Capítulo 1 — O peso de um reinado
Chegando aos seus aposentos, suspirou pesadamente, observando a janela à sua frente. Estava exausto dos últimos dias e ainda tinha um longo caminho no dia seguinte, após a grande festa de casamento, que celebrava o fim de tempos tortuosos, não só de seu reino, mas de muitos outros. A porta atrás de si foi batida poucos segundos depois de sua entrada, e seu guarda de confiança passou por ela.
— O senhor gostou da festa?
Claro que havia gostado. Parte sua esperava ansiosa por um segundo apenas de paz, onde seu cálice de vinho vazio fosse a única preocupação da noite. As conversas amigáveis e muitas promessas, movidas animadamente pelo álcool que ingeriram, brindando à felicidade do mais novo casal e futuros acordos.
— Algumas partes foram curiosamente mais agradáveis. — Sorriu minimamente, lembrando da loira de olhos azuis, sentando em uma das poltronas próxima à janela que olhava minutos antes.
Sim, tinha alguma coisa em si que não o deixava completamente feliz com a união da rainha e do novo rei da Lua, contudo, sabia que era o certo, mesmo que seu coração errasse uma batida ou outra com o sorriso que Hinata distribuía para os presentes. Haviam muitas descobertas naquela noite em especial, e não era apenas Minato, com a fala arrastada pela bebida e as promessas de visitas ao reino do Fogo para dois ou três tratados extraordinários.
— Senhor, deveria pensar com cuidado. Precisamos de uma rainha para que seu reino seja visto como o senhor tanto deseja.
Uma mudança. Tudo o levou até o momento em que enfrentaria suas leis, seu povo e a forma que tudo era feito no país que nasceu. Estava farto do sistema que perdurou por longos anos com seu sobrenome, mas que já não funcionava da forma que deveria. Eram outras épocas, outros tempos, agora era a hora do novo. Hinata começou essa horda e fazia sentido que todos eles, sua geração, fizesse o mesmo para que a velha política com medo e limites muito impostos pudessem ter um fim.
— Ainda não é o momento, temos muito a resolver em nossa chegada. Meu irmão não fez contato? — Com a negativa do homem, apertou levemente os olhos. Não era bom não ter notícias de seu reino, mas se fossem más, chegariam rapidamente.
— Posso deixar uma carta formal para o pai da moça… — Shisui comentou, tirando Itachi de seus pensamentos preocupados.
— E oferecer o quê? — Voltou a olhar para seu guarda. — Uma terra manchada de sangue, um povo desconfiado de seu novo rei, ou apenas um nome pesado demais pelo passado imundo?
— Oferecer a oportunidade de construir do zero algo para se orgulhar. Não foi sempre sobre isso, majestade? — Os olhos escuros o fitavam tão esperançosos, tanto quanto quando eram apenas duas crianças brincando de governar um reino. Shisui o fazia acreditar que dias mais fáceis viriam.
— Não é tão simples. Deixaria sua filha nas mãos de um Uchiha?
— Se esse Uchiha fosse minha alteza, quem sabe? — Deu de ombros, sorrindo. — Reparei que a moça também vê o que eu vejo.
— Ela ainda não deve saber metade do que enfrento. Ouviu a palavra rei e se viu em um dos contos que o pai contava quando era uma criança.
— Não faça pouco daquela bela dama, ela parecia contente com o que via.
— Por mais que tenha sido recíproco, meu caro, não é momento para pensar em belas damas.
— Ou futuras rainhas.
— Pai, não quero vingança…
Sentia cada parte de seu peito arder com a possibilidade de enfrentar outra vez uma frente de batalha sem sentido. Não havia por que irritar a rainha Hinata, ela tinha feito sua escolha dentro de sua capacidade e certezas, ela tinha escolhido o homem sujo e maltrapilho que estava de joelhos diante dele.
Era muito do feitio de seu pai subjugar um homem como aquele, apenas para parecer mais forte e imponente diante dos seus. Estava farto, foram anos de torturas observadas de perto, técnicas ensinadas pelo rei, que não compreendia que um dia uma batalha o arrancaria daquele mundo que ele acreditava ser seu. Seu pai não era o dono de nada no fim, era dele a responsabilidade de guiar seu povo para um futuro menos sangrento.
— Deixe de bobagem…
A voz traiçoeira ousou falar que ela era sua e que o general estava no meio das pernas da rainha. Poderia doer menos do que ele havia imaginado, contudo foi um golpe cruel em seu coração, vindo especificamente de alguém que já treinou muitos como ele e foi treinado por seu avô para fazer o mesmo; despertar em um Uchiha seu pior lado.
— Eu não vejo dessa forma, pai.
Nem se tentasse. As histórias de glórias em batalhas não lhe enchiam os olhos escuros. Itachi nunca quis ser alguém como qualquer outro membro de sua longa linhagem de assassinos, mas faria um sacrifício de sangue em nome de uma paz que ele viu tantas vezes ser ignorada por aqueles homens arrogantes e tão mesquinhos quanto seu pai. Ouviu o que seriam as últimas palavras sujas do rei e viu em seus olhos o sangue de Madara pedir para deixar seu corpo.
— Até eu pediria minha nora emprestada…
Mesmo que ela fosse sua, ninguém jamais poderia encostar um dedo em Hinata. Não teve tempo para pensar, Totsuka pesava em sua destra, e o ombro do noivo da rainha foi seu descanso por poucos e preciosos segundos. Ao cortar o ar, sua espada milenar parecia uma tesoura bem afiada, rasgando a mais fina seda branca, tornando imediatamente vermelho tudo ao redor.
— Não se preocupe, é Uchiha.
Ousou falar em voz alta, para que todos os assustados soldados de seu pai pudessem entender de vez o que havia acontecido. Neji piscou surpreso, e Itachi tirou a espada do peito do antigo dono. Não queria chegar ao limite, mas convencer um Uchiha de seu erro parecia tarefa impossível. Jurou que iria até o fim para salvar seu povo, e assim o faria, mesmo que aquilo o tornasse um Regicida.
Levantou-se no mesmo horário de sempre, se vestiu sem ajuda dos servos do reino da Hyuuga e seguiu com seu guarda ao lado. O café da manhã era sempre um bom momento para manter uma conversa amigável e mais sóbria sobre as devidas alianças.
Ele não havia perguntado nada a Hinata, nem queria atrapalhar a lua de mel do casal, mas tinha que voltar logo para suas terras. Sasuke contava com pouca paciência para o que quer que estivesse acontecendo no reino do Fogo, mas, sem os devidos acertos, voltar de mãos abanando estava fora de cogitação. Chegou à grande sala, ainda decorada com as flores escolhidas pela rainha, sentou e, sendo o último a tomar seu lugar, cumprimentou todos os presentes.
— Como está a estadia? — Hinata, como sempre, fazia qualquer desconhecido se sentir bem-vindo em seu lar.
— Ótima, sempre é bom visitá-los. — Sorriu pequeno, mesmo sabendo o quão falso poderia parecer. Seus pesadelos estavam cada vez mais assustadores, pois sempre se lembrava da sensação de matar o pai, e não sentir remorso o preocupava.
— Tem certeza? Não parece que dormiu muito bem… — A Hyuuga franziu o cenho levemente, parecendo mais divertida que verdadeiramente irritada com o fato de seu convidado não estar tão à vontade em suas dependências.
— Apenas um sonho ruim, nada que atrapalhe o dia. — Sorriu mais abertamente, ainda sem muita animação, e rapidamente voltou sua atenção ao homem ao lado da morena.
— Entendo perfeitamente — Neji afirmou, como se ele também fosse aterrorizado por lembranças dolorosas.
As conversas mais uma vez tomaram a mesa farta, e Tsunade Senju parecia a anfitriã, rindo mais alto que qualquer um. Seu pai e tio pareciam muito concentrados na própria refeição e na conversa baixa que mantinham, olhando de soslaio em diversas direções.
Itachi sentia-se pressionado pelos julgamentos. Ninguém ousou perguntar os detalhes, porém ele sentia que não seria levado a sério tão cedo com a atitude que teve que tomar. Não tinha escolha, era a vida de seu pai ou a do novo rei da Lua e uma guerra pela frente, contudo o nome que tanto o envergonhou foi jogado para mais fundo na lama da história.
— Uchiha? — o mais velho dos Senjus o chamou. — Gostaria de marcar uma visita ao seu reino. Sei que não é momento, contudo gostaria de reaver a velha amizade que tínhamos antes de… — Mirou os olhos castanhos para o irmão ao seu lado. — Você sabe.
— Será um grande prazer recebê-los. — Talvez seu sobrenome não tenha afastado alianças tanto quanto pensou.
— Eu irei, ainda não confio em vocês… — Tobirama se posicionou. Claro, pareceria mais seguro para si mandar o irmão em uma reunião com um antigo desafeto. Mesmo Sasuke não gostando de ser isca, Tobirama não parecia ver problema.
— Provavelmente mandaremos um representante também. — Hinata sorriu de forma meiga.
— Mandaremos? — Neji pareceu entender o mesmo que Itachi: absolutamente nada na jogada da rainha.
— Sim, querido. — Virou-se para o marido. — Estreitarmos nossos laços agora é crucial, e mandarmos um correspondente até que tudo se acalme no reino é essencial. — Voltou-se ao Uchiha, ainda sorridente — Espero que concorde, quero a estabilidade do Fogo para que possamos deixar tudo isso para trás.
De fato, era muita bondade da morena mandar um dos seus para resolver alguns problemas com a confiança que seu povo, provavelmente, espera de um rei que matou a sangue frio o próprio pai. Não seria fácil, mas, mostrando alguns aliados, talvez o medo de uma crise, ou fome em massa, fosse embora com algumas visitas. Tratados, vantagens e tudo que pudesse afastar dias tenebrosos de suas terras, Itachi estava disposto a fazer.
— Ah, bom dia! — A rainha levantou animada para a mais nova, que se mantinha próxima a porta, de cabeça baixa e mãos unidas à frente do corpo.
O Uchiha foi de rei organizando seus novos passos a um garoto bobo, podendo ver pela luz do sol a beleza da mulher que chamou sua atenção na noite anterior. Levantou-se imediatamente, fazendo o barulho da louça tilintar e arrancando sorrisos da Sabaku e da Senju.
— Não vá cair. — Shisui colocou a palma da mão nas costas do rei do Fogo. Itachi mirou seu guarda e amigo de soslaio, julgando o comentário em hora inapropriada. Ele não poderia ajudar nenhuma vez?
— Eu não…
— Ino, sente-se por favor. Sakura não poderá se juntar a nós hoje, infelizmente. — Abraçou o corpo à sua frente, sorrindo animada. — Ela teve um imprevisto com algum familiar.
Itachi foi totalmente ignorado. A conversa entre as mulheres rendia rapidamente aos olhares assustados dos homens, que, felizmente, aproveitaram que o moreno não tinha voltado ao seu lugar e se levantaram, prontos para deixar o lugar.
— Vamos, senhor… — Shisui deu um empurrão em seu braço e o moreno pareceu voltar a si, vendo o sinal do Hyuuga para acompanhá-lo.
Seguiu até Neji poucos minutos após anunciar sua saída da mesa e, seguido por seu amigo, saiu por uma das portas laterais para uma parte desconhecida do jardim.
— Hinata pediu que eu o chamasse até aqui. — Com vestes muito diferentes das habituais, Neji parecia ter nascido para ser um Hyuuga.
— E o que deseja?
— Sei que tem pressa de voltar, e eu e minha esposa temos certas contas para acertar com você, Itachi.
— Não há nada que… — Calou-se ao observar um homem loiro, de face fechada, sair por outra porta lateral.
— Esse é Inochi Yamanaka, mestre das leis e membro experiente do pequeno conselho da rainha. Ele o acompanhará em nome do reino na viagem de volta ao Fogo, e sei que será de grande ajuda na construção de seu legado.
Chegar em casa era bom, deitar em sua cama seria melhor ainda, mas seus passos foram interrompidos por Sasuke. Apenas olhou de soslaio para o irmão, que o esperava ao lado da porta da biblioteca, com a tensão que sentia exposta em seu rosto. Claro, não era sua obrigação ficar responsável pelo reino, ainda mais quando haviam tantas coisas a serem feitas. Caminhou a passos lentos até o caçula, passou o braço pelo seu ombro e sorriu, tentando disfarçar o lembrete que sua mente gritava. Agora ele precisava assumir de vez o que conquistou, seu lugar de direito.
— Não enviou nenhuma carta nesses dois dias. — Entraram na biblioteca e por ali cada um tomou uma cadeira.
— Não tinha muito o que falar, apenas… Pergaminhos chegaram do reino da pedra e da água, querem saber se os acordos continuam os mesmos, você sabe… devido à troca de rei.
Suspirou audivelmente. Estava ali há apenas alguns minutos, e o título já lhe cobrava mais do que seu pai lhe cobrou a vida inteira. Colocar um reino em ordem, modificando todo seu modus operandi, era complexo e cansativo. Itachi sabia disso quando decidiu matar seu pai, mas pensar em como agiria era mais fácil do que agir de fato. E era evidente que todos os acordos diplomáticos e econômicos viriam a lhe cobrar atenção.
— Preciso analisar os acordos e então enviar a resposta. — Massageou as têmporas. — Se puder me ajudar, agradeceria.
— Claro que ajudo, Ita, falei pra você que não precisa carregar esse fardo sozinho. — Sasuke se levantou para se retirar, mas pareceu lembrar de algo e se voltou ao irmão novamente. — Quem era o homem que chegou com você e foi encaminhado para um dos quartos?
— Um dos conselheiros de Hinata, veio ajudar.
— Muita generosidade da parte dela se desfazer de um de seus conselheiros. — Foi até a maçaneta e antes de sair concluiu: — Cuidado para esse também não ser um traidor.
Itachi tentou pensar em algo que não fosse política, mas era impossível, não conseguiria, não quando seu reino estava um caos e o medo iminente de traição vinda de qualquer um dominava suas preocupações. Afinal, Itachi deu um golpe de Estado, com o apoio do conselho, mas a população poderia ignorar a segunda parte. Pressionou os olhos que ardiam, não dormia direito há semanas, pesadelos eram frequentes em suas noites, algumas totalmente em claro. Esperava conseguir ter paz pelo menos para dormir uma noite completa.
Foi tirado de seus pensamentos por Sasuke entrando novamente, dessa vez com um servo carregando uma caixa com vários pergaminhos. Assustou-se com a quantidade e franziu o cenho, não se lembrava de ter tido tantas reuniões assim. Itachi era o herdeiro, participava de todas as reuniões onde se fechavam acordos políticos ou econômicos, porém sua mente fez questão de pontuar os meses que ficou no escuro com a maldita ideia de guerrear com o reino da Lua a troco de nada.
Sem falar que seu pai nunca o orientou para o suceder, talvez Madara acreditasse mesmo que era imortal e que seu filho nunca precisaria tomar o trono. As únicas coisas que foi obrigado a fazer tornaram-se paixões para Itachi, como o treino de cavalaria, luta com espadas e até mesmo seu treinamento para fazer parte do exército, caso quisesse.
Contudo, quando fez 15 anos, Madara o fez sair do exército e começar a participar das reuniões do conselho, afinal, precisava aprender como ser um rei. Como conversar adequadamente com o conselho e seus aliados, mas agora podia ver claramente, talvez tirá-lo do exército fazia parte de esconder o que acontecia nas fronteiras.
— Essa é a caixa com os últimos acordos, majestade. — O servo, que ficava responsável por organizar os pergaminhos, disse, reverenciando o rei e os deixando a sós.
— Parece que teremos um longo dia pela frente, Sasuke. — Itachi apenas estendeu a mão para que seu irmão lhe alcançasse o primeiro de muitos naquele dia, que prometia ser exaustivo.
Com o passar das horas, os dois se remexiam nas cadeiras, a coluna castigada pelo tempo que passaram curvados, analisando papéis velhos. O caçula já queria dar um tempo, mas Itachi, ele estava perdido e concentrado demais em tantos acordos que nem sequer tomou conhecimento através de terceiros. Nunca viu a maioria do que encontrara ali, e aquilo o deixou apreensivo. Seu pai vinha escondendo coisas há muito mais tempo do que imaginava. Sasuke viu as sobrancelhas unidas do irmão e começou a analisar suas expressões, não conseguindo manter sua curiosidade apenas para si, perguntou:
— O que tanto te deixa incomodado, Itachi? — O rei tirou os olhos do papel para enfim encarar o irmão.
— Nosso pai escondia coisas muito antes da trama contra a rainha Hinata, Sasuke. Tudo sempre foi muito bem orquestrado por baixo dos panos. — Largou o papel em cima da mesa grossa de madeira e soltou o ar com força.
— Do que está falando? — O outro também franziu o cenho, sem entender nada.
— De coisas que são realmente vergonhosas. Quando eu achei que o nosso nome não poderia ser jogado ainda mais na lama. — Levantou decidido e completou: — Preciso de uma reunião com o conselho com urgência, preciso saber até onde Madara foi para conseguir o que queria.