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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 15/04/2026

Chegando aos seus aposentos, suspirou pesadamente, observando a janela à sua frente. Estava exausto dos últimos dias e ainda tinha um longo caminho no dia seguinte, após a grande festa de casamento, que celebrava o fim de tempos tortuosos, não só de seu reino, mas de muitos outros. A porta atrás de si foi batida poucos segundos depois de sua entrada, e seu guarda de confiança passou por ela.

— O senhor gostou da festa?

Claro que havia gostado. Parte sua esperava ansiosa por um segundo apenas de paz, onde seu cálice de vinho vazio fosse a única preocupação da noite. As conversas amigáveis e muitas promessas, movidas animadamente pelo álcool que ingeriram, brindando à felicidade do mais novo casal e futuros acordos.

— Algumas partes foram curiosamente mais agradáveis. — Sorriu minimamente, lembrando da loira de olhos azuis, sentando em uma das poltronas próxima à janela que olhava minutos antes.

Sim, tinha alguma coisa em si que não o deixava completamente feliz com a união da rainha e do novo rei da Lua, contudo, sabia que era o certo, mesmo que seu coração errasse uma batida ou outra com o sorriso que Hinata distribuía para os presentes. Haviam muitas descobertas naquela noite em especial, e não era apenas Minato, com a fala arrastada pela bebida e as promessas de visitas ao reino do Fogo para dois ou três tratados extraordinários.

— Senhor, deveria pensar com cuidado. Precisamos de uma rainha para que seu reino seja visto como o senhor tanto deseja.

Uma mudança. Tudo o levou até o momento em que enfrentaria suas leis, seu povo e a forma que tudo era feito no país que nasceu. Estava farto do sistema que perdurou por longos anos com seu sobrenome, mas que já não funcionava da forma que deveria. Eram outras épocas, outros tempos, agora era a hora do novo. Hinata começou essa horda e fazia sentido que todos eles, sua geração, fizesse o mesmo para que a velha política com medo e limites muito impostos pudessem ter um fim.

— Ainda não é o momento, temos muito a resolver em nossa chegada. Meu irmão não fez contato? — Com a negativa do homem, apertou levemente os olhos. Não era bom não ter notícias de seu reino, mas se fossem más, chegariam rapidamente.

— Posso deixar uma carta formal para o pai da moça… — Shisui comentou, tirando Itachi de seus pensamentos preocupados.

— E oferecer o quê? — Voltou a olhar para seu guarda. — Uma terra manchada de sangue, um povo desconfiado de seu novo rei, ou apenas um nome pesado demais pelo passado imundo?

— Oferecer a oportunidade de construir do zero algo para se orgulhar. Não foi sempre sobre isso, majestade? — Os olhos escuros o fitavam tão esperançosos, tanto quanto quando eram apenas duas crianças brincando de governar um reino. Shisui o fazia acreditar que dias mais fáceis viriam.

— Não é tão simples. Deixaria sua filha nas mãos de um Uchiha?

— Se esse Uchiha fosse minha alteza, quem sabe? — Deu de ombros, sorrindo. — Reparei que a moça também vê o que eu vejo.

— Ela ainda não deve saber metade do que enfrento. Ouviu a palavra rei e se viu em um dos contos que o pai contava quando era uma criança.

— Não faça pouco daquela bela dama, ela parecia contente com o que via.

— Por mais que tenha sido recíproco, meu caro, não é momento para pensar em belas damas.

— Ou futuras rainhas.

[...]


— Pai, não quero vingança…

Sentia cada parte de seu peito arder com a possibilidade de enfrentar outra vez uma frente de batalha sem sentido. Não havia por que irritar a rainha Hinata, ela tinha feito sua escolha dentro de sua capacidade e certezas, ela tinha escolhido o homem sujo e maltrapilho que estava de joelhos diante dele.

Era muito do feitio de seu pai subjugar um homem como aquele, apenas para parecer mais forte e imponente diante dos seus. Estava farto, foram anos de torturas observadas de perto, técnicas ensinadas pelo rei, que não compreendia que um dia uma batalha o arrancaria daquele mundo que ele acreditava ser seu. Seu pai não era o dono de nada no fim, era dele a responsabilidade de guiar seu povo para um futuro menos sangrento.

— Deixe de bobagem…

A voz traiçoeira ousou falar que ela era sua e que o general estava no meio das pernas da rainha. Poderia doer menos do que ele havia imaginado, contudo foi um golpe cruel em seu coração, vindo especificamente de alguém que já treinou muitos como ele e foi treinado por seu avô para fazer o mesmo; despertar em um Uchiha seu pior lado.

— Eu não vejo dessa forma, pai.

Nem se tentasse. As histórias de glórias em batalhas não lhe enchiam os olhos escuros. Itachi nunca quis ser alguém como qualquer outro membro de sua longa linhagem de assassinos, mas faria um sacrifício de sangue em nome de uma paz que ele viu tantas vezes ser ignorada por aqueles homens arrogantes e tão mesquinhos quanto seu pai. Ouviu o que seriam as últimas palavras sujas do rei e viu em seus olhos o sangue de Madara pedir para deixar seu corpo.

— Até eu pediria minha nora emprestada…

Mesmo que ela fosse sua, ninguém jamais poderia encostar um dedo em Hinata. Não teve tempo para pensar, Totsuka pesava em sua destra, e o ombro do noivo da rainha foi seu descanso por poucos e preciosos segundos. Ao cortar o ar, sua espada milenar parecia uma tesoura bem afiada, rasgando a mais fina seda branca, tornando imediatamente vermelho tudo ao redor.

— Não se preocupe, é Uchiha.

Ousou falar em voz alta, para que todos os assustados soldados de seu pai pudessem entender de vez o que havia acontecido. Neji piscou surpreso, e Itachi tirou a espada do peito do antigo dono. Não queria chegar ao limite, mas convencer um Uchiha de seu erro parecia tarefa impossível. Jurou que iria até o fim para salvar seu povo, e assim o faria, mesmo que aquilo o tornasse um Regicida.


[...]


Levantou-se no mesmo horário de sempre, se vestiu sem ajuda dos servos do reino da Hyuuga e seguiu com seu guarda ao lado. O café da manhã era sempre um bom momento para manter uma conversa amigável e mais sóbria sobre as devidas alianças.

Ele não havia perguntado nada a Hinata, nem queria atrapalhar a lua de mel do casal, mas tinha que voltar logo para suas terras. Sasuke contava com pouca paciência para o que quer que estivesse acontecendo no reino do Fogo, mas, sem os devidos acertos, voltar de mãos abanando estava fora de cogitação. Chegou à grande sala, ainda decorada com as flores escolhidas pela rainha, sentou e, sendo o último a tomar seu lugar, cumprimentou todos os presentes.

— Como está a estadia? — Hinata, como sempre, fazia qualquer desconhecido se sentir bem-vindo em seu lar.

— Ótima, sempre é bom visitá-los. — Sorriu pequeno, mesmo sabendo o quão falso poderia parecer. Seus pesadelos estavam cada vez mais assustadores, pois sempre se lembrava da sensação de matar o pai, e não sentir remorso o preocupava.

— Tem certeza? Não parece que dormiu muito bem… — A Hyuuga franziu o cenho levemente, parecendo mais divertida que verdadeiramente irritada com o fato de seu convidado não estar tão à vontade em suas dependências.

— Apenas um sonho ruim, nada que atrapalhe o dia. — Sorriu mais abertamente, ainda sem muita animação, e rapidamente voltou sua atenção ao homem ao lado da morena.

— Entendo perfeitamente — Neji afirmou, como se ele também fosse aterrorizado por lembranças dolorosas.

As conversas mais uma vez tomaram a mesa farta, e Tsunade Senju parecia a anfitriã, rindo mais alto que qualquer um. Seu pai e tio pareciam muito concentrados na própria refeição e na conversa baixa que mantinham, olhando de soslaio em diversas direções.

Itachi sentia-se pressionado pelos julgamentos. Ninguém ousou perguntar os detalhes, porém ele sentia que não seria levado a sério tão cedo com a atitude que teve que tomar. Não tinha escolha, era a vida de seu pai ou a do novo rei da Lua e uma guerra pela frente, contudo o nome que tanto o envergonhou foi jogado para mais fundo na lama da história.

— Uchiha? — o mais velho dos Senjus o chamou. — Gostaria de marcar uma visita ao seu reino. Sei que não é momento, contudo gostaria de reaver a velha amizade que tínhamos antes de… — Mirou os olhos castanhos para o irmão ao seu lado. — Você sabe.

— Será um grande prazer recebê-los. — Talvez seu sobrenome não tenha afastado alianças tanto quanto pensou.

— Eu irei, ainda não confio em vocês… — Tobirama se posicionou. Claro, pareceria mais seguro para si mandar o irmão em uma reunião com um antigo desafeto. Mesmo Sasuke não gostando de ser isca, Tobirama não parecia ver problema.

— Provavelmente mandaremos um representante também. — Hinata sorriu de forma meiga.

— Mandaremos? — Neji pareceu entender o mesmo que Itachi: absolutamente nada na jogada da rainha.

— Sim, querido. — Virou-se para o marido. — Estreitarmos nossos laços agora é crucial, e mandarmos um correspondente até que tudo se acalme no reino é essencial. — Voltou-se ao Uchiha, ainda sorridente — Espero que concorde, quero a estabilidade do Fogo para que possamos deixar tudo isso para trás.

De fato, era muita bondade da morena mandar um dos seus para resolver alguns problemas com a confiança que seu povo, provavelmente, espera de um rei que matou a sangue frio o próprio pai. Não seria fácil, mas, mostrando alguns aliados, talvez o medo de uma crise, ou fome em massa, fosse embora com algumas visitas. Tratados, vantagens e tudo que pudesse afastar dias tenebrosos de suas terras, Itachi estava disposto a fazer.

— Ah, bom dia! — A rainha levantou animada para a mais nova, que se mantinha próxima a porta, de cabeça baixa e mãos unidas à frente do corpo.

O Uchiha foi de rei organizando seus novos passos a um garoto bobo, podendo ver pela luz do sol a beleza da mulher que chamou sua atenção na noite anterior. Levantou-se imediatamente, fazendo o barulho da louça tilintar e arrancando sorrisos da Sabaku e da Senju.

— Não vá cair. — Shisui colocou a palma da mão nas costas do rei do Fogo. Itachi mirou seu guarda e amigo de soslaio, julgando o comentário em hora inapropriada. Ele não poderia ajudar nenhuma vez?

— Eu não…

— Ino, sente-se por favor. Sakura não poderá se juntar a nós hoje, infelizmente. — Abraçou o corpo à sua frente, sorrindo animada. — Ela teve um imprevisto com algum familiar.

Itachi foi totalmente ignorado. A conversa entre as mulheres rendia rapidamente aos olhares assustados dos homens, que, felizmente, aproveitaram que o moreno não tinha voltado ao seu lugar e se levantaram, prontos para deixar o lugar.

— Vamos, senhor… — Shisui deu um empurrão em seu braço e o moreno pareceu voltar a si, vendo o sinal do Hyuuga para acompanhá-lo.

Seguiu até Neji poucos minutos após anunciar sua saída da mesa e, seguido por seu amigo, saiu por uma das portas laterais para uma parte desconhecida do jardim.

— Hinata pediu que eu o chamasse até aqui. — Com vestes muito diferentes das habituais, Neji parecia ter nascido para ser um Hyuuga.

— E o que deseja?

— Sei que tem pressa de voltar, e eu e minha esposa temos certas contas para acertar com você, Itachi.

— Não há nada que… — Calou-se ao observar um homem loiro, de face fechada, sair por outra porta lateral.

— Esse é Inochi Yamanaka, mestre das leis e membro experiente do pequeno conselho da rainha. Ele o acompanhará em nome do reino na viagem de volta ao Fogo, e sei que será de grande ajuda na construção de seu legado.

[...]


Chegar em casa era bom, deitar em sua cama seria melhor ainda, mas seus passos foram interrompidos por Sasuke. Apenas olhou de soslaio para o irmão, que o esperava ao lado da porta da biblioteca, com a tensão que sentia exposta em seu rosto. Claro, não era sua obrigação ficar responsável pelo reino, ainda mais quando haviam tantas coisas a serem feitas. Caminhou a passos lentos até o caçula, passou o braço pelo seu ombro e sorriu, tentando disfarçar o lembrete que sua mente gritava. Agora ele precisava assumir de vez o que conquistou, seu lugar de direito.

— Não enviou nenhuma carta nesses dois dias. — Entraram na biblioteca e por ali cada um tomou uma cadeira.

— Não tinha muito o que falar, apenas… Pergaminhos chegaram do reino da pedra e da água, querem saber se os acordos continuam os mesmos, você sabe… devido à troca de rei.

Suspirou audivelmente. Estava ali há apenas alguns minutos, e o título já lhe cobrava mais do que seu pai lhe cobrou a vida inteira. Colocar um reino em ordem, modificando todo seu modus operandi, era complexo e cansativo. Itachi sabia disso quando decidiu matar seu pai, mas pensar em como agiria era mais fácil do que agir de fato. E era evidente que todos os acordos diplomáticos e econômicos viriam a lhe cobrar atenção.

— Preciso analisar os acordos e então enviar a resposta. — Massageou as têmporas. — Se puder me ajudar, agradeceria.

— Claro que ajudo, Ita, falei pra você que não precisa carregar esse fardo sozinho. — Sasuke se levantou para se retirar, mas pareceu lembrar de algo e se voltou ao irmão novamente. — Quem era o homem que chegou com você e foi encaminhado para um dos quartos?

— Um dos conselheiros de Hinata, veio ajudar.

— Muita generosidade da parte dela se desfazer de um de seus conselheiros. — Foi até a maçaneta e antes de sair concluiu: — Cuidado para esse também não ser um traidor.

Itachi tentou pensar em algo que não fosse política, mas era impossível, não conseguiria, não quando seu reino estava um caos e o medo iminente de traição vinda de qualquer um dominava suas preocupações. Afinal, Itachi deu um golpe de Estado, com o apoio do conselho, mas a população poderia ignorar a segunda parte. Pressionou os olhos que ardiam, não dormia direito há semanas, pesadelos eram frequentes em suas noites, algumas totalmente em claro. Esperava conseguir ter paz pelo menos para dormir uma noite completa.

Foi tirado de seus pensamentos por Sasuke entrando novamente, dessa vez com um servo carregando uma caixa com vários pergaminhos. Assustou-se com a quantidade e franziu o cenho, não se lembrava de ter tido tantas reuniões assim. Itachi era o herdeiro, participava de todas as reuniões onde se fechavam acordos políticos ou econômicos, porém sua mente fez questão de pontuar os meses que ficou no escuro com a maldita ideia de guerrear com o reino da Lua a troco de nada.

Sem falar que seu pai nunca o orientou para o suceder, talvez Madara acreditasse mesmo que era imortal e que seu filho nunca precisaria tomar o trono. As únicas coisas que foi obrigado a fazer tornaram-se paixões para Itachi, como o treino de cavalaria, luta com espadas e até mesmo seu treinamento para fazer parte do exército, caso quisesse.

Contudo, quando fez 15 anos, Madara o fez sair do exército e começar a participar das reuniões do conselho, afinal, precisava aprender como ser um rei. Como conversar adequadamente com o conselho e seus aliados, mas agora podia ver claramente, talvez tirá-lo do exército fazia parte de esconder o que acontecia nas fronteiras.

— Essa é a caixa com os últimos acordos, majestade. — O servo, que ficava responsável por organizar os pergaminhos, disse, reverenciando o rei e os deixando a sós.

— Parece que teremos um longo dia pela frente, Sasuke. — Itachi apenas estendeu a mão para que seu irmão lhe alcançasse o primeiro de muitos naquele dia, que prometia ser exaustivo.

Com o passar das horas, os dois se remexiam nas cadeiras, a coluna castigada pelo tempo que passaram curvados, analisando papéis velhos. O caçula já queria dar um tempo, mas Itachi, ele estava perdido e concentrado demais em tantos acordos que nem sequer tomou conhecimento através de terceiros. Nunca viu a maioria do que encontrara ali, e aquilo o deixou apreensivo. Seu pai vinha escondendo coisas há muito mais tempo do que imaginava. Sasuke viu as sobrancelhas unidas do irmão e começou a analisar suas expressões, não conseguindo manter sua curiosidade apenas para si, perguntou:

— O que tanto te deixa incomodado, Itachi? — O rei tirou os olhos do papel para enfim encarar o irmão.

— Nosso pai escondia coisas muito antes da trama contra a rainha Hinata, Sasuke. Tudo sempre foi muito bem orquestrado por baixo dos panos. — Largou o papel em cima da mesa grossa de madeira e soltou o ar com força.

— Do que está falando? — O outro também franziu o cenho, sem entender nada.

— De coisas que são realmente vergonhosas. Quando eu achei que o nosso nome não poderia ser jogado ainda mais na lama. — Levantou decidido e completou: — Preciso de uma reunião com o conselho com urgência, preciso saber até onde Madara foi para conseguir o que queria.



Desistir estava fora de seus planos, mas toda manhã, quando acordava e olhava pela janela, vendo seu reino abandonado, sentia um aperto em seu peito, como se reconstruí-lo fosse impossível. Por que seu pai queria conquistar mais terras se nem a sua própria ele estava governando de maneira decente? O reino do Fogo estava entregue às traças. Pessoas passando fome, o acesso ainda era precário, enchentes ainda aconteciam em algumas áreas mais pobres. Então por que ninguém, nem mesmo o conselho, contrariava as loucuras de seu pai? Faltavam muitas peças nesse quebra cabeça, e Itachi iria descobri-las, uma a uma. Se fosse necessário, que refizesse tudo do zero. Seu avô poderia se debater dentro do caixão, não se importava se fosse para ver seu povo feliz.

Banhou-se e se vestiu com a ajuda dos criados e desceu para seu desjejum, encontrando Sasuke já sentado à mesa e próximo da porta que levava a cozinha, Shisui, com sua costumeira pose de guarda sério. Ele era um Uchiha peculiar, apesar da carranca, era divertido e audacioso, e Itachi gostava disso, mantinham uma amizade desde que se conheceram nos treinamentos do exército. O pai de Shisui era o comandante na época, morreu devido a uma doença que se alastrou pelo reino, os fazendo perder muitos de seus soldados e súditos.

Itachi que sugeriu ao seu pai que Shisui fosse o novo comandante da guarda real. Olhando agora, não sabia ao certo se Madara tinha acatado seu conselho por querer agradá-lo, ou por realmente acreditar no olho certeiro do filho. Sabia que ele seria um ótimo comandante, e não estava errado, havia se tornado seu braço direito muito antes do plano de tirar Madara do poder, mas, nesse plano, ele tinha sido a peça chave para os soldados ficarem ao lado de Itachi.

— Bom dia. — O rei sentou-se na cabeceira.

— Bom dia, alteza. Deveria estar usando sua coroa, não? — Shisui perguntou.

— Não vejo necessidade de usá-la dentro da minha casa.

— Deu muito trabalho consegui-la, irmão, deveria aprender a apreciar o peso da coroa — Sasuke comentou ácido, enquanto bebia seu café.

— Bom dia, alteza. — Inoichi surgiu na sala de refeições, fez uma breve reverência e se sentou ao lado esquerdo de Itachi.

— Bom dia. Espero que seus aposentos tenham sido satisfatórios, Inoichi.

— Sim, estou muito confortável, obrigado rei Itachi.

— Eu tenho uma reunião com o conselho logo após o desjejum, depois gostaria de conversar com você.

— Claro, estarei à disposição.

— Shisui lhe mostrará onde fica a biblioteca. — Apontou para o guarda, que assentiu.

Itachi se levantou assim que terminou sua refeição, pegou os pergaminhos que mais lhe interessavam e foi em direção a sala de reuniões do conselho. Assim que entrou, os homens levantaram, o reverenciando e sentando de novo depois que o rei o fez. Respirou fundo e começou a falar sobre os acordos que havia achado, e, pelas expressões assustadas de seus conselheiros, nem precisou perguntar se eles sabiam algo a respeito. Apertou os olhos com os dedos, pressionando a ponte do nariz, tentava pensar de forma racional, porém a raiva que sentia de seu pai ainda corria por suas veias e a cada descoberta parecia aumentar.

— Majestade, precisamos rever esses absurdos — o estrategista comentou.

— Acha que não sei? Preciso basicamente jogar tudo no lixo e começar do zero. — Os homens o olharam surpresos. — Meu pai, e talvez até meu avô, pegaram esse povo e esse reino para explorar, pra amaciar seus grandes egos. — Bufou e juntou os pergaminhos que trouxera. — A rainha Hinata me disponibilizou um de seus conselheiros para me ajudar. Estamos em desfalque, temos apenas três. Nunca entendi por que meu pai dispensou Asahi, mas agora passo a entender um pouco mais.

— Infelizmente, alteza, tínhamos… medo do rei Madara. Quando Asahi foi contra os quereres de seu pai, ele o escorraçou daqui e disse que o próximo a discordar dele perderia a cabeça. — Itachi arregalou os olhos, não imaginava que seu pai tinha virado um maldito imperador.

— Que os Deuses me ajudem… — Itachi levantou, fazendo todos os outros levantarem também.

— Se me permite, majestade. — O rei voltou seu olhar ao homem. — Gostaria de dizer que o apoiaremos nas medidas que queira implementar. — Sua face repleta de rugas indicava sua idade avançada, e em seus olhos a esperança de ver a melhora do reino depois de tantos anos. — Temos certeza de que fará um bom trabalho, rei Itachi.

— Obrigado, senhores, eu darei o meu melhor. Quero o nosso povo feliz e com uma vida digna. — Pegou seus pertences. — Agora me despeço, preciso falar com Inoichi, ele me ajudará em algumas questões. Avisarei quando será a próxima reunião.

Foi reverenciado antes de deixar a sala, seus músculos estavam tensos e levou a mão ao pescoço em busca de diminuir a dor que sentia nos ombros. Talvez o peso da coroa fosse mais simbólico do que físico. Caminhou lentamente pelos corredores, tentava absorver todas as informações. Eles confiavam nele, já era um grande passo para seus súditos não terem outra motivação para odiá-lo. Não entendia como alguém poderia apoiar Madara estando em tão precária situação. Foi até a sala dos arquivos e pediu a um dos servos para levar o livro de leis, ordens e restrições do reino e voltou, a passos lentos, a seguir o caminho que havia tomado.

Respirou fundo mais uma vez ao dobrar no corredor, onde já podia ver a porta da biblioteca. Entrou e notou Inoichi lendo um livro qualquer. Cumprimento-o e tomou sua poltrona atrás da mesa sólida de madeira, juntou os pergaminhos espalhados e colocou todos de volta na caixa em que estavam. Logo ouviu batidas na porta e liberou a entrada, a porta se abriu devagar e o servo entrou com três livros grossos e pesados.

— O que pediu, majestade.

— Obrigado, pode se retirar. — O homem deixou a sala, fechando a porta.

— Em que posso ajudar? — O Yamanaka largou o livro e se levantou, ficando em frente à mesa. Olhava com atenção o rei do Fogo.

— Esses são os livros onde contém as leis, restrições e ordens expedidas até hoje pelos reis que vieram antes de mim. Acredito que levaremos algumas semanas para analisar.

— O que exatamente quer mudar? — Inoichi respirou fundo, pensando no que exatamente Hinata tinha pensado colocando-o naquele caos, mas sabia exatamente o porquê de ela fazer aquilo. Devia a vida do rei da Lua a Itachi, e ela jamais teria como pagá-lo por isso.

— Tudo.

[...]


Não seria fácil de qualquer maneira, sabia bem que reescrever leis e repensar em todo o modo de um reino agir era quase como começar um novo mundo do zero. Os cidadãos estavam acostumados, a corte estava ciente de tudo, até alguns decoraram as antigas leis, então aceitar novas assim tão depressa como o Uchiha queria não seria tarefa simples.

Bom, este não era seu trabalho ali, apenas colocar em prática o que fazia por anos no reino da Lua. Sua experiência realmente ajudaria Itachi em sua trajetória até a estabilidade daquelas terras, contudo, cada vez que se mudava um lado, outro ficaria chateado, pois as injustiças que via no papel facilitava a vida de alguns e no poder, que beneficiava os mais ricos, não se mexia tão levianamente como o filho mais velho de Madara achava.

Sua rainha o mandou como um gesto de confiança, ele seria a ponte entre o novo reino do Fogo e sua terra natal. Aquilo era inédito na história de seu país, ter os Uchihas tão próximos assim era algo apenas sonhado, visando a paz e prosperidade de todos, contudo ainda o assustava, pois, como os aldeões acostumados com certa monotonia, ele também estava por nunca ter pisado ali.

Bufou, fechando outro pergaminho e jogando na enorme pilha ao seu lado. Estava na biblioteca, e as horas pareciam não correr, sabia quando era as refeições por ser pessoalmente chamado pelo novo rei ou por seu guarda real, Shisui. Ele revisava cada linha e anotava o que seria pertinente apresentar ao rei, mas sua cabeça estava ali apenas pela metade.

A saudade de sua família queimava em sua mente. Deveriam estar preocupadas com a pouca quantidade de cartas que havia mandado, porém não havia tempo. Seu dia se esvaía naquele lugar com amplas prateleiras lotadas de livros antigos sobre a história daquela terra. Um dia teria o devido tempo para entender o porquê das leis tão injustas e em sua maioria inúteis, criadas somente para acobertar alguns esquemas.

E, naquele momento, lia boquiaberto um dos pergaminhos que parecia ter sido esquecido por ali, um acordo ilícito feito por Madara com o seu antigo companheiro de conselho. Ficou branco tentando entender como aquilo estava ali, junto com todos aqueles papéis e ninguém achou. Foi em busca do novo rei, precisava compartilhar a informação com urgência.

— Rei Itachi, achei algo — falou, assim que avistou o Uchiha na sala de música, sentado ao piano. Caminhou até ele, entregando o pergaminho. Aguardou pacientemente que ele lesse, vendo as expressões incrédulas a cada linha percorrida com seus olhos. — Isso é prova de que seu pai...

— Estava tramando junto ao conselheiro da rainha Hinata. — Itachi suspirou, completando a frase, e coçou a testa antes de dizer: — Obrigado, Inoichi, não sei o que faria sem você aqui. — O loiro fez uma pequena reverência, e o Uchiha levantou indo em direção a porta.

— Majestade… — chamou e o rei se virou —, posso pedir um favor? — Recebeu um aceno positivo e continuou: — Minha esposa e minha filha podem vir visitar? Já fazem dois meses e...

— Mas é óbvio, mandarei os criados arrumarem um quarto para sua filha ao lado do seu.

— Muito obrigado, rei Itachi.

[...]


Itachi tinha acabado de acordar e olhava pela janela o reino cercado pelas montanhas altas. Ao longe, podia ver o vilarejo principal, feiras precárias de quinquilharias que o povo achava nas minas. Não queria aquela vida para seus súditos, apesar da principal forma de trabalho no reino do Fogo ser o trabalho nas minas de estanho e pedras preciosas. Suspirou audível, era nítida a insatisfação no rosto do Uchiha, sempre quis que seu reino fosse mais como o da Lua. Olhou para baixo e viu uma carruagem se aproximando da entrada do castelo, franziu o cenho, mas logo entendeu tudo.

Primeiro saiu uma mulher de longos cabelos castanhos e olhos verdes, usava um vestido pesado azul escuro e uma capa verde por cima. Viu Inoichi estender a mão para a mulher subir os degraus da entrada. Logo em seguida, viu apenas uma capa, com capuz, vermelho sangue, por cima da mulher que descia, ignorando completamente a mão do soldado à sua direita para ajudá-la. Itachi nem ao menos piscava, olhava tudo atentamente, viu a mulher puxar o capuz de sua cabeça, deixando os longos cabelos loiros à vista, era ela.

Ele terminou de se vestir e desceu para o café da manhã, chegou até o salão principal de refeições encontrando o casal e a filha sentados à mesa. E, assim que o viram, levantaram para reverenciá-lo.

— Bom dia, alteza. O general Shisui permitiu que nós o esperássemos aqui.

— Bom dia. — Os olhos de Itachi correram pela mesa, focando na loira, sentou-se na cabeceira e curvou os lábios. — Fizeram boa viagem?

— Sim, majestade. Obrigada — a senhora Yamanaka respondeu.

— Essa é minha esposa, Masumi, e essa é minha filha, Ino — apontou para cada uma ao falar seus nomes.

— Prazer em…

— Já nos conhecemos, papai. — A loira interviu, mas logo ficou sem graça olhando para o moreno. — Perdão, rei Itachi.

— Tudo bem. — Sorriu para a loira e direcionou sua atenção ao casal. — Dançamos no casamento da rainha Hinata e do rei Neji — explicou.

— Oh, você não falou que tinha dançado com um rei, minha filha. — As bochechas de Ino enrubesceram pela fala da mãe.

— Vamos comer, sim? — O Uchiha sorriu simpático, fazendo todos concordarem em silêncio.

Apenas os sons de talheres e sorrisos contidos do casal eram ouvidos. Longos momentos que Itachi imaginava o senhor conselheiro de Hinata querendo fugir para o quarto e matar devidamente a saudade de dois meses longe da própria esposa. Sorriu pequeno ao notar os olhos azuis rolando levemente enquanto observava seus pais.

Seria besteira negar que sentia certa nostalgia, embora seus pais não fossem apaixonados como os Yamanaka’s pareciam ser, queria ter visto mais cenas como aquela em seu café da manhã. Infelizmente Madara só amava a si mesmo e sentia orgulho de não ceder aos desejos de uma mulher. De certa forma, Itachi não deveria ver um amor como aquele como algo real e possível, mas via e simplesmente desejava aquilo para si.

— Onde está seu irmão, alteza? — Ino o observou por alguns instantes e estranhou a mudez do mais velho, sorrindo em seguida. — É algo secreto? Se sim, pode responder então onde não está seu irmão.

— Ah, Sasuke costuma treinar cedo com parte do exército. Faz rondas com os lobos pelas estradas desde antes do nascer do sol e possivelmente está atormentando um guarda ou serviçal que fez algo errado.

— Interessante…

— O que, senhorita? — Parou imediatamente de comer e viu nos lábios vermelhos um sorriso brincalhão.

— O senhor tão pacífico e seu irmão tão diferente. São filhos da mesma mulher?

Nem ele saberia dizer com precisão se Madara havia tido ou não a indecência de trair sua mãe. Mal lembrava da mulher, pois, assim que deixou o seio da rainha, foi cuidado pelo pai, que não o queria perto da fraqueza da mãe. Itachi não soube responder à pergunta da loira, então apenas sorriu, negando. Suavizou a expressão incrédula e respondeu:

— Até onde sei, sim, mas nossos pais eram diferentes também. — Deu de ombros. — É normal que cada um tenha puxado um lado.

— Eu li coisas… — Ino parou no instante que o olhar escuro mirou o seu. — Coisas sobre os feitos de seu pai.

— Não posso negar que Madara pôs seu nome na história.

— Não de uma forma que dê orgulho… — Quis tapar a própria boca ao deixar escapar aquilo. Olhou para o pai que se perdia em uma conversa sussurrada com sua mãe, soltou o ar aliviada por não ter sido ouvida, ao menos por ele. — Desculpe.

— Não está errada. — Sorriu, tentando relaxar a Yamanaka. Aquilo não era mentira, contudo não era também de bom tom jogar em sua cara —, mas estou aqui para reescrever algumas coisas e colocar meu sobrenome do lado certo.

Mais uma vez, o silêncio passou a reinar à mesa. Itachi estava agora levemente incomodado com o que disse a loira. Ele não sabia se conseguiria limpar do nome a sujeira que por muitos anos acompanhou o legado Uchiha. Estava mesmo pronto para carregar aquele fardo, ou apto? Seus pensamentos se encarregaram em fazer o moreno duvidar de tudo que em dois meses parecia tão certo. Já não tocava mais em seu prato, e sua mente vagava por todos os planos que fazia antes de dormir. Estava certo em tentar algo diferente do que seu sangue foi capaz por tanto tempo?

— Senhor — a voz doce da Yamanaka soou para si —, há algo aqui que eu possa fazer até aqueles dois… — Os olhos azuis correram até os pais. — conversarem?

— Algo? — Estranhou a pergunta.

— Sim, ou acha que vim para fazer parte da mobília?

— Ino… — Dessa vez não teve tanta sorte, seu pai a escutou. — Peça desculpas para o rei Itachi agora mesmo!

— Desculpe, majestade. — Itachi pareceu ser o único a notar o tom e o olhar nem um pouco arrependidos sobre o que tinha falado, ela era mesmo uma mulher… peculiar.



Amava os livros, de fato, mas passar o tempo todo enfurnada na biblioteca não era sua ideia de visita ideal ao reino do Fogo, principalmente quando os livros não eram agradáveis ao seu gosto. A história contada pelo lado Uchiha não era nada comparada aos livros do reino da Lua. Os de romance eram até bem escritos, porém não era seu gênero favorito. Por isso, começou a caminhar pelos corredores daquele castelo imenso.

Um reino frio como aquele deveria ter um lugar apropriado para os treinos, já que na maior parte do tempo não era possível enfrentar as baixas temperaturas, ainda mais com a neve que se acumulava rapidamente no inverno, que estava bem próximo de começar. Ino perambulou por tempo demais ao seu ver, e quando tudo se tornava menos interessante que a biblioteca, ouviu alguns gritos e espadas se chocando e caminhou devagar em direção aos sons que chamaram sua atenção.

Chegou ao fim do corredor que estava e viu uma sala enorme, rodeada de grandes colunas do térreo, onde os homens treinavam, até o primeiro andar, que era onde estava. Sob a sacada enfeitada de balaústres de pedra decorada, tentando manter-se oculta para espiar o que acontecia, deu mais alguns passos e se escondeu atrás de uma das colunas de pedra. Podia ver a escada do outro lado, os soldados treinando lá embaixo, e Sasuke estava lá, disparando ordens.

Todo tipo de armamento necessário estava em um dos cantos mais distantes da grande sala. Como viu inúmeras vezes Shikamaru fazer, Sasuke tomava a frente dos homens e ditava ordens, andando até quem não cumpria rigorosamente o que foi dito pelo moreno, que mantinha suas mãos sobre a bainha da longa espada que carregava. Talvez fosse exagero, mas Ino lembrou-se de como Itachi listou os afazeres do mais novo no café da manhã de sua chegada.

— Muito bem, homens! Nos vemos aqui amanhã à tarde novamente, logo após o almoço — o príncipe disse alto.

Ino mordeu o lábio e sorriu. Era o lugar perfeito. Era aconchegante e iluminado devido às grandes janelas de vidro, e sua mãe estava ocupada demais para lembrar de si, por enquanto. Correu de volta até seu quarto, memorizando bem onde era a sala que tinha encontrado. Abriu a porta pesada e entrou, mirou seu baú de viagem e foi até ele, começando a tirar todas as roupas de dentro e lá estava o que procurava. Seus olhos chegaram a brilhar e o sorriso tomou seu rosto. Começou a rir quando lembrou de quando fazia sua bagagem em casa.



Estava arrumando seus mais belos vestidos, joias e grampos de cabelo. Pegou seu companheiro diário e o colocou em cima de seu baú. Caso Itachi fosse tão atrasado quanto Madara, teria ao menos o seu treino como afazer. Odiava ser apenas a garota bonita, filha do conselheiro. O rei podia ser bonito e educado, porém, não o conhecia tão bem a ponto de ter a certeza de que lhe daria algo para fazer. Não passaria duas semanas inteiras distribuindo beleza, como sua mãe dizia que era para ser feito. A senhora Yamanaka entrou em seu quarto, perguntando se já tinha aprontado tudo para a viagem do dia seguinte e se deparou com aquele ultraje.

— Não mesmo, Ino! — ralhou com a filha. — Não vai levar isso para o reino do fogo. Não sabemos como são as coisas por lá.

— Mãe, não tem nada demais. Eu procuro um lugar afastado e que ninguém vá me ver.

— Acaso já foi ao Reino Uchiha e não me lembro?

— Não, mas…

— Decidido então, deixa essa porcaria aqui.

Sua mãe saiu, batendo a porta, e Ino sorriu travessa, jamais deixaria seu companheiro para trás. Tirou todas as roupas e o colocou no fundo da bagagem.



Montou a estrutura do alvo e se posicionou na outra extremidade da sala, que descobriu que, para sua sorte, ficava em outra ala do castelo, onde apenas quem fosse treinar iria, e como viu os treinos serem dados como encerrados pelo próprio príncipe, teria um tempo sozinha. Pegou uma flecha da aljava de suas costas e encaixou no arco, puxou o ar devagar e o soltou, se concentrando. Assim que mirou o alvo, soltou a corda, e a flecha atingiu o centro. Sorriu com o feito e a sua melhora devido aos ensinamentos que seu melhor amigo passou para si.

Após algumas horas treinando, achou que alguém poderia sentir sua falta. Pegou seus pertences e se esgueirou até seu quarto, guardou seu equipamento de arquearia e respirou aliviada e feliz por ter conseguido fazer seu treino, que era diário em casa, depois de três dias no reino do Fogo. Ouviu batidas na porta, pegou o livro, que estava na mesa lateral, abrindo em qualquer página, e sentou na poltrona, permitindo a entrada em seguida. Sua mãe surgiu e olhou para si com a sobrancelha arqueada.

— O que está aprontando?

— Nada?

— O jantar vai ser posto em alguns minutos. Desça que seu pai está nos esperando.

— Vou só terminar essa página. — Ino sorriu, e Masumi saiu do quarto ainda desconfiada.

Ino se olhou no espelho e viu alguns fios fora do lugar devido ao treino. Sua pele também estava um pouco vermelha. Talvez sua mãe tivesse notado, porém ela não era tão observadora para tal. De qualquer forma, precisaria ter mais cuidado. Arrumou seu cabelo, colocando um broche, e desceu a escada, encontrando Sasuke no caminho. Fez uma pequena reverência, mas o moreno pareceu não se importar com aquilo. Achou ótimo, também não gostava de muitas regras impostas pela monarquia. Sentaram-se à mesa assim que o rei tomou seu lugar, logo os empregados serviram o jantar, e todos deram início à refeição.

[...]


Já vinha se sentindo sozinha há algum tempo. Depois que Shikamaru foi embora para o reino da Areia, havia perdido seu melhor amigo. Depois seu pai foi enviado pela Rainha Hinata para o Reino do Fogo, estava ficando cansada de todos terem um propósito, menos ela. Sua mãe, ao contrário de si, adorava ser da coroa, mesmo que ser esposa de um conselheiro não fosse o maior dos títulos. Pelo menos ainda tinha suas aulas no vilarejo, porém, onde estava, nem isso possuía.

Encontrou uma varanda aberta e se encantou com a lua cheia no céu, entre as montanhas, que nas pontas já davam sinais da primeira neve do inverno. Encheu seus pulmões e fechou os olhos, aproveitando a brisa daquela noite. No conhecia o reino como gostaria, no entanto, conseguia ver algumas casas do vilarejo mais próximo dali de cima. Cruzou os braços em busca de se aquecer, sentindo o vento se tornar mais gelado a cada minuto que passava ali fora. Contudo, era bom não ver apenas paredes ou livros diante de seus olhos.

— Vai ficar doente, senhorita Yamanaka. — Ino virou, vendo Itachi tirando seu sobretudo grosso de pele. — Me permite? — A loira assentiu, e ele colocou sobre os ombros dela.

— Não vai ficar com frio, majestade? — O Uchiha ficou ao lado dela e juntou suas mãos atrás das costas enquanto olhava a paisagem.

— Estou acostumado com minhas terras, Ino. Não se preocupe. — Sorriu simpático. — O que está achando do meu reino?

— Precisaria conhecê-lo além das paredes do castelo para responder essa pergunta. — Itachi a olhou surpreso com a petulância em que a loira respondia a tudo.

— Não é aconselhável sair sozinha, ainda mais com os problemas que estamos enfrentando.

— Sempre ouvi que o reino do Fogo tinha muitos problemas, principalmente na questão política — ela falava com segurança, e Itachi apenas a mirava intrigado. — A história pode ser escrita por várias pessoas, mas uma coisa é unânime nos livros: Uchiha's sempre foram problemáticos e nada de bom pode vir daqui. — O rei ficou com a boca entreaberta, era a segunda vez que Ino insultava sua família embaixo de seu teto com tamanha facilidade. Estava em dúvida se ficava ofendido ou fascinado pela loira não saber frear sua língua. — Perdoe-me, rei Itachi, não quis ofendê-lo. Preciso voltar para o meu quarto. — Virou as costas, mas parou assim que ouviu a voz do homem.

— Não me ofendi, acredito que esse seja mais um motivo para eu querer mudar as coisas. — A loira respirou fundo ouvindo aquelas palavras. — Mudar a forma que o nome Uchiha é visto se tornou meu objetivo mais urgente.

— E como pretende mudar isso, alteza? — Ousou perguntar e esperou em silêncio, um que demorou algum tempo para ser cortado.

— Talvez eu consiga aprender algo com quem me odeia tanto. — Itachi virou para trás e viu a mulher fazer o mesmo.

— Não odeio você, Rei Itachi, nem os Uchiha's no geral. — Os olhos azuis encaravam os negros com confiança. — Só disse o que li nos livros, mas, pela determinação que vejo em seus olhos, tenho certeza de que você conseguirá mudar o que tanto quer. — Tirou o casaco sobre si e o entregou nas mãos de Itachi. — Boa noite, majestade. — Fez uma pequena reverência e entrou no castelo, deixando o rei um tanto pensativo e, ao mesmo tempo, esperançoso.

[...]


Depois de tantos anos, o general fazia parte do conselho novamente, nada mais normal, porém para o conselho ainda era um pouco estranho, já que os antigos reis não deixavam o general ter nem sequer os próprios pensamentos, era apenas um lacaio obedecendo seu rei, não importando as circunstâncias. Itachi também tinha trazido de volta um mestre de leis, quando finalmente achou o pergaminho com a linha de sucessão para o cargo. As coisas estavam caminhando mais pacificamente do que o rei achou que iria, no entanto, as mudanças seguiam lentas e, por enquanto, ainda por dentro, iria saber se seu povo estaria a favor ou contra si somente quando essas mudanças os atingissem.

— Uma reforma militar? — Shisui tinha sido chamado até a sala de resoluções táticas por Itachi para discutir seus planos para o próximo passo. — Não temos uma desde que éramos crianças, senhor.

— Tenho ciência disso, Shisui. — Itachi tirou os olhos do reino, que olhava pela janela, e virou para seu general. — Chegou a hora de mudar as coisas.

— Não acha que está muito cedo para fazer uma movimentação dessas, alteza?

— Precisamos começar por algum lugar, Shisui, e dar uma vida sem medo para o meu povo é minha prioridade. Começando pelo exército, que abusa de seu poder para punir qualquer um à sua vontade.

— Mesmo achando uma decisão arriscada, vou apoiar você no que precisar, sabe disso, majestade.

— Então vamos começar a pensar em como fazer isso.

Shisui e Itachi passaram 2 dias e 3 noites traçando a nova distribuição de homens em cada uma das novas posições e encargos. Criaram novos capitães por tempo de serviço e suas honras, dividiram o exército em seções: a primeira ficaria responsável pelas fronteiras, quatro pelotões, os maiores, já que a fronteira do reino do fogo era extensa. A segunda seção estaria cuidando da segurança das ruas, assim como dos pequenos crimes, e a última ficaria encarregado da proteção das minas. 10 capitães de confiança de Shisui, que agora responderiam diretamente a Sasuke, general do exército do Fogo. Essas mudanças seriam o suficiente para ter um maior controle sobre o que acontecia nas terras do reino do fogo, assim esperavam. Itachi ficou orgulhoso de como pensaram rápido e conseguiram elaborar um plano que não causasse tanto descontentamento.



— Senhorita — os dois toques na porta antecederam a entrada da criada que a acompanhava pelas manhãs —, está pronta?

— Sim, felizmente este vestido não é para saídas. — O que tornava tudo mais fácil de ser colocado em seu lugar, porém a fita longa amarrada em sua cintura ainda a incomodava, contudo, não deixaria de usar o acessório com medo do olhar reprovador de sua mãe.

— Temo que precisará mudar, senhorita. — A mulher, que parecia ter a idade de sua mãe, sorriu pequeno para a loira enquanto revirava seus pertences, oferecendo, pouco tempo depois, uma nova muda de roupas. — Estas lhe serão mais úteis hoje.

O que quer que a mulher quisesse dizer, destruiria seus planos de aproveitar a saída do irmão mais novo do rei e utilizar mais uma vez a sala de treinamento do exército dos Uchihas. Ino estava ansiosa para usar algo mais leve, visto que sua mãe e seu pai saíram para uma volta em algum lugar perto do castelo. Inoichi era ridiculamente minucioso em cada trabalho que fazia, algo que fazia a filha ficar admirada e ali, no reino de Itachi, agradecida por não ter os olhos julgadores de sua mãe a cada sumiço seu.

— Não pretendo sair hoje, senhora. Mamãe não está e, mesmo se estivesse, não deixaria.

— Bom, a ordem foi clara, senhorita — insistiu outra vez, sorrindo assim que a Yamanaka se deu por vencida.

Trocou-se achando um absurdo usar roupas tão pesadas para mais um dia presa nos muros altos dos Uchihas e aceitou o casaco grosso que a mulher ofereceu na saída da casa de banho. Revirou os olhos azuis com o cuidado da mulher consigo e pensou seriamente que sua mãe havia deixado tais ordens para a coitada, que a trataria feito um bebê durante sua ausência, contudo, a mulher se afastou, admirando Ino e aprovando o resultado após uma pequena volta em si.

— A senhorita está perfeita.

— E aonde devo ir agora? — Não queria parecer insuportável, mas estava a ponto de sentir calor com tantos metros de tecido enrolados em seu corpo e a lareira acesa quase todas as horas do dia para manter o ambiente habitável naquela terra ridiculamente fria.

— Pode sair pela porta, creio que estão aguardando a senhorita.

Ino não queria discutir tão cedo com alguém, ainda mais uma coitada que devia ter ouvido muitas coisas de sua mãe, então seguiu pelo quarto tentando não chorar com raiva do comprimento da saia e deu adeus à mulher, que dava início a arrumação do quarto.

— Akemi conseguiu convencê-la.

O rosto da jovem virou de imediato para a direita e a figura do rei muito despojado e sem guardas se fez presente. Seus olhos vagaram pelo corredor tentando entender o porquê de Itachi estar esperando a Yamanaka tão cedo.

— Vossa alteza pediu para que ela me vestisse?

— Não é como Hinata? Não está sempre pronta? — Desencostou-se da parede de pedra fria e sorriu para a loira, que franzia o cenho.

— Acaso vossa alteza não notou que meus fios não são escuros e que infelizmente não possuo coroa em minha cabeça? — Já voltaria para seu aposento e que o que Itachi queria consigo ficasse lá no corredor com as comparações idiotas do Rei.

— Ei, desculpa. — O braço da loira foi parado antes que sua mão tocasse a maçaneta. — Achei que todas as mulheres estivessem prontas para o que viesse.

— Posso dizer o mesmo. — Arqueou uma sobrancelha e mediu o moreno. — Achei que todos os homens deveriam estar prontos para morrer na guerra. — Não era o que desejava, atacar um reino tão instável era baixo, contudo, sua língua era mais rápida que sua mente, e sua mãe temia a filha sozinha por esse motivo. Itachi soltou seu pulso e sorriu ladino, muito diferente do que a loira havia imaginado.

— A senhorita é muito perspicaz. — Sem jeito pela besteira que disse, decidiu pensar melhor antes de falar com a garota de língua afiada. — Posso começar outra vez?

— Tente. — Mesmo sendo rei, Ino só seguiria o Uchiha se ela desejasse e se mais tarde ouvisse os sermões de sempre e as reclamações dos pais. Fingiria o arrependimento de sempre, algumas lágrimas cairiam e ela prometeria nunca mais cometer tal erro, mesmo sendo uma mentira descarada.

— Disse que estava entediada e nada melhor que alguém do reino para lhe mostrar o que há por aqui.

— Mas o senhor é o rei, não um guia, e minha mãe…

— Eu pedi ao seu pai para levá-la rapidamente a um vilarejo próximo. Não precisa se preocupar com nada, Ino.

Pensou por alguns segundos na proposta, não tinha muito o que fazer ali, e o rei não mentiria para si, certamente avisou seus pais sobre a saída… O que teria a perder aceitando um pedido de Itachi Uchiha? Pegou a mão que lhe foi oferecida e observou com curiosidade o sorriso do mais velho, que parecia uma criança arteira e pronta para uma aventura. Era impossível não se deixar contagiar pela pressa do rei, que andava sem pompa e muito apressado pelos corredores, que estavam desertos.

Deixaram os portões altos para trás e seguiram por uma parte não muito habitada das redondezas. A floresta seca, com uma camada ainda fina de neve, ficava mais fechada conforme eles caminhavam em direção a algum lugar ainda desconhecido pela loira. Os passos cada vez mais afoitos e curiosos da Yamanaka seguiam de perto o rei, que, vez ou outra, olhava para trás e conferia se estava tudo bem com a jovem espirituosa. Andaram por minutos incontáveis, e Ino viu o Uchiha parar por alguns segundos em busca de ar e sorrir para si.

— Quero lhe provar que nem tudo na minha terra é ruim… — Desceu uma pequena parte íngreme e esperou que a garota fizesse o mesmo. — Deve ter cuidado com o terreno acidentado. — O Uchiha segurou sua mão mais uma vez, ajudando Ino com o caminho que levaria ao lugar que o moreno mantinha em segredo.

Ela segurou o comprimento de seu vestido e subiu, se equilibrando nas pequenas pedras, e disse: — Isso tem que valer a pena, posso quebrar meu pescoço ao cair…

— Não permitirei que isso aconteça, senhorita Yamanaka.

Itachi falava de forma tão calma e decidida que a loira sentia que ficaria segura, mesmo dentro do espaço que ficava cada vez mais escuro e desconhecido por ela.

— O que pretende ao me trazer aqui, majestade? Assustar-me ainda mais com as histórias de seus antepassados, ou havia uma certa caverna que faziam sacrifícios para ganhar guerras oculta nos livros?

— Seu humor soa como deboche, mas sei que há receio em meio a palavras tão certas. — Sorriu para a jovem, que engoliu seco ao vê-lo tirar algo de suas vestes. — Imaginei que fosse mais corajosa, Ino. — Os movimentos do rei, de costas para si, pareciam de pedras, batendo uma contra a outra, certamente um treinamento militar que ela infelizmente nunca experimentaria, e, poucos segundos após, o Uchiha ergueu a tocha antiga acesa, iluminando boa parte do lugar em que estavam.

— Não tenho medo do escuro e nem do que um Uchiha pode fazer escondido em uma caverna. — Era mentira, certamente tinha medo, mais do desconhecido, do que não sabia ou imaginava vir. Ino gostava de pensar como o melhor amigo e entender do início o que poderia dar certo e errado.

— Com meu irmão, eu entenderia o receio, mas peço que confie em mim. — Ofereceu sua mão outra vez à loira, que pensou por alguns instantes e suspirou profundamente ao aceitar a ajuda do Uchiha.

Seguiram em silêncio por mais alguns metros, descendo e subindo em pedras cada vez mais escorregadias para a filha do conselheiro, que não via a hora daquilo ter fim e que valesse a pena, ou o rei ficaria muito mal falado nas terras da Lua. Ino faria questão de contar às amigas da corte que o moreno era tudo que imaginaram de chato e muito mais.

— Quando… — Sua boca abriu de uma maneira que sua mãe certamente faria questão de fechar com um só movimento, reclamando da etiqueta que havia dedicado tantos anos a ensinar e que a filha não dava a devida atenção.

A caverna de antes não parecia em nada com o que via ali. Parecia sobrenatural pisar em um lugar tão único quanto aquele. Flores de diferentes cores sobreviviam às temperaturas frias do reino, presas pelas enormes paredes de pedras. O ar era quente, talvez pela pequena queda d'água, que vinha do canto superior de uma enorme rocha. Aquela água parecia ser derramada ali pelos próprios Deuses, ou saída do solo além de seus olhos azuis, incapazes de entender tamanha perfeição em meio às assustadoras histórias das terras Uchihas.

— Exatamente. — Itachi chamou sua atenção ao sentar mais à frente, perto da água que se espalhava em um grande lago natural. — Não parece com algo que poderia ter aqui. Fico maravilhado toda vez que visito.

Ino aproximou-se com certo cuidado para não cair e se sentou suficientemente perto do moreno para que a queda d'água não impedisse de ouvi-lo. — Visita muito?

— Com menos frequência do que gostaria. — Deu de ombros e olhou nos azuis da loira. — Espero que, pelo menos com a senhorita, meu plano de mudar a opinião geral sobre os Uchihas tenha sido um sucesso.

— Certamente não os vejo mais como via ontem, mas tudo isso não quer dizer que esqueci o que sei.

— Entendo perfeitamente. — Sorriu ao voltar os olhos escuros para as águas cristalinas mais uma vez. — Tento não focar no que me foi deixado como legado. O poder e a arrogância não me são tentadores…

— Certamente não combinam com você. — Ino cortou o silêncio, chamando a atenção do Uchiha, que a olhou com certa admiração desconcertante. — É… o que sei ao menos, alteza, digo o que acho, vejo… — Atropelou algumas palavras, certa de que havia ultrapassado algum limite do moreno.

— Fico lisonjeado, Ino. — Ergueu-se e ofereceu ajuda a Yamanaka que o acompanhou. — Não podemos ficar tanto tempo longe do castelo e seus pais com toda certeza ficarão preocupados.

A loira resolveu deixar o silêncio tomar o caminho de volta. O espaço incrível da queda d'água era deixado para trás, junto à vergonha de mais uma vez falar mais rápido do que pensava. Reparou no Uchiha, que parecia já ter esquecido de sua opinião desengonçada, obviamente o moreno tinha mais o que pensar além da língua sem freios da loira, que prometeu a si mesma que controlaria o gênio complicado ao lidar com o rei.

— Está tudo bem? — Itachi perguntou, chegando ao início da entrada da caverna, onde a claridade da tarde já se fazia presente. Apagou a tocha que carregava consigo, a jogando em um canto, e sorriu.

Era tão fácil perceber que o moreno não era como o irmão ou qualquer outro Uchiha que tenha lido. Itachi não parecia carregar consigo rancor por uma palavra mal dita ou erroneamente entendida. Havia tanta compreensão naquele olhar escuro e doce, de uma forma que qualquer um que quisesse poderia ver, e Ino sentiu a necessidade de se desculpar antes que algum equívoco fizesse com que aquele olhar parasse de pesar sobre si.

— Eu quero agradecer por… — As palavras sumiram de sua boca. — E pedir desculpas por algo que vossa alteza….

— Não é necessário, Ino.

Com tão poucas palavras, deixou a loira ainda mais inquieta e incerta sobre o que havia feito de errado. Voltou a caminhar alguns passos atrás do Uchiha, em um silêncio nada incômodo para qualquer um dos dois.

[...]


Deixou a capa pesada que o protegeu do frio a caminho de sua cama e se sentou assim que alcançou o colchão macio. Estava levemente cansado, porém feliz pelas horas prazerosas divididas com a loira do reino da Lua. Ino não parecia alguém que tentava impressionar, e isso, de certa forma, o deixava confortável de ser quem era, antes do peso da coroa em sua cabeça o fazer abandonar pouco a pouco o príncipe que adorava fugir do castelo com Shisui para desbravar as terras do reino do fogo em sua adolescência.

A agradável presença só não era a melhor que havia sentido nos últimos tempos, pois a fala desenfreada o deixava apreensivo sobre o que poderia sair dos lábios rosados, contudo, ainda gostava de não conseguir ler tão facilmente a mulher, que pouco se importava com as regras da corte. Sua curiosidade e coragem em dizer exatamente o que pensava o deixava muitas vezes pasmo.

Agora, conhecendo melhor o pai da garota, entendia que a filha de um dos conselheiros de Hinata não poderia ser diferente dele. Inoichi era meticuloso e bem articulado em suas falas. Palavras certeiras e colocadas no momento certo fizeram o rei do fogo confiar cada vez mais no homem sério, que só o procurava com alguma informação importante, ou quando tinha muita certeza.

A batida na porta do quarto foi ouvida, tirando o Uchiha de seu breve pensamento. Itachi levantou sem pressa e abriu, esperando ver o irmão curioso sobre o que ele foi fazer, porém o homem alto e loiro esperava pelo rei.

— Alteza, acabo de voltar da pequena vila que comentei anteriormente e tenho o relatório pronto.

— Não precisava ter tanta pressa, Yamanaka. Poderia ter descansado e entregado isso no jantar. — O moreno esticou a mão para pegar o pergaminho, mas foi interrompido pelo comandante da guarda real.

— Senhor, houve uma deserção em massa do exército Uchiha.



Itachi bateu a mão com força na mesa e gritou: — Como ninguém impediu isso?!

— Alteza, não esperávamos que ainda teríamos traidores no exército.

— Você é o comandante, Shisui! — Era a primeira vez que Itachi gritava com seu amigo. Apesar de Shisui ser seu subalterno, ele era seu amigo de infância e isso sempre veio primeiro para o Uchiha. — Era o general até ontem, controle o seu exército. — O comandante estava surpreso, nunca tinha visto tamanha ira nos olhos do rei.

— Sim, majestade. — Reverenciou e se retirou da biblioteca.

Itachi bufou, se sentando novamente em sua cadeira. Estava irritado, já não bastava ter prendido homens devido à lealdade cega que mantinham por seu pai, e agora tinha desertores andando pelo reino. Na primeira mudança que fez, sentiu um grande efeito negativo, e isso o fez perder a cabeça. O reino do Fogo era um reino militar, por mais que ele quisesse mudar isso, seus acordos políticos envolviam o exército, então como manteria tais acordos se não tivesse mais um para oferecer?

— Ita! — Sasuke entrou nervoso e claramente preocupado, chamando o irmão. — Acabei de cruzar com Shisui, ele não parecia nada bem. O que aconteceu?

— Me diga você! — disse, exaltado. — Está sempre no exército, Sasuke. Não deveria saber o que acontece bem debaixo do seu nariz?

— Você sabe que treino alguns homens e faço as rondas quando posso, não é como se eu fosse o responsável por eles.

— Pra quê quer ser general, então? — Levantou, encarando seu irmão nos olhos e continuou: — Para se eximir quando acontece alguma merda?!

— Mal assumi meu posto! Deveria se perguntar se está apenas distribuindo a culpa por estar com medo de encarar a situação. — Sasuke deu um passo à frente e inflou o peito. — O exército é seu, majestade. — Itachi aos poucos mudou sua expressão, e sua testa voltou a ficar sem linhas. Seu irmão nunca tinha o chamado de maneira tão formal. Sasuke só tratava seu pai assim, e isso o causou calafrios. — Recomponha-se e vamos resolver isso, juntos. — O príncipe saiu dali a passos apressados, deixando o irmão em um conflito interno.

Deixou seu corpo cair na cadeira, sentiu suas mãos doerem e, ao olhar suas palmas, percebeu que suas unhas curtas haviam deixado pequenas marcas em sua pele; estava tenso. Respirou fundo, fechou seus olhos e tentou voltar a si. Precisava manter a calma e a razão se quisesse pensar com clareza. Tinha perdido a cabeça por alguns minutos ao receber a notícia de que uma parte de seu exército havia lhe traído.

Contudo, Sasuke tinha razão, precisava se recompor e encarar a situação de frente. Sempre soube que reinar não seria fácil, não imaginou tampouco enfrentar um grande problema logo de cara. No entanto, sabia que eles viriam, uma hora ou outra, e não era justo descontar sua irritação nas únicas pessoas em quem confiava. Era desestabilizante e às vezes assustador que o fardo da coroa fosse tão pesado, mesmo com ela fora de sua cabeça.

Levou a mão até a testa, passou pelos cabelos e pensou no mesmo instante que se arrependia do modo que falou com Shisui. Ele sempre foi um bom general e, sobretudo, um bom amigo, entretanto, diziam que era daquele modo que seu general deveria ser tratado. Odiava a hierarquia e tudo que vinha com ela, como ela acabava consumindo tudo que havia de bom dentro das pessoas, principalmente se você estivesse em um lugar de poder, que, em seu caso, era o lugar de maior poder. Não podia se deixar ser destruído como seu pai foi, e seu avô antes dele, era necessário conservar a sua maior dádiva dentre todos os Uchihas, o bom coração.

[...]


Ino já conhecia mais salas, alas, corredores, jardins de inverno do que até mesmo os empregados do castelo. Estava entediada, não via a hora de voltar para o seu lar e continuar o que sempre achou ser o seu propósito de vida: dar aulas para as crianças dos vilarejos próximos. Era o que a fazia se sentir útil, importante para o reino de certa forma. Não aguentava mais estar ali apenas por ser a filha do bom conselheiro da rainha Hinata.

Havia uma ala que nunca tinha ido. Via através das janelas que do outro lado do grande jardim coberto por uma camada de neve, por ser o começo do inverno, estavam os estábulos. Adorava ter contato com a natureza, gostava das flores e dos animais. Lembrava-se de quando ficava conversando com seu melhor amigo, enquanto ele alimentava os cavalos. Não era sua obrigação, mas Shikamaru gostava, além de ser sua desculpa para ficar sozinho e aproveitar o silêncio, que, no caso, ela mesma não o deixava aproveitar por falar demais.

Ino vestiu um casaco um pouco mais pesado e atravessou a passos lentos o jardim, entrou no grande espaço e admirou os cavalos que estavam ali. Aproximou-se de um bem devagar, passando a mão em seguida por seu longo crânio.

— Senhora, cavalos não podem ser tocados. — A Yamanaka saltou para trás e colocou a mão em seu peito com o susto que levou. — Desculpe, não quis assustar.

— Assustá-la, seria o correto. — O garotinho que a olhava ficou intrigado, franziu o cenho sem saber do que ela falava. — Por que eu não deveria tocá-los?

— O capitão Fugaku diz que os cavalos são para nos servir.

— Esse capitão não sabe de nada. — Ino cruzou os braços e empinou o nariz, e, ao mesmo tempo que estava indignada com a ignorância do tal capitão, surgiu uma ideia em sua mente. — Qual o seu nome?

— Kenji.

— E o que faz aqui sozinho, Kenji? — Caminhou lentamente até o garotinho de cabelos marrons e olhos verdes.

— Estou esperando meus amigos para brincar.

— Sabe me dizer quem são seus pais?

— Sim, senhora. Meu pai é soldado no exército Uchiha e minha mãe é cozinheira.

— Sabe ler? — Ele balançou a cabeça em negativo e foi ali que soube que sua ideia iria dar certo. — Gostaria de aprender? — O garoto ficou alegre, balançou a cabeça várias vezes, afirmando.

— Meus amigos também podem?

— Mas é claro! — A loira sorriu largo. Por mais que tivesse apenas mais alguns dias no reino do Fogo, faria de tudo para voltar mais vezes e dar aula para as crianças. — Vou pegar alguns livros e papéis. Chame seus amigos e me encontre aqui, tudo bem?

— Sim, senhora!

— Tire o senhora, Kenji, me chame de professora. — Os olhos do garoto brilharam, e era disso que ela gostava, colocar esperança de um dia melhor nos olhos daquelas crianças.

[...]


Sasuke sabia que seu irmão carregava um fardo maior do que o coração dele poderia lidar. Itachi sempre foi o mais sensível deles dois. Puxou sua mãe, doce, gentil e sábia com as palavras. Seu irmão era um exemplo a seguir, pena que não tinha o temperamento igual ao dele. Estava querendo mandar metade do exército para caçar os traidores e lhes arrancar as cabeças, porém ele sabia que Itachi jamais permitiria tamanha selvageria. Se fosse seu pai, obviamente, era capaz dele mesmo fazer o serviço com as próprias mãos.

Não que estivesse reclamando, Itachi pensava longe, em um futuro brilhante para o reino, um que não precisasse se preocupar com traidores, com seu povo passando fome, ou morrendo por causa de doenças. Era incrível ver o quanto ele se importava com o seu povo, coisa que Madara nunca fez. O único que importava para o antigo rei era ele mesmo. Nem seus próprios filhos foram poupados da sua gana de poder e controle.

Seria difícil contornar todo o mal que Madara deixou como herança, transformar tudo aquilo em algo bom não era uma tarefa fácil, mas Sasuke sabia que ninguém era melhor nessa tarefa do que Itachi. Caso fosse possível limpar o nome Uchiha na história, seu irmão seria o único capaz desse feito. Terminou de trocar de roupa e caminhou a passos largos para o alojamento do exército, queria encontrar Shisui e receber ordens diretamente dele para dar fim a essa rebelião sem sentido.

Assim que atravessou o jardim, se viu estático olhando a cena que se desenrolava em sua frente. Alguns filhos de soldados sentados no chão do celeiro, enquanto Ino estava sentada em um feno, com aquele vestido enorme, segurando um livro. Ela parecia ler para as crianças, e eles olhavam a mulher com admiração e uma atenção invejável. Conseguir fazer aquilo com crianças tão novas era algo realmente impressionante. Contudo, o que ela fazia ali com meros filhos de empregados?

[...]


O lugar abarrotado de homens dos mais variados tipos era iluminado com castiçais grosseiros, espalhados pelas paredes mais altas. A noite era fria do lado de fora da taverna entre os limites da parte principal do reino, onde o rei pamonha estava, e o lugar onde cavalheiros da pior espécie se reuniram para comentar a nova modalidade de furtos, uma mina antiga que voltou a funcionar sem que a coroa estivesse ciente, ou o novo bordel de mercadoria exportada que recebia de bom grado soldados como ele, perseguidos por seus anos de glória.

Fugaku não era o melhor em obedecer e agradecia por ter nascido em terras do Fogo e não precisar fingir quem era para seu antigo rei. Madara o deixou saquear o que bem entendesse e levar o que quisesse dos lugares que ele e sua tropa passaram, desde que a vitória em nome do Uchiha pudesse ser declarada a plenos pulmões. O que será que o mais perfeito homem que já ousou caminhar sobre a terra poderia ter feito para merecer dois filhos fracos e capazes de agir tão sorrateiramente para usurpar o próprio pai?

Aceitou, sim, o erguer do nome de Itachi, como seus homens, quando o mais velho dos filhos de Madara contou-lhe o que havia feito. Não era ele que seria contra o novo rei, desde que tudo ficasse como estava: funcional e vantajoso para soldados e o reino, mas Itachi, como todas as crianças, era movido a sonhos e uma falta de respeito com o que sempre fora. Tinha ideais e acreditava que mudaria o mundo. Mesmo sendo ele um moleque, contava com a nova visão do mundo para levar tolos como ele na conversa de mudança e desenvolvimento.

— Ei, Fu, me fala, o que pretende agora que é um homem livre? — Hotaru, um dos melhores guerreiros com quem Fugaku teve a honra de lutar ao lado, não deixaria o amigo sair sozinho da guarda do rei.

Ele tinha o dever, junto aos que o seguiram para longe dos planos pacificadores de Itachi, de devolver os anos de glória junto à memória de Madara, que criou seu famoso exército com sangue em seus olhos e espadas tão bem treinadas que se tornavam seus próprios braços em uma batalha. Deixou a cerveja quente na grande mesa que dividia com parte de seus homens, os quais ele mesmo ensinou ao ingressar nas tropas Uchihas, e subiu no banco, se tornando visível aos pouco mais de 4 mil olhares curiosos.

— O rei Itachi é um louvado Uchiha, contudo, não me lembro uma única vez de tê-lo visto à frente de batalha, orando aos deuses que sua vida fosse poupada por mais um dia.

Um grande urro fora dado pelos homens bêbados, que, assim como ele, não aceitaram as novas regras que a coroa impôs ao fiel exército.

— Aquela criança, que ousou tirar nosso único e verdadeiro líder de nós, não sabe o que é lutar e o que é desbravar terras tão longe de seu lar em nome de alguém que senta com sua bunda em um trono sem ter merecido por isso.

Outro grande e estridente urro fora ouvido, e o sorriso do homem tornava-se cada vez mais aberto, conforme ouvia os murmúrios de quem, como ele, odiou o fato do pivete Uchiha ter mexido no que funcionou por anos.

— Temo que Madara, nosso rei, errou apenas duas vezes ao deitar com a mãe daqueles inúteis e não os mandar conosco aos campos, para saber o que é verdadeiramente a vida. — Fugaku abaixou-se, tomando a caneca com sua cerveja, e viu seus homens fazerem o mesmo. — Não vamos permitir que um garoto que mal sabe o que é estar entre as pernas de uma dama nos diga o que pode ou não ser feito com o que nosso sangue conquistou! — Mais barulho e gritos de ordem, pedindo que Fugaku prosseguisse com suas palavras: — Itachi Uchiha será dono de um reino minúsculo e pouco aproveitável, senhores… — Pausou contente com o que suas palavras fizeram nos olhos tão vidrados em si. Havia um orgulho inexplicável que brilhava nos olhos dos homens que o seguiram. — O reino do Fogo deve pertencer a quem deu seu sangue por ele!



— E por que deveríamos estar aqui e não brincando? — A garotinha de cabelos escuros lhe perguntou petulante, enquanto levava uma mão à cintura e batia o pé direito, esperando ansiosa pela resposta.

— Porque a senhora professora disse que conhecimento é poder e que ninguém pode nos roubar isso — Kenji disse, como se ele mesmo tivesse pensado naquilo.

Ino sorria ao ver a vontade do pequeno em convidar os amigos a conhecer a professora de outro reino, que tinha tanto a ensinar para os pequenos, e, como pensado por ela, haviam alguns bem ariscos às novidades.

Sabia que a parte de sentar, ouvir e esperar não fazia gosto de muitas mentes jovens e hiperativas, que usavam duas mãos e olhos curiosos para descobrir o mundo, sem que alguém pudesse guiar. Entendia muito bem que a falta de um tutor desde cedo, como sua posição a agraciou, também faria seu trabalho voluntário no reino dos Uchihas um pouco mais difícil do que o esperado.

— Bom, sem aulas para você, Mirai. Pode passar! — A Yamanaka quis rir, pois ela mesma falaria algo do tipo. Kenji era a criança mais parecida consigo das poucas crianças que aceitaram fazer parte da aula.

— Ei, nada disso. — A jovem loira sorriu bondosa quando abaixou, ficando do tamanho da menor, que, vermelha, virou o rostinho bonito. — Mirai, será muito bem-vinda quando desejar. A vontade de aprender vai invadir seu coraçãozinho no momento certo, não precisa pressa. — De pé outra vez, viu que muitos rostinhos estavam confusos e imaginou que aquele dia seria um desperdício, pois as dúvidas de Kimi eram refletidas em boa parte dos pequenos. — Bem, hoje eu quero fazer-lhes uma pergunta.

Rostos curiosos viram seus olhos nos azuis da Yamanaka.

— Eu não conheço quase nada deste reino, e como não teremos aula hoje, acho que algum de vocês poderia me ensinar o caminho do palácio até a praça central. — Com nenhum voluntário, Ino resolveu continuar: — É um curto passeio, crianças, não vamos nos meter em confusão.

— Eu levo, senhora professora! — Kenji foi o primeiro e mais entusiasmado, contudo, não foi o único a se oferecer para ajudar a mulher.

— Estou animada para saber tudo que conhecem daqui.

Deu a mão direita para o pequeno Kenji e a esquerda para um menino tão envergonhado que nem seu nome conseguiu proferir quando a conheceu, e seguiu até os portões, sob olhares curiosos de alguns guardas que faziam a ronda da manhã ao redor do castelo de Itachi. Ino seguiu com confiança, como se não estivesse cometendo uma infração ao sair sem o conhecimento de seu pai, ou do rei daqueles homens, que aceitaram sua posição e a falsa certeza como resposta às perguntas que não foram feitas.

Passou com um aceno leve próximo ao homem que abriu o enorme portão para si, e, respirando profundamente, seguiu os animados rostinhos que apontavam o que sabiam por onde passavam. Descobriu que o aglomerado de casinhas simples, mais perto do palácio real, era a hospedaria provisória para os soldados que serviam diretamente ao rei em seu lar. Poucas crianças haviam ido até lá, pois os filhos e esposas de soldados não costumavam frequentar o local onde os homens descansavam até o próximo turno.

— E quando veem seus pais? — Ino estava um pouco chocada com a distância imposta entre os soldados e suas famílias.

— Uma vez a cada dois dias, senhora professora. — Kenji já havia dito que era filho de um homem que servia dentro do castelo, e foi o primeiro a responder.

Infelizmente essa era a parte da guerra que Ino só poderia descobrir vivendo bem perto. Entendia as hierarquias e o funcionamento de tudo, porém cada reino dava seu toque especial à barbárie. Caminhou mais alguns muitos metros, notando que a quantidade de casas espalhadas se afunilava em ruas cada vez mais estreitas e, às suas costas, o castelo majestoso do Uchiha já não era tão nítido. O som dos cavalos batendo seus cascos nas pedras, que adornavam algumas ruas principais, se fazia presente e muitas informações aleatórias eram feitas pelas crianças que cada vez mais animadas a acompanhavam.

— Ali! — Mirai sorriu, mostrando o aglomerado de barracas montadas em um enorme círculo em torno de uma grande e majestosa estátua de alguém importante para o reino.

Homens e mulheres vendiam e compravam de tudo. Bichos vivos e recém abatidos, bebidas, especiarias, tecidos, artesanato e coisas pessoais. O reino do fogo parecia com o seu, notando a riqueza do comércio no centro da cidade.

— O que vamos conhecer? — um garotinho atrás de si perguntou.

— Bom, o que gostariam de me mostrar primeiro? — Sua vontade era descobrir tudo daquela área, que cada vez mais parecia interessante, entretanto, nada melhor que alguém nascido ali para mostrar-lhe o que de melhor havia.

— Senhora professora, viu algo engraçado? — Ino notou o próprio sorriso ao chamar a atenção de Kenji, e Itachi, o rei do Fogo era o culpado.

Lembrou-se imediatamente do dia que conheceu a caverna e ficou feliz por ter aprendido algo com o Uchiha.

— Lembrei de um amigo, querido. Vamos, me mostre o que mais gosta de fazer por aqui.

Seu braço foi puxado com certa força pelo menino de cabelos escuros, muito animado em lhe mostrar a pequena venda da avó. Era seguida de perto pelos demais alunos e sorria, prometendo a cada um que visitaria o que eles também queriam lhe mostrar mesmo que isso levasse o dia todo.

— Vovó! — Uma mulher de fios grisalhos virou-se, seguindo a voz do mais novo. — Eu disse que conheci uma senhora no castelo e olha ela aqui!

A senhora rapidamente fez uma mesura exagerada para Ino, que, sem jeito, retribuiu o gesto. — Senhora, sinto muito. Esse menino não tem jeito! Só faz burrada e…

— Não, ele não tem culpa de nada. — Sorrindo, a loira interrompeu gentilmente a senhora. — Pedi que Kenji chamasse mais crianças e fosse até o castelo. Por hoje, nós resolvemos passear, já que não conheço o reino.

— Não é daqui? — O nariz franziu, e Ino lembrou que o povo de lá não gostava de estrangeiros. Leu em tantos lugares que os nascidos do fogo não sabiam dividir terras e, sim, as invadir, que quase se bateu por não lembrar de algo tão enraizado.

— Infelizmente, não. — Ou felizmente. — Eu sou filha do conselheiro da Rainha Hinata e vim do Reino da Lua. Estou visitando meu pai e aproveitei a sorte de conhecer Kenji para desbravar o mercado central.

— Sorte? — O menino enrubesceu, perguntando a Yamanaka.

— Sim, e a senhora, o que vende? — Olhou para as frutas expostas e, sem conhecer metade delas, tentou fazer a velha falar.

— Não há nada disso no reino da Lua?

— Estas — apontou alguns pêssegos — e estas eu conheço. — Ao lado, alguns morangos, porém maiores do que os em seu reino. — Esse eu não faço ideia. Pode contar sobre?

— Menina, se não conhece a fruta do nosso reino, não sabe o que está perdendo. — Com entusiasmo, a senhora sacou uma pequena adaga de sua cintura e pegou algo estranhamente peludo, redondo e marrom de uma linda cesta, descascando e dividindo ao meio para oferecer a Ino.

— O que é isso? — Era verde, cheio de caroços e com um cheiro cítrico e pouco convidativo para a loira.

— Vamos, prove, criança.

Sua mãe ficaria orgulhosa naquele momento. Ino era contra quase tudo que era verde, mas aceitaria por educação, a mesma que sua mãe enfiou em sua goela por muitos anos. Esticou os dedos para a mulher, que, diferente de antes, sorria orgulhosa por oferecer algo de sua terra para um estrangeiro. Não lembrava daquilo na mesa de Itachi, porém, quando foi que prestou atenção de verdade em uma refeição no castelo quando só queria fugir para treinar às escondidas?

Tomou a fruta com receio, mas os olhos atentos infantis deram a si a coragem que já deixava seu corpo. Respirou fundo e apertou os olhos ao levar o fruto até sua boca, mordendo sem muita vontade e com quase absoluta certeza de que iria odiar. O sabor novo invadiu seu paladar, a língua fora tomada por um adocicado nada agressivo à boca e, ao engolir, sentiu o amargor bem-vindo no final de sua garganta. Nenhuma fruta trouxe tantas novidades de uma só vez, e os olhos azuis abismados encararam a velha, que sorria afirmando.

— Quero uma dúzia desses! — Sorrindo junto à mulher, que já separava alguns para si, a loira perguntou aos pequenos: — Vocês também gostam? Podemos parar um pouco e comer mais alguns.


As crianças concordaram animadas, e a Yamanaka pagou a senhora simpática, que agradeceu, alegre. Ino procurou um lugar e avistou um banco próximo à estátua que ficava no centro da pequena praça. Ela sentou no banco, e as crianças se jogaram no chão, esperando receber a fruta, que a professora distribuiu a todos. Eles estavam comendo e ouvindo a loira explicar sobre as comidas de seu Reino. Como a Lua tinha um clima mais ameno no inverno, eles conseguiam plantar alimentos que não precisavam de tantos cuidados. Era difícil a colheita no reino do Fogo, as baixas temperaturas não deixavam muitas opções para os pequenos agricultores.

— É por causa dele que estamos morrendo!

— Claro que não! O velho rei mereceu o que veio para ele…

Ino escutou dois homens discutindo e buscou com os olhos de onde vinha aquele burburinho.

— Hagoromo nos deixou na pobreza, pois só pensava em guerra!

— Madara não era assim tão diferente…

— Senhores, com licença… — Já em pé, próxima aos dois homens, apontou para a estátua e Yamanaka começou: — Vocês sabiam que foi Hagoromo que pensou nos trilhos para os carrinhos trazerem as pedras preciosas e o estanho com mais facilidade? — Os homens olharam para ela, franzindo o cenho. — Desculpe, não pude deixar de ouvir a reclamação dos senhores.

— E o que temos a ver com a invenção dos carrinhos? Todos nós ainda trabalhamos demais naquelas minas!

— Poderiam trabalhar ainda mais sem a invenção dele. Pensem comigo… — Fechou os olhos e levantou o polegar. — Caso o senhor Hagoromo aqui… — colocou a mão no pedaço de pedra esculpida e sorriu atenta às feições dos homens — não tivesse pensado em algo para diminuir o trabalho dos senhores e o peso que carregavam, estariam trabalhando muito mais. — Algumas pessoas começaram a prestar atenção no que a Yamanaka falava. — Ele foi inteligente em dar algo que diminuiria a força que os senhores precisariam para carregar tudo aquilo para fora das minas, além de que, com isso, conseguiu diminuir o tempo de serviço que levaria para chegar até o que importava. Fez alguns grandes acordos, se tornando um dos primeiros, se não o pioneiro, na troca de mercadorias entre reinos e futuramente os tratados que conhecemos hoje.

Os homens a olhavam embasbacados, nunca tinham pensado naquele ângulo. Um dos guardas, que seguia Ino na surdina, pois, ao ver a filha do conselheiro deixar as dependências do castelo, resolveu fazer sua escolta, mesmo que ela não soubesse disso, ficou impressionado com como ela conseguiu envolver todos naquela praça para escutá-la.

— Não estou defendendo as atrocidades do senhor falecido, Hagoromo, mas ele também tentou pensar nos senhores. Estava em busca de mais terra, certamente tentando burlar o clima difícil para a colheita e plantio na maior parte do reino, algo que um bom líder deveria pensar mesmo, todos os dias. Infelizmente, os que vieram após repetiram seus erros, mas, como o primeiro dono e idealizador, não o vejo como um homem totalmente incorreto.

O guarda arregalou os olhos e correu até a Yamanaka, a chamando para acompanhá-lo até o castelo. De primeira, ela foi relutante, mas aceitou quando o pobre soldado disse que seria culpado se algo acontecesse. Ela e as crianças caminharam tranquilamente até o castelo, Ino se despediu deles antes de entrar pela porta da frente e ser recebida aos gritos por sua mãe.

— Onde estava?! — Masumi a abraçou forte. — Quase me mata do coração. Não sabíamos onde estava. Ninguém a achava pelo castelo, Ino.

— Ficará trancada em seu quarto caso apronte outra dessas, Ino Yamanaka! — seu pai disse, sério.

— Fui apenas até o centro do vilarejo, comprei frutas… — Mostrou a sacola com um sorriso amarelo, e viu Itachi chegando.

— Um dos meus guardas estava acompanhando-a, não se preocupem — o rei prontamente avisou.

— Mesmo assim, majestade, Ino não avisou a mim ou à mãe dela. Se caso acontecesse algo com ela…

— Entendo sua preocupação, Inoichi. — Interrompeu o homem. — E caso alguém fizesse mal a ela, eu mesmo tomaria providências, mas, como disse, um soldado a acompanhou.

— Obrigada, alteza — Ino agradeceu, corada pelo modo como o rei falou, de forma incisiva, como se realmente ela fosse importante para ele, mas, no mesmo instante, sua mente a alertou que era apenas política. Caso algo acontecesse com ela dentro do reino do Fogo, Itachi se veria com a rainha Hinata, coisa que o Uchiha com certeza não queria ter que enfrentar.

[...]


— Agora me explique direito como diabos a garota saiu e ninguém me avisou!? — Itachi bradou, esperando uma resposta de Shisui, que estava impassível à frente da grande mesa da biblioteca.

— Pelo que entendi, ela saiu com algumas crianças, filhos de empregados e soldados.

— O que ela… — Itachi suspirou, apertou os olhos com os dedos e puxou o ar mais uma vez para tentar falar calmamente. — O que ela estava fazendo com filhos de empregados?

— Pelo que Tatsuki me contou, ela está dando aula a eles. — O rei piscou algumas vezes. — Sim, majestade, e não só isso. Quando dois homens discutiam sobre os malfeitos do seu pai e bisavô, ela interviu e falou sobre o que Hagoromo fez de bom pelos súditos. — Itachi estava perplexo, como em tão pouco tempo Ino tinha feito tudo aquilo?

— Não sei o que dizer…

— O senhor sem palavras é novidade. — Shisui deu um sorriso vitorioso. — Talvez seja hora de pensar na carta que lhe falei.

— Meu comandante deveria estar mais preocupado com as falhas de seu exército do que com minha vida pessoal, não concorda?

Shisui ergueu as mãos em derrota, sorrindo brincalhão para o rei. Antes de se retirar do recinto, fez a mensura habitual e resmungou: — Não está mais aqui quem lembrou, senhor.



O breu da noite impedia que qualquer homem enxergasse um palmo à frente do próprio rosto, contudo, ele não era qualquer homem. Treinado desde muito cedo por seu pai, visto pelo antecessor do rei vigente como talento precioso, um homem forjado ao fogo de sua própria terra não se limitava a condições climáticas ou um jovem cheio dos ideais insanos e irreais, tentando comandar ou destruir um reino que já havia dado tanto orgulho aos homens que os seguiam.

Fugaku deu a ordem muda, seguindo o próprio raciocínio da conversa que tiveram com seus homens dias antes daquele ataque. Certeiro, no queixo ralo de pelos e de vitórias de Itachi Uchiha, atacariam em instantes um lugar estratégico e o ponto que facilmente daria início à destruição do regicida. Não poderia ser tão fácil assim para o herdeiro assassino, ele que atirasse o que de ruim vinha com a coroa em sua cabeça. O peso de todo ouro, joias e sangue que Madara conquistou em anos de glória.

A mão aberta fechou-se em um só movimento, e do pasto restante, que sobreviveu aos tempos frios, muitas sombras se aproximavam do amplo lugar, que recebeu naquela manhã, a plantação de todos os agricultores do reino, para que o então rei protegesse e distribuísse de forma justa.

E quem era Itachi para falar de justiça?

Um hipócrita mimado que não aceitou perder a puta da Lua e culpou seu pai por fazer algo sobre. Madara só queria o bem de seu povo e todos já foram como seus próprios filhos. Para si, o antigo rei era mais que um monarca, era um ideal. Um homem íntegro, justo e disposto a fazer o que fosse preciso para um bem maior, assim como ele aprendeu.

Deixou o chão com pressa e apoiou os joelhos no chão, sem deixar a espada que o acompanhava. Ergueu seu corpo e apontou o primeiro morto da guarda real do rei. Na calada daquela noite fria, tipicamente comum em sua terra natal, Fugaku daria início ao fim do legado do fedelho Uchiha.

[...]


— Perdemos quatro soldados no ataque ontem, alteza — Shisui falava com uma tristeza presente, mas, ainda assim, era possível ver a raiva em seus olhos.

Itachi respirou fundo e travou a mandíbula. Já fazia dias que eles tentavam achar os rebeldes, sabiam os nomes de quem tinha desertado do exército, porém achá-los não era uma tarefa simples. Era sua capacidade de reinar que estava em jogo, era como seus súditos o veriam diante de tudo isso. Como resolver algo tão importante tão depressa? Sasuke estava calado no canto da biblioteca, e Inoichi estava no outro, o silêncio era ensurdecedor entre os quatro. Não tinha muito o que falar, apenas esperar as ordens do rei e as cumprir.

— Temos comida para todos?

— Sim, majestade. Eles saquearam apenas um pequeno galpão perto do vilarejo vermelho rubi.

— Quem pode estar no comando de tudo isso?

— Eu tenho uma ideia, alteza. — O rei anuiu, esperando que o comandante continuasse. — Fugaku. Ele sempre teve raiva pelo senhor… — pigarreou antes de continuar — ter me indicado para seu pai me escolher para comandar a guarda real.

— Tudo sempre sobre egos…

— Se procurarmos saber como ele pensa pode nos ajudar, acredito que posso reunir meus homens para obter informações.

— Então faça isso… — Itachi levantou — e achem esses desgraçados! — Alterou o tom de voz, irritado, e Shisui apenas concordou.

— Irmão, acredito que precisamos procurar um estrategista também. — Sasuke foi o próximo a falar. — Se eles fizeram isso essa madrugada e estão carregando peso, eles estão andando devagar.

— Shisui, chame o seu melhor estrategista e monte um plano. Que dê certo, de preferência.

— Sim, majestade.

— E, Sasuke, está na hora de agir como o general. Não lhe dei esse título só porque é o príncipe. — Seu irmão assentiu e saiu apressado, seguido de Shisui.

— Sei que é um péssimo momento, majestade — Inoichi começou, atraindo os olhos negros para si —, mas quero apenas lhe comunicar que mandarei minha mulher e filha de volta ao reino da Lua. Estou preocupado…

— Eu entendo, Inoichi. Mandarei mais 10 homens para fazer a escolta.

— Muito obrigado, Rei Itachi. — Fez a mensura e se retirou.

Sentia seu sangue fervendo dentro de suas veias. Aquela raiva que lhe engolia aos poucos, que lhe aprisionava no ódio irracional, cada vez mais possuía sua sanidade. Itachi sentia-se incapaz de resolver o problema, seus próprios soldados o haviam enfiado a espada pelas costas. Não que não tivesse feito isso contra o próprio pai, mas foram os ossos do ofício, precisava acabar com aquela loucura de Madara e não lhe restou outra alternativa. Contudo, receber a negativa logo de seu exército acabou com sua cabeça, pensava estar fazendo o melhor para seus súditos e soldados, mas talvez tenha se enganado.

[...]


Algumas longas horas os afastavam de seu objetivo, porém o capitão mantinha o ânimo de sua tropa com palavras de incentivo conforme o sol nascia acanhado entre as nuvens. Fugaku sentia o peso da idade reclamar em suas costas. Por mais que tivesse ajuda de muitos homens e que aquele fosse apenas o primeiro de muitos outros ataques a armazéns, se todo plano não fosse absolutamente perfeito, ele poderia perder muito caso fosse capturado ou morto em nome do rei.

Não permitiria que isso acontecesse, não enquanto seu nome não fosse escrito ao lado de Madara na história de sua terra. Mais capaz, mais firme, o homem que apagaria o que de mais fraco e tolo o solo do Fogo pode criar. Itachi era exatamente o que ele e seu antigo rei temiam. Um jovem criado na política e no que era certo para os demais reinos, mas não o seu. Não poderia ser uma boa imagem que resumia e carregava o nome de seu povo.

Eram bárbaros para os estrangeiros e isso os fazia sempre ter ótima posição em guerras, afinal, quem não quer contar com o apoio de peso do reino do Fogo? Já venceram guerras apenas pela desistência do inimigo no momento em que Madara deixava claro que apoiaria tal reino. Aqueles anos de glória não poderiam ser esquecidos, não tão facilmente Itachi destruiria o legado de gerações. Bom, ele não permitiria.

O saco abarrotado com a colheita de seu povo pesava em suas costas. Parecia lembrá-lo do tanto que escolheu carregar para salvar sua terra, sua gente, pessoas que cresceram consigo e prosperaram nos anos de glória do império Uchiha. Ele se sacrificaria e até boa parte da gente que não cooperasse para o bem maior do Reino.

Entregar toda a safra que com muita luta e cuidado seu povo cultivava poderia parecer traição para alguns ou os muitos que passavam um ano inteiro tentando afastar as pragas e o tempo frio, que vez ou outra tornava-se o pior inimigo de uma boa colheita, mas ele ia acima de tudo isso. Da possível revolta, conseguiria um belo tratado, algo que Madara o ensinou com muito custo e ele, como bom soldado, faria.

— A fronteira da Pedra está a duas horas, senhor. — Um dos homens tirou Fugaku de sua própria mente, apontando a frente como caminho.

— Vamos em frente, homens. — Alinhou o corpo, tentando mais uma vez animar a tropa. — O Rei nos espera, senhores!

[...]


— Calma, papai, não precisa desse desespero.

— Os rebeldes saquearam o armazém de alimentos, Ino, não tem como ficar calmo! — Inoichi falou sussurrando, porém queria gritar. — Arrume suas coisas, você e sua mãe voltam para casa depois do almoço.

— Mas eu…

— Fim de discussão, mocinha. — Seus pais saíram de seu quarto, fechando a porta.

Ino suspirou e arrumou todas as suas coisas o mais rápido que conseguia, colocou seu vestido de viagem e deixou sua capa vermelha estendida em cima da cama. Esgueirou-se até o estábulo, onde encontrou Kenji, e pediu para o menino chamar os seus amiguinhos. Sentada em um feno, lia o final do livro que estava lendo para eles. As 6 crianças prestavam atenção em cada palavra que ela dizia, encantadas com a história de fantasia que a loira contava. Ino queria ao menos terminar o livro para eles e se despedir, dizer que voltaria o mais rápido que pudesse. Não queria deixar as crianças sem ao menos uma explicação de seu sumiço.

Longe dali, na biblioteca, Shisui repassava tudo que tinha conseguido juntar de informações ao rei. Itachi respirou fundo e entendeu que precisava lidar com aquilo devagar e sem muito alarde, se não seus súditos entrariam em pânico e o caos iria se instaurar no reino do Fogo. Não podia permitir que Fugaku conseguisse o que queria, desestabilizar o seu reinado e mostrar que ele não era digno de ser o rei.

— É como se tivessem sumido de repente. — Shisui terminou.

— Eles devem ter algum atalho secreto que não temos conhecimento — Sasuke argumentou.

— O que o estrategista falou? — Itachi perguntou.

— Ren disse que até onde rastrearam as pegadas é possível que eles estejam querendo sair das terras do fogo.

— Para onde estão indo?

— De acordo com o que ele disse, para Oeste.

— Não tem nada para aquele… — O Uchiha parou seu raciocínio naquele momento. — Reino da Pedra…

— Sua alteza acha que eles… — Shisui arregalou os olhos, estava assustado com a possibilidade.

— Mandem os melhores soldados para investigar a fronteira com o reino da Pedra. — Itachi levantou decidido. — Sasuke, consiga 10 soldados a mais para escoltar as senhoritas Yamanaka's até o reino da Lua. — Ele respirou fundo. — Eu vou…

— Você precisa descansar, majestade — seu guarda pessoal avisou, preocupado. — Não dorme direito há dias…

— Impossível dormir quando meu reino está no próprio caos. Não sei como meu pai conseguia.

— Papai não pensava em ninguém além dele mesmo, irmão. Quem não tem consciência, dorme tranquilo.

Sasuke e Shisui saíram da biblioteca, e o rei respirou fundo. Seu amigo comandante tinha razão, precisava dormir, mas não sentia sono, eram problemas demais para pensar. Levantou-se e olhou pela janela, que dava para o jardim. Franziu o cenho quando, dali de onde estava, viu algumas crianças sentadas no chão. Lembrou do que Shisui falou sobre a senhorita Yamanaka estar com os filhos dos empregados, gostaria de ver aquilo pessoalmente. Caminhou a passos lentos, percorreu os longos corredores do castelo e logo estava no jardim. Deu a volta no estábulo e se manteve escondido, apenas deu uma breve olhada, notando Ino lendo um livro antigo de sua biblioteca, que lembrava já ter lido em sua infância.

Cruzou os braços e se manteve ali, encostado na estrutura de madeira, apenas ouvindo as crianças animadas com a história, e, assim que ela terminou, Ino ria com elas, se divertindo genuinamente com aquilo que fazia. Talvez fosse seu dom, ensinar os mais jovens, e, pelo que o seu guarda falou, não eram só os jovens que a escutavam.

— Professora, quando você volta? — Itachi escutou a voz tristonha do garotinho. Tentou espiar sem ser visto e, com sucesso, assistiu a loira abaixar para ficar na altura das crianças.

— Prometo que logo, está bem? Quero continuar dando aula aqui, mas também dou aula a crianças como vocês no meu reino. — Ela sorriu, sincera. — Elas também me esperam.

— Vamos sentir sua falta, professora. — Uma garota ruiva abraçou a Yamanaka, que prontamente correspondeu e logo foi abraçada por todos eles.

Aquilo era um dom. Ino sabia falar com as pessoas, sabia cativar a atenção delas sem nem mesmo se esforçar. Sua língua ainda precisava de freios, mas sua felicidade em ajudar os outros era nítida, além de querer passar seu conhecimento, que conseguiu por causa do seu privilégio. Era uma atitude nobre, sem dúvidas. Ela tinha um bom coração e a determinação necessária para… Itachi parou seu pensamento no meio do caminho, não podia estar pensando aquilo naquele momento. Maldito Shisui e sua mania de colocar minhocas em sua cabeça. No entanto, talvez ele não estivesse tão errado dessa vez.



Reino da Lua


Hinata estava impaciente, parecia prever algo que não sabia ao certo. Inoichi constantemente lhe mandava cartas avisando sobre o estado em que se encaminhavam as coisas. Hinata sabia que trazer o reino do Fogo para mais perto, ter um acordo político e econômico com seu reino vizinho seria vantajoso. Contudo, antes, Itachi precisaria tomar as rédeas do reino, conquistar o respeito e admiração de seu povo e, principalmente, de seu exército. Madara era um homem odioso, mas a Hyuuga sabia que os seus soldados eram leais a ele e dificilmente aceitariam de bom grado o que Itachi queria.

Estava preocupada, era verdade, mas quando Ino e Masumi foram para o reino do Fogo, sentiu que algo bom dali poderia surgir. Não queria compartilhar seus pensamentos com seu marido, sabia que a repreenderia, porém não conseguia deixar de imaginar o quanto poderia dar certo. Neji, observador como era, em algum momento perceberia que estava pensativa demais e notaria algo diferente. Esperava apenas o momento certo de contar sua mais nova ideia, que poderia dar muito certo, ou muito errado.

— O que você tanto olha nessa página?

— Como?

— Hina, está na mesma página há tempo demais — o ex-comandante comentou, então sua esposa se endireitou na poltrona e passou a página do livro um pouco sem graça. — Vai me contar o que tanto pensa? — Neji, do outro lado do cômodo, sentado na poltrona bem em frente a Hinata, também com um livro em mãos, questionou.

— Depende. — O homem arqueou uma das sobrancelhas. — Já não quero mais falar…

— Hinata… — advertiu.

— Já está brigando comigo e nem falei nada!

— Não estou brigando com você. Quero saber o que está tramando… — Ele fechou o livro, fazendo com que ela fizesse o mesmo.

— Vai saber quando for a hora. — Hinata levantou, largando o livro na mesa do canto e andou a passos rápidos ao perceber que Neji já vinha em seu encalço.

— Não me faça correr, Hyuuga… — Puxou-a pelo braço e encostou em uma das estantes, pressionando seu corpo no dela. Perto demais do seu rosto, Hinata conseguia sentir o hálito de seu marido em sua bochecha. — Me diga, o que está passando por essa cabecinha perversa…

— Mas que ultraje, Neji Hyuuga. — Inflou as bochechas. — Não sou perversa!

Neji infiltrou a mão por baixo da saia leve que a esposa usava, arrastou os dedos pela parte interna das coxas grossas e sentiu a mulher esmaecer em seus braços aos poucos, suas pálpebras começaram a querer fechar. Chegou à virilha e, aos poucos, seus dedos acariciaram os grandes lábios, sentindo a lubrificação se tornar cada vez mais presente. Apertou o ponto inchado com dois dedos, massageando levemente, enquanto lambia o pescoço até chegar ao lóbulo, fazendo um gemido involuntário deixar a garganta de Hinata.

— Completamente… devassa, rainha Hinata — sussurrou em seu ouvido, tirou sua mão, chupando seus dedos aos olhos atentos da morena e saiu andando.

— Neji… volta aqui. — Sua voz saiu como um sopro, embargada pelo tesão que sentia. A mulher andava pisando duro, irritada por não terminar o que começou.

— Quando quiser me contar, eu continuo…

— Filho da… — resmungou.

— Com licença, majestade. — Os dois deram de cara com Haru, o novo comandante da guarda real. Eles pararam onde estavam, e o homem continuou: — Pediu para avisar quando a senhorita Yamanaka chegasse.

— Obrigada, Haru. Peça a ela que me encontre no jardim de inverno no fim da tarde para um chá.

— Como desejar, alteza. — Reverenciou sua rainha e seu rei e se retirou.

Neji virou para ela, soltou o ar pelo nariz, claramente a repreendendo, e disse: — Me diga que não é o que estou pensando.

— Não é — Hinata disse simples, mas ela sabia que era exatamente o que Neji estava pensando, porém ele não precisava saber naquele momento.

[...]


O chá da tarde foi posto por duas criadas. Hinata sentou em sua cadeira favorita dali, apreciou o dia bom do inverno, que chegava, mas que em suas terras era generoso em ser ameno. Neji seguia a recriminando apenas com o olhar, e a Hyuuga fingia que nada estava acontecendo. Agradeceu às mulheres, que se retiraram em seguida, deixando os dois a sós. Ino ainda não tinha aparecido, e o rei da Lua agradecia mentalmente por isso, queria colocar algum juízo na cabeça de sua esposa antes que uma nova guerra acontecesse.

— Hina… — sentou ao lado da rainha —, acho que você não deveria insinuar nada para a Yamanaka.

— O que quer dizer com isso?

— Sei o que está pensando, Hyuuga. O que disse a você no dia do nosso casamento?

— Não me lembro, já fazem semanas… — Arrebitou o nariz, servindo o chá em sua xícara.

— Ora, não…

— Licença, alteza. — Foi interrompido por Ino, que chegou à porta, fazendo sua mensura. — Oh, desculpe, não sabia que estava presente, rei Neji. — Reverenciou novamente, dessa vez ao rei.

— Ele já estava de saída, não é, querido? — Hinata o mirou, praticamente enxotando seu marido.

— Sim… — concordou, olhando de maneira reprovadora para sua esposa e olhou sorrindo para a loira: — Tenham um bom chá. — Ino sorriu e caminhou até a cadeira defronte a rainha, se sentando, enquanto o Hyuuga fechava as portas duplas, olhando para as duas preocupado com o que Hinata estava planejando.

— Aceita? — Hinata pegou o bule e, com o acenar positivo da loira, serviu. — Então, Ino, me conte… Como foram essas semanas no reino do Fogo?

Ela pareceu escolher a palavra por alguns segundos e disse: — Interessantes. — Ela deu um gole no chá, e Hinata ficou intrigada com o porquê de usar essa palavra entre as diversas que poderia ter usado.

— Interessante? — Hinata lhe ofereceu um biscoito, que ela pegou, agradecendo.

— Sim, parece que não dá para saber tudo apenas pelos livros.

— Descobriu algo… interessante? — A rainha sorriu, travessa.

— O reino do Fogo não é tão ruim quanto eu achava — disse baixo, como se tivesse medo do que estava dizendo.

— Ou o Rei Itachi não é tão ruim como você achava? — Ino corou as bochechas e quase se engasgou com o biscoito. — Está tudo bem, Ino. Nada do que disser sairá daqui.

Ino pareceu ponderar o que diria. Mesmo com a língua solta, se tratando de sua rainha, ela tinha o maior cuidado para não falar nada de errado, ou sua mãe infartaria. Era difícil para ela explicar, mas sentiu que poderia confiar em Itachi, principalmente para recuperar o reino e o transformar em algo a se orgulhar. Via nos olhos dele que tudo que ele queria era mudar como o seu sobrenome era visto e lembrado.

— Ele é… diferente dos outros Uchiha's.

— Está apaixonada?

— Não! — disse mais rápido do que pôde pensar, mas respirou e calmamente repetiu: — Não… Só admirei a vontade dele de limpar seu nome e melhorar seu reino.

— Seria mais fácil se estivesse… — murmurou, abaixando a cabeça, já sabendo da falha de seu plano.

— Não entendi, majestade. — Ino a olhou confusa, atraindo o olhar de Hinata a si mais uma vez.

— Vou lhe explicar, Ino.

Hinata tinha certeza de que se Itachi quisesse tanto mudar seu reino da água para o vinho, ele precisaria de uma rainha. Precisaria de alguém doce, amável e inteligente ao seu lado. Precisaria conquistar seus súditos com palavras de esperança e amor. Ela sabia bem que Ino tinha todas essas qualidades, além de ser determinada quando queria. O reino do Fogo precisava de alguém completamente diferente de todos os reis anteriores, sem ódio, sem remorso, sem selvageria e sem o lado masculino que carregava aquela opressão. Itachi precisava, sim, de uma rainha e para o plano de trazer o Fogo para ser seu aliado funcionar, ela precisava de um tratado forte e estável. E nada melhor do que um tratado por casamento.

— Quer que eu me case com o rei Itachi?! — Ino arregalou os olhos.

— Eu sei, sou hipócrita, mas jamais a obrigaria a casar por um tratado, Ino. — Hinata bebeu um gole de seu chá. — Não quero que passe esse sofrimento. Quero que case por amor, por isso perguntei se estava apaixonada. Como não é o caso, vou pensar em outra forma…

— Não. — A Yamanaka a cortou. — Perdão. Eu aceito, caso o rei Itachi também aceite.

— Mas, Ino, você não…

— Eu quero ser útil para o meu reino, alteza. E se esse for o meu destino, eu o aceito de bom grado. — A loira estufou o peito. — E se for para ser útil para dois reinos, ficarei ainda mais feliz. Não quero ser apenas a filha bonita do conselheiro… — Abaixou a cabeça e encolheu os ombros.

— Não sabia que se sentia assim…

— Eu nunca disse isso para ninguém, majestade. Desculpe por… — Sentiu uma lágrima em sua bochecha, limpou rapidamente, e Hinata deu um lenço à mulher. — Obrigada. Eu ficarei honrada em fazer parte do tratado, alteza.

— Você tem certeza disso? — Hinata franziu o cenho, preocupada. — Não terá volta, Ino.

— Tenho.

Hinata tentou explicar os detalhes sobre o tratado com o reino do Fogo através do casamento dela e de Itachi. Caso o Uchiha aceitasse a oferta da Hyuuga, Ino se mudaria de vez para o reino do Fogo, mas, para isso acontecer, precisava chamar Inoichi de volta à Lua. Despediu-se da loira, que agradeceu por ela ter a escolhido para o tratado, e garantiu que faria o seu melhor. A rainha caminhou lentamente até os seus aposentos, onde encontrou Neji sentado na poltrona próxima da janela. Seu marido era realmente bonito e estava concentrado lendo um livro. Ela sorriu, dando passos calmos até ele.

— Como foi o chá? — o Hyuuga perguntou, assustando Hinata. Ele virou a tempo de ver a mão de sua esposa no peito. — Achou que não tinha ouvido você entrar? — Levantou e se aproximou dela, acariciou seus ombros e sorriu.

— Parecia concentrado demais para me ouvir chegar.

— Não esqueça que fui guarda e comandante por tempo demais, Hina, estou sempre em alerta. — Beijou os lábios doces da esposa e se afastou para mirá-la. — Então…

— Não sei se quero colocar meu plano em prática. — A mulher caminhou até a cama e se sentou, cabisbaixa.

— O que houve?

— Ela não está apaixonada por Itachi.

— Falei para não sugerir nada. — Estalou a língua no céu da boca. — Pare de querer organizar casamentos…

— Seria vantajoso para nós, Neji, mas não me sinto bem fazendo isso… — Respirou fundo. — Ino disse que queria. — Neji arregalou os olhos. — Também fiquei chocada com isso. Ela falou que quer ser útil para o reino.

— Não pode obrigar a garota a se casar por um acordo.

— Não obriguei! — Hinata levantou, irritada. — Acaso não me conhece, Neji? Acaso não enfrentei um inferno, matei um conselheiro e quase comecei uma guerra para casar com quem eu amo? — disse, em um só fôlego. — Acaso não lembra que quase perdi você… — Acariciou o rosto másculo e mordeu seu lábio inferior, suas sobrancelhas unidas denunciavam o quanto aquilo ainda mexia consigo. — E me perdi no processo de recuperá-lo?

— Não faça então… — Abraçou sua esposa, apoiando seu queixo no topo da cabeça da morena. — Ino merece casar com alguém que a ame.

— Ela pediu e me fez prometer que concluiria o tratado, se Itachi aceitar.

Neji afastou-se, franzindo o cenho com aquela informação, e logo suspirou, rolando os olhos.

— Tenho uma ideia… — Hinata lançou um olhar curioso para o marido, que continuou: — Itachi ainda deve… — pigarreou — gostar de você. Não vai aceitar se casar agora.

— Tem razão! Vou preparar a carta amanhã e enviar ao reino do Fogo.

— Não precisa da autorização do pai da Yamanaka, Hinata?

— E enviar uma carta a Inoichi. — Sorriu sem graça.


Reino do fogo


— Por aqui, é praticamente impossível. — Levou o dedo até o pedaço do mapa que indicava a parte mais fechada da floresta. — Além dos animais hostis da área, não há rio cortando a parte oeste, o que dificulta uma campanha longa.

Sasuke sentou à grande mesa, tentando entender o grande território de seu reino. Fugaku devia passar por algum lugar, mas, em meio ao terreno acidentado em grande parte inutilizado, como um velho e irritado ex-comandante da guarda de seu irmão poderia levar tantas sacas da colheita de seu povo e, o que mais o intrigava, para onde?

— Há o grande rio. — Shisui fez o caminho do rio que nascia na cadeia de montanhas, que praticamente cercava seu reino e desaguava no mar salgado. — Mas deve estar congelado esta época do ano.

— Pensei exatamente isso. — O Uchiha fechou seus olhos, imaginando a si mesmo em uma missão como aquela.

Foram treinados pelo mesmo homem, seu pai, então não seria tão diferente assim seu pensamento e de Fugaku. Pelos deuses, onde aquele meliante estava escondendo os grãos que roubou do próprio povo e qual seria o próximo passo para desestabilizar o reino que Itachi queria construir?

— Se ele for para as montanhas? Há algumas cavernas lá que, pelas histórias, eram ligadas às daqui, como um grande labirinto subterrâneo…

— Achei que já era adulto, Shi. Acreditar nas velhas amas com essa idade é um pouco infantil.

— Ah, vamos lá. Tente imaginar este cenário. — Virou o mapa para o irmão do rei e deu início ao próprio devaneio: — Isso explica o fato de Fugaku ter passado ileso por toda guarda que montamos daqui — apontou o centro do mapa — até a fronteira. — Rapidamente algo pareceu fazer sentido na mente do comandante da guarda real. — Deve haver um caminho secreto para o objetivo de Fugaku, que, por enquanto, achamos ser as montanhas. O estrategista do rei nos disse que, para armar algo, ele precisava organizar primeiro, longe do rei ou de alguém que pudesse atrapalhar.

— Faz sentido, mas como vai provar ao Ita?

— Não, é só uma suposição com base no que ele trouxe para nós hoje. As reuniões estão cada vez mais tensas, e o conselho não anda muito confiante com a estratégia que queremos abordar.

— E qual seria? — Sasuke estava curioso com o rumo da conversa. Infelizmente, pouco se sabia das reuniões secretas do irmão com o pequeno conselho, e se Itachi gostava de um segredinho sujo, Shisui era literalmente o oposto do rei.

— Permitir uma próxima jogada a Fugaku e, assim, atacar certeiro. — O comandante fechou o mapa ao ouvir a porta bater com certa força. — Senhor.

— Shisui, mostrou a Sasuke? — O rei aproximou-se da mesa, cumprimentando rapidamente o irmão.

— Sim, mas ainda não fiz a pergunta.

— Que pergunta? — Sasuke estava animado por ser útil em um momento tão incerto do reinado de seu irmão.

— Queremos que vá com alguns homens até o fim das cavernas. Não para enfrentá-los, mas para saber se estamos no caminho certo. — Shisui sorriu para o rei quando notou o riso ladino do mais novo e continuou: — Podemos contar com você?

— Será uma honra.

[...]


— Espero que sejam boas notícias, Shisui — disse, sem tirar os olhos dos pergaminhos, assim que seu comandante adentrou a biblioteca, que ele mantinha a porta aberta devido à ansiedade de novas informações.

— Infelizmente, não, alteza. — O rei o mirou e se recostou na cadeira, esperando que continuasse. — Sasuke varreu as montanhas e nada foi encontrado, nem um vestígio.

— Então eles só podem ter passado pela fronteira e fico imaginando… — subiu o tom de voz ao dizer: — como ninguém viu eles cruzarem as fronteiras, Shisui?!

— Ainda não temos ideia, alteza. É como se eles tivessem… desaparecido. — Itachi apertou a ponte do nariz e fechou os olhos, suspirando.

— Coloque 3 mil homens na fronteira se for necessário, Shisui. Pegue esses cretinos! — Itachi bateu o punho na mesa, irritado.

— Estou fazendo o possível, majestade. — O Uchiha o mirou com os olhos vermelhos. Aquilo era o mais puro ódio, e Shisui só havia visto aquilo em Madara e até mesmo em Sasuke, mas nunca em Itachi. — Vou providenciar agora mesmo um plano para colocar mais homens na fronteira e também… averiguar uma teoria. — O comandante saiu apressado, deixando Itachi sozinho na biblioteca.

Era impossível mais de 4 mil homens desaparecerem do mapa. Estava inquieto, irritado e sem paciência para desculpas. Queria resultados, queria esses homens presos. Antes tivesse ido ele mesmo atrás deles para arrancar-lhes as cabeças.

— O que estou fazendo? — resmungou, passou a mão pelo rosto e logo pelos cabelos escuros.

Não queria agir feito um neandertal, era isso que tentava evitar. O ódio dos Uchihas definitivamente corria nas suas veias, mas sempre evitou senti-lo, ou até mesmo alimentá-lo. Respirou fundo e tentou pensar racionalmente. Fechou os olhos, tentando se acalmar, porém sua tentativa foi interrompida quando ouviu batidas na porta. Ele liberou a entrada, vendo Inoichi entrar de forma calma e fechar a porta atrás de si. Admirava a impassividade do homem, ele sempre estava sério, calmo, racional. Talvez tenha sido esse o motivo de Hinata tê-lo mandado, sabia do temperamento Uchiha e quis enviar alguém para equilibrar as coisas.

— Majestade, chegaram duas cartas da rainha Hinata. — O Yamanaka entregou uma delas com o selo real. — Uma para vossa alteza, e outra para mim.

— Obrigado, Inoichi.

— Ela pede meu retorno, pois precisa tratar de alguns assuntos comigo — informou. — Disse que voltarei em breve, assim que tudo for resolvido na Lua.

— Sem problemas. Disponibilizarei uma carruagem para levá-lo.

— Ela também pediu para que eu esperasse o senhor ler a sua carta para voltar. — Itachi franziu o cenho e abriu o selo, começando a ler o texto muito bem escrito pela Hyuuga.


Itachi, pedi para Inoichi voltar. Preciso dele para um assunto importante, porém também preciso que venha você, o que acho inviável no momento, devido aos acontecimentos, ou um representante para um tratado que venho pensando. Aguardo sua resposta.

Rainha Hinata.

— Enviarei um representante com você, é o que ela pede. — Ele suspirou. — Não posso enviar Shisui, acredito que Sasuke terá que se portar como um… diplomata. — Itachi mesmo ridicularizou o termo. Seu irmão seria tudo, menos diplomático.



Reino da Pedra


O enorme salão onde ocorria a recepção de seus valorosos homens estava lotado. Alguns tinham mulheres em seus colos e outros afogavam o cansaço em uma caneca do que o reino tinha de mais precioso para servir.

A bebida dali perdia em muitos pontos aos da sua terra. A comparação poderia ser até ridícula, como as do exército, mal treinado em seu ver, contudo a longa conversa que teve com o rei daquele lugar rendeu-lhe bem mais que uma noite de diversão merecida para ele e seus homens. Estavam a mais um passo de uma união nunca imaginada.

Duas terras fortes, que precisavam apenas do apoio uma da outra para serem invencíveis, mas como o rei sabiamente citou, a mesquinharia era um traço Uchiha, e apesar dos longos anos de amizade entre Onoki e Madara, haviam alguns pontos nos quais Fugaku deveria concordar com o regente.

Era fato, Uchihas eram incríveis em batalha, mas pouco aproveitáveis quando se tratava de acordos. Sempre queriam levar a melhor e a briga com os Senjus era prova disso. Entretanto, agora tinham tudo para um futuro inigualável: As técnicas de batalha que Fugaku passaria aos demais soldados de Onoki e o número necessário para invadir qualquer terra que bem entendessem.

Contudo, aquilo não seria de uma vez, ao menos não no Reino do Fogo. Não seria tolo como um Uchiha, invadindo e tomando tudo. Colocar o povo contra o rei é mais simples do que erguer sua espada e matar em batalha, Fugaku ganharia o amor e a fidelidade do povo, com sua ajuda e menos sangue derramado na terra sagrada de seus ancestrais.

— Amigos do Fogo! — O rei levantou de seu pequeno trono e capturou a atenção de todos com sua voz grossa e altiva. — É com grande honra e esperança de um futuro melhor para ambos que selamos acordo com Fugaku, ex-braço direito do verdadeiro rei, Madara Uchiha. — Batidas em todas as mesas foram ouvidas. Os soldados concordavam eufóricos com cada palavra do rei. — Sim, senhores, nossa aliança é pela antiga glória e para que futuras, ainda maiores, possam vir!

— É! — grande parte dos homens gritava palavras de incentivo ao homem.

— Eu e Fugaku construiremos um mundo forte, esmagando tudo que for imoral, ilegítimo e fraco!

Reino do Fogo


Shisui e Ren seguiam na sala tática, o mapa do reino seguia aberto na mesa, e os dois tentavam enxergar algo além daquele grande papel. Era difícil entender como tantos homens simplesmente desapareceram sem deixar nada para trás. Shisui estava começando a perder as esperanças. Se o conselho não fosse a favor do plano de esperar um movimento dos rebeldes, estariam em um beco sem saída. Assim como se encontravam naquela sala, já há horas demais para se lembrarem quando entraram ali. Sabiam que seu rei esperava uma resposta, uma informação preciosa, ou até mesmo um dos homens desertores para uma sessão de tortura.

Shisui estava preocupado com os acessos de raiva do seu amigo. Ainda lembrava o quanto Itachi era um menino amável com todos, inclusive consigo, que era um mero filho de um soldado. Lembrava das vezes que encontravam a mãe do Uchiha no jardim, e ela lia histórias para eles. Akiko era uma mulher delicada, sorridente e muito prestativa com todos no castelo. Não entendia como dois opostos tinham se unido em casamento, mas se lembrava vagamente do seu pai comentando que o reino das Flores precisava de um acordo militar.

Suspirou, sentindo que seu cérebro já não tinha mais ideias e que se fosse para ser decapitado pelo seu rei, que fosse.

— Comandante Shisui. — Foi chamado por um dos guardas reais. — O rei pede sua presença.

— Sim, estou indo. — Olhou para Ren. — Tente pensar em algo, nem que seja paliativo, Ren. Precisamos de respostas…

— Sim, comandante Shisui.

Caminhou lentamente pelos corredores, como se adiasse o inevitável. Itachi deveria estar tão irritado que não aguentou esperar que retornasse com algo e o chamou. Bateu na porta da biblioteca e sua entrada foi permitida, passou pelo arco e fechou a porta atrás de si. Viu que não era o único a ter sido convocado, Sasuke e Inoichi estavam na sala, aguardando o que o rei falaria.

— Preciso que prestem atenção… — Itachi olhou para Shisui e logo para Sasuke. — Sasuke vai em meu nome ao reino da Lua junto a Inoichi.

— O quê? — O príncipe exasperou-se.

— Isso que ouviu. Preciso de um representante, e Shisui não pode ir, precisa estar à frente do exército.

— Eu também preciso ajudar no exército, não quero ter que lidar com besteira política. — Revirou os olhos.

— Sasuke, aja como um adulto. Você acabou de assumir como general, mas também é o príncipe, e conseguir acordos com os reinos vizinhos, principalmente com a Lua, é tão importante quanto o trabalho no exército. Não seja infantil! — O mais novo apenas revirou os olhos e suspirou aceitando. — Ótimo, agora que estamos conversados. Shisui, o conselho admitiu que fizéssemos o que queríamos, mas não desista de pensar em outra alternativa.

— Sim, alteza.

— Coloque mais homens nos armazéns e outros escondidos para fazermos uma emboscada. Não sabemos em qual deles vão atacar, mas pode ser um passo que eles darão, afinal, precisarão de mais comida se estiverem escondidos em algum lugar. — Deu uma pausa longa, respirando, pensando em suas próximas palavras. — Sasuke, não tome nenhuma decisão sem o meu conhecimento, envie cartas através da sua ave e não arrume problemas — disse, sério.

— Claro, serei um perfeito diplomata — falou com desdém.

— Duvido muito, mas obrigado por tentar. — Olhou para o Yamanaka. — Inoichi, obrigado por toda a sua ajuda e nos vemos na volta, então.

— Foi um prazer, majestade. — O loiro reverenciou o rei.

— A carruagem sai amanhã cedo.

Reino da Lua


— Esperamos que tenham feito uma boa viagem, dada a pressa. — A rainha sorriu largamente para o homem loiro, que se aproximou da entrada do castelo. O cumprimento respeitoso do homem estendeu-se também ao marido de Hinata, que estava ao seu lado, porém não tão receptivo quanto a Hyuuga. — Sinto muito pelo pedido, Inoichi. Sei que Itachi precisa muito de sua ajuda, mas sinto que toda a ajuda é bem-vinda, não é mesmo?

— Majestades. — Dois passos para trás e esperou que Sasuke fizesse o mesmo, cumprimentando os donos daquela terra.

— Rainha Hinata, Neji… — Sasuke travou no cumprimento. — Devo chamá-lo de…

— Neji está de ótimo tamanho. — O rei não esboçou reação, positiva ou negativa para o Uchiha. — Já lutamos um contra o outro, creio que formalidades possam ser dispensadas, ao menos quando estivermos longe de outros ouvidos.

— Sinto muito — o Uchiha pediu, e o conselheiro da Rainha quis socar o príncipe por tamanha falta de educação. Madara esqueceu que havia outro jovem tolo para ensinar o básico?

— Não se desculpe. — Sorriu outra vez, mais gentilmente possível para relaxar os ombros tensos do Yamanaka. — Se meu marido não vê desrespeito, é porque não há, certo?

— Vamos até o salão principal para um rápido desjejum e podemos seguir até a biblioteca. — Neji tomou a mão da esposa e a frente na caminhada de entrada do palácio, contudo, Inoichi pigarreou atrás de si.

— Podem nos servir na biblioteca? — O mais velho decidiu continuar quando os olhos curiosos miravam seu rosto. — Tenho pressa em voltar ao meu dever. O rei Itachi está em uma situação delicada, e eu e seu irmão podemos fazer falta.

— Sim, podemos fazer isso.

Hinata seguiu mais à frente com Neji em seu encalço, como muitas vezes o Yamanaka viu acontecer desde que seu antigo rei havia falecido. Era bom ver sua majestade feliz ao dar ordens e comandar aquele reino como ninguém. Não que antes ela não pudesse, porém parecia mais um trabalho que algo mais leve ao lado do ex-comandante da guarda.

Seguiram após alguns minutos até os corredores largos e bem iluminados do castelo. Conhecia tão bem aquele lugar e sentia falta de estar em casa. Ainda gastava alguns instantes tentando se encontrar nos labirintos Uchiha, estando lá há meses. Era complicado não se sentir tão parte de tudo, mesmo com Itachi sendo tão bom anfitrião como sua própria rainha.

Os homens entraram logo após Hinata, Neji e logo atrás Inoichi, que olhou para trás, lembrando de não tirar mais os olhos azuis do moleque, irmão do rei. Sasuke não tinha tato, parecia não entender nada além de uma espada em punho, e a paciência de uma bebê chorando com fome; a receita certa para o desgaste, mas Itachi não era um gênio?

— Senhores. — Hinata sentou-se na ponta, à frente da lareira apagada, e, assim que o fez, todos os outros sentaram-se em seus lugares. — Temo que o assunto não seja o esperado por ambos. Nosso objetivo é a reconstrução do Reino do nosso novo aliado, Itachi Uchiha, contudo não estou aqui para oferecer-lhes grãos, metais, pedras ou tropas, mas, sim, um acordo benéfico que unirá ainda mais os reinos Hyuuga e Uchiha.

— Majestade, eu não deveria estar aqui para uma reunião deste grau de importância.

— É o que acha? — Neji sorriu cínico ao pegar a xícara de chá e a tomar com uma calma irritante para os dois homens, que nada entendiam.

— Chamei você também, pois sua parte talvez seja a maior em todo o acordo. — Hinata tentou parecer calma, mas a tensão de sua rainha, vista tantas outras vezes quando o velho Sarutobi tentava interromper sua fala, era coisa conhecida para o loiro. — Um casamento é algo maior que um papel assinado, oferecendo terras, colheita e soldados em tempos de guerra.

Sasuke o olhou como se tivesse entendido algo, contudo, para si, nada parecia se conectar. Casamento? Hinata estava oferecendo alguém a Itachi? E o que ele tinha a ver com tudo isso? Andou quilômetros a cavalo, andando e dormindo em carruagens, que apesar de bonitas, não eram nada confortáveis, para ouvir que alguma plebeia casaria com o Uchiha?

— Se estiver de acordo, Sasuke deve falar pelo irmão, certo? — O moreno concordou mudo para a rainha. — Então, podemos mandar a carta de agora, avisando ao conselho de Itachi, e Ino poderá voltar com vocês.

— Espera, Ino? — Os olhos azuis miraram a rainha. — O que minha filha tem a ver com tudo isso?

— Não ficou claro, velho? — O Uchiha tomou a frente. — Sua filha se casará com meu irmão.

Em um rompante, o homem mais velho levantou-se, jogando a cadeira que tomou atrás de si.

— Ino não vai se casar para que um acordo seja feito! Há opções, senhora. Nós podemos pensar em outras opções e meios. Prometo-lhes trazer duas delas até amanhã, me deem algum tempo.

— Entendo seu receio, mas, acredite, não temos melhor opção para acalmar os ânimos de ambos os reinos. Nossa aliança deve ser firme para que ninguém em lugar algum ache que deva atacar, pois a fraqueza diluiu anos de brigas entre nosso povo. Inoichi, peço não como sua rainha, mas como parte de sua família, que pense calmamente nesta opção e converse com sua filha, ela parecia disposta a ajudar.

— Falou com Ino, majestade? — Suspirou nervoso, lembrando com quem falava antes de fazer alguma besteira, mas estava possesso com o andamento, a abordagem e o plano de sua rainha. — Creio que não poderei aceitar.

— Por que não? — Sasuke mais uma vez esqueceu que sua boca deveria permanecer fechada. — Meu irmão é um bom homem, ele e sua filha já se conhecem, e ela vai ser rainha. Quanta honra…

— Sasuke, os títulos não são o problema. — Neji tentou falar calmamente, contudo, o irmão de Itachi parecia mais insuportável que o próprio. — Inoichi tem Ino como única filha, não imagino abrir mão de um pedaço meu e de Hinata assim tão facilmente.

— Sim, porém sempre levaríamos em questão a opinião de nossos filhos hipotéticos. — Hinata sorriu para o marido, buscando acalmar o homem, que revirava os olhos a cada palavra do Uchiha. — Inoichi, sei que o senhor e meu pai tiveram muitas conversas sobre a criação das filhas que os Deuses deram. Sei que pode parecer repentino ou assustador agora, contudo pense com carinho e ouça os argumentos de Ino. Confie nela e na educação que o senhor deu, e tente respeitar o caminho que ela escolher. Lembro que não foi contra quando anunciei minhas intenções de casar com Neji e guardo isso em meu coração, como prova de confiança.

O silêncio que tomou o lugar finalmente foi quebrado com os movimentos mais calmos do loiro, que colocou sua cadeira no lugar e voltou, respeitosamente, ao assento. Os quatro continuaram com a refeição, agora acompanhados de uma tensão pesada, que certamente traria uma indigestão.

— Posso fazer um pedido, majestade?

— Fique à vontade. — Hinata deixou de lado o chá que tomava e deu total atenção ao homem.

— Gostaria de conversar com minha filha antes da emissão e envio das cartas.


Continua...


Nota da autora: Sem nota.

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