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Casulo de Seda 2 — Regicida

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Capítulo 1

O peso de um reinado


Chegando aos seus aposentos, suspirou pesadamente, observando a janela à sua frente. Estava exausto dos últimos dias e ainda tinha um longo caminho no dia seguinte, após a grande festa de casamento, que celebrava o fim de tempos tortuosos, não só de seu reino, mas de muitos outros. A porta atrás de si foi batida poucos segundos depois de sua entrada, e seu guarda de confiança passou por ela.

— O senhor gostou da festa?

Claro que havia gostado. Parte sua esperava ansiosa por um segundo apenas de paz, onde seu cálice de vinho vazio fosse a única preocupação da noite. As conversas amigáveis e muitas promessas, movidas animadamente pelo álcool que ingeriram, brindando à felicidade do mais novo casal e futuros acordos.

— Algumas partes foram curiosamente mais agradáveis. — Sorriu minimamente, lembrando da loira de olhos azuis, sentando em uma das poltronas próxima à janela que olhava minutos antes.

Sim, tinha alguma coisa em si que não o deixava completamente feliz com a união da rainha e do novo rei da Lua, contudo, sabia que era o certo, mesmo que seu coração errasse uma batida ou outra com o sorriso que Hinata distribuía para os presentes. Haviam muitas descobertas naquela noite em especial, e não era apenas Minato, com a fala arrastada pela bebida e as promessas de visitas ao reino do Fogo para dois ou três tratados extraordinários.

— Senhor, deveria pensar com cuidado. Precisamos de uma rainha para que seu reino seja visto como o senhor tanto deseja.

Uma mudança. Tudo o levou até o momento em que enfrentaria suas leis, seu povo e a forma que tudo era feito no país que nasceu. Estava farto do sistema que perdurou por longos anos com seu sobrenome, mas que já não funcionava da forma que deveria. Eram outras épocas, outros tempos, agora era a hora do novo. Hinata começou essa horda e fazia sentido que todos eles, sua geração, fizesse o mesmo para que a velha política com medo e limites muito impostos pudessem ter um fim.

— Ainda não é o momento, temos muito a resolver em nossa chegada. Meu irmão não fez contato? — Com a negativa do homem, apertou levemente os olhos. Não era bom não ter notícias de seu reino, mas se fossem más, chegariam rapidamente.

— Posso deixar uma carta formal para o pai da moça… — Shisui comentou, tirando Itachi de seus pensamentos preocupados.

— E oferecer o quê? — Voltou a olhar para seu guarda. — Uma terra manchada de sangue, um povo desconfiado de seu novo rei, ou apenas um nome pesado demais pelo passado imundo?

— Oferecer a oportunidade de construir do zero algo para se orgulhar. Não foi sempre sobre isso, majestade? — Os olhos escuros o fitavam tão esperançosos, tanto quanto quando eram apenas duas crianças brincando de governar um reino. Shisui o fazia acreditar que dias mais fáceis viriam.

— Não é tão simples. Deixaria sua filha nas mãos de um Uchiha?

— Se esse Uchiha fosse minha alteza, quem sabe? — Deu de ombros, sorrindo. — Reparei que a moça também vê o que eu vejo.

— Ela ainda não deve saber metade do que enfrento. Ouviu a palavra rei e se viu em um dos contos que o pai contava quando era uma criança.

— Não faça pouco daquela bela dama, ela parecia contente com o que via.

— Por mais que tenha sido recíproco, meu caro, não é momento para pensar em belas damas.

— Ou futuras rainhas.

[...]


— Pai, não quero vingança…

Sentia cada parte de seu peito arder com a possibilidade de enfrentar outra vez uma frente de batalha sem sentido. Não havia por que irritar a rainha Hinata, ela tinha feito sua escolha dentro de sua capacidade e certezas, ela tinha escolhido o homem sujo e maltrapilho que estava de joelhos diante dele.

Era muito do feitio de seu pai subjugar um homem como aquele, apenas para parecer mais forte e imponente diante dos seus. Estava farto, foram anos de torturas observadas de perto, técnicas ensinadas pelo rei, que não compreendia que um dia uma batalha o arrancaria daquele mundo que ele acreditava ser seu. Seu pai não era o dono de nada no fim, era dele a responsabilidade de guiar seu povo para um futuro menos sangrento.

— Deixe de bobagem…

A voz traiçoeira ousou falar que ela era sua e que o general estava no meio das pernas da rainha. Poderia doer menos do que ele havia imaginado, contudo foi um golpe cruel em seu coração, vindo especificamente de alguém que já treinou muitos como ele e foi treinado por seu avô para fazer o mesmo; despertar em um Uchiha seu pior lado.

— Eu não vejo dessa forma, pai.

Nem se tentasse. As histórias de glórias em batalhas não lhe enchiam os olhos escuros. Itachi nunca quis ser alguém como qualquer outro membro de sua longa linhagem de assassinos, mas faria um sacrifício de sangue em nome de uma paz que ele viu tantas vezes ser ignorada por aqueles homens arrogantes e tão mesquinhos quanto seu pai. Ouviu o que seriam as últimas palavras sujas do rei e viu em seus olhos o sangue de Madara pedir para deixar seu corpo.

— Até eu pediria minha nora emprestada…

Mesmo que ela fosse sua, ninguém jamais poderia encostar um dedo em Hinata. Não teve tempo para pensar, Totsuka pesava em sua destra, e o ombro do noivo da rainha foi seu descanso por poucos e preciosos segundos. Ao cortar o ar, sua espada milenar parecia uma tesoura bem afiada, rasgando a mais fina seda branca, tornando imediatamente vermelho tudo ao redor.

— Não se preocupe, é Uchiha.

Ousou falar em voz alta, para que todos os assustados soldados de seu pai pudessem entender de vez o que havia acontecido. Neji piscou surpreso, e Itachi tirou a espada do peito do antigo dono. Não queria chegar ao limite, mas convencer um Uchiha de seu erro parecia tarefa impossível. Jurou que iria até o fim para salvar seu povo, e assim o faria, mesmo que aquilo o tornasse um Regicida.


[...]


Levantou-se no mesmo horário de sempre, se vestiu sem ajuda dos servos do reino da Hyuuga e seguiu com seu guarda ao lado. O café da manhã era sempre um bom momento para manter uma conversa amigável e mais sóbria sobre as devidas alianças.

Ele não havia perguntado nada a Hinata, nem queria atrapalhar a lua de mel do casal, mas tinha que voltar logo para suas terras. Sasuke contava com pouca paciência para o que quer que estivesse acontecendo no reino do Fogo, mas, sem os devidos acertos, voltar de mãos abanando estava fora de cogitação. Chegou à grande sala, ainda decorada com as flores escolhidas pela rainha, sentou e, sendo o último a tomar seu lugar, cumprimentou todos os presentes.

— Como está a estadia? — Hinata, como sempre, fazia qualquer desconhecido se sentir bem-vindo em seu lar.

— Ótima, sempre é bom visitá-los. — Sorriu pequeno, mesmo sabendo o quão falso poderia parecer. Seus pesadelos estavam cada vez mais assustadores, pois sempre se lembrava da sensação de matar o pai, e não sentir remorso o preocupava.

— Tem certeza? Não parece que dormiu muito bem… — A Hyuuga franziu o cenho levemente, parecendo mais divertida que verdadeiramente irritada com o fato de seu convidado não estar tão à vontade em suas dependências.

— Apenas um sonho ruim, nada que atrapalhe o dia. — Sorriu mais abertamente, ainda sem muita animação, e rapidamente voltou sua atenção ao homem ao lado da morena.

— Entendo perfeitamente — Neji afirmou, como se ele também fosse aterrorizado por lembranças dolorosas.

As conversas mais uma vez tomaram a mesa farta, e Tsunade Senju parecia a anfitriã, rindo mais alto que qualquer um. Seu pai e tio pareciam muito concentrados na própria refeição e na conversa baixa que mantinham, olhando de soslaio em diversas direções.

Itachi sentia-se pressionado pelos julgamentos. Ninguém ousou perguntar os detalhes, porém ele sentia que não seria levado a sério tão cedo com a atitude que teve que tomar. Não tinha escolha, era a vida de seu pai ou a do novo rei da Lua e uma guerra pela frente, contudo o nome que tanto o envergonhou foi jogado para mais fundo na lama da história.

— Uchiha? — o mais velho dos Senjus o chamou. — Gostaria de marcar uma visita ao seu reino. Sei que não é momento, contudo gostaria de reaver a velha amizade que tínhamos antes de… — Mirou os olhos castanhos para o irmão ao seu lado. — Você sabe.

— Será um grande prazer recebê-los. — Talvez seu sobrenome não tenha afastado alianças tanto quanto pensou.

— Eu irei, ainda não confio em vocês… — Tobirama se posicionou. Claro, pareceria mais seguro para si mandar o irmão em uma reunião com um antigo desafeto. Mesmo Sasuke não gostando de ser isca, Tobirama não parecia ver problema.

— Provavelmente mandaremos um representante também. — Hinata sorriu de forma meiga.

— Mandaremos? — Neji pareceu entender o mesmo que Itachi: absolutamente nada na jogada da rainha.

— Sim, querido. — Virou-se para o marido. — Estreitarmos nossos laços agora é crucial, e mandarmos um correspondente até que tudo se acalme no reino é essencial. — Voltou-se ao Uchiha, ainda sorridente — Espero que concorde, quero a estabilidade do Fogo para que possamos deixar tudo isso para trás.

De fato, era muita bondade da morena mandar um dos seus para resolver alguns problemas com a confiança que seu povo, provavelmente, espera de um rei que matou a sangue frio o próprio pai. Não seria fácil, mas, mostrando alguns aliados, talvez o medo de uma crise, ou fome em massa, fosse embora com algumas visitas. Tratados, vantagens e tudo que pudesse afastar dias tenebrosos de suas terras, Itachi estava disposto a fazer.

— Ah, bom dia! — A rainha levantou animada para a mais nova, que se mantinha próxima a porta, de cabeça baixa e mãos unidas à frente do corpo.

O Uchiha foi de rei organizando seus novos passos a um garoto bobo, podendo ver pela luz do sol a beleza da mulher que chamou sua atenção na noite anterior. Levantou-se imediatamente, fazendo o barulho da louça tilintar e arrancando sorrisos da Sabaku e da Senju.

— Não vá cair. — Shisui colocou a palma da mão nas costas do rei do Fogo. Itachi mirou seu guarda e amigo de soslaio, julgando o comentário em hora inapropriada. Ele não poderia ajudar nenhuma vez?

— Eu não…

— Ino, sente-se por favor. Sakura não poderá se juntar a nós hoje, infelizmente. — Abraçou o corpo à sua frente, sorrindo animada. — Ela teve um imprevisto com algum familiar.

Itachi foi totalmente ignorado. A conversa entre as mulheres rendia rapidamente aos olhares assustados dos homens, que, felizmente, aproveitaram que o moreno não tinha voltado ao seu lugar e se levantaram, prontos para deixar o lugar.

— Vamos, senhor… — Shisui deu um empurrão em seu braço e o moreno pareceu voltar a si, vendo o sinal do Hyuuga para acompanhá-lo.

Seguiu até Neji poucos minutos após anunciar sua saída da mesa e, seguido por seu amigo, saiu por uma das portas laterais para uma parte desconhecida do jardim.

— Hinata pediu que eu o chamasse até aqui. — Com vestes muito diferentes das habituais, Neji parecia ter nascido para ser um Hyuuga.

— E o que deseja?

— Sei que tem pressa de voltar, e eu e minha esposa temos certas contas para acertar com você, Itachi.

— Não há nada que… — Calou-se ao observar um homem loiro, de face fechada, sair por outra porta lateral.

— Esse é Inochi Yamanaka, mestre das leis e membro experiente do pequeno conselho da rainha. Ele o acompanhará em nome do reino na viagem de volta ao Fogo, e sei que será de grande ajuda na construção de seu legado.

[...]


Chegar em casa era bom, deitar em sua cama seria melhor ainda, mas seus passos foram interrompidos por Sasuke. Apenas olhou de soslaio para o irmão, que o esperava ao lado da porta da biblioteca, com a tensão que sentia exposta em seu rosto. Claro, não era sua obrigação ficar responsável pelo reino, ainda mais quando haviam tantas coisas a serem feitas. Caminhou a passos lentos até o caçula, passou o braço pelo seu ombro e sorriu, tentando disfarçar o lembrete que sua mente gritava. Agora ele precisava assumir de vez o que conquistou, seu lugar de direito.

— Não enviou nenhuma carta nesses dois dias. — Entraram na biblioteca e por ali cada um tomou uma cadeira.

— Não tinha muito o que falar, apenas… Pergaminhos chegaram do reino da pedra e da água, querem saber se os acordos continuam os mesmos, você sabe… devido à troca de rei.

Suspirou audivelmente. Estava ali há apenas alguns minutos, e o título já lhe cobrava mais do que seu pai lhe cobrou a vida inteira. Colocar um reino em ordem, modificando todo seu modus operandi, era complexo e cansativo. Itachi sabia disso quando decidiu matar seu pai, mas pensar em como agiria era mais fácil do que agir de fato. E era evidente que todos os acordos diplomáticos e econômicos viriam a lhe cobrar atenção.

— Preciso analisar os acordos e então enviar a resposta. — Massageou as têmporas. — Se puder me ajudar, agradeceria.

— Claro que ajudo, Ita, falei pra você que não precisa carregar esse fardo sozinho. — Sasuke se levantou para se retirar, mas pareceu lembrar de algo e se voltou ao irmão novamente. — Quem era o homem que chegou com você e foi encaminhado para um dos quartos?

— Um dos conselheiros de Hinata, veio ajudar.

— Muita generosidade da parte dela se desfazer de um de seus conselheiros. — Foi até a maçaneta e antes de sair concluiu: — Cuidado para esse também não ser um traidor.

Itachi tentou pensar em algo que não fosse política, mas era impossível, não conseguiria, não quando seu reino estava um caos e o medo iminente de traição vinda de qualquer um dominava suas preocupações. Afinal, Itachi deu um golpe de Estado, com o apoio do conselho, mas a população poderia ignorar a segunda parte. Pressionou os olhos que ardiam, não dormia direito há semanas, pesadelos eram frequentes em suas noites, algumas totalmente em claro. Esperava conseguir ter paz pelo menos para dormir uma noite completa.

Foi tirado de seus pensamentos por Sasuke entrando novamente, dessa vez com um servo carregando uma caixa com vários pergaminhos. Assustou-se com a quantidade e franziu o cenho, não se lembrava de ter tido tantas reuniões assim. Itachi era o herdeiro, participava de todas as reuniões onde se fechavam acordos políticos ou econômicos, porém sua mente fez questão de pontuar os meses que ficou no escuro com a maldita ideia de guerrear com o reino da Lua a troco de nada.

Sem falar que seu pai nunca o orientou para o suceder, talvez Madara acreditasse mesmo que era imortal e que seu filho nunca precisaria tomar o trono. As únicas coisas que foi obrigado a fazer tornaram-se paixões para Itachi, como o treino de cavalaria, luta com espadas e até mesmo seu treinamento para fazer parte do exército, caso quisesse.

Contudo, quando fez 15 anos, Madara o fez sair do exército e começar a participar das reuniões do conselho, afinal, precisava aprender como ser um rei. Como conversar adequadamente com o conselho e seus aliados, mas agora podia ver claramente, talvez tirá-lo do exército fazia parte de esconder o que acontecia nas fronteiras.

— Essa é a caixa com os últimos acordos, majestade. — O servo, que ficava responsável por organizar os pergaminhos, disse, reverenciando o rei e os deixando a sós.

— Parece que teremos um longo dia pela frente, Sasuke. — Itachi apenas estendeu a mão para que seu irmão lhe alcançasse o primeiro de muitos naquele dia, que prometia ser exaustivo.

Com o passar das horas, os dois se remexiam nas cadeiras, a coluna castigada pelo tempo que passaram curvados, analisando papéis velhos. O caçula já queria dar um tempo, mas Itachi, ele estava perdido e concentrado demais em tantos acordos que nem sequer tomou conhecimento através de terceiros. Nunca viu a maioria do que encontrara ali, e aquilo o deixou apreensivo. Seu pai vinha escondendo coisas há muito mais tempo do que imaginava. Sasuke viu as sobrancelhas unidas do irmão e começou a analisar suas expressões, não conseguindo manter sua curiosidade apenas para si, perguntou:

— O que tanto te deixa incomodado, Itachi? — O rei tirou os olhos do papel para enfim encarar o irmão.

— Nosso pai escondia coisas muito antes da trama contra a rainha Hinata, Sasuke. Tudo sempre foi muito bem orquestrado por baixo dos panos. — Largou o papel em cima da mesa grossa de madeira e soltou o ar com força.

— Do que está falando? — O outro também franziu o cenho, sem entender nada.

— De coisas que são realmente vergonhosas. Quando eu achei que o nosso nome não poderia ser jogado ainda mais na lama. — Levantou decidido e completou: — Preciso de uma reunião com o conselho com urgência, preciso saber até onde Madara foi para conseguir o que queria.
Capítulo 2

O peso da coroa

Desistir estava fora de seus planos, mas toda manhã, quando acordava e olhava pela janela, vendo seu reino abandonado, sentia um aperto em seu peito, como se reconstruí-lo fosse impossível. Por que seu pai queria conquistar mais terras se nem a sua própria ele estava governando de maneira decente? O reino do Fogo estava entregue às traças. Pessoas passando fome, o acesso ainda era precário, enchentes ainda aconteciam em algumas áreas mais pobres. Então por que ninguém, nem mesmo o conselho, contrariava as loucuras de seu pai? Faltavam muitas peças nesse quebra cabeça, e Itachi iria descobri-las, uma a uma. Se fosse necessário, que refizesse tudo do zero. Seu avô poderia se debater dentro do caixão, não se importava se fosse para ver seu povo feliz.

Banhou-se e se vestiu com a ajuda dos criados e desceu para seu desjejum, encontrando Sasuke já sentado à mesa e próximo da porta que levava a cozinha, Shisui, com sua costumeira pose de guarda sério. Ele era um Uchiha peculiar, apesar da carranca, era divertido e audacioso, e Itachi gostava disso, mantinham uma amizade desde que se conheceram nos treinamentos do exército. O pai de Shisui era o comandante na época, morreu devido a uma doença que se alastrou pelo reino, os fazendo perder muitos de seus soldados e súditos.

Itachi que sugeriu ao seu pai que Shisui fosse o novo comandante da guarda real. Olhando agora, não sabia ao certo se Madara tinha acatado seu conselho por querer agradá-lo, ou por realmente acreditar no olho certeiro do filho. Sabia que ele seria um ótimo comandante, e não estava errado, havia se tornado seu braço direito muito antes do plano de tirar Madara do poder, mas, nesse plano, ele tinha sido a peça chave para os soldados ficarem ao lado de Itachi.

— Bom dia. — O rei sentou-se na cabeceira.

— Bom dia, alteza. Deveria estar usando sua coroa, não? — Shisui perguntou.

— Não vejo necessidade de usá-la dentro da minha casa.

— Deu muito trabalho consegui-la, irmão, deveria aprender a apreciar o peso da coroa — Sasuke comentou ácido, enquanto bebia seu café.

— Bom dia, alteza. — Inoichi surgiu na sala de refeições, fez uma breve reverência e se sentou ao lado esquerdo de Itachi.

— Bom dia. Espero que seus aposentos tenham sido satisfatórios, Inoichi.

— Sim, estou muito confortável, obrigado rei Itachi.

— Eu tenho uma reunião com o conselho logo após o desjejum, depois gostaria de conversar com você.

— Claro, estarei à disposição.

— Shisui lhe mostrará onde fica a biblioteca. — Apontou para o guarda, que assentiu.

Itachi se levantou assim que terminou sua refeição, pegou os pergaminhos que mais lhe interessavam e foi em direção a sala de reuniões do conselho. Assim que entrou, os homens levantaram, o reverenciando e sentando de novo depois que o rei o fez. Respirou fundo e começou a falar sobre os acordos que havia achado, e, pelas expressões assustadas de seus conselheiros, nem precisou perguntar se eles sabiam algo a respeito. Apertou os olhos com os dedos, pressionando a ponte do nariz, tentava pensar de forma racional, porém a raiva que sentia de seu pai ainda corria por suas veias e a cada descoberta parecia aumentar.

— Majestade, precisamos rever esses absurdos — o estrategista comentou.

— Acha que não sei? Preciso basicamente jogar tudo no lixo e começar do zero. — Os homens o olharam surpresos. — Meu pai, e talvez até meu avô, pegaram esse povo e esse reino para explorar, pra amaciar seus grandes egos. — Bufou e juntou os pergaminhos que trouxera. — A rainha Hinata me disponibilizou um de seus conselheiros para me ajudar. Estamos em desfalque, temos apenas três. Nunca entendi por que meu pai dispensou Asahi, mas agora passo a entender um pouco mais.

— Infelizmente, alteza, tínhamos… medo do rei Madara. Quando Asahi foi contra os quereres de seu pai, ele o escorraçou daqui e disse que o próximo a discordar dele perderia a cabeça. — Itachi arregalou os olhos, não imaginava que seu pai tinha virado um maldito imperador.

— Que os Deuses me ajudem… — Itachi levantou, fazendo todos os outros levantarem também.

— Se me permite, majestade. — O rei voltou seu olhar ao homem. — Gostaria de dizer que o apoiaremos nas medidas que queira implementar. — Sua face repleta de rugas indicava sua idade avançada, e em seus olhos a esperança de ver a melhora do reino depois de tantos anos. — Temos certeza de que fará um bom trabalho, rei Itachi.

— Obrigado, senhores, eu darei o meu melhor. Quero o nosso povo feliz e com uma vida digna. — Pegou seus pertences. — Agora me despeço, preciso falar com Inoichi, ele me ajudará em algumas questões. Avisarei quando será a próxima reunião.

Foi reverenciado antes de deixar a sala, seus músculos estavam tensos e levou a mão ao pescoço em busca de diminuir a dor que sentia nos ombros. Talvez o peso da coroa fosse mais simbólico do que físico. Caminhou lentamente pelos corredores, tentava absorver todas as informações. Eles confiavam nele, já era um grande passo para seus súditos não terem outra motivação para odiá-lo. Não entendia como alguém poderia apoiar Madara estando em tão precária situação. Foi até a sala dos arquivos e pediu a um dos servos para levar o livro de leis, ordens e restrições do reino e voltou, a passos lentos, a seguir o caminho que havia tomado.

Respirou fundo mais uma vez ao dobrar no corredor, onde já podia ver a porta da biblioteca. Entrou e notou Inoichi lendo um livro qualquer. Cumprimento-o e tomou sua poltrona atrás da mesa sólida de madeira, juntou os pergaminhos espalhados e colocou todos de volta na caixa em que estavam. Logo ouviu batidas na porta e liberou a entrada, a porta se abriu devagar e o servo entrou com três livros grossos e pesados.

— O que pediu, majestade.

— Obrigado, pode se retirar. — O homem deixou a sala, fechando a porta.

— Em que posso ajudar? — O Yamanaka largou o livro e se levantou, ficando em frente à mesa. Olhava com atenção o rei do Fogo.

— Esses são os livros onde contém as leis, restrições e ordens expedidas até hoje pelos reis que vieram antes de mim. Acredito que levaremos algumas semanas para analisar.

— O que exatamente quer mudar? — Inoichi respirou fundo, pensando no que exatamente Hinata tinha pensado colocando-o naquele caos, mas sabia exatamente o porquê de ela fazer aquilo. Devia a vida do rei da Lua a Itachi, e ela jamais teria como pagá-lo por isso.

— Tudo.

[...]


Não seria fácil de qualquer maneira, sabia bem que reescrever leis e repensar em todo o modo de um reino agir era quase como começar um novo mundo do zero. Os cidadãos estavam acostumados, a corte estava ciente de tudo, até alguns decoraram as antigas leis, então aceitar novas assim tão depressa como o Uchiha queria não seria tarefa simples.

Bom, este não era seu trabalho ali, apenas colocar em prática o que fazia por anos no reino da Lua. Sua experiência realmente ajudaria Itachi em sua trajetória até a estabilidade daquelas terras, contudo, cada vez que se mudava um lado, outro ficaria chateado, pois as injustiças que via no papel facilitava a vida de alguns e no poder, que beneficiava os mais ricos, não se mexia tão levianamente como o filho mais velho de Madara achava.

Sua rainha o mandou como um gesto de confiança, ele seria a ponte entre o novo reino do Fogo e sua terra natal. Aquilo era inédito na história de seu país, ter os Uchihas tão próximos assim era algo apenas sonhado, visando a paz e prosperidade de todos, contudo ainda o assustava, pois, como os aldeões acostumados com certa monotonia, ele também estava por nunca ter pisado ali.

Bufou, fechando outro pergaminho e jogando na enorme pilha ao seu lado. Estava na biblioteca, e as horas pareciam não correr, sabia quando era as refeições por ser pessoalmente chamado pelo novo rei ou por seu guarda real, Shisui. Ele revisava cada linha e anotava o que seria pertinente apresentar ao rei, mas sua cabeça estava ali apenas pela metade.

A saudade de sua família queimava em sua mente. Deveriam estar preocupadas com a pouca quantidade de cartas que havia mandado, porém não havia tempo. Seu dia se esvaía naquele lugar com amplas prateleiras lotadas de livros antigos sobre a história daquela terra. Um dia teria o devido tempo para entender o porquê das leis tão injustas e em sua maioria inúteis, criadas somente para acobertar alguns esquemas.

E, naquele momento, lia boquiaberto um dos pergaminhos que parecia ter sido esquecido por ali, um acordo ilícito feito por Madara com o seu antigo companheiro de conselho. Ficou branco tentando entender como aquilo estava ali, junto com todos aqueles papéis e ninguém achou. Foi em busca do novo rei, precisava compartilhar a informação com urgência.

— Rei Itachi, achei algo — falou, assim que avistou o Uchiha na sala de música, sentado ao piano. Caminhou até ele, entregando o pergaminho. Aguardou pacientemente que ele lesse, vendo as expressões incrédulas a cada linha percorrida com seus olhos. — Isso é prova de que seu pai...

— Estava tramando junto ao conselheiro da rainha Hinata. — Itachi suspirou, completando a frase, e coçou a testa antes de dizer: — Obrigado, Inoichi, não sei o que faria sem você aqui. — O loiro fez uma pequena reverência, e o Uchiha levantou indo em direção a porta.

— Majestade… — chamou e o rei se virou —, posso pedir um favor? — Recebeu um aceno positivo e continuou: — Minha esposa e minha filha podem vir visitar? Já fazem dois meses e...

— Mas é óbvio, mandarei os criados arrumarem um quarto para sua filha ao lado do seu.

— Muito obrigado, rei Itachi.

[...]


Itachi tinha acabado de acordar e olhava pela janela o reino cercado pelas montanhas altas. Ao longe, podia ver o vilarejo principal, feiras precárias de quinquilharias que o povo achava nas minas. Não queria aquela vida para seus súditos, apesar da principal forma de trabalho no reino do Fogo ser o trabalho nas minas de estanho e pedras preciosas. Suspirou audível, era nítida a insatisfação no rosto do Uchiha, sempre quis que seu reino fosse mais como o da Lua. Olhou para baixo e viu uma carruagem se aproximando da entrada do castelo, franziu o cenho, mas logo entendeu tudo.

Primeiro saiu uma mulher de longos cabelos castanhos e olhos verdes, usava um vestido pesado azul escuro e uma capa verde por cima. Viu Inoichi estender a mão para a mulher subir os degraus da entrada. Logo em seguida, viu apenas uma capa, com capuz, vermelho sangue, por cima da mulher que descia, ignorando completamente a mão do soldado à sua direita para ajudá-la. Itachi nem ao menos piscava, olhava tudo atentamente, viu a mulher puxar o capuz de sua cabeça, deixando os longos cabelos loiros à vista, era ela.

Ele terminou de se vestir e desceu para o café da manhã, chegou até o salão principal de refeições encontrando o casal e a filha sentados à mesa. E, assim que o viram, levantaram para reverenciá-lo.

— Bom dia, alteza. O general Shisui permitiu que nós o esperássemos aqui.

— Bom dia. — Os olhos de Itachi correram pela mesa, focando na loira, sentou-se na cabeceira e curvou os lábios. — Fizeram boa viagem?

— Sim, majestade. Obrigada — a senhora Yamanaka respondeu.

— Essa é minha esposa, Masumi, e essa é minha filha, Ino — apontou para cada uma ao falar seus nomes.

— Prazer em…

— Já nos conhecemos, papai. — A loira interviu, mas logo ficou sem graça olhando para o moreno. — Perdão, rei Itachi.

— Tudo bem. — Sorriu para a loira e direcionou sua atenção ao casal. — Dançamos no casamento da rainha Hinata e do rei Neji — explicou.

— Oh, você não falou que tinha dançado com um rei, minha filha. — As bochechas de Ino enrubesceram pela fala da mãe.

— Vamos comer, sim? — O Uchiha sorriu simpático, fazendo todos concordarem em silêncio.

Apenas os sons de talheres e sorrisos contidos do casal eram ouvidos. Longos momentos que Itachi imaginava o senhor conselheiro de Hinata querendo fugir para o quarto e matar devidamente a saudade de dois meses longe da própria esposa. Sorriu pequeno ao notar os olhos azuis rolando levemente enquanto observava seus pais.

Seria besteira negar que sentia certa nostalgia, embora seus pais não fossem apaixonados como os Yamanaka’s pareciam ser, queria ter visto mais cenas como aquela em seu café da manhã. Infelizmente Madara só amava a si mesmo e sentia orgulho de não ceder aos desejos de uma mulher. De certa forma, Itachi não deveria ver um amor como aquele como algo real e possível, mas via e simplesmente desejava aquilo para si.

— Onde está seu irmão, alteza? — Ino o observou por alguns instantes e estranhou a mudez do mais velho, sorrindo em seguida. — É algo secreto? Se sim, pode responder então onde não está seu irmão.

— Ah, Sasuke costuma treinar cedo com parte do exército. Faz rondas com os lobos pelas estradas desde antes do nascer do sol e possivelmente está atormentando um guarda ou serviçal que fez algo errado.

— Interessante…

— O que, senhorita? — Parou imediatamente de comer e viu nos lábios vermelhos um sorriso brincalhão.

— O senhor tão pacífico e seu irmão tão diferente. São filhos da mesma mulher?

Nem ele saberia dizer com precisão se Madara havia tido ou não a indecência de trair sua mãe. Mal lembrava da mulher, pois, assim que deixou o seio da rainha, foi cuidado pelo pai, que não o queria perto da fraqueza da mãe. Itachi não soube responder à pergunta da loira, então apenas sorriu, negando. Suavizou a expressão incrédula e respondeu:

— Até onde sei, sim, mas nossos pais eram diferentes também. — Deu de ombros. — É normal que cada um tenha puxado um lado.

— Eu li coisas… — Ino parou no instante que o olhar escuro mirou o seu. — Coisas sobre os feitos de seu pai.

— Não posso negar que Madara pôs seu nome na história.

— Não de uma forma que dê orgulho… — Quis tapar a própria boca ao deixar escapar aquilo. Olhou para o pai que se perdia em uma conversa sussurrada com sua mãe, soltou o ar aliviada por não ter sido ouvida, ao menos por ele. — Desculpe.

— Não está errada. — Sorriu, tentando relaxar a Yamanaka. Aquilo não era mentira, contudo não era também de bom tom jogar em sua cara —, mas estou aqui para reescrever algumas coisas e colocar meu sobrenome do lado certo.

Mais uma vez, o silêncio passou a reinar à mesa. Itachi estava agora levemente incomodado com o que disse a loira. Ele não sabia se conseguiria limpar do nome a sujeira que por muitos anos acompanhou o legado Uchiha. Estava mesmo pronto para carregar aquele fardo, ou apto? Seus pensamentos se encarregaram em fazer o moreno duvidar de tudo que em dois meses parecia tão certo. Já não tocava mais em seu prato, e sua mente vagava por todos os planos que fazia antes de dormir. Estava certo em tentar algo diferente do que seu sangue foi capaz por tanto tempo?

— Senhor — a voz doce da Yamanaka soou para si —, há algo aqui que eu possa fazer até aqueles dois… — Os olhos azuis correram até os pais. — conversarem?

— Algo? — Estranhou a pergunta.

— Sim, ou acha que vim para fazer parte da mobília?

— Ino… — Dessa vez não teve tanta sorte, seu pai a escutou. — Peça desculpas para o rei Itachi agora mesmo!

— Desculpe, majestade. — Itachi pareceu ser o único a notar o tom e o olhar nem um pouco arrependidos sobre o que tinha falado, ela era mesmo uma mulher… peculiar.

Capítulo 3

Amava os livros, de fato, mas passar o tempo todo enfurnada na biblioteca não era sua ideia de visita ideal ao reino do Fogo, principalmente quando os livros não eram agradáveis ao seu gosto. A história contada pelo lado Uchiha não era nada comparada aos livros do reino da Lua. Os de romance eram até bem escritos, porém não era seu gênero favorito. Por isso, começou a caminhar pelos corredores daquele castelo imenso.

Um reino frio como aquele deveria ter um lugar apropriado para os treinos, já que na maior parte do tempo não era possível enfrentar as baixas temperaturas, ainda mais com a neve que se acumulava rapidamente no inverno, que estava bem próximo de começar. Ino perambulou por tempo demais ao seu ver, e quando tudo se tornava menos interessante que a biblioteca, ouviu alguns gritos e espadas se chocando e caminhou devagar em direção aos sons que chamaram sua atenção.

Chegou ao fim do corredor que estava e viu uma sala enorme, rodeada de grandes colunas do térreo, onde os homens treinavam, até o primeiro andar, que era onde estava. Sob a sacada enfeitada de balaústres de pedra decorada, tentando manter-se oculta para espiar o que acontecia, deu mais alguns passos e se escondeu atrás de uma das colunas de pedra. Podia ver a escada do outro lado, os soldados treinando lá embaixo, e Sasuke estava lá, disparando ordens.

Todo tipo de armamento necessário estava em um dos cantos mais distantes da grande sala. Como viu inúmeras vezes Shikamaru fazer, Sasuke tomava a frente dos homens e ditava ordens, andando até quem não cumpria rigorosamente o que foi dito pelo moreno, que mantinha suas mãos sobre a bainha da longa espada que carregava. Talvez fosse exagero, mas Ino lembrou-se de como Itachi listou os afazeres do mais novo no café da manhã de sua chegada.

— Muito bem, homens! Nos vemos aqui amanhã à tarde novamente, logo após o almoço — o príncipe disse alto.

Ino mordeu o lábio e sorriu. Era o lugar perfeito. Era aconchegante e iluminado devido às grandes janelas de vidro, e sua mãe estava ocupada demais para lembrar de si, por enquanto. Correu de volta até seu quarto, memorizando bem onde era a sala que tinha encontrado. Abriu a porta pesada e entrou, mirou seu baú de viagem e foi até ele, começando a tirar todas as roupas de dentro e lá estava o que procurava. Seus olhos chegaram a brilhar e o sorriso tomou seu rosto. Começou a rir quando lembrou de quando fazia sua bagagem em casa.



Estava arrumando seus mais belos vestidos, joias e grampos de cabelo. Pegou seu companheiro diário e o colocou em cima de seu baú. Caso Itachi fosse tão atrasado quanto Madara, teria ao menos o seu treino como afazer. Odiava ser apenas a garota bonita, filha do conselheiro. O rei podia ser bonito e educado, porém, não o conhecia tão bem a ponto de ter a certeza de que lhe daria algo para fazer. Não passaria duas semanas inteiras distribuindo beleza, como sua mãe dizia que era para ser feito. A senhora Yamanaka entrou em seu quarto, perguntando se já tinha aprontado tudo para a viagem do dia seguinte e se deparou com aquele ultraje.

— Não mesmo, Ino! — ralhou com a filha. — Não vai levar isso para o reino do fogo. Não sabemos como são as coisas por lá.

— Mãe, não tem nada demais. Eu procuro um lugar afastado e que ninguém vá me ver.

— Acaso já foi ao Reino Uchiha e não me lembro?

— Não, mas…

— Decidido então, deixa essa porcaria aqui.

Sua mãe saiu, batendo a porta, e Ino sorriu travessa, jamais deixaria seu companheiro para trás. Tirou todas as roupas e o colocou no fundo da bagagem.



Montou a estrutura do alvo e se posicionou na outra extremidade da sala, que descobriu que, para sua sorte, ficava em outra ala do castelo, onde apenas quem fosse treinar iria, e como viu os treinos serem dados como encerrados pelo próprio príncipe, teria um tempo sozinha. Pegou uma flecha da aljava de suas costas e encaixou no arco, puxou o ar devagar e o soltou, se concentrando. Assim que mirou o alvo, soltou a corda, e a flecha atingiu o centro. Sorriu com o feito e a sua melhora devido aos ensinamentos que seu melhor amigo passou para si.

Após algumas horas treinando, achou que alguém poderia sentir sua falta. Pegou seus pertences e se esgueirou até seu quarto, guardou seu equipamento de arquearia e respirou aliviada e feliz por ter conseguido fazer seu treino, que era diário em casa, depois de três dias no reino do Fogo. Ouviu batidas na porta, pegou o livro, que estava na mesa lateral, abrindo em qualquer página, e sentou na poltrona, permitindo a entrada em seguida. Sua mãe surgiu e olhou para si com a sobrancelha arqueada.

— O que está aprontando?

— Nada?

— O jantar vai ser posto em alguns minutos. Desça que seu pai está nos esperando.

— Vou só terminar essa página. — Ino sorriu, e Masumi saiu do quarto ainda desconfiada.

Ino se olhou no espelho e viu alguns fios fora do lugar devido ao treino. Sua pele também estava um pouco vermelha. Talvez sua mãe tivesse notado, porém ela não era tão observadora para tal. De qualquer forma, precisaria ter mais cuidado. Arrumou seu cabelo, colocando um broche, e desceu a escada, encontrando Sasuke no caminho. Fez uma pequena reverência, mas o moreno pareceu não se importar com aquilo. Achou ótimo, também não gostava de muitas regras impostas pela monarquia. Sentaram-se à mesa assim que o rei tomou seu lugar, logo os empregados serviram o jantar, e todos deram início à refeição.

[...]


Já vinha se sentindo sozinha há algum tempo. Depois que Shikamaru foi embora para o reino da Areia, havia perdido seu melhor amigo. Depois seu pai foi enviado pela Rainha Hinata para o Reino do Fogo, estava ficando cansada de todos terem um propósito, menos ela. Sua mãe, ao contrário de si, adorava ser da coroa, mesmo que ser esposa de um conselheiro não fosse o maior dos títulos. Pelo menos ainda tinha suas aulas no vilarejo, porém, onde estava, nem isso possuía.

Encontrou uma varanda aberta e se encantou com a lua cheia no céu, entre as montanhas, que nas pontas já davam sinais da primeira neve do inverno. Encheu seus pulmões e fechou os olhos, aproveitando a brisa daquela noite. No conhecia o reino como gostaria, no entanto, conseguia ver algumas casas do vilarejo mais próximo dali de cima. Cruzou os braços em busca de se aquecer, sentindo o vento se tornar mais gelado a cada minuto que passava ali fora. Contudo, era bom não ver apenas paredes ou livros diante de seus olhos.

— Vai ficar doente, senhorita Yamanaka. — Ino virou, vendo Itachi tirando seu sobretudo grosso de pele. — Me permite? — A loira assentiu, e ele colocou sobre os ombros dela.

— Não vai ficar com frio, majestade? — O Uchiha ficou ao lado dela e juntou suas mãos atrás das costas enquanto olhava a paisagem.

— Estou acostumado com minhas terras, Ino. Não se preocupe. — Sorriu simpático. — O que está achando do meu reino?

— Precisaria conhecê-lo além das paredes do castelo para responder essa pergunta. — Itachi a olhou surpreso com a petulância em que a loira respondia a tudo.

— Não é aconselhável sair sozinha, ainda mais com os problemas que estamos enfrentando.

— Sempre ouvi que o reino do Fogo tinha muitos problemas, principalmente na questão política — ela falava com segurança, e Itachi apenas a mirava intrigado. — A história pode ser escrita por várias pessoas, mas uma coisa é unânime nos livros: Uchiha's sempre foram problemáticos e nada de bom pode vir daqui. — O rei ficou com a boca entreaberta, era a segunda vez que Ino insultava sua família embaixo de seu teto com tamanha facilidade. Estava em dúvida se ficava ofendido ou fascinado pela loira não saber frear sua língua. — Perdoe-me, rei Itachi, não quis ofendê-lo. Preciso voltar para o meu quarto. — Virou as costas, mas parou assim que ouviu a voz do homem.

— Não me ofendi, acredito que esse seja mais um motivo para eu querer mudar as coisas. — A loira respirou fundo ouvindo aquelas palavras. — Mudar a forma que o nome Uchiha é visto se tornou meu objetivo mais urgente.

— E como pretende mudar isso, alteza? — Ousou perguntar e esperou em silêncio, um que demorou algum tempo para ser cortado.

— Talvez eu consiga aprender algo com quem me odeia tanto. — Itachi virou para trás e viu a mulher fazer o mesmo.

— Não odeio você, Rei Itachi, nem os Uchiha's no geral. — Os olhos azuis encaravam os negros com confiança. — Só disse o que li nos livros, mas, pela determinação que vejo em seus olhos, tenho certeza de que você conseguirá mudar o que tanto quer. — Tirou o casaco sobre si e o entregou nas mãos de Itachi. — Boa noite, majestade. — Fez uma pequena reverência e entrou no castelo, deixando o rei um tanto pensativo e, ao mesmo tempo, esperançoso.

[...]


Depois de tantos anos, o general fazia parte do conselho novamente, nada mais normal, porém para o conselho ainda era um pouco estranho, já que os antigos reis não deixavam o general ter nem sequer os próprios pensamentos, era apenas um lacaio obedecendo seu rei, não importando as circunstâncias. Itachi também tinha trazido de volta um mestre de leis, quando finalmente achou o pergaminho com a linha de sucessão para o cargo. As coisas estavam caminhando mais pacificamente do que o rei achou que iria, no entanto, as mudanças seguiam lentas e, por enquanto, ainda por dentro, iria saber se seu povo estaria a favor ou contra si somente quando essas mudanças os atingissem.

— Uma reforma militar? — Shisui tinha sido chamado até a sala de resoluções táticas por Itachi para discutir seus planos para o próximo passo. — Não temos uma desde que éramos crianças, senhor.

— Tenho ciência disso, Shisui. — Itachi tirou os olhos do reino, que olhava pela janela, e virou para seu general. — Chegou a hora de mudar as coisas.

— Não acha que está muito cedo para fazer uma movimentação dessas, alteza?

— Precisamos começar por algum lugar, Shisui, e dar uma vida sem medo para o meu povo é minha prioridade. Começando pelo exército, que abusa de seu poder para punir qualquer um à sua vontade.

— Mesmo achando uma decisão arriscada, vou apoiar você no que precisar, sabe disso, majestade.

— Então vamos começar a pensar em como fazer isso.

Shisui e Itachi passaram 2 dias e 3 noites traçando a nova distribuição de homens em cada uma das novas posições e encargos. Criaram novos capitães por tempo de serviço e suas honras, dividiram o exército em seções: a primeira ficaria responsável pelas fronteiras, quatro pelotões, os maiores, já que a fronteira do reino do fogo era extensa. A segunda seção estaria cuidando da segurança das ruas, assim como dos pequenos crimes, e a última ficaria encarregado da proteção das minas. 10 capitães de confiança de Shisui, que agora responderiam diretamente a Sasuke, general do exército do Fogo. Essas mudanças seriam o suficiente para ter um maior controle sobre o que acontecia nas terras do reino do fogo, assim esperavam. Itachi ficou orgulhoso de como pensaram rápido e conseguiram elaborar um plano que não causasse tanto descontentamento.
Capítulo 4

Conhecendo o lugar (o que há por aqui)

— Senhorita — os dois toques na porta antecederam a entrada da criada que a acompanhava pelas manhãs —, está pronta?

— Sim, felizmente este vestido não é para saídas. — O que tornava tudo mais fácil de ser colocado em seu lugar, porém a fita longa amarrada em sua cintura ainda a incomodava, contudo, não deixaria de usar o acessório com medo do olhar reprovador de sua mãe.

— Temo que precisará mudar, senhorita. — A mulher, que parecia ter a idade de sua mãe, sorriu pequeno para a loira enquanto revirava seus pertences, oferecendo, pouco tempo depois, uma nova muda de roupas. — Estas lhe serão mais úteis hoje.

O que quer que a mulher quisesse dizer, destruiria seus planos de aproveitar a saída do irmão mais novo do rei e utilizar mais uma vez a sala de treinamento do exército dos Uchihas. Ino estava ansiosa para usar algo mais leve, visto que sua mãe e seu pai saíram para uma volta em algum lugar perto do castelo. Inoichi era ridiculamente minucioso em cada trabalho que fazia, algo que fazia a filha ficar admirada e ali, no reino de Itachi, agradecida por não ter os olhos julgadores de sua mãe a cada sumiço seu.

— Não pretendo sair hoje, senhora. Mamãe não está e, mesmo se estivesse, não deixaria.

— Bom, a ordem foi clara, senhorita — insistiu outra vez, sorrindo assim que a Yamanaka se deu por vencida.

Trocou-se achando um absurdo usar roupas tão pesadas para mais um dia presa nos muros altos dos Uchihas e aceitou o casaco grosso que a mulher ofereceu na saída da casa de banho. Revirou os olhos azuis com o cuidado da mulher consigo e pensou seriamente que sua mãe havia deixado tais ordens para a coitada, que a trataria feito um bebê durante sua ausência, contudo, a mulher se afastou, admirando Ino e aprovando o resultado após uma pequena volta em si.

— A senhorita está perfeita.

— E aonde devo ir agora? — Não queria parecer insuportável, mas estava a ponto de sentir calor com tantos metros de tecido enrolados em seu corpo e a lareira acesa quase todas as horas do dia para manter o ambiente habitável naquela terra ridiculamente fria.

— Pode sair pela porta, creio que estão aguardando a senhorita.

Ino não queria discutir tão cedo com alguém, ainda mais uma coitada que devia ter ouvido muitas coisas de sua mãe, então seguiu pelo quarto tentando não chorar com raiva do comprimento da saia e deu adeus à mulher, que dava início a arrumação do quarto.

— Akemi conseguiu convencê-la.

O rosto da jovem virou de imediato para a direita e a figura do rei muito despojado e sem guardas se fez presente. Seus olhos vagaram pelo corredor tentando entender o porquê de Itachi estar esperando a Yamanaka tão cedo.

— Vossa alteza pediu para que ela me vestisse?

— Não é como Hinata? Não está sempre pronta? — Desencostou-se da parede de pedra fria e sorriu para a loira, que franzia o cenho.

— Acaso vossa alteza não notou que meus fios não são escuros e que infelizmente não possuo coroa em minha cabeça? — Já voltaria para seu aposento e que o que Itachi queria consigo ficasse lá no corredor com as comparações idiotas do Rei.

— Ei, desculpa. — O braço da loira foi parado antes que sua mão tocasse a maçaneta. — Achei que todas as mulheres estivessem prontas para o que viesse.

— Posso dizer o mesmo. — Arqueou uma sobrancelha e mediu o moreno. — Achei que todos os homens deveriam estar prontos para morrer na guerra. — Não era o que desejava, atacar um reino tão instável era baixo, contudo, sua língua era mais rápida que sua mente, e sua mãe temia a filha sozinha por esse motivo. Itachi soltou seu pulso e sorriu ladino, muito diferente do que a loira havia imaginado.

— A senhorita é muito perspicaz. — Sem jeito pela besteira que disse, decidiu pensar melhor antes de falar com a garota de língua afiada. — Posso começar outra vez?

— Tente. — Mesmo sendo rei, Ino só seguiria o Uchiha se ela desejasse e se mais tarde ouvisse os sermões de sempre e as reclamações dos pais. Fingiria o arrependimento de sempre, algumas lágrimas cairiam e ela prometeria nunca mais cometer tal erro, mesmo sendo uma mentira descarada.

— Disse que estava entediada e nada melhor que alguém do reino para lhe mostrar o que há por aqui.

— Mas o senhor é o rei, não um guia, e minha mãe…

— Eu pedi ao seu pai para levá-la rapidamente a um vilarejo próximo. Não precisa se preocupar com nada, Ino.

Pensou por alguns segundos na proposta, não tinha muito o que fazer ali, e o rei não mentiria para si, certamente avisou seus pais sobre a saída… O que teria a perder aceitando um pedido de Itachi Uchiha? Pegou a mão que lhe foi oferecida e observou com curiosidade o sorriso do mais velho, que parecia uma criança arteira e pronta para uma aventura. Era impossível não se deixar contagiar pela pressa do rei, que andava sem pompa e muito apressado pelos corredores, que estavam desertos.

Deixaram os portões altos para trás e seguiram por uma parte não muito habitada das redondezas. A floresta seca, com uma camada ainda fina de neve, ficava mais fechada conforme eles caminhavam em direção a algum lugar ainda desconhecido pela loira. Os passos cada vez mais afoitos e curiosos da Yamanaka seguiam de perto o rei, que, vez ou outra, olhava para trás e conferia se estava tudo bem com a jovem espirituosa. Andaram por minutos incontáveis, e Ino viu o Uchiha parar por alguns segundos em busca de ar e sorrir para si.

— Quero lhe provar que nem tudo na minha terra é ruim… — Desceu uma pequena parte íngreme e esperou que a garota fizesse o mesmo. — Deve ter cuidado com o terreno acidentado. — O Uchiha segurou sua mão mais uma vez, ajudando Ino com o caminho que levaria ao lugar que o moreno mantinha em segredo.

Ela segurou o comprimento de seu vestido e subiu, se equilibrando nas pequenas pedras, e disse: — Isso tem que valer a pena, posso quebrar meu pescoço ao cair…

— Não permitirei que isso aconteça, senhorita Yamanaka.

Itachi falava de forma tão calma e decidida que a loira sentia que ficaria segura, mesmo dentro do espaço que ficava cada vez mais escuro e desconhecido por ela.

— O que pretende ao me trazer aqui, majestade? Assustar-me ainda mais com as histórias de seus antepassados, ou havia uma certa caverna que faziam sacrifícios para ganhar guerras oculta nos livros?

— Seu humor soa como deboche, mas sei que há receio em meio a palavras tão certas. — Sorriu para a jovem, que engoliu seco ao vê-lo tirar algo de suas vestes. — Imaginei que fosse mais corajosa, Ino. — Os movimentos do rei, de costas para si, pareciam de pedras, batendo uma contra a outra, certamente um treinamento militar que ela infelizmente nunca experimentaria, e, poucos segundos após, o Uchiha ergueu a tocha antiga acesa, iluminando boa parte do lugar em que estavam.

— Não tenho medo do escuro e nem do que um Uchiha pode fazer escondido em uma caverna. — Era mentira, certamente tinha medo, mais do desconhecido, do que não sabia ou imaginava vir. Ino gostava de pensar como o melhor amigo e entender do início o que poderia dar certo e errado.

— Com meu irmão, eu entenderia o receio, mas peço que confie em mim. — Ofereceu sua mão outra vez à loira, que pensou por alguns instantes e suspirou profundamente ao aceitar a ajuda do Uchiha.

Seguiram em silêncio por mais alguns metros, descendo e subindo em pedras cada vez mais escorregadias para a filha do conselheiro, que não via a hora daquilo ter fim e que valesse a pena, ou o rei ficaria muito mal falado nas terras da Lua. Ino faria questão de contar às amigas da corte que o moreno era tudo que imaginaram de chato e muito mais.

— Quando… — Sua boca abriu de uma maneira que sua mãe certamente faria questão de fechar com um só movimento, reclamando da etiqueta que havia dedicado tantos anos a ensinar e que a filha não dava a devida atenção.

A caverna de antes não parecia em nada com o que via ali. Parecia sobrenatural pisar em um lugar tão único quanto aquele. Flores de diferentes cores sobreviviam às temperaturas frias do reino, presas pelas enormes paredes de pedras. O ar era quente, talvez pela pequena queda d'água, que vinha do canto superior de uma enorme rocha. Aquela água parecia ser derramada ali pelos próprios Deuses, ou saída do solo além de seus olhos azuis, incapazes de entender tamanha perfeição em meio às assustadoras histórias das terras Uchihas.

— Exatamente. — Itachi chamou sua atenção ao sentar mais à frente, perto da água que se espalhava em um grande lago natural. — Não parece com algo que poderia ter aqui. Fico maravilhado toda vez que visito.

Ino aproximou-se com certo cuidado para não cair e se sentou suficientemente perto do moreno para que a queda d'água não impedisse de ouvi-lo. — Visita muito?

— Com menos frequência do que gostaria. — Deu de ombros e olhou nos azuis da loira. — Espero que, pelo menos com a senhorita, meu plano de mudar a opinião geral sobre os Uchihas tenha sido um sucesso.

— Certamente não os vejo mais como via ontem, mas tudo isso não quer dizer que esqueci o que sei.

— Entendo perfeitamente. — Sorriu ao voltar os olhos escuros para as águas cristalinas mais uma vez. — Tento não focar no que me foi deixado como legado. O poder e a arrogância não me são tentadores…

— Certamente não combinam com você. — Ino cortou o silêncio, chamando a atenção do Uchiha, que a olhou com certa admiração desconcertante. — É… o que sei ao menos, alteza, digo o que acho, vejo… — Atropelou algumas palavras, certa de que havia ultrapassado algum limite do moreno.

— Fico lisonjeado, Ino. — Ergueu-se e ofereceu ajuda a Yamanaka que o acompanhou. — Não podemos ficar tanto tempo longe do castelo e seus pais com toda certeza ficarão preocupados.

A loira resolveu deixar o silêncio tomar o caminho de volta. O espaço incrível da queda d'água era deixado para trás, junto à vergonha de mais uma vez falar mais rápido do que pensava. Reparou no Uchiha, que parecia já ter esquecido de sua opinião desengonçada, obviamente o moreno tinha mais o que pensar além da língua sem freios da loira, que prometeu a si mesma que controlaria o gênio complicado ao lidar com o rei.

— Está tudo bem? — Itachi perguntou, chegando ao início da entrada da caverna, onde a claridade da tarde já se fazia presente. Apagou a tocha que carregava consigo, a jogando em um canto, e sorriu.

Era tão fácil perceber que o moreno não era como o irmão ou qualquer outro Uchiha que tenha lido. Itachi não parecia carregar consigo rancor por uma palavra mal dita ou erroneamente entendida. Havia tanta compreensão naquele olhar escuro e doce, de uma forma que qualquer um que quisesse poderia ver, e Ino sentiu a necessidade de se desculpar antes que algum equívoco fizesse com que aquele olhar parasse de pesar sobre si.

— Eu quero agradecer por… — As palavras sumiram de sua boca. — E pedir desculpas por algo que vossa alteza….

— Não é necessário, Ino.

Com tão poucas palavras, deixou a loira ainda mais inquieta e incerta sobre o que havia feito de errado. Voltou a caminhar alguns passos atrás do Uchiha, em um silêncio nada incômodo para qualquer um dos dois.

[...]


Deixou a capa pesada que o protegeu do frio a caminho de sua cama e se sentou assim que alcançou o colchão macio. Estava levemente cansado, porém feliz pelas horas prazerosas divididas com a loira do reino da Lua. Ino não parecia alguém que tentava impressionar, e isso, de certa forma, o deixava confortável de ser quem era, antes do peso da coroa em sua cabeça o fazer abandonar pouco a pouco o príncipe que adorava fugir do castelo com Shisui para desbravar as terras do reino do fogo em sua adolescência.

A agradável presença só não era a melhor que havia sentido nos últimos tempos, pois a fala desenfreada o deixava apreensivo sobre o que poderia sair dos lábios rosados, contudo, ainda gostava de não conseguir ler tão facilmente a mulher, que pouco se importava com as regras da corte. Sua curiosidade e coragem em dizer exatamente o que pensava o deixava muitas vezes pasmo.

Agora, conhecendo melhor o pai da garota, entendia que a filha de um dos conselheiros de Hinata não poderia ser diferente dele. Inoichi era meticuloso e bem articulado em suas falas. Palavras certeiras e colocadas no momento certo fizeram o rei do fogo confiar cada vez mais no homem sério, que só o procurava com alguma informação importante, ou quando tinha muita certeza.

A batida na porta do quarto foi ouvida, tirando o Uchiha de seu breve pensamento. Itachi levantou sem pressa e abriu, esperando ver o irmão curioso sobre o que ele foi fazer, porém o homem alto e loiro esperava pelo rei.

— Alteza, acabo de voltar da pequena vila que comentei anteriormente e tenho o relatório pronto.

— Não precisava ter tanta pressa, Yamanaka. Poderia ter descansado e entregado isso no jantar. — O moreno esticou a mão para pegar o pergaminho, mas foi interrompido pelo comandante da guarda real.

— Senhor, houve uma deserção em massa do exército Uchiha.
Capítulo 5

A quem o reino pertence? (O bom coração)

Itachi bateu a mão com força na mesa e gritou: — Como ninguém impediu isso?!

— Alteza, não esperávamos que ainda teríamos traidores no exército.

— Você é o comandante, Shisui! — Era a primeira vez que Itachi gritava com seu amigo. Apesar de Shisui ser seu subalterno, ele era seu amigo de infância e isso sempre veio primeiro para o Uchiha. — Era o general até ontem, controle o seu exército. — O comandante estava surpreso, nunca tinha visto tamanha ira nos olhos do rei.

— Sim, majestade. — Reverenciou e se retirou da biblioteca.

Itachi bufou, se sentando novamente em sua cadeira. Estava irritado, já não bastava ter prendido homens devido à lealdade cega que mantinham por seu pai, e agora tinha desertores andando pelo reino. Na primeira mudança que fez, sentiu um grande efeito negativo, e isso o fez perder a cabeça. O reino do Fogo era um reino militar, por mais que ele quisesse mudar isso, seus acordos políticos envolviam o exército, então como manteria tais acordos se não tivesse mais um para oferecer?

— Ita! — Sasuke entrou nervoso e claramente preocupado, chamando o irmão. — Acabei de cruzar com Shisui, ele não parecia nada bem. O que aconteceu?

— Me diga você! — disse, exaltado. — Está sempre no exército, Sasuke. Não deveria saber o que acontece bem debaixo do seu nariz?

— Você sabe que treino alguns homens e faço as rondas quando posso, não é como se eu fosse o responsável por eles.

— Pra quê quer ser general, então? — Levantou, encarando seu irmão nos olhos e continuou: — Para se eximir quando acontece alguma merda?!

— Mal assumi meu posto! Deveria se perguntar se está apenas distribuindo a culpa por estar com medo de encarar a situação. — Sasuke deu um passo à frente e inflou o peito. — O exército é seu, majestade. — Itachi aos poucos mudou sua expressão, e sua testa voltou a ficar sem linhas. Seu irmão nunca tinha o chamado de maneira tão formal. Sasuke só tratava seu pai assim, e isso o causou calafrios. — Recomponha-se e vamos resolver isso, juntos. — O príncipe saiu dali a passos apressados, deixando o irmão em um conflito interno.

Deixou seu corpo cair na cadeira, sentiu suas mãos doerem e, ao olhar suas palmas, percebeu que suas unhas curtas haviam deixado pequenas marcas em sua pele; estava tenso. Respirou fundo, fechou seus olhos e tentou voltar a si. Precisava manter a calma e a razão se quisesse pensar com clareza. Tinha perdido a cabeça por alguns minutos ao receber a notícia de que uma parte de seu exército havia lhe traído.

Contudo, Sasuke tinha razão, precisava se recompor e encarar a situação de frente. Sempre soube que reinar não seria fácil, não imaginou tampouco enfrentar um grande problema logo de cara. No entanto, sabia que eles viriam, uma hora ou outra, e não era justo descontar sua irritação nas únicas pessoas em quem confiava. Era desestabilizante e às vezes assustador que o fardo da coroa fosse tão pesado, mesmo com ela fora de sua cabeça.

Levou a mão até a testa, passou pelos cabelos e pensou no mesmo instante que se arrependia do modo que falou com Shisui. Ele sempre foi um bom general e, sobretudo, um bom amigo, entretanto, diziam que era daquele modo que seu general deveria ser tratado. Odiava a hierarquia e tudo que vinha com ela, como ela acabava consumindo tudo que havia de bom dentro das pessoas, principalmente se você estivesse em um lugar de poder, que, em seu caso, era o lugar de maior poder. Não podia se deixar ser destruído como seu pai foi, e seu avô antes dele, era necessário conservar a sua maior dádiva dentre todos os Uchihas, o bom coração.

[...]


Ino já conhecia mais salas, alas, corredores, jardins de inverno do que até mesmo os empregados do castelo. Estava entediada, não via a hora de voltar para o seu lar e continuar o que sempre achou ser o seu propósito de vida: dar aulas para as crianças dos vilarejos próximos. Era o que a fazia se sentir útil, importante para o reino de certa forma. Não aguentava mais estar ali apenas por ser a filha do bom conselheiro da rainha Hinata.

Havia uma ala que nunca tinha ido. Via através das janelas que do outro lado do grande jardim coberto por uma camada de neve, por ser o começo do inverno, estavam os estábulos. Adorava ter contato com a natureza, gostava das flores e dos animais. Lembrava-se de quando ficava conversando com seu melhor amigo, enquanto ele alimentava os cavalos. Não era sua obrigação, mas Shikamaru gostava, além de ser sua desculpa para ficar sozinho e aproveitar o silêncio, que, no caso, ela mesma não o deixava aproveitar por falar demais.

Ino vestiu um casaco um pouco mais pesado e atravessou a passos lentos o jardim, entrou no grande espaço e admirou os cavalos que estavam ali. Aproximou-se de um bem devagar, passando a mão em seguida por seu longo crânio.

— Senhora, cavalos não podem ser tocados. — A Yamanaka saltou para trás e colocou a mão em seu peito com o susto que levou. — Desculpe, não quis assustar.

— Assustá-la, seria o correto. — O garotinho que a olhava ficou intrigado, franziu o cenho sem saber do que ela falava. — Por que eu não deveria tocá-los?

— O capitão Fugaku diz que os cavalos são para nos servir.

— Esse capitão não sabe de nada. — Ino cruzou os braços e empinou o nariz, e, ao mesmo tempo que estava indignada com a ignorância do tal capitão, surgiu uma ideia em sua mente. — Qual o seu nome?

— Kenji.

— E o que faz aqui sozinho, Kenji? — Caminhou lentamente até o garotinho de cabelos marrons e olhos verdes.

— Estou esperando meus amigos para brincar.

— Sabe me dizer quem são seus pais?

— Sim, senhora. Meu pai é soldado no exército Uchiha e minha mãe é cozinheira.

— Sabe ler? — Ele balançou a cabeça em negativo e foi ali que soube que sua ideia iria dar certo. — Gostaria de aprender? — O garoto ficou alegre, balançou a cabeça várias vezes, afirmando.

— Meus amigos também podem?

— Mas é claro! — A loira sorriu largo. Por mais que tivesse apenas mais alguns dias no reino do Fogo, faria de tudo para voltar mais vezes e dar aula para as crianças. — Vou pegar alguns livros e papéis. Chame seus amigos e me encontre aqui, tudo bem?

— Sim, senhora!

— Tire o senhora, Kenji, me chame de professora. — Os olhos do garoto brilharam, e era disso que ela gostava, colocar esperança de um dia melhor nos olhos daquelas crianças.

[...]


Sasuke sabia que seu irmão carregava um fardo maior do que o coração dele poderia lidar. Itachi sempre foi o mais sensível deles dois. Puxou sua mãe, doce, gentil e sábia com as palavras. Seu irmão era um exemplo a seguir, pena que não tinha o temperamento igual ao dele. Estava querendo mandar metade do exército para caçar os traidores e lhes arrancar as cabeças, porém ele sabia que Itachi jamais permitiria tamanha selvageria. Se fosse seu pai, obviamente, era capaz dele mesmo fazer o serviço com as próprias mãos.

Não que estivesse reclamando, Itachi pensava longe, em um futuro brilhante para o reino, um que não precisasse se preocupar com traidores, com seu povo passando fome, ou morrendo por causa de doenças. Era incrível ver o quanto ele se importava com o seu povo, coisa que Madara nunca fez. O único que importava para o antigo rei era ele mesmo. Nem seus próprios filhos foram poupados da sua gana de poder e controle.

Seria difícil contornar todo o mal que Madara deixou como herança, transformar tudo aquilo em algo bom não era uma tarefa fácil, mas Sasuke sabia que ninguém era melhor nessa tarefa do que Itachi. Caso fosse possível limpar o nome Uchiha na história, seu irmão seria o único capaz desse feito. Terminou de trocar de roupa e caminhou a passos largos para o alojamento do exército, queria encontrar Shisui e receber ordens diretamente dele para dar fim a essa rebelião sem sentido.

Assim que atravessou o jardim, se viu estático olhando a cena que se desenrolava em sua frente. Alguns filhos de soldados sentados no chão do celeiro, enquanto Ino estava sentada em um feno, com aquele vestido enorme, segurando um livro. Ela parecia ler para as crianças, e eles olhavam a mulher com admiração e uma atenção invejável. Conseguir fazer aquilo com crianças tão novas era algo realmente impressionante. Contudo, o que ela fazia ali com meros filhos de empregados?

[...]


O lugar abarrotado de homens dos mais variados tipos era iluminado com castiçais grosseiros, espalhados pelas paredes mais altas. A noite era fria do lado de fora da taverna entre os limites da parte principal do reino, onde o rei pamonha estava, e o lugar onde cavalheiros da pior espécie se reuniram para comentar a nova modalidade de furtos, uma mina antiga que voltou a funcionar sem que a coroa estivesse ciente, ou o novo bordel de mercadoria exportada que recebia de bom grado soldados como ele, perseguidos por seus anos de glória.

Fugaku não era o melhor em obedecer e agradecia por ter nascido em terras do Fogo e não precisar fingir quem era para seu antigo rei. Madara o deixou saquear o que bem entendesse e levar o que quisesse dos lugares que ele e sua tropa passaram, desde que a vitória em nome do Uchiha pudesse ser declarada a plenos pulmões. O que será que o mais perfeito homem que já ousou caminhar sobre a terra poderia ter feito para merecer dois filhos fracos e capazes de agir tão sorrateiramente para usurpar o próprio pai?

Aceitou, sim, o erguer do nome de Itachi, como seus homens, quando o mais velho dos filhos de Madara contou-lhe o que havia feito. Não era ele que seria contra o novo rei, desde que tudo ficasse como estava: funcional e vantajoso para soldados e o reino, mas Itachi, como todas as crianças, era movido a sonhos e uma falta de respeito com o que sempre fora. Tinha ideais e acreditava que mudaria o mundo. Mesmo sendo ele um moleque, contava com a nova visão do mundo para levar tolos como ele na conversa de mudança e desenvolvimento.

— Ei, Fu, me fala, o que pretende agora que é um homem livre? — Hotaru, um dos melhores guerreiros com quem Fugaku teve a honra de lutar ao lado, não deixaria o amigo sair sozinho da guarda do rei.

Ele tinha o dever, junto aos que o seguiram para longe dos planos pacificadores de Itachi, de devolver os anos de glória junto à memória de Madara, que criou seu famoso exército com sangue em seus olhos e espadas tão bem treinadas que se tornavam seus próprios braços em uma batalha. Deixou a cerveja quente na grande mesa que dividia com parte de seus homens, os quais ele mesmo ensinou ao ingressar nas tropas Uchihas, e subiu no banco, se tornando visível aos pouco mais de 4 mil olhares curiosos.

— O rei Itachi é um louvado Uchiha, contudo, não me lembro uma única vez de tê-lo visto à frente de batalha, orando aos deuses que sua vida fosse poupada por mais um dia.

Um grande urro fora dado pelos homens bêbados, que, assim como ele, não aceitaram as novas regras que a coroa impôs ao fiel exército.

— Aquela criança, que ousou tirar nosso único e verdadeiro líder de nós, não sabe o que é lutar e o que é desbravar terras tão longe de seu lar em nome de alguém que senta com sua bunda em um trono sem ter merecido por isso.

Outro grande e estridente urro fora ouvido, e o sorriso do homem tornava-se cada vez mais aberto, conforme ouvia os murmúrios de quem, como ele, odiou o fato do pivete Uchiha ter mexido no que funcionou por anos.

— Temo que Madara, nosso rei, errou apenas duas vezes ao deitar com a mãe daqueles inúteis e não os mandar conosco aos campos, para saber o que é verdadeiramente a vida. — Fugaku abaixou-se, tomando a caneca com sua cerveja, e viu seus homens fazerem o mesmo. — Não vamos permitir que um garoto que mal sabe o que é estar entre as pernas de uma dama nos diga o que pode ou não ser feito com o que nosso sangue conquistou! — Mais barulho e gritos de ordem, pedindo que Fugaku prosseguisse com suas palavras: — Itachi Uchiha será dono de um reino minúsculo e pouco aproveitável, senhores… — Pausou contente com o que suas palavras fizeram nos olhos tão vidrados em si. Havia um orgulho inexplicável que brilhava nos olhos dos homens que o seguiram. — O reino do Fogo deve pertencer a quem deu seu sangue por ele!
Capítulo 6

O poder do discurso (Aula prática)

— E por que deveríamos estar aqui e não brincando? — A garotinha de cabelos escuros lhe perguntou petulante, enquanto levava uma mão à cintura e batia o pé direito, esperando ansiosa pela resposta.

— Porque a senhora professora disse que conhecimento é poder e que ninguém pode nos roubar isso — Kenji disse, como se ele mesmo tivesse pensado naquilo.

Ino sorria ao ver a vontade do pequeno em convidar os amigos a conhecer a professora de outro reino, que tinha tanto a ensinar para os pequenos, e, como pensado por ela, haviam alguns bem ariscos às novidades.

Sabia que a parte de sentar, ouvir e esperar não fazia gosto de muitas mentes jovens e hiperativas, que usavam duas mãos e olhos curiosos para descobrir o mundo, sem que alguém pudesse guiar. Entendia muito bem que a falta de um tutor desde cedo, como sua posição a agraciou, também faria seu trabalho voluntário no reino dos Uchihas um pouco mais difícil do que o esperado.

— Bom, sem aulas para você, Mirai. Pode passar! — A Yamanaka quis rir, pois ela mesma falaria algo do tipo. Kenji era a criança mais parecida consigo das poucas crianças que aceitaram fazer parte da aula.

— Ei, nada disso. — A jovem loira sorriu bondosa quando abaixou, ficando do tamanho da menor, que, vermelha, virou o rostinho bonito. — Mirai, será muito bem-vinda quando desejar. A vontade de aprender vai invadir seu coraçãozinho no momento certo, não precisa pressa. — De pé outra vez, viu que muitos rostinhos estavam confusos e imaginou que aquele dia seria um desperdício, pois as dúvidas de Kimi eram refletidas em boa parte dos pequenos. — Bem, hoje eu quero fazer-lhes uma pergunta.

Rostos curiosos viram seus olhos nos azuis da Yamanaka.

— Eu não conheço quase nada deste reino, e como não teremos aula hoje, acho que algum de vocês poderia me ensinar o caminho do palácio até a praça central. — Com nenhum voluntário, Ino resolveu continuar: — É um curto passeio, crianças, não vamos nos meter em confusão.

— Eu levo, senhora professora! — Kenji foi o primeiro e mais entusiasmado, contudo, não foi o único a se oferecer para ajudar a mulher.

— Estou animada para saber tudo que conhecem daqui.

Deu a mão direita para o pequeno Kenji e a esquerda para um menino tão envergonhado que nem seu nome conseguiu proferir quando a conheceu, e seguiu até os portões, sob olhares curiosos de alguns guardas que faziam a ronda da manhã ao redor do castelo de Itachi. Ino seguiu com confiança, como se não estivesse cometendo uma infração ao sair sem o conhecimento de seu pai, ou do rei daqueles homens, que aceitaram sua posição e a falsa certeza como resposta às perguntas que não foram feitas.

Passou com um aceno leve próximo ao homem que abriu o enorme portão para si, e, respirando profundamente, seguiu os animados rostinhos que apontavam o que sabiam por onde passavam. Descobriu que o aglomerado de casinhas simples, mais perto do palácio real, era a hospedaria provisória para os soldados que serviam diretamente ao rei em seu lar. Poucas crianças haviam ido até lá, pois os filhos e esposas de soldados não costumavam frequentar o local onde os homens descansavam até o próximo turno.

— E quando veem seus pais? — Ino estava um pouco chocada com a distância imposta entre os soldados e suas famílias.

— Uma vez a cada dois dias, senhora professora. — Kenji já havia dito que era filho de um homem que servia dentro do castelo, e foi o primeiro a responder.

Infelizmente essa era a parte da guerra que Ino só poderia descobrir vivendo bem perto. Entendia as hierarquias e o funcionamento de tudo, porém cada reino dava seu toque especial à barbárie. Caminhou mais alguns muitos metros, notando que a quantidade de casas espalhadas se afunilava em ruas cada vez mais estreitas e, às suas costas, o castelo majestoso do Uchiha já não era tão nítido. O som dos cavalos batendo seus cascos nas pedras, que adornavam algumas ruas principais, se fazia presente e muitas informações aleatórias eram feitas pelas crianças que cada vez mais animadas a acompanhavam.

— Ali! — Mirai sorriu, mostrando o aglomerado de barracas montadas em um enorme círculo em torno de uma grande e majestosa estátua de alguém importante para o reino.

Homens e mulheres vendiam e compravam de tudo. Bichos vivos e recém abatidos, bebidas, especiarias, tecidos, artesanato e coisas pessoais. O reino do fogo parecia com o seu, notando a riqueza do comércio no centro da cidade.

— O que vamos conhecer? — um garotinho atrás de si perguntou.

— Bom, o que gostariam de me mostrar primeiro? — Sua vontade era descobrir tudo daquela área, que cada vez mais parecia interessante, entretanto, nada melhor que alguém nascido ali para mostrar-lhe o que de melhor havia.

— Senhora professora, viu algo engraçado? — Ino notou o próprio sorriso ao chamar a atenção de Kenji, e Itachi, o rei do Fogo era o culpado.

Lembrou-se imediatamente do dia que conheceu a caverna e ficou feliz por ter aprendido algo com o Uchiha.

— Lembrei de um amigo, querido. Vamos, me mostre o que mais gosta de fazer por aqui.

Seu braço foi puxado com certa força pelo menino de cabelos escuros, muito animado em lhe mostrar a pequena venda da avó. Era seguida de perto pelos demais alunos e sorria, prometendo a cada um que visitaria o que eles também queriam lhe mostrar mesmo que isso levasse o dia todo.

— Vovó! — Uma mulher de fios grisalhos virou-se, seguindo a voz do mais novo. — Eu disse que conheci uma senhora no castelo e olha ela aqui!

A senhora rapidamente fez uma mesura exagerada para Ino, que, sem jeito, retribuiu o gesto. — Senhora, sinto muito. Esse menino não tem jeito! Só faz burrada e…

— Não, ele não tem culpa de nada. — Sorrindo, a loira interrompeu gentilmente a senhora. — Pedi que Kenji chamasse mais crianças e fosse até o castelo. Por hoje, nós resolvemos passear, já que não conheço o reino.

— Não é daqui? — O nariz franziu, e Ino lembrou que o povo de lá não gostava de estrangeiros. Leu em tantos lugares que os nascidos do fogo não sabiam dividir terras e, sim, as invadir, que quase se bateu por não lembrar de algo tão enraizado.

— Infelizmente, não. — Ou felizmente. — Eu sou filha do conselheiro da Rainha Hinata e vim do Reino da Lua. Estou visitando meu pai e aproveitei a sorte de conhecer Kenji para desbravar o mercado central.

— Sorte? — O menino enrubesceu, perguntando a Yamanaka.

— Sim, e a senhora, o que vende? — Olhou para as frutas expostas e, sem conhecer metade delas, tentou fazer a velha falar.

— Não há nada disso no reino da Lua?

— Estas — apontou alguns pêssegos — e estas eu conheço. — Ao lado, alguns morangos, porém maiores do que os em seu reino. — Esse eu não faço ideia. Pode contar sobre?

— Menina, se não conhece a fruta do nosso reino, não sabe o que está perdendo. — Com entusiasmo, a senhora sacou uma pequena adaga de sua cintura e pegou algo estranhamente peludo, redondo e marrom de uma linda cesta, descascando e dividindo ao meio para oferecer a Ino.

— O que é isso? — Era verde, cheio de caroços e com um cheiro cítrico e pouco convidativo para a loira.

— Vamos, prove, criança.

Sua mãe ficaria orgulhosa naquele momento. Ino era contra quase tudo que era verde, mas aceitaria por educação, a mesma que sua mãe enfiou em sua goela por muitos anos. Esticou os dedos para a mulher, que, diferente de antes, sorria orgulhosa por oferecer algo de sua terra para um estrangeiro. Não lembrava daquilo na mesa de Itachi, porém, quando foi que prestou atenção de verdade em uma refeição no castelo quando só queria fugir para treinar às escondidas?

Tomou a fruta com receio, mas os olhos atentos infantis deram a si a coragem que já deixava seu corpo. Respirou fundo e apertou os olhos ao levar o fruto até sua boca, mordendo sem muita vontade e com quase absoluta certeza de que iria odiar. O sabor novo invadiu seu paladar, a língua fora tomada por um adocicado nada agressivo à boca e, ao engolir, sentiu o amargor bem-vindo no final de sua garganta. Nenhuma fruta trouxe tantas novidades de uma só vez, e os olhos azuis abismados encararam a velha, que sorria afirmando.

— Quero uma dúzia desses! — Sorrindo junto à mulher, que já separava alguns para si, a loira perguntou aos pequenos: — Vocês também gostam? Podemos parar um pouco e comer mais alguns.


As crianças concordaram animadas, e a Yamanaka pagou a senhora simpática, que agradeceu, alegre. Ino procurou um lugar e avistou um banco próximo à estátua que ficava no centro da pequena praça. Ela sentou no banco, e as crianças se jogaram no chão, esperando receber a fruta, que a professora distribuiu a todos. Eles estavam comendo e ouvindo a loira explicar sobre as comidas de seu Reino. Como a Lua tinha um clima mais ameno no inverno, eles conseguiam plantar alimentos que não precisavam de tantos cuidados. Era difícil a colheita no reino do Fogo, as baixas temperaturas não deixavam muitas opções para os pequenos agricultores.

— É por causa dele que estamos morrendo!

— Claro que não! O velho rei mereceu o que veio para ele…

Ino escutou dois homens discutindo e buscou com os olhos de onde vinha aquele burburinho.

— Hagoromo nos deixou na pobreza, pois só pensava em guerra!

— Madara não era assim tão diferente…

— Senhores, com licença… — Já em pé, próxima aos dois homens, apontou para a estátua e Yamanaka começou: — Vocês sabiam que foi Hagoromo que pensou nos trilhos para os carrinhos trazerem as pedras preciosas e o estanho com mais facilidade? — Os homens olharam para ela, franzindo o cenho. — Desculpe, não pude deixar de ouvir a reclamação dos senhores.

— E o que temos a ver com a invenção dos carrinhos? Todos nós ainda trabalhamos demais naquelas minas!

— Poderiam trabalhar ainda mais sem a invenção dele. Pensem comigo… — Fechou os olhos e levantou o polegar. — Caso o senhor Hagoromo aqui… — colocou a mão no pedaço de pedra esculpida e sorriu atenta às feições dos homens — não tivesse pensado em algo para diminuir o trabalho dos senhores e o peso que carregavam, estariam trabalhando muito mais. — Algumas pessoas começaram a prestar atenção no que a Yamanaka falava. — Ele foi inteligente em dar algo que diminuiria a força que os senhores precisariam para carregar tudo aquilo para fora das minas, além de que, com isso, conseguiu diminuir o tempo de serviço que levaria para chegar até o que importava. Fez alguns grandes acordos, se tornando um dos primeiros, se não o pioneiro, na troca de mercadorias entre reinos e futuramente os tratados que conhecemos hoje.

Os homens a olhavam embasbacados, nunca tinham pensado naquele ângulo. Um dos guardas, que seguia Ino na surdina, pois, ao ver a filha do conselheiro deixar as dependências do castelo, resolveu fazer sua escolta, mesmo que ela não soubesse disso, ficou impressionado com como ela conseguiu envolver todos naquela praça para escutá-la.

— Não estou defendendo as atrocidades do senhor falecido, Hagoromo, mas ele também tentou pensar nos senhores. Estava em busca de mais terra, certamente tentando burlar o clima difícil para a colheita e plantio na maior parte do reino, algo que um bom líder deveria pensar mesmo, todos os dias. Infelizmente, os que vieram após repetiram seus erros, mas, como o primeiro dono e idealizador, não o vejo como um homem totalmente incorreto.

O guarda arregalou os olhos e correu até a Yamanaka, a chamando para acompanhá-lo até o castelo. De primeira, ela foi relutante, mas aceitou quando o pobre soldado disse que seria culpado se algo acontecesse. Ela e as crianças caminharam tranquilamente até o castelo, Ino se despediu deles antes de entrar pela porta da frente e ser recebida aos gritos por sua mãe.

— Onde estava?! — Masumi a abraçou forte. — Quase me mata do coração. Não sabíamos onde estava. Ninguém a achava pelo castelo, Ino.

— Ficará trancada em seu quarto caso apronte outra dessas, Ino Yamanaka! — seu pai disse, sério.

— Fui apenas até o centro do vilarejo, comprei frutas… — Mostrou a sacola com um sorriso amarelo, e viu Itachi chegando.

— Um dos meus guardas estava acompanhando-a, não se preocupem — o rei prontamente avisou.

— Mesmo assim, majestade, Ino não avisou a mim ou à mãe dela. Se caso acontecesse algo com ela…

— Entendo sua preocupação, Inoichi. — Interrompeu o homem. — E caso alguém fizesse mal a ela, eu mesmo tomaria providências, mas, como disse, um soldado a acompanhou.

— Obrigada, alteza — Ino agradeceu, corada pelo modo como o rei falou, de forma incisiva, como se realmente ela fosse importante para ele, mas, no mesmo instante, sua mente a alertou que era apenas política. Caso algo acontecesse com ela dentro do reino do Fogo, Itachi se veria com a rainha Hinata, coisa que o Uchiha com certeza não queria ter que enfrentar.

[...]


— Agora me explique direito como diabos a garota saiu e ninguém me avisou!? — Itachi bradou, esperando uma resposta de Shisui, que estava impassível à frente da grande mesa da biblioteca.

— Pelo que entendi, ela saiu com algumas crianças, filhos de empregados e soldados.

— O que ela… — Itachi suspirou, apertou os olhos com os dedos e puxou o ar mais uma vez para tentar falar calmamente. — O que ela estava fazendo com filhos de empregados?

— Pelo que Tatsuki me contou, ela está dando aula a eles. — O rei piscou algumas vezes. — Sim, majestade, e não só isso. Quando dois homens discutiam sobre os malfeitos do seu pai e bisavô, ela interviu e falou sobre o que Hagoromo fez de bom pelos súditos. — Itachi estava perplexo, como em tão pouco tempo Ino tinha feito tudo aquilo?

— Não sei o que dizer…

— O senhor sem palavras é novidade. — Shisui deu um sorriso vitorioso. — Talvez seja hora de pensar na carta que lhe falei.

— Meu comandante deveria estar mais preocupado com as falhas de seu exército do que com minha vida pessoal, não concorda?

Shisui ergueu as mãos em derrota, sorrindo brincalhão para o rei. Antes de se retirar do recinto, fez a mensura habitual e resmungou: — Não está mais aqui quem lembrou, senhor.
Capítulo 7

Estratégias para vencer

O breu da noite impedia que qualquer homem enxergasse um palmo à frente do próprio rosto, contudo, ele não era qualquer homem. Treinado desde muito cedo por seu pai, visto pelo antecessor do rei vigente como talento precioso, um homem forjado ao fogo de sua própria terra não se limitava a condições climáticas ou um jovem cheio dos ideais insanos e irreais, tentando comandar ou destruir um reino que já havia dado tanto orgulho aos homens que os seguiam.

Fugaku deu a ordem muda, seguindo o próprio raciocínio da conversa que tiveram com seus homens dias antes daquele ataque. Certeiro, no queixo ralo de pelos e de vitórias de Itachi Uchiha, atacariam em instantes um lugar estratégico e o ponto que facilmente daria início à destruição do regicida. Não poderia ser tão fácil assim para o herdeiro assassino, ele que atirasse o que de ruim vinha com a coroa em sua cabeça. O peso de todo ouro, joias e sangue que Madara conquistou em anos de glória.

A mão aberta fechou-se em um só movimento, e do pasto restante, que sobreviveu aos tempos frios, muitas sombras se aproximavam do amplo lugar, que recebeu naquela manhã, a plantação de todos os agricultores do reino, para que o então rei protegesse e distribuísse de forma justa.

E quem era Itachi para falar de justiça?

Um hipócrita mimado que não aceitou perder a puta da Lua e culpou seu pai por fazer algo sobre. Madara só queria o bem de seu povo e todos já foram como seus próprios filhos. Para si, o antigo rei era mais que um monarca, era um ideal. Um homem íntegro, justo e disposto a fazer o que fosse preciso para um bem maior, assim como ele aprendeu.

Deixou o chão com pressa e apoiou os joelhos no chão, sem deixar a espada que o acompanhava. Ergueu seu corpo e apontou o primeiro morto da guarda real do rei. Na calada daquela noite fria, tipicamente comum em sua terra natal, Fugaku daria início ao fim do legado do fedelho Uchiha.

[...]


— Perdemos quatro soldados no ataque ontem, alteza — Shisui falava com uma tristeza presente, mas, ainda assim, era possível ver a raiva em seus olhos.

Itachi respirou fundo e travou a mandíbula. Já fazia dias que eles tentavam achar os rebeldes, sabiam os nomes de quem tinha desertado do exército, porém achá-los não era uma tarefa simples. Era sua capacidade de reinar que estava em jogo, era como seus súditos o veriam diante de tudo isso. Como resolver algo tão importante tão depressa? Sasuke estava calado no canto da biblioteca, e Inoichi estava no outro, o silêncio era ensurdecedor entre os quatro. Não tinha muito o que falar, apenas esperar as ordens do rei e as cumprir.

— Temos comida para todos?

— Sim, majestade. Eles saquearam apenas um pequeno galpão perto do vilarejo vermelho rubi.

— Quem pode estar no comando de tudo isso?

— Eu tenho uma ideia, alteza. — O rei anuiu, esperando que o comandante continuasse. — Fugaku. Ele sempre teve raiva pelo senhor… — pigarreou antes de continuar — ter me indicado para seu pai me escolher para comandar a guarda real.

— Tudo sempre sobre egos…

— Se procurarmos saber como ele pensa pode nos ajudar, acredito que posso reunir meus homens para obter informações.

— Então faça isso… — Itachi levantou — e achem esses desgraçados! — Alterou o tom de voz, irritado, e Shisui apenas concordou.

— Irmão, acredito que precisamos procurar um estrategista também. — Sasuke foi o próximo a falar. — Se eles fizeram isso essa madrugada e estão carregando peso, eles estão andando devagar.

— Shisui, chame o seu melhor estrategista e monte um plano. Que dê certo, de preferência.

— Sim, majestade.

— E, Sasuke, está na hora de agir como o general. Não lhe dei esse título só porque é o príncipe. — Seu irmão assentiu e saiu apressado, seguido de Shisui.

— Sei que é um péssimo momento, majestade — Inoichi começou, atraindo os olhos negros para si —, mas quero apenas lhe comunicar que mandarei minha mulher e filha de volta ao reino da Lua. Estou preocupado…

— Eu entendo, Inoichi. Mandarei mais 10 homens para fazer a escolta.

— Muito obrigado, Rei Itachi. — Fez a mensura e se retirou.

Sentia seu sangue fervendo dentro de suas veias. Aquela raiva que lhe engolia aos poucos, que lhe aprisionava no ódio irracional, cada vez mais possuía sua sanidade. Itachi sentia-se incapaz de resolver o problema, seus próprios soldados o haviam enfiado a espada pelas costas. Não que não tivesse feito isso contra o próprio pai, mas foram os ossos do ofício, precisava acabar com aquela loucura de Madara e não lhe restou outra alternativa. Contudo, receber a negativa logo de seu exército acabou com sua cabeça, pensava estar fazendo o melhor para seus súditos e soldados, mas talvez tenha se enganado.

[...]


Algumas longas horas os afastavam de seu objetivo, porém o capitão mantinha o ânimo de sua tropa com palavras de incentivo conforme o sol nascia acanhado entre as nuvens. Fugaku sentia o peso da idade reclamar em suas costas. Por mais que tivesse ajuda de muitos homens e que aquele fosse apenas o primeiro de muitos outros ataques a armazéns, se todo plano não fosse absolutamente perfeito, ele poderia perder muito caso fosse capturado ou morto em nome do rei.

Não permitiria que isso acontecesse, não enquanto seu nome não fosse escrito ao lado de Madara na história de sua terra. Mais capaz, mais firme, o homem que apagaria o que de mais fraco e tolo o solo do Fogo pode criar. Itachi era exatamente o que ele e seu antigo rei temiam. Um jovem criado na política e no que era certo para os demais reinos, mas não o seu. Não poderia ser uma boa imagem que resumia e carregava o nome de seu povo.

Eram bárbaros para os estrangeiros e isso os fazia sempre ter ótima posição em guerras, afinal, quem não quer contar com o apoio de peso do reino do Fogo? Já venceram guerras apenas pela desistência do inimigo no momento em que Madara deixava claro que apoiaria tal reino. Aqueles anos de glória não poderiam ser esquecidos, não tão facilmente Itachi destruiria o legado de gerações. Bom, ele não permitiria.

O saco abarrotado com a colheita de seu povo pesava em suas costas. Parecia lembrá-lo do tanto que escolheu carregar para salvar sua terra, sua gente, pessoas que cresceram consigo e prosperaram nos anos de glória do império Uchiha. Ele se sacrificaria e até boa parte da gente que não cooperasse para o bem maior do Reino.

Entregar toda a safra que com muita luta e cuidado seu povo cultivava poderia parecer traição para alguns ou os muitos que passavam um ano inteiro tentando afastar as pragas e o tempo frio, que vez ou outra tornava-se o pior inimigo de uma boa colheita, mas ele ia acima de tudo isso. Da possível revolta, conseguiria um belo tratado, algo que Madara o ensinou com muito custo e ele, como bom soldado, faria.

— A fronteira da Pedra está a duas horas, senhor. — Um dos homens tirou Fugaku de sua própria mente, apontando a frente como caminho.

— Vamos em frente, homens. — Alinhou o corpo, tentando mais uma vez animar a tropa. — O Rei nos espera, senhores!

[...]


— Calma, papai, não precisa desse desespero.

— Os rebeldes saquearam o armazém de alimentos, Ino, não tem como ficar calmo! — Inoichi falou sussurrando, porém queria gritar. — Arrume suas coisas, você e sua mãe voltam para casa depois do almoço.

— Mas eu…

— Fim de discussão, mocinha. — Seus pais saíram de seu quarto, fechando a porta.

Ino suspirou e arrumou todas as suas coisas o mais rápido que conseguia, colocou seu vestido de viagem e deixou sua capa vermelha estendida em cima da cama. Esgueirou-se até o estábulo, onde encontrou Kenji, e pediu para o menino chamar os seus amiguinhos. Sentada em um feno, lia o final do livro que estava lendo para eles. As 6 crianças prestavam atenção em cada palavra que ela dizia, encantadas com a história de fantasia que a loira contava. Ino queria ao menos terminar o livro para eles e se despedir, dizer que voltaria o mais rápido que pudesse. Não queria deixar as crianças sem ao menos uma explicação de seu sumiço.

Longe dali, na biblioteca, Shisui repassava tudo que tinha conseguido juntar de informações ao rei. Itachi respirou fundo e entendeu que precisava lidar com aquilo devagar e sem muito alarde, se não seus súditos entrariam em pânico e o caos iria se instaurar no reino do Fogo. Não podia permitir que Fugaku conseguisse o que queria, desestabilizar o seu reinado e mostrar que ele não era digno de ser o rei.

— É como se tivessem sumido de repente. — Shisui terminou.

— Eles devem ter algum atalho secreto que não temos conhecimento — Sasuke argumentou.

— O que o estrategista falou? — Itachi perguntou.

— Ren disse que até onde rastrearam as pegadas é possível que eles estejam querendo sair das terras do fogo.

— Para onde estão indo?

— De acordo com o que ele disse, para Oeste.

— Não tem nada para aquele… — O Uchiha parou seu raciocínio naquele momento. — Reino da Pedra…

— Sua alteza acha que eles… — Shisui arregalou os olhos, estava assustado com a possibilidade.

— Mandem os melhores soldados para investigar a fronteira com o reino da Pedra. — Itachi levantou decidido. — Sasuke, consiga 10 soldados a mais para escoltar as senhoritas Yamanaka's até o reino da Lua. — Ele respirou fundo. — Eu vou…

— Você precisa descansar, majestade — seu guarda pessoal avisou, preocupado. — Não dorme direito há dias…

— Impossível dormir quando meu reino está no próprio caos. Não sei como meu pai conseguia.

— Papai não pensava em ninguém além dele mesmo, irmão. Quem não tem consciência, dorme tranquilo.

Sasuke e Shisui saíram da biblioteca, e o rei respirou fundo. Seu amigo comandante tinha razão, precisava dormir, mas não sentia sono, eram problemas demais para pensar. Levantou-se e olhou pela janela, que dava para o jardim. Franziu o cenho quando, dali de onde estava, viu algumas crianças sentadas no chão. Lembrou do que Shisui falou sobre a senhorita Yamanaka estar com os filhos dos empregados, gostaria de ver aquilo pessoalmente. Caminhou a passos lentos, percorreu os longos corredores do castelo e logo estava no jardim. Deu a volta no estábulo e se manteve escondido, apenas deu uma breve olhada, notando Ino lendo um livro antigo de sua biblioteca, que lembrava já ter lido em sua infância.

Cruzou os braços e se manteve ali, encostado na estrutura de madeira, apenas ouvindo as crianças animadas com a história, e, assim que ela terminou, Ino ria com elas, se divertindo genuinamente com aquilo que fazia. Talvez fosse seu dom, ensinar os mais jovens, e, pelo que o seu guarda falou, não eram só os jovens que a escutavam.

— Professora, quando você volta? — Itachi escutou a voz tristonha do garotinho. Tentou espiar sem ser visto e, com sucesso, assistiu a loira abaixar para ficar na altura das crianças.

— Prometo que logo, está bem? Quero continuar dando aula aqui, mas também dou aula a crianças como vocês no meu reino. — Ela sorriu, sincera. — Elas também me esperam.

— Vamos sentir sua falta, professora. — Uma garota ruiva abraçou a Yamanaka, que prontamente correspondeu e logo foi abraçada por todos eles.

Aquilo era um dom. Ino sabia falar com as pessoas, sabia cativar a atenção delas sem nem mesmo se esforçar. Sua língua ainda precisava de freios, mas sua felicidade em ajudar os outros era nítida, além de querer passar seu conhecimento, que conseguiu por causa do seu privilégio. Era uma atitude nobre, sem dúvidas. Ela tinha um bom coração e a determinação necessária para… Itachi parou seu pensamento no meio do caminho, não podia estar pensando aquilo naquele momento. Maldito Shisui e sua mania de colocar minhocas em sua cabeça. No entanto, talvez ele não estivesse tão errado dessa vez.
Capítulo 8

Diplomacia

Reino da Lua


Hinata estava impaciente, parecia prever algo que não sabia ao certo. Inoichi constantemente lhe mandava cartas avisando sobre o estado em que se encaminhavam as coisas. Hinata sabia que trazer o reino do Fogo para mais perto, ter um acordo político e econômico com seu reino vizinho seria vantajoso. Contudo, antes, Itachi precisaria tomar as rédeas do reino, conquistar o respeito e admiração de seu povo e, principalmente, de seu exército. Madara era um homem odioso, mas a Hyuuga sabia que os seus soldados eram leais a ele e dificilmente aceitariam de bom grado o que Itachi queria.

Estava preocupada, era verdade, mas quando Ino e Masumi foram para o reino do Fogo, sentiu que algo bom dali poderia surgir. Não queria compartilhar seus pensamentos com seu marido, sabia que a repreenderia, porém não conseguia deixar de imaginar o quanto poderia dar certo. Neji, observador como era, em algum momento perceberia que estava pensativa demais e notaria algo diferente. Esperava apenas o momento certo de contar sua mais nova ideia, que poderia dar muito certo, ou muito errado.

— O que você tanto olha nessa página?

— Como?

— Hina, está na mesma página há tempo demais — o ex-comandante comentou, então sua esposa se endireitou na poltrona e passou a página do livro um pouco sem graça. — Vai me contar o que tanto pensa? — Neji, do outro lado do cômodo, sentado na poltrona bem em frente a Hinata, também com um livro em mãos, questionou.

— Depende. — O homem arqueou uma das sobrancelhas. — Já não quero mais falar…

— Hinata… — advertiu.

— Já está brigando comigo e nem falei nada!

— Não estou brigando com você. Quero saber o que está tramando… — Ele fechou o livro, fazendo com que ela fizesse o mesmo.

— Vai saber quando for a hora. — Hinata levantou, largando o livro na mesa do canto e andou a passos rápidos ao perceber que Neji já vinha em seu encalço.

— Não me faça correr, Hyuuga… — Puxou-a pelo braço e encostou em uma das estantes, pressionando seu corpo no dela. Perto demais do seu rosto, Hinata conseguia sentir o hálito de seu marido em sua bochecha. — Me diga, o que está passando por essa cabecinha perversa…

— Mas que ultraje, Neji Hyuuga. — Inflou as bochechas. — Não sou perversa!

Neji infiltrou a mão por baixo da saia leve que a esposa usava, arrastou os dedos pela parte interna das coxas grossas e sentiu a mulher esmaecer em seus braços aos poucos, suas pálpebras começaram a querer fechar. Chegou à virilha e, aos poucos, seus dedos acariciaram os grandes lábios, sentindo a lubrificação se tornar cada vez mais presente. Apertou o ponto inchado com dois dedos, massageando levemente, enquanto lambia o pescoço até chegar ao lóbulo, fazendo um gemido involuntário deixar a garganta de Hinata.

— Completamente… devassa, rainha Hinata — sussurrou em seu ouvido, tirou sua mão, chupando seus dedos aos olhos atentos da morena e saiu andando.

— Neji… volta aqui. — Sua voz saiu como um sopro, embargada pelo tesão que sentia. A mulher andava pisando duro, irritada por não terminar o que começou.

— Quando quiser me contar, eu continuo…

— Filho da… — resmungou.

— Com licença, majestade. — Os dois deram de cara com Haru, o novo comandante da guarda real. Eles pararam onde estavam, e o homem continuou: — Pediu para avisar quando a senhorita Yamanaka chegasse.

— Obrigada, Haru. Peça a ela que me encontre no jardim de inverno no fim da tarde para um chá.

— Como desejar, alteza. — Reverenciou sua rainha e seu rei e se retirou.

Neji virou para ela, soltou o ar pelo nariz, claramente a repreendendo, e disse: — Me diga que não é o que estou pensando.

— Não é — Hinata disse simples, mas ela sabia que era exatamente o que Neji estava pensando, porém ele não precisava saber naquele momento.

[...]


O chá da tarde foi posto por duas criadas. Hinata sentou em sua cadeira favorita dali, apreciou o dia bom do inverno, que chegava, mas que em suas terras era generoso em ser ameno. Neji seguia a recriminando apenas com o olhar, e a Hyuuga fingia que nada estava acontecendo. Agradeceu às mulheres, que se retiraram em seguida, deixando os dois a sós. Ino ainda não tinha aparecido, e o rei da Lua agradecia mentalmente por isso, queria colocar algum juízo na cabeça de sua esposa antes que uma nova guerra acontecesse.

— Hina… — sentou ao lado da rainha —, acho que você não deveria insinuar nada para a Yamanaka.

— O que quer dizer com isso?

— Sei o que está pensando, Hyuuga. O que disse a você no dia do nosso casamento?

— Não me lembro, já fazem semanas… — Arrebitou o nariz, servindo o chá em sua xícara.

— Ora, não…

— Licença, alteza. — Foi interrompido por Ino, que chegou à porta, fazendo sua mensura. — Oh, desculpe, não sabia que estava presente, rei Neji. — Reverenciou novamente, dessa vez ao rei.

— Ele já estava de saída, não é, querido? — Hinata o mirou, praticamente enxotando seu marido.

— Sim… — concordou, olhando de maneira reprovadora para sua esposa e olhou sorrindo para a loira: — Tenham um bom chá. — Ino sorriu e caminhou até a cadeira defronte a rainha, se sentando, enquanto o Hyuuga fechava as portas duplas, olhando para as duas preocupado com o que Hinata estava planejando.

— Aceita? — Hinata pegou o bule e, com o acenar positivo da loira, serviu. — Então, Ino, me conte… Como foram essas semanas no reino do Fogo?

Ela pareceu escolher a palavra por alguns segundos e disse: — Interessantes. — Ela deu um gole no chá, e Hinata ficou intrigada com o porquê de usar essa palavra entre as diversas que poderia ter usado.

— Interessante? — Hinata lhe ofereceu um biscoito, que ela pegou, agradecendo.

— Sim, parece que não dá para saber tudo apenas pelos livros.

— Descobriu algo… interessante? — A rainha sorriu, travessa.

— O reino do Fogo não é tão ruim quanto eu achava — disse baixo, como se tivesse medo do que estava dizendo.

— Ou o Rei Itachi não é tão ruim como você achava? — Ino corou as bochechas e quase se engasgou com o biscoito. — Está tudo bem, Ino. Nada do que disser sairá daqui.

Ino pareceu ponderar o que diria. Mesmo com a língua solta, se tratando de sua rainha, ela tinha o maior cuidado para não falar nada de errado, ou sua mãe infartaria. Era difícil para ela explicar, mas sentiu que poderia confiar em Itachi, principalmente para recuperar o reino e o transformar em algo a se orgulhar. Via nos olhos dele que tudo que ele queria era mudar como o seu sobrenome era visto e lembrado.

— Ele é… diferente dos outros Uchiha's.

— Está apaixonada?

— Não! — disse mais rápido do que pôde pensar, mas respirou e calmamente repetiu: — Não… Só admirei a vontade dele de limpar seu nome e melhorar seu reino.

— Seria mais fácil se estivesse… — murmurou, abaixando a cabeça, já sabendo da falha de seu plano.

— Não entendi, majestade. — Ino a olhou confusa, atraindo o olhar de Hinata a si mais uma vez.

— Vou lhe explicar, Ino.

Hinata tinha certeza de que se Itachi quisesse tanto mudar seu reino da água para o vinho, ele precisaria de uma rainha. Precisaria de alguém doce, amável e inteligente ao seu lado. Precisaria conquistar seus súditos com palavras de esperança e amor. Ela sabia bem que Ino tinha todas essas qualidades, além de ser determinada quando queria. O reino do Fogo precisava de alguém completamente diferente de todos os reis anteriores, sem ódio, sem remorso, sem selvageria e sem o lado masculino que carregava aquela opressão. Itachi precisava, sim, de uma rainha e para o plano de trazer o Fogo para ser seu aliado funcionar, ela precisava de um tratado forte e estável. E nada melhor do que um tratado por casamento.

— Quer que eu me case com o rei Itachi?! — Ino arregalou os olhos.

— Eu sei, sou hipócrita, mas jamais a obrigaria a casar por um tratado, Ino. — Hinata bebeu um gole de seu chá. — Não quero que passe esse sofrimento. Quero que case por amor, por isso perguntei se estava apaixonada. Como não é o caso, vou pensar em outra forma…

— Não. — A Yamanaka a cortou. — Perdão. Eu aceito, caso o rei Itachi também aceite.

— Mas, Ino, você não…

— Eu quero ser útil para o meu reino, alteza. E se esse for o meu destino, eu o aceito de bom grado. — A loira estufou o peito. — E se for para ser útil para dois reinos, ficarei ainda mais feliz. Não quero ser apenas a filha bonita do conselheiro… — Abaixou a cabeça e encolheu os ombros.

— Não sabia que se sentia assim…

— Eu nunca disse isso para ninguém, majestade. Desculpe por… — Sentiu uma lágrima em sua bochecha, limpou rapidamente, e Hinata deu um lenço à mulher. — Obrigada. Eu ficarei honrada em fazer parte do tratado, alteza.

— Você tem certeza disso? — Hinata franziu o cenho, preocupada. — Não terá volta, Ino.

— Tenho.

Hinata tentou explicar os detalhes sobre o tratado com o reino do Fogo através do casamento dela e de Itachi. Caso o Uchiha aceitasse a oferta da Hyuuga, Ino se mudaria de vez para o reino do Fogo, mas, para isso acontecer, precisava chamar Inoichi de volta à Lua. Despediu-se da loira, que agradeceu por ela ter a escolhido para o tratado, e garantiu que faria o seu melhor. A rainha caminhou lentamente até os seus aposentos, onde encontrou Neji sentado na poltrona próxima da janela. Seu marido era realmente bonito e estava concentrado lendo um livro. Ela sorriu, dando passos calmos até ele.

— Como foi o chá? — o Hyuuga perguntou, assustando Hinata. Ele virou a tempo de ver a mão de sua esposa no peito. — Achou que não tinha ouvido você entrar? — Levantou e se aproximou dela, acariciou seus ombros e sorriu.

— Parecia concentrado demais para me ouvir chegar.

— Não esqueça que fui guarda e comandante por tempo demais, Hina, estou sempre em alerta. — Beijou os lábios doces da esposa e se afastou para mirá-la. — Então…

— Não sei se quero colocar meu plano em prática. — A mulher caminhou até a cama e se sentou, cabisbaixa.

— O que houve?

— Ela não está apaixonada por Itachi.

— Falei para não sugerir nada. — Estalou a língua no céu da boca. — Pare de querer organizar casamentos…

— Seria vantajoso para nós, Neji, mas não me sinto bem fazendo isso… — Respirou fundo. — Ino disse que queria. — Neji arregalou os olhos. — Também fiquei chocada com isso. Ela falou que quer ser útil para o reino.

— Não pode obrigar a garota a se casar por um acordo.

— Não obriguei! — Hinata levantou, irritada. — Acaso não me conhece, Neji? Acaso não enfrentei um inferno, matei um conselheiro e quase comecei uma guerra para casar com quem eu amo? — disse, em um só fôlego. — Acaso não lembra que quase perdi você… — Acariciou o rosto másculo e mordeu seu lábio inferior, suas sobrancelhas unidas denunciavam o quanto aquilo ainda mexia consigo. — E me perdi no processo de recuperá-lo?

— Não faça então… — Abraçou sua esposa, apoiando seu queixo no topo da cabeça da morena. — Ino merece casar com alguém que a ame.

— Ela pediu e me fez prometer que concluiria o tratado, se Itachi aceitar.

Neji afastou-se, franzindo o cenho com aquela informação, e logo suspirou, rolando os olhos.

— Tenho uma ideia… — Hinata lançou um olhar curioso para o marido, que continuou: — Itachi ainda deve… — pigarreou — gostar de você. Não vai aceitar se casar agora.

— Tem razão! Vou preparar a carta amanhã e enviar ao reino do Fogo.

— Não precisa da autorização do pai da Yamanaka, Hinata?

— E enviar uma carta a Inoichi. — Sorriu sem graça.


Reino do fogo


— Por aqui, é praticamente impossível. — Levou o dedo até o pedaço do mapa que indicava a parte mais fechada da floresta. — Além dos animais hostis da área, não há rio cortando a parte oeste, o que dificulta uma campanha longa.

Sasuke sentou à grande mesa, tentando entender o grande território de seu reino. Fugaku devia passar por algum lugar, mas, em meio ao terreno acidentado em grande parte inutilizado, como um velho e irritado ex-comandante da guarda de seu irmão poderia levar tantas sacas da colheita de seu povo e, o que mais o intrigava, para onde?

— Há o grande rio. — Shisui fez o caminho do rio que nascia na cadeia de montanhas, que praticamente cercava seu reino e desaguava no mar salgado. — Mas deve estar congelado esta época do ano.

— Pensei exatamente isso. — O Uchiha fechou seus olhos, imaginando a si mesmo em uma missão como aquela.

Foram treinados pelo mesmo homem, seu pai, então não seria tão diferente assim seu pensamento e de Fugaku. Pelos deuses, onde aquele meliante estava escondendo os grãos que roubou do próprio povo e qual seria o próximo passo para desestabilizar o reino que Itachi queria construir?

— Se ele for para as montanhas? Há algumas cavernas lá que, pelas histórias, eram ligadas às daqui, como um grande labirinto subterrâneo…

— Achei que já era adulto, Shi. Acreditar nas velhas amas com essa idade é um pouco infantil.

— Ah, vamos lá. Tente imaginar este cenário. — Virou o mapa para o irmão do rei e deu início ao próprio devaneio: — Isso explica o fato de Fugaku ter passado ileso por toda guarda que montamos daqui — apontou o centro do mapa — até a fronteira. — Rapidamente algo pareceu fazer sentido na mente do comandante da guarda real. — Deve haver um caminho secreto para o objetivo de Fugaku, que, por enquanto, achamos ser as montanhas. O estrategista do rei nos disse que, para armar algo, ele precisava organizar primeiro, longe do rei ou de alguém que pudesse atrapalhar.

— Faz sentido, mas como vai provar ao Ita?

— Não, é só uma suposição com base no que ele trouxe para nós hoje. As reuniões estão cada vez mais tensas, e o conselho não anda muito confiante com a estratégia que queremos abordar.

— E qual seria? — Sasuke estava curioso com o rumo da conversa. Infelizmente, pouco se sabia das reuniões secretas do irmão com o pequeno conselho, e se Itachi gostava de um segredinho sujo, Shisui era literalmente o oposto do rei.

— Permitir uma próxima jogada a Fugaku e, assim, atacar certeiro. — O comandante fechou o mapa ao ouvir a porta bater com certa força. — Senhor.

— Shisui, mostrou a Sasuke? — O rei aproximou-se da mesa, cumprimentando rapidamente o irmão.

— Sim, mas ainda não fiz a pergunta.

— Que pergunta? — Sasuke estava animado por ser útil em um momento tão incerto do reinado de seu irmão.

— Queremos que vá com alguns homens até o fim das cavernas. Não para enfrentá-los, mas para saber se estamos no caminho certo. — Shisui sorriu para o rei quando notou o riso ladino do mais novo e continuou: — Podemos contar com você?

— Será uma honra.

[...]


— Espero que sejam boas notícias, Shisui — disse, sem tirar os olhos dos pergaminhos, assim que seu comandante adentrou a biblioteca, que ele mantinha a porta aberta devido à ansiedade de novas informações.

— Infelizmente, não, alteza. — O rei o mirou e se recostou na cadeira, esperando que continuasse. — Sasuke varreu as montanhas e nada foi encontrado, nem um vestígio.

— Então eles só podem ter passado pela fronteira e fico imaginando… — subiu o tom de voz ao dizer: — como ninguém viu eles cruzarem as fronteiras, Shisui?!

— Ainda não temos ideia, alteza. É como se eles tivessem… desaparecido. — Itachi apertou a ponte do nariz e fechou os olhos, suspirando.

— Coloque 3 mil homens na fronteira se for necessário, Shisui. Pegue esses cretinos! — Itachi bateu o punho na mesa, irritado.

— Estou fazendo o possível, majestade. — O Uchiha o mirou com os olhos vermelhos. Aquilo era o mais puro ódio, e Shisui só havia visto aquilo em Madara e até mesmo em Sasuke, mas nunca em Itachi. — Vou providenciar agora mesmo um plano para colocar mais homens na fronteira e também… averiguar uma teoria. — O comandante saiu apressado, deixando Itachi sozinho na biblioteca.

Era impossível mais de 4 mil homens desaparecerem do mapa. Estava inquieto, irritado e sem paciência para desculpas. Queria resultados, queria esses homens presos. Antes tivesse ido ele mesmo atrás deles para arrancar-lhes as cabeças.

— O que estou fazendo? — resmungou, passou a mão pelo rosto e logo pelos cabelos escuros.

Não queria agir feito um neandertal, era isso que tentava evitar. O ódio dos Uchihas definitivamente corria nas suas veias, mas sempre evitou senti-lo, ou até mesmo alimentá-lo. Respirou fundo e tentou pensar racionalmente. Fechou os olhos, tentando se acalmar, porém sua tentativa foi interrompida quando ouviu batidas na porta. Ele liberou a entrada, vendo Inoichi entrar de forma calma e fechar a porta atrás de si. Admirava a impassividade do homem, ele sempre estava sério, calmo, racional. Talvez tenha sido esse o motivo de Hinata tê-lo mandado, sabia do temperamento Uchiha e quis enviar alguém para equilibrar as coisas.

— Majestade, chegaram duas cartas da rainha Hinata. — O Yamanaka entregou uma delas com o selo real. — Uma para vossa alteza, e outra para mim.

— Obrigado, Inoichi.

— Ela pede meu retorno, pois precisa tratar de alguns assuntos comigo — informou. — Disse que voltarei em breve, assim que tudo for resolvido na Lua.

— Sem problemas. Disponibilizarei uma carruagem para levá-lo.

— Ela também pediu para que eu esperasse o senhor ler a sua carta para voltar. — Itachi franziu o cenho e abriu o selo, começando a ler o texto muito bem escrito pela Hyuuga.


Itachi, pedi para Inoichi voltar. Preciso dele para um assunto importante, porém também preciso que venha você, o que acho inviável no momento, devido aos acontecimentos, ou um representante para um tratado que venho pensando. Aguardo sua resposta.

Rainha Hinata.

— Enviarei um representante com você, é o que ela pede. — Ele suspirou. — Não posso enviar Shisui, acredito que Sasuke terá que se portar como um… diplomata. — Itachi mesmo ridicularizou o termo. Seu irmão seria tudo, menos diplomático.
Capítulo 9

Decisões

Reino da Pedra


O enorme salão onde ocorria a recepção de seus valorosos homens estava lotado. Alguns tinham mulheres em seus colos e outros afogavam o cansaço em uma caneca do que o reino tinha de mais precioso para servir.

A bebida dali perdia em muitos pontos aos da sua terra. A comparação poderia ser até ridícula, como as do exército, mal treinado em seu ver, contudo a longa conversa que teve com o rei daquele lugar rendeu-lhe bem mais que uma noite de diversão merecida para ele e seus homens. Estavam a mais um passo de uma união nunca imaginada.

Duas terras fortes, que precisavam apenas do apoio uma da outra para serem invencíveis, mas como o rei sabiamente citou, a mesquinharia era um traço Uchiha, e apesar dos longos anos de amizade entre Onoki e Madara, haviam alguns pontos nos quais Fugaku deveria concordar com o regente.

Era fato, Uchihas eram incríveis em batalha, mas pouco aproveitáveis quando se tratava de acordos. Sempre queriam levar a melhor e a briga com os Senjus era prova disso. Entretanto, agora tinham tudo para um futuro inigualável: As técnicas de batalha que Fugaku passaria aos demais soldados de Onoki e o número necessário para invadir qualquer terra que bem entendessem.

Contudo, aquilo não seria de uma vez, ao menos não no Reino do Fogo. Não seria tolo como um Uchiha, invadindo e tomando tudo. Colocar o povo contra o rei é mais simples do que erguer sua espada e matar em batalha, Fugaku ganharia o amor e a fidelidade do povo, com sua ajuda e menos sangue derramado na terra sagrada de seus ancestrais.

— Amigos do Fogo! — O rei levantou de seu pequeno trono e capturou a atenção de todos com sua voz grossa e altiva. — É com grande honra e esperança de um futuro melhor para ambos que selamos acordo com Fugaku, ex-braço direito do verdadeiro rei, Madara Uchiha. — Batidas em todas as mesas foram ouvidas. Os soldados concordavam eufóricos com cada palavra do rei. — Sim, senhores, nossa aliança é pela antiga glória e para que futuras, ainda maiores, possam vir!

— É! — grande parte dos homens gritava palavras de incentivo ao homem.

— Eu e Fugaku construiremos um mundo forte, esmagando tudo que for imoral, ilegítimo e fraco!

Reino do Fogo


Shisui e Ren seguiam na sala tática, o mapa do reino seguia aberto na mesa, e os dois tentavam enxergar algo além daquele grande papel. Era difícil entender como tantos homens simplesmente desapareceram sem deixar nada para trás. Shisui estava começando a perder as esperanças. Se o conselho não fosse a favor do plano de esperar um movimento dos rebeldes, estariam em um beco sem saída. Assim como se encontravam naquela sala, já há horas demais para se lembrarem quando entraram ali. Sabiam que seu rei esperava uma resposta, uma informação preciosa, ou até mesmo um dos homens desertores para uma sessão de tortura.

Shisui estava preocupado com os acessos de raiva do seu amigo. Ainda lembrava o quanto Itachi era um menino amável com todos, inclusive consigo, que era um mero filho de um soldado. Lembrava das vezes que encontravam a mãe do Uchiha no jardim, e ela lia histórias para eles. Akiko era uma mulher delicada, sorridente e muito prestativa com todos no castelo. Não entendia como dois opostos tinham se unido em casamento, mas se lembrava vagamente do seu pai comentando que o reino das Flores precisava de um acordo militar.

Suspirou, sentindo que seu cérebro já não tinha mais ideias e que se fosse para ser decapitado pelo seu rei, que fosse.

— Comandante Shisui. — Foi chamado por um dos guardas reais. — O rei pede sua presença.

— Sim, estou indo. — Olhou para Ren. — Tente pensar em algo, nem que seja paliativo, Ren. Precisamos de respostas…

— Sim, comandante Shisui.

Caminhou lentamente pelos corredores, como se adiasse o inevitável. Itachi deveria estar tão irritado que não aguentou esperar que retornasse com algo e o chamou. Bateu na porta da biblioteca e sua entrada foi permitida, passou pelo arco e fechou a porta atrás de si. Viu que não era o único a ter sido convocado, Sasuke e Inoichi estavam na sala, aguardando o que o rei falaria.

— Preciso que prestem atenção… — Itachi olhou para Shisui e logo para Sasuke. — Sasuke vai em meu nome ao reino da Lua junto a Inoichi.

— O quê? — O príncipe exasperou-se.

— Isso que ouviu. Preciso de um representante, e Shisui não pode ir, precisa estar à frente do exército.

— Eu também preciso ajudar no exército, não quero ter que lidar com besteira política. — Revirou os olhos.

— Sasuke, aja como um adulto. Você acabou de assumir como general, mas também é o príncipe, e conseguir acordos com os reinos vizinhos, principalmente com a Lua, é tão importante quanto o trabalho no exército. Não seja infantil! — O mais novo apenas revirou os olhos e suspirou aceitando. — Ótimo, agora que estamos conversados. Shisui, o conselho admitiu que fizéssemos o que queríamos, mas não desista de pensar em outra alternativa.

— Sim, alteza.

— Coloque mais homens nos armazéns e outros escondidos para fazermos uma emboscada. Não sabemos em qual deles vão atacar, mas pode ser um passo que eles darão, afinal, precisarão de mais comida se estiverem escondidos em algum lugar. — Deu uma pausa longa, respirando, pensando em suas próximas palavras. — Sasuke, não tome nenhuma decisão sem o meu conhecimento, envie cartas através da sua ave e não arrume problemas — disse, sério.

— Claro, serei um perfeito diplomata — falou com desdém.

— Duvido muito, mas obrigado por tentar. — Olhou para o Yamanaka. — Inoichi, obrigado por toda a sua ajuda e nos vemos na volta, então.

— Foi um prazer, majestade. — O loiro reverenciou o rei.

— A carruagem sai amanhã cedo.

Reino da Lua


— Esperamos que tenham feito uma boa viagem, dada a pressa. — A rainha sorriu largamente para o homem loiro, que se aproximou da entrada do castelo. O cumprimento respeitoso do homem estendeu-se também ao marido de Hinata, que estava ao seu lado, porém não tão receptivo quanto a Hyuuga. — Sinto muito pelo pedido, Inoichi. Sei que Itachi precisa muito de sua ajuda, mas sinto que toda a ajuda é bem-vinda, não é mesmo?

— Majestades. — Dois passos para trás e esperou que Sasuke fizesse o mesmo, cumprimentando os donos daquela terra.

— Rainha Hinata, Neji… — Sasuke travou no cumprimento. — Devo chamá-lo de…

— Neji está de ótimo tamanho. — O rei não esboçou reação, positiva ou negativa para o Uchiha. — Já lutamos um contra o outro, creio que formalidades possam ser dispensadas, ao menos quando estivermos longe de outros ouvidos.

— Sinto muito — o Uchiha pediu, e o conselheiro da Rainha quis socar o príncipe por tamanha falta de educação. Madara esqueceu que havia outro jovem tolo para ensinar o básico?

— Não se desculpe. — Sorriu outra vez, mais gentilmente possível para relaxar os ombros tensos do Yamanaka. — Se meu marido não vê desrespeito, é porque não há, certo?

— Vamos até o salão principal para um rápido desjejum e podemos seguir até a biblioteca. — Neji tomou a mão da esposa e a frente na caminhada de entrada do palácio, contudo, Inoichi pigarreou atrás de si.

— Podem nos servir na biblioteca? — O mais velho decidiu continuar quando os olhos curiosos miravam seu rosto. — Tenho pressa em voltar ao meu dever. O rei Itachi está em uma situação delicada, e eu e seu irmão podemos fazer falta.

— Sim, podemos fazer isso.

Hinata seguiu mais à frente com Neji em seu encalço, como muitas vezes o Yamanaka viu acontecer desde que seu antigo rei havia falecido. Era bom ver sua majestade feliz ao dar ordens e comandar aquele reino como ninguém. Não que antes ela não pudesse, porém parecia mais um trabalho que algo mais leve ao lado do ex-comandante da guarda.

Seguiram após alguns minutos até os corredores largos e bem iluminados do castelo. Conhecia tão bem aquele lugar e sentia falta de estar em casa. Ainda gastava alguns instantes tentando se encontrar nos labirintos Uchiha, estando lá há meses. Era complicado não se sentir tão parte de tudo, mesmo com Itachi sendo tão bom anfitrião como sua própria rainha.

Os homens entraram logo após Hinata, Neji e logo atrás Inoichi, que olhou para trás, lembrando de não tirar mais os olhos azuis do moleque, irmão do rei. Sasuke não tinha tato, parecia não entender nada além de uma espada em punho, e a paciência de uma bebê chorando com fome; a receita certa para o desgaste, mas Itachi não era um gênio?

— Senhores. — Hinata sentou-se na ponta, à frente da lareira apagada, e, assim que o fez, todos os outros sentaram-se em seus lugares. — Temo que o assunto não seja o esperado por ambos. Nosso objetivo é a reconstrução do Reino do nosso novo aliado, Itachi Uchiha, contudo não estou aqui para oferecer-lhes grãos, metais, pedras ou tropas, mas, sim, um acordo benéfico que unirá ainda mais os reinos Hyuuga e Uchiha.

— Majestade, eu não deveria estar aqui para uma reunião deste grau de importância.

— É o que acha? — Neji sorriu cínico ao pegar a xícara de chá e a tomar com uma calma irritante para os dois homens, que nada entendiam.

— Chamei você também, pois sua parte talvez seja a maior em todo o acordo. — Hinata tentou parecer calma, mas a tensão de sua rainha, vista tantas outras vezes quando o velho Sarutobi tentava interromper sua fala, era coisa conhecida para o loiro. — Um casamento é algo maior que um papel assinado, oferecendo terras, colheita e soldados em tempos de guerra.

Sasuke o olhou como se tivesse entendido algo, contudo, para si, nada parecia se conectar. Casamento? Hinata estava oferecendo alguém a Itachi? E o que ele tinha a ver com tudo isso? Andou quilômetros a cavalo, andando e dormindo em carruagens, que apesar de bonitas, não eram nada confortáveis, para ouvir que alguma plebeia casaria com o Uchiha?

— Se estiver de acordo, Sasuke deve falar pelo irmão, certo? — O moreno concordou mudo para a rainha. — Então, podemos mandar a carta de agora, avisando ao conselho de Itachi, e Ino poderá voltar com vocês.

— Espera, Ino? — Os olhos azuis miraram a rainha. — O que minha filha tem a ver com tudo isso?

— Não ficou claro, velho? — O Uchiha tomou a frente. — Sua filha se casará com meu irmão.

Em um rompante, o homem mais velho levantou-se, jogando a cadeira que tomou atrás de si.

— Ino não vai se casar para que um acordo seja feito! Há opções, senhora. Nós podemos pensar em outras opções e meios. Prometo-lhes trazer duas delas até amanhã, me deem algum tempo.

— Entendo seu receio, mas, acredite, não temos melhor opção para acalmar os ânimos de ambos os reinos. Nossa aliança deve ser firme para que ninguém em lugar algum ache que deva atacar, pois a fraqueza diluiu anos de brigas entre nosso povo. Inoichi, peço não como sua rainha, mas como parte de sua família, que pense calmamente nesta opção e converse com sua filha, ela parecia disposta a ajudar.

— Falou com Ino, majestade? — Suspirou nervoso, lembrando com quem falava antes de fazer alguma besteira, mas estava possesso com o andamento, a abordagem e o plano de sua rainha. — Creio que não poderei aceitar.

— Por que não? — Sasuke mais uma vez esqueceu que sua boca deveria permanecer fechada. — Meu irmão é um bom homem, ele e sua filha já se conhecem, e ela vai ser rainha. Quanta honra…

— Sasuke, os títulos não são o problema. — Neji tentou falar calmamente, contudo, o irmão de Itachi parecia mais insuportável que o próprio. — Inoichi tem Ino como única filha, não imagino abrir mão de um pedaço meu e de Hinata assim tão facilmente.

— Sim, porém sempre levaríamos em questão a opinião de nossos filhos hipotéticos. — Hinata sorriu para o marido, buscando acalmar o homem, que revirava os olhos a cada palavra do Uchiha. — Inoichi, sei que o senhor e meu pai tiveram muitas conversas sobre a criação das filhas que os Deuses deram. Sei que pode parecer repentino ou assustador agora, contudo pense com carinho e ouça os argumentos de Ino. Confie nela e na educação que o senhor deu, e tente respeitar o caminho que ela escolher. Lembro que não foi contra quando anunciei minhas intenções de casar com Neji e guardo isso em meu coração, como prova de confiança.

O silêncio que tomou o lugar finalmente foi quebrado com os movimentos mais calmos do loiro, que colocou sua cadeira no lugar e voltou, respeitosamente, ao assento. Os quatro continuaram com a refeição, agora acompanhados de uma tensão pesada, que certamente traria uma indigestão.

— Posso fazer um pedido, majestade?

— Fique à vontade. — Hinata deixou de lado o chá que tomava e deu total atenção ao homem.

— Gostaria de conversar com minha filha antes da emissão e envio das cartas.
Capítulo 10

Nosso reino

Reino da Lua


Ino estava voltando para a ala do castelo onde ficavam as residências dos conselheiros, tinha acordado bem cedo para treinar arco e flecha perto do rio. Gostava da natureza, se sentia livre e desimpedida de qualquer coisa. Entrou pela sala e viu sua mãe sentada tomando um café, deu bom dia e caminhou pelo corredor extenso para chegar até seu quarto. Guardou suas coisas, lavou seu rosto e, quando o secava, ouviu gritos e se assustou, correndo até a sala, para então ver seu pai transtornado com algo que não tinha chegado ao seu conhecimento… ainda.

— Ino, o que estava pensando quando se ofereceu para casar com um assassino?!

— O quê? — sua mãe perguntou, aterrorizada.

— Do que está falando, papai? Eu não me ofereci para… — Parou de falar quando se deu conta de quem ele falava. — Itachi?

— Um regicida, Ino! — Inoichi berrou e andou de um lado para o outro. — Te dei tão boa educação, deixei que aprendesse a ler, sempre incentivei suas leituras… Talvez esse tenha sido o problema, está encantada com algum romance que leu, achando que casar com um rei…

— Não faça tão pouco da minha inteligência, papai. — Ela o interrompeu, o fazendo parar e a olhar. — Romances não são meus livros favoritos. — Sorriu e caminhou até a poltrona, se sentando calmamente. — Quero ser útil ao meu reino, estou cansada de ser apenas parte da mobília por aqui.

— Filha, você dá aula nos vilarejos, é querida pelas crianças, a rainha Hinata te adora… — Mesumi tentou amenizar a situação.

— Você não vai se casar por acordo, ponto final — ralhou.

— Sabe que a rainha Hinata pode me reivindicar para isso, não sabe? — Juntou as sobrancelhas, explicando o que seu pai, obviamente, já sabia.

— Está me desafiando, Yamanaka?!

— Sim, estou. — Levantou, estufando o peito. — Você e a mamãe casaram por um acordo, hoje se amam. Por que não pode acontecer o mesmo comigo?

— Eu não matei ninguém!

— Seu rei acaso é indigno e não deveria ter casado com a rainha Hinata? Ele matou centenas em guerras.

— É diferente, Ino…

— Não gosta de Itachi, é isso? — Seu pai apertou os olhos com o polegar e indicador e suspirou fortemente, tentando se acalmar.

— Escute bem, o reino do Fogo está instável, qualquer coisa pode acontecer e você vai estar lá, desprotegida.

— Papai, o reino do Fogo tem mais homens que o da Lua, não estarei desprotegida. — Cruzou os braços e quebrou o quadril para o lado, explicando o óbvio. — Sem falar que… é por isso que a nossa rainha precisa de ajuda, precisamos unificar nossos reinos e, pra isso, Itachi precisa estar no controle do dele e tenho certeza de que eu posso ajudar.

Sua mãe a olhava com orgulho. Por mais preocupada que estivesse, ver sua filha falando com tanta certeza de algo era inspirador. Ino sempre teve aquela personalidade forte e arredia, ela sabia disso, apenas esperava o momento em que iria enfrentar seu pai. Inoichi ainda a via como uma garotinha, era sua única filha, tinha mais medo de perdê-la do que de morrer. Mesumi viu que seu marido carregava medo no olhar, era notório o amor que tinha pela filha e tinha certeza de que moveria mundos para fazê-la feliz.

— Eu estou de acordo.

— Mesumi! — Inoichi censurou, virando para a esposa com os olhos arregalados.

— Obrigada, mamãe.

Inoichi respirou fundo e voltou seu olhar à filha, deu alguns passos e acariciou o rosto delicado, viu os olhos azuis brilhando de felicidade, o fazendo lembrar de quando deu permissão para ela treinar com Shikamaru, quando deu seu primeiro arco e flecha, quando permitiu que desse aulas às crianças e entre tantos outros desejos que sua filha tinha e ele foi capaz de concretizá-los. Ele sabia que tinha criado uma mulher forte e decidida, até demais ele diria, porém, tinha que deixá-la viver sua própria vida. Não podia mantê-la no castelo para sempre como uma princesa indefesa.

— Tudo bem… Vamos falar com a rainha Hinata.

Reino do Fogo


— Sasuke é um grande filho da puta. — Itachi jogou a carta em cima da mesa, e Shisui olhou para seu rei, esperando o restante da informação. — Hinata quer propor um casamento.

— Com quem? — seu comandante perguntou, se fazendo de inocente.

— Ora, não seja idiota. Sabe muito bem com quem…

— E por que está irritado? — Itachi respirou fundo e desviou seus olhos para o lado.

— Não queria que a garota casasse por um acordo, Ino parece ser uma mulher incrível.

— Todos casam por acordo, alteza… — Recebeu os olhos negros sobre si. — Rainha Hinata foi uma exceção, e você sabe disso. — O Uchiha estalou a língua e revirou os olhos.

— Eu… vi ela com as crianças antes dela ir embora… — Deu uma pausa, pensativo, iria admitir que Shisui estava certo e odiava ter que dar o braço a torcer. — Ela realmente tem potencial para se tornar uma ótima rainha. — Seu amigo sorriu, satisfeito.

— Acho que você tem uma carta para escrever, majestade.

O rei sentou-se e suspirou profundamente, sentindo o peso de mais um acordo, agora não qualquer um, pois esse envolvia outro alguém diretamente. Uma vida presa à sua, com mais responsabilidades que seu povo, que precisava que ele fosse justo e inteligente tomando decisões, porém um casamento era sobre paciência, companheirismo e coisas que ele jamais seria cobrado sendo apenas um rei justo.

Não poderia simplesmente se trancar em um quarto e fingir por alguns instantes que não era o marido de alguém, como fazia quando não suportava mais seu cargo. Alguns instantes, nada mais, porém seu povo não sabia. Não estava lá para notar sua ausência por alguns minutos, mas Ino estaria. Não era tão ruim pensar, enquanto a pena arrastava a superfície, marcando o papel, que talvez o caminho mais difícil pudesse ser o melhor. Certamente aquela mulher conquistou alguns cidadãos e parecia gostar do que descobria de suas terras. Poderia ser mais que perfeita para o trabalho de unificação dos reinos e trazer finalmente a estabilidade ao seu próprio.

Itachi concluiu a carta exigindo que o irmão se desculpasse com Hinata até por coisas que ele imaginava não ter feito. Estendeu o papel ao amigo, que sorriu ao ler cada linha e terminou acenando para o Uchiha.

— Daqui a alguns dias, será um homem casado. — Shisui não parecia debochar e sim tentar animar Itachi, que não estava tão certo de sua própria decisão.

— Sim, daqui a poucos dias.

[...]


— Bem-vindos de volta — a voz amena e ligeiramente nervosa anunciava aos recém chegados sua presença.

— Uma bela bosta viajar tanto assim e tão rápido. Não tem pena do seu… — Ao se aproximar do rei, Sasuke tomou um leve soco acima do estômago e sua fala foi interrompida. — Seu merda…

— É sempre revigorante revê-lo, irmão… — Sorriu, ajeitando o mais novo, que ainda o xingava baixinho ao passar pela entrada, e arrumou sua postura para receber os demais membros da comitiva. — Inoichi, boa tarde.

— Quase noite, rei Itachi. — O Uchiha já havia pensado que haveria uma mudança no comportamento do homem, antes tão calmo. Seriam família em poucos dias, e seu irmão havia alertado que o futuro sogro não tinha gostado nada de saber do acordo. — Espero que os dias não tenham sido difíceis.

— Não houveram novas movimentações. Está tudo sob controle.

— Assim espero. — Uma ameaça? — Majestade, trouxe comigo minha única filha, meu bem mais precioso, e espero que ela esteja sempre segura enquanto estiver sob sua proteção.

Sim, certamente Itachi não entendeu errado. Estava sendo ameaçado, mas entendia o lado do homem, que perderia sua única filha por um tratado.

— Pode confiar que darei minha vida para protegê-la, senhor. — Apertou com firmeza a mão oferecida a si e olhou para ela.

Ino sorria pequeno, nem parecia a mulher de língua afiada, pronta para ir contra qualquer pensamento que não concordasse, não importava quem fosse. Ao se aproximar, reverenciou o rei e manteve a pose de menina bem educada por alguns instantes.

— Senhorita, bom revê-la. Parece que faz muito tempo.

— Não foi tempo suficiente para tantas formalidades… — Ao notar o olhar do seu pai, Ino voltou ao rei com um novo sorriso nos lábios. — Sim, majestade, tenho a mesma impressão.

O jantar foi servido, e o silêncio constrangedor e o barulho dos talheres foi o acompanhamento. Ao terminarem a refeição, Itachi disse para eles ficarem à vontade. Ino e Inoichi foram para os seus aposentos descansar da viagem, e Itachi e Sasuke foram até a biblioteca. Entre discussões sobre o quanto Itachi estava fazendo o que Madara tanto queria, unir os dois reinos, e as repreensões do rei para com seu irmão sobre seu comportamento, ouviram batidas na porta.

— Entre. — Itachi liberou e viu um Shisui sem fôlego e com o rosto suado e vermelho. — O que houve?! — Ele levantou preocupado.

— Atacaram… — respirou — outro armazém.

— Merda! — falou o rei, transtornado, porém a mão de Shisui foi levantada, pedindo para ele aguardar. — Anda logo, homem!

— Os soldados conseguiram prender dois dos rebeldes.

— Isso! — Sasuke comemorou e estalou os dedos antes de falar: — Posso interrogar?

Itachi levantou a cabeça com raiva em seus olhos e disse: — Eu mesmo farei isso…

Tomou a frente, indo de forma apressada até a parte inferior do castelo. Nas masmorras, pediu mudo a indicação do amigo, que, ainda ofegante, apontou a direção que o rei deveria seguir. Itachi adentrou o lugar sujo e úmido, pronto para mostrar o que de melhor seu pai o ensinou, porém o único homem preso naquela cela não respondia aos chamados de Sasuke.

O irmão do rei o sacudiu algumas vezes, e o homem, quase inconsciente, murmurava baixo uma única palavra.

— Fale de uma vez, inútil!

— Pe… Pedra… — O homem cuspiu um pouco de sangue e finalmente parou de respirar.

Parecia um alívio para o sofrimento do ex-soldado do rei.

— O miserável morreu! — Seu irmão possesso bateu algumas vezes nas grades e xingou muitas outras, enquanto o rei pensava no próximo passo.

— Cadê o outro? — Itachi olhou para Shisui, que franziu o cenho. — Você disse dois…

— O outro morreu no caminho, alteza. Usaram explosivos dessa vez, alguns soldados nossos ficaram feridos também.

— Mas que merda! — berrou, possesso. — Explosivos… onde conseguiram isso?

— Ele disse Pedra… — Sasuke usou o cérebro que seu irmão até aquele momento suspeitava que ele não utilizava. — Só pode ser o reino da Pedra! Eles estão tendo ajuda…

— Os rebeldes da Pedra ajudaram na rebelião no reino da Lua, não ajudaram? — Shisui perguntou, e o rei pareceu ponderar enquanto caminhavam de volta para a biblioteca.

— Pode ser, mas se aquele velho… — Respirou fundo, se controlando da fúria que predominou em seu corpo.

— Ele pode nem saber, alteza — Shisui comentou, fechando a porta atrás de si. — Foram para o reino da Pedra em busca de asilo.

— Só sabemos que alguém do reino da Pedra estava ajudando com os explosivos.

— Infelizmente, com a ajuda do antigo rei do Fogo. — Shisui suspirou. — Mas não podemos ter a certeza de que o rei da Pedra sabe de algo.

— Mas se aquele velho ousar nos trair… — Itachi encarou seu comandante com fogo em seus olhos, aquele brilho rubi que tanto se falava nas histórias estava presente ali. Sasuke arregalou os olhos ao ver o irmão daquele jeito, nunca presenciou aquilo e pensou que talvez a coroa trouxesse mesmo a maldição dos Uchiha. — Eu mesmo cortarei a cabeça de Onoki. — Shisui prendeu a respiração e ficou estático onde estava, só voltou a respirar quando o seu rei já estava sentado em sua cadeira, passando as mãos pelos cabelos, claramente nervoso.

— Nós vamos resolver isso, Ita… — Sasuke falou com cautela.

— Assim espero, irmão. Eu quero esses rebeldes presos! — Os dois homens à sua frente assentiram no reflexo, então ouviram batidas na porta. — Entre.

— Desculpe atrapalhar, majestade, mas trago informações do centro do vilarejo — um dos soldados falou, um pouco preocupado.

— Prossiga. — Shisui tomou a frente, olhando para seu subordinado.

— Os civis souberam do ataque e estão questionando o reinado do rei Itachi.

Sasuke fechou os olhos, com medo da reação de seu irmão. Tinha acabado de assistir a pior expressão dele desde que nasceu, não sabia o que esperar. Olhou de soslaio e viu Itachi respirar fundo. Compartilhava daquela sensação dele, estava de saco cheio desses cretinos. Se continuasse assim, o reinado do mais velho iria acabar mesmo antes de começar verdadeiramente. Admirava as mudanças que queria fazer no reino e nem imaginava um lugar como o que ele queria, mas gostaria muito de poder vê-lo.

— Obrigado, soldado Kemi. Pode se retirar — o comandante deu a ordem, e o homem saiu, voltando ao seu posto. — Tem uma coisa que podemos fazer… — Shisui virou para seu rei, que o mirou, aguardando sua sugestão. — Apresentar a rainha amanhã pela manhã e evitar uma guerra civil.

— Ino acabou de chegar, Shisui! Não vou pedir para que se case comigo na calada da noite. Já não basta ser um acordo?

— Ela também sabe que é um acordo, alteza. Ino Yamanaka sabe onde está se metendo, e, segundo a rainha Hinata, veio por escolha própria — expôs os fatos ao Uchiha e engoliu em seco. — Ela vai ser a rainha, converse com ela e explique a situação.

Jogou-se na cadeira, suspirando antes de dizer: — Por que eu acho que isso não vai ser tão fácil?

— Porque a mulher tem a língua afiada, mas é a melhor rainha que você poderia escolher.

— Concordo com o Shi. — Sasuke deu de ombros. — Minha cunhada não perde em nada para a rainha Hinata.

— Cala a boca, Sasuke. — Itachi revirou os olhos. — Vou ver se ainda está acordada…

Itachi levantou e caminhou pelos corredores de maneira arrastada, estava cansado de pensar tudo estrategicamente. Acordos, prender rebeldes, traições de aliados, seus próprios súditos duvidando de sua capacidade, e um casamento que não seria nada mais do que um papel. Parou em frente à porta do quarto em que a Yamanaka estava, pensando se aquela seria a melhor solução. Por um lado, Shisui tinha razão, apresentar uma rainha calaria a todos sobre o reino estar instável, além de servir de assunto para abafar os ataques.

Por outro lado, não queria que Ino o odiasse por não dá-la um casamento decente, ao menos uma pequena festa. Faria de tudo para a loira se sentir feliz em suas terras, mesmo que tudo que a fizesse ficar ali fosse um acordo diplomático. Odiava aquilo, sempre pensou como Hinata, queria se casar por amor, mas nunca imaginou como o seu futuro poderia ser tão conturbado. Era inevitável o peso da coroa que nem sequer usava, e agora colocaria esse peso sob a cabeça de outra pessoa. Tudo para ter controle sobre seu próprio reino, o respeito de seus súditos e a força que só um casal tem na monarquia.

Assustou-se quando a porta se abriu à sua frente sem nem sequer bater. Arregalou seus olhos e a Yamanaka estava à sua frente, também mortificada que o rei estava ali. Os dois sustentaram o olhar, mas Itachi desviou os olhos, coçando a nuca, e sorriu sem graça.

— Eu… já ia bater.

— Precisa de alguma coisa tão tarde, alteza? — perguntou.

— Gostaria de conversar com a senhorita, se possível.

— Eu ia até a sacada, me acompanha? — Ele concordou mudo, e a loira fechou a porta, se colocando a caminhar com o rei em seu encalço. Saíram pelas portas duplas, e Ino colocou as mãos no guarda corpo assim que o atingiu. — Em que posso ajudar, alteza?

— Queria perguntar como se sente com tudo isso…

— Me sinto feliz em poder ser útil para o meu reino, e, em breve, para o seu também.

— Nosso. — Itachi deu alguns passos em sua direção, se juntando a ela perto do guarda corpo, e viu as bochechas da mulher coradas. — Se vai ser a minha rainha, também será seu.

— Sei como um acordo funciona, majestade… — Os olhos azuis voltaram-se para Itachi. — Espero estar à altura de suas expectativas, farei o meu melhor.

— Tenho certeza de que sim. — Um sorriso singelo brotou nos lábios do Uchiha. — Preciso te deixar a par de algumas coisas… — Ela o mirou com receio. — Atacaram outro armazém, meus súditos estão suspeitando que não sou capaz de reinar, então Shisui sugeriu que…

— Apresentasse a nova rainha… — Ela completou a frase do rei, que a olhou surpreso. — A princesa Temari e a princesa Tsunade não foram as únicas nas aulas de diplomacia da rainha Hinata. — Ela sorriu confiante. — Além de que, já li livros o suficiente para saber como isso funciona.

— Você é muito perspicaz, Ino. — A loira passou a mão pelos longos fios loiros, os jogando para trás. — Não queria ter que pedir isso pra você, queria te dar uma festa, um casamento à sua altura.

— Não sou uma princesa, rei Itachi. Não precisa me impressionar, sei do meu papel aqui. Caso seja necessário, nos casamos agora mesmo.

Itachi a olhava admirado, era impossível não notar o quanto Ino Yamanaka era uma mulher interessante e inteligente. Estava surpreso como quanto ela podia ser racional e pensar rápido em uma situação em que tudo que lhe causou foi ódio.

— Podemos mesmo?

— Devo usar vermelho? — Sorriu para Itachi, que riu com a naturalidade com que ela estava lidando com tudo aquilo. Talvez fosse bom alguém tão leve para equilibrar com seu temperamento, que parecia só piorar. Ino seria uma ótima rainha.
Capítulo 11

Acordo selado (?)

O nervosismo, infelizmente, era incontrolável para ele. Não esperava estar ali, não naquela noite, não nas circunstâncias que estavam, não da forma que esperava por ela, mas os fins justificam os meios, não é? Então por que seu coração acelerado e temeroso buscava consolo em respirações calculadas, de forma que seus órgãos internos entendessem que deveriam se acalmar e o rebuliço dentro de si não tinha sentido?

Era ele, um rei, um homem antes de tudo, sem muita noção do que fazia, porém tentava sempre alcançar o certo, o caminho justo e com menos perdas para todo seu reino, sua família e sua vida. Então por qual motivo seu estômago revirava mais forte ao olhar para a porta? No pequeno cômodo, Sasuke ao seu lado, Shisui à sua direita e Inoichi à sua frente. Entre eles, mirando também a porta, o sacerdote que faria a união nada comum no meio da noite.

Após a pequena conversa com Ino na sacada, deixou a futura rainha em seus aposentos e pediu a ajuda do amigo e de Sasuke para organizar o mais breve possível o casamento. Era aquilo, deveria servir. Ela estava de acordo, e era o que ele precisava para manter a cabeça fria, mas por que era mais fácil pensar que agir? O corpo do rei travou ao ouvir a porta pesada ser arrastada para que ela pudesse passar.

Tentou rapidamente se acalmar e, satisfeito com o pequeno desacelerar de seu coração, virou as escuras íris breu para Ino Yamanaka. A garota certamente se preparou melhor que o rei para a ocasião; seu vestido vermelho era belíssimo e deixava a pele clara da mulher ainda mais evidente, mesmo com a luz baixa de alguns castiçais espalhados e a claridade da janela atrás de si.

O tecido leve cobria todo seu corpo, deixando os seios mais evidentes pelo decote fundo até o meio de seu tronco, onde o tecido se agarrava em cada dobra de seu corpo com a ajuda de elementos feitos de couro. Em seus ombros, que também ficavam de fora, em um pequeno recorte, havia uma espécie de capa, que acompanhava o caimento fluído do vestido. Os detalhes em couro marcavam a cintura, além de existirem algumas tiras que adornavam o colo, deixando o vestido rústico e, ao mesmo tempo, elegante.

Um pigarro chamou sua atenção, e o sorriso da mulher que já estava à sua frente foi visto. Itachi achou Ino a visão mais perfeita que havia tido a honra de pôr seus olhos em dias, porém a tensão novamente tomava seu corpo. O homem velho e levemente irritado por ter sido tirado de sua cama naquela hora deu início às tradicionais falas de todo sacerdote em cada casamento feito naquela terra. As juras de amor, carinho e companheirismo até que o Deus da morte pudesse carregar um dos dois eram feitas. Ele não gostaria de pensar em nada daquilo naquele momento, parecia errado fazer algo tão grandioso quanto unir sua vida à de outra pessoa de forma tão apressada e sem organização, então seu foco era na garota de bochechas rosadas e lábios pintados de vermelho à sua frente.

— O rei, mesmo sendo a maior autoridade de nossa terra, não estará acima de Deus ou do amor que ele, em sua infinita sabedoria, derramou sobre a terra. Sua rainha, meu senhor, é parte sua, a partir de hoje até quando nosso Deus permitir. Está de acordo com tudo, majestade?

— Sim. — A única vez que seus olhos abandonaram a garota. Olhou firmemente para o sacerdote como se afirmasse que aquilo era a mais absoluta certeza e, mais uma vez, se voltou a ela, segurando as mãos geladas de Ino. — Farei o meu melhor, Ino.

— Senhorita, está de acordo e faz esse enlace por sua vontade, com a benção de seu pai?

— Sim. — O sorriso confiante da garota perspicaz que ele conhecia há pouco tempo tomou a face rubra. — Também farei o meu melhor, alteza.

— Declaro diante de Deus e dos homens que Itachi Uchiha é hoje, e até sua morte, protetor e marido de Ino, denominada a partir de então como Uchiha, também herdeira de Hagoromo. — O velho aproximou as mãos de ambos até sua frente e as uniu com uma corda de sisal, a amarrando por três vezes, como os rituais daquela terra pediam. — Assim, Deus e céu, terra e homem, inferno e todo mal que lá habitam, saberão que são pertencentes um ao outro.

Itachi pegou na mão de sua agora esposa, e os dois caminharam para longe dos olhares de todos, ficando a sós.

— Quero lhe dar algo… — Itachi disse baixo. — Me acompanha até meu… nosso quarto. — A loira pareceu estremecer ao ouvir as últimas palavras do rei. — Pode dormir em seu quarto, Ino. Amanhã conversamos sobre isso. — Foram juntos, ainda de mãos dadas, até os aposentos reais.

Ino entrou e ficou embasbacada com o quanto era maior que o quarto em que estava. O dossel da cama era em madeira escura, e o tecido vermelho com dourado ornava a cama. Algumas mesas de apoio, cômodas e grandes armários compunham os móveis do quarto. Perto das portas duplas da sacada, havia um recamier e, logo ao lado, abaixo das janelas, uma poltrona, que parecia confortável só de olhar. Itachi pediu que ela sentasse no banco capitonê, que ficava logo em frente a uma penteadeira do outro lado do quarto.

Ela sentou-se, ainda desconfiada. Encarava seu reflexo ansioso e aflito, foi então que viu um medalhão surgir em frente de seu rosto, entre si e o espelho. Ficou completamente surpresa, as mãos de Itachi foram delicadas, e ela afastou seu longo cabelo, que possuía algumas tranças enfeitadas com pequenos brilhantes, tudo que deu para fazer de última hora. O rei fechou o colar em volta de seu pescoço e soltou, fazendo o medalhão pender, ficando próximo do vale dos seios.

Ino passou a mão pelo pingente, encantada. O brasão da família Uchiha estava ali para lembrá-la que agora era uma rainha.

— Esse colar era da minha mãe…

— Não, alteza, não posso aceitar… — Desesperou-se com a revelação, porém a mão de Itachi foi cautelosa em seu ombro, querendo acalmá-la, e ela o viu curvar os lábios pelo reflexo do espelho.

— Primeiro, me chame de Itachi, sim? Sou seu marido. — Ela suspirou e acenou positivamente. — Segundo, quero que fique com ele. É minha esposa, minha rainha e a mulher que vai dividir a vida comigo de agora em diante.

— Itachi… — Ainda parecia incerta quanto a chamá-lo pelo nome. — Eu… obrigada.

— É uma Uchiha agora, por mais que a sua língua afiada já fosse uma característica nossa. — O rei espremeu os olhos em um riso sincero e divertido, a fazendo rir. — Mais importante ainda, estamos ligados um ao outro agora.

— Eu sabia da passionalidade dos Uchihas, mas você está me deixando preocupada do quanto isso pode sair do controle.

— Não vai, seremos bons companheiros. — O Uchiha se afastou e tirou a fita que prendia seus cabelos. — Caso queira, pode retornar para o seu quarto.

Ino levantou do banco em que estava. Ainda segurava o medalhão em seu peito, nervosa em dizer o que estava pensando. No entanto, sua mãe sempre falou da noite de núpcias e do quanto ela deveria estar preparada. Respirou fundo e, ao ver os olhos negros voltados para si, travou. Aquilo era novidade para si, nunca ficou sem palavras.

— Você não vai… — Os olhos azuis desviaram para um canto qualquer, e sua outra mão amassou parte do tecido do vestido.

— Oh, não, Ino — Itachi falou, assim que percebeu sobre o que ela falava. — Não irei tocar você, não se preocupe.

Ela não estava preocupada, até desejava que soubesse logo sobre o que tudo aquilo se tratava e acabasse com sua curiosidade e também seu receio. Sua mãe sempre disse que os homens só pensavam sobre a noite de núpcias, loucos para tomarem o que era seu de direito; o corpo de sua esposa. Então por que ele não a queria? Acaso era feia? Sem graça? Não era suficiente para o rei? Aquilo tinha a magoado, mas sentiu a raiva subir por seu estômago até sentir suas bochechas quentes.

— Tudo bem — falou ríspida, andando até a porta do quarto. — Voltarei ao meu quarto, amanhã conversamos.

— Boa noite, senhora Uchiha.

— Boa noite. — Fechou a porta com força, deixando Itachi sem entender seu rompante.

[...]


— Está mesmo pronta, minha filha?

— Sim, papai. — Sorriu, mesmo que sem vontade, tentando deixar claro ao mais velho que o caminho que seguiu não tinha volta.

Andou calmamente até a porta, que rapidamente foi aberta pelo cavalheiro que a acompanharia e saiu, sendo seguida por Inoichi e pelo homem de armadura. Ino fechou seus olhos e respirou profundamente, tentando esquecer a noite anterior, sim, a de seu casamento. Não queria pensar que não tivesse ao menos uma explicação do fato de não ser atraente ao rei, mesmo tendo dúvidas se queria de fato ouvir o motivo de Itachi não selar o acordo com um beijo.

O celebrante não pediu, talvez nem fosse costume do reino, contudo acreditava que todo casamento era selado com um beijo. Dispensou o pensamento quando seguiu o homem que tomou a frente. Pouco mais de um lance de escadas e dois corredores, esperou que o guarda abrisse a porta e entrou com seu pai.

— As joias da antiga rainha, majestade. — Não entendendo o que o homem queria dizer, Ino pediu muda para que ele concluísse: — O rei pediu que escolhesse uma coroa para a apresentação no vilarejo, antes do desjejum.

— Ah. — Ele nem mesmo foi consigo para dizer qual mais gostava? Como marido, Itachi estava sendo um ótimo rei. — Mais alguma ordem?

— Não, senhora. Autonomia total em sua escolha.

A face de Ino certamente chamou a atenção de Inoichi, que saiu em defesa do genro.
— Ele deve estar organizando tudo para a apresentação, filha. Leve isso como um ato de confiança do rei.

— Claro. — Distanciou-se da porta e caminhou até um dos móveis que pareciam escrivaninhas, lindamente ornamentadas.

Abriu a primeira gaveta e quase foi indelicada ao tossir incrédula com a beleza das joias de sua sogra. O colar em seu peito deveria ter mais valor sentimental e não era nada simples, contudo, seus olhos azuis admiraram a peça cravada de diamantes por toda a fina corrente e decorada com uma safira perfeitamente lapidada azul marinho. Aquilo deveria ser proibido de tão lindo.

Fechou imediatamente a gaveta, pedindo ajuda ao homem que a acompanhava. Ele apontou a cômoda mais próxima à janela. Ao abrir, notou o cetim preto do forro que envolvia belas coroas grossas de muitos tipos, certamente para cada ocasião. Ino abriu outras duas gavetas e finalmente viu algo que poderia ter imaginado vez ou outra, em seus sonhos mais loucos, tarde da noite.

O aço parecia prata, mas era mais brilhante e mais próximo do branco. Ao pegar notou o peso, mesmo que parecesse leve. Dois aros serpenteavam um pelo outro, em ambos os lados, até o centro, segurando dois diamantes translúcidos nas pontas, fazendo a dupla perfeita ao lado de uma maior, vermelha, como o vestido que havia usado em seu casamento. Achou a peça indescritível e teve certeza que, das que havia visto, era a que mais parecia consigo. Fechou a gaveta atrás de si e, feliz com a escolha, ofereceu ao pai, pedindo muda para que ele a colocasse.

— Está bom, papai? — Apertou o objeto entre os fios loiros e sorriu com o acenar do mais velho.

— Uma perfeita princesa, minha filha.

— Alteza, podemos ir?

— Claro. — Antes de sair, quando o homem abriu a porta outra vez para si, lembrou de uma coisa. — Qual é mesmo o seu nome?

— Kemi, senhora.

— Certo, sou Ino Yama… Uchiha, se tiver dúvidas.

O homem a reverenciou, e Ino tomou a frente, sempre acompanhada de perto. Ficou irritada por um instante, por saber que agora não havia mais jeito de fugir, sempre teria alguém em seu pé. Seguiu até a sala de jantar, observando Sasuke e Shisui se levantarem de seus lugares para cumprimentá-la, mas seu marido não fez o mesmo. Sua raiva de Itachi parecia ser maior que o tempo que já passaram juntos.

— Bom dia, cunhada. Espero que a noite tenha sido boa… — O sorriso do Uchiha deixava claro que havia ali muitas intenções, e Shisui deu um tapa na nuca de Sasuke, que reclamou. Ao olhar para o rosto de Ino, ia tentar consertar a burrada, mas Shisui falou em sua frente.

— Desculpe, majestade. Esse monte de estrume não é acostumado com mulheres e não tem educação suficiente para viver com uma.

— Eu estou, sim, com toda certeza já estive em mais camas que… Ai! — Outro tapa de Shisui estalou na nuca do moreno, que, desta vez, ameaçou usar sua espada.

Ino tapou a boca, tentando não gargalhar das palhaçadas de Sasuke, contudo fingiu imediatamente reprovação aos atos do cunhado quando notou seu pai irritado ao lado, nada diferente de seu marido do outro lado. Disposta a dar fim à irritação matinal dos homens ao seu lado, começou a comer, como se Sasuke não continuasse falando asneiras, muitas vezes engraçadas, mas ainda sem receber palavra alguma do marido.

Resolveu não se atentar ao que Itachi teria a dizer, se ele quiser falar, que falasse, se não, ela mesma arranjaria coisa melhor para se preocupar. Havia muita coisa para ser descoberta, agora era rainha, não uma desconhecida de um lugar distante. Teria o povo para reger e esperava mesmo que eles gostassem de si, até a amassem futuramente, como Hinata era amada pelos habitantes da Lua. Tudo isso com o tempo, e olhando o marido discutir com o irmão mais novo, diria que até aquilo poderia se encaixar futuramente.

Olhou para o pai assustada ao ser chamada e se lembrou de seu primeiro compromisso como rainha. Seu coração acelerou conforme os passos eram dados. Seu pai a acompanhava de perto, tentando lhe dar forças à sua maneira. Shisui dava ordens aos demais soldados, Sasuke tentava voltar à pose que o fazia parecer insuportável fora do castelo, e Itachi tomou a frente para abrir, ele mesmo, a porta da carruagem.

A mulher entrou assim que o marido lhe deu a mão de apoio e se acomodou em seu lugar. O Uchiha deu a volta e, após conversar com alguns homens, entrou e se sentou à sua frente. Sozinhos agora, a loira não conseguia pensar em um só assunto que pudesse dar fim ao silêncio, ou apenas acalmar seu nervoso estômago, mas felizmente não precisou, pois a voz de Itachi tomou o pequeno local.

— Era a coroa favorita de minha mãe — Ino olhou para o moreno sem jeito, pronta para dizer algo, porém ele continuou: — e a minha também.
Capítulo 12

Raiva silenciosa

Ino mantinha os olhos fechados e segurava com força o tecido do vestido. Escolheu um bonito, tom de rosa, bem simples. Respirou fundo uma, duas, três vezes e sentiu a mão de Itachi na sua, levando suas pálpebras a abrirem e verem os negros bem diante de si.

— Não precisa ficar nervosa.

A carruagem parou, e um soldado avisou que já tinham chegado à praça onde aconteciam os comunicados aos súditos do Fogo. O rei saiu e logo deu a mão para sua esposa, que prontamente aceitou, descendo devagar e tentando segurar seu nervosismo e ansiedade para si. Os dois caminharam lado a lado, de mãos dadas, até o pequeno palanque posicionado bem defronte à praça. Itachi soltou a esposa e foi o primeiro a se posicionar bem na frente, cumprimentou o povo com um grande sorriso, e todos bateram palmas.

— Sei que a última vez que estive aqui foi para anunciar uma tragédia, porém, como vocês sabem, foi uma necessária. — Olhou para Shisui, que estava afastado, e seu amigo o encorajou. — Nunca me imaginei nesse posto, mas, como disse a vocês uma vez e hoje repito: imagino um reino próspero, com meu povo feliz, podendo trabalhar com dignidade e sem se preocupar com mais derramamento de sangue. — Respirou fundo e olhou para trás, pedindo mudo para que Ino se aproximasse. — E o primeiro passo para construir o reino que tanto almejo era buscar uma rainha com bom coração e determinada a caminhar comigo nessa missão.

Itachi viu que algumas pessoas cochichavam, o que fez ele engolir em seco, mas Ino apertou sua mão, e ele cruzou seu olhar com o dela, que o incentivava a continuar. No entanto, quando curvou seus lábios e voltou sua atenção ao público, que aguardava suas palavras, notou algumas crianças chegando para se juntarem à multidão.

— Olhem! — O garotinho apontou, chamando a atenção das pessoas. — É a nossa professora… — Todos começaram a passar a informação uns para os outros, e a surpresa nos rostos era unânime.

— Apresento a vocês a nova rainha do reino do Fogo, Ino Uchiha! — Itachi finalizou, recebendo os gritos animados dos cidadãos de suas terras. A verdade era que Ino, em tão pouco tempo, conseguiu conquistar seu povo mais do que ele mesmo. Ela sorria e acenava para todos. Os dois se olharam e sorriram, felizes pela notícia ter tido o efeito que queriam.

[...]


— Senju, é sempre um prazer recebê-lo.

— Poupe a fala mansa, garoto. Sei de qual saco seu rei saiu. — O homem de cabelos grisalhos sorriu para o guarda real, que o recebeu e seguiu Shisui até a grande sala, na qual o seu rei aguardava.

Itachi os esperava sentado à grande mesa, ao seu lado a esposa e perto do irmão, que fingia ler alguma coisa.

— Ótimo, estão se multiplicando… — O Senju sorriu ladino, recebendo o cumprimento mudo do rei, junto à cara nada feliz do fedelho mais novo. — Deve ter acontecido algo com o meu convite, mas fico feliz em ser incumbido de dar os parabéns em nome do reino da Folha.

— Ficamos lisonjeados, Tobirama. — Itachi levantou-se para receber o convidado e fez as honras para que ele se sentasse. — Sirva-se e, logo após, podemos ir para a reunião.

A refeição fora tranquila, mesmo com as brincadeiras de Tobirama sobre os Uchihas, que não agradaram em nada Sasuke. Falaram pouco, e algumas perguntas sobre o casamento e a antiga Yamanaka foram feitas. Claro, aquele compromisso foi firmado sem a presença de nenhum estrangeiro, a curiosidade do homem era completamente compreensível. Ino foi a primeira a deixá-los. Poucos minutos depois, três homens seguiram Itachi até a sala de reuniões, tomaram seus lugares à mesa já pronta com um enorme mapa e o silêncio tomou parte do lugar, sendo interrompido pelo rei:

— Sinto muito não o deixar descansar devidamente, mas pensei em uma solução definitiva para os problemas entre nossos reinos.

— E qual seria? — Arqueou as duas sobrancelhas antes de continuar: — Vai matar outro rei em meu lugar?

— Olha aqui, seu verme albino! — Sasuke alterou-se, se erguendo da cadeira e apontando o dedo para Tobirama, que não se moveu, nenhum pouco preocupado com o rompante do mais novo. — Tenha respeito ao meu irmão. Estamos em terras Uchihas, posso matá-lo agora mesmo!

— Pode tentar, fedelho. — Abanou a mão direita à frente do rosto, fingindo afastar um cheiro desagradável. — Ainda fede a leite, criança.

— Seu velho! — O Uchiha foi segurado por Shisui, que sempre, estrategicamente, a partir do encontro com a rainha Hinata, ficava ao lado do mais novo para segurá-lo.

— Calma, Sas. Conhecemos Tobirama e sua fama de brincalhão.

A face sisuda do homem parecia não concordar em nada, contudo, o Senju acenou para o rei. — Sim, sim. Vamos logo com isso, por favor.

— Um tratado. — Simples e muito direto. Itachi apontou para as terras mais trabalhosas de seu reino, e Tobirama bufou. — Sei que meu pai e o senhor lutaram por essa parte do reino.

— Seu pai roubou! Tsunade nasceu naquele dia, onde eu poderia estar além de ao lado da minha cunhada, conhecendo minha sobrinha?!

— Entendo seu lado, desde o dia que ouvi essa história pela primeira vez.

— E foram muitas… — O mais novo completou, de cara amarrada, olhos fechados e braços cruzados.

— Eu quero que a Folha retome a posse para plantio dessa área, e para nós apenas cinquenta por cento do que colher.

— E é isso? Vocês roubam e deixam que nós usemos, mas dando boa parte a vocês? O que mais quer? Que eu treine o pirralho do seu irmão e o leve por aí para colher flores?

— Seu desgraçado! — Sasuke quase pulou sobre a mesa para agarrar o Senju, contudo, o comandante da guarda real era muito ágil e segurou Sasuke antes que alcançasse o albino. — Seu infeliz, você me paga!

— Trinta por cento e a segurança da área?

— Dez — o Senju sorria miúdo para Sasuke, que era acalmado por Shisui —, e levo o moleque como aprendiz.

— Pare de atormentá-lo… — O rei quis rir de mais uma leva de xingamentos do irmão. Sasuke não percebia que fazia exatamente o que o Senju queria? — Quarenta e cinco, e mantenho a segurança da safra e dos aldeões que se instalarem por lá.

— Vinte.

— Trinta e cinco, e se o Sasuke não parar imediatamente, o leve também — Itachi disse sereno, sendo atendido imediatamente pelo irmão, que sossegou assim que ouviu o mais velho. Estavam em uma negociação, e se o mais novo queria tanto fazer parte do reinado, deveria ter mais paciência para lidar com alguns homens desagradáveis. Tobirama nem era o pior deles.

— Como uma promessa de boa-fé, trinta por cento da safra, e nós também mandamos alguns homens que fazem a vigia da divisa. — A face estranha do rei o fez continuar: — Meu irmão e eu vimos em sua posse, após tudo aquilo, que era o momento do novo e deixar tudo para trás. Hinata me fez entender que nem tudo é bom só porque funciona, e isso não é tão fácil quanto parece, mas sei que há mudanças benéficas, Uchiha.

Tobirama se levantou, e Itachi fez o mesmo. Uniram suas mãos em um aperto longo e firme, como a promessa de melhoria e companheirismo para ambos os reinos.

— Nós também acreditamos nisso, Senju.

— Espero poder levar isso por escrito para Hashirama e dar fim a essa história de uma vez.

— Tudo estará pronto até sua partida. — O sorriso genuíno do Uchiha selou a promessa de Itachi, que feliz, recebeu o aceno do amigo e do irmão.

— Fedelho, tenho um convite especial para fazer. — Tobirama mirou Sasuke e sorriu ladino para o Uchiha. — Gosta de caçar?

— Claro, já ouvi dizer que os cervos da Folha têm duas vezes o tamanho de qualquer outro em nossas terras. Gostaria de um desses para decorar o castelo.

— Ah, moleque, tem um animal de sobrenome Namikaze que ronda o castelo, e eu estou louco para abater. — A risada de todos foi ouvida, quebrando a tensão das negociações do tratado. — Eu falo sério. Aquela pele daria um bom tapete.

Itachi balançou a cabeça, rindo em descrença. Saíram da sala de reunião e ofereceu um quarto para Tobirama poder descansar. Despediram-se no corredor, com o rei dizendo para se encontrarem um pouco antes do jantar, a fim de tomarem uma dose de rum para comemorar o acordo. Sasuke saiu, dizendo que iria até o estábulo, Shisui iria averiguar se havia novas notícias dos seus subalternos, e Itachi respirou fundo e pegou o caminho para a biblioteca.

Estava satisfeito de ter conseguido um acordo bom com Tobirama, era um grande passo para ele conseguir conviver em harmonia com o reino da Folha. Seu pai tinha causado estrago demais com os Senju e só queria reparar os erros que vinham se acumulando há anos. Podia parecer um movimento pequeno, mas, para ele, foi um grande avanço. Entrou na biblioteca e largou os papéis e o mapa em cima de sua mesa, se sentou na poltrona e descansou a cabeça por alguns minutos. Fechou os olhos e pôde aproveitar o silêncio que era aquele lugar sem ninguém à sua volta.

Ouviu um barulho além das prateleiras altas de livros e levantou com pressa, colocando sua mão em cima da espada, que sempre carregava consigo.

— Quem está aí? — Deu alguns passos até o meio da sala e viu os longos cabelos loiros. Ino estava tentando pegar um livro na prateleira que era mais alta que ela. Suspirou, aliviado, e caminhou até ela. — Precisa de ajuda?

— Apenas… quero aquele livro de capa verde. — Apontou, e Itachi prontamente o pegou, entregando para sua esposa. — Obrigada. — Ela virou e foi andando.

— Espera… — Ela parou e virou, o encarando. — Precisa de ajuda para levar suas coisas para o nosso quarto?

— Posso pedir para os empregados.

— Faça isso, por favor. — Itachi desviou os olhos e passou a mão pelo cabelo, mania de quando estava nervoso. — Já faz alguns dias que casamos, e não quero que comecem boatos de que o casamento é de fachada, além de termos visita.

— Hm. — Ino seguiu seu caminho até chegar perto da porta.

— Tem algo que lhe incomoda, senhora Yama… Uchiha. — A mulher parou e foi surpreendida por Shisui, que entrou a passos rápidos, fazendo ela sair da frente.

— Majestade! Temos pistas…

— Tem coisas a resolver, alteza — Ino respondeu.

— Depois conversaremos. — A loira já saía dali agarrada ao livro, o fazendo murchar os ombros, derrotado. Voltou-se ao comandante e tentou melhorar o ânimo: — Quais são as novidades, Shisui?

— Acharam os túneis subterrâneos.

— Os das histórias?! — Franziu o cenho enquanto sentava em sua cadeira.

— Sim, esses mesmos.

— Como?

— Um dos soldados estava fazendo a ronda com um dos lobos, e ele farejou algo. — Shisui começou a explicar. — Uma cabana no meio da Floresta de Sangue. O lobo ficou muito tempo cheirando um mesmo ponto no chão, e o soldado Kei achou aquilo estranho. — Itachi ouvia com atenção, com os cotovelos apoiados na mesa e sua cabeça apoiada em suas mãos. — Kei chamou mais soldados do pelotão, levaram mais dois lobos, e então, finalmente, acharam um alçapão.

— Eu sempre achei que isso era mito.

— Todos nós achávamos, majestade — o comandante disse, ainda surpreso com aquilo tudo. — Mas eles realmente existem, e achamos que os rebeldes podem estar usando-os para entrar e sair do reino.

— Junte dois pelotões, um para ficar cuidando da entrada, e outro para entrar no túnel — o rei falou, decidido. — Precisamos descobrir até onde eles levam.

[...]


— E o que achou do quarto? — Sentou-se na poltrona do canto e tirou as botas de montaria que calçava, esperando alguma palavra da mulher, que a horas penteava os longos cabelos loiros.

— Bom. — Ino passou a escova oval por todo o comprimento da mecha, a soltando e preparando a próxima para mais uma rodada de massagem com as cerdas.

— E há algo que deseje mudar? Podemos fazer todo tipo de reforma. Quero que sinta como se aqui fosse seu lar, entende?

— Sim. — Mais uma longa passada pelos fios loiros, e a mulher continuava a olhar fixamente a própria imagem no espelho.

De costas para o Uchiha, Ino seguia com seu ritual de beleza noturno, mas Itachi estava levemente irritado com as poucas palavras. Fazia dias que mal trocava palavras com ela. No jantar, após um longo dia, a loira quase não falava ou se metia em assuntos dos quais ele sabia que ela gostava de falar. Não riu da implicância de Tobirama com Sasuke, muito menos do irmão fazendo piadas com a recém-casada. Ino parecia não estar lá, porém respondia sempre que era algo direcionado a si, a todos, menos ao rei.

Itachi pensou em um ou dois motivos para que o silêncio gélido da rainha tivesse explicação, contudo não fazia ideia do que tinha feito para irritar a garota distante à sua frente.

— Eu fiz algo que a incomodou? — Bufou longamente, deixando seus pés tocarem o chão, pronto para entender sua esposa.

— Nada, senhor. — A mão delicada deixou o objeto na penteadeira, e Ino se ergueu, porém, para desagrado do rei, se trancou no cômodo ao lado.

O Uchiha quis gritar e de uma vez por todas perguntar àquela mulher louca o que infernos havia feito para receber tal tratamento. Não havia mais uma tirada esperta, algo para fazê-lo calar, entender, pensar? Onde estava a garota cheia de opiniões e, principalmente, palavras? As que muito ouvia antes daquele casamento? Era sobre isso? Não poderia. Estavam há poucos dias após o sim de ambos, na frente de um sacerdote. Que diabos um homem tão inteligente quanto o rei teria feito para receber o silêncio da ex-Yamanaka? Ino saiu outra vez e já vestida com sua camisola para dormir.

— Não vai mesmo me dizer o que eu fiz de errado? — Seus olhos escuros pararam ao notar detalhadamente o traje de sua esposa. Ino só poderia querer roubar-lhe a sanidade e fazer o rei quebrar a própria promessa. Engoliu seco e deixou a visão dos seios fartos sob a seda marcante para finalmente encarar os olhos azuis.

— Já disse, não fez nada. — Ino foi até a penteadeira outra vez, pegando um vidro pequeno do que parecia uma essência que inundou o quarto com um cheiro doce e convidativo. Derramou um pouco sobre a mão esquerda e espalhou o óleo por seus braços, o colo dos seios, pelo pescoço e mãos, terminando o ritual maligno aos olhos do rei. Deitou-se sem pressa alguma, ignorando o próprio marido.

Itachi subiu apressado na cama e virou a esposa para si, mantendo seus olhos escuros nos dela: — Diga de uma vez porque está tão calada, Ino.

A mulher tinha um brilho diferente em seus olhos. Algo que o Uchiha não poderia sequer entender em tão pouco tempo de casamento. Ofegante, a mulher tentou não deixar tão clara sua intenção, porém seu coração acelerou ao ter os pulsos presos sobre sua cabeça e ao assistir Itachi montar em sua barriga. Os olhos azuis inquietos queriam transmitir a raiva que sentiu por não ter despertado nada no rei, seu marido por direito, contudo, certamente deixavam mais claro que o sol que iluminava o verão no reino da Lua que Ino queria ser tocada por ele.

— Diga de uma vez… — Perto demais, Itachi lembrou de sua tola promessa, lembrando do quanto garotas sonham com príncipes e reis bondosos e gentis. Negou para si mesmo a vontade que tomou sua mente e afrouxou o aperto nos pulsos da Uchiha, deixando seu corpo livre, sentando ao seu lado na cama. — Por favor, quero entender o que fiz de errado.

A vontade da rainha era de chorar. Esteve tão perto de experimentar o que só havia lido, que seu coração machucava forte o peito. Apenas fechou seus olhos, respirando profundamente até que o calor do corpo a abandonasse. — Eu só… — virou-se outra vez para a porta do quarto, ficando de lado na cama, longe o bastante do rei — estou cansada…

Itachi se viu olhando para a nuca da mulher, que mal teve tempo de conhecer. E quando achou que conseguiria, ela se fechou completamente. Tinha algo errado, ele sentia com todas as fibras de seu corpo. Por mais que tivesse passado tão pouco tempo ao lado da agora esposa, sabia que ela era tudo, menos condescendente. Deitou-se, encarando o dossel vermelho sangue de sua cama e pensou que amanhã era outro dia, tentaria desvendar o mistério que era sua rainha dia após dia, mesmo que não fosse uma tarefa simples.
Capítulo 13

Entre o alvo e a ira

Sasuke andava devagar e segurava uma pira de fogo para iluminar o túnel, que se estendia, o que parecia, em centenas de quilômetros. Era realmente impressionante que ninguém tenha achado aquilo, ou talvez, tenham escondido por alguma razão, e era isso que o deixava desconfiado. Por que esconder algo que traria benefícios para as estratégias militares do rei? Talvez alguém no exército queria ter vantagem sobre o rei, e isso era preocupante, mas ainda assim, apenas uma teoria.

— General, mais duas ramificações… — o soldado mais à frente avisou.

— Mas que merda! Desse jeito, passaremos semanas aqui tentando descobrir pra onde leva cada túnel. — O príncipe soltou o ar com raiva. — Faça a marcação e vamos voltar…

Eles tinham saído antes do sol nascer para o reconhecimento dos túneis, já faziam boas horas que estavam andando e não chegavam a lugar algum. Aquilo parecia um labirinto. Levaram os lobos para farejar, e, no começo, deu certo, pareciam estar no caminho certo. No entanto, o rastro de seja lá o que os animais haviam sentido havia se dissipado e nenhuma luz era vista, o que indicava que não havia saída, apenas mais e mais quilômetros infinitos de túneis intermináveis. Sasuke já estava irritado que aquilo tudo não o levou a nada importante e, pelos seus cálculos, chegaria ao castelo um pouco antes do entardecer.

Fizeram uma parada para descanso e uma breve refeição. Era visível que os soldados estavam cansados, não iria julgar, também estava, pois não era apenas a caminhada, também precisavam estar em alerta. Sasuke queria apenas um bom banho, um jantar farto e sua cama para uma bela noite de sono. Quando finalmente viu a lamparina ao longe, sabia que estavam perto de respirar ar fresco novamente. Saíram com a ajuda dos soldados do pelotão de Kai, que fazia a proteção da entrada e saída do alçapão na pequena cabana abandonada.

O cavalo que aguardava amarrado a uma árvore foi montado pelo príncipe, que dispensou os soldados que estavam consigo naquele dia para um descanso merecido. Quando estava se aproximando do estábulo, notou os longos cabelos loiros e várias crianças cercando a nova rainha. Arqueou uma das sobrancelhas e segurou as rédeas para poder descer do lindo alazão que ele ostentava. Amava seu cavalo. As crianças pareceram notar a presença do general e se esconderam atrás de Ino.

— Boa tarde, cunhada.

— Sasuke…

— Posso saber o que está aprontando com os fedelhos, aí? — Apontou para as crianças, que olhavam para ele com receio.

— Assim que me responder o motivo de eles terem medo de você. — A loira cruzou os braços, e o moreno revirou os olhos.

— Não faço ideia…

— Podem ir, crianças. Amanhã continuamos… — Eles saíram correndo e sumiram das vistas dos dois. Sasuke amarrou seu cavalo em uma argola de ferro e se voltou para a rainha, que ainda o olhava irritada.

— Sei que dá aulas para eles… — Sasuke pegou uma escova e começou a escovar seu cavalo.

— Não conte para seu irmão. — Ino mordeu o lábio e acariciou as próprias mãos.

— Um pouco tarde para isso, Yamanaka… Quer dizer, Uchiha. — O príncipe deu um sorriso arteiro, e ela suspirou.

— Queria mesmo falar com você…

— Comigo? — Ele parou e se virou para ela, franzindo o cenho.

— Sim, com você, cunhado… — disse a última palavra com ironia. Sasuke virou para escovar o pelo do outro lado de seu cavalo e poder dar atenção à rainha. — Você poderia me ensinar a andar a cavalo?

— Como? — Parou o que fazia para olhá-la em descrença com a pergunta, e a mulher apenas cruzou os braços e torceu os lábios. — Sabe que mulheres não andam a cavalo, não é?

— Até agora… — Bufou, irritada.

— Certo, você é a rainha, já entendi. — Arregalou os olhos em concordância exagerada. — Eu posso ensinar.

— Ótimo. E seu irmão não saberá.

— Você sabe que ele é o rei e vai saber uma hora ou outra, não é?

— Então arrume um lugar onde ele não descubra. — A loira sorriu e foi andando em direção à entrada dos fundos do castelo. — O jantar estará pronto em pouco tempo. Tome um banho, está fedendo…

— Passar o dia todo dentro de um túnel não é agradável! — gritou, devido a Uchiha já estar longe. — Que garota petulante.

[...]


O aro foi puxado, colando as costas da mão bem rente ao queixo feminino. Ino se concentrou, segurando a respiração, relaxou os ombros tensos pela força que aplicava ao segurar a flecha flexionada mirando o alvo à sua frente. Deixou os dedos trabalharem sozinhos, e no momento que sentiu que deveria, soltou, fazendo a flecha cortar o ar com rapidez e acertar o alvo há muitos metros de si.

Achou o lugar por acaso, com Sasuke treinando seus novos soldados, contudo, sempre em algum momento do dia, via o lugar abandonado por horas, e era tão afastado da área que todos costumavam usar naquele castelo, não havia mal algum treinar para não ficar enferrujada.

Shikamaru, desde muito cedo, a treinou. Não porque quis, mas porque Ino obrigou, assim como faria com o cunhado. Jogava com suas próprias regras e achava, sim, importante saber um pouco de tudo, um dia poderia calhar.

Ela gostava de observar o amigo treinar, mas não se encantou por facas ou espadas. Ino não gostava de imaginar que deveria chegar tão perto para ferir alguém, para sua proteção, claro. Entretanto, como mulher em um mundo que provavelmente enfrentaria um homem, não fazia sentido, para ela ou para o Nara, que sabia de suas limitações físicas, pois as regras e o que era ou não visto como adequado para uma mulher não os interessava.

O arco era leve, prático e dava a ela uma vantagem de poder acertar de longe e poder se proteger do perigo, caso houvesse. Ela e o amigo treinavam escondidos de seus pais, e, com o tempo, ela se tornou até melhor que Shikamaru, que, como homem, guarda real e muito mais treinado em espadas, preferiu o aço para aperfeiçoamento.

Andou até o alvo e pegou a flecha que, como sempre, acertava o meio do círculo, pintado sobre a madeira. Voltou ao lugar e mirou outra vez o alvo, se concentrando no centro.

— Não a encontrava em nenhum lugar, minha rainha. — A voz do marido foi ouvida em um dos cantos da grande sala, a desconcentrando e fazendo a flecha quase o acertar. — Sabia que estava irritada, mas não ao ponto de me matar. — Riu fraco, pegando a flecha e devolvendo a Ino ao passar por ela.

— Não foi proposital. — A loira apontava o grande arco para baixo. Esperava a movimentação de Itachi cessar, mas ele parou bem ao lado do tripé com o alvo que recebia a raiva da Uchiha.

— Sei que não, e não precisava esconder isso de mim…

— Não escondi. Só não achei importante mencionar. — Suspirou, soltando a tensão de seus ombros. Esperava o mais velho sair de sua mira, mas ele não se moveu. — Realmente confia em mim para ficar aí?

— Se está aqui escondida para treinar, não deve fazer isso há tão pouco tempo… — A ex-Yamanaka levantou o arco e se posicionou, abriu os dedos, liberando a flecha, a fazendo acertar bem no centro do alvo mais uma vez. — Interessante… — Ino arqueou uma sobrancelha, como se confirmasse que ela era boa naquilo.

— O que quer, afinal?

— Tobirama queria se despedir, mas pedi desculpas em seu nome.

— Fez porque quis. Não lhe devo nada, senhor. — Pegou outra flecha de sua aljava, respirou fundo e manteve um braço esticado, então puxando a corda para trás com o outro e mantendo os olhos azuis no objeto à sua frente.

— Não estou dizendo isso, Ino… — Itachi estava um pouco cansado de ter que pisar em ovos sempre que dividia o mesmo cômodo que a esposa.

Havia algumas semanas entre aquele dia e seu casamento, porém nada parecia melhorar na convivência do casal, e por mais que ele quisesse deixar tudo se resolver com o tempo, sentia que estava fazendo algo que incomodava a mulher à sua frente.

— Não vai mesmo me dizer o que está a incomodando? Sabe que ainda é um casamento, mesmo que…

— Que não tenha desejo em mim? Que eu não tenha despertado nada no grande gênio Itachi Uchiha? — A mulher não moveu um só músculo ao jogar de uma só vez tudo que incomodava seu interior na cara do rei.

— O quê? — Surpreendeu-se com a confissão.

— É, eu estou magoada com o fato de não ter interessado vossa alteza real.

— Eu não imaginei que… — Certamente não esperava que fosse esse o problema com a rainha. — Eu sei que certas coisas são mais importantes para as mulheres. Vocês sonham com isso desde que aprenderam que a princesa encontrou o príncipe, não queria ter que estragar mais uma coisa para você me odiar no futuro.

— Acha que estragou algo? — Incrédula, deixou os olhos rolarem até a figura do rei, que, como sempre, vestia preto dos pés à cabeça.

— O casamento às pressas de madrugada. Acho que não sonhou com nada assim…

— Isso pouco importa. Eu quis, disse sim. Deveria respeitar minha decisão! — Baixou o arco e encarou o moreno.

— Eu não achei que despertaria interesse exatamente na parte que mais sonham… — O sorriso ladino do Uchiha irritou Ino, que imediatamente ergueu arco e flecha e apontou para o moreno. — Ei, não ameace o rei.

— Não é uma ameaça se tiver intenção verdadeira. — Os dedos outra vez encostaram em seu queixo, pronta para cravar aquela ponta de aço no ombro do marido.

— Me desculpe. Eu não imaginei que tivesse achado que eu não queria… enfim, não é esse o problema. — Com as mãos erguidas em rendição, o rei se aproximou, mesmo na mira da rainha. — Eu sei que se for agora, vamos nos arrepender, e eu sinceramente não quero este peso a mais sobre os meus ombros.

— Então eu sou um peso?

— Não! Ino, espere eu terminar. — Suspirou nervoso, escolhendo bem as próximas palavras. — Quero que tenhamos algum tempo, ao menos para criar uma admiração, um laço, algo mais que um contrato. Não sei se um dia vamos nos amar, mas podemos fazer dar certo se respeitarmos o tempo de cada coisa.

O arco mais uma vez começou a se voltar ao chão devagar, e Ino pareceu pensar em cada palavra que o Uchiha proferiu. Sim, era rápido, e sim, talvez na noite do casamento pudesse ter se arrependido, contudo passou dias imaginando coisas demais, e saber que era apenas Itachi sendo o homem bondoso e honrado que descobriu que o Uchiha era, isso lhe desarmava de todo e qualquer argumento que pensou por tantos dias.

— Eu…

— Só tenho um pedido. — Tomou o queixo de Ino, a fazendo encarar de perto os olhos escuros do moreno. — Sempre, sob qualquer circunstância, fale exatamente o que a está afligindo. Pode não ter começado como sonhou, porém podemos fazer o certo desde agora. Se concordar…

Os olhos, os lábios finos, a pele clara… Os azuis inquietos mapeavam cada pedaço do rosto do rei, que nunca antes esteve tão perto. Era insano ter vontade de agredir Itachi ao mesmo tempo que sua mente lhe pedia para experimentar um beijo do rei. Mesmo que fosse o único a compartilhar em uma vida, parecia valer o risco. Dispensou imediatamente os pensamentos impuros e se concentrou no olhar curioso do marido, que esperava uma resposta sua.

— Eu posso… posso fazer isso…

[...]


— Majestade, chegou outro pergaminho da pedra. — Shisui encontrou o rei em um dos vários corredores do castelo e seguiu caminho ao lado dele. — Precisa respondê-los…

— Eu estava ocupado cuidando do meu reino, Shisui, não é como se eu tivesse os ignorado… Só estou sem tempo… — Itachi falava meio perdido em pensamentos.

— Eu sei, alteza, não foi o que quis dizer. Apenas… caso não responda esse também, pode ser que soe como se o senhor não quisesse responder.

— Certo, vou ler e elaborar um pergaminho para enviar. — Entraram na biblioteca, e o Uchiha tomou seu lugar atrás da grande mesa. Começou a mexer nos papéis e notou que seu amigo continuava ali. Subiu os olhos, encontrando a expressão curiosa do comandante. — Mais alguma coisa, Shisui?

— Está tudo bem, senhor?

— Sim, só… — A cena de Ino segurando o arco e atirando a flecha bem no centro do alvo lhe passou pela cabeça. — Monte uma sala de treinamento própria para arquearia próxima do meu quarto. — Shisui franziu o cenho, mas acenou, acatando a ordem. — Pode ir…
Capítulo 14

Motivo de fuga

— Vá até o final deste corredor e quando chegar à grande escada da torre norte, não suba. Vire à esquerda e continue até uma galeria. — A senhora terminou de apontar o caminho e sorriu para a rainha. — Ouvirá o falatório das mulheres e o barulho.

— Muito obrigada, senhora! — Ino deu alguns passos até notar que estava finalmente sozinha naquela parte do enorme castelo. Suspirou profundamente, erguendo os metros de saia que a circulavam e correu o quanto pôde para encurtar seu caminho até o local indicado.

Passou algumas horas pensando naquele pedido mais que especial que martelou sua mente nos últimos dias. Sua primeira e segunda aula com Sasuke não haviam sido como o planejado. Ou Ino era muito ruim e totalmente inepta para cavalgar, ou sua roupa era a verdadeira culpada pelas quedas e a má posição sobre a cela, e se conhecendo bem até demais, sabia que era o vestido enorme e as armaduras que deixavam-na com a aparência pomposa que dificultavam seu trabalho, porém ajudavam na cara azeda do cunhado.

Sasuke era até bom professor. Começou com a mecânica da coisa toda, os componentes e o que ela deveria fazer, contudo, subir na enorme égua que ele havia separado para as aulas era assustador. Sentir o animal respirar embaixo de si era magnífico, porém ainda eram alguns muitos quilos sobre quatro patas que poderiam levá-la a uma morte acidental se mal usados, e sua mãe nunca a perdoaria se ela morresse, ou pior, desarrumasse seus fios loiros em público.

Avistou a escada enorme da torre e seguiu até o corredor indicado, e, como previsto pela senhora da cozinha, já ouvia alguns sons ritmados e vozes femininas animadas. Parou com sua corrida antes que pudesse se anunciar e tentou o máximo que pôde se recompor para não parecer a rainha animada com seu novo desejo para as funcionárias de Itachi.

— Bom dia… — Sem muito jeito para uma pessoa minimamente calma, a Uchiha sorriu ao deixar as palavras morrerem no ar sob os olhos atentos de muitas mulheres vestidas com tanta simplicidade.

— Alteza! — Um coro dobrou o corpo para si, parando seus afazeres apenas para cumprimentar devidamente a rainha.

— Ao que devemos a honra? — uma mulher, parecendo ser a mais velha delas, disse, ainda curvada.

— Podem se erguer, por gentileza? — Sorriu ao ser atendida. — Eu desejo falar com a responsável pelas roupas da…

— Kurenai?! — a senhora berrou, irritada, para a mulher no canto do enorme lugar. — Fez algo errado nas roupas da rainha?

— Não, não! — Ino sacodiu as mãos sem jeito, já arrependida de ter invadido assim o local. — Eu quero novas roupas e preciso que a senhorita me acompanhe.

— Se é isso, majestade, pode levá-la, e, por favor, peça sempre para que uma criada venha em seu nome. — A velha se aproximou da Uchiha e beijou o dorso de sua mão. — Este lugar não está à altura de uma Uchiha.

— Certo… — Sem jeito, pediu muda para que a mulher de cabelos escuros e olhos curiosos vermelhos a acompanhasse. De volta ao corredor, levou os azuis até a figura atrás de si. — Seu nome é Kurenai, não é?

— Sim, senhora.

— Eu não sei se sabe meu nome, mas… — Foi interrompida da apresentação.

— Sei que a senhora é a rainha Ino, do reino da Lua.

— Eu esqueço que não sou mais uma desconhecida para o povo do Fogo.

— Não apenas por ser minha rainha, mas também por lecionar para minha filha.

Ino parou no corredor e olhou curiosa para a mulher. — Tem uma menina?

— Sim. Não sei se lembrará, mas seu nome é Mirai. — Observando agora com mais atenção, a Uchiha notou semelhanças entre aquela mulher e a criança que a acompanhou até o centro da vila. Os olhos vermelhos e bonitos eram idênticos e os fios escuros, rebeldes nas pontas.

— Oh, sim. — Sorriu para a mulher e deu as costas para continuar o caminho. — Mirai é curiosa, vai longe quando eu acertar o assunto que mais lhe agrada. Os demais vêm com o tempo o gosto por aprender.

— Fiquei muito feliz ao saber que ela andava com vossa graça. Eu não tive oportunidade de estudar e…

— É isso mesmo que eu quero mudar por aqui, mas infelizmente é devagar que às vezes andamos mais rápido. — Bufou ao passar pela escadaria da torre. — Bom, tenho um pedido especial e peço que o mantenha em segredo. Posso dar uma sala apenas para que trabalhe nisso, perto dos meus aposentos, claro…

— Não podemos subir para a área comum do castelo, senhora…

Ino virou, franzindo o cenho para a mulher. — Kurenai, este é um pedido pessoal da rainha. Apenas se negar meu pedido, não transitará pelas áreas comuns.

— Mas o rei pode…

— Com Itachi eu me entendo. — O sorriso contagiante da loira fez Kurenai rapidamente assentir, mesmo não confiando que saberia fazer o trabalho que lhe seria pedido. Aquela garota de outro reino parecia ser a leveza que seu povo precisava para superar dias tão difíceis.

— Eu, eu…

— Primeiro ouça. Fiz alguns desenhos, nada digno de um quadro, porém pode te dar uma ideia. É que estou tendo aulas com Sasuke e tudo depende de você para dar certo! — Ino lembrou animada de toda a pesquisa que fez no armário do marido e os dois itens que roubou de lá para dar a Kurenai uma ideia, e, pegando as mãos frias da morena, concluiu animada: — Espero que aceite, vamos mudar o mundo!

[...]


— Temos que detalhar cada nova posição e cargo no exército, deixar claro o que esperamos com as nomeações…

— Sim, sim… — Itachi entrou um pouco mais fundo em seu armário, procurando uma peça específica. — Mas que droga. Tudo está sumindo nesse quarto?

— O ônus de se ter uma esposa… — Shisui riu da cara do rei e negou, se levantando da poltrona no canto do aposento real. Andou de um lado para o outro, reparando bem no lugar que o casal dividia. — Como vai o novo planejamento?

— Não sei do que está falando, não há nada novo em pauta para a reunião…

— Estou falando ali. — Apontou para a cama de casal envolta em um lindo véu vermelho. — Herdeiros, Uchiha…

— Não é o momento, Shisui. — Derrotado, saiu do armário com a primeira calça que viu, desistindo da favorita, que procurou por todos os cantos. — Temos um reino para estabilizar antes de colocar mais Uchihas no mundo.

— Nunca discordei tanto de você. — Seguiu o amigo, assim que Itachi saiu do quarto e tomou o corredor. Em silêncio, notou o Uchiha resmungar algo baixo e soube que tinha atingido o alvo quando o rei virou para si, nervoso.

— Por que discordaria?

— Acho que não teriam tantos planos separados se tivesse um bebê a caminho…

— Não se resolve tudo com um filho. Sasuke e eu somos prova disso.

— Mas fazê-lo certamente ajudaria na união do… — A face assustadora do amigo o alertou que havia ido longe demais. — Ok, não falo mais, porém gostaria de vê-los mais unidos em algumas tarefas. Não podemos dar margem para o falatório dos serviçais e sei que é mais complicado do que parece, mas não o vejo fazendo esforço para se aproximar dela.

— E por acaso sabe o que faço em todas as horas do meu dia? — Itachi queria bater seu pé na cara do amigo, tanto quanto o seu comandante martelava o chão de pedra do castelo. Shisui era intrometido demais para cuidar de sua própria vida?

— Infelizmente, sei. E digo isso com muita certeza. Você e Ino têm mais de um mês e meio de casados e sua única aparição foi na apresentação. — Shisui parou ao ter a atenção do rei para si e cruzou os braços sobre o peito. — Sei que tem o espaço dela, o seu e tudo, mas por acaso conversam antes de dormir?

Itachi se lembrou das poucas conversas que havia tido com Ino. Na sala de treinamento, quando descobriu que ela era exímia arqueira, ou no dia que dividiram a cama pela primeira vez e depois nada. Como ele queria que aquilo funcionasse se não tinha um segundo de seu dia disponível para o casamento? Bufou, negando ao apertar os olhos com os dedos e assumindo que teria que dar razão ao idiota à sua frente.

— Quero que ouça com atenção, pois deve ser a única vez na sua vida que ouvirá isso. — Itachi ergueu o dedo indicador e o apontou para o amigo. — Tem razão.

— Prometo que não contarei a ninguém que sou seu conselheiro pessoal e matrimonial…

Alguns passos à frente, esperou que a porta se abrisse ao parar por alguns segundos, ignorando o sorriso idiota do moreno ao seu lado. O Uchiha cumprimentou os homens que haviam pedido para chamar de seu exército e sorriu ao falar com o último, que daria início ao seu plano para a renovação de seu reino.

— Asuma, temos uma boa notícia.

[...]


Ergueu a perna e se movimentou pelo quarto quando sentiu que deveria experimentar a sensação do tecido em sua pele. Por que homens tinham o privilégio do movimento de suas pernas sem que sua roupa de baixo fosse exposta e as mulheres não?

Virou as costas para o espelho, sorriu com a parte justa bem em cima de suas nádegas e entendeu perfeitamente o motivo de mulheres não usarem algo do tipo o tempo todo. Era muito revelador, a parte interna da coxa mais ainda, e deixava Ino confusa momentaneamente. Ou Itachi tinha pernas estranhamente finas, ou ela mesma precisava impor limites na quantidade de comida que estava ingerindo por sua curiosidade.

Transformou os jantares em estudos ao notar o quão diferente era a comida servida no reino e certamente se empolgou no próprio experimento, delicioso em sua maioria, contudo, ao respirar profundamente, tentando esquecer o caminho que sua mente a levava, culpou mesmo o corpo feminino e suas sinuosas curvas. Deixou o espelho e buscou a saia mais leve para vestir por cima da calça que havia roubado do marido e seguiu para seu treino com o cunhado.

Os dias com Kurenai estavam rendendo muito. Ino parecia cada vez mais perto de um traje feminino que imitasse as roupas masculinas de Itachi, e cada passo que a deixasse mais perto de um protótipo a inundava em expectativa. Na primeira prova, não ficou contente com o resultado, pois o molde da modista era largo e imitava mais uma saia partida ao meio que a vestimenta do Uchiha, então o que pôde fazer além de tentar desprender a mente da Yui do clássico feminino, foi separar em duas partes um de seus vestidos, o dividindo entre a parte superior e a saia que usava agora por cima da calça de Itachi.

Bom, aquilo deveria servir por enquanto. Ela tinha aulas, e Sasuke não ia esperar por conta de uma roupa apenas. Saiu de seu quarto, observando o corredor, e, ao não encontrar ninguém, por sorte, apenas caminhou calmamente até a área separada pelo cunhado na parte lateral do castelo. Ao chegar a alguns degraus, experimentou pular alguns e comemorou ao conseguir sem que seus joelhos batessem na estrutura pesada que compunha seu visual da realeza, mantendo os metros de tecido bem armados. Estava mais que satisfeita com sua ideia de já utilizar uma peça do marido, sem medo de ser pega e se achando verdadeiramente uma gênia por tal pensamento.

— Achei que duas quedas e um dedo inchado haviam acovardado vossa alteza. — Sasuke fazia carinho na égua branca bem escovada à sua frente. O cavalo negro digno de contos de terror estava ao lado, enfiando seu focinho no feno separado para ele.

— Não conhece a força de uma dama, Sasuke? — Ino seguiu até o animal e sorriu ao ser reconhecida por ele. — Sou uma Yamanaka, não tenho medo de nada.

— Bom lembrá-la que é como eu, uma Uchiha, e se esquecer outra vez, devo reportar ao meu rei. — Sorriu ladino ao entregar as rédeas à cunhada e se afastar para ver o que Ino aprendeu até então.

— Fico feliz que tenha lembrado de tal fato, senhor… — Apertou bem o couro em suas mãos e, com a outra, segurou a cela, encaixando o pé direito no estribo, dando um impulso com o esquerdo e montando finalmente sem a ajuda do cunhado. — Talvez esse modo altivo e cheio de si que me apetece pela manhã deva ser parte do acordo ao me tornar uma Uchiha.

— Onde aprendeu isso? Não deve treinar sem ajuda, pode se machucar, e meu irmão… — Rapidamente o moreno deu a volta no animal ao checar se Ino estava devidamente encaixada.

— Eu disse que eram minhas roupas que me atrapalhavam e você não concordou, achando que eu estava inventando alguma desculpa esfarrapada.

— Mas está igualzinha à semana passada, porém desta vez conseguiu montar.

— Aí é que se engana, querido cunhado… — Ino ergueu a saia, mostrando a perna direita totalmente coberta pela calça escura do marido e a bota de montaria que conseguiu com Sasuke dias antes.

— Isso é do Ita? — Negou, sorrindo da face animada da loira, que acenava concordando.

— Espero que seja nosso segredo, pois usarei por pouco tempo as dele…

— Desejo não saber de mais nada, respeitosamente, minha estimada rainha. — Deu alguns passos até chegar ao seu alazão negro e o montou com uma facilidade ímpar. — Acho que tenho escondido coisas demais do meu irmão. — Com dois toques e um puxão, Sasuke seguiu caminho para a floresta, sendo seguido de perto pela cunhada. — Vamos aprender alguns truques com as rédeas e a pedaleira para uma eventual fuga.

— E por que eu fugiria?

— Quando Itachi descobrir que você roubou a calça favorita dele, terá um bom motivo.
Capítulo 15

Se alimentar também é alimentar o povo (?) (Alimentando soluções)

Itachi terminava de colocar seu sobretudo, quando Ino saiu da casa de banho já vestida. Ela usava um vestido pesado, de mangas longas e sem decote. Os olhos negros do rei passearam pela mulher, admirando a nova cor que sua esposa tinha escolhido para si. O tecido brilhante bem no meio do corpete preto, um roxo escuro que reluzia conforme a claridade batia contra ele. A saia era da mesma cor, mas o tecido que cobria suas pernas era opaco, beirando ao preto.

— Pode me acompanhar após o almoço?

— Claro, onde quiser, senhor.

— Ino, já conversamos sobre como me chama. Sou seu marido, achei que já tínhamos resolvido o… — Itachi pigarreou — mal entendido.

— Aonde quer me levar? — perguntou, ignorando o assunto incômodo que seu marido insistia em voltar a falar. Ino caminhou em direção ao moreno, que parou de se olhar no espelho assim que terminou de prender o cabelo e se virou, encarando os olhos azuis curiosos.

— É uma surpresa… — Deu um beijo casto na bochecha da loira e saiu do quarto, a deixando enrubescida e ansiosa.

Itachi andou a passos rápidos, não teria tempo de tomar café naquela manhã. No dia anterior, Shisui o avisou que pequenos saques estavam acontecendo nos galpões de comida. Não mais com explosões e ataques propriamente ditos, porém roubos silenciosos, o que era mais perigoso ainda. Quando era Fugaku, ao menos sabiam de onde vinha, mas agora, podia ser qualquer um.

Entrou na biblioteca e viu Inoichi revendo os pergaminhos do reino da pedra que ele tinha pedido. Depois de sua última carta, o rei sabia que algo de muito errado acontecia entre os dois reinos, além do absurdo que leu na última vez que se comunicou com Rei Onoki. Madara teria prometido tomar o reino da Folha e dar parte das terras para o reino da Pedra. Não travaria uma guerra sem sentido, principalmente com um reino que tinha acabado de fechar um acordo tão benéfico para ambos.

Que seu pai tinha ficado louco ele já sabia, mas não que fazia tantos anos assim que tinha perdido completamente o juízo.

— Bom dia, alteza. — O Yamanaka se levantou e fez sua reverência.

— Bom dia, Inoichi. — Em seguida, Shisui entrou na sala, ficando em posição para receber suas ordens. — Shisui, chame meu irmão e Asuma, temos um mistério pra desvendar.

— Sim, majestade.

O Rei preferiu se reunir com seu general e capitães na sala de estratégia do exército, para deixar Inoichi fazer o trabalho dele. Discutiam o que fariam para descobrir quem estava roubando comida. Itachi pediu para Asuma ficar de olho nos vilarejos, pediu também para que Sasuke escolhesse alguns espiões para se infiltrar pelos vilarejos. Asuma era o capitão responsável por um dos maiores pelotões, o que fazia a segurança civil, então ele estava sendo informado de tudo para que ficasse atento às movimentações.

— Majestade, acho que deveríamos chamar o estrategista e pedir para que tente entender os ataques.

Itachi olhava atento para o mapa onde haviam as marcações de quais galpões tinham sido saqueados desde o início. Eles não tinham repetido nenhum, mas não seguiam uma direção propriamente dita, parecia aleatória a escolha do ataque. No entanto, poderia ter alguma coisa que ele não estava vendo, então concordou com Asuma. O rei colocou a mão na cabeça, se sentindo tonto por alguns segundos.

— Precisa comer, irmão.

— Não tomou seu desjejum, alteza? — Shisui perguntou, preocupado.

— Precisávamos resolver logo isso, acabei pulando minha refeição — Itachi respondeu. — Já devemos estar na hora do almoço, sim?

— Se não estiver, pedirei à cozinheira para preparar uma refeição.

— Estamos entendidos, não é? Qualquer novidade, reportem a Shisui, que levará até mim.

— Sim, majestade.

Itachi se retirou da sala e caminhou pelos corredores, se sentindo um pouco fraco. Fazia mais de 16 horas que não se alimentava, precisava comer imediatamente. Passou pelo jardim de inverno e viu Ino sentada em uma das cadeiras, lendo um livro, tão concentrada que nem percebeu sua presença. Ela era uma mulher deslumbrante, não podia negar para si, sua personalidade singular era a combinação perfeita para tanta beleza. Sentiu suas pernas amolecerem e seus olhos fecharam bem devagar, vendo a Uchiha correr em sua direção.

— Itachi!

O grito estridente da loira foi ouvido pelos guardas, que, em segundos, estavam em sua frente. Ino tentou segurar seu marido e, com a ajuda da parede para se apoiar, conseguiu que ele não batesse contra o chão. Os soldados o pegaram e, seguindo as ordens de Ino, o levaram para os aposentos reais. A loira estava ansiosa, andando de um lado para o outro, esperando Shisui ser chamado por um dos guardas.

— Alteza, o que houve? — O comandante entrou apressado pela porta aberta.

— Itachi desmaiou!

— Céus, ele não se alimentou.

— No almoço? Eu percebi que ele não apareceu. De manhã, me falou que queria que o acompanhasse para algo.

— Desde ontem, alteza.

— O quê?! — Os olhos azuis arregalaram. — Mande imediatamente que a cozinheira prepare um banquete para ele e traga até aqui.

— Agora mesmo, majestade.

Ino estava inquieta, não sabia que seu marido tinha ficado sem comer todo esse tempo, que irresponsabilidade. Ela não costumava tomar café da manhã com Itachi, sempre treinava antes de comer, então não estranhou que ele não estivesse na mesa quando foi tomar seu desjejum. Contudo, não era a primeira vez que ele não estava na mesa para a refeição. Caso não se cuidasse, a deixaria viúva.

Ela olhou para o marido e caminhou a passos lentos até ele. Sentou na beirada do colchão e passou os dedos lentamente pelo maxilar marcado, a barba rala pinicava sua pele, o que a fez sorrir. Entrelaçou os dedos nos fios negros e mal reparou que segurava a respiração, pois, quando notou, seu coração acelerou. Mordeu o lábio e desceu os dedos pelo ombro, braço e chegou até a mão de seu marido, gelada. Sentiu um arrepio em suas costas. Não conseguia tirar os olhos do rosto bonito que ela quase nunca conseguia ver tão de perto.

— Alteza? — Saltou da cama com a voz de Shisui invadindo o quarto.

— Shisui! — Colocou a mão no peito e fechou os olhos.

— Desculpe se a assustei, não foi minha intenção.

— O que está havendo? — A voz de Itachi se fez presente, e Ino virou para ele, que acariciava a cabeça e tentava sentar em sua cama.

— Você desmaiou, majestade. — Shisui deu alguns passos, e duas empregadas entraram no quarto segurando duas bandejas. — Precisa se alimentar devidamente. — As senhoras colocaram a comida nos pés de cama e, reverenciando o rei e a rainha, saíram do quarto. — Vou deixá-los a sós. — O comandante também os reverenciou e saiu dali, fechando a porta.

O silêncio preencheu o quarto. Ino respirou fundo, olhando o Uchiha, que respirava calmo, ainda tentando voltar a si. Ino pegou uma das bandejas e colocou perto do marido. Ele a pegou e colocou em cima das pernas, começando a comer, estava com mais fome do que imaginava. Era complicado estar tão focado em resolver tudo de seu reino, aquilo era bom, mas, ao mesmo tempo, o fazia cometer irresponsabilidades. Queria já estar mais avançado em suas mudanças, no entanto, não esperava os ataques e que parte do seu exército o traísse.

Estava exausto, mas jamais desistiria de conseguir o que queria; paz em seu reino e a melhoria da vida de seu povo.

— Está melhor?

— Sim.

— Me deu um susto, Itachi — disse a rainha, acariciando as mãos.

— Precisou que eu caísse em sua frente para me chamar pelo nome, alteza?

— Não seja idiota, Uchiha — Ino ralhou com o rei, que sorriu em vitória.

— Bem melhor…

— O que é bem melhor?! — perguntou, irritada.

— Você sendo… você. — A Uchiha ficou surpresa com a resposta e desviou seus olhos para um canto qualquer. Sentia suas bochechas queimarem. — Senti falta dos seus modos… ou a falta deles.

— Não me insulte, Itachi! — Cruzou os braços e empinou o nariz.

— Estou elogiando… Acredite. — O homem riu.

— Não fique mais sem comer, tá bem? — ela falou, ainda emburrada.

— Sim, senhora Uchiha.

— Qual foi o motivo?

— Os ataques aos galpões de comida… Estamos no inverno, se ficarmos sem comida, as pessoas morrerão de fome. — Itachi parecia desestabilizado com a probabilidade, o que deixou Ino preocupada. — Precisamos descobrir quem são e para onde estão levando a comida do meu povo, nosso povo. Isso está tirando as minhas noites de sono…

— Não será você mesmo morrendo de fome que irá resolver o problema.

— Farei todas as refeições com você a partir de agora, deve estar se sentindo sozinha…

— Não me sinto sozinha, gosto da minha companhia, Itachi, mas obrigada pela preocupação e… Aceito sua companhia.

— Fico honrado.

[...]


— Pelos deuses, esse lugar está insalubre!

— Disse alguma coisa, majestade? — o guarda perguntou, ainda da porta, fazendo a rainha tomar um pequeno susto e rapidamente se equilibrar na escada de madeira.

— Não, Kemi, está tudo bem por aqui.

Talvez nem tanto quanto gostaria, mas estava. O que eram alguns metros do chão para a boa esposa que ansiava por ajudar seu marido? Ino acordou disposta a dar alguma ideia, nem que fosse a mais simples, para tirar o peso das costas do marido. Itachi dormia cedo pelo cansaço e pulava refeições aqui e ali, sem se dar conta, e ela era uma mulher instruída o suficiente para ajudá-lo em algo assim.

Olhou para o assoalho de madeira e suspirou profundamente ao notar que sua curiosidade levou consigo a coragem de estar tão longe do chão. Não chamaria o guarda, pois sabia que mulheres eram muito melhores na resolução de problemas, e nem era petulância, viu muitas vezes em sua vida a mãe constatar o óbvio ao seu pai.

Desceu calmamente os tantos degraus e, já em segurança no chão, deixou a chateação de ter ido até a biblioteca do castelo para absolutamente nada. Não havia um livro sequer que fizesse sua mente aflorar e uma ideia se instalar em sua cabeça, apenas guerras e histórias sobre guerras. Incrível como aquela família — a sua família — amava se vangloriar por uma boa briga e contava muitas vezes sobre ela.

Seguiu até as portas duplas, esperando que Kemi desse passagem ao abri-las. Ino seguia outra vez para o encontro com sua modista particular, ao menos aquilo ainda estava dando muito certo e essa poderia ser definitivamente a última prova das novas roupas. Chegou à sala no final do corredor e ela mesma abriu, sorrindo para o guarda, que provavelmente ia repreendê-la.

— Não preciso de ajuda aqui, Kemi. Pode me esperar aqui mesmo, estou segura e não demoro.

— Mas, majestade…

— Eu prometo que estou bem, só preciso de privacidade.

— Certo, não saia por outra saída e…

Ino riu do guarda e negou com a cabeça antes de deixar apenas um dos olhos visíveis ao homem: — Não vou pular da janela, tenha fé em sua rainha.

Sorriu ao ver que havia sido notada pela mulher de longos fios negros. Estava muito ansiosa para ver com seus próprios olhos a primeira do que seria seu primeiro par de calças femininas.

— Majestade.

Kurenai levantou-se e fez o cumprimento de sempre, ignorado pela rainha, que já não via necessidade em tanta formalidade com a mulher. Ino passou por ela sorridente e animada, pegando o tecido marrom e o colocando sobre o vestido que usava.

— Está maravilhoso, a cor…

— Posso fazer variações, vossa alteza. Este é só um protótipo. — Pegou a peça da mão da rainha e pediu muda para que ela fosse à parte reservada, separada por uma divisória simples de madeira. — Pode vesti-la, os ajustes finais preciso fazer em seu corpo.

— Vestir? — A Uchiha sorriu largamente e desamarrou o corpete de suas costas, fazendo a Yui corar. — Não posso fazer isso aqui?

— Se… separei um local para isso, minha rainha… — Apontou para as divisórias. — É um pouco íntimo demais, senhora.

— Ah, infelizmente, já mediu meu corpo de todas as formas possíveis… — Desceu as alças e deixou que o monte de tecido caísse ao seu redor, esperando a morena entregar a calça para si. Ino revirou brevemente os olhos pela vergonha da mulher, tão puritana quanto qualquer outra de sua terra natal, decidida a acabar com o clima, terminou a fala ao estender sua mão até que ela entendesse e entregasse para si a peça. — Certamente não há nada aqui que não haja em seu próprio corpo, Kurenai.

— Sim, senhora… apenas vista pelo lado contrário… — Kurenai esperou que Ino fizesse o que pediu e se aproximou da mesa de trabalho pegando seu pote de alfinetes, ajoelhando assim que alcançou a rainha.

— Não vai precisar de muitos ajustes, viu? — Sorrindo, ela olhava para baixo, encontrando sempre os olhos avermelhados da Yui. Lembrou-se da sorte de encontrar uma mulher assim como ela, disposta a fazer o que fosse preciso para mudar as regras, ou apenas ajudar uma à outra… lembrar disso levou seu pensamento até Itachi e os muitos problemas com o reino. Seu sorriso morreu ao notar o trabalho que seu marido teria.

— Não gostou do trabalho, majestade?

— Oh, não é isso…

Kurenai continuou os ajustes e sorriu, aprovando o resultado e, após alguns minutos, estranhando a falta de empolgação da rainha, que sempre vinha muito animada para as provas. — Eu posso ajudá-la com alguma coisa? — O rosto mais jovem pareceu não entender a Yui. — Conversar às vezes ajuda meu marido a se distrair e, com isso, pode haver uma resolução ou outra dos problemas que o afetam.

— Bom, seria perfeito se me ajudasse outra vez, mas creio que não será possível. — Ino deu alguns passos até o espelho escorado na parede lateral do espaço, aprovando o resultado.

— Pode tentar, alteza. Sabe que seus segredos estão bem guardados comigo.

Ino ponderou enquanto refazia o caminho até seu vestido. Parando outra vez dentro da peça, retirou a calça e entregou para Kurenai, decidida a confiar na mulher, pois nada melhor que alguém do lugar para contar melhor sobre ele. Deu suas costas para a Yui amarrar seu corpete e começou: — Itachi disse que aqui é complicado no inverno para plantio e colheita. Eu pesquisei na biblioteca antes de vir vê-la e nada lá passa perto de resolver o problema. Estou frustrada, queria ajudá-lo. Não sou apenas uma decoração aqui, quero fazer o possível para mudar algo…

— Mudar o mundo… — Sorriu ao lembrar das palavras da rainha no dia que a conheceu. Admirou Ino a partir do momento que soube de sua presença no castelo por sua filha. Nas palavras da pequena, Ino era como um conto de fadas: loira, bonita e bondosa. — Sei que pode parecer bobagem, mas acredito que a senhora é mais do que capaz de fazer tudo o que quiser.

— Acredita? — Segurou a parte da frente, enquanto a morena apertava os cordões atrás de si. — Eu duvidei disso algumas vezes em minha vida, e certamente hoje é uma delas.

— Sei que deveríamos acreditar sempre em nós, meu pai repetia muito isso, mas há dias em que é complicado. — Terminou, encarando a loira quando a rainha se virou.

— Seu pai parece com o meu…

— Talvez seja desejo dos pais que suas filhas sejam fortes, não sei, o mundo é complicado para nós. — O sorriso triste de Kurenai fez Ino sentir que estavam exatamente no mesmo lugar, mesmo em classes diferentes. — Asuma sempre conversa com Mirai antes de sair em campanha, ou para outro reino, e meu pai fazia o mesmo enquanto eu o ajudava a plantar algumas mudas. Isso tornou-se algo nosso…

— Nasceu aqui mesmo? — Ino notou o quão pouco sabia da mulher que passava ao menos duas tardes por semana junto de si.

— Nasci no norte da fronteira entre o fogo e o reino da pedra, tão frio quanto aqui, ou mais.

— Mas ao menos plantavam no verão. Com a sorte que temos…

— As estações costumam ser as mesmas no extremo norte do reino, senhora. — Sentou-se em sua mesa e deu início à costura, tendo a rainha de companhia ao seu lado. — A diferença que mais me lembro é que o sol não ficava por muito tempo no céu.

— Sem calor… Como seu pai e você? — Ino estava verdadeiramente curiosa com a história, pois nada fazia sentido. Talvez a mulher fosse nova demais e não se recordava direito dos dias com seu pai.

— Havia um caderno. Meu pai o escreveu com suas técnicas para que eu nunca passasse fome, mas eu nunca aprendi a ler corretamente… — A rainha se ergueu rapidamente, assustando a morena.

— Você ainda tem essas anotações?
Capítulo 16

Anotações milagrosas

Itachi sentou na cabeceira da mesa, vendo apenas Sasuke e Inoichi ali, e franziu o cenho. Tinha prometido que faria todas as refeições com sua esposa, mas aparentemente ela gostava mesmo de ficar sozinha. Não a culpava, talvez não fosse a melhor companhia no momento. Ele se via estressado, ansioso, às vezes queria arrancar seus próprios cabelos com tantos problemas vindo de uma só vez. Assim que colocou um pedaço de pão na boca, viu Ino entrar quase correndo no salão de refeições e quando percebeu que chamou atenção dos demais, parou, respirou fundo e começou a caminhar devagar.

Sentou-se na cadeira ao lado do rei e sorriu sem graça antes de dizer: — Bom dia.

— Onde estava? — seu pai perguntou em tom de reprovação.

Por mais que Itachi não fosse um desses maridos possessivos, também estava curioso para saber e deu a devida atenção ao rosto da mulher. Ela estava um pouco vermelha e suada, devia ter corrido bons metros até ali e levando tanto tecido em volta do corpo. Não sabia como as mulheres conseguiam tal proeza.

— Treinando, papai.

Itachi relaxou sua expressão. Gostava de deixá-la à vontade para fazer o que quisesse no castelo, afinal, agora também era sua casa. Entretanto, Inoichi não pareceu tão feliz quanto ele. Talvez tivesse algo que o deixasse preocupado por sua filha estar manuseando equipamentos perigosos, porém o que o rei viu foi uma destreza e experiência que nem mesmo ele tinha com a arquearia.

— Continua com essa bobagem? Agora é rainha e não mais uma garota se divertindo por aí.

— Sei bem do meu posto, papai. Não vejo arquearia como bobagem, gosto do que faço e sou boa nisso.

— Também gosto que Ino faça o que bem entende com o tempo dela, Inoichi. Ela é realmente muito boa na arquearia.

— Você… aprovou isso, alteza? — O Yamanaka estava sem palavras.

— Sim, inclusive tomei providências para que ela treinasse de forma mais segura e confortável. — Ino o mirou sem entender nada, e o Uchiha olhou para ela com um pequeno sorriso nos lábios. — Levarei você após o café, minha rainha. — Ele pegou a mão de sua esposa e beijou seu dorso, a deixando sem graça pelo ato.

Terminando o café da manhã, Itachi pegou a mão da ex-Yamanaka e os dois saíram caminhando devagar, subiram as escadas e chegaram ao corredor dos seus aposentos.

— Acaso me levará para o quarto?

— Não seja ansiosa…

Passaram pela porta dos aposentos reais e no fim do corredor uma porta de madeira escura foi aberta pelo rei. Ino levou a mão à boca, que estava escancarada com a revelação. A sala possuía vários arcos de tamanhos diferentes, flechas bonitas, entalhadas e até com penas coloridas em suas pontas. Ela estava extasiada, ninguém nunca tinha dado tanta importância para algo que ela amava. Deu alguns passos para dentro da grande sala e viu alguns alvos nas paredes de diâmetros diferentes.

Tudo era bem iluminado por janelas grandes e na parede em frente à porta, bem no meio, uma porta para uma sacada. Havia também uma poltrona perto de uma das janelas com uma estante vazia ao lado, encostada na parede, além de uma mesa de canto com um candelabro. Ino virou para Itachi com os olhos marejados e não conteve seu entusiasmo, abraçou o rei com força.

— Obrigada, Itachi.

Ele nem sabia o que fazer, ficou surpreso com o gesto da loira, mas sorriu ao notar o quanto tinha deixado sua esposa feliz com o que, para ele, era um gesto ínfimo diante de tudo que ela fez por ele. Ele acariciou sua cabeça com uma mão e a abraçou pela cintura com a outra.

— Se me permitir, sempre farei o que estiver ao meu alcance para que sorria.

Ino se afastou e o olhou nos olhos, secou algumas lágrimas que escaparam e sorriu, estava mesmo radiante com aquilo tudo. Não sabia mais o que dizer a ele, apenas admirava o homem à sua frente, que era tão diferente de tudo que já tinha lido sobre os Uchihas.

[...]


Itachi seguiu seus compromissos diários, teve uma pequena reunião com o conselho para atualizá-los de tudo que estava acontecendo e as providências tomadas. Todos sabiam que não seria fácil, mas estava sendo mais difícil do que o Rei pensou que seria. Estava tentando ser o mais paciente que podia, porém era quase impossível manter a calma quando nada estava saindo como planejado. Shisui e o rei saíram da sala de reuniões e foram em direção à biblioteca.

— Qual o problema? Estou sujo? — Franziu o cenho e parou no meio do corredor, olhando para seu comandante, que insistia em olhar para ele de modo inquisitório.

— Percebi o sorriso que chegou esbanjando na reunião…

— Não seja intrometido, Shisui. — Entraram na biblioteca, e Itachi tomou seu lugar na poltrona atrás da mesa. Itachi pigarreou para disfarçar o sorriso que insistia em querer emoldurar seu rosto, quando notou os olhos de Shisui ainda em si.

— Jamais… Então, recebeu alguma resposta desde a sua última carta para o reino da pedra?

— Não, e isso está me preocupando. — O rei coçou a testa. — Não sei por que, mas sinto que foi um erro dizer que agora o reino da Folha é nosso aliado.

— Você precisava dizer… Onoki queria começar uma guerra a troco de nada!

— Não, meu pai queria tomar as terras da Folha com mais derramamento de sangue e dar para Onoki.

— Itachi! — Sasuke entrou gritando na biblioteca. — Finalmente achamos até onde leva o túnel principal.

— Uma boa notícia, afinal! — O Uchiha mais velho levantou, animado. — E onde seria isso?

— Alguns dos meus soldados voltaram e disseram que a saída fica na cachoeira de veridian.

— Isso já é no reino da Pedra! — Shisui alertou.

— Também sei ler os mapas, Shisui, obrigado.

— Foi mais um comentário, Sasuke. — Revirou os olhos.

— Então, irmão, acreditamos que eles estão na Pedra…

Itachi trincou os dentes e respirou fundo antes de dizer: — Eu juro que eu vou matar Onoki se ele estiver sabendo que os traidores estão em suas terras e escondendo isso de mim.

Sasuke engoliu em seco e trocou olhares com Shisui, era nítido que os dois estavam preocupados com os rompantes de raiva que Itachi estava tendo. Confiavam que ele não se tornaria um imperador como seu pai, mas não sabiam até que ponto ele iria para conseguir a paz do reino do Fogo. O príncipe saiu dali e foi a passos lentos para o estábulo, onde sua rainha já o esperava sentada em um feno e com um livro em mãos.

Por mais que aquela ideia maluca da ex-Yamanaka de aprender a cavalgar tivesse o deixando meio receoso, ele achou interessante a coragem. Até gostava de dar aulas a ela. Ino era uma boa companhia, tinha uma língua afiada, que às vezes o deixava irritado, porém, no geral, era divertida. Ela estava melhorando rapidamente a cada dia, ele a admirava nisso, a rainha era dedicada quando colocava uma coisa na cabeça. Apesar das ideias completamente absurdas, tipo roubar a calça de seu irmão. Onde já se viu, mulheres usando calças.

— Temos que voltar antes que Itachi perceba sua ausência.

— Mas está cedo ainda, Sas… — Ino falou, com um bico nos lábios.

— Ei, quem disse que podia encurtar meu nome? — O Uchiha uniu as sobrancelhas. — E acredite ou não, tenho mais o que fazer, Uchiha.

— Você chama seu irmão de Ita, qual o problema? — Ela deu de ombros, não acreditando em qualquer desculpa do moreno.

— Justamente esse. Ele é meu irmão, cunhada.

— E como você acabou de dizer, eu sou sua cunhada, Sas — disse debochada, e o outro apenas revirou os olhos. — Corrida até o castelo. — A mulher saiu em disparada.

— Espera, Ino! — O príncipe bateu as rédeas para o alazão correr mais rápido. — Ela ainda vai me fazer ser morto pelo meu próprio irmão…

Após colocar os cavalos cada um em sua baia, Sasuke e Ino entraram no castelo conversando. O Uchiha dizia o quanto ela tinha sido irresponsável em sair correndo daquela forma. Ele se preocupava com ela e ainda mais com seu pescoço se o seu irmão descobrisse que ela morreu por estar cavalgando sem o seu conhecimento e consentimento, não que o segundo fosse realmente importante. Seria difícil explicar por que mentiu e provavelmente seria executado em praça pública ao ser responsabilizado pela morte da rainha.

Bufou em alto e bom som quando a ex-Yamanaka ousou dizer que sabia o que estava fazendo e que não se machucaria. Sasuke estava impressionado com seu autocontrole e paciência ao lidar com a cunhada, a garota era desaforada, atrevida e audaciosa. Ino era uma grande interrogação na cabeça do príncipe.

— Sasuke, onde estava?! — Shisui chegou sem fôlego, chamando o Uchiha.

Os dois se encararam, claramente pensando na desculpa que inventariam.

— Sasuke foi me mostrar os cavalos. — Ino pensou que algo tão próximo do real seria a melhor solução para afastar desconfianças. Entretanto, o príncipe não pensava o mesmo e sentiu um arrepio correr pela sua coluna quando os olhos do comandante se apertaram, demonstrando suspeita na fala de sua rainha. — Agora vou tomar um chá. — A loira seguiu seu caminho e foi para o jardim de inverno.

— Então, o que aconteceu de tão urgente? — Sasuke continuou a andar, sendo agora acompanhado por Shisui.

— Asuma voltou com informações. Seu irmão quer que esteja presente na reunião.

Os dois apressaram o passo, chegando logo em seguida à sala tática. Itachi e Asuma já estavam presentes. Sasuke os cumprimentou e tomou seu lugar em volta da mesa, onde o mapa estava estendido. Asuma começou a explicar o que seus infiltrados tinham descoberto. Fugaku tinha conseguido converter alguns civis a se juntarem com os rebeldes e participarem dos saques. Caso aquilo continuasse, estouraria uma guerra civil no reino, e tudo que o rei não queria era mais derramamento de sangue do seu povo.

Itachi respirava fundo, olhando para o mapa. Mantinha a cabeça baixa e tentava se acalmar antes de pensar em alguma solução, uma que não envolvesse mortes. Contudo, era quase impossível não sentir vontade de arrancar suas cabeças e colocar em estacas na praça principal para todos verem o que acontece com quem está contra o rei. Respirou mais uma vez, as mãos apoiadas na mesa à sua frente se fecharam. Parecia impossível transformar Uchihas em algo diferente de animais que querem a todo custo matar seus iguais.

— Identifiquem todos os civis que estão participando disso e prendam-nos. — Sasuke tomou a frente. — De modo silencioso, vamos pegar um a um, discretamente.

— Sim, general. — Asuma bateu continência. — Acredito que dessa forma será mais fácil identificar os demais.

— E também pode causar revolta interna. Podem achar que estão prestes a serem traídos com os sumiços de seus companheiros de causa. — O príncipe concluiu. — Conto com você para colocarmos um fim nisso. Está dispensado por agora. — O Yui concordou e saiu da sala.

— Pensou rápido, Sasuke. — Shisui cruzou os braços em frente ao peito e aprovou a atitude do mais novo.

— Obrigado. — Agradeceu ao comandante e virou para o rei, que se mantinha quieto. — Está tudo bem, irmão?

— O que acha, Sasuke? — Itachi levantou a cabeça, mostrando os olhos escuros com um brilho rubi. — Isso não vai ter fim! — Ele jogou o que estava em cima da mesa no chão, fazendo os objetos de prata fazerem um barulho alto pela sala. — Preciso… respirar. — O rei saiu pisando duro. Mal sabia o caminho que fazia, apenas marchava com os punhos cerrados, pronto para socar o primeiro que lhe cruzasse o caminho. Pôs os pés na sacada e puxou o ar para seus pulmões. Manteve os olhos fechados e passou as mãos pelos cabelos.

— Está tudo bem? — Ouviu a voz melodiosa de sua esposa e abriu os olhos, notando a loira parada próxima do parapeito. Os olhos azuis o miravam de um jeito que lhe trazia conforto. Nunca sentiu julgamento vindo da loira e aquilo o deixava feliz de certa forma; era a única que não o olhava como um Uchiha.

— Estou melhor, obrigado. — Foi a passos lentos até a mulher, que sorriu singela, sem deixar de acompanhá-lo com os olhos. — Não está muito frio para estar aqui?

— Me sinto bem aqui, eu gosto da sacada. — Ela voltou seus olhos ao horizonte, as montanhas já cobertas pela neve espessa, apesar de não estar caindo nenhum floco naquele momento.

— Eu sei, por isso escolhi uma sala que tivesse uma para ser sua sala de treinamentos.

— Obrigada novamente. — Ela mordeu o lábio e acariciou as próprias mãos, desviando o olhar do dele. — Ninguém nunca se importou o suficiente para fazer algo assim para mim.

— Eu me importo, Ino, com você e com o que te faz feliz. — A mão de Itachi abraçou uma das dela e ele nem ao menos pensou ao fazer aquele gesto. — Não hesite em me falar o que quer. — Seus olhares se encontraram novamente e definitivamente o arrepio que sentiram em seus corpos não era do frio.

— Não hesitarei.

[...]


Ino já tinha feito aquele caminho mais vezes do que podia contar. Entrou animada pela porta e viu a morena sorrir para si. Estava pronta, aquilo que a ex-Yamanaka tanto esperou, que no começo parecia uma completa loucura, tinha dado certo e a ajudaria nas aulas com Sasuke. Talvez não só para cavalgar, mas para se sentir menos limitada dentro de suas saias. Mal podia fazer um movimento brusco sem suas vestes íntimas correrem perigo de ficarem expostas.

Experimentou a calça, feita de um tecido leve, já que sua saia já pesava o suficiente. Caminhou pela sala, pulou, levantou a perna, a outra e, feliz, virou radiante para sua fiel costureira.

— Está perfeita, Kurenai.

— Fiz o meu melhor, alteza.

— Muito obrigada.

— Não deve agradecer, majestade. És minha rainha, devo servi-la.

— Claro que devo. — Ino virou para o espelho e continuou testando a calça e sua desenvoltura com ela. — Não contou ao meu marido o que fizemos aqui, além de ter se dedicado a uma ideia maluca. — A mulher sorriu sem graça e foi até a mesa, puxando um livro antigo e surrado de sua gaveta.

— Eu achei o livro do meu pai. — A Uchiha virou surpresa para a Yui e sorriu largo. — Eu espero verdadeiramente que isso ajude o nosso reino. — Ela caminhou até a rainha e ofereceu o livro surrado.

— Você não faz ideia do quanto está ajudando, Kurenai. Mais um motivo para agradecê-la. — Ao pegar o livro, tocou as mãos da mulher e sorriu para ela. — Obrigada, vou fazer de tudo para ajudar Itachi.

Ino saiu dali com a certeza que encontraria respostas naquele livro, e com essa confiança foi até sua sala de treinamento, que na última semana tinha pedido para um dos guardas colocar uma mesa e cadeira. Sentou-se em sua mesa e abriu o livro. Começou a folhear devagar, tinham alguns desenhos de plantas, legumes e até mesmo de estruturas para plantação. Aquilo era um tesouro, o pai de Kurenai tinha sido perspicaz só por ter pensado em tudo aquilo, porém, a ideia de escrever e deixar tudo muito bem explicado tinha sido genial.

Ela estava esperançosa, parecia ter a solução de todos os problemas em suas mãos, então pegou um papel e sua pena e começou a estudar como fazer aquilo funcionar, pois ela faria funcionar, nem que passasse dia e noite enfurnada naquela sala.
Capítulo 17

Os olhos dizem tudo(?)
(Pedras pelo caminho)

Sasuke ainda tinha dificuldade em entender aquele mapa. Eram infinitos túneis, com muitas ramificações, parecia mais um labirinto. Sentia-se perdido e odiava essa sensação. Seus soldados iam mais à frente, iluminando o caminho e sempre em alerta para qualquer perigo. Horas e horas se passavam quando estavam ali embaixo, porém, ele queria descobrir se tinha outro caminho ou outra saída dentro de seu reino para os rebeldes usarem. Estavam entrando ali de alguma forma. Se houvesse outra saída, eles precisavam descobrir para colocar guardas a postos para protegê-la.

Entraram em um novo túnel, era a ramificação do principal que levava ao reino da Pedra. Tudo estava escuro demais, e quanto mais entravam naquelas cavernas, mais escuro e lamacento ficava. Sasuke olhou mais uma vez para o mapa antes de ver um brilho no final do túnel e logo a explosão que os atingiu, levando todos ao chão.

Sasuke se viu desorientado. Escutava apenas um zumbido em seu ouvido, alguns homens berrando de dor e outros tentando ajudar quem estava caído debaixo das pedras.

— General, o senhor está bem? — um dos soldados perguntou, e foi tudo que o príncipe ouviu antes de seus olhos se fecharem.

[...]


— Majestade, o rei Itachi a espera para o almoço — uma das criadas avisou, ao ter sua entrada permitida na sala de treinamento da rainha, que já havia virado seu pequeno esconderijo de tudo e todos.

Ino arrumou a sala do seu jeito. A mesa de madeira e a cadeira foram pedido dela, mas a estante, que antes estava vazia, agora se encontrava com livros que ela gostava de ler, ou até alguns que mandou algum soldado ir buscar na loja do vilarejo. Itachi tinha pedido para ela não sair sozinha ou ir muito longe do castelo, era compreensível, agora não se sabia quem era confiável ou não, até mesmo entre seus súditos. Então confiou em seu marido e acatou seu desejo, pois não entendeu como uma ordem de restrição, e, sim, preocupação.

— Diga a ele que já estou indo. — A loira terminava um raciocínio importante, quando finalizou, fechou o livro e guardou em sua gaveta junto às folhas que anotava suas observações.

Caminhou a passos tranquilos até a mesa do almoço no salão das refeições, onde Itachi estava sentado na cabeceira, a esperando. Ino sorriu e sentou ao lado do rei, que também curvou os lábios para si. Ele pediu para a criada servi-los, e então almoçaram juntos, como vinham fazendo há algumas semanas. As refeições eram parte da rotina deles agora.

— Cadê o Sas?

Itachi quase engasgou e olhou para ela com surpresa antes de perguntar: — Quando começou a chamar meu irmão assim?

— Não me lembro, mas nos aproximamos. Ele é família, afinal, não é de todo mal. — Deu de ombros. — É um bom menino no geral…

— Menino? — Itachi gargalhou. — Ino, Sasuke é um homem…

— É meu cunhado e é mais novo que eu. — Levou a comida à boca, fechando os olhos sem dar muita importância ao assunto.

— Você é só 2 anos mais velha que ele, devo chamá-la de menina? — Arqueou uma das sobrancelhas, com um sorrisinho debochado nos lábios.

— Não seja rude, Itachi, sou sua esposa. — Olhou para ele com um ar de repreensão.

— Minha esposa, 12 anos mais nova…

— Números… — Abanou a mão em frente ao rosto.

— Ótimo, nos entendemos então. — O homem sorriu, e a loira apenas revirou os olhos. — O que está aprontando em sua sala?

— Lendo, treinando, estudando…

— Esqueço o quanto é dedicada aos estudos.

— Obrigada, esse é o melhor elogio que me deu nos últimos meses. — Ino sorriu. — Na verdade, sou dedicada em tudo que faço…

— Eu sei.

— Sabe? — Ela franziu o cenho e engoliu em seco. Caso Itachi tivesse descoberto suas últimas loucuras, talvez não fosse tão complacente.

— Majestade, majestade! — Shisui entrou gritando pelo salão de refeições.

— Shisui, estou almoçando. Isso é jeito de entrar…

— Sasuke está ferido! — Shisui o cortou, o deixando sem ação. Ino arregalou os olhos e levou a mão até o peito. Itachi sentia seu corpo formigando, seu sangue parecia correr devagar por suas veias. Sua esposa olhou para si com carinho e pegou em sua mão, a acariciando.

— O que aconteceu? — a rainha perguntou.

— Estavam explorando os túneis, quando uma explosão aconteceu… — Ino sentiu a mão de seu marido tremer embaixo da sua. — Tivemos mortes, mas o príncipe está sendo trazido para o castelo pelos soldados.

— Chame um médico imediatamente, Shisui. — Ino tomou a frente quando percebeu que seu marido estava tão em choque que não conseguiria falar, não ali.

— Sim, alteza. — O comandante deixou o salão, os deixando a sós novamente.

— Itachi, olhe para mim… — A loira apertou sua mão com mais força, e os olhos negros foram devagar até os azuis. — Vai ficar tudo bem…

Itachi levantou soltando o ar de forma falhada e olhou para sua esposa, que o olhava com ternura, aguardando seus próximos passos para lhe seguir, não iria sair do seu lado. O rei seguiu caminho até seu quarto com Ino em seu encalço. Ela fechou a porta e viu o marido perder completamente a calma que queria transparecer. Ele gritou, um grito de agonia. Sentia como se tivesse uma espada cravada em seu peito. Passou a mão pela mesa principal do quarto, jogando tudo que ali havia. A bacia com água, castiçal, um vaso e várias quinquilharias voaram para longe, fazendo um barulho alto ecoar pelo quarto.

Ino arregalou os olhos e sentiu seu coração acelerar. Seria ali que experienciaria a raiva dos Uchihas? Como traria a calma do homem de volta? Não seria fácil, porém, entendia seu rompante. Acaso acontecesse algo com Shikamaru, que considerava um irmão, estaria tão mal quanto, e era frustrante estar impotente diante da situação. Ela também sentia medo de que Sasuke estivesse mal, ou talvez raiva, pois sentia algo que nunca sentiu antes, queria matar quem tinha machucado seu cunhado. Em meses, criou uma ligação com ele, amava Sasuke como um irmão, e perceber isso fez com que se aproximasse de Itachi, mesmo em meio ao seu surto, e o abraçasse.

— Desculpe… — Itachi soprou, quase inaudível, depois de alguns segundos inerte ao ter o calor da sua esposa em volta de si. — Desculpe… — disse novamente, mas dessa vez Ino percebeu sua voz embargada e logo o tecido de seu ombro molhar. Ele foi perdendo a força das pernas, e a ex-Yamanaka lhe amparou como pôde. Os dois ajoelhados no chão, abraçados e tudo que ela sentia era um peso deixando o corpo do seu marido, um que talvez ele nem soubesse estar carregando. — Eu amo aquele moleque… Podia ter sido comigo, eu mereço morrer no lugar dele, é tudo culpa minha…

— Itachi… não, não se culpe. — Ino afastou o rosto dele e o segurou com as duas mãos. O rei fechou os olhos, aproveitando o toque das mãos quentes que lhe amparavam. Aquele toque de carinho que ele não sentia há muito tempo o fez se sentir acolhido. — Sasuke é forte, não vai acontecer nada de ruim. Ele não vai… morrer — disse a última palavra com o gosto amargo na boca.

— Eu não sei mais o que fazer, Ino. Tudo que eu faço dá errado. — Itachi levantou e começou a passar as mãos pelos fios negros. Olhava para os lados atordoado e respirava pesado. — Tudo que eu penso para melhorar a vida do meu povo…

— Ninguém conquista seus objetivos sem perdas, Itachi. — A Uchiha levantou, arrumando seu vestido.

— Eu não posso perder meu irmão. Perder minha mãe foi insuportável, mas Sasuke… ele é… tudo que eu tenho.

— Você não vai perdê-lo, nós não vamos perdê-lo. — Ela se aproximou, dizendo as palavras de forma confiante. — Não vamos deixar isso acontecer…

— É melhor… — soltou o ar, derrotado, virando as costas para sua esposa — voltarmos ao que era. Uchiha's não mudam…

— Você não vai desistir… — Ino colocou as mãos na cintura, decidida. — Eu não vou deixar você desistir — disse com convicção.

— Ino, meu irmão sofreu um ataque! — Itachi virou para ela berrando e gesticulando, irritado. — Minha única família. Ele poderia estar morto agora!

— Não, Ita, eu também sou a sua família. — O rei parou, piscando algumas vezes, estava surpreso com o que ela tinha dito. Olhou bem para ela, que parecia não ter perdido a compostura nem por um segundo. Admirava aquela pequena mulher, que conseguia lhe desarmar com palavras de maneira tão fácil. — Nós somos uma família e juntos vamos conseguir melhorar o reino. — Ela deu alguns passos em direção a ele e continuou: — Cadê o homem que disse que ia limpar o nome Uchiha? Aquele que iria me provar que seu reino é muito mais que ódio e derramamento de sangue?

— Eu… — O rei estava sem fala. Ino era uma mulher incrível, ele já sabia disso, mas naquele momento, ele sentia que tudo ficaria bem se tivesse ela ao seu lado.

— Agora eu sou uma Uchiha e também quero limpar nosso nome. — Ela pegou a mão de seu marido e olhou fundo em seus olhos. — E nós vamos conseguir, juntos. Sasuke ficará bem, confie em mim.

Itachi deu um breve sorriso, levou sua mão ao rosto angelical da esposa e disse: — Você tem o temperamento da minha mãe… e isso era o que eu mais admirava nela.

Os olhos azuis se perderam nos negros por instantes. Ele estava tão perto de si, conseguia sentir seu hálito quente em seu rosto. Os dedos finos pareciam decorar seu rosto através do toque. Seu coração bateu mais forte e seus olhos desceram para a boca do Uchiha. Ino umedeceu os seus lábios e notou que ele acompanhou seu pequeno movimento com a língua. A ansiedade era intrínseca em ambos, parecia pesar uma tonelada, o ar denso como a neve que finalmente caía lá fora.

— Majestade. — Batidas na porta foram ouvidas, e os dois se afastaram em um rompante. Ino sentou na cama, pois parecia que iria cair no chão de tão mole que suas pernas estavam. Itachi pigarreou e passou a mão no cabelo antes de abrir a porta e ver Shisui. — Majestade, seu irmão chegou.


Itachi, Shisui e Ino continuavam aflitos ali naquele quarto. Sasuke estava desacordado, e eles olhavam o médico examinando o príncipe. Todos estavam com os nervos à flor da pele. O rei não mexia um músculo, apenas analisando a situação. Ele não conseguia deixar de mexer a perna ou os dedos, que continuavam tamborilando em seu próprio braço.

— Alteza, seu irmão sofreu alguns machucados leves nos braços, mas acredito que uma pedra tenha atingido sua cabeça. — O rei respirou fundo, aguardando o resto das notícias. — Examinei o príncipe e seus batimentos estão normais. Tratei os ferimentos e receio que… teremos que esperar ele acordar.

— Obrigado por ter vindo tão rápido. — Foi tudo que Itachi disse.

— Estou sempre às ordens, majestade. — O homem reverenciou o rei e a rainha.

— Obrigado, doutor — Shisui respondeu, amigável. — Eu lhe acompanho até os portões.

Assim que o casal real estava a sós, Itachi caminhou até a cama, onde seu irmão estava deitado. Olhou para ele com pesar, aquela dor de não ter conseguido proteger seu único irmão, de não ter previsto que algo assim poderia acontecer. Levou a mão até a testa dele e acariciou, esperava o melhor, que ele acordasse logo e que ficasse bem. Ele mirou Ino, que tinha se aproximado do outro lado da cama. Ela o olhava, tentando passar confiança.

— Ele vai ficar bem…

— Eu espero que você tenha razão, Ino… Se Sasuke morrer… — Ele olhou para o irmão, respirou fundo e voltou o seu olhar para sua esposa, que arregalou seus orbes quando viu o que muitas histórias contavam, o que até achou ser apenas uma lenda, porém estava ali, bem em sua frente. O brilho rubi nos olhos de Itachi eram nítidos e davam medo. — Eu vou caçar um a um…

[...]


Mesmo que o rei colecionasse alguns muitos problemas pessoais e sobre seu trabalho, infelizmente o reino ainda precisava dele ali. De pé e pronto para mais um dia cheio de todo tipo de compromissos. Suas assembleias com o povo do reino ainda não haviam voltado e ao menos isso não fazia parte do dia que se iniciava. Deixou o espelho, deu alguns passos antes de mirar o rosto sereno da esposa e, ao abrir a porta, deu de cara com um Shisui triste, mas, assim como ele, pronto para cumprir seu dever.

— Bom dia, majestade — o amigo o cumprimentou como de costume e esperou que ele tomasse sua frente. — Tenho novidades dos homens que continuam mapeando a rede de túneis.

— E qual a novidade? — Ter aquele assunto como o primeiro de seu dia definitivamente não fazia parte do plano de se manter calmo e ativo durante as próximas horas.

Sasuke estava dormindo há dois dias inteiros e com nenhum sinal de melhora. O rei seguia as recomendações do médico e passava pelo quarto do irmão sempre que tinha algum momento livre, encontrando sempre a esposa com alguns livros ao lado do mais novo.

— Eles continuaram por outro caminho e encontraram alguns túneis que seguem para o extremo norte. — Shisui indicou o papel que carregava em sua mão e, ao abrir a porta para o rei, o estendeu sobre a mesa da biblioteca. — Este segue para uma zona inóspita da floresta, não há casas ou meios para se esconder. — Seu dedo passeou pelo papel e indicou um novo ponto. — Este segue até uma área alagada, onde o rio para por conta de uma pequena represa, e este aqui… — O indicador parou no ponto marcado de vermelho, diferente dos outros com pequenas marcas negras. — É o local que acreditam que Fugaku tem usado.

— Quais as provas?

— Deixaram um corpo para trás, não nos túneis, mas cerca de dois quilômetros dali. — O moreno encarou o rei pronto para dar-lhe a melhor notícia em dias. Sabia que o amigo estava mal como todos daquele castelo pela situação delicada de Sasuke, o insuportável que fazia falta. — E seguindo em frente por um dia e meio, chegamos à capital do reino da Pedra.
Capítulo 18

Sono de princesa (?)

— Ok, eu vi isso em algum lugar…

Deixando o pesado livro de lado, a rainha olhou a bagunça ao redor e encontrou no chão, entre muitos outros exemplares, o livro que ela achava ser o certo.

— Ah, Sasuke, seu sono deveria acabar logo. — Tomou o livro e bufou ao observar o cunhado à sua frente. — Seu irmão é um péssimo mentiroso e jura que está cuidando dos assuntos do reino normalmente, porém eu sei que ele perambula pelo castelo quando acha que eu estou desmaiada como você…

Suspirou profundamente e abriu a página já marcada com um pedaço de papel em branco. Eram tantas informações em tantos lugares que a Uchiha desenvolveu o próprio método para se achar na bagunça de porquês. Kurenai salvaria sua vida, mas aquilo deveria ser viável para todo tipo de casa no reino para assim dar certo, e Ino só apresentaria ao rei quando tudo nos mínimos detalhes fosse pesquisado e tivesse algum embasamento.

— Queria mesmo saber se está bem. — Deixou as letras do livro e observou outra vez o moreno. — É estranho não ouvir sua voz insuportável reclamando o dia inteiro por aí.

Decidida a, por enquanto, focar mais em seus estudos que no cunhado, Ino afastou os pensamentos preocupantes que a acompanhavam desde a hora que recebeu a notícia do acidente do mais novo. Estavam na décima quarta hora do silêncio de Sasuke, e os médicos insistiam que sua recuperação viria, e logo, pois, segundo eles, não havia motivo aparente para o moreno estar desacordado, mas certamente não conheciam o Uchiha e sua teimosia desagradável.

Ino riu ao pensar que o cunhado era teimoso demais para obedecer aos médicos, que não eram poucos e revezavam com ela e Itachi nos cuidados. Seu marido não tinha muito tempo, no entanto, sempre passava por ali para conferir se estava tudo certo com eles, e Ino o acompanhava, pois faria o mesmo em sua sala, então não viu mal em não deixar Sasuke sozinho.

Tomou o pesado livro outra vez e deu início à leitura. As técnicas do pai de Kurenai pareciam simples, mas tudo dependia do que a rainha escolheria para plantar. Seu experimento tinha que dar certo, ou nada estudado minuciosamente teria surtido algum efeito. Conversando alguns dias com a morena de olhos vermelhos, Ino descobriu o cuidado que o pai da Yui tinha, o que não estava escrito em seu caderno. Talvez devesse fazer tal experiência na casa da mulher, mas negou rapidamente. Era pedir demais.

— Uhm… — Pegou sua pena e anotou em um caderno o nome que viu anteriormente e achou finalmente. — Isso pode funcionar se… — Buscou a enciclopédia que continha alguns dos muitos frutos que sua terra natal podia prover, contudo fazer algo funcionar ali no frio intenso era muito diferente que cultivar no reino da Lua. Buscou com os dedos, passeando sobre as páginas, concentrada demais, esquecendo o resto do mundo.

Se aquele mesmo legume apareceu em dois livros distintos, havia um potencial gigantesco, visto que em outros as variações eram inúmeras. O que funcionava em temperatura de 5 a 8 graus, não funcionava com menos que isso, mas ali parecia haver uma saída. Era um pouco mais firme, porém seu cozimento rápido a moderado, fácil para descascar, então até os velhinhos do reino conseguiriam manusear. Certo, ela jurou que não comemoraria antes de fazer funcionar, contudo pareceu mais perto do que o esperado.

— Isso! — Levantou-se feliz, derrubando tudo que estava em seu colo. Alguns pulos e gritinhos em comemoração fizeram a loira esquecer onde estava, mas uma voz insuportável a lembrou imediatamente.

— Ah, Ino, respeite um moribundo… — Sasuke fez uma força enorme para abrir os olhos, porém a claridade o fez fechar outra vez. Sentia o corpo doer e sua cabeça latejava levemente, porém, infelizmente, sua cunhada parecia sentir saudades. — Ei!

— Sas… — Ino afundou o Uchiha em um abraço apertado e, mesmo com as reclamações do moreno, a rainha continuou até que seu alívio fosse liberado. A Uchiha chorou baixinho ao ser retribuída após o susto, mas estava verdadeiramente feliz por vê-lo consciente.

— Eu estou bem, Ino… — O moreno sorriu com a espontaneidade da cunhada, que o segurava como se ele fosse quebrar.

Ficaram ali por alguns minutos, sem que nada fosse dito, sentindo o alívio de finalmente estar bem e com sua família, porém o momento feliz foi interrompido quando o rei abriu a porta sem cerimônias e entrou no quarto do Uchiha mais novo, chamando a atenção de ambos.

— Ino, como está…

— Ah, estamos bem, Itachi. — A mulher se levantou e secou suas lágrimas, correndo até o marido. — Eu estava lendo e, de repente, ele reclamou!

— Você estava falando alto demais… — Sasuke sentou, sorrindo torto para a cunhada, que acompanhava seu irmão até a cama que estava.

— Então não tem de quê. Finalmente alguém o acordou do seu sono de princesa. — Ino correu até o moreno e se sentou do outro lado da cama. — Não está feliz, Itachi? — Notando o silêncio do Uchiha, Ino resolveu perguntar.

— Claro, estou sim, só não esperava… — Os olhos escuros passavam de um para o outro e Itachi sentia que aquela era apenas a possessividade Uchiha mexendo com seus instintos, então respirou fundo e tentou disfarçar sua desaprovação à intimidade de ambos, pois era algo que ele mesmo não tinha com sua esposa. — Eu tenho que ir contar ao Shisui, os médicos precisam vir para avaliá-lo.

O rei levantou apressado e saiu rapidamente pela porta, deixando o irmão e a esposa sem entender o motivo de Itachi não ter comemorado sua recuperação. — Aconteceu alguma coisa enquanto eu estava dormindo?

— Nos seis meses? Não…

— Eu dormi seis meses? — O moreno colocou a mão no próprio peito, assustado com tal informação.

— Claro, Sas, e eu estou grávida. — Revirou os olhos azuis, zombando da ingenuidade do Uchiha.

— Bom, eu notei que seu peso aumentou, mas achei grosseiro comentar quando estava chorando e… — Levou a mão até seu braço. — Aí! Eu não acredito que me agrediu, eu estou doente!

Ino se levantou da cama com a cara de poucos amigos e seguiu até a porta, a abrindo, mas, antes de sair, deixou claro para o moreno sua verdadeira intenção: — Não se fala para uma dama que ela ganhou peso, e sorte a sua que só trouxe livros para me acompanhar. Se eu estivesse com minhas flechas, você era um homem morto, Uchiha.

[...]


— Alguns homens na fronteira foram encontrados mortos, estou preocupado que tudo isso não seja um caso isolado e, sim, um plano orquestrado, comandante.

— Eu entendo, Asuma, e também acho que Fugaku está recrutando civis para mais do que apenas saques aos armazéns. — Shisui coçou a testa, mas logo virou assustado com a batida na porta. — Está tudo bem, majestade? — Itachi seguiu murmurando sozinho até chegar próximo da mesa. — Rei Itachi?

— Sim? — O Uchiha levantou a cabeça para olhar para o seu amigo, como se o chamasse pela primeira vez.

— Está bem?

— Por que não estaria? — Shisui engoliu em seco com o tom que sua alteza falou e negou rapidamente. — Sasuke também está ótimo, ele acordou.

— Que notícia maravilhosa, majestade — Asuma comentou, animado, e recebeu um olhar atravessado em resposta.

— Então… — Shisui pigarreou, meio confuso com o comportamento de Itachi. — Asuma me contava os acontecimentos nos vilarejos antes de vossa alteza chegar.

— Espero que sejam boas notícias. — O rei apoiou suas mãos na mesa e suspirou.

— Receio que não…

Shisui e Asuma explicaram que civis têm se desentendido, inclusive estavam se agredindo e armando confusões em vários lugares nos vilarejos. Os saques nos armazéns de comida estavam cada vez mais frequentes, e o povo tinha tomado conhecimento sobre o que estava acontecendo. O inverno tinha chegado, daqueles dias em diante a neve só iria piorar, assim como o frio. Era impossível abastecer a todos com a crise alimentar que estava cada vez mais próxima de ser uma realidade.

Além de todo o caos que estava sendo instaurado por todos os lados no reino do Fogo, alguns homens do exército tinham sido encontrados mortos ao longo da fronteira. A situação não era nada boa, e Itachi sabia disso. Precisava pensar com clareza, sem deixar seu emocional atrapalhar. Ele já tinha notado que seu temperamento estava cada vez mais desequilibrado. Ele era inteligente, sabia identificar sinais claros de que seu humor havia mudado desde que assumiu o trono. Caso fosse uma maldição, iria quebrá-la.

[...]


Deu dois toques na porta e abriu mais animada que nos últimos dias. — Kurenai? Está ocupada com a confecção? — Ino sorriu ao ver o rosto mais velho sorrir para si de volta e entrou na sala observando melhor o local.

Sua ideia deveria ser testada, e aquela sala tinha o potencial certo para seus planos. Bom, não sem a ajuda da mulher de cabelos pretos, que se levantou e seguiu a rainha pelos cantos.

— Se está procurando por algo, eu posso ajudá-la, vossa alteza. — Kurenai achava a rainha uma ótima, porém inexplicável, pessoa, que rendia muitos sorrisos com sua filha e marido nas poucas ocasiões que podiam jantar juntos.

— Acha que este lugar seria apropriado para a estufa de seu pai? — Os olhos azuis animados encaravam os vermelhos, que passearam outra vez pelo local. — Poderíamos usar qualquer outra sala, mas uma onde meu cunhado e marido não ponham os pés… — O rosto franziu pensativo, e a tagarelagem da loira deu lugar às dúvidas. — Temos o subterrâneo, mas deve ser algo mais próximo às casas da população. Temos que criar algo muito próximo, pois se der certo, vamos ampliar o estudo e…

— Claro, vossa alteza, eu entendo... — Sorriu ao pegar a mão da rainha, abrir a porta e a acompanhar pelo corredor. — Acho que perto da cozinha há um bom lugar…

— Por que lá? — Ino enganchou seu braço no da Yui e, curiosa, esperava uma explicação da mulher.

— O fluxo de água é maior e, em algumas partes específicas, há menor movimentação de pessoas. — A morena sorriu confiante. — Não terá chance de alguém notar nossa presença ali.

A Uchiha sorriu confiante por todo o caminho. Desceram muitas escadas e, ao chegar ao lugar, a movimentação de empregados era intensa, mesmo àquela hora da manhã. A rainha quase achou absurdo o plano de Kurenai, contudo, havia mesmo uma parte que parecia nem ter sido considerada pelos demais. Alguns corredores estavam abandonados, exceto pela organização deles, mas isso ela e a morena poderiam resolver rapidamente. Surrupiaram as chaves e seus segredos estariam guardados.

Após alguns minutos, Ino já sabia o que deveria providenciar e o que ficaria a cargo da Yui, que, certa do planejamento da rainha, não via a hora de começar a ajudar ativamente com os planos da Uchiha. Saíram da sala, a trancando em seguida, e, a passos calmos, comentavam sobre o melhor dia para o início, as anotações que a loira precisava para seu estudo e as dicas que a morena lembrava do pai.

— Não vamos ficar sempre aqui, mas, ao menos uma vez ao dia, precisamos vir e ter certeza de que está tudo bem… — A escadaria principal que dava acesso ao piso que os nobres e os de maiores patentes usavam estava quase no fim, e a rainha contava os instantes para participar ativamente do reino do marido.

— Senhora, vai dar tudo certo. Temo que nos primeiros dias a ansiedade nos atormente, mas tenha fé, já fiz isso algumas vezes. — A mão da Yui acariciava a de sua rainha para mantê-la segura e confiante. Sabia que a jovem carregava consigo uma esperança para seu povo e seu trabalho ali era garantir que Ino não desistisse.

— As condições eram diferentes e… — A voz aguda de um guarda chamou a atenção de ambas, assim que o primeiro corredor foi dobrado.

— Ei, criada! — O homem estava com a armadura negra completa, até o elmo fechado, impedindo a rainha de observar quem falava assim com Kurenai. Se aproximou apressado e desfez o enlace dos braços das duas mulheres com brusquidão, fazendo a morena reclamar baixinho. — Não ouse tocar em vossa alteza! Sabe que é…

— Ela está comigo! — Ino tomou a mão da Yui e acariciou onde achou que o guarda tinha machucado. — Quem pensa que é para dizer quem deve ou não andar ao meu lado?

— Desculpe, majestade, mas temos regras a quem anda pelos corredores principais do castelo e não recebi memorando algum sobre suas novas damas de companhia, nem sabia que havia escolhido alguma… — O homem se curvou, pedindo em silêncio desculpas à loira, que, naquele instante, pensava apenas em suas palavras.

Se Ino poderia ter isso de damas de companhia, poderia ajudar Kurenai a sair de seu antigo cargo e, consequentemente, andar consigo para todos os cantos sem precisar escondê-la do marido. Aquilo era tão boa ideia que esqueceu sua raiva imediatamente e um sorriso largo tomou a face da rainha.

— Peça desculpas a Kurenai e nos acompanhe até nosso destino. — Tomou o caminho à frente do homem e seguiu até o quarto que a Yui fazia suas vestes especiais. — Fique aqui até que eu volte com notícias, prometo não demorar. — Deixou Kurenai para trás e, segura de outros guardas desagradáveis e a passos apressados, seguiu pelos corredores. — Onde está o rei?

— Sua majestade a espera para o almoço, senhora.

Com muita pressa e passos firmes, Ino tomou o caminho mais curto até a sala de refeições. Se seu marido tivesse lhe dito que poderia escolher alguém para andar consigo durante o dia, ela já teria feito Kurenai sua companheira fiel. Como não tinha visto esta informação em nenhum livro do reino do fogo? O que mais de diferente de sua terra aquele lugar poderia mostrar para a mulher de olhos azuis radiantes, que encontrou o marido calmo, no lugar de sempre na ponta da enorme mesa, acompanhado de Shisui e Sasuke.

— Faça Kurenai oficialmente minha dama de companhia. — Sem cumprimentos para nenhum dos homens e chamando a atenção dos empregados que serviam a mesa, a rainha não notou os olhos escuros curiosos para si.

— Quem é Kurenai? — seu cunhado perguntou.

— Está dando uma ordem para o rei, alteza? — O melhor amigo de seu marido a lembrou de onde estava e a loira respirou profundamente, entendendo que errou e muito ao chegar daquela forma em seu marido, mesmo que não houvessem tantas pessoas presentes.

Fechou os olhos, antes animados, e sentiu que havia perdido o direito de requerer algo quando não usou nem um pouco da educação que sua mãe insistiu em dar. E, ao observar melhor o lugar, agradeceu ao menos a falta do pai, que seria mais um a ralhar com o ouvido da coitada. Pronta para recomeçar e ciente de que deveria começar com uma bela desculpa, a rainha mais uma vez olhou para o marido, que, como os demais, nada dizia, mas, antes que a primeira palavra saísse de seus lábios, a voz calma do Uchiha foi ouvida:

— Como quiser, minha rainha.
Capítulo 19

Herdeiros

O casal se preparava para dormir e ambos estavam imersos em seus próprios pensamentos. O rei não queria ser invasivo perguntando de uma vez tudo que gostaria de saber sobre a esposa, contudo não via outra maneira de sanar suas dúvidas e curiosidades sobre o que Ino fazia durante o dia e como ela e seu irmão se tornaram tão íntimos a ponto de terem até piadas entre ambos.

Itachi tinha mais o que se preocupar, sim. Seu reino, sua tropa, ataques de pessoas insatisfeitas com o rumo do reino, porém a vida conjugal também fazia parte do pacote de coisas importantes da sua vida. Mesmo que eles não fossem de todas as maneiras casados, havia ali uma vontade real de fazer parte da vida um do outro. Bom, esse era seu pensamento, mas perguntas poderiam deixar a mulher calma, que penteava os fios longos de forma serena, irritada. Porém tudo tinha que ter um início, e ele, mais que ninguém, sabia disso.

— Como soube da dama de companhia? — Andou pelo quarto e sentou na cama, pegando um livro qualquer para não levantar suspeitas. — Não lembro de ter comentado…

— Não comentou. — O sorriso direcionado a si parecia cheio de promessas e certezas, o que fez Itachi desviar os olhos negros da mulher sorridente. — Eu por acaso fiquei sabendo que minha amiga não poderia andar pela parte principal do castelo e fiquei chateada. Tinha que fazer alguma coisa.

— Eu entendi isso. Pela forma que chegou à sala de jantar, imaginei que havia tido algum problema, e o soldado que a acompanhou é novo e está com as regras frescas em sua mente. — Deduziu aquilo em segundos, sabendo bem o quanto a esposa gostava de esconder pequenos segredos. Uma reunião com o jovem soldado duas horas após o fim da refeição fez o moreno dar certeza a tudo que havia pensado no almoço.

— Sempre me esqueço do quanto é inteligente. — Os pés descalços andaram vagarosos até a cama e a loira tomou o lugar ao lado do marido, ainda muito feliz com a ajuda de Itachi e sem saber ao certo como agradecer.

— A tornei oficialmente dama de companhia da corte hoje antes do jantar. Pode ajudá-la a escolher trajes finos para que ela se misture aos demais membros da corte. Ela pode participar de reuniões civis, festas e banquetes, e já conversei com seu marido. — Deu uma pausa, olhando o rosto animado da esposa. — Asuma ficou feliz em saber que se agrada da companhia de Kurenai.

— Conhece o marido dela? — Os olhos azuis miraram rapidamente a mão que tomou o pulso do Uchiha. Ino não se controlava quando eufórica, e era engraçado notar o rubor das bochechas claras nas raras vezes que a rainha ficava envergonhada.

— Ele é um dos meus capitães. — Sorriu, porém durou pouco, até o momento que o toque quente da Uchiha deixou seu braço. — É recente, por isso não deve estar ciente.

— Ela fala maravilhas dele. — Cruzou os braços sobre os seios, imaginando um casamento de verdade, mesmo que não estivesse insatisfeita com o que tinha agora. — Eles têm uma filha, sabia?

— Sim, esta eu conheço. — Sorriu mais uma vez ao lembrar da garotinha irritada que o lembrava Sasuke na infância. Sentia que poderia falar mais, contudo tinha receio de estar ultrapassando algum limite. Na época que viviam, era normal que apenas ele escolhesse a resposta para a pergunta que queria fazer, contudo gostaria de saber a opinião de sua esposa sobre o assunto delicado que o assombrava há alguns dias. — Você…

— Já pensou em ter filhos? — a Uchiha perguntou de uma vez, tentando não parecer desesperada ou direta demais, mas se aquele casamento nunca fosse um de verdade, valia seu tempo continuar a espera de que tudo no reino pudesse ser resolvido e ela finalmente conseguisse experimentar o que havia de menos burocrático no acordo que fez com Itachi?

— Eu ia perguntar a mesma coisa. — Sorrindo, ele deixou o livro que fingia ler e respirou profundamente. — A filha de Asuma é a versão feminina de Sasuke quando mais novo. Ela não queria vir para o meu colo e emburrou a cara quando eu a peguei.

— Deus nos livre de outra criança como seu irmão. — Ino gargalhou ao lembrar do gênio ruim do cunhado e pensou no quanto deu trabalho à sua mãe e se os deuses seriam capazes de puni-la por tais atos.

— Seria assim tão ruim?

— Seria, sim! Não estou pronta para perder meus cabelos. — Riu alto por mais alguns minutos e, ao acalmar sua mente, olhou para o moreno, que de cabelos soltos ficava ainda mais charmoso. — Quantos?

— Filhos? — A afirmativa da esposa o fez pensar um pouco. — Dois, três, depende de quantos quiser. Sinto que se o primeiro for como Sasuke, será o único.

— Tenha certeza disso, majestade! — Segurou as próprias mãos nervosas, pronta para o passo que sentia que deveria dar. — Eu… quero agradecer por atender meu pedido e peço que me desculpe por não ter dado a devida atenção a quem estava na sala de jantar.

— Quero que entenda que eu farei o possível para deixá-la feliz e já disse isso outras vezes. Espero apenas que acredite a partir de agora. — O moreno se ajeitou nos lençóis, pronto para terminar o assunto antes que fizesse alguma besteira, pois achou incrível o quanto conseguiu conversar com a rainha. — E não peça mais desculpas, quero e peço que fale como quiser e o que quiser comigo. Estamos juntos nessa.

Ino quis chorar ao observar as costas largas do marido ao se virar para dormir, contudo não conteve a vontade de agradecer verdadeiramente ao moreno pela companhia de Kurenai, que deixava seus dias menos chatos e muito agradáveis. Pelo jeito que chegou ao almoço, Itachi poderia negar seu pedido rapidamente, apenas por ter parecido uma ordem, e banir Kurenai do castelo para puni-la, mas o Uchiha sempre a surpreendia de maneiras incríveis.

A loira também se deitou e abraçou o corpo do rei, que se espantou com o ato repentino, mas, em poucos meses de casado, sabia que sua esposa era espontânea e verdadeira com seus sentimentos, então apenas recebeu o carinho, unindo seus dedos aos dela sobre a parte inferior de seu peito. Sentiu a respiração quente em suas costas e a testa colada em sua pele arrepiada pelo frio ou pelo toque do corpo pequeno em si. Fechou seus olhos negros, aproveitando o momento, porém foi interrompido de seus devaneios com a voz melodiosa da Uchiha:

— Mesmo assim, quero agradecer devidamente por sua bondade, meu rei.

[...]


Minha rainha, receio que tudo aqui esteja mais difícil do que o imaginado. O rei é homem íntegro e de muita fibra, contudo o inimigo passou a ser seu próprio reino. Temo que Fugaku, o homem que apontam ser o líder da residência ao reinado de Itachi, está à frente de uma possível revolta popular. Estou aderindo às indicações feitas por vossa majestade, com o apoio do Uchiha, buscando tornar mais difícil o ingresso de homens civis aos rebeldes, porém as leis por aqui não estão sendo de tanta serventia agora. A transição segue complicada, mas sinto que, em breve, quando tudo isso acabar, teremos o cumprimento do dever e a ordem estabelecida. Teremos uma visita para perto, e sei que está ciente dos tratados que poderemos fazer. Peço que continue enviando o que acha pertinente e que esteja tudo bem com a senhora e meu rei. Ino está se tornando um problema ao sumir boa parte do dia, mas tenho fé que seja apenas por estar estudando demais, como sempre. Muito obrigado pelos livros que pedi e até a próxima reunião, pois em breve voltarei ao reino da Lua.

Inoichi Yamanaka.

O loiro ergueu os olhos ao ouvir a conversa animada de alguns homens que se aproximavam. Calmamente, dobrou o papel e o colocou em um canto da mesa, seguindo de volta às estantes altas para guardar os livros que pegou, ficando invisível a quem acabou de entrar.

— Eu estou dizendo, os homens do exército vão hoje! — o que parecia ser o guarda de confiança do rei falava animado. — Uma grande comemoração com muita bebida e mulheres. Acho que merece relaxar um pouco, vossa majestade.

O loiro fechou os olhos nervoso, pois infelizmente sabia que estava errado em ouvir a conversa do rei com seu amigo, contudo era assunto de Ino também, e se Itachi ousava trair sua filha e a confiança que havia acabado de escrever na carta que entregaria à sua rainha, ele que deveria ter vergonha de ouvir e concordar com Shisui.

— Sabe que não sou disso. Nem antes, muito menos após meu casamento. — O alívio do pai da rainha foi imediato. Pelo menos a integridade do moreno não era da boca para fora. — Estou feliz com a minha rainha.

— Eu sei, eu sei… — A risada escandalosa do guarda passou a irritar o Yamanaka. — Mas não consumaram o casamento, então tecnicamente… e seu irmão também não poderá ir. Deveria ter ao menos um Uchiha para representar a família! — A voz do Uchiha rapidamente interrompeu Shisui e parecia bem mais irritada que minutos atrás.

— Não precisa espalhar algo que contei enquanto desabafava, e isso, meu amigo, é questão de tempo! — O Uchiha pareceu tomar o lugar à mesa, pois o barulho da cadeira arrastando no piso de pedra soou alto. — Pretendo fazê-la se apaixonar por mim e apenas assim, quando tiver o coração de Ino, a tornarei minha.

Inoichi sorriu ladino. Mesmo ficando irritado ao pensar que alguém defloraria sua amada filha, saber que um homem tão honrado faria isso de maneira tão especial deixava seu coração mais calmo.

— Ok, romântico, espero que não leve a vida toda. E tira esse sorriso idiota da cara, você só recebeu um abraço, Itachi!

— Ontem também conversamos sobre filhos. — O silêncio do rei pareceu ser um déjà vu do que ele havia vivido com sua filha. — Eu sinto que estou cada vez mais perto…

— Ou ela. — Shisui também arrastou uma cadeira. — Se a mãe dela a visse dando ordens a você, acho que ela estaria encrencada.

Então sua filha aprontava mais do que ele imaginava! Onde aquela garota aprendeu a ser tão mandona? Dando ordens ao rei na frente de seu guarda?

— Eu não me importo com quem manda. Acho essa petulância dela atraente, sua curiosidade é única, e nossas conversas nunca são entediantes. — O rei suspirou e continuou: — Ino é realmente… diferente.

— Acho que seu plano está funcionando, majestade. — O guarda foi interrompido por um soldado, que chamou ambos para um compromisso. — Já está apaixonado por ela.

— Não diga besteiras, vamos! — Outra vez as cadeiras foram arrastadas e, antes que a porta batesse, avisando ao loiro que mais uma vez estava sozinho, o Uchiha concluiu: — Está trabalhando muito pouco para pensar tanta bobagem.

Inoichi imaginou o que faria com tal informação e o que faria para ajudar Ino, contudo parecia que o rei tinha mais que certeza de seus planos e, deixando sua filha apaixonada, o homem loiro e sorridente, que tomava o caminho de volta à mesa, ficava aliviado.

[...]


Itachi olhava Ino de soslaio enquanto estavam em frente ao castelo, esperando a comitiva do reino da Areia chegar. Gaara tinha enviado uma carta para o rei há alguns dias, dizendo que gostaria de rever os seus acordos com o Fogo. Isso era ótimo, o Uchiha gostaria mesmo de fazer os acordos de sua maneira, tirar tudo que pudesse lembrar seu pai e seu reinado autoritário. Esperavam já há alguns minutos. Inoichi, Sasuke e Shisui também faziam companhia ao casal real após o café da manhã.

Finalmente a carruagem foi avistada na ponte e logo passou pelos portões do castelo, fazendo o caminho no imenso jardim, que agora estava coberto de neve. Os cavalos foram parados bem em frente à entrada principal do castelo e a porta foi aberta por um dos soldados. Gaara foi o primeiro a sair e reverenciou o casal Uchiha, recebendo o mesmo tratamento em resposta dos demais. O rei da Areia ajudou sua irmã a sair da carruagem e Ino sorriu para a loira, que fez o mesmo. As duas tinham se conhecido no reino da Lua e se davam super bem. Estavam felizes de ver uma à outra depois de tantos meses.

— Shika! — Ino sorriu largo ao ver seu melhor amigo saindo da carruagem por último e correu para abraçá-lo.

— Já basta um rei querendo me matar, Yamanaka, não quero estar na mira de um Uchiha também… — o Nara falou baixo, enquanto ainda era esmagado pelos braços da loira.

— Do que está falando? — Ino se afastou e olhou para trás, vendo o sorriso forçado que Itachi dava. Ela não entendeu muito bem, em sua cabeça não tinha feito nada demais, porém a expressão de seu pai lhe mostrava o contrário, além de Sasuke e Shisui parecerem surpresos. Voltou devagar, sorrindo sem graça, para o seu lugar ao lado de seu marido, que claramente estava tenso.

— Sejam bem-vindos… — o rei disse e entrou no castelo, sendo seguido pelos demais.

— Você enlouqueceu, Ino? — seu pai sussurrou quando se viu distante o suficiente de todos.

— O que houve, papai?

— Vou deixar que pense sozinha, minha filha, você é inteligente.

Ino ficou parada no meio do salão, assistindo seu pai se afastar e Shisui dando ordens aos soldados para que levassem todos para seus devidos quartos. Itachi falava com Gaara, combinando o horário em que se reuniriam para discutir os acordos. O rei lançou um olhar enigmático para sua esposa antes de subir as escadas, rumo à biblioteca, com seu comandante em seu encalço. Temari chegou ao seu lado, a acordando de seu transe, e então as duas se cumprimentaram como gostariam, trocaram um abraço saudoso, e a rainha a convidou para um chá no jardim de inverno.

Aquilo tudo foi confuso, mas talvez tenha entendido que Itachi tenha achado estranho seu comportamento com Shikamaru. Ele não sabia quase nada da sua antiga vida no reino da Lua, então ver ela abraçar outro homem com tanto entusiasmo pode tê-lo deixado irritado, claro. Sua honra iria para a lama caso os soldados comentassem o comportamento de sua esposa, não deveria abraçar homens da forma que fez, principalmente em frente à comitiva e do rei do reino da Areia. Itachi deveria estar irritado consigo, mas depois explicaria tudo para seu marido.

Temari contava animada sobre seu casamento com Shikamaru, que aconteceria nas próximas semanas. Ino pensou se poderiam ir, ela queria muito ver seu melhor amigo casando, porém tudo estava conturbado demais no seu reino, Itachi não poderia deixar seu posto e jamais iria sem seu marido. Esperava ansiosa que tudo se resolvesse, mas definitivamente demoraria mais do que algumas semanas. Shikamaru pediu licença ao chegar à porta e se juntou à sua noiva e amiga, que agora se via sorridente por ter dois amigos ali naquele reino onde não conhecia ninguém.

— Então, o que está aprontando por aqui?

— Shikamaru! — sua noiva o repreendeu. — Não fale desse jeito, agora ela é rainha!

— Não falei nenhuma mentira. Sabia que ela me ameaçou com uma faca para ensiná-la arquearia?

— Céus, Ino! — Temari cobriu a boca, chocada.

— Deixe as coisas do passado, no passado, Shikamaru. — A Uchiha arrebitou o nariz, largando sua xícara em cima da mesa. — Itachi fez uma sala de treinamento para mim.

— Nossa, não esperava isso de um Uchiha… — o Nara comentou e recebeu um apertão na mão. — Ai, Tema, pelo amor de Deus, não vou poder conversar com minha amiga?

— Vai, de forma educada. — A ex-Yamanaka e o Nara deram risada, e a Sabaku franziu o cenho.

— Está tudo bem, Temari. Shika é como um irmão pra mim, não temos formalidades. Além de que, ele está certo… eu também não esperava muita coisa de Itachi. — Ela sorriu, parecendo pensativa. — Ele tem me mostrado que Uchiha's podem ser diferentes das histórias…

— Fico feliz que esteja bem em seu casamento. Temari me disse que a rainha Hinata tinha casado vocês por acordo.

— E foi, mas eu quis.

— Imaginei que sim — Shikamaru comentou, sorrindo. Conhecia sua melhor amiga e, olhando para ela agora, parecia ter sido feita para o lugar que ocupava.
Continua…
Nota da autora
Sem nota.

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