais simbólico do que físico. Caminhou lentamente pelos corredores, tentava absorver todas as informações. Eles confiavam nele, já era um grande passo para seus súditos não terem outra motivação para odiá-lo. Não entendia como alguém poderia apoiar Madara estando em tão precária situação. Foi até a sala dos arquivos e pediu a um dos servos para levar o livro de leis, ordens e restrições do reino e voltou, a passos lentos, a seguir o caminho que havia tomado.
Respirou fundo mais uma vez ao dobrar no corredor, onde já podia ver a porta da biblioteca. Entrou e notou Inoichi lendo um livro qualquer. Cumprimento-o e tomou sua poltrona atrás da mesa sólida de madeira, juntou os pergaminhos espalhados e colocou todos de volta na caixa em que estavam. Logo ouviu batidas na porta e liberou a entrada, a porta se abriu devagar e o servo entrou com três livros grossos e pesados.
— O que pediu, majestade.
— Obrigado, pode se retirar. — O homem deixou a sala, fechando a porta.
— Em que posso ajudar? — O Yamanaka largou o livro e se levantou, ficando em frente à mesa. Olhava com atenção o rei do Fogo.
— Esses são os livros onde contém as leis, restrições e ordens expedidas até hoje pelos reis que vieram antes de mim. Acredito que levaremos algumas semanas para analisar.
— O que exatamente quer mudar? — Inoichi respirou fundo, pensando no que exatamente Hinata tinha pensado colocando-o naquele caos, mas sabia exatamente o porquê de ela fazer aquilo. Devia a vida do rei da Lua a Itachi, e ela jamais teria como pagá-lo por isso.
— Tudo.
Não seria fácil de qualquer maneira, sabia bem que reescrever leis e repensar em todo o modo de um reino agir era quase como começar um novo mundo do zero. Os cidadãos estavam acostumados, a corte estava ciente de tudo, até alguns decoraram as antigas leis, então aceitar novas assim tão depressa como o Uchiha queria não seria tarefa simples.
Bom, este não era seu trabalho ali, apenas colocar em prática o que fazia por anos no reino da Lua. Sua experiência realmente ajudaria Itachi em sua trajetória até a estabilidade daquelas terras, contudo, cada vez que se mudava um lado, outro ficaria chateado, pois as injustiças que via no papel facilitava a vida de alguns e no poder, que beneficiava os mais ricos, não se mexia tão levianamente como o filho mais velho de Madara achava.
Sua rainha o mandou como um gesto de confiança, ele seria a ponte entre o novo reino do Fogo e sua terra natal. Aquilo era inédito na história de seu país, ter os Uchihas tão próximos assim era algo apenas sonhado, visando a paz e prosperidade de todos, contudo ainda o assustava, pois, como os aldeões acostumados com certa monotonia, ele também estava por nunca ter pisado ali.
Bufou, fechando outro pergaminho e jogando na enorme pilha ao seu lado. Estava na biblioteca, e as horas pareciam não correr, sabia quando era as refeições por ser pessoalmente chamado pelo novo rei ou por seu guarda real, Shisui. Ele revisava cada linha e anotava o que seria pertinente apresentar ao rei, mas sua cabeça estava ali apenas pela metade.
A saudade de sua família queimava em sua mente. Deveriam estar preocupadas com a pouca quantidade de cartas que havia mandado, porém não havia tempo. Seu dia se esvaía naquele lugar com amplas prateleiras lotadas de livros antigos sobre a história daquela terra. Um dia teria o devido tempo para entender o porquê das leis tão injustas e em sua maioria inúteis, criadas somente para acobertar alguns esquemas.
E, naquele momento, lia boquiaberto um dos pergaminhos que parecia ter sido esquecido por ali, um acordo ilícito feito por Madara com o seu antigo companheiro de conselho. Ficou branco tentando entender como aquilo estava ali, junto com todos aqueles papéis e ninguém achou. Foi em busca do novo rei, precisava compartilhar a informação com urgência.
— Rei Itachi, achei algo — falou, assim que avistou o Uchiha na sala de música, sentado ao piano. Caminhou até ele, entregando o pergaminho. Aguardou pacientemente que ele lesse, vendo as expressões incrédulas a cada linha percorrida com seus olhos. — Isso é prova de que seu pai...
— Estava tramando junto ao conselheiro da rainha Hinata. — Itachi suspirou, completando a frase, e coçou a testa antes de dizer: — Obrigado, Inoichi, não sei o que faria sem você aqui. — O loiro fez uma pequena reverência, e o Uchiha levantou indo em direção a porta.
— Majestade… — chamou e o rei se virou —, posso pedir um favor? — Recebeu um aceno positivo e continuou: — Minha esposa e minha filha podem vir visitar? Já fazem dois meses e...
— Mas é óbvio, mandarei os criados arrumarem um quarto para sua filha ao lado do seu.
— Muito obrigado, rei Itachi.
Itachi tinha acabado de acordar e olhava pela janela o reino cercado pelas montanhas altas. Ao longe, podia ver o vilarejo principal, feiras precárias de quinquilharias que o povo achava nas minas. Não queria aquela vida para seus súditos, apesar da principal forma de trabalho no reino do Fogo ser o trabalho nas minas de estanho e pedras preciosas. Suspirou audível, era nítida a insatisfação no rosto do Uchiha, sempre quis que seu reino fosse mais como o da Lua. Olhou para baixo e viu uma carruagem se aproximando da entrada do castelo, franziu o cenho, mas logo entendeu tudo.
Primeiro saiu uma mulher de longos cabelos castanhos e olhos verdes, usava um vestido pesado azul escuro e uma capa verde por cima. Viu Inoichi estender a mão para a mulher subir os degraus da entrada. Logo em seguida, viu apenas uma capa, com capuz, vermelho sangue, por cima da mulher que descia, ignorando completamente a mão do soldado à sua direita para ajudá-la. Itachi nem ao menos piscava, olhava tudo atentamente, viu a mulher puxar o capuz de sua cabeça, deixando os longos cabelos loiros à vista, era ela.
Ele terminou de se vestir e desceu para o café da manhã, chegou até o salão principal de refeições encontrando o casal e a filha sentados à mesa. E, assim que o viram, levantaram para reverenciá-lo.
— Bom dia, alteza. O general Shisui permitiu que nós o esperássemos aqui.
— Bom dia. — Os olhos de Itachi correram pela mesa, focando na loira, sentou-se na cabeceira e curvou os lábios. — Fizeram boa viagem?
— Sim, majestade. Obrigada — a senhora Yamanaka respondeu.
— Essa é minha esposa, Masumi, e essa é minha filha, Ino — apontou para cada uma ao falar seus nomes.
— Prazer em…
— Já nos conhecemos, papai. — A loira interviu, mas logo ficou sem graça olhando para o moreno. — Perdão, rei Itachi.
— Tudo bem. — Sorriu para a loira e direcionou sua atenção ao casal. — Dançamos no casamento da rainha Hinata e do rei Neji — explicou.
— Oh, você não falou que tinha dançado com um rei, minha filha. — As bochechas de Ino enrubesceram pela fala da mãe.
— Vamos comer, sim? — O Uchiha sorriu simpático, fazendo todos concordarem em silêncio.
Apenas os sons de talheres e sorrisos contidos do casal eram ouvidos. Longos momentos que Itachi imaginava o senhor conselheiro de Hinata querendo fugir para o quarto e matar devidamente a saudade de dois meses longe da própria esposa. Sorriu pequeno ao notar os olhos azuis rolando levemente enquanto observava seus pais.
Seria besteira negar que sentia certa nostalgia, embora seus pais não fossem apaixonados como os Yamanaka’s pareciam ser, queria ter visto mais cenas como aquela em seu café da manhã. Infelizmente Madara só amava a si mesmo e sentia orgulho de não ceder aos desejos de uma mulher. De certa forma, Itachi não deveria ver um amor como aquele como algo real e possível, mas via e simplesmente desejava aquilo para si.
— Onde está seu irmão, alteza? — Ino o observou por alguns instantes e estranhou a mudez do mais velho, sorrindo em seguida. — É algo secreto? Se sim, pode responder então onde não está seu irmão.
— Ah, Sasuke costuma treinar cedo com parte do exército. Faz rondas com os lobos pelas estradas desde antes do nascer do sol e possivelmente está atormentando um guarda ou serviçal que fez algo errado.
— Interessante…
— O que, senhorita? — Parou imediatamente de comer e viu nos lábios vermelhos um sorriso brincalhão.
— O senhor tão pacífico e seu irmão tão diferente. São filhos da mesma mulher?
Nem ele saberia dizer com precisão se Madara havia tido ou não a indecência de trair sua mãe. Mal lembrava da mulher, pois, assim que deixou o seio da rainha, foi cuidado pelo pai, que não o queria perto da fraqueza da mãe. Itachi não soube responder à pergunta da loira, então apenas sorriu, negando. Suavizou a expressão incrédula e respondeu:
— Até onde sei, sim, mas nossos pais eram diferentes também. — Deu de ombros. — É normal que cada um tenha puxado um lado.
— Eu li coisas… — Ino parou no instante que o olhar escuro mirou o seu. — Coisas sobre os feitos de seu pai.
— Não posso negar que Madara pôs seu nome na história.
— Não de uma forma que dê orgulho… — Quis tapar a própria boca ao deixar escapar aquilo. Olhou para o pai que se perdia em uma conversa sussurrada com sua mãe, soltou o ar aliviada por não ter sido ouvida, ao menos por ele. — Desculpe.
— Não está errada. — Sorriu, tentando relaxar a Yamanaka. Aquilo não era mentira, contudo não era também de bom tom jogar em sua cara —, mas estou aqui para reescrever algumas coisas e colocar meu sobrenome do lado certo.
Mais uma vez, o silêncio passou a reinar à mesa. Itachi estava agora levemente incomodado com o que disse a loira. Ele não sabia se conseguiria limpar do nome a sujeira que por muitos anos acompanhou o legado Uchiha. Estava mesmo pronto para carregar aquele fardo, ou apto? Seus pensamentos se encarregaram em fazer o moreno duvidar de tudo que em dois meses parecia tão certo. Já não tocava mais em seu prato, e sua mente vagava por todos os planos que fazia antes de dormir. Estava certo em tentar algo diferente do que seu sangue foi capaz por tanto tempo?
— Senhor — a voz doce da Yamanaka soou para si —, há algo aqui que eu possa fazer até aqueles dois… — Os olhos azuis correram até os pais. — conversarem?
— Algo? — Estranhou a pergunta.
— Sim, ou acha que vim para fazer parte da mobília?
— Ino… — Dessa vez não teve tanta sorte, seu pai a escutou. — Peça desculpas para o rei Itachi agora mesmo!
— Desculpe, majestade. — Itachi pareceu ser o único a notar o tom e o olhar nem um pouco arrependidos sobre o que tinha falado, ela era mesmo uma mulher… peculiar.

