Codificada por: Lua ☾
Finalizada em: 27/12/25Aos oito, leu tudo o que pôde sobre esquizofrenia. Não por curiosidade, mas por desespero. Aos dez, o pai foi embora. William Reid deixou para trás mais do que uma casa: deixou o peso de cuidar de Diana sozinho, de administrar crises, remédios e silêncios que uma criança nunca deveria conhecer.
Spencer tentou entender, racionalizar, encontrar um motivo que fizesse sentido. Mas, no fundo, nenhuma explicação apagava o fato de que William simplesmente se fora.
Anos depois, o reencontro veio cercado de mágoa e desconfiança, quando o pai o ajudou em um caso da BAU. Por isso, quando o telefone tocou meses depois e o nome “William Reid” apareceu na tela, Spencer ficou imóvel. Ele não sabia se queria atender, não sabia se queria ouvir. Mas parte dele – a parte que ainda era o menino que esperava o pai voltar – quis.
Foi assim que, na primeira folga que teve, Spencer pegou um voo para Las Vegas, sua cidade natal, onde William queria apresentá-lo oficialmente à nova namorada. O pai estava ali, solto no mundo, tentando construir uma nova família. Mesmo já tendo deixado uma para trás.
Spencer hesitou em aceitar, mas acabou cedendo, convencido de que talvez fosse hora de tentar sair do seu casulo. O terapeuta dissera que seria bom. Até Diana, sua mãe, em um raro momento de lucidez, murmurara: “Garoto, não seja tão ranzinza. Vá jantar com seu pai.”
– É… Então, aqui é… legal. – Murmurou ele, sem jeito, o olhar alternando entre o pai, a namorada e a filha dela, que devia ter mais ou menos a idade de Henry, seu afilhado.
Seu cérebro, em legítima autopreservação, começou a calcular estatísticas inúteis sobre taxas de sucesso em reconciliações familiares.
– É o preferido de Deb. – Explicou William, sorrindo enquanto segurava a mão da namorada. – E de Zoe também.
– Vejo que gosta de colorir, Zoe. – Spencer, meio sem jeito, tentou puxar assunto com a garotinha de olhos pequenos. – É sua atividade preferida? Você gosta de… outros jogos? Ou… ou quebra-cabeças?
A garotinha, que até então coloria em silêncio o verso do cardápio, ergueu o olhar e assentiu com um sorriso largo. Spencer retribuiu o gesto, sentindo o rosto relaxar pela primeira vez naquela noite. Ele sempre gostara de crianças e, de algum modo, elas sempre gostavam dele também. Talvez porque ele se conectasse com elas de verdade, sem condescendência, enxergando-as como pessoas com sentimentos complexos, tão reais quanto os de qualquer adulto.
Ou talvez fosse só por causa dos truques de mágica legais.
– Minha irmã me ensinou a jogar pôquer uma vez! – Zoe contou, empolgada, entregando um giz de cera colorido a Spencer, como se fosse uma convocação oficial para colorir com ela.
– Pôquer? – Sorriu, grato por qualquer assunto que não envolvesse o silêncio desconfortável entre ele e o pai. A mente, sempre inquieta, já começava a girar com estatísticas e probabilidades. – Texas Hold’em ou pôquer de cinco cartas?
– Hold’em? – Zoe repetiu, inclinando a cabeça de lado, curiosa. – O que é isso?
Os olhos de Spencer brilharam instantaneamente. Ele se animou como se tivesse acabado de receber uma pergunta em uma palestra sobre mecânica quântica.
Com o entusiasmo de uma criança em uma loja de doces, mergulhou em uma explicação detalhada – e um tanto desnecessária – sobre as regras do Texas Hold’em. Falou sobre cartas comunitárias, rodadas de apostas, mãos iniciais e probabilidades do pote, gesticulando e ilustrando exemplos teóricos. Em certo momento, chegou a pegar um guardanapo e rabiscar pequenos diagramas, completamente imerso.
– Ele é igualzinho à Mariah. – Comentou Deb, trocando um olhar cúmplice com William antes de se voltar para Spencer. – É minha filha mais velha. Ela trata a Zoe como se tivesse vinte anos. – Ele olhou para Deb, tentando processar a informação em silêncio. Uma nova variável inesperada em um jantar que já parecia socialmente complexo o suficiente. – Ela também deveria nos encontrar aqui, na verdade…
A testa de Spencer se franziu de leve. Mais uma pessoa para conhecer. Mais uma variável imprevisível.
– Certo… certo. Outro… membro da família. – Murmurou, quase para si mesmo, enquanto a mente já se apressava a recalcular todas as probabilidades sociais daquela nova configuração familiar.
Spencer estava prestes a comentar algo sobre a estatística média de famílias recompostas nos Estados Unidos quando uma voz familiar o fez congelar.
– Desculpa o atraso, o trânsito estava um inferno.
Ele ergueu o olhar, e o cérebro levou alguns segundos para acompanhar o que os olhos já tinham captado. A mulher parada ao lado da mesa parecia deslocada daquele ambiente. O cabelo preso de qualquer jeito, a jaqueta de couro jogada sobre um vestido floral rosa, as sapatilhas de balé em completo desacordo com a atitude da jaqueta.
Mas o rosto… o rosto ele conhecia.
– Mariah! – Exclamou Deb, aliviada. – Essa é minha filha.
Spencer piscou. Uma, duas vezes. As sinapses demoraram mais do que o normal. Enquanto ela se sentava, Spencer sentiu o cérebro entrar em modo de sobrecarga.
Três observações se formaram quase simultaneamente: Mariah definitivamente não era uma adolescente. Seu cheiro era quase enjoativamente doce. E, o mais inquietante: ela lhe parecia estranhamente familiar.
Os dedos de Spencer se contraíram contra o garfo enquanto ele percorria, mentalmente, os arquivos da própria memória eidética. Datas, rostos, conversas, arquivos de campo.
Nada?
Impossível. Spencer Reid não esquecia rostos.
– Hum… olá. Você deve ser a Mariah. – Spencer gaguejou sem jeito por um instante, incapaz de formular uma saudação coerente, até conseguir forçar, com dificuldade.
– Quem é você? – A pergunta não soou ofensiva, apenas curiosa.
– Eu sou Spencer.
– Ah, o filho do William! – Mariah sorriu, acolhedora. – Prazer em te conhecer. – Ela estendeu a mão sem pensar duas vezes.
Spencer engoliu em seco. Apertos de mão. A mais simples das interações sociais e, para ele, uma das mais complexas.
Seu cérebro entrou em modo de alerta, avaliando riscos e protocolos mentais. O olhar ficou preso na mão dela por tempo demais e o silêncio se alongou, desconfortável. A própria mão dele se ergueu até a metade do caminho, depois congelou no ar, indecisa. Etiqueta versus ansiedade. No fim, ele optou pelo meio-termo: um aceno contido, quase militar.
– Igualmente…
– Ele não… – William interveio em voz baixa, com um leve movimento de cabeça para Mariah, explicando sem precisar de palavras.
Ela captou de imediato e recolheu a mão com naturalidade, o sorriso nem por um segundo vacilando.
– Sem problemas! – Disse, gentil. Fez um gesto teatral, estalando os dedos antes de recuá-los com um puf! sonoro.
Spencer piscou, surpreso, e um pequeno – quase imperceptível – sorriso curvou seus lábios. Ele imitou o gesto com precisão cirúrgica. As risadas infantis de Zoe romperam o ar como um estalo de luz, dissolvendo o último vestígio da tensão que pairava sobre a mesa. O som era contagioso – leve, despretensioso – e até o pai de Spencer, habitualmente contido, deixou escapar um breve sorriso. O momento descongelou o ambiente e o grupo retornou a uma espécie de silêncio não exatamente confortável, mas suportável.
Spencer observou Mariah discretamente. Ela falava com naturalidade, gesticulava com vivacidade, ria com facilidade. A forma como inclinava a cabeça para ouvir o pai, como ajeitava o guardanapo de Zoe, como tocava o ombro da irmã com afeto, tudo nela parecia perfeitamente espontâneo.
E, ainda assim, algo não se encaixava. Ele conhecia aquela mulher. Tinha certeza. Só não conseguia lembrar de onde, o que era estranho, já que ele nunca precisava se esforçar muito.
Após uma breve hesitação, Spencer se inclinou um pouco na direção de Mariah, a voz baixa, cuidadosa, quase trêmula.
– Desculpe… mas… já nos conhecemos? – Perguntou e se arrependeu no mesmo instante. Soara direto demais. Ele tentou corrigir o rumo, o olhar desviando por um segundo: – Digo, você só me parece… familiar. Talvez de Quantico, ou de algum caso…?
Mariah se virou por completo para ele, o sorriso brincando nos lábios. Havia algo divertido – e ao mesmo tempo inquisitivo – na maneira como o observava.
– Quantico? – Ela arqueou uma sobrancelha.
– Ah, o Spencer é agente do FBI, lembra? – William interveio, exibindo aquele orgulho paterno direto, incapaz de perceber sutilezas.
Ela assentiu lentamente, como se a informação apenas confirmasse uma conclusão que já tinha tirado sozinha.
– Ah. Um policial. – A palavra veio leve, quase displicente, mas carregava um peso estranho, uma provocação velada.
– FBI. Não sou policial. – A correção saiu seca, afiada demais.
– No fim, não são todos agentes da repressão estatal? – Perguntou ela, no mesmo tom casual, quase divertido.
– Nós prevenimos crimes e salvamos vidas. – A voz dele era baixa, controlada, mas havia nela uma firmeza perigosa. – Se isso nos torna opressores aos olhos de criminosos…
– Ah, mas vocês também sustentam leis que são, por natureza, opressivas, não é? – Mariah ponderou, o sorriso surgindo no canto dos lábios, com uma ironia suave demais para ser inocente. – Que admirável da sua parte.
Os dedos de Spencer pararam de tamborilar. De repente, ele parecia menos movimento e mais cálculo. A expressão mudou. A leveza anterior se apagou, substituída por aquela concentração analítica e fria de quem acabara de ligar o modo BAU. O olhar dele se estreitou, examinando cada nuance dela, cada inflexão da voz, cada pausa. O silêncio que se seguiu era denso, quase palpável. Até Zoe parou de colorir por um instante, como se sentisse a mudança no ar.
Do outro lado da mesa, William soltou um suspiro pesado e cravou o garfo no pão com força desnecessária: – Meu Deus, será que dá para, por favor, não transformar o jantar num debate político?
– Ah, desculpa. Foi mal. – Mariah sorriu com doçura. De novo, aquele sorriso: suave, caloroso… e completamente falso. – Então, Zozo, como estão as coisas na escola?
O pai dele pareceu soltar o ar em alívio, como se a normalidade tivesse voltado à mesa. Zoe, feliz por ser o novo centro das atenções, respondeu com entusiasmo: – Ah, a escola é ótima! Hoje fizemos frações e minha professora disse que eu tenho talento natural!
Mariah se inclinou para a frente, apoiando o queixo na mão com interesse genuíno ou algo que se parecia muito com isso. Sua voz ficou mais suave, o olhar atento, fraternal. Perguntou sobre as matérias favoritas de Zoe – matemática, inglês, arte – e a menina falou sem parar, gesticulando animadamente com os giz de cera coloridos.
Spencer observava em silêncio, os ombros finalmente relaxando um pouco. Era difícil não admirar a facilidade com que Mariah se conectava com a criança. Havia algo quase hipnótico na maneira como ela transitava entre firmeza e doçura. Mas ainda assim… algo não encaixava. Ele se recostou na cadeira, o olhar fixo nela, os dedos batendo discretamente contra o joelho em um ritmo calculado.
Mariah parecia perfeita demais. Gentil demais. Segura demais.
E Spencer Reid aprendera há muito tempo que “demais” nunca era um bom sinal.
A noite avançava em meio a conversas superficiais e ao tilintar preguiçoso dos talheres, mas a mente de Spencer permanecia irredutivelmente presa em Mariah. William, alheio à tensão que ainda permeava o ar, degustava a sobremesa com um entusiasmo quase juvenil. Spencer o observou por alguns segundos, tentando decifrar como aquele homem – que um dia fora o centro do seu mundo e depois o epicentro de um vazio devastador – podia agora parecer tão... descomplicado.
Do outro lado da mesa, Mariah conversava com Deb sobre algo trivial – jardinagem, talvez? – e ria de um modo tão espontâneo que chegava a irritar. Tão natural. Tão impecável.
Spencer afastou o prato e apoiou o queixo na mão. Foi então que Mariah percebeu o olhar dele. Por um instante quase imperceptível, seus olhares se encontraram e ela não desviou.
Nada de provocação desta vez. Nada de ironia. Apenas um silêncio pesado, um reconhecimento mútuo e inegável. Depois, com uma lentidão calculada, ela voltou-se para Zoe, que distraidamente dobrava o guardanapo, e lhe ofereceu um sorriso sereno, quase ensaiado.
– Então, Zozo… – começou ela, a voz leve, mas afiada como lâmina. – Não bastava ter eu como irmã? Resolveu sair por aí recrutando um novo irmão?
– Mariah… – Deb tentou intervir, desconforto evidente, mas Mariah apenas ergueu a mão num gesto preguiçoso, quase elegante, pedindo silêncio sem realmente pedir.
– Deixa eu adivinhar. – A voz dela ganhou um brilho ácido. – O William estava tentando consertar o relacionamento de vocês. Um jantar de reconciliação, certo? – Nos olhos, um lampejo de sarcasmo misturado a algo mais fundo: um cansaço velho, familiar. – Igualzinho à minha mãe.
– Mariah… sem surpresas hoje. – Deb falou, como se já conhecesse aquele repertório.
– O quê? Fui grosseira? – Perguntou em uma inocência claramente fabricada. – Tá bom, tá bom. Paz na mesa. – A mudança de tom foi sutil, porém instantânea. Ela virou-se para Zoe com um entusiasmo recém-despertado. – Então… frações e projetos de arte, é? Me conta: você também aprendeu a trapacear no Uno?
– Eu jamais faria isso! – Zoe arregalou os olhos, fingindo horror.
Spencer observou Mariah sorrir, brincar, guiando a conversa com uma leveza quase coreografada, com a precisão de quem sabe exatamente como controlar o ambiente.
Que talento para manipulação, ele pensou. E não sabia se aquilo o deveria impressionar… ou preocupar.
Enquanto Spencer travava uma batalha silenciosa com seus próprios pensamentos, a mesa recuperava um ritmo quase confortável até que o celular vibrou em seu bolso. O som pareceu mais alto do que deveria, cortando a conversa em um instante.
Ele o pegou depressa, murmurando um pedido de desculpas quase inaudível antes de ler a mensagem. JJ. A equipe havia sido acionada.
– Preciso ir. – As palavras soaram como uma lâmina batendo na mesa.
– Agora? – Mariah perguntou, com a sobrancelha arqueada num gesto tão inocente que chegava a ser provocativo.
– Sim. É urgente. Precisam de mim no escritório. Agora.
Ele mal teve tempo de elaborar quando a voz do pai apareceu, tensa: – Spencer... – Mas William interrompeu a si mesmo ao notar o endurecimento que passou pelo rosto do filho. Um resquício de ressentimento, antigo e incontornável, que ambos preferiam fingir não existir.
– Eu vi um parquinho lá atrás, Lili. Quer ir brincar? – Mariah interveio, desviando o foco com a precisão de quem vira uma página de um livro.
Spencer observou em silêncio a facilidade com que Mariah reorganizava emoções alheias, como quem muda o tom de uma música. Era impressionante. E um pouco perturbador.
– Mal terminamos o jantar… – A voz do pai o arrancou do transe quando as duas se afastaram o suficiente.
Spencer respirou fundo, segurando a resposta ácida que ameaçou escapar. Não ali. Não naquele momento. Ele não tinha tempo, nem paciência.
– Eu sei. Mas é importante.
– Está tarde, Spencer. – Seu pai rebateu, rígido. – Não pode esperar até amanhã?
A ironia o atingiu em cheio. Cuidado vindo do homem que sempre confundiu ausência com proteção.
– É um caso de criança desaparecida. – As palavras de Spencer pousaram na mesa com força imediata. – Então não, pai. Não pode esperar. – Ele assentiu brevemente para Deb. – Boa noite, Deb.
Ele se virou e começou a caminhar em direção à saída… mas algo o fez parar a meio caminho. Um impulso. Ou talvez apenas instinto.
Quando olhou por cima do ombro, viu Mariah conduzindo Zoe até o parquinho ao fundo. Spencer respirou fundo, sentindo a decisão se formar antes mesmo de processá-la. Ele mudou o rumo e foi até lá.
Mariah ouviu os passos dele antes mesmo de Zoe perceber que alguém se aproximava. Virou-se devagar, uma sobrancelha arqueada com elegância. Seu rosto era uma máscara de serenidade impecavelmente composta.
– Esqueceu alguma coisa?
– Só vim me despedir da Zoe. Posso?
Por um instante, os olhos dela cintilaram com algo impossível de definir – ironia, aprovação, talvez um traço raro de gentileza – mas nada disso alcançou sua expressão. Ela apenas fez um gesto breve com a mão, concedendo espaço.
Spencer se agachou e Zoe girou para ele com um sorriso que iluminou o parquinho como uma lâmpada acesa.
– Tchau, Spence! – Ela se atirou em seus braços com a espontaneidade de quem não conhece limites. Ele congelou por meio segundo, surpreendido, antes de retribuir o abraço de forma um pouco desajeitada, mas genuína.
– Desculpe por ir tão cedo, Zoe. – Murmurou contra os cabelos dela. – Mas quem sabe a gente não se vê de novo… talvez para uma partida de xadrez?
– Eu vou ganhar! – Ela rebateu, rindo, antes de voltar correndo para o escorregador.
Quando Spencer se levantou, era como se o ar tivesse mudado de densidade. Ele enfiou as mãos nos bolsos, um gesto automático, quase defensivo.
– Eu… sinto muito por sair assim. – Spencer começou, mas a frase se quebrou no meio. A dúvida escapou antes que ele pudesse contê-la. – Tem certeza de que nunca nos vimos antes?
Mariah inclinou a cabeça, estudando-o com atenção nova, cuidadosa.
– Você já me prendeu? – Perguntou, sem sombra de ironia. A naturalidade da pergunta o desmontou por completo.
Ele piscou, tentando acompanhar o próprio raciocínio. Rostos desfilaram pela mente como páginas folheadas depressa demais. Vítimas, suspeitos, testemunhas, sombras perdidas de centenas de casos. Mas nenhum deles era ela.
– Acho que não. – Disse enfim, devagar. – Eu me lembraria. – Mas Spencer já não tinha tanta certeza assim.
– É o que dizem sobre pessoas com memória fotográfica, não é? – O sorriso dela foi ínfimo, quase contido. – Seu pai comentou.
– Eidética. – Ele corrigiu imediatamente.
– Tem certeza? – Provocou, cruzando os braços com um movimento lento. A voz dela desceu um tom, arrastada, quase íntima. Spencer sentiu o impulso de analisá-la, de montar as peças… mas, pela primeira vez em muito tempo, sua mente falhou. Era como encontrar uma página em branco no meio de um arquivo que sempre fora completo. – Você está certo, Dr. Reid. Já nos conhecemos.
Ele empalideceu um pouco.
– Onde? – Perguntou rápido demais. – Quando?
O celular vibrou no bolso, interrompendo a tensão como um ruído fora de lugar. Hotch.
Mariah apenas sorriu.
– Outra hora, talvez. – Deu de ombros, voltando-se para Zoe com a mesma suavidade de antes, como se nada tivesse acontecido.
Spencer rangeu os dentes e saiu dali antes que fizesse alguma besteira… como abandonar um caso em andamento só para satisfazer sua própria curiosidade insaciável.
Quase uma semana depois, Spencer estava de volta à cidade natal, imerso em outro caso. Quando o pai o convidou para jantar – garantindo, quase suplicando, que desta vez ele ficaria até o fim –, Spencer aceitou. Mas bastou o carro dobrar a esquina da rua velha e familiar para que um nome surgisse em sua mente como um estalo involuntário:
Mariah.
O pensamento o atingiu como um reflexo, arrastando atrás de si todas as dúvidas que ele tentara enterrar sob relatórios, depoimentos e evidências. De onde a conhecia? Por que a lembrança dela permanecia enevoada, como uma mancha em branco dentro de uma mente que jamais falhava?
Quando finalmente cruzou a soleira da casa do pai, seus olhos a procuraram antes mesmo que pudesse se controlar, mas só encontrou Zoe, que estava encolhida no sofá, os pés balançando no ar, completamente absorvida por um desenho animado. A cena arrancou dele um sorriso pequeno, discreto, mas genuíno.
– Oi, linda. – Ele se aproximou, bagunçando os cabelos dela com um gesto surpreendentemente afetuoso.
Zoe ergueu o rosto na mesma hora, os olhos acendendo como luzes de Natal.
– Spence! – Exclamou, quase saltando do sofá. – Você veio mesmo!
Ele soltou uma risadinha, surpreso pela sinceridade da reação. O jeito como ela pronunciava “Spence”, arrastando o “e”, o fez sorrir mais do que gostaria de admitir.
– Você duvidou de mim? – Perguntou, inclinando-se até ficar na altura dela, o tom fingidamente severo.
– Claro que não! – Zoe riu e o som pareceu preencher a casa inteira. Então ela agarrou a mão de Spencer, seus dedinhos envolvendo os dele com uma determinação surpreendente. – Vem brincar de boneca comigo!
Zoe o puxou com tanta convicção que até tentar resistir seria ridículo. Minutos depois, ele estava sentado no chão da sala, de pernas cruzadas, cercado por um batalhão de Barbies e acessórios espalhados como evidências em uma cena de crime particularmente caótica.
Pegou uma boneca – maquiagem gritante, vestido rosa que desafiava a estética e, possivelmente, a dignidade humana – e tentou parecer sinceramente engajado.
Zoe ria, completamente alheia ao fato de que tinha um agente do FBI rendido a bonecas e miniaturas. Ela enfiou outra Barbie nas mãos dele – uma loira igualmente berrante – e apontou para a cozinha de brinquedo no canto da sala.
– Elas precisam cozinhar o jantar para gente. – A seriedade dela não combinava em nada com o caos do cenário.
– Você tem muitas Barbies, Zoe. – Spencer comentou, encarando a boneca com a mistura exata de resignação e diversão.
Ele parou no meio do movimento, ainda segurando o minúsculo chapéu de chef que tentava equilibrar na cabeça de plástico. Seu cérebro, como sempre, decidiu fixar-se no detalhe errado: quantas Barbies havia ali? Contou sem parecer que contava.
Foi então que a viu.
A boneca customizada. Cabelo torto, metade pintado de azul, a outra metade presa por grampos improvisados. Uma jaqueta feita de fita isolante envolvia o tronco dela. Spencer a ergueu entre os dedos com a mesma cautela com que examinaria uma prova particularmente suspeita.
– Essa aqui passou por um experimento científico que deu errado? – Perguntou, genuinamente confuso.
– Essa é a Mariah Barbie! - Zoe explodiu numa gargalhada. – Ela manda em todas as outras.
– Mariah… Barbie?
– Uhum! – Zoe assentiu com entusiasmo. – Papai disse que ela é mandona, mas eu gosto dela. Ela é legal comigo. E ela me deixa pintar o cabelo dela também.
– Mariah, sua irmã, não a boneca... Ela vem aqui com frequência? – Perguntou, tentando soar casual.
– Às vezes. – Zoe deu de ombros. – Ela e a mamãe brigam às vezes, mas depois ela traz pizza.
– Entendo... – A menina pareceu tristonha, então ele achou melhor mudar de assunto. – Você tem um gosto excelente para bonecas, Zoey. Carreiras muito... diversas.
– Eu prefiro brincar de cozinha. Mas minha irmã, a Mariah, gosta muito da Barbie. Ela tem uma coleção inteira, sabe? – Zoe explicou, distraída, alisando o cabelo de uma boneca com a ponta dos dedos. – Ela sempre me dava as dela, então agora eu gosto também.
Mariah tem uma coleção de bonecas. Era um detalhe simples. Irrelevante, até. Mas aquilo a tornava menos um mistério e mais… humana.
– Ela te deu todas essas?
– Bem, tem algumas que eu não posso nem tocar. – Zoe riu baixinho.
Deb apareceu na sala, atraída pelo tom conspiratório da irmã, e completou com humor: – É verdade. A Mariah tem uma boneca de edição limitada que ela guarda como se fosse feita de ouro. A Zoe implorou por semanas só para olhar para ela.
– É a Barbie Diamante Rosa. Ela é cara e rara… e muito bonita.
A voz veio de trás. Suave. Inconfundível.
Mariah.
Por um instante, o som pareceu distante – quase um eco – e então seu corpo reagiu antes da mente. Spencer ergueu a cabeça tão rápido que o pescoço protestou. E lá estava ela: encostada no batente da porta, pijama de unicórnio, ar tranquilo demais para alguém que tinha acabado de derrubar um prédio inteiro dentro dele.
– Boa noite, Dr. Reid.
Ele piscou, confuso, tentando alinhar palavras com realidade.
– Boa noite? – Spencer ecoou, lançando um olhar automático para a janela. O céu ainda estava tingido de dourado, longe de qualquer traço de escuridão. – Ainda nem anoiteceu.
Mariah apenas ergueu uma sobrancelha, abraçando os próprios braços dentro do pijama salpicado de unicórnios cintilantes.
– Eu sei. – O meio sorriso dela surgiu, preguiçoso, quase íntimo. – Mas… eu já estou com sono.
Spencer engoliu em seco. Não deveria achar aquilo encantador. Não deveria achar nada nela encantador. Ainda assim, sua mente começou a disparar estatísticas sobre ciclos circadianos e padrões de sono polifásico como um reflexo de autopreservação.
– Quer que eu ajude com o jantar? – Mariah ofereceu a Deb, passando a mão com carinho pelo cabelo de Zoe, que se aninhou ao toque.
– Por favor, não. Você também é convidada hoje. Vai descansar.
Mariah acenou em concordância, mas antes de se mover, deixou escapar um último olhar para Spencer. Rápido. Inofensivo. E profundamente desestabilizador.
Ele não soube o que fazer com aquilo.
Os passos dela no piso de madeira foram diminuindo até desaparecerem pelo corredor. Spencer percebeu que ainda estava segurando a “Mariah Barbie” na mão quando Zoe puxou a boneca com delicadeza.
– A gente estava brincando de cozinhar, lembra? – Insistiu, já reorganizando as panelinhas.
– Certo. Cozinhar. – Ele tentou colocar a mente de volta no lugar. Falhou.
– Mariah sempre fica assim quando está cansada. Super calma. Quase fofa. Aí todo mundo acha que ela é um anjo. – Deb comentou enquanto colocava alguns parato na mesa próxima a eles. – Mas ela só está com sono. – Riu.
– Spence. – Zoe chamou, colocando uma panelinha minúscula no colo dele com a solenidade de quem entrega uma missão crucial. – Você tem que mexer isso aqui enquanto elas fazem o resto.
– Certo. Claro. – Ele pegou a panela com a gravidade de um químico prestes a testar uma substância instável.
Enquanto fingia mexer o “jantar”, seus olhos escaparam – inevitavelmente – para o corredor. Para o quarto onde Mariah tinha desaparecido minutos antes. Aquilo o incomodava mais do que deveria.
– Olha esse carrinho! – Ele comentou, tentando recuperar o foco. – Bonito.
Os olhos de Zoe brilharam. Ela pegou o carrinho como se fosse um tesouro de família.
– A Mariah me deu.
Mariah. De novo. Sempre ela. O nome parecia seguir Spencer como uma sombra.
– Ah, é?
– É. Ela adora carros.
Ele piscou, genuinamente surpreso. A imagem mental não combinava nem um pouco com o pijama de unicórnios. Um sorriso involuntário puxou o canto de sua boca.
– Carros, bonecas e sarcasmo. – Murmurou, quase sem perceber. – Combinação interessante.
E então… algo estalou.
Uma sensação de déjà vu primeiro, leve, quase um toque. Depois, uma imagem. Uma sala de interrogatório. Uma garota sentada com os punhos cerrados. Olhos ardendo de raiva. Uma voz tensa dizendo:
“Meu nome é Mariah H. Rodriguez.”
Seu corpo reagiu antes da mente. Spencer se levantou tão depressa que uma das Barbies tombou de lado, o plástico batendo no chão com um cloc irritante que pareceu mais alto do que realmente era. Mas ele mal registrou o som.
O nome dela ecoava em sua cabeça como uma sirene.
Mariah H. Rodriguez.
A lembrança veio em flashes. Não era nada dramático, nenhuma perseguição, nenhum confronto intenso. Apenas uma entrevista curta, protocolar. Uma garota que orbitava um suspeito de tráfico de armas, anos atrás, quando Spencer ainda era praticamente uma sombra dentro do FBI. Nem BAU ainda. Só um novato com um distintivo recém-laminado e mais teoria do que experiência.
Ela não era o foco. Nunca tinha sido. Apenas uma peça lateral, conectada indiretamente ao namorado envolvido com a operação. O caso fora arquivado por falta de provas que a ligassem a qualquer coisa.
Mas agora… agora ele se lembrava. E a imagem era completamente incompatível com a mulher em pijama de unicórnio que acabara de sair da sala momentos antes.
Ele murmurou algo sobre ir ao banheiro, mas os pés o levaram em outra direção – como se obedecessem à inquietação que lhe tomava o corpo – até o fim do corredor.
A porta dela estava ali. Entreaberta.
Spencer desacelerou quando o sensor captou sua presença, a luz se acendendo automaticamente. O brilho suave se espalhou pelo piso de madeira e atravessou a fresta da porta, expondo a hesitação que ele tentava negar.
Ele parou. O que diabos estava fazendo ali? Confrontá-la agora não fazia sentido. Anos tinham se passado desde aquele caso. A parte racional dele – treinada, disciplinada – insistia que aquilo era apenas coincidência. Uma mulher provocadora, opiniões afiadas, uma memória antiga mal encaixada. Nada além disso. Nada que justificasse o nó no estômago ou a atenção excessiva aos detalhes mais banais. Mas havia a outra parte. Aquela que reconhecia padrões antes mesmo que eles se revelassem por completo.
Ele deu meio passo para frente por puro reflexo, abrindo a porta levemente. O quarto parecia pertencer a duas pessoas diferentes ou a duas versões da mesma. De um lado, pôsteres de carros de corrida antigos cobriam as paredes, colecionáveis raros, bem cuidados. Do outro, uma prateleira de vidro impecável exibia Barbies alinhadas com precisão quase militar.
Spencer absorveu tudo em silêncio. Cada detalhe era mais desconcertante do que o anterior.
Mariah estava sentada na cama, de pernas cruzadas, folheando uma revista, como se nada no mundo pudesse perturbá-la. Nem mesmo um agente do FBI parado à sua porta.
– Se perdeu? – Perguntou, a voz baixa, curiosa. Nenhuma acusação. Apenas interesse. – Mas você não parece exatamente alguém que se perde com facilidade. Faz parte do treinamento?
– Aparentemente, você conhece bem meus métodos. – Spencer respondeu, lutando para manter o tom estável.
Ela ergueu os olhos devagar e o sorriso apareceu.
– Você se lembrou.
A mandíbula dele se retesou. Aquilo – aquela tranquilidade insolente – fazia algo no peito dele se contrair de um jeito que ele não queria analisar.
– Sim, eu me lembrei. E você sabia disso desde o começo. – Ele entrou no quarto sem perceber.. – Em algum momento… você ia me contar?
– Talvez. – Encostou-se melhor na cabeceira, confortável demais. – Sempre ouvi dizer que você tem memória fotográfica… mas começo a suspeitar que é só marketing do FBI.
– É um fenômeno real. – Replicou, mais firme do que gostaria. – E funciona muito bem. – Ele desviou o olhar, quase envergonhado. – O que torna tudo ainda mais… curioso, não ter te reconhecido imediatamente.
– Eba, farão estátuas com o meu nome. – Ela ironizou, voltando a folhear a revista como quem sabe exatamente o efeito que causa.
– Sua mãe sabe?
A pergunta saiu antes mesmo de ele perceber que a havia formulado. A revista parou a meio folha, mas Mariah não ergueu o olhar.
– Minha mãe sabe o quê? – Perguntou, com uma inocência tão milimetricamente ensaiada que era praticamente um convite para ele tropeçar nas próprias palavras.
– Que você… – Ele tentou continuar, mas a frase evaporou. Como se a coragem tivesse se dissolvido no ar do quarto dela, um ar quente demais, íntimo demais. – Que você…
Mariah fechou a revista com um clap suave, que soou mais alto do que deveria. Só então ergueu o rosto, encontrando o olhar dele com uma franqueza que o atingiu como um tapa inesperado.
– Posso ter meus problemas com carros e armas, e também o péssimo hábito de me envolver com caras errados… – O canto da boca dela se curvou num sorriso pequeno. Não um sorriso sarcástico, mas algo mais cansado. – Mas não, Spencer. Não pretendo contar para minha mãe que o enteado dela me prendeu anos atrás. Acho que isso… quebraria o clima familiar, sabe?
Mariah voltou a se acomodar entre os travesseiros, afundando neles como se todo o quarto tivesse sido arquitetado para desmontar qualquer defesa dele. A postura era preguiçosa, quase despretensiosa, mas havia um brilho atento nos olhos.
– Se você não vai deitar para tirar um cochilo comigo… – Ela estendeu a mão, um gesto leve apontando para a porta. – Fecha quando sair.
Não soou como um pedido. Tampouco como provocação aberta. Era apenas Mariah, dizendo tudo sem dizer nada. E deixando Spencer perigosamente sem fôlego ao imaginar o que, exatamente, aquele “cochilo” poderia significar.
Ele girou a maçaneta e fechou a porta com mais força do que pretendia.
Droga.
Já tinha interrogado assassinos em série com muito mais segurança do que lidara com aquilo. Mariah o tinha desestabilizado por completo e o pior era saber que ela nem estava tentando.
Na manhã seguinte, já no escritório da BAU, Spencer percebeu que não conseguia afastar Mariah da cabeça. Os relatórios piscavam na tela, esperando por sua atenção. E, ainda assim, era o quarto dela que insistia em retornar à memória: os pôsteres de carros antigos, as Barbies alinhadas com precisão quase meticulosa, e ela.
Irritado consigo mesmo, Spencer recostou-se na cadeira e esfregou o rosto com as mãos, como se o gesto pudesse reorganizar seus pensamentos. Não funcionou.
Talvez – tentou racionalizar, agarrando-se ao primeiro argumento lógico que surgiu – talvez revisar o antigo caso ajudasse. O cérebro humano, afinal, tende a fixar em estímulos não resolvidos. Se ele consultasse o sistema, revisasse o arquivo e relembrasse os detalhes, talvez a curiosidade simplesmente… desaparecesse. Evaporasse sob o peso da objetividade.
Sim. Era isso. Só um resquício profissional. Nada emocional. Nada pessoal.
Porém, o sistema não permitia acesso direto a arquivos arquivados daquela época. O que significava uma coisa: ele teria que ir até Penelope Garcia. Se alguém no prédio seria capaz de farejar algo, era ela. Ele caminhou até o escritório dela e parou na porta, hesitante, observando as luzes coloridas, os enfeites de pelúcia e o brilho pulsante dos monitores. Garcia girou a cadeira antes mesmo de ele bater.
– Ooooh, mas vejam só quem decidiu me visitar! – Cantarolou, teatral. – O que manda, gênio?
– É... oi. – Spencer pigarreou, já arrependido da decisão. – Eu preciso que um arquivo seja aberto.
– Nome?
– Mariah H. Rodriguez. Só... uma antiga suspeita de um caso antigo. – Respondeu ele depressa, tentando soar indiferente. Ela girou de volta para os monitores, os dedos ágeis no teclado. – Só uma checagem de antecedentes. Nada recente, espero.
Garcia estreitou os olhos, desconfiada, mas não fez perguntas. Apenas virou para o monitor com a solenidade dramática de quem estava prestes a abrir um portal proibido. Seus dedos dançaram pelo teclado – cliques rápidos, precisos – até que o som diminuiu e ela passou a analisar a tela em silêncio.
– Hmmmm… ficha limpa desde o caso de tráfico de armas. – Ela fez um biquinho, inclinando a cabeça. – Inocentada, aliás. Nenhuma prisão nova… Mas ela perdeu a carteira de motorista recentemente. – Os dedos dela correram mais um pouco. – Dezesseis multas por excesso de velocidade nos últimos três meses. – Ela bateu a mão no peito fingindo emoção. – Ela é Veloz e Furiosa!
Ele fechou os olhos por um instante.
– Corridas ilegais? – Perguntou, apesar de já saber a resposta, como se uma fração dele ainda esperasse que, por algum milagre, fosse não.
– Corridas ilegais – Confirmou Garcia, batendo o dedo na tela como se estivesse mostrando um troféu. – Aparentemente, nossa Mariah gosta de adrenalina.
Spencer passou a mão pelo rosto, arrastando o suspiro mais resignado do mundo.
– Claro que gosta.
Era absurdo. Totalmente ilógico. E ainda assim, um sorriso discreto – traidor – escapou antes que ele pudesse impedir. Porque fazia sentido, de um jeito estranho e quase poético. A mesma mulher que colecionava Barbies alinhadas por cor e brilho, que aparecia de pijama de unicórnio como se aquilo fosse uniforme oficial… também era o tipo que acelerava um carro até cento e oitenta como quem respira.
Caótica. Imprevisível. E – ele odiava admitir – perigosamente fascinante.
– Ah, Reid… – Ela cantou, com aquele brilho travesso nos olhos. – Eu jurava que você fosse imune ao charme da garota má.
– Ela não é exatamente uma garota má. Ela tem Barbies. E usa pijamas de unicórnio. Isso é… isso é…
– Spencer. – Ela o interrompeu, sorrindo de lado. – Como é que você sabe o tipo de pijama que ela usa?
Ele abriu a boca. Fechou. E, com a resignação de quem sabe que perdeu, respondeu: – Ela é filha da nova esposa do meu pai.
O “ooooooh” que Garcia soltou ecoou pelo escritório inteiro, arrastado, saboroso, absolutamente triunfante. O tipo de ooooooh que precedia meses – talvez anos – de provocações estratégicas.
Spencer fechou os olhos um instante. Garcia estava radiante.
– Me atualiza sobre o caso do tráfico de armas. – Spencer apertou a ponte do nariz, já lamentando todas as escolhas de vida que o levaram até ali.
O sorriso de Garcia perdeu parte do deboche, mas os dedos dela continuaram dançando pelo teclado como se estivessem em um festival.
– Vamos ver… – Murmurou. – Mariah foi levada para interrogatório quando o ex dela virou suspeito na operação. Cooperou com tudo, tinha álibis sólidos para as transações principais, saiu sem qualquer acusação. – Penelope inclinou a cabeça, lendo com atenção. – Honestamente? Ela só estava no lugar errado com o namorado errado. Zero evidências concretas. Só um péssimo gosto para homens. – Ela girou na cadeira e lançou-lhe um olhar cheio de significado. – Diferente de certas pessoas que conheço, cujo gosto para burritos continua sendo um insulto culinário, mas cujo gosto para… outros assuntos é surpreendentemente refinado.
– Garcia. – Spencer disse o nome num tom que era 10% reprovação e 90% derrota.
– O quê? Só estou tentando entender se devo acionar o departamento interno, já que você parece querer reativar a investigação envolvendo sua futura meia-irmã.
– Não estou reabrindo nada. – Ele pigarreou. – Só estava… curioso.
– Ah, mas isso fica cada vez melhor. – Ela voltou a digitar, divertida. – Hmm, interessante. De acordo com o sistema, você está na lista de agentes que a prenderam há cinco anos. Ela se lembra disso?
– Não foi uma prisão. – Corrigiu, massageando as têmporas. – Foi uma… breve detenção. Circunstancial. Um mal-entendido.
O sorriso de Garcia se alargou, ela se inclinou para frente, apoiando o queixo nas mãos, os olhos brilhando como se tivesse acabado de tropeçar na fofoca do mês. Conhecendo Penelope, provavelmente tinha mesmo.
– Hummmm. – Ela murmurou, já esticando a mão para pegar o celular.
– Penelope… o que você está fazendo?
– Procurando o Instagram dela, óbvio! – respondeu, digitando com o entusiasmo de quem acabara de ganhar acesso a um banco de dados secreto da CIA.
– Penelope! – Ele praticamente engasgou com o próprio ar, tentando arrancar o celular da mão dela –, isso é stalking.
Mesmo que ele fosse fazer exatamente a mesma coisa no segundo em que sentasse na própria mesa.
– Ah. Ela é… – Garcia deu uma risadinha surpresa, os olhos arregalando como se tivesse encontrado um tesouro inesperado. – Não era o que eu esperava.
Spencer franziu o cenho. Em sua mente, o Instagram de Mariah era uma coleção de imagens previsíveis: carros turbinados, couro, sombras, um estilo rebelde óbvio. Ele suspirou e inclinou-se por cima do ombro dela.
– Como assim?
– É muito… rosa. – Garcia gargalhou. – Ela é uma boneca! Tão fofa. Olha isso!
Contra toda a lógica e vontade própria, ele se aproximou mais. E, de fato… era rosa. Rosa em níveis quase radioativos. Filtros rosados, legendas cheias de emojis, roupas vibrantes. Uma estética de açúcar puro.
Havia fotos de comida, amigos, mas a maioria era dela. Selfies em poses e ângulos variados: Mariah de maiô rosa neon na praia, Mariah de cropped e salto numa boate, Mariah segurando um copo cor-de-rosa com adesivos de glitter.
– Eu esperava algo mais… couro, roupas escuras, vibe criminosa-chique. – Garcia riu mais alto. – Ela é uma patricinha. E oficialmente meu novo ícone!
Spencer soltou um som que não deveria sair de um adulto funcional. Esfregou as têmporas, como se pudesse massagear o constrangimento para fora da própria cabeça.
– Patricinhas são irritantes. São fúteis e exigentes. Eu disse que ela coleciona Barbies?
– Barbie é um ícone cultural, senhor gênio! – Rebateu Penelope, sem nem desviar os olhos da tela. Ela continuou a deslizar pelos posts como quem examina dados altamente comprometedores. – Olha essa foto! Ela combina roupa rosa com café rosa. Café rosa, Spencer. Quem compra café rosa?
– Alguém que não se importa com o equilíbrio nutricional dos corantes artificiais?
Garcia riu, empolgada, e continuou rolando o feed enquanto cantarolava Material Girl com uma alegria tão contagiante que, honestamente, o irritava mais do que deveria.
Ainda naquela noite, enquanto picava legumes para o jantar, Spencer percebeu – tarde demais – que estava cantarolando Material Girl. Baixinho.
Parou.
Não fazia o menor sentido associar Mariah a uma “patricinha”. Nenhum. Zero. Lógica absolutamente inexistente. Ela tinha dezesseis multas por excesso de velocidade, corridas ilegais no histórico e até um interrogatório por associação com tráfico de armas.
E, ainda assim…
Spencer congelou no meio do movimento, a espátula suspensa no ar, quando a consciência o atingiu com uma clareza humilhante.
Ele estava cantarolando Madonna.
A combinação absurda começava a se formar na mente dele como um quebra-cabeça impossível: Estética de menina rica com hábitos de rua. Pôsteres de carros antigos na parede e coleção de bonecas de grife nas prateleiras. Vestidos florais e multas por excesso de velocidade. Sorrisos leves e histórico de péssimas decisões afetivas.
Que tipo de pessoa era aquela, afinal?
Ele bateu a espátula na bancada com um pouco mais de força do que o necessário. Era ridículo. Ele tinha trabalho, casos, artigos inacabados, leituras atrasadas. E, no entanto, ali estava ele: Psicoanalisando as contradições de uma adulta que gostava de Barbies.
No meio de uma área abandonada, agora transformada em pista improvisada, Spencer Reid tinha absoluta certeza de que havia atravessado um portal para outra dimensão. O rugido ensurdecedor dos motores era quase agressivo; luzes de neon pulsavam em magenta e azul sobre carros brutalmente modificados; o ar estava saturado de gasolina, borracha queimada e adrenalina.
Era como estar preso dentro de Velozes e Furiosos, com a diferença crucial de que ele tinha plena consciência de que não pertencia, e nunca pertenceria, àquele universo.
– Reid, me diz de novo por que diabos estamos aqui? – Morgan perguntou, dando um gole no copo de plástico, relaxado demais, como se estivesse numa festa de bairro e não no meio de uma reunião semi-ilegal de pilotos com históricos mais do que questionáveis.
Spencer fez uma careta, ajustando os óculos e tentando não encarar ninguém diretamente. Cada pessoa ali parecia ter saído de um dossiê criminal.
– Estamos… reunindo informações. – Spencer pigarreou, ajeitando as mangas da camisa de botão que, definitivamente, parecia mais um uniforme do FBI do que roupa de corrida. Ele parecia um bibliotecário perdido em um teste de elenco para um filme de ação de rua.
– Observando, certo. E o que exatamente estamos hipoteticamente observando aqui, bonitão?
Spencer abriu a boca, pronto para inventar alguma desculpa respeitável, quando o som rasgado de um motor afinado cortou o ar como uma lâmina. Um Honda Civic antigo, restaurado com um brilho quase cirúrgico, deslizou para o centro dos holofotes. O tipo de carro que fazia qualquer entusiasta se endireitar. Mas não foi o carro que fez Spencer perder o fôlego.
Foi a motorista.
Mariah Rodriguez saiu como se a pista fosse um palco montado para ela.
Usava um top rosa claro sob um quimono floral de tons pastéis, uma saia branca, leve e rodada, girava ao redor das pernas conforme ela se movia com aquela segurança irritantemente natural. Ela mascava chiclete com a tranquilidade de quem não devia nada a ninguém. Nem ao clima. Nem aos homens tatuados que pararam para olhar. Nem ao FBI inteiro, se quisesse.
Era uma Barbie plantada no meio de um apocalipse de neon, fumaça e gasolina.
Spencer engoliu em seco, a garganta subitamente apertada. O cérebro tentou reagir – lógica, coerência, avaliação de risco, qualquer coisa –, mas tudo se desfez no instante em que ela ajustou a alça da bolsinha rosa de strass pendendo no ombro, como se estivesse a caminho de um brunch elegante e então arregaçou as mangas do quimono com uma lentidão quase estudada.
Como alguém podia parecer tão delicada… ali?
– Essa? – Morgan assobiou ao lado dele. – Essa é quem estamos observando?
– Ela é… – Ele pigarreou, a voz falhando de leve. – Essa é a Mariah. Filha da nova esposa do meu pai.
Derek quase derrubou a cerveja.
– Mentira.
Spencer desejou, por um segundo breve, que fosse. Logo começou a explicar como quem confessa um crime que nem sabia ter cometido.
– Ela tem uma coleção de Barbies. – Ele fez um gesto vago, quase desesperado. – E corre em rachas clandestinos. E já tomou seis multas em três meses, acumulando dezesseis em um semestre! E eu não consigo entender se ela é irresponsável, ou genial, ou se está tentando ativamente morrer. Ou tudo isso junto.
– Continua. – Morgan arqueou uma sobrancelha, divertido demais.
– E ela tem essa… personalidade dúbia. – Spencer respirou fundo, buscando palavras e falhando. – Um contraste estatisticamente impossível. Tipo… marshmallow explosivo. – Ele ignorou Derek prendendo os lábios em uma risada e prosseguiu. – …e ela gosta de unicórnios.
– Unicórnios. – Morgan repetiu, quase chorando de rir. – Claro que sim.
– E rosa. Muito rosa! – Acrescentou, derrotado.
– E você a prendeu.
– A detive, – Corrigiu, com rapidez irritada. – Brevemente. Não foi exatamente uma prisão. Foi… um conjunto infeliz de circunstâncias. Uma péssima combinação de fatores, na verdade. E ela foi completamente inocentada.
Morgan inclinou a cabeça devagar, como quem observa um experimento prestes a explodir no laboratório.
– Boa sorte explicando isso ao seu pai.
– Pois é. – Spencer soltou um suspiro miserável. – Eu nem sei se eles sabem dessa… dessa possível vida dupla. Eu nem sei se é uma vida dupla de verdade! – Ele massageou as têmporas, como se tentar organizar a própria confusão mental fosse um processo fisicamente doloroso.
Quando a corrida começou, Spencer simplesmente rezou para qualquer entidade disposta a garantir que aquele fosse só um hobby inofensivo e não um prenúncio de catástrofe. Ele apertou o copo de plástico com tanta força que o fundo chegou a ceder, os olhos grudados no Civic rosa que cortava o asfalto como se tivesse nascido ali.
O carro dela ziguezagueava entre os outros com uma precisão quase coreografada, agressiva e elegante ao mesmo tempo. Spencer piscava pouco, respirava menos ainda.
E então, como se o universo tivesse conspirado a favor dela, Mariah cruzou a linha de chegada em primeiro.
Ela saiu do carro com a segurança tranquila de quem não precisava confirmar nada, já sabia que todos estavam olhando. Quando ergueu o rosto, encontrou o dele. O sorriso de Spencer morreu no mesmo instante. Por um segundo estranho – quase cruel – teve a impressão de que o sorriso dela também vacilava.
Os olhos de Mariah se abriram em reconhecimento imediato. Ela pegou o maço de dinheiro que lhe ofereceram sem sequer conferir, enfiou-o na bolsinha brilhante e voltou a encarar Spencer. Antes que ele escolhesse entre desaparecer, correr ou fingir que aquilo não estava acontecendo, ela piscou para ele. Rápido. Íntimo. Provocador.
Então sumiu na multidão, absorvida por ela, como alguém perfeitamente à vontade no caos.
– Então… você vai contar para o seu pai? – Morgan se aproximou ainda rindo, embora tentasse – em vão – adotar um tom mais sério. – Ou vai manter essa vidinha dupla dela como seu segredinho?
– Eu não sei… preciso descobrir se eles sabem de alguma coisa primeiro… – Spencer murmurou.
Morgan deu uma última risadinha, balançando a cabeça como quem assiste a um desastre prestes a acontecer e apreciando cada segundo.
– Certo, Pretty Boy, vamos pôr ordem na casa. – A voz de Morgan soou como um veredito irrecorrível, impávida ante o olhar assassino que Spencer lhe lançou. – Primeiro: você descobre se seu pai está a par desse… hobby artístico dela. Depois decide se guarda o segredo ou não. E… – virou-se para Spencer e apoiou a mão pesada em seu ombro com uma solenidade tão carregada que fazia fronteira com a sátira. – Sexo com a mocinha, zero.
– Derek! – Spencer engasgou, o rosto avermelhando-se a uma velocidade alarmante, quase como uma reação anafilática.
– Pelo amor de Deus, Reid. Pode poupar o cavalheirismo comigo. Sei perfeitamente que você é o rei dos nerds ou algo assim… mas você também é homem! – Spencer abriu a boca para reagir, mas Morgan não lhe concedeu abertura. – Escuta esse conselho de ouro, meu amigo: no momento em que você mistura isso com sexo… tudo vira um caos. Tudo. – Ele inclinou a cabeça, o tom grave demais para ser levado totalmente a sério. – Sabe por quê?
– P-por quê? – Spencer franziu o rosto, ainda ruborizado.
– Porque a cabeça de baixo começa a governar a de cima.
Spencer deixou escapar um gemido abafado, as mãos pressionando a testa como se tentasse conter uma enxaqueca iminente.
– Acabei de me lembrar de uma coisa terrível.
– O quê?
– Eu aceitei o convite para o jantar de Ação de Graças do meu pai. – A transformação no rosto de Derek foi instantânea: primeiro um choque sincero… depois o brilho. O brilho. E então a gargalhada. Alta, descontrolada, quase ofensiva. – Eu não estava pensando. Eu só... disse que sim.
– É, a cabeça de baixo realmente não deixa a de cima trabalhar direito. – Morgan disse, ainda sorrindo tão abertamente que chegava a doer. Ele deu dois tapinhas dramáticos no ombro do amigo e começou a se afastar, ainda rindo. – Boa sorte, irmão. Você vai precisar.
Naquela semana, Spencer chegou a discar o número do pai três vezes e, nas três, ensaiou mentalmente o discurso sobre como não poderia ir no Dia de Ação de Graças. Tinha argumentos preparados, explicações racionais, até pausas calculadas para soar sincero. Mas, quando finalmente criou coragem para apertar “ligar”, Zoe apareceu no identificador com o timing cruelmente perfeito.
Ele atendeu sem pensar. E bastou ouvir a vozinha animada dela – “Você vem, né? Prometeu que viria. Papai vai ficar tão feliz.” – para sentir todo aquele discurso desmoronar. Spencer tentou começar uma justificativa, algo vago sobre trabalho, mas não conseguiu dizer não. Ele era um fraco para crianças.
Assim, na terça-feira à tarde, contrariando todos os planos que tinha feito para não estar ali, Spencer se encontrou paralisado diante da porta do pai, o punho cerrado em um gesto congelado. O corredor exalava aquele cheiro reconfortante e ameaçador de madeira antiga e livros. Um perfume que, para ele, sempre cheirou a coisas melhor deixadas no passado.
– …Conseguiu!
O sorriso aberto do pai o atingiu em cheio.
– Oi, pai. – Ele respirou fundo e devolveu um sorriso breve, controlado.
– É bom te ver, filho. Tudo bem no trabalho?
Ele ainda não estava totalmente habituado a essa versão do pai. Spencer assentiu, ajustando-se ao tom caloroso que, em sua infância, fora uma raridade.
– Está tudo sob controle. – Seu olho varreu a sala de estar num piscar, em busca de qualquer vestígio de Mariah. Não conseguia decidir se desejava ou temia encontrá-la ali. – A Zoe me ajudou a escolher a torta. – Disse, erguendo a caixa da padaria como um escudo improvisado. – Crumble de maçã.
– Excelente escolha. Entra, estão todos na cozinha. – O pai dele riu baixinho e pegou a caixa com um aceno de agradecimento.
O aroma denso de peru assado, canela e noz-moscada inundava o corredor, entremeado pelo tilintar de talheres, vozes sobrepostas e risadas despreocupadas. E então ele ouviu aquela risada familiar. Melódica de um modo perigosamente reconhecível.
Sentada à mesa de madeira, Mariah sorria com os olhos semicerrados, vestia uma blusa rosa-claro, feita de camadas de babados, com mangas longas e fluidas que se moviam como um suspiro e um short jeans desfiado.
Spencer não era dado a palavrões, mas seu cérebro só conseguiu articular um pensamento coeso: Merda. Merda. Merda.
– Spence! – Zoe correu em sua direção, rindo, quase tropeçando de pura excitação.
– Que bom que você veio, querido – Deb o abraçou com o afeto de sempre.
– Obrigado, Deb. – Murmurou Spencer, forçando um tom natural. – Tudo está com um cheiro maravilhoso, como sempre.
Mariah levantou-se com fluidez, pegou uma garrafa e serviu uma taça. Ao passar por ele, estendeu o copo com a mesma gentileza tranquila que sempre o desnorteava.
– Dr. Reid.
– Mariah. – Respondeu, aceitando a taça com um cuidado exagerado, como se fosse frágil demais para suas mãos.
– Spencer, você chegou na hora certa. – Seu pai apontou, entregando uma bandeja vazia a ele. – Estamos pondo a mesa. Vai lá ajudar a Zoe com os pratos.
Claro. Pratos. Tarefas simples. Virou-se para seguir Zoe, mas o olhar o traiu e retornou a Mariah. Ela já se sentara novamente, com uma perna cruzada sobre a outra, brincando distraidamente com o guardanapo de pano enquanto sorria para algo que Deb dizia.
O jantar de Ação de Graças foi, para Spencer, um teste extensivo de resistência psicológica. Cada vez que os olhares se cruzavam, Mariah demorava um segundo a mais do que o socialmente aceitável para desviar. Um segundo pesado. Um segundo suficiente para desmontá-lo por completo.
Quando a sobremesa foi servida, Spencer já calculava rotas de fuga, qualquer coisa para evitar observar a forma como Mariah ocupava aquele espaço com uma naturalidade quase coreografada. Ela ria baixinho, inclinava a cabeça como uma das bonecas que ela tanto amava e jogava seus cabelos.
Absolutamente excruciante.
– Foi tudo tão especial hoje. – Deb disse, servindo uma segunda rodada de sobremesas. – Obrigada, querida. E obrigada, Spencer.
– Eu é que agradeço. Está tudo perfeito. – Spencer soava deslocado. Quase cerimonial.
E então, como se o universo estivesse empenhado em testar seus limites, Mariah se espreguiçou na cadeira, os braços erguidos em um movimento preguiçoso. A blusa subiu levemente, revelando uma faixa de pele suficiente para fazer o ar entrar de forma errada nos pulmões de Spencer.
Ele desviou o olhar, determinado a agir como um adulto responsável
– Spence, vamos jogar agora? – Zoe o puxou, vibrante.
– Claro! – Respondeu, agarrando a oportunidade como quem se agarra a uma tábua de salvação em mar revolto.
– Monopoly! – Zoe anunciou, erguendo os braços como se tivesse vencido uma batalha. – Eu vou acabar com VOCÊ.
O resto da noite dissolveu-se em um borrão de caos e risadas: Zoe o levando à falência com eficiência assustadora, Zoe roubando notas do banco com zero discrição e conversas educadas demais tentando preencher o espaço. Spencer tentava focar no tabuleiro, na risada de Zoe, em qualquer coisa que mantivesse sua mente ocupada. Até que Mariah reapareceu na sala.
― Posso me juntar a vocês? ― Perguntou, deixando pousar sobre ele um sorriso doce e perigoso. ― Os adultos lá fora estão começando a julgar minhas decisões de vida.
Mariah apoiou o queixo na mão, observando Zoe contar dinheiro de mentira com a satisfação de um banqueiro corrupto. Spencer tentou ignorar cada detalhe dela: o cabelo escorrendo pelo ombro, o perfume sutil de flor de cerejeira, a quantidade absurda de perna que o short deixava à mostra.
Sentiu-se, ridiculamente, como um adolescente sem vocabulário funcional.
Zoe, é claro, divertia-se horrores colecionando propriedades absurdas, enquanto Spencer fingia que tinha sido derrotado por ela. Ele também tentava não olhar para Mariah, mas como ignorar que a perna dela tocava levemente na dele, quente, num contato completamente impróprio para um jantar de Ação de Graças em família? E, como se tivesse um radar para piorar tudo, Mariah escolheu justamente aquele momento para sorrir de novo para ele.
― Mariah! Podemos jogar pôquer agora? ― Zoe perguntou, toda animada.
― Desculpa, Zozo, mas a mamãe não quer você perto das cartas. ― Respondeu Mariah, rindo e bagunçando o cabelo da irmã.
― Olha só ― Spencer murmurou, sarcástico. ― Uma resposta responsável. Que surpresa.
Ela inclinou a cabeça, estudando-o, claramente avaliando se ele estava sendo sincero ou apenas difícil.
― Zozo. ― Mariah chamou, com uma falsa inocência enquanto se inclinava deliberadamente para a frente. ― Pode subir e procurar as cartas de pôquer? Tenho certeza que a mamãe não vai se importar com um joguinho no Dia de Ação de Graças.
Zoe explodiu em alegria, subvertendo a própria regra sem hesitar, e saiu correndo escada acima.
E Spencer ficou ali sozinho com Mariah. Por pelo menos um minuto inteiro. O que era, honestamente, um tempo perigoso demais.
– Você estava me espionando? – Aproximou-se mais um pouco, a voz veio baixa, quente, perigosamente divertida: – Legal. Nunca tive um stalker antes. Já está obcecado?
– Pelas luvas de corrida rosa… ou pelos pequenos delitos de fim de semana? – Ele rolou os olhos, ironicamente. – Sua mãe sabe?
– Minha mãe? – Mariah repetiu, mas dessa vez sem o sorriso fácil. Algo na expressão dela mudou; não era mais brincadeira. – Interessante o quanto você tenta reduzir tudo a algum tipo de hipótese doméstica.
– Eu só fiz uma observação. Não foi... – Ele endireitou a postura, como se isso pudesse recuperar algum fragmento de autoridade. – Estatisticamente, pessoas da sua faixa etária ainda moram com os pais em 47% dos casos, então não é irracional supor que...
– Mariah, o que eu disse sobre jogar pôquer com a sua irmãzinha? – A voz de Deb ecoou de outro cômodo, carregada de repreensão.
Spencer soltou um breve suspiro de alívio com a interrupção. Estava a segundos de dizer ou fazer qualquer coisa que provavelmente só pioraria a situação e a bronca oportuna de Deb foi uma intervenção mais do que bem-vinda.
Ele era um agente experiente do FBI, pelo amor de Deus. Ele deveria ser quem estava no controle da situação. Mas agora, com o joelho de Mariah pressionado contra o dele e o olhar dela fixo no seu com uma confiança presunçosa, ele sentia como se estivesse perdendo toda e qualquer função cerebral superior a uma velocidade assustadoramente rápida.
Os olhos de Spencer se prenderam aos dela. Sua boca secou. Ele não sabia se queria estrangulá-la ou…
– Achei! – Zoe voltou correndo, o baralho de UNO erguido como um troféu, completamente alheia à tensão que ainda pairava no ar. – Mariah tem que estar no meu time porque ela trapaceia melhor.
Spencer ergueu uma sobrancelha, mas não teve tempo de comentar.
– Você ouviu isso? – Mariah inclinou-se, sussurrando, quase próxima demais. – Boa influência.
– …Ótima influência. – Repetiu, sarcástico.
Do outro lado da mesa, Mariah lhe lançou uma piscadela leve. Não sedutora, não exagerada, apenas uma provocação calma, calculada. O tipo de gesto que revelava o quanto ela parecia se divertir observando as tentativas dele de manter a compostura.
Enquanto isso, Zoe tagarelava, feliz, completamente alheia ao clima pesado que ainda pairava sobre a mesa.
– Então, Spence... Você vem no Natal? – A menina perguntou, animada.
– Ainda não sei. – A resposta saiu entre um murmúrio e um suspiro, enquanto ele alinhava as cartas na mesa com uma precisão quase obsessiva. – Se o trabalho não me prender, talvez.
A verdade era mais simples e muito mais espinhosa.
Ele ainda não havia encarado o pai para falar sobre isso. Fora a dois jantares e a um Ação de Graças; será que isso, de repente, o tornava um membro fixo da família? Ele estava pronto para esse tipo de compromisso? E a sua mãe, estaria? Eram perguntas demais, um turbilhão sem respostas.
– O trabalho é mais importante que a família, Dr. Reid? – Mariah murmurou, a voz doce o suficiente para enganar qualquer um… mas não mais a ele. Aquela doçura não era bondade. Era lâmina.
– Família é complicada. – Retrucou num tom seco que não deixava margem para discussão.
– Complicada tipo… – Mariah riu baixinho, um som leve, mas frio. Passou a mão pelo cabelo de Zoe, fingindo distração, embora seus olhos continuassem presos aos dele. – Tipo descobrir, aos trinta e poucos, que de repente ganhou duas meias-irmãs?
Ele soltou um riso curto pelo nariz. Zoe... essa, ele há muito se permitira considerar irmã, muito antes de qualquer papel ou vínculo legal tornar isso oficial. Mas Mariah? Ele jamais a encaixaria na palavra irmã, nem em um milhão de possibilidades.
Na verdade, a simples ideia era tão absurda que chegava a beirar o cômico.
– É, tipo isso... – Murmurou, desviando o olhar.
Após uma partida de UNO que quase não conseguiram terminar – graças às inúmeras “intervenções estratégicas” de Mariah – Spencer finalmente jogou a última carta. Zoe, tão correta e competitiva quanto ele, protestou cinco vezes, e ainda assim Mariah saiu vitoriosa duas delas, o que só provava que ela realmente trapaceava bem.
Com o jogo encerrado, Spencer começou a se despedir. Abraçou Zoe com cuidado, cumprimentou Deb com um sorriso educado e até aceitou levar algumas sobras do jantar, tudo isso sob o olhar atento – e satisfeito – do pai.
No momento em que estava prestes a sair, ouviu a voz de Mariah ecoar de algum outro cômodo: – Tchau, Dr. Reid!
Ele nem teve chance de responder. Talvez fosse melhor assim.
Ao deixar a casa, o pai o acompanhou até a porta. E, enquanto Spencer ajeitava o casaco e se preparava para a rota de fuga emocional que já traçara mentalmente, ouviu Zoe perguntar sobre o Natal… de novo. Um segundo depois, o pai repetiu a mesma pergunta.
– Ainda não sei. Talvez eu esteja um pouco ocupado. – Spencer respondeu, enfiando as mãos no bolso do casaco.
O pai assentiu devagar, observando-o com aquela expressão silenciosa que tentava decifrar o que Spencer não dizia em voz alta.
– Bem, – Deu um sorriso pequeno, caloroso, quase tímido –, você sabe que é sempre bem-vindo, não sabe? Não importa o dia, não importa quando.
– Eu sei. – Spencer assentiu. – Também vou visitar a mamãe, então…
– Eu sei, ela me contou.
Spencer piscou, surpreso. Não era como se não soubesse que os dois tentavam manter algum tipo de contato, mas constatar que aquilo realmente acontecia – de forma concreta, cotidiana – era outra coisa inteiramente diferente.
– Ela… te contou? – Perguntou, cauteloso, quase desconfiado. – Ela se lembra de você?
– Às vezes sim, às vezes não… – William admitiu, soltando um suspiro cansado. – Mas a Diana já conheceu a Deb e… está em paz com isso. Além disso… – Ele hesitou, como se pesasse cada palavra. – Você sabe que eu pedi perdão à sua mãe, não é? Pelo que fiz.
– Eu sei, ela me contou. – Spencer desviou o olhar. Algo pesado se moveu dentro dele, incômodo, vulnerável, familiar demais.
– Posso ajudar com as contas do hospital e…
Spencer o interrompeu antes que pudesse terminar.
– Não precisa, pai. Eu cuido disso. Sempre cuidei. Você… você nunca soube lidar com a doença dela. E agora… agora eu dou conta.
William franziu o cenho, atingido de forma mais profunda do que parecia esperar. Passou a mão pelos cabelos, o mesmo gesto nervoso que Spencer herdara sem nunca ter percebido.
– Ainda sou seu pai, Spencer. E a Diana ainda é minha esposa. Se posso ajudar, eu vou ajudar. E quero ajudar. A Deb não tem nada a ver com isso. Aliás… É ela que vive me lembrando disso.
Spencer desviou o olhar, procurando uma forma de suavizar o que precisava dizer.
– Eu sei. Só… não quero que você sinta que está… compensando alguma coisa. Não precisa ser assim.
William o encarou de um jeito que fez Spencer se sentir jovem demais e velho demais ao mesmo tempo.
– Eu entendo, garoto. – Disse, enfim, com um cansaço sincero na voz. – É só que… às vezes parece que você não me permite ser nada além do erro que eu fui. – Ele enfiou as mãos nos bolsos, desconfortável. – Eu sei que estraguei muita coisa. Mas você… você não precisa carregar tudo sozinho para provar que não é como eu.
– Não estou tentando provar nada. – Respondeu, mesmo sabendo que não era totalmente verdade. – Só estou fazendo o que precisa ser feito.
O pai assentiu, lento, mas não convencido. O vento bateu frio, arrancando um suspiro de ambos. William enfiou as mãos no bolso do casaco.
– Quanto ao Natal… Venha só se quiser. Não precisa ficar preocupado em dizer “não” para Zoe. – William soltou uma risada curta. – Ela parece um anjo, mas… é irmã da Mariah. Aquele sorriso inocente dela é completamente armado.
Spencer bufou uma risada discreta, mas não respondeu. E por um instante, ficaram ali, apenas parados diante da porta, como se nenhum dos dois soubesse muito bem como encerrar aquela conversa sem deixá-la pela metade.
– Bom… – William ajeitou o casaco e deu um passo para trás. – Dirija com calma. A estrada fica escorregadia à noite. – Era um comentário simples, cotidiano, mas bateu fundo. O tipo de coisa que um pai dizia. E o tipo de coisa que Spencer nunca soube exatamente como receber. Ele apenas assentiu, tentando não demonstrar nada. William pareceu considerar dizer mais alguma coisa, e depois de um breve silêncio acrescentou, com cuidado quase tímido: – Se decidir vir no Natal… ficarei muito feliz.
Spencer não conseguiu prometer nada. Não ainda. Mas inclinou a cabeça em um aceno curto. Sincero o bastante para não ser frieza, distante o suficiente para não ser compromisso.
Então enfiou as mãos ainda mais fundo nos bolsos e caminhou em direção ao carro. E, conforme se afastava da porta iluminada da casa do pai, Spencer sentiu aquele velho conflito se reinstalar, entre o querer e o conseguir, entre o passado e o que ainda estava tentando aprender a construir.
Estava prestes a chegar na porta quando percebeu que ela já estava… Entreaberta.
Spencer franziu a testa, diminuindo o passo. Ele era meticuloso com aquele carro. Trancava as portas até quando só ia buscar o jornal. Algo ali estava definitivamente fora do lugar. A poucos metros, ele distinguiu uma silhueta sentada no interior.
Ótimo.
Seus dedos foram instintivamente ao quadril, para o espaço vazio onde sua arma costumava ficar. Perfeito. Excelente momento para estar desarmado.
Ele se aproximou com passos silenciosos, cada músculo tenso, o coração martelando nos ouvidos. A mente disparava possibilidades em sequência rápida: um assassino? Um sequestrador? Um ladrão desesperado o bastante para escolher justamente o carro dele, cheio de pilhas de relatórios amassados e manchas de café?
Ele avançou, pronto para puxar o celular do bolso e acionar a BAU, então...
Um par de meias rosas muito familiar surgiu por trás do painel, preguiçosamente apoiado ali como se nada no mundo estivesse errado.
Spencer soltou um suspiro brusco, mais alívio do que gostaria de admitir.
– Mariah, – ele sibilou, agarrando a porta e abrindo-a com um puxão seco. – O que diabos você está fazendo no meu carro?
– Larry Niven é o seu livro de bolso? – Perguntou, folheando o exemplar que tirara do porta-luvas como se estivesse na sala de estar dela. As pernas cruzadas no painel como se aquilo fosse território dela. – Esperava algo mais… sofisticado, para alguém com três doutorados.
– Saia. – A palavra saiu baixa, firme. – Agora.
– Você realmente dirige isso? – Ela empurrou o livro de volta e vasculhou mais fundo. – Pensei que o FBI pagasse melhor. – Abriu um sorriso provocativo. – Quer que eu arrume um carro de verdade para você? Conheço uns caras.
– Não quero nada seu. E esse carro não é velho. – Seu tom era cortante. – É um clássico.
– Claro. – Ela puxou um maço de recibos amassados, examinando-os com desdém. – Você pode simplesmente dizer que está sem grana. Não precisa inventar para mim.
Ele entrou no carro, bateu a porta com força e ficou olhando para frente, mãos fechadas sobre o volante como se estivesse prestes a esmagá-lo.
– Você invadiu meu carro, mexeu nas minhas coisas. E agora quer discutir minha renda?
– Um pacote de café? Sério? – Ela ergueu o pacote como se fosse um órgão humano mal-conservado. – Você anda com isso no porta-luvas?
– Sim, sério. – respondeu, ríspido. – Café é um grupo alimentar. E pare de mexer nas minhas coisas!
Mariah nem reagiu. Nem piscou. Continuou abrindo compartimentos como quem inspeciona um carro roubado. Spencer fechou os olhos por um segundo longo, tentando lembrar por que ainda não tinha jogado ela para fora.
Ah, sim. Porque era Mariah. E porque ele tinha zero controle sobre qualquer coisa quando ela estava por perto.
Spencer arrancou os papéis da mão dela e bateu o porta-luvas com força, alto o bastante para ecoar no carro inteiro.
– O que você está fazendo aqui, Mariah? Não me diga que você arrombou o meu carro.
– “Arrombou” é um termo tão agressivo… – Disse, despreocupada, tamborilando os dedos no painel. – Prefiro “testei os limites da segurança de um veículo claramente vulnerável”.
– Vulnerável?
– Spencer, seu carro é incrivelmente frágil. – Afirmou, como se estivesse apontando um fato científico. Depois abriu o quebra-sol, casualmente. – Ah. Trinta dólares. – Pegou as notas entre dois dedos, examinando como quem avalia uma obra de arte. – Pelo menos você não esconde isso no porta-luvas. Lá dentro só tem documentos de 2008 e um amassado de recibos que deveriam ser considerados um crime federal.
Spencer soltou um gemido de frustração, apertando a ponte do nariz. Uma parte dele cogitou simplesmente fechar a porta, dar meia-volta e ir embora. Mas não, ela roubaria o carro. Provavelmente atravessaria três bairros em velocidade ilegal só porque queria.
– Esse dinheiro não é seu. – Rosnou, mas não tirou a nota das mãos dela. – E eu não me importo com o quão “frágil” você acha que meu carro é. Saia.
– Vamos nos ver no Natal?
A pergunta veio do nada, cortando o ar com uma precisão que não combinava em nada com o caos de trinta segundos atrás. Spencer apenas piscou, atordoado. Mariah havia virado o rosto para ele com uma serenidade quase inquietante, como se aquela fosse a pergunta real desde o instante em que entrara no carro.
– O quê?
– Natal. – Ela repetiu, firme, sem desviar o olhar. – Você vem?
O impacto foi imediato. A expressão dela tinha mudado e ele percebeu. Nada de sarcasmo, nada de ousadia gratuita, nada da provocação afiada que ela usava como segunda pele. Havia só… sinceridade. Uma sinceridade desarmada, desconfortável. Quase vulnerável.
– Por que quer saber? – Spencer perguntou, a voz saindo mais baixa do que pretendia.
– Porque você é imprevisível. – Ela respondeu, os ombros se erguendo num movimento quase imperceptível, como se carregasse um peso invisível. – E às vezes... eu preciso me preparar.
Ele ficou em silêncio, observando-a. A maquiagem impecável, o olhar calculado que sempre parecia um passo à frente e, agora, por trás de tudo, algo que ele nunca tinha visto nela: incerteza real.
– Se preparar para o quê, Mariah?
– Para te ver. Ou para não te ver.
Uma pausa pesada, que caiu entre os dois como uma verdade inconveniente.
Spencer não respondeu de imediato. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas nada veio. Mariah soltou uma risada curta, sem humor, e recostou a cabeça no encosto, de repente mais interessada no teto do carro do que nele.
– Esquece. – murmurou, quase inaudível. – Foi uma pergunta idiota.
– Não foi idiota. – Spencer falou rápido demais. Ela virou o rosto de volta para ele, sobrancelha arqueada. Não havia zombaria ali. Só um pedido silencioso para que ele fosse honesto. – Eu só… Não sei se consigo te dar uma resposta agora.
– Tudo bem. Só queria saber se devo esperar você… ou tentar não esperar.
Mais uma vez, ele abriu a boca para responder, mas as palavras morreram na garganta. Especialmente porque seu olhar se perdeu no rosto delicadamente maquiado de Mariah, que agora também o estudava com igual intensidade.
Ele suspirou e fechou os olhos com força quando a voz de Derek Morgan ecoou ironicamente em sua mente: "Nada de se envolver com a Barbie, Pretty Boy."
– E-eu aviso. – Gaguejou, forçando as palavras para fora.
Um sorriso genuíno – quase terno – se espalhou pelo rosto de Mariah enquanto ela assentia de leve e, mais uma vez, puxava a nota de dinheiro da mão dele.
– Vou precisar disso. Tem um tal de Dino correndo hoje; ninguém sabe que ele é bom. Vou dobrar essa aposta…
Ela falava enquanto já se virava para abrir a porta do carro, pronta para ir embora, como se a conversa delicada de segundos antes nunca tivesse existido.
Spencer não soube identificar exatamente o gatilho. Se foi a menção às corridas. O tom insolente. Ou a maneira casual com que ela se afastava, como se nada fosse capaz de realmente alcançá-la. Só percebeu quando já se inclinava sobre ela, empurrando a porta do carro para fechá-la outra vez.
Mariah recuou um meio centímetro, surpresa. Ele ficou apoiado sobre ela, o corpo perigosamente próximo no espaço sufocante do carro.
– Você não vai parar com essa merda de corrida ilegal? – A pergunta saiu baixa, comprimida, mais ameaça do que questionamento, carregada da raiva contida que ele vinha acumulando sem nunca admitir.
– Ah… aí está. – Mariah o estudou por um longo, lento e excruciante intervalo de três segundos. Era como se estivesse mapeando cada traço do rosto dele, catalogando tensões musculares, microexpressões, hesitações. Exatamente como ele faria com qualquer suspeito. – Sabia que ele estava aí em algum lugar.
– Ele quem?
– O Agente Reid. – Respondeu com seu típico tom dócil. – O mesmo que me prensou contra o capô de um Mustang e achou que eu ia cooperar só porque tinha algemas.
A declaração pairou no ar, carregada de um desafio afiado, um flerte perigoso e um sorriso excessivamente doce.
– Aquilo foi trabalho. Você estava cometendo um crime. – Disse, a mandíbula travada. – Não muda o fato de que você pode morrer nessas corridas.
Mariah aproximou o rosto apenas o suficiente para que o nariz dela quase tocasse o dele, sem encostar, mas devastadoramente perto.
– Essa é a graça. – Sussurrou, carregando o sarcasmo como um golpe afiado. – Mas eu não vou parar. Você sabe disso.
– Você vai. – Devolveu, mais grave do que pretendia, a frustração infiltrando-se na frase. – Uma hora alguém vai te alcançar. Ou te tirar da pista. Ou...
Ela o interrompeu antes que pudesse terminar. A mão de Mariah subiu com precisão calculada, nada abrupto, apenas o suficiente para surpreendê-lo. Os dedos dela pousaram em sua bochecha, firmes, apertando com uma delicadeza falsa, as unhas longas arranhando de leve sua pele.
Puxou-o levemente para mais perto, até que respirar o mesmo ar se tornou inevitável.
– Quem? Você?
A pergunta pairou ali, e o silêncio dele, por um segundo, pareceu muito mais revelador do que qualquer resposta.
Ela estava perto demais. Perto o bastante para que ele sentisse o perfume doce e perigoso que grudava na garganta. Perto o bastante para que cada piscada dela parecesse um convite ou uma provocação. Ele não sabia mais distinguir.
– Se eu tivesse que te tirar da pista… não seria assim.
– É claro que não seria. – Ela sussurrou em resposta.
Os dedos de Mariah deslizaram com uma lentidão deliberada pela linha da mandíbula de Spencer, a ponta dos dedos roçando a pele com uma precisão demasiado calculada para ser casual. Ela estava atenta a tudo: cada microexpressão, cada respiração que se tornava mais densa, cada músculo que se contraía sob seu toque.
– Nada de trabalho pela metade, não é, agente Reid? – provocou, a voz baixa, quase aveludada. – Garoto prodígio do FBI. Sempre tão… eficiente.
Spencer engoliu em seco. E ela percebeu. Ele soube, no mesmo instante, que ela tinha visto e isso apenas fez seu sorriso crescer. A mão livre de Mariah subiu até a gola de sua camisa, puxando-o com firmeza para mais perto. Não houve aviso, nem delicadeza. Seus lábios colidiram com os dele de forma abrupta, quente, voraz.
Spencer gemeu contra sua boca, as mãos reagindo antes do pensamento, encontrando sua cintura e puxando-a com urgência até que não restasse um centímetro de espaço entre eles. Mariah mordeu seu lábio inferior – afiado, provocador – antes de sua língua buscar passagem, que foi cedida por Spencer imediatamente.
Os pensamentos de Spencer se embaralharam, e o corpo reagiu muito antes que a razão conseguisse alcançá-lo. Ele devia empurrá-la. Devia interromper aquilo. Devia recuperar o controle antes de cruzarem uma linha irreversível.
Mas não fez nada disso.
Quando percebeu, suas mãos já deslizavam pela costela dela, subindo devagar, e então Mariah o puxou pelos cabelos da nuca. O som que ela soltou contra a boca dele foi curto, trêmulo, quando sentiu o calor da palma dele pressionando o tecido do decote.
– Mariah… – Spencer tentou se agarrar a qualquer pensamento lógico, qualquer âncora que o mantivesse no lugar certo, mas era impossível ignorar o óbvio. Sua mão estava ali, apoiada no seio direito dela. E ela não apenas permitia. Mariah mantinha a mão por cima da dele, firme, deliberada, como se quisesse deixar claro que aquela escolha era consciente. Enquanto isso, mordiscava seus lábios com uma lentidão provocadora, quase calculada demais para ser impulsiva. – Nós não podemos…
– Tarde demais.
O beijo que veio depois não teve urgência, nem pressa, nem o choque de algo inesperado. Foi lento. Pesado. Spencer sentiu o corpo reagir antes da razão, alcançando aquele ponto exato em que o desejo implora por mais e a mente grita para que ele pare agora, enquanto ainda dá tempo.
Demorou para conseguir se afastar. Primeiro um centímetro. Depois dois. O mínimo necessário para puxar o ar de volta aos pulmões, ainda que viesse irregular, trêmulo, como se respirar tivesse se tornado um esforço consciente.
Isso não é quem você é, repetiu mentalmente, como um aviso tardio.
– Isso não é um jogo, Mariah. Não é uma corrida de rua.
Por um instante, ela não respondeu. Ele percebeu antes mesmo de entender: o sorriso provocador vacilou. Foi mínimo, quase imperceptível, mas ele viu. Sempre via essas coisas. E aquilo o atingiu com mais força do que qualquer provocação anterior.
– É exatamente o mesmo sentimento. – Confessou, por fim.
As palavras pesaram no peito dele antes mesmo de fazerem sentido. Spencer sentiu o impacto com uma clareza incômoda, como se tivesse acabado de confirmar algo que vinha tentando negar desde o primeiro toque.
– Então talvez seja melhor você ir... – Ele murmurou, tocando levemente o cabelo dela. – Antes que fique impossível… parar.
A mão de Mariah subiu devagar, sem pressa alguma, como se ela tivesse todo o tempo do mundo para desmontá-lo. Seus dedos alcançaram o queixo dele e o puxaram para baixo com uma delicadeza autoritária, abrindo seus lábios como se ele fosse algo que ela já sabia manusear de olhos fechados.
E antes que Spencer pudesse sequer respirar, ela inclinou o rosto e pressionou a língua contra a dele. Rápido. Preciso. Devastador.
Um toque que não durou um segundo inteiro, mas que destruiu qualquer traço de autocontrole que ele ainda fingia ter.
Ela se afastou imediatamente, como se tivesse apenas roubado um doce de uma criança e não virado seu mundo pelo avesso.
– Te vejo no Natal, Spence. – Murmurou, com aquela voz que tinha o talento de soar ao mesmo tempo como promessa… e ameaça.
Do banco do carro, atônito, ele a observou voltar para casa como se nada tivesse acontecido. O short jeans moldava seus quadris com insolência, e a blusa rosa balançava no vento quando ela caminhava. Então, sem hesitar, sem olhar para trás, Mariah subiu pela janela do próprio quarto com a agilidade de quem faz aquilo desde criança.
Spencer recostou a cabeça no banco, tentando respirar fundo, tentando se recompor, tentando ser… um ser humano funcional. E ficou pior quando ele finalmente olhou para baixo.
As calças deixavam claramente evidente o tamanho do problema.
Um gemido baixo escapou de sua garganta. Ele se ajeitou no assento, irritado com o volante, com o carro, com a própria existência. Ou talvez com ela. Principalmente com ela.
Com mais força do que o necessário, enfiou a chave na ignição, ligou o motor e deu partida, fugindo daquela rua antes que seu cérebro, já perigosamente comprometido, sugerisse a pior ideia possível:
…subir pela mesma janela atrás dela.
Duas semanas antes do Natal, Spencer tentava conciliar mentalmente sua viagem para Las Vegas com a pilha interminável de relatórios de fim de ano da BAU. Não estava funcionando. Sua cabeça latejava, a caneta rodava entre seus dedos sem foco algum, e tudo o que ele realmente queria era uma noite de sono decente.
Foi então que o celular vibrou.
Número desconhecido.
Ele quase deixou tocar até cair na caixa postal, mas anos de hábito – e paranoia profissional – falaram mais alto. Levou o telefone ao ouvido com um suspiro cansado.
– Reid.
A voz que ele reconheceria mesmo se estivesse morrendo, mesmo se o mundo inteiro estivesse em colapso ao redor dele, gritou: – O que você fez?
O coração de Spencer deu um salto violento, tão súbito que chegou a doer. Seus dedos apertaram o aparelho, as costas se endireitaram na cadeira sem que ele tivesse controle sobre isso.
Claro que era ela.
Ele limpou a garganta, tentando colar uma camada de neutralidade profissional na voz, falhando miseravelmente.
– Mariah?
– Por que caralhos – Ela continuou, cada sílaba carregada de veneno, ironia e aquele temperamento inflamável de sempre. – eu acabei de receber uma intimação?
Seu cérebro começou a correr por cenários possíveis, nenhum deles razoável, todos eles envolvendo Mariah fazendo exatamente o que ela fazia de melhor: caos.
– O que você fez dessa vez? – Perguntou, exausto, resignado… e, claro, um pouco preocupado demais. Ele odiava quanto se preocupava.
– Me diga você. Idiota!
E a ligação caiu.
Spencer ficou olhando para o celular na mão, o cérebro oscilando entre frustração absoluta e… outra coisa.
Ela era impossível. Irritante. Imprudente. E tão absurdamente... Mariah, que ele queria estrangulá-la metade do tempo e beijá-la na outra metade.
Spencer empurrou a cadeira para trás com mais força do que pretendia. Respirou fundo – aquele tipo de respiração de “eu não acredito que estou prestes a fazer isso” – e saiu da sua mesa em passos longos, irritados. Claro que ele estava indo direto para o pior lugar possível em casos como esse: o território de Penelope Garcia.
Ao entrar no escritório dela, deu de cara com a cena mais previsível do departamento: Derek Morgan recostado na cadeira como se fosse dono do ambiente, dividindo um lanche suspeitamente açucarado com Penelope, os dois parecendo adolescentes escondidos atrás da quadra da escola.
– Precisa de alguma coisa, docinho? – Penelope girou a cadeira devagar, o olhando.
– Preciso que você rastreie alguém para mim. – Spencer disse, direto demais para quem claramente não estava com paciência para rodeios. – Ela recebeu uma intimação. E eu preciso saber o que diabos ela fez.
Penelope praticamente entrou em combustão. Endireitou-se na cadeira como se tivesse acabado de receber a missão dos sonhos, dedos pairando sobre o teclado com expectativa quase religiosa. Derek soltou uma gargalhada curta, antecipando o caos.
– Deixa eu adivinhar… Mariah?
Spencer não respondeu. Não precisou. O silêncio foi eloquente o bastante. Penelope já estava a meio caminho do frenesi tecnológico, unhas coloridas clicando como castanholas enquanto os dedos voavam sobre o teclado numa velocidade quase desumana.
– Ok… vamos ver… – murmurou ela, os olhos correndo pela tela. – Nenhuma prisão… nenhuma detenção… hmmm… – O tom mudou, afinando, carregando-se de significado. – Bingo. Corrida de rua. De novo.
– Essa garota precisa urgentemente de um hobby menos… ilegal. – Derek bufou uma risada, balançando a cabeça com uma mistura de indignação e admiração. – Sério, eu jurava que rachas tinham sido extintos. Isso é tão anos 2000.
– …Só isso? – Spencer perguntou, a voz achatada por pura exaustão. A dor de cabeça já pulsava insistente na base do crânio, pedindo ibuprofeno, férias… ou talvez um coma breve e estratégico. – E por que diabos ela acha que eu tenho alguma coisa a ver com isso?
Derek deu de ombros, perfeitamente à vontade, como se estivesse apenas explicando uma lei básica da física.
– Ela tem um leve desvio de personalidade, e você é literalmente a face institucional do FBI, Pretty Boy. – Ele jogou um pedaço de biscoito para o alto, pegou com a boca sem o menor esforço e sorriu, satisfeito. – A matemática fecha.
Penelope apontou para a tela, mas agora não havia nenhum entusiasmo, nenhum sorriso travesso. Apenas seriedade.
– Bem… talvez não você, mas alguém armou. Veja isso.
Spencer se inclinou por cima do ombro dela, seus olhos correram rápido pelas linhas do relatório: uma denúncia anônima, extremamente detalhada. Horários exatos. Locais específicos. Modelos de carros. Não, modelo de um carro. O dela.
– Que conveniente. – Spencer murmurou, quase para si.
– E só ela…? – Penelope franziu o cenho, rolando mais um bloco de dados. – Las Vegas tem corridas ilegais todo fim de semana. – Ela enfatizou a palavra, digitando mais algumas combinações de busca. – Mas só ela foi pega nessa operação específica? – Um silêncio aflito caiu enquanto ela mordia o lábio, pensativa. – A menos que…
– Ela tem algum inimigo? – Derek perguntou, cruzando os braços, agora completamente investido.
– Além de mim? – Spencer soltou um riso tão curto e seco que poderia ter sido um soluço.
– Acho que encontrei algo. - O tom de Penelope mudou de uma vez e ela arregalou os olhos. – Ah, não… Você não vai gostar disso, Spence.
Apenas o FBI teria acesso àquela denúncia anônima. Mesmo que tivesse sido enviada para outro setor, só alguém com as habilidades de Penelope conseguiria desenterrar aquilo nas camadas mais escondidas do sistema. E quando o arquivo finalmente se abriu, expandindo em linhas e linhas de texto, códigos internos e carimbos digitais… um único nome no final fez o estômago de Spencer despencar como se o chão tivesse sumido sob seus pés.
William Reid.
– Ok… isso complicou tudo. – Derek soltou um assobio baixo. Spencer levou a mão à têmpora, pressionando como se pudesse empurrar a realidade para longe. – Por que seu pai denunciaria a própria enteada?
Spencer não conseguia responder nada. Sua mente – normalmente tão rápida, tão precisa – agora se fragmentava em dezenas de possibilidades, todas igualmente plausíveis.
Respirou fundo, pegou o telefone e discou. Mariah atendeu na primeira chamada.
– Nossa, o FBI é rapidinho quando o assunto sou eu? Chocante.
Spencer fechou os olhos por um instante. A voz dela sempre parecia acertá-lo no ponto exato entre irritação e… outra coisa que ele se recusava a nomear agora.
– Mariah, – Tentou manter a voz firme. – escuta. Eu preciso que você respire e pare de me xingar por trinta segundos.
– Ah, claro. – Ela resmungou, a voz subindo de imediato. – Eu sabia! Eu sabia! Você me denunciou, não foi? Qual é o seu problema, Spencer? É isso? Não conseguiu lidar com a única coisa nesse mundo que você não entendeu perfeitamente? Precisava MESMO…?
– Mariah, porra! – A explosão dele atravessou o telefone. – Cala a boca e me escuta.
Derek congelou com um pedaço de biscoito a meio caminho da boca. Penelope ficou imóvel, dedos pairando sobre o teclado. Spencer Reid não xingava. Nunca.
Mas antes que ele pudesse completar a frase, a linha ficou muda. Ela tinha desligado. De novo.
Spencer encarou a tela como se o aparelho tivesse acabado de traí-lo pessoalmente. Penelope levou a mão à boca numa tentativa inútil de esconder o riso. Derek nem fez esforço.
– Ok, ok… – Derek disse, rindo alto. – Pretty Boy, respira. Você vai esmagar esse telefone sem perceber.
– Eu estou calmo. – Ele afirmou, cada sílaba apertada entre dentes cerrados. O tom dizia o exato contrário. – Eu só preciso que ela leve isso a sério pela primeira vez na vida. Ela é tão… tão… teimosa. A Mariah sempre faz isso. Sempre. Ela nunca me escuta. Ela não escuta ninguém. Ela e aquelas malditas Barbies, e essas corridas idiotas, e esse… esse… furacão de irresponsabilidade que ela chama de personalidade! Toda vez... Todo mundo tem que se adaptar porque ela é… ela é… – Ele gesticulou no ar, palavras falhando, lógica derretendo.
– Meu Deus… ele está mesmo surtando. – Penelope soltou um risinho maravilhado, apoiando o queixo na mão. – Eu nunca vi o Spencer Reid assim. Nunca.
– Ela… ela simplesmente desliga o telefone! – Ele explodiu, indignado. – Quem faz isso? Quem me liga gritando, me acusa de um crime federal e depois desliga na minha cara quando eu estou tentando ajudar?
– Uma adolescente emocionalmente caótica? – Derek sugeriu, como se fosse óbvio.
– Ela nem é adolescente! – Spencer rebateu, a voz subindo meio tom. – Ela só age como uma! Isso é pior!
Spencer virou as costas antes que Derek ou Penelope pudessem registrar mais uma fração do colapso dele. O rosto já estava quente demais, e ele recusava dar munição para a dupla “Morcia”. Ligou novamente enquanto atravessava o corredor com passos tensos.
– Mariah, por que você não consegue levar isso a sério?! – Ele explodiu no instante em que a chamada foi atendida, a voz saindo alta demais, dura demais, antes que tivesse tempo de se conter.
– Por que você está gritando comigo? – Rebateu, a voz subindo também, mas sem a mesma força. – Eu posso lidar com isso sozinha. Sempre pude.
– Esse é exatamente o problema! Você acha que tem que lidar com tudo sozinha! O seu orgulho importa mais do que a sua segurança?
Houve uma pausa curta. Então, num tom incrédulo, quase tocado: – …Uau. Você acabou de gritar comigo.
Spencer fechou os olhos, o cansaço descendo como um peso físico. Era claro. Claro que essa seria a reação dela. Nenhum reconhecimento da gravidade da situação. Nenhum obrigada por se preocupar. Apenas o choque de vê-lo sair do papel que ela esperava que ele ocupasse.
– Meu Deus… você é tão mimada... – Ele deixou escapar, a palavra saindo antes que pudesse ser filtrada. Estava exausto demais para corrigir.
– Isso vindo do menino de ouro que nunca levanta a voz?
Spencer inclinou a cabeça para trás, encarando o teto como se o universo pudesse, por misericórdia, oferecer um botão de mute para Mariah. Quando voltou a falar, a paciência já tinha se esgotado por completo.
– Aliás, – disse, a voz agora firme, cortante de um jeito que ele raramente permitia – foi o meu pai quem prestou queixa contra você. – Silêncio.– Resolva as suas coisas e me deixe fora disso.
E desligou, jurando para si mesmo que não voltaria a tocar naquele assunto. Que não se envolveria mais. Mas naquela noite, quando finalmente chegou em casa e o silêncio pesou mais do que deveria, Spencer fez exatamente aquilo que vinha evitando desde o instante em que vira o nome no relatório.
Ligou para o pai.
Sentou-se no sofá sem acender nenhuma luz, deixando que a penumbra do apartamento amortecesse um pouco a exaustão que latejava nas têmporas. O dia tinha sido um desgastante e agora ele precisava atravessar mais um campo minado emocional.
– Spencer, filho.
– ...Pai.
Veio então o silêncio. Um silêncio denso, familiar, o mesmo que sempre antecedia as discussões que Spencer passara a vida tentando evitar.
Por fim, William falou: – O que foi?
Spencer tentou suavizar o tom, mas não conseguiu esconder o desgaste que corroía sua paciência.
– Como estão as coisas aí? Como está a Deb e Zoe?
Outra pausa. Mais longa. Mais pesada. Ele quase conseguia visualizar o pai apertando os lábios, estreitando os olhos, desconfiado do simples ato de ser questionado.
– Estão bem, se preparando para dormir. – William respondeu, a voz rígida. – Por quê? Aconteceu algo?
– Eu sei da intimação da Mariah. E quem a denunciou.
O silêncio que veio não foi vazio, foi revelador
– Como…? Spencer… eu não denunciei a Mariah. Quer dizer, denunciei, mas não do jeito que você está imaginando.
– Então o quê? – Perguntou, tenso. – Você estava lá? Falaram com você? Assinou algo? Me explica.
William demorou para responder.
– Temos recebido umas ligações estranhas nas últimas semanas…
Spencer se endireitou no sofá imediatamente.
– Ligações?
– Não sei se ela tem dívidas ou se se envolveu com alguém que não devia… – William continuou, com um suspiro irritado, quase impotente. – Ela não nos conta nada.
– Que tipo de ligações, pai?
– Ameaças. Pedidos de dinheiro. Eu mandei que deixassem minha família em paz, mas… – William soltou outro suspiro, ainda mais pesado. – Foi tudo isso que me levou a fazer o que fiz.
– Pai… você devia ter me contado.
– E dizer o quê, Spencer? – Ele balançou a cabeça, exausto. – Eu só queria protegê-la. Proteger a Deb. A Zoey. E, sim, até você. – A pausa que veio depois pareceu humana demais, vulnerável demais. – Eu fiz o que achei certo.
Spencer esfregou o rosto, dividido entre empatia e irritação.
– Mas você colocou a polícia atrás dela. – Tentou manter a voz firme, apesar da frustração evidente. – Eles podem interpretar isso do pior jeito possível. Você sabe como funciona. Eu… eu conheço as estatísticas, pai. Denúncias mal direcionadas destroem a vida de gente inocente. – Ele respirou, tenso. – A Mariah não é um… problema.
–– Ela e a Deb brigam por qualquer coisa. Você e ela vivem se provocando e, ainda assim, quando a coisa aperta, vocês se juntam para defendê-la como se eu fosse o vilão da história. – Ele soltou uma risada seca, sem humor. – A Deb quase me pôs para fora de casa esses dias. E a Mariah… – Ele hesitou, apenas um instante. – Ela tem um talento para encrenca. Sempre teve.
– Pai…
– Eu estou cansado dessas contas suspeitas, desses contracheques que não fecham, de não saber com quem ela anda. – A voz dele cedeu, tremendo um pouco. – Essas corridas ilegais são fachada, Spencer. Você sabe disso melhor do que eu. E se ela estiver se envolvendo com gente perigosa? – Ele respirou fundo, derrotado. – Ela chegou em casa machucada outro dia. Dormiu aqui por uma semana. Eu tenho a Zoe. Eu não vou expor a minha filha pequena porque a irmã acha que vive num filme.
A palavra “machucada” caiu sobre Spencer como um golpe.
– Machucada…? – Repetiu, quase sem voz. – O que aconteceu? O que ela disse?
– Nada. – William respondeu no mesmo instante, o que só piorou tudo. – Disse que caiu da moto. Aquela menina podia estar sangrando até o osso que ainda inventaria alguma desculpa para não preocupar ninguém… ou para não admitir que fez merda.
Spencer fechou os olhos, apertando as pálpebras com força. Aquilo era tão Mariah que chegava a doer.
– A questão, pai… – Spencer disse baixo, a voz cansada. – é que se essas ligações forem reais… se alguém realmente estiver atrás dela… você não devia estar lidando com isso sozinho. Nem tomando decisões no impulso. Isso não justifica colocar a Mariah na mira de uma investigação. Você não podia simplesmente… conversar com ela?
Do outro lado, William soltou uma risada seca, descrente: – Conversar? Com a Mariah? Por favor.
– É, pai. Conversar. Conceito revolucionário, eu sei.
William soltou um bufar indignado, como se tivesse acabado de ouvir a maior injustiça do mundo.
– Eu não fiz nada escondido. A Deb concordou. – O tom dele era rígido, quase defensivo. – Nós dois estamos cansados de andar em ovos por causa dela.
– É assim que você enxerga a situação? – Perguntou, cada palavra medida com cuidado para não explodir. – Como se ela fosse um fardo?
– Você está defendendo alguém que vive se metendo em atividades ilegais! Você é agente do FBI, Spencer! Como pode não ver o óbvio?
Com William Reid, era sempre assim: começava com preocupação, virava frustração, e em questão de minutos eles já estavam presos naquele ciclo que ele conhecia desde a adolescência.
– E sabe o que eu aprendi nesse trabalho? – Spencer disse, firme, embora a voz tremesse nas bordas. – Que um erro não define ninguém. A Mariah não é um caso perdido só porque não cabe dentro das suas expectativas estreitas.
– Expectativas estreitas? – William riu, incrédulo. – Minha única expectativa é que ela viva como uma pessoa normal. Ela é inteligente, bonita, tem um emprego, tem tudo para seguir o caminho certo… e mesmo assim joga tudo fora por algumas horas de adrenalina barata. Você realmente não vê que ela está se autodestruindo?
Spencer ficou em silêncio. Não por falta de argumentos. mas porque as palavras do pai atingiram um ponto que ele evitava tocar.
Ele sabia. Ele tinha visto.
Analisar pessoas era seu trabalho e reconhecer padrões era quase automático. Era impossível ignorar o modo como Mariah buscava satisfação naquele risco quase suicida dos rachas noturnos. Ele já tinha testemunhado o brilho febril nos olhos dela, assim como via a busca pela fuga, como se o perigo fosse o único lugar onde ela respirava de verdade.
E sim… uma parte dele concordava com o que o pai dizia. E era justamente isso que fazia tudo doer mais.
– Pai… – Spencer começou, mais baixo, desgastado. – Não é tão simples assim.
Ele queria explicar. Queria dizer que aquilo era mais do que rebeldia ou irresponsabilidade, que aquela busca desesperada por adrenalina era quase uma resposta automática do subconsciente dela, um escape, um sintoma. Mas antes que conseguisse formular qualquer coisa, William voltou a falar, atropelando qualquer tentativa de explicação.
– Spencer, ela apareceu na minha porta às três da manhã. Tremendo, arranhada, cheia de hematomas, dizendo que tinha caído da moto. – Ele soltou um riso curto, amargo o suficiente para doer. – Deb chorou a noite inteira. E eu… Eu só fiquei sentado no chão do corredor, sem poder fazer nada além de enfiar ibuprofeno garganta abaixo dela. Porque era tudo o que eu tinha. Tudo o que eu conseguia fazer.
Spencer fechou os olhos com força, apoiando os cotovelos nos joelhos. A mente acelerou de imediato, criando imagens que ele não queria ver.
– Eu não queria que ela fosse investigada desse jeito. – murmurou, como uma confissão arrancada de dentro de um peito apertado. – Não assim. Não… desse modo.
– Eu também não queria. – William respondeu, cansado, quase derrotado. – Mas eu não podia ficar parado vendo tudo piorar.
Spencer respirou fundo, tentando manter a voz estável, ainda que ela tremesse nas bordas.
– Eu preciso falar com ela.
Não esperou resposta. Não esperou reprovação, conselho, nada. Apenas desligou.
Discou o número dela com os dedos trêmulos. A chamada tocou duas vezes, rápidas demais para que ele se preparasse. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele falou: – Você está sendo ameaçada?
– Você falou com o William.
– Falei. – Ele não tentou esconder a irritação; ela atravessava a linha como se fosse física. – Agora responde.
– É só um cara que perdeu uma corrida para mim. Irritante, mas inofensivo. Aquele tipo de macho orgulhoso que não aguenta perder, principalmente para uma mulher. – Pausa. – Ele liga para casa da minha mãe às vezes. Um dia o William atendeu e…
– Por que é a primeira vez que estou ouvindo isso? – Ele rosnou, num tom que quase não reconheceu como seu. – Por que você nunca me conta nada?
– Porque não há nada para contar, Spencer. – A voz dela veio firme demais para alguém que dizia não se importar. – É só um cara frustrado. Um alcoólatra egocêntrico. Perdeu, ficou obcecado. Fim da história.
– E você realmente não acha que ele pode ser perigoso?
– Se eu achasse que fosse uma ameaça de verdade, já teria resolvido.
– Resolvido como? – A risada dele escapou rápida, curta, amarga demais para carregar qualquer humor. – Correndo mais rápido? Apostando a sua vida para provar um ponto? Mariah, alguém está ligando para a casa da sua mãe. – Insistiu, a voz mais baixa agora, mas carregada de urgência. – Assustando a sua família. Isso não é “nada”.
– Não é a primeira vez que acontece, Dr. Reid. – Respondeu, com uma gentileza quase condescendente. – A diferença é que agora eu não moro mais lá para encobrir ligações e bilhetinhos com ameaças de caras que não sabem perder.
A forma como ela disse encobrir atingiu Spencer como um golpe preciso. Seco. De repente, foi como se ele tivesse ouvido uma falha – uma fissura – na versão cuidadosamente polida da vida que Mariah deixava o mundo ver. E, por trás daquela fresta mínima, ele vislumbrou algo diferente: a existência de uma realidade não editada, muito mais áspera, por baixo do mundo cor-de-rosa que ela insistia em sustentar.
Fez Spencer perceber o quanto realmente sabia pouco sobre ela e o quanto isso o frustrava de um jeito quase pessoal. Não era só curiosidade profissional, nem apenas o instinto analítico que vinha com sua mente treinada. Era ele. Era o fato de que queria conhecer cada pedaço dela, até aqueles que ela escondia até de si mesma.
– Mariah… – Ele quase não reconheceu a própria voz, tão baixa que mal passou por um sussurro. – Me deixa te ajudar.
– Eu vou ficar bem, Spence. – Ele fechou os olhos. O tom dela – suave, aveludado, cuidadosamente calmo – envolveu seu peito como uma memória. Por um instante, quase pôde sentir o perfume dela, aquele leve cheiro adocicado que sempre parecia ficar em suas roupas depois que ela passava perto demais. Um silêncio breve, e então: – Te vejo no Natal?
Spencer encarou o próprio reflexo no espelho retrovisor. Os olhos estavam cansados demais, o maxilar rígido demais para alguém que deveria estar a caminho de um jantar de Natal. Soltou um suspiro longo, daqueles que pareciam esvaziar o peito por completo.
Véspera de Natal. Las Vegas. A casa do pai. E ele ali, parado dentro do carro havia minutos, como se o simples ato de não abrir a porta pudesse adiar o inevitável.
Não falava com Mariah desde aquela ligação. E, se dependesse apenas dele, continuaria assim até conseguir organizar os próprios pensamentos, porém, havia feito uma promessa. Zoe ligara dias antes, com aquela animação terna e insistente que ele nunca soubera recusar, e ele dissera que estaria lá. Que não faltaria. Promessas feitas a Zoe tinham peso de lei.
Por fim, desligou o motor e saiu do carro. O ar frio de dezembro mordeu sua pele, arrancando-lhe um leve sobressalto que o ajudou a voltar ao presente. Subiu os degraus da varanda devagar, cada passo pesado como uma decisão tomada contra a própria vontade.
Por um instante, pareceu haver ali uma última chance de recuar. Inventar uma emergência, dizer que um caso surgira, que ficara preso no trabalho. Qualquer desculpa plausível. Mas não. Ele prometera a Zoe. E não quebrava promessas feitas a ela. Nem pela própria sanidade. Nem pela presença de Mariah do outro lado daquela porta.
Especialmente por causa dela.
A porta se abriu, e Deb apareceu com um sorriso gentil. Havia algo nele que lembrava o de Mariah, mas era diferente. O de Deb era fácil, verdadeiro. O de Mariah, Spencer sabia, quase sempre vinha como uma armadura.
Do interior da casa vinham vozes abafadas, o tilintar de talheres, o cheiro quente de temperos e manteiga derretida. Um Natal em pleno andamento. E ele estava oficialmente dentro.
– Spencer! – Exclamou, suave, inclinando o corpo para o lado para deixá-lo passar. – Chegou na hora certa. O jantar está quase pronto. Como foi o voo, querido?
– Foi tranquilo. – Forçou um sorriso quando notou que sua voz saiu neutra demais, quase impessoal.
– …A Zoe vai ficar tão feliz que você veio. – Completou, baixinho.
Deb seguiu pelo corredor e ele a acompanhou. Quando chegaram à cozinha, a cena que encontrou parecia saída de um comercial: luz amarela suave refletindo nos ornamentos vermelhos, travessas alinhadas, cheiro de assado no ar.
William estava inclinado sobre a bancada, ajustando algo na travessa com uma precisão quase cirúrgica. O gesto era meticuloso demais para ser casual. Quando ergueu o rosto e encontrou o olhar de Spencer, a rigidez familiar se instalou no ar entre os dois, densa, automática. Nenhum deles teve tempo de dizer qualquer coisa.
– Spence!
A voz aguda cortou o ambiente como uma flecha.
Zoe surgiu correndo pela cozinha, o laço torto balançando no cabelo e um sorriso tão grande que parecia iluminar tudo ao redor. Spencer mal teve tempo de se preparar antes que ela se atirasse contra ele com força. Ele a ergueu no ar com facilidade. O que mais o tocava era a forma como Zoe o aceitava sem reservas. Aquela simplicidade era um alívio raro.
– Zoe! – Spencer exclamou. – Me conta, ainda está ganhando de todo mundo no Mario Kart?
– E eu ainda tenho mais estrelas do que você!
– Impressionante. – Spencer abriu a boca num choque exagerado. – Quando eu acho que finalmente posso te alcançar, você… puff. Me humilha de novo.
Ele se inclinou para ajeitar o laço torto na cabeça dela, os dedos cuidadosos, quase automáticos.
– Oi, filho. Como foi o voo? – Seu pai se aproximou, receoso.
– Tranquilo... – Ele conseguiu forçar um sorriso educado. – Quer me mostrar seu jogo novo antes do jantar?
– Dá tempo? – Zoe perguntou, lançando um olhar ansioso para William.
– Claro, claro. Vão lá se divertir. – William acenou, com um gesto distraído, já voltando a atenção para outra coisa.
Alguns minutos depois, sentados diante do videogame, a tela inicial piscava em cores vivas sem realmente chamar atenção. Zoe suspirou baixinho e, sem dizer nada, enlaçou o braço dele. O gesto foi simples, quase distraído e ainda assim suficiente para fazer Spencer virar o rosto, o olhar amolecendo antes que pudesse se conter.
– O que foi isso? – Brincou, tentando manter a leveza. – Tática secreta?
Zoe negou com a cabeça, os ombros se fechando um pouco.
– Sinto falta disso… de ter irmãos. – A frase pousou entre eles com cuidado demais para ser ignorada. Spencer não respondeu de imediato. Apenas desligou o jogo e colocou o controle de lado, puxando-a para mais perto. – Um dia eu acordei com todo mundo gritando e brigando. Depois disso… ela sumiu. – Zoe falava sem drama, como quem descreve o clima. – Às vezes ela me busca na escola. A gente toma sorvete, ela me traz em casa… mas ela nunca entra.
Spencer passou a mão pelos cabelos dela devagar, sentindo o nó se formar no peito.
– Eu… não sabia. – Disse, num murmúrio que soava metade desculpa, metade lamento. Zoe soltou outro suspiro, pequeno e cansado, carregado de coisas que ela ainda não sabia nomear. – Ei, olha para mim. Os problemas dos adultos são… dos adultos. – A voz dele era firme, mas gentil. – Você não precisa entender nada disso, tá bem? Só precisa lembrar de uma coisa: você é muito amada. Pela sua mãe, pelo William… pela Mariah. E por mim.
Zoe assentiu devagar, um sorrisinho tímido surgindo no canto da boca.
– E mais, – Acrescentou, tentando aliviar o peso. – Sempre que você ficar triste, com saudade, ou só quiser conversar… pede para sua mãe me ligar. Eu sempre vou atender você.
Zoe ergueu a cabeça, séria, como se estivesse prestes a selar um acordo importante.
– Promete?
– Prometo.
Zoe levantou o rosto, estudando-o como se aquela promessa precisasse ser memorizada.
– Você fica?
– Sempre que você quiser.
O sorriso que surgiu foi pequeno, mas verdadeiro. Ela voltou a pegar o controle.
– Então… vai perder de novo?
Mais tarde, a casa finalmente aquietou. Zoe já dormia, exausta depois de uma discussão longa e séria demais para a idade sobre a possibilidade física de renas voarem.
Spencer perdeu o argumento.
Agora restavam apenas Deb, William e Spencer na sala. Ele afundou no sofá como quem tenta diminuir a própria presença, sentindo a noite pesar nos ombros.
Tinha atravessado o jantar inteiro sem cometer nada que alguém pudesse chamar de estranho. Um feito considerável. Respostas curtas, educadas o suficiente para Zoe não captar a tensão. Evitara olhares longos, comentários desnecessários, qualquer gesto que se aproximasse demais de intimidade com o pai. Evitara tudo. Especialmente William.
Agora, na sala iluminada apenas pelas luzes intermitentes da árvore de Natal, a sensação de claustrofobia emocional aumentava.
E então o assunto inevitável surgiu.
Mariah.
– Pornô de… palhaços? – Spencer repetiu, a voz oscilando entre incredulidade absoluta e um interesse quase acadêmico diante da informação.
– Não ria, Spencer – William advertiu, sério, claramente ofendido. – Você não faz ideia do nível de humilhação que essa garota está me impondo desde que descobriu que fui eu quem a denunciou.
– Ela realmente colocou clown porn no seu correio do trabalho?
– Três caixas. – William ergueu três dedos, como se isso tornasse tudo ainda mais trágico. – Três. A recepção inteira viu. A Zoe… a Zoe achou que era material de festa infantil!
Spencer já estava segurando o riso com as duas mãos quando Deb perdeu qualquer resquício de controle. A gargalhada dela explodiu, espontânea e absurdamente contagiante. Qualquer resistência que ainda restava em Spencer simplesmente cedeu.
– E o meu número, Spencer? – William continuou, a indignação aumentando. – Você sabe quantas ligações eu recebi de gente tentando me vender pneus? Trezentas e quarenta e duas. Em duas semanas. Ninguém precisa de tantos pneus!
Spencer riu. De verdade. A primeira gargalhada daquele dia, talvez da semana inteira. Um riso solto, honesto, tão inesperado que até o pai pareceu momentaneamente desarmado pelo som.
Porque a verdade era inegável: aquilo tinha a assinatura de Mariah. Vingança indireta. Passivo-agressiva. Absolutamente infantil. E, se Spencer fosse honesto consigo mesmo… genial.
Deb ainda enxugava lágrimas de riso, tentando recuperar o fôlego. William balançou a cabeça, indignado, mas o canto da boca o traiu. Havia ali uma risada contida que ele jamais admitiria.
– Não tem graça. – Insistiu, com a rigidez de quem tenta recuperar autoridade quando ela já escapou faz tempo. – Eu poderia ter perdido o emprego por causa disso.
Spencer recostou no sofá, sentindo a risada se dissipar devagar, deixando uma suavidade estranha no peito. Havia algo quase… reconfortante na cena. Um microcosmo de normalidade que não acontecia com frequência, especialmente com o pai ali.
William respirou fundo, como se tentasse encontrar o fio da conversa adulta que havia perdido no meio das gargalhadas.
– Minha filha e eu nunca tivemos o melhor relacionamento, Spencer... – Deb começou, a voz retomando aquela serenidade suave que ela usava quando precisava que alguém realmente ouvisse. – Mas depois desses telefonemas… fiquei apavorada. A Zoe tem só sete anos, Spencer. A Mariah é uma boa irmã, mas tem seus impulsos, seus excessos. E ela sabe disso. Tanto que, desde que falamos com ela, não pisa mais aqui.
Spencer manteve o corpo rígido, embora sentisse a raiva lentamente se dissolver num cansaço profundo. Ele conhecia Mariah. Sabia, com absoluta certeza, que ela jamais colocaria Zoe em perigo, não de propósito.
William pigarreou, retomando a conversa com uma compostura ensaiada.
– De qualquer forma… – Disse, num tom mais controlado. – Andei pensando. Talvez, se eu retirar as queixas, pagar um bom advogado para ela…
– Então você a aterrorizou para nada? – A voz de Spencer subiu antes que ele conseguisse segurar. Seus olhos se estreitaram. – Qual era o objetivo?
William ergueu uma sobrancelha. Deb enrijeceu ao lado de Spencer, como se já reconhecesse o início de um incêndio.
– O objetivo, – Respondeu, com uma calma tão estudada que parecia provocação – era que as ligações ameaçadoras parassem. Tudo o que fizemos foi por Zoe. Uma criança. Você não pode me culpar por isso. Eu faria qualquer coisa para protegê-la. Fiz o mesmo por você, quando tinha a idade dela. E você sabe disso.
Spencer sentiu a raiva subir outra vez, aquele tom paternalista, como se ele estivesse sendo irracional, era um gatilho que reconhecia desde pequeno.
– Eu sei.
– Então qual é o problema agora? Queixas retiradas. Problema resolvido.
– Resolvido? Você realmente acredita nisso? – Spencer franziu o cenho, irritado. – Você afastou ela, pai. A ponto de Mariah nem entrar mais em casa por causa da Zoe. Isso é “resolver”?
– O que você quer que eu faça? Ignorar as corridas ilegais? Fingir que não há risco? Ela é adulta, Spencer. Está fazendo escolhas perigosas. Além disso, funcionou, não funcionou? – William rebateu. – As ligações pararam. Às vezes é preciso ser duro para proteger quem a gente ama.
Spencer soltou uma risada curta, amarga.
– Duro? Ah, disso você entende bem. – Seus olhos ardiam. – Lembra quantas vezes você “protegeu” a mamãe trancando-a em quartos? Quantas vezes me “protegeu” me afastando dela?
O silêncio se instalou de vez. Espesso, desconfortável, carregado do que nunca foi dito. Até Deb piscou, surpresa. William pareceu, enfim, afetado. Os dedos bateram de leve no copo, revelando a tensão que o rosto não mostrava.
– Isso foi diferente, Spencer.
– Foi? – Ele nem piscou. – Porque para mim parece a mesma coisa. Você não tenta entender. Só afasta. Só ameaça. E no fim… quem mais sofre é justamente quem você diz querer proteger.
Deb respirou fundo, como se buscasse palavras capazes de atravessar o abismo que se abria entre pai e filho.
– Eu acho que vocês dois… – Ela começou, cautelosa. – Estão machucados demais para perceber que estão tentando falar a mesma coisa.
Spencer desviou o olhar para as luzes da árvore de Natal, piscando em silêncio, festivas demais para o clima da sala. Ele queria acreditar que Deb tinha razão. William se ajeitou na poltrona, como se buscasse recuperar algum vestígio de autoridade. Ainda assim, quando falou, a voz saiu menos firme do que pretendia.
– Eu só… eu não quero perder mais ninguém. – Spencer sentiu algo se contrair dentro do peito, uma mistura desconfortável de culpa, frustração e uma pena que ele se recusava a admitir. – Eu cometi erros, fiz escolhas difíceis. E continuo acreditando que, se não tivesse tomado certas decisões no passado, sua mãe… – Ele engoliu em seco. – Vocês teriam sofrido mais.
Spencer fechou os olhos por um instante. Era sempre assim. William transformava dor em justificativa. Em regras. Em portas fechadas.
– Isso não muda o fato de que você não a viu como pessoa. Você tratou a Mariah como um problema a ser controlado. Não como alguém que dizia querer proteger.
– De quem nós estamos falando aqui, filho? – William perguntou, desviando o olhar. A voz pesava demais para ser apenas defensiva.
A pergunta caiu entre eles como um estilhaço.
Não era sobre Mariah. Nem sobre Zoe. Nem sobre denúncias, corridas ilegais ou telefonemas anônimos. Era sobre ele. Sobre a mãe. Sobre tudo o que fora empurrado para debaixo de anos de silêncio mal resolvido.
– Eu não vim aqui para fazer terapia de família nem para resolver nossas rusgas, pai. Nem para analisar nada. Vim porque… – Parou, buscando algo que não vinha. – Pela Zoe. Para tentar entender o que aconteceu com a Mariah. Para ver a Deb. E… eu não sei. – Passou a mão pelo rosto. – Não vim falar sobre a mamãe.
– Você nunca vem. – William respondeu, baixo. – Nunca. Nem quando ela piorou. Nem quando os médicos ligaram. Nem quando você… – Hesitou, a voz perdendo força – começou a carregar tudo sozinho.
Spencer fechou os olhos. Aquela conversa era exatamente o que ele vinha tentando evitar.
– Porque é simples, pai. – Respondeu, sem olhar para William, a tensão voltando a ocupar cada músculo. – Porque você foi embora. E eu fiquei.
William desviou os olhos, os ombros endurecendo como se carregassem o mesmo peso que sempre negou.
– Eu sei que você ficou. – A voz dele, dessa vez, saiu baixa, cansada. – Sei o que isso custou para você. Eu só... – Ele respirou fundo, como se tentasse alcançar algo que nunca soube dizer. – Eu não sei mais o que você espera de mim, Spencer. Não sei se quer alguma coisa. Não sei se devo insistir, tentar… oferecer mais. Ou se já é tarde demais. Eu realmente não sei.
– Pai… eu também não sei. – Disse por fim, a voz mais baixa, quase cansada. – Eu não sei o que esperar de você. Não sei o que você espera de mim. – Passou a mão pelos cabelos, inquieto, como se precisasse se agarrar a algum ponto de equilíbrio. – Eu só queria que tudo isso não tivesse saído do controle.
– Com a Mariah? – William inclinou a cabeça, atento demais.
– Principalmente. – Admitiu, soltando um suspiro frustrado. – Ela é impulsiva, ela se coloca em risco, ela… Eu só não quero que ela seja machucada. Ou que machuque a Zoe. Ou que faça alguma coisa que não possa desfazer depois.
Quando ergueu o olhar, encontrou o pai observando-o com uma atenção desconcertante. Não era curiosidade, nem afeto, era algo mais... clínico. Como se William estivesse tentando encaixar peças soltas de um quebra-cabeça que Spencer nem sabia que existia, nem que estava sendo montado.
Sem desviar os olhos do filho, William virou-se levemente para Deb: – Deb, querida… você pode nos dar um minuto?
O pedido veio polido demais para não carregar peso. Deb hesitou no mesmo instante. O olhar dela transitou de um para o outro, apreensivo. Por um momento, pareceu considerar protestar. Mas, em vez disso, soltou um suspiro baixo, resignado, e se levantou devagar.
O clique da porta ainda ecoava quando William voltou toda a atenção para o filho. O homem apoiou os cotovelos na mesa de vidro, encarando Spencer.
– Filho… – A palavra soou estranha na boca dele, quase deslocada. William respirou fundo antes de continuar. – Preciso te perguntar uma coisa. E é fundamental que você seja absolutamente honesto comigo. – O olhar do pai estava cravado nele agora, intenso, implacável, sem espaço para fuga. – Você tem alguma coisa com ela?
A pergunta veio como um golpe baixo, seco, preciso. Acertou Spencer em cheio, bem no centro do peito, roubando-lhe o fôlego por uma fração de segundo.
– Do que está falando?
– Da última vez que você esteve aqui… – William começou, ele escolhia cada palavra com cuidado. – Eu a vi saindo do seu carro. Escondida. – Acrescentou, a voz agora mais baixa. Então veio outra pausa. Desta vez, diferente. Mais curta, mais tensa. – E estava… arrumando a roupa.
– E…? – Spencer perguntou.
A palavra saiu neutra demais para a situação, quase provocativa pela ausência de defesa. William fechou os olhos por um instante, inspirando fundo. Foi nesse momento que percebeu – e isso o irritou ainda mais – que o filho não tinha negado. Nem uma vez.
– Pelo amor de Deus, Spencer… – A voz subiu, cortante, já sem disfarçar a acusação. Não era um pedido de explicação; era uma repreensão. – Ela é filha da minha esposa. – As palavras pesaram no ar como uma sentença. – O que está acontecendo com você, hã? Há alguns anos esse tipo de comportamento teria sido terrível para você mesmo. Você teria entrado em colapso. Teria surtado.
As palavras atingiram um ponto que ninguém mais tinha permissão de tocar. Elas giraram uma chave indevida e abriram um cofre abarrotado de humilhações antigas, de expectativas esmagadoras, de anos sendo observado não como um filho, mas como um problema a ser administrado. Spencer sentiu tudo voltar de uma vez: os olhares preocupados demais, as vozes baixas falando sobre ele, nunca com ele. A eterna imagem do frágil. Do quebrado.
– Engraçado você dizer isso como se ainda soubesse quem eu sou… ou como eu me sentiria sobre qualquer coisa. E já que você quer tanto falar de comportamento inadequado… quer mesmo saber o que é terrível para mim? – William tentou dizer algo, mas Spencer avançou antes que ele tivesse chance. – Terrível é você achar que tem o direito de saber da minha vida quando nunca fez parte dela. Você acha que eu vou sentar aqui e justificar com quem eu ando? O que eu faço? Quem entra ou sai do meu carro? Você não tem esse direito, nem nunca teve.
Seu rosto era apenas uma fachada precária, sustentada à força sobre uma fúria prestes a transbordar.
– Spencer, eu estou tentando...
– Tentando o quê? – Spencer cortou, seco demais, fazendo as palavras ecoarem na sala agora silenciosa. – Controlar? Julgar? Fingir que se importa, depois de anos? Está bravo porque eu não estou seguindo o seu roteiro de vida perfeita? Que surpresa. Eu nunca fui seu filho perfeito e não tenho a menor intenção de ser.
– É isso, então? – William retrucou, a voz carregada de amargor quase palpável. – Essa é a sua grande rebeldia? Está tentando provar o quê, exatamente? Me atingir? Transando com a minha enteada?
A acusação atravessou Spencer como um soco direto no estômago. O peito se fechou, como se estivesse sendo comprimido por dentro. Raiva, orgulho, dor, humilhação, tudo se misturou de forma caótica, violenta. Pela visão periférica, ele captou um movimento. Deb estava parada na entrada da sala, imóvel como uma estátua. Com um gesto brusco e carregado de violência, Spencer empurrou a cadeira para trás. Ele não olhou para William. Não conseguiu. Ignorou o olhar de Deb e se dirigiu para a saída.
– Spencer! – Deb chamou, a voz trêmula, quebrada.
Mas ele já atravessava a porta, deixando para trás o calor sufocante da casa, o peso do passado e um confronto que tinha aberto feridas antigas demais para serem fechadas naquela noite.
Ligou o motor e arrancou sem pensar. O carro ganhou velocidade enquanto o estômago dele ainda se revirava, embrulhado pela discussão pelas palavras do pai, pela própria explosão, pelo peso sufocante de tudo o que não tinha sido dito. Ele só precisava sair dali. Precisava de distância antes que perdesse completamente o controle.
O celular vibrou no console, quebrando o zumbido dos próprios pensamentos. Uma única notificação, era uma mensagem de texto de Deb.
Spencer respirou fundo e destravou o celular. O endereço apareceu na tela, seco, direto. Nenhuma mensagem complementar. Nenhuma tentativa de suavizar. Nada. E ainda assim… ele engatou a marcha.
No fundo, alguma parte dele já sabia. Ou temia saber. Ou queria saber.
Enquanto dirigia, tentou se agarrar à lógica, como sempre fazia quando tudo ameaçava sair do eixo. Talvez Deb quisesse conversar longe de William. Talvez fosse um lugar neutro, um café, algum espaço onde aquela conversa pudesse acontecer sem testemunhas. Talvez fosse algo urgente, algo prático. Talvez tivesse a ver com trabalho, com a família, com qualquer coisa que não envolvesse ela.
O GPS apitou suavemente.
Cinco minutos.
Foi isso que marcou quando ele estacionou, desligando o motor. Saiu do carro devagar. No saguão, os passos ecoavam como se ele estivesse entrando em território proibido. Aproximou-se das caixas de correio, procurando o 7. Os olhos dele capturaram o sobrenome antes mesmo que a mente concluísse a leitura.
Hernandez.
Spencer prendeu a respiração por um momento – só um momento – mas foi o suficiente para confirmar aquilo que não queria admitir.
Era o prédio dela.
Spencer ficou parado por alguns segundos, encarando o elevador como se aquilo fosse uma sentença. Pensou em voltar para o carro, ir embora, fingir que nada daquilo estava acontecendo. Mas não conseguiu. Algo o puxava para frente, mesmo contra a própria vontade.
A subida até o sétimo andar pareceu longa demais. Cada número que acendia no visor só aumentava a dúvida, a ansiedade, a expectativa que ele se recusava a admitir. Quando o elevador parou, ele caminhou até a porta dela e parou. Respirou fundo uma única vez e bateu três vezes. A fechadura girou e a porta se abriu.
Mariah surgiu na entrada. Usava uma legging preta, um suéter rosa oversized e o cabelo preso de qualquer jeito, como se tivesse amarrado no susto. Seus olhos, ao reconhecê-lo, se arregalaram em surpresa.
– Spencer.
– Oi. – A voz dele saiu mais rouca do que pretendia. Engoliu seco, os dedos contraindo-se antes de se esconderem nos bolsos do casaco. – Eu… não esperava te encontrar aqui.
– Bom… é a minha casa. – Ela arqueou uma sobrancelha, cética. Ele só conseguiu assentir, completamente fora do eixo. Interação social nunca fora seu forte e com ela, era como tentar operar um computador em chamas. Ela o observou por um instante, como se estivesse lendo todas as microexpressões que ele tentava esconder. Então suspirou, quase inaudível, e abriu mais a porta. – Quer entrar?
Ele atravessou a soleira devagar, hesitante, parando a poucos passos da entrada enquanto ela fechava a porta atrás dele com um clique suave. A casa tinha cheiro de bala de hortelã, chiclete e… o perfume doce dela. Ele olhou ao redor e não conseguiu evitar o sorriso.
O lugar era simplesmente ela. Uma mistura caótica e brilhante de unicórnios, miniaturas de carros, quadros cor-de-rosa, revistas automotivas empilhadas de maneira suspeitamente organizada, uma luminária da Barbie e pufes fofos demais para serem levados a sério.
– Então… – Uma risada escapou antes que pudesse conter. – Quando começou a fase dos unicórnios?
Mariah revirou os olhos, mas ele viu o canto dos lábios dela tremer, como se lutasse para não sorrir.
– Dr. Reid, o que você está fazendo aqui? – O olhar dela se estreitou com desconfiança lúdica. – Isso é alguma tática nova do FBI para tentar me prender? Porque eu não estou usando calcinha.
– Meu Deus, Mariah… – Ele revirou os olhos, uma risada curta escapando. Passou a mão pelos cabelos, nervoso, como se isso pudesse organizar o caos dentro dele. – Eu… honestamente, não sei. A Deb me mandou.
– A minha mãe te mandou para cá? – Ela estreitou o olhar, estudando cada microexpressão dele com precisão de sniper. – Você estava lá? Na casa deles.
– Sim. Eu estava.
– Como está a Zoe? – Ela perguntou antes mesmo que ele terminasse de falar, a voz dela rompendo o ar como um estilhaço.
Spencer piscou, surpreso pela escolha da pergunta e pela urgência nela.
– Ela está bem. Sente falta da irmã.
Mariah fechou os olhos. E naquele instante – naquele único instante – ele viu tudo. A dor abafada. Aquela parte imbatível dela… rachada.
– Eu sinto falta dela.
– Eu sei. – Murmurou. – E ela sente a sua.
Mariah desviou o olhar, encarando o chão como se ali houvesse uma resposta que ela evitava há muito tempo. Quando voltou a olhar para ele, havia um brilho úmido preso nos olhos, contido, mas impossível de ignorar.
– Mariah... – Ele franziu o cenho, dando meio passo em direção a ela.
– Não começa. – Ela ergueu a mão, não para afastá-lo, mas como quem suplica por um segundo de fôlego. – Eu sei exatamente o que você vai dizer. E sei que você tem razão em… metade dessas coisas. Mas…
A frase ficou suspensa, sem fim. Não precisava. Spencer puxou o ar devagar, tentando se recompor, e tirou a mão do bolso apenas para colocá-la de volta no instante seguinte. Desviou o olhar – rápido demais – como se qualquer outra coisa fosse suficiente para não encarar o brilho úmido nos olhos dela.
– Eu… – Ele começou, mas a voz escapou fraca demais. Respirou fundo, tentou de novo, sentindo a garganta apertada. – Tive uma discussão com o meu pai.
– Discussão? Com o William? – A testa dela se franziu de verdade, sem ironia, sem defensiva. Só preocupação pura. – Deixa eu adivinhar. Sobre… mim?
– Também. – Ele passou a mão pelos cabelos, exausto até o osso.
– Olha, eu fiz tudo o que mandaram. – Ela murmurou de repente, como se estivesse confessando um crime. A voz tão baixa que mal cortou o ar frio entre eles. – Não piso lá há meses, eu juro. Eu deixei a vida deles mais confortável. Eu desapareci.
Ele sentiu o impulso quase visceral de segurá-la pelos ombros, puxá-la contra si, dizer que ela não entendia nada, que ela era impossível de ignorar, que ninguém respirava melhor quando ela ia embora. Mas o que veio foi algo mais bruto, mais honesto. Talvez mais cruel do que ele pretendia.
– Isso não é resolver nada. – Rebateu, firme, cortante como vidro. – Você não deixou a vida de ninguém mais confortável. Você só deixou que eles te empurrassem para fora. Porque era isso que queriam.
Ela encolheu um pouco – quase imperceptivelmente – mas o bastante para ele sentir a pontada de culpa. Os olhos dela continuaram baixos, fixos em algum ponto no chão.
– ...Funcionou, não funcionou? – Sussurrou, a voz tão quebrada que o fez prender a respiração. – Eles não me querem lá. Então eu saí. Só isso.
Ele inspirou fundo, lutando contra a vontade de desfazer o que tinha acabado de dizer, mas também sabendo que precisava continuar.
– Quer saber qual foi a primeira coisa que a Zoe me disse quando cheguei?
A pergunta caiu entre eles como uma pedra. Não era nada do que ela esperava. Uma pontada de culpa atravessou Mariah. Ela tinha passado dias se convencendo de que estava fazendo o certo, que estava protegendo a família, que se afastar era o caminho menos danoso. Nunca tinha parado para pensar no impacto disso do outro lado.
- Não. – Ele viu a culpa nos olhos dela, a forma como ela desviava o olhar, como se não tivesse coragem de ouvir a resposta. Ela respirou fundo, tentando afastar a vontade súbita de chorar. – Te contaram sobre as ligações com ameaças? Você acha justo que a Zoe tenha que viver assim?
– Nada disso é justo, mas se afastar não faz as ligações pararem, Mariah. Só significa que a Zoe também vai te perder.
Ela fechou os olhos por um instante, como se aquelas palavras fossem uma flecha certeira. Ele sabia que eram.
Os punhos dela estavam cerrados sobre o colo quando ela murmurou: – Eu estava tentando fazer a coisa certa. Por eles.
– Ela achou que você estava brava com ela. Perguntou se você ainda a amava.
– Eu… – Ela respirou fundo. – Eu nunca deixaria de amar ela. Nunca.
– Mas ela não sabe disso. Ela é apenas uma garotinha, cuja irmã que parou de aparecer. – Ele hesitou por um segundo. – Porque você sumiu. Porque todo mundo aprendeu a achar normal te afastar. Como se você merecesse isso.
Ela balançou a cabeça, derrotada.
– Eu só não queria que ela sofresse por minha causa.
– E sofreu. Do mesmo jeito. Só diferente. – Ele esfregou o rosto, exausto. – E antes que você pense… eu não fui lá feliz. Meu pai estava impossível.
– O que ele fez?
– William Reid, – Disse, com um cansaço que parecia vir de anos, não de horas – mais uma vez tentando ser um pai presente para o filho depois de… sei lá, vinte e seis anos? A
Ela arqueou a sobrancelha, sem sarcasmo, só preocupação disfarçada.
– Isso… soa divertido. – Murmurou, mas a suavidade escapou antes que ela conseguisse contê-la. – Ele tentou o quê? Dizer que te conhece? Que sabe o que é melhor para você agora?
– Deixou no ar que eu virei um irresponsável. Que estou fazendo escolhas idiotas porque… porque você existe na equação. E não foi porque ele se preocupa comigo. – Acrescentou, a voz mais baixa, mais amarga. – Foi porque qualquer coisa que não esteja perfeitamente alinhada com o que ele imagina que eu deveria ser… é uma falha.
– Olha, não me entenda mal. – Ela começou, escolhendo as palavras com cuidado. – Eu e o William nunca fomos exatamente aliados, você sabe disso. Mas… em algumas coisas, eu acho que ele estava certo. Ele fez o que fez tentando proteger a família. E talvez... – A voz dela baixou quase sem perceber. – talvez essa raiva toda que você carrega não seja só por minha causa.
Ela manteve o olhar nele por alguns segundos. Bastou para desestabilizá-lo, como se ela tivesse tocado num ponto que ele evitava há anos.
– E-eu não acho que… – Ele tentou dizer, mas a frase morreu antes de ganhar forma.
– Você não precisa ficar bravo com ele para sempre, Spencer. – O tom dela era suave, quase cansado. – Guardar isso tudo… é exaustivo.
Sentia o peso do olhar dela sobre si e pensou, num insight amargo, que devia ser assim que os interrogados se sentiam: invadidos, expostos.
– Enfim… – Ele finalmente quebrou o contato visual, girando levemente no assento como se buscasse um refúgio, qualquer coisa para sair daquele foco intenso que ela mantinha sobre ele. – Quer me contar tudo o que aconteceu, então?
Mariah estalou a língua, revirando os olhos levemente.
– Foi só uma aposta idiota. Eu ia pagar. – Ela balançou a cabeça, frustrada. – Foi uma aposta com um cara chamado Tommy... – Ela começou, revirando os olhos como se até falar o nome do sujeito já fosse irritante. – Um cara que costumava andar comigo. Ele perdeu e teve que me dar o carro e o dinheiro dele. Foi uma aposta limpa e se ele estivesse realmente comprometido com nossos princípios, nada disso teria acontecido. Mas ele ficou obcecado. Mas eu já resolvi a situação.
Spencer quase riu. Quase. A combinação de caos e autossuficiência dela era, às vezes, simplesmente absurda.
– O que você fez?
Ela se remexeu. Cruzou os braços. Evitou o olhar dele. O que, claro, significava que era exatamente o tipo de história que ele não queria ouvir.
– Eu… olha, não importa. Está resolvido.
– Mariah. – Insistiu.
– Devolvi o carro dele, o dinheiro… e dei o meu. – Ela tentou soar indiferente, mas a tristeza escapou pelas frestas, colando-se a cada palavra. Ele sabia o que aquele carro significava. Sabia que ninguém simplesmente entregava algo assim sem estar desesperada. Spencer esfregou a testa, incrédulo. – Eu só estava tentando assumir a responsabilidade…
– Você não tem nenhum senso de autopreservação, não é? Você simplesmente se joga de cabeça em qualquer situação que pode te machucar. Você não pensa nas consequências e você…
Ele não conseguiu terminar. Porque, de repente, ela estava batendo nele com um bicho de pelúcia.
– Qual é o seu problema?! – Ela gritava, desferindo golpes indignados com a criatura felpuda. – Você entrou na MINHA CASA, sem avisar, sem NADA, e AGORA quer falar de responsabilidade?!
Ele soltou um som entre um grunhido e um suspiro exasperado, mas não tentou se defender. Não desviou. Só quando o bicho veio na direção de seu rosto pela terceira vez ele agarrou o pulso dela, firme, impedindo o próximo ataque.
– Pare de tentar me bater com essa… essa… COISA!
– Não é “uma coisa”! É O BIBBLE!
Ela puxou o brinquedo de volta com veemência quase ofendida. Ele piscou. Uma vez. Duas.
– O quê?
– Bibble. Amigo da Barbie Fairytopia.
Spencer encarou a cena. E então… desmoronou em risos. Uma risada baixa primeiro, depois mais forte, até ele se curvar, as mãos no rosto.
– Bibble. – Spencer repetiu, com um meio sorriso que denunciava a diversão. Ele estendeu a mão e puxou o brinquedo dela, estudando a bolinha roxa e turquesa como se fosse uma evidência de crime.
– Me devolve. – Exigiu, estendendo a mão, tentando parecer severa. A seriedade, no entanto, morria brutalmente no ar toda vez que o nome do maldito bicho ecoava na cabeça dela. Bibble.
– Não. – A voz dele estava carregada de provocação. – Acho que vou mantê-lo como refém até você admitir que fugir dos seus problemas é a ideia mais idiota que você já teve.
– O que você quer que eu faça? Parar de ir às corridas? Não é uma opção.
– Talvez não ser uma viciada em adrenalina?
Ela revirou os olhos tão forte que quase viu o próprio cérebro. Afundou no sofá, soltando um suspiro que carregava uma exaustão e, talvez, um imperceptível reconhecimento de que ele estava certo.
– Você não entende, tá? – Murmurou. – Toda vez que eu corro… – Ela hesitou, os ombros subindo e descendo. – É a única coisa que me faz sentir viva. – Ela desviou o olhar, encarando teimosamente a parede atrás dele, como se confessar aquilo já fosse vulnerabilidade demais. – E eu sou boa nisso, Spence. Você me viu correndo, não viu? Toda vez que eu entro naquele carro é como se…
As palavras falharam, porque explicar aquilo era impossível. Correr não era só correr. Era sentir o mundo calar. Era respirar.
– Você é muito boa nisso. – Murmurou, como se admitisse contra a própria vontade. Um sorriso pequeno nasceu nos lábios dela, mas carregado de orgulho. – Você é a pessoa mais controversa que eu já conheci. Corridas ilegais. Barbie. Bibble. Como isso faz sentido? – Comentou, rindo levemente. – Você é uma figura, Mariah.
Ela se virou um pouco mais para ele, apoiando o ombro no encosto, permitindo que seus joelhos se encostassem aos dele num movimento tão natural quanto perigoso. E o observou. O jeito como ele tentava segurar o sorriso. O brilho nos olhos quando ela o desafiava. A leve tensão no maxilar sempre que ela fazia alguma coisa fofa ou absurda (o que, para ele, parecia ser a mesma coisa).
Um sorriso pequeno – traidor – curvou seus lábios antes que ela pudesse impedir.
– Eu sei que você gosta.
Ele arqueou uma sobrancelha, erguendo o Bibble entre os dois como se aquilo fosse um escudo emocional improvisado.
– Do Bibble? – Ironizou, escolhendo a rota mais segura.
Ela riu baixinho ao notar a tensão na mão dele.
– Admita, Spencer. Você acha que ele é a coisa mais fofa que já viu.
– Você é a coisa mais fofa que eu já vi.
A frase escapou rápido demais. Sem filtro. Sem freio. Um pensamento íntimo, arrancado pela sinceridade do momento antes que ele pudesse esconder.
O sorriso dela murchou devagar, como se o mundo tivesse desacelerado para que ela sentisse cada detalhe. Ele piscou, surpreso consigo mesmo. “Eu falei isso?”, pensou, mas não recuou. Não mascarou com sarcasmo. Não tentou transformar em piada.
Ela odiou aquilo. Odiou como aquilo a afetou. Porque não era a resposta evasiva que esperava. Nem a provocação habitual que sempre trocavam.
Por um instante eterno, ele também ficou paralisado. Foi sincero. Completamente e vulneravelmente sincero. E brega. E totalmente inesperado. E dito com uma suavidade que fez algo dentro dela estremecer de um jeito perigoso. Então, algo dentro dele cedeu. Um canto de sua boca se ergueu, não em uma risada de escárnio, mas em um sorriso leve, quase desprevenido.
– É verdade. – A confirmação saiu em um sussurro rouco, carregando o peso da admissão. Ele estendeu o Bibble para ela, um gesto de trégua oferecido junto com a verdade. – E ele sabe que é o segundo colocado.
– Que bom. – Ela sussurrou, a voz um fio de som no espaço íntimo que se formara entre eles. – Não estou acostumada a ficar em outra posição que não o primeiro lugar.
– Você sempre quer competir por tudo, não é? – Ele então soltou um riso nasalado, tenso, quebrando o feitiço. Baixou o olhar para as próprias mãos, como se envergonhado daquela breve abertura. E então, num movimento quase visceral de autodefesa, como quem arranca um band-aid, despejou: – Meu pai perguntou se eu… se eu tinha alguma coisa com você.
Ela arregalou os olhos.
– O QUÊ?!
– Ele perguntou se eu… – Spencer engoliu seco, a hesitação durando um segundo que se alongou em agonia. – …se eu estava transando com a enteada dele.
Mariah abriu e fechou a boca repetidamente, sem emitir som.
– Ele… ele realmente...?
– Sim.
– Ele perguntou dessa forma...?
– Sim, Mariah. Com estas palavras.
– Ele é um psicopata. – A condenação saiu em um sussurro carregado de fúria. Ela se endireitou no sofá, a indignação inflando seu peito. – Um psicopata completo! Como ele tem a audácia de...?!
– Eu respondi que não tinha nada acontecendo.
– Ah. – Foi tudo o que conseguiu articular, a sílaba soando pequena e decepcionada no silêncio pesado. – E de onde seu pai tirou isso? – Ela demandou, cruzando os braços com força sobre o peito.
– Aparentemente… – Ele começou, como quem arranca um curativo devagar demais. – …ele nos viu. No meu carro. – Uma pausa pesada, quase dolorosa. – Estacionado. Naquela… naquela vez em que você… enfim. Aquela vez.
– Ah, aquela noite. – Ela arqueou as sobrancelhas, como quem cutuca uma ferida propositalmente. – Quando eu te beijei, você retribuiu e, de repente, suas mãos estavam… – Ela fez o gesto com a palma aberta diante dos próprios seios, imitando descaradamente o movimento dele, e soltou uma risadinha que era pura provocação.
Ele deixou escapar um gemido abafado, enterrando o rosto nas mãos. Vergonha. Exasperação. E, por baixo de tudo, um desejo reacendendo com força. Claro que ela ia escolher justamente essa parte. A parte que fazia os dois queimarem de novo.
– Mariah, a gente pode não... falar sobre isso? – Murmurou, a voz soterrada pelas próprias mãos.
Ela riu e se recostou no sofá, estudando cada centímetro de reação dele.
– Você podia ter dito “não sei”, pelo menos.
– Ele não teria parado até enquadrar tudo numa narrativa que fizesse sentido para ele. Era mais fácil dizer um “não” limpo e encerrar ali.
– Então você mentiu. – Um meio sorriso torto surgiu nos lábios dela. – Tsc, tsc... Dr. Reid.
Ele riu baixinho e bateu o ombro no dela, como se precisasse de um segundo de leveza antes de mergulhar no que vinha a seguir. Inspirou fundo, recostando-se no sofá, os olhos perdidos em algum ponto do carpete.
– Sabe… a minha vida inteira eu fui uma decepção pro meu pai. – Nada na voz dele soava dramático; era só desgaste acumulado. – Nunca gostei de esportes, era o nerd que apanhava… o filho com um leve espectro autista de uma mulher esquizofrênica. E por mais absurdo que pareça… eu juro que ouvi um toque de orgulho na voz dele quando me acusou de estar “transando” com você.
A expressão dela se suavizou, quase imperceptível. Ela ficou em silêncio, observando-o como quem lê entrelinhas antigas. Tinha frustração ali. Mágoa. Um cansaço que não combinava com alguém tão jovem.
– …Pelo menos você tem um gosto impecável.
Ele não conseguiu impedir o sorriso rápido, involuntário.
– Você é impossível. – Murmurou, balançando a cabeça.
Ela se aproximou ainda mais, apoiando o braço no encosto do sofá, quase cercando o espaço atrás dele.
– No primeiro jantar, quando minha mãe o apresentou para mim e para Zoe, ele falou de você o tempo todo. – Revirou os olhos, lembrando. – Foi meio irritante, na real… ver ele se gabando do filho perfeito. Mas aí eu te conheci, – Inclinou a cabeça, avaliando-o com uma sinceridade desconcertante – e tudo fez sentido.
Ele soltou um som que era metade resmungo, metade defesa automática. A imagem do pai se gabando dele provocava um incômodo estranho… e um calor que ele se recusava a nomear.
– E que tipo de coisas impressionantes ele falou sobre mim? – Murmurou, tentando soar distante, mas o sorriso teimava em puxar os cantos da boca.
– Ah, você sabe… – Ela sorriu como se saboreasse cada segundo do fato de que ele estava, sim, curioso. – Que você é um agente gênio do FBI, fala uns doze idiomas, provavelmente consegue desarmar uma bomba enquanto resolve um cubo mágico de olhos vendados… - Ela o encarou de cima abaixo, lenta, calculadamente. – Aí eu te conheci e pensei… uau, não era exagero.
Ele revirou os olhos, mas era inútil fingir indiferença. O calor subiu ao rosto. Ele culpou a luz do abajur. Ou o Bibble, sei lá. Porque ela o olhava daquele jeito e ninguém nunca tinha olhado para ele daquele jeito.
– Spence, eu tenho minhas queixas e reservas em relação ao William, você sabe. – Ela começou, enrolando distraidamente os dedos no tecido macio do próprio moletom. – Ter um padrasto não estava exatamente no meu planejamento de vida, mas… ele está tentando. De verdade. E eu acho que você podia, sei lá… dar uma chance para ele também.
– …É, – Murmurou, com uma resignação tímida. – Eu sei.
– E talvez… deixar a Mariah viver a vida dela? – Completou, arqueando as sobrancelhas de um jeito leve, tentando puxar um humor amigável para o assunto.
A reação foi instantânea. Ele bufou, revirando os olhos como se ela tivesse acabado de sugerir algo abominável.
– Participar de corridas ilegais não é “viver a vida”. É irresponsável. É perigoso. – A voz dele não vinha carregada de irritação, mas de uma preocupação crua, quase transparente, que ele tentava mascarar com aquele tom professoral que sempre usava quando não sabia como lidar com o que sentia.
– Obrigada por vir me ver hoje. – Ela queria provocar, queria cutucá-lo só para vê-lo irritado de novo… mas, em vez disso, ficou apenas olhando para ele, sentindo o peso de tudo aquilo bater num lugar muito mais fundo do que pretendia admitir.
– Eu não vim. – Ele retrucou imediatamente. – Sua mãe me obrigou.
– Você ainda veio, não é? – Ela revirou os olhos. Claro que ele jamais apareceria ali por vontade própria.
– Não significa que eu queria. – Ele resmungou, baixo demais para soar convincente. – Na verdade, eu nem sabia que essa era a sua casa até…
– Ei! – Ela o interrompeu com uma risada, esticando o pé para acertá-lo de leve.
Ele segurou a perna dela antes que o chute chegasse. O gesto foi rápido, instintivo. O aperto, firme o suficiente para mantê-la imóvel. Ela bufou, teatral, mas não puxou a perna de volta.
– Eu acho que, no fundo, eu sabia para onde estava vindo. – Uma pausa. E então, num suspiro quase imperceptível: – Ou para quem.
Ele soltou a perna dela devagar, os dedos deslizaram por um segundo a mais do que o necessário e ambos notaram.
Tentando recuperar um mínimo de compostura, Spencer limpou a garganta e desviou o olhar pela sala. Era a primeira vez que realmente via o lugar.
– Então… essa é a sua casa. – Ele murmurou, mais para si do que para ela. – Eu sabia que seu apartamento seria exatamente assim.
– Assim como?
Ele percorreu o ambiente com o olhar: a luz quente; o caos organizado; Barbies por todos os lados; glitter nas prateleiras; almofadas rosas; peças de carro; uma jaqueta de corrida jogada sobre uma poltrona; luzes de LED disputando espaço com enfeites infantis.
– Você vive num sonho febril da Lisa Frank.
– E você deve morar dentro de um catálogo de material de escritório. Daqueles de empresa falida.
– Há alguma história por trás disso? – Perguntou ele, a voz mais suave do que antes. – Os carros. As Barbies. As corridas…
– Eu estava entediada no ensino médio. – Respondeu sem pensar, sem aprofundar. Ele percebeu na mesma hora. Spencer inclinou um pouco a cabeça, aquele jeito clínico de observá-la, como se estivesse decifrando o movimento interno de placas tectônicas. O olhar dele sempre chegava mais fundo do que ela gostaria. Ou do que conseguia suportar. – O que você quer que eu diga? Que eu era uma garota perdida tentando sentir alguma coisa? Que correr era o único momento que tudo parecia... bom? Porque é isso. Também. – Ela desviou o olhar imediatamente, como se olhar para ele fosse perigoso demais. – E quanto às Barbies… Eu sempre amei. Minha mãe me dava uma por mês. Era nosso ritual.
Por alguns segundos, ele ficou apenas olhando para ela, deixando que cada detalhe daquela confissão se assentasse.
– A Barbie é o ícone cultural mais influente do século XX. – Respondeu em tom neutro, quase acadêmico, mas com aquele calor escondido que sempre escapava quando ele queria ser gentil. – Então eu acho que não posso te culpar.
Esse foi o jeito dele de dizer: Eu ouvi você. Até o que você não disse.
Ela respirou, fechando os olhos por um segundo – um piscar lento, quase imperceptível –, como se estivesse recebendo um gesto de cuidado que não sabia como segurar.
– Quero te mostrar uma coisa. Vem cá. – Ela entrelaçou os dedos nos dele com uma naturalidade que a denunciava, puxando-o pela mão sem pedir permissão, sem hesitar.
Ele lançou-lhe um olhar desconfiado, estreitando os olhos como quem examina minuciosamente uma cena de crime, avaliando cada possível implicação escondida ali. E, enquanto o arrastava pelo pequeno corredor, ele finalmente percebeu: Eles estavam de mãos dadas.
Spencer baixou o olhar para as mãos entrelaçadas, como se observasse um fenômeno raro que contrariava todas as estatísticas conhecidas. A palma dela quente contra a dele.
Spencer Reid não tocava em mãos. Nunca. Contato físico era… complicado. Invasivo. Imprevisível. Entretanto, a mão dela envolvendo a sua não o perturbava nem de longe tanto quanto ele esperava que perturbasse. Na verdade, o fato de estar tudo surpreendentemente calmo era o que mais o deixava desnorteado.
– Isso é… digno de estudo. – Ele disse, inclinando a cabeça diante da vitrine iluminada por um tom de rosa artificial. A luz suave e teatral realçava fileiras de Barbies dispostas com uma precisão quase cirúrgica, algumas tinham até pequenas etiquetas descritivas. – Não imaginava que você fosse do tipo que mantém qualquer coisa em perfeito estado.
– Sou destrutiva apenas comigo mesma. – Ela respondeu com um dar de ombros leve, quase casual.
Spencer se aproximou do vidro, inclinando o rosto com a mesma concentração que dedicaria à análise de um padrão comportamental complexo. Seus olhos escanearam prateleira por prateleira, até pousarem em uma boneca específica: uma boneca Barbie de cabelos castanhos e roupas rosas.
– …Essa aqui é para ser você?
– É a mais importante. – O sorriso dela mudou naquele instante. Nada de provocação, nada de malícia. Era íntimo, quente, quase vulnerável. – A Zoe customizou para mim.
Algo no rosto dele suavizou antes que pudesse impedir.
Claro que era da Zoe. Só ela teria a mão firme e delicada o bastante para não transformar aquilo em um experimento desastroso. Ele se inclinou mais, observando os pequenos acabamentos, os brilhos minúsculos, o cuidado microscópico de uma criança concentrada.
– Hum. – Ele pigarreou, tentando puxar de volta a própria neutralidade. – Então você está me dizendo que a Zoe tem mais atenção aos detalhes do que metade da minha equipe forense?
– Ela é uma pessoinha especial. – Mariah riu leve, com orgulho vibrante na voz.
– Ela vai virar sua miniatura. Mini-Mariah. Causando confusão, acelerando por aí, colecionando coisas brilhantes.
– Não! – Ela riu alto, empurrando o ombro dele. – Zoe não é nada parecida comigo. Ainda bem! Ela é tão segura, tão… saudável. Ela é madura demais para uma criança de sete anos.
– Ela tem mais inteligência emocional do que a maioria dos adultos que eu conheço. – Virou-se para ela, mirando-a com um olhar direto, óbvio. – Inclusive alguns que colecionam Barbies e participam de rachas ilegais.
– Ei! Eu não sou tão ruim assim! – Ele a encarou por três longos segundos. Três segundos silenciosos, densos, julgadores. Ela corou imediatamente. – Eu sou perfeitamente equilibrada! – Insistiu, ofendida e… não muito convincente.
Ele soltou um riso curto pelo nariz, com aquele hnf carregado de sarcasmo que dizia absolutamente tudo.
– Ah, claro. – Ele fez um gesto amplo, quase teatral, englobando o quarto inteiro: as Barbies, o brilho espalhado, o caos colorido que parecia pulsar ao redor dela. – A mulher que ultrapassa o limite de velocidade sem piscar, coleciona bonecas, dorme coberta de glitter e vive caçando o próximo pico de adrenalina. Equilíbrio perfeito.
– E você é o rei do equilíbrio, é isso?
– Eu sou um agente federal. Sei me conter. – Ele deu de ombros, como se estivesse apenas enunciando um fato científico.
Mariah avançou um passo.
– Não é possível.
– O quê? – Ele ergueu os olhos, desconfiado.
– Que a sua vida seja tão equilibrada assim… – Ela cruzou os braços, inclinando o rosto com um sorriso que já anunciava encrenca. – Que o ponto alto dela tenha sido quando você agarrou sua meia-irmã no carro.
Ele parou. Literalmente parou. Como se tivesse sido apertado o botão de pausa no Spencer Reid.
– Eu não… – Ele abriu a boca, fechou. Repetiu o processo, claramente lutando contra o próprio cérebro. – Isso não... – Ela deu um passo à frente, inocente apenas na superfície. Quase podia se ouvir o ding de alerta interno dele. – Podemos não falar sobre isso?
– Por que não? – Ela inclinou a cabeça, se aproximando um pouco mais, só para testar os limites dele. – Com medo de eu comentar que você não me afastou? Ou talvez… – Ela deslizou o dedo pela própria clavícula, teatral, divertida. – lembrar como sua mão foi parar exatamente aqui?
Spencer fez o que qualquer gênio emocionalmente despreparado faria: endureceu inteiro. O olhar dele vacilou desastrosamente entre pânico, culpa… e outra coisa que definitivamente não o ajudava.
– Por que você não me parou, Spence? – A pergunta veio suave demais para ser inocente, embalada por um sorriso que sabia exatamente onde pressionar para doer.
Ele não desviou o olhar.
– Porque eu… sou destrutivo. – Houve uma pausa mínima, quase um desafio. – Comigo mesmo.
Ela piscou devagar. A surpresa não veio só da admissão, mas do eco perfeito das palavras que ela mesma havia usado minutos antes. E então riu. Não a risada afiada de quem provoca por esporte, mas algo mais baixo, quase vulnerável.
– Você não devia dizer coisas assim… – Murmurou, e pela primeira vez na noite, foi ela quem quebrou o contato visual, olhando para as próprias mãos como se estivessem segurando algo precioso e frágil. – É quase fofo. De um jeito… completamente torto.
– Fofo? – Repetiu, como se a palavra fosse um código que ele não conseguisse decifrar. – Admitir uma tendência à autodestruição é… patologicamente preocupante. É um sinal de alerta.
– Quando vem de você? – Ela encolheu os ombros, um movimento deliberadamente casual, e fechou a distância em meio passo. – Um pouco, sim.
Ele travou e essa foi a deixa que ela esperava. Mariah avançou, sem pressa, como uma maré subindo. Spencer sentiu o cheiro dela impregnar seus pulmões, uma memória visceral que sempre precedia o caos. Instinto puro o fez recuar um passo, as costas encontrando a parede fria do corredor. Ela simplesmente acompanhou o ritmo, fechando a distância novamente. Um passo de dança macabro que ambos conheciam muito bem.
– Acho que você não é tão destrutivo quanto pensa que é.
– É uma afirmação emocional, não factual. Baseada em viés de confirmação. – ele contra-atacou, agarrando-se à lógica como um náufrago a um pedaço de madeira. Sua voz soou metálica, forçada.
– Não. – A negação dela foi suave, mas absoluta, cortando através de suas defesas como uma lâmina quente na manteiga. – É uma observação. O que você é, Spencer, é apenas humano. Frágil. Com falhas. Como todo mundo.
Seus dedos subiram, quase sem que ela olhasse para eles. O primeiro botão de sua camisa, de plástico simples, sob o toque dela. Ela não o desabotoou. Apenas colocou a ponta do dedo indicador sobre ele, pressionando levemente. Foi um teste. Um experimento.
Ela ergueu o olhar, capturando o dele. Nos seus olhos, havia um entendimento profundo, quase íntimo, do efeito que causava.
– Viu? – A voz dela era um murmúrio hipnótico. – Ainda inteiro.
O botão? Seu frágil autocontrole? O seu coração que ele jurava estar em frangalhos?
– Eu não… não quero complicar as coisas, Mariah. – Disse, a voz baixa, como se estivesse tentando convencer a si mesmo mais do que a ela.
Ela não respondeu de imediato. Em vez disso, inclinou-se para a frente, anulando o pouco espaço que ainda os separava. O rosto dela ficou a um sopro do dele. Perto demais.
– Posso te contar um segredo? Eu não tenho vergonha nenhuma de admitir que estou morrendo de vontade de sentir você me beijando de novo. Daquele jeito. - Algo cedeu dentro dele. Não foi um rompimento súbito, mas um estalo profundo, como uma fissura que se abre depois de anos sob pressão. O olhar de Spencer se transformou; as pupilas se dilataram, engolindo a cor dos olhos. A respiração, antes medida, falhou. Nos olhos de Mariah, acendeu um brilho de vitória selvagem. Ela sorriu, lenta e deliberadamente. – Demorou demais.
E então ela recuou um passo, um gesto calculado de provocação, acreditando ter o controle, acreditando que ele ainda hesitaria. Entretanto, ela havia subestimado.
Ela subestimou o instinto lapidado por anos no FBI: a reação imediata diante de qualquer ameaça, perigo ou provocação que exigisse resposta. Reflexos treinados, decisões tomadas no limite do tempo.
A mão dele se moveu antes que o pensamento se formasse. Os dedos se fecharam com firmeza em torno do pulso dela. Com um puxão único e preciso, ele a trouxe de volta contra si. O ar escapou dos pulmões dela num fôlego curto, os olhos se abrindo em surpresa real.
Não houve tempo.
Spencer já estava se inclinando. Já estava cedendo ao que vinha tentando negar desde o momento em que atravessara aquela porta. Então os lábios dele encontraram os dela. O beijo veio carregado, urgente, sem delicadeza ensaiada.
E, naquele instante, complicar as coisas deixou de ser uma escolha.
Os lábios dele encontraram os dela num beijo duro e urgente, carregado de tudo o que ele tentara negar naquela noite. E em tantas outras.
Ela retribuiu o beijo com a mesma voracidade, como se estivesse esperando por aquele momento tanto quanto ele. As pernas dela se enroscaram em sua cintura, puxando-o para perto com uma força que não pedia, mas exigia.
O som dos beijos, molhados e desordenados, preencheu o quarto, misturando-se aos gemidos baixos que escapavam sem controle. Tudo parecia quente demais, próximo demais, intenso demais e, ainda assim, insuficiente.
Em algum momento, Mariah parou, mordeu o lábio inferior, o olhar nublado por um breve instante de dúvida – ou talvez de triunfo – antes de levar as mãos ao suéter e puxá-lo para cima, num movimento fluido e decisivo.
Spencer congelou.
Prendeu a respiração quando o tecido foi retirado, revelando a pele lisa e luminosa dela na claridade do quarto. Seu olhar foi capturado, incapaz de se desprender. As mãos dele tremeram onde repousavam em sua cintura, e um suspiro rouco escapou quando a realidade o atingiu em cheio.
– V-você… – Gaguejou, sentindo mais nerd e idiota do que nunca. – Você não precisa... – Ele suspirou, tentando lembrar que já era um homem de trinta anos. Ele encostou a testa no colo dela, as palavras saindo em um sussurro frágil, quase quebrado. – Tem certeza disso? Porque eu não faço a mínima ideia.
– Olha para mim. – Ela pediu, segurando o rosto dele entre as mãos. O polegar deslizou pelo lábio inferior dele com uma delicadeza que contrastava com a fúria dos momentos anteriores. – A gente pode parar se você não estiver confortável… – Ele engoliu em seco e negou com a cabeça, rápido demais, quase desesperado. – Então, não para. – Mumurou, descendo os lábios roçando o queixo dele antes de descerem pelo pescoço. – Olha pelo lado bom… todo mundo já acha que nós… como é mesmo que seu pai disse?
– Que eu estava… transando com a minha meia-irmã. – Respondeu, seco. – O que é completamente exagerado.
Ela riu contra o pescoço dele. O riso virou uma mordida leve, carinhosa, mas claramente uma resposta à mentira óbvia.
– É… – Murmurou, divertida. – Mas acho que é exatamente isso que você vai fazer agora.
Ela segurou a camisa dele pela gola e o puxou consigo até a cama. Spencer caiu sobre ela sem resistência, chegando naquele lugar onde a razão terminava e o desejo, finalmente, assumia o controle.
Era véspera de Natal e a casa parecia respirar um aconchego raro, aquele tipo de calor silencioso que só se forma uma vez por ano. O aroma ainda quente do jantar pairava no ar, misturado ao cheiro doce que escapava do forno toda vez que alguém passava perto.
Spencer tinha acabado de jantar com o pai, com Deb e com a garotinha, e agora estava na cozinha, as mangas arregaçadas até o cotovelo e os dedos já enrugados de tanto mergulhar na água quente. Havia algo estranhamente apaziguador naquele gesto simples: empilhar pratos, ensaboar, enxaguar, ouvir o som ritmado da água batendo nos talheres como se fosse um metrônomo tentando regular o caos dentro dele.
A cada prato limpo, ele sentia a mente tentar se aquietar, mas ela sempre voltava para a noite anterior. Para ela.
Ele afastou a lembrança com um esforço quase físico e se obrigou a focar no presente: o brilho opaco da louça molhada, a toalha pendurada no puxador do forno, o cheiro doce que continuava a escapar, a risada leve de Zoe vinda da sala, misturada ao som baixo de um especial de Natal na TV.
Não era a primeira véspera de Natal que ele passava longe de sua mãe. Aquilo, infelizmente, já tinha deixado de ser novidade há muitos anos. Mas era a primeira que ele passava longe dela por estar com o pai. E isso, por si só, deixava um peso estranho no peito.
Pior ainda: era o primeiro Natal com o pai desde que ele tinha doze anos de idade.
Estar ali, na cozinha iluminada por lâmpadas mornas, enxugando pratos enquanto ouvia Zoe cantarolar uma música de Natal desafinada na sala… era quase surreal. Uma espécie de segundo início. Uma tentativa tardia de normalidade.
– Spence. – Deb se aproximou, secando as mãos no pano de prato. – Você recebeu minha mensagem ontem à noite, certo?
– Recebi, sim. – Ele arqueou uma sobrancelha. – Por quê?
– E então? Você foi lá? Encontrou a Mariah? Ela vem hoje à noite?
O corpo dele ficou rígido, apenas um pouco, apenas o suficiente para quem sabe observar. E Deb sabia. Ela o encarava com aquela perspicácia irritante, quase clínica, como se estivesse lendo cada microexpressão que ele tentava esconder.
– E? – Ela inclinou a cabeça, o sorriso se abrindo ainda mais. – Ela não recusou o convite para jantar… recusou?
Ah. Então era por isso que Deb tinha o mandado à casa de Mariah na noite passada. Para ver se ele conseguia convencê-la a participar do jantar da véspera de Natal.
E não para… aquilo que acabou acontecendo.
A constatação caiu sobre ele com um peso quase físico, acompanhada pelas lembranças que vieram como descargas, abruptas e inevitáveis: a pele macia sob seus dedos, a respiração quente dela em seu pescoço; aquele som baixíssimo – mas devastador – que escapara de sua boca quando ele a tocou mais fundo.
– Ela disse que viria… – Respondeu, a voz baixa, engolindo em seco enquanto pausava, como se precisasse alinhar cada palavra antes de deixá-la sair. – Mas você sabe como sua filha é.
– É. – A voz saiu mais baixa, mais rouca do que ele pretendia. – Ela é… imprevisível. – Deb ergueu uma sobrancelha, estudando-o com aquele olhar afiado. – Spence… sinto muito pelo que o seu pai disse ontem.
– Está tudo bem.
O rosto dela suavizou, carregado de uma preocupação silenciosa. Ele reconheceu o que ela queria dizer antes mesmo que abrisse a boca: Não, não está tudo bem.
– Não é verdade… não é? – Deb respirou fundo, a hesitação marcada em cada sílaba. Ele ergueu o olhar para ela, silencioso e tão hesitante quanto. Quando ele não respondeu de imediato, ela tentou de novo, a voz quase num sussurro: – Que vocês dois…
– Claro que não é verdade.
Ela pareceu relaxar ou pelo menos fez um esforço visível para isso. Mas o peso do que o pai havia dito ainda latejava dentro dele e o pior era que, ironicamente, até ontem, a ideia de ele estar transando com Mariah era ridícula. Uma acusação totalmente infundada. Mas agora… agora a fala do pai parecia uma profecia maldita.
Anos lidando com suspeitos, vítimas e perfis mentais ensinaram Spencer a reconhecer verdades não ditas. Ele viu nos olhos de Deb que ela não acreditava em uma única palavra do que ele tinha acabado de dizer.
Ele apertou os lábios, desviando o olhar para a janela. Lá fora, a rua estava silenciosa, iluminada pelas luzes de Natal que piscavam preguiçosamente nas casas vizinhas. Tudo parecia tranquilo, em paz.
Na sala, as risadas de Zoe cessaram num rompante e viraram um gritinho agudo e eletrizado quando a campainha ecoou pela casa, cortando o ar como um estalo de estática. Antes que qualquer adulto pudesse dizer “espera”, Zoe já tinha disparado em direção à porta, as meias deslizando no piso como se ela tivesse sido treinada para isso. Logo, escutou a vozinha animada de Zoe explodindo em um “Mariah!” cheio de adoração e alegria infantil.
Deb lançou um olhar significativo para Spencer antes de seguir até a sala, mas ele permaneceu na cozinha por um segundo a mais, apenas o suficiente para tentar reorganizar o caos dentro da própria mente.
Zoe agarrou a mão de Mariah e a puxou para dentro como se estivesse trazendo um presente vivo para a sala.
– Você veio! E eu fiz cookies! Quer dizer… tentei. O Spencer ficou com pena de jogar fora as estrelinhas queimadas.
– Eu estava avaliando danos. – Spencer corrigiu, muito sério, como se estivesse falando da cena de um acidente e não de biscoitos torrados.
Mariah deu uma risadinha enquanto tirava o casaco, segurando Zoe pela cintura para não deixá-la escorregar.
– Pelo estado da bandeja, vocês não estavam fazendo cookies… estavam conduzindo testes de combustão.
Ela ergueu a cabeça e os olhares se encontraram. Aquele instante carregou mais eletricidade do que a casa inteira decorada para o Natal. Só eles dois sabiam exatamente o que estavam lembrando.
– Oi, William! – Ela desviou o olhar e atravessou a sala, puxando o pai de Spencer para um abraço, como se fosse a filha favorita que ele secretamente queria ter.
William demorou meio segundo para reagir, mas quando finalmente a abraçou, seus ombros perderam metade da rigidez habitual. Mariah tinha esse talento estranho de desmontar defesas que levavam décadas para serem construídas.
Essa era Mariah: apesar de tudo – apesar das corridas ilegais, das encrencas, do caos que carregava como segunda pele – ela nunca perdia a doçura. Era impossível não se desarmar um pouco perto dela.
– Você parece bem – disse William, num tom rouco, que era o mais próximo de carinho que ele costumava chegar. E, claro, a provocação veio em seguida: – Ainda participando de corridas de rua?
Ela riu livre e alto, como se aquilo fosse elogio.
– Não é corrida se estou ganhando. – Deu um passo para o lado, passando por Spencer, e os olhos dos dois se tocaram por um segundo longo demais. – E pode acreditar, padrasto… eu continuo ganhando.
– Você trouxe um presente para mim? – Zoe interrompeu, saltitando entre eles.
– Zoey! – Deb repreendeu, embora meio sorrindo, mas Mariah já estava abrindo um sorriso.
Mariah vasculhou a bolsa enorme com um floreio dramático até puxar uma caixa embrulhada com papel brilhante. Zoe arrancou o laço, abriu a tampa e deixou escapar um suspiro que parecia maior que ela.
– É o vestido da vitrine! – Exclamou, erguendo o tecido cintilante. – Ele é tão lindo!
Ela rodopiou com o vestido no ar, fazendo-o brilhar sob as luzes de Natal.
William observou a cena com as sobrancelhas erguidas, antes de cair no sofá como quem se prepara para um espetáculo.
– Eu só fico me perguntando como, exatamente, esse vestido foi pago…
– William! – Mariah plantou as mãos nos quadris, indignada. – Você está tentando ser o Grinch do Natal?
O beicinho que ela fez foi tão perfeitamente dramático que Deb soltou uma gargalhada. Até William – o homem que parecia ter sido esculpido em linhas retas e seriedade – fracassou em segurar o sorriso. Ele levantou as mãos, rendido, antes de levar a bebida aos lábios.
E Spencer… apenas observou. Ridículo. Era simplesmente ridículo como Mariah tinha esse magnetismo impossível. Como se carregasse um campo gravitacional próprio. Como se qualquer pessoa ao redor fosse puxada naturalmente para a órbita dela.
Especialmente ele.
Logo todos estavam acomodados na sala, assistindo Zoe abrir presentes com a energia incansável de sempre. Era quase engraçado: a casa inteira girava em torno de uma única criança animada, enquanto os adultos se equilibravam entre tensões veladas, provocações disfarçadas e tentativas educadas de parecerem civilizados.
Spencer se recostou no sofá, observando o pequeno caos familiar. Deb e William cochichavam sobre algo trivial e Zoe estava sentada no tapete. A cena toda parecia tranquila. Quase… normal.
Até que seu olhar encontrou Mariah.
Ela estava sentada na poltrona da frente, as pernas dobradas no sofá. Parecia relaxada, mas não totalmente. Porque, de tempos em tempos, ele flagrava o olhar dela desviando, só para pousar exatamente nele.
Zoe deu um gritinho ao puxar outro pacote que estava escondido atrás do sofá.
– Spence! Olha! A Mariah também me deu um carrinho!
– Dois carrinhos, hein? – Spencer ergueu a sobrancelha, lutando contra o sorriso. – O que você pretende fazer com todo esse poder automobilístico?
– Espero que ela não aposte e perca. – William murmurou, tomando um gole de vinho como se estivesse apenas comentando o clima.
O maxilar de Spencer se contraiu na hora. O comentário acertou um nervo exposto, e ele estava prestes a abrir a boca – para a defender, para rebater, para… algo – mas Mariah chegou antes.
– Não se preocupe, padrasto. – A voz dela pingava um mel artificial, suave e deliberadamente cortante. – A Zozo tem o mesmo talento que eu. Ou será ainda melhor. Só o tempo dirá.
Deb soltou um suspiro audível, batendo as mãos nas coxas num gesto de rendição, como quem decide salvar o jantar de Natal.
– Muito bem, chega! – Olhou diretamente para William, seu tom carregado de um cansaço prático. – Não foi você quem também comprou um presente para a Mariah? Quer entregar antes que vocês dois transformem o Natal em um tribunal familiar?
Enquanto isso, Zoe, imune à tensão que pesava sobre os adultos, continuava a fazer seus carrinhos rugirem e derraparem pelo tapete, completamente absorvida em seu novo mundo de velocidade.
– Deixe-me adivinhar… algemas? – Mariah provocou.
William estendeu uma caixa média para ela. Mariah a recebeu com o sorriso de sempre, aquele meio sorriso de quem estava pronta para mais uma troca de alfinetadas. Seus dedos desembrulharam a embalagem com uma pressa teatral, como se estivesse prestes a descobrir algo ridículo. Mas, quando o papel caiu, ela parou no meio do movimento. A expressão de deboche que ela carregava se desfez, substituída por uma surpresa genuína que ela não tentou disfarçar.
– A Barbie Sonho de Noiva! – Mariah exclamou, e pela primeira vez naquela noite, a empolgação em sua voz foi verdadeira.
Ela segurou a boneca com um cuidado inesperado, os dedos contornando o véu de renda com uma suavidade que contrastava violentamente com sua postura provocadora anterior.
– A edição de 1995. – William falou, com sua voz sempre imperturbável, mas havia um fio de algo mais ali, algo que Mariah reconheceu. – A caixa está selada. Você ainda coleciona, não é?
– Eu… – Ela engasgou, e Spencer nunca imaginou que veria aquele tipo de hesitação nela. Ela ergueu o rosto, tentando fazer um biquinho forçado, mas Spencer percebeu algo que ele não esperava: seus olhos estavam um pouco lacrimejados.
– Ah não, você não vai chorar, né? – William resmungou, mas havia algo quase... protetor na voz dele, algo que ele não escondia completamente.
Mariah fez uma careta, tentando se recompor.
– Padrasto! – Ela protestou, mas o sorriso que ela tentou dar parecia mais uma tentativa de disfarçar o que realmente sentia. – Você gosta de mim.
William bufou, cruzando os braços, como se estivesse profundamente arrependido de ter demonstrado um mínimo de afeto.
– Não exagera, Mariah. – Ele resmungou. – É só uma boneca.
– Só uma boneca? – Mariah arfou em falsa ofensa, apertando a Barbie contra o peito. – Por favor. Isso aqui é praticamente patrimônio histórico. Vou proteger com a minha própria vida.
– O que não diz muita coisa. – William rebateu, erguendo uma sobrancelha. – Você vive atentando contra a sua própria vida.
Mariah riu e William balançou a cabeça, resignado, como alguém que já aceitara o caos como parte da rotina. Zoe, atraída pelo brilho do embrulho, largou os carrinhos e engatinhou até os pés dela.
– Ela é uma princesa? – Perguntou, os olhos completamente iluminados.
– Algo assim – Mariah puxou Zoe para mais perto. – Olha o véu. É de verdade. – Zoe soltou um “uau” quase reverente, tocando o tule com cuidado.
Spencer observava a cena com um desconforto que não sabia nomear. Era fascinante e perturbador. O jeito como Mariah provocava William até arrancar dele um sorriso involuntário... Seu pai nunca fora aquele homem com ele. Nunca houvera presentes escolhidos com cuidado, referências compartilhadas, provocações leves carregadas de afeto. Nada que sugerisse intimidade ou lembrança. Só ausência.
Algo se fechou em seu peito. Não era raiva (não exatamente), era um tipo estranho de inveja, amarga e silenciosa, como se estivesse encarando uma vida paralela que, em algum universo distante, também poderia ter sido sua.
Quase sempre era assim. Mas naquela noite de Natal, em especial, a sensação era mais aguda: Spencer se sentia um convidado dentro do próprio núcleo familiar que o pai construíra sem ele.
Era natural demais ver Mariah ali, pertencendo àquele espaço de um jeito que fazia sentido para todos, menos para ele. Tão fácil para ela ocupar um lugar que Spencer nunca soubera como preencher.
Então a memória veio, indesejada e cruel: ele, aos oito anos, segurando um desenho torto em mãos, algo em que passara horas, concentrado, orgulhoso. O desenho que William olhara por exatos dois segundos antes de dizer: “Guarde isso, Spencer. Estou ocupado.”
O calor subiu pelo pescoço dele, queimando.
Ele pigarreou – alto demais – e se levantou num movimento brusco. Todos se viraram.
– Aonde você vai? – Perguntou Deb, franzindo o cenho.
Ele manteve os olhos fixos na porta, como se ela fosse a única saída de emergência possível.
– Lá fora.
Nada mais. Saiu rápido, como se qualquer segundo adicional ali fosse arder contra a pele.
O ar gelado atingiu seu rosto assim que a porta se fechou atrás dele. Spencer inspirou fundo, tentando limpar o peito daquela pressão que se acumulava desde o momento em que entrara na casa. As luzes de Natal piscavam pelo jardim – Deb claramente exagerara – e a noite parecia quieta demais para o tumulto que fervia dentro dele.
Ele não tinha motivo para sentir aquilo.
Ciúme? Amargura? Inveja infantil?
Ridículo.
Alguns minutos se passaram em silêncio até que ouviu passos atrás de si.
A fumaça do cigarro de William pairou no ar frio como um véu cinza entre os dois. A calma do gesto era um insulto, um contraste brutal com o turbilhão que ardia no peito de Spencer.
– Então… – William começou, a voz arrastada pela fumaça que soltava. – Você está com ciúmes da sua meia-irmã.
– O quê? Não.
William soltou uma risada curta e soprou a fumaça para o lado num gesto desdenhoso.
– Ah, Spencer… não me venha com essa. Eu vi sua cara. – Ele apontou com o cigarro, a brasa traçando um arco vermelho no escuro. – Parecia um cachorro pidão. E bem ciumento.
– Eu não estava com ciúmes dela. – As palavras saíram antes que pudesse engoli-las, ásperas e verdadeiras como caco de vidro. – Eu estava com ciúmes de você, pai.
William congelou. O cigarro parou no ar, preso entre os dedos, esquecido. Seus olhos piscaram, confusos, e algo se quebrou na máscara de cinismo.
– …O quê? – William murmurou, a voz sumindo num sopro, genuinamente perdido, desarmado.
– É o meu primeiro Natal com você em… eu nem sei quanto tempo. – Ele engoliu seco, lutando para manter a voz firme, mas ela trincou no meio, traindo a agonia por trás da raiva. – E você não… você sequer me comprou um presente.
O silêncio que se instalou depois foi mais do que ausência de som. Foi uma coisa viva, pesada, cruel. William o encarou. Não mais com o desdém habitual, mas como se estivesse vendo, pela primeira vez, o menino que ficara para trás, ainda segurando uma esperança murcha.
Spencer se sentiu pequeno. Ridículo. Com doze anos de novo, esperando na porta por um carro que nunca vinha. O calor da vergonha subiu por seu pescoço, mas ele não desviou o olhar. A ferida estava aberta agora. Havia um alívio perverso em deixá-la sangrar.
William pareceu encolher. Não fisicamente, mas algo em sua postura, naquela armadura de cinismo impenetrável, cedeu alguns centímetros. Ele levou o cigarro aos lábios, mas não tragou. Apenas o segurou ali, como se a ação lhe desse tempo para pensar.
– Eu… – A voz de William engasgou, presa na garganta. William Reid, o homem das palavras fáceis e das desculpas mais fáceis ainda, estava mudo. Ele limpou a garganta, os olhos fixos no chão entre eles. – Não achei que… você ainda ligasse pra esse tipo de coisa.
– Eu não ligava. – a voz de Spencer saiu áspera, cortante. – Até hoje.
– É mais fácil comprar uma boneca cara do que… do que encontrar algo para um homem que é mais inteligente que você, que te julga a cada olhar, e que tem todo o direito de fazer isso. – Ele deu uma tragada longa, profunda. Depois de um silêncio que se esticou até doer, ele soltou um suspiro pesado, resignado, e enfiou a mão no bolso do casaco. – Mas… ainda assim.
E dali, ele tirou uma pequena caixa embrulhada num papel simples, sem laços.
Com um movimento quase desleixado, jogou-a para Spencer, que a agarrou no ar por puro reflexo, as mãos trêmulas quase a deixaram escorregar. Spencer manteve a expressão neutra, ou pelo menos tentou.
Dentro da caixa, havia um relógio. Simples. Clássico demais para chamar atenção. O tipo de objeto que alguém compraria pensando mais no funcional do que na estética. Ele ficou parado por alguns segundos longos demais, encarando o mostrador pálido, os ponteiros finos, como se aquilo pudesse lhe dizer algo que ele mesmo ainda não conseguia entender.
– Eu pensei… – William começou, a voz mais baixa agora, menos afiada, menos defensiva. – Achei que talvez fosse bom ter algo que marcasse o tempo. Não o que você perdeu. O que ainda tem.
As palavras não eram grandiosas. Não eram calorosas. Não vinham embrulhadas em poesia ou em promessas. Mas eram, de uma forma crua e desajeitada, honestas. Eram o máximo que William Reid, naquele momento, conseguia dar.
– Obrigado. – Spencer disse, por fim. A palavra saiu rouca, quase engolida pelo peso do objeto em sua mão e pelo significado ainda maior que pairava no ar.
O silêncio retornou entre eles, mas desta vez não era carregado de hostilidade ou de acusações não ditas. Era apenas… frágil. Um fio tênue de algo novo e desconhecido, que poderia se romper com um movimento brusco, com uma palavra errada.
William apagou a ponta do cigarro sob a sola do sapato, esfregando com um cuidado incomum, como se o gesto exigisse toda a sua atenção.
– Eu não sou bom nisso, Spencer. – A confissão saiu sem floreios, um fato simples e triste como o inverno lá fora.
Spencer fechou a tampa do relógio com um clique suave. O som foi preciso, final. Ele ergueu os olhos e encontrou os do pai. Não havia mais raiva ali, apenas um cansaço profundo e um entendimento resignado.
– Eu sei. – A resposta veio suave, quase um suspiro. – Eu também não.
E naquela admissão mútua de inadequação, naquele espaço compartilhado de falhas e de tentativas desajeitadas, havia, talvez, o início de algo. Não de um perdão completo, não de um esquecimento milagroso, mas de uma trégua.
– Vamos entrar. – Spencer disse, num tom baixo, mais convite do que comando. – Está frio demais aqui fora.
William assentiu em silêncio. Caminharam lado a lado de volta, a luz quente da cozinha recortando o caminho à frente. Já perto da porta, William avançou primeiro, mas parou de repente. Virou-se devagar, uma sobrancelha arqueada.
– Spencer? – William chamou, a voz casual demais para o peso do que vinha a seguir. – Eu estava certo, não estava?
Spencer reconheceu o trajeto da conversa, mas ainda tentou desviar.
– Certo… sobre o quê?
– Você e a garota.
O ar pareceu rarear. Spencer tentou engolir, mas a garganta estava seca demais, rígida. A resposta automática – a negação rápida, treinada, segura – simplesmente não veio. Horas antes, talvez. Agora, não. Ele ficou parado, imóvel, encarando um ponto qualquer além do ombro do pai.
Seu silêncio foi uma confirmação tão alta quanto um grito. William soltou uma risada baixa, curta, um som de reconhecimento tardio.
– Certo… – William murmurou, como se estivesse ajustando a rota de um pensamento que tinha chegado tarde demais. Passou a mão pelo rosto, cansado, e ergueu as duas mãos num gesto quase defensivo, antecipando uma reação que Spencer sequer pensou em dar. – Eu não ligo.
Spencer piscou, genuinamente desarmado. Não era o que ele esperava. Nenhuma acusação direta, nenhum sermão pré-fabricado, nenhum daqueles julgamentos morais que ele aprendeu a prever como um reflexo condicionado.
– Mas a Deb liga. Ou vai ligar, cedo ou tarde. Ela já acha vocês… próximos demais. E você sabe como ela é quando começa a conectar os pontos.
Spencer assentiu uma única vez, quase imperceptível, mais para si mesmo do que para o pai. O frio da noite parecia ter encontrado um caminho direto para dentro do peito.
– Eu sei. – Respondeu, baixo. Não havia desafio ali. Só constatação.
Eles voltaram para dentro em silêncio.
A casa estava mais calma agora. As vozes tinham diminuído e o cheiro de comida fria e pinheiro ainda pairava no ar. Spencer subiu as escadas quase no automático, tentando ignorar o aperto no estômago, a sensação de estar caminhando direto para um território perigoso.
Foi então que, ao passar pelo corredor, notou a porta do quarto de Zoe entreaberta. Lá dentro, Mariah estava inclinada sobre a cama da menina, ajeitando os cobertores com uma atenção silenciosa, quase cuidadosa demais para alguém que vivia fingindo desinteresse.
Ele devia ter recuado. Sabia que era um intruso naquele santuário. Mas quando tentou mover-se, Mariah virou a cabeça e seus olhos encontraram os dele, ali, na porta.
Mariah se levantou por fim, ajeitando os cobertores uma última vez, como se quisesse garantir que nada naquele quarto pudesse desandar depois que saísse. Ao passar por Spencer, no limiar da porta, parou. Inclinou-se o suficiente para que o sussurro fosse só dele.
– Tudo bem?
– Sim. – Respondeu, rígido demais. A mentira soou clara até para ele.
Mariah soltou um suspiro leve, entre o divertido e o exasperado, e entrelaçou os dedos aos dele, firme.
– Vamos. Está na hora de uma conversa de adulto.
Ele se deixou puxar, fechando a porta do quarto com cuidado excessivo, quase reverente.
– Entre nós… ou com os pais do ano? – Murmurou, enquanto desciam.
– Com os pais do ano. – Ela riu, balançando os cabelos.
– Prefiro lutar com um leão. – Resmungou, meio sério, meio rendido, fazendo-a rir mais.
A sala os aguardava num silêncio carregado, elétrico. Deb e William ocupavam extremos opostos do sofá, cada um segurando a taça como se fosse um escudo improvisado. Deb tomou um gole, pousou o copo com precisão calculada e ergueu o olhar para os dois na entrada.
– Então… –Disse, após uma pausa que pareceu esticar o ar. – Vamos fazer isso de forma civilizada… ou vamos gritar?
Mariah nem piscou, um fio claro de desafio na voz: – Eu adoraria gritar.
Deb emitiu um som baixo, não de raiva, mas perigosamente próximo de uma risada contida. Indicou o sofá vazio com um movimento breve do queixo.
– Sentem. Vamos acabar com isso.
Spencer sentou-se na beirada do sofá como se o tecido fosse de lâminas. Rigidez de coluna militar, ombros erguidos até as orelhas, a alma já se encolhendo em antecipação ao julgamento. Mariah, em contraste, atirou-se contra as almofadas com a propriedade de quem reivindica um trono. Irritantemente à vontade.
– Certo. – Ela anunciou, com um brilho quase festivo no olhar. – Quem abre o baile? Ou podemos pular direto para a parte em que alguém atira uma taça na parede?
William inspirou fundo, como quem se prepara para sair ao frio sem casaco. Então, sem rodeios, deixou a verdade sair: – Vou resumir. Denunciei a Mariah. Spencer ficou do lado dela e partiu para cima de mim. Eu revidei. Mariah não parou com as corridas. Spencer odeia corridas, mas tolera o jeito mimado dela. Eu… – A voz falhou por um segundo, quase imperceptível – não suporto vê-la ir embora. Mas nunca quis expulsá-la. Só quis proteger esta casa. E a Deb acha tudo isso um drama cansativo. Fim do relatório.
– É… – Spencer murmurou, baixo. – Um resumo justo.
Mariah soltou uma risada curta, surpreendentemente leve. Um som que destoava da tensão anterior, enquanto balançava a cabeça devagar.
– Que família disfuncional... – Disse, erguendo as mãos como se brindasse ao absurdo. – Certo. Pelo espírito natalino… vou tentar ser adulta. Eu sei que você não teve escolha quando as ameaças começaram, William. E eu peguei pesado. Então… me desculpa.
O silêncio que se seguiu tinha algo quase cômico, como se todos tivessem esquecido o próximo passo do roteiro. Deb piscou duas vezes, genuinamente confusa, como se tivesse acabado de ver um milagre improvisado na sala de estar. William ficou imóvel, o copo suspenso no ar.
– Você… está pedindo desculpas? – Deb perguntou, cautelosa.
– Só para constar, – Mariah ergueu um dedo, já antecipando o caos – eu não vou parar de correr. – Spencer abriu a boca, mas ela o calou com um olhar rápido, suave, quase um pedido silencioso. – Eu sei que vocês odeiam. Sei que é perigoso. Mas é um processo. Não muda do dia para noite.
Deb levou as mãos às têmporas, suspirando, derrotada e terna ao mesmo tempo.
– Mariah… só me prometa que vai ter cuidado.
O pedido de Deb veio baixo, menos como uma ordem e mais como uma súplica cansada. William murmurou algo inaudível – algo que soou perigosamente próximo de um “boa sorte” – antes de tomar mais um gole, os olhos atentos demais para quem fingia indiferença.
– Prometo – Mariah respondeu, e a ausência de ironia na voz era quase mais surpreendente do que a promessa em si. Ela fez uma pausa curta, depois virou o rosto para Spencer, os olhos escaneando o seu em busca de um sinal, um aceno silencioso.
Quando o encontrou – uma leve inclinação de cabeça, um relaxamento quase imperceptível nos ombros dele – um sorriso pequeno e suave lhe tocou os lábios. Era um sorriso cúmplice, privado. Cutucou-o com o cotovelo, um toque leve que quebrou a tensão do momento.
– O que foi? – Ele murmurou, desconfiado, mas um canto da boca já ameaçava se curvar.
– Sua vez.
– Minha? Mas por quê… – A pergunta foi interrompida por um beliscão discreto no braço, firme o bastante para doer e ser, ao mesmo tempo, uma ameaça carinhosa. – Ai!… Tá bom, tá bom. Eu… eu também queria me desculpar… Por que mesmo eu estou me desculpando? – Seu olhar buscou o dela, perdido. A confusão em seus olhos era tão pura, tão desarmada, que era impossível não ver o menino brilhante e deslocado por trás do agente da FBI.
– Porque você atacou seu pai, Spence. – Mariah o respondeu, como se estivesse explicando a coisa mais óbvia do mundo. Deu de ombros, um movimento leve, mas o brilho nos olhos era de pura diversão mal contida. – Parece justo.
Ele a encarou por um segundo, e então um suspiro que era meio riso, meio rendição, escapou-lhe.
– …Desculpa por ter brigado com você – Spencer disse afinal, a voz um pouco presa na garganta. As palavras saíram truncadas, quase desconfortáveis, mas carregavam uma sinceridade que ele não tentou disfarçar.
– Está tudo bem, filho. – Então, um brilho malicioso – raro, quase juvenil – acendeu em seus olhos. – A culpa, afinal de contas, é toda da Mariah.
– Como é que é?! – A mulher quase gritou, exasperada, como sempre. Spencer não conseguiu se conter. Um sorriso rápido, genuíno e absolutamente inesperado cruzou seu rosto por uma fração de segundo. Era pequeno, mas carregado de uma satisfação quase infantil. – Sério… como exatamente a culpa é só minha?! – Mariah protestou, cruzando os braços com teatral indignação. – Você devia estar do meu lado, sabia?
– Eu estou! Eu briguei com meu pai por sua causa! – Ele tentou defender-se, mas uma risada escapou, estragando a seriedade.
– Mariah, você transformou a nossa vida num Velozes e Furiosos! – Deb riu abertamente.
Não foi uma risada contida ou educada. Foi solta, quente, daquelas que nascem quando a tensão finalmente perde a guerra. O som de alguém que, apesar de tudo, ainda conseguia enxergar um fio de normalidade – ou ao menos um entretenimento familiar improvável – naquele drama doméstico completamente absurdo.
– Mãe! – Mariah protestou na hora, batendo os pés no chão com indignação teatral. As meias rosa deslizaram levemente no tapete, o corpo inteiro assumindo a postura clássica de uma criança mimada contrariada. – Isso não tem graça! Eu quase fui presa!
A cena era tão absurdamente adorável que Spencer quase riu alto. O drama exagerado, o beiço propositalmente saliente, a maneira como ela cruzava os braços como se estivesse prestes a declarar guerra ao mundo.
Seria uma cena profundamente familiar, uma daquelas peças reconfortantes do quebra-cabeça familiar, se não fosse pelo desejo absurdo – agudo e concreto – de calar aquela boca tagarela e provocadora com a sua própria. De beijar, ali, na frente de todos, a mulher que tecnicamente era a enteada de seu pai.
Ele olhou para o relógio: duas da manhã. A chuva batia forte contra a vidraça, um tamborilar pesado e monótono. Claro que era noite de Natal. E claro que ele, o intruso, o eterno deslocado, fora diplomaticamente exilado para o sofá da sala, com todos os quartos devidamente ocupados.
Afundou-se nas almofadas, um suspiro escapando entre os lábios. Deslizou o dedo pela tela do celular, abrindo e fechando aplicativos sem propósito, tentando não pensar no fato incontornável, palpável no ar: Mariah estava a poucos metros de distância, apenas um corredor e uma escada adiante.
Suspirou, vencido, e abriu a conversa com ela. Ficou encarando o cursor piscando por alguns segundos – aquele pequeno traço insistente, como se o desafiasse – antes de finalmente digitar.
Spencer: Dormindo?
Não esperava resposta. Esperava, na verdade, o vazio reconfortante do não-lido, uma prova de que ela estava longe, segura, fora do alcance do seu péssimo juízo às duas da madrugada. Mas seu celular vibrou quase instantaneamente na sua mão.
Mariah: Não.
Ele hesita. O juízo, aquele guardião cansado, levanta a voz num aviso surdo: Isto é uma péssima ideia. Catastrófica. Desligue o telefone. Finja que dormiu. Mas seus dedos, traidores e ágeis, já se moviam, impulsionados por um impulso mais profundo e mais antigo que qualquer cautela.
Spencer: Acho que o Papai Noel vai aparecer com o seu presente.
Menos de dois minutos depois, o som o alcança antes da visão: passos apressados, descalços, ecoando pelo corredor de madeira lá em cima. Um ritmo rápido, quase de corrida. Ele ergue o olhar bem a tempo. E ela surge no topo da escada.
Spencer quase perde o fôlego, mas não de susto, de um riso abafado e incrédulo que lhe sobe pela garganta. Ela está descendo os degraus com uma urgência de quem foge de um desastre, ofegante, o cabelo um turbilhão escuro sobre os ombros. Veste uma calça de moletom rosa-choque, absurdamente colorida contra a penumbra, e uma camiseta cinza tão larga que um dos ombros fica à mostra. Parece desgrenhada, sonolenta e completamente desprevenida.
Meu Deus.
Ele estava perdido. Completamente arruinado. Era ridículo, era patético, era o cúmulo da irracionalidade, mas ele a desejava – assim, exatamente assim, com toda a sua imperfeição doméstica, no meio da noite silenciosa – a desejava a ponto de sentir uma pontada física no peito, uma dor aguda e doce de anseio.
O mundo exterior, a chuva, o sofá desconfortável, as complicações morais e familiares, tudo se dissolveu naquele instante, diante da visão dela descendo as escadas para encontrá-lo.
– E então? – Ela parou diante do sofá com uma freada brusca, ofegante da descida. As bochechas coradas, o cabelo em completo caos, e estendeu as mãos com palmas para cima, como uma criança à espera de doces. – Cadê meu presente?
Manteve a caixa fora do alcance dela por um segundo a mais do que o necessário, apenas para vê-la franzir o nariz numa expressão de impaciência pura. Então, finalmente, entregou o presente em suas mãos.
A caixa tinha o tamanho de uma de sapatos. Assim que ela retirou a tampa, seus olhos refletiram a luz fraca da sala como dois faróis na escuridão.
– É…? – Ela arfou, o som saindo como um suspiro reverente, como se estivesse diante de um artefato sagrado.
A expressão dela valia mil fotografias. Ele sabia que aquele carrinho em miniatura, uma réplica meticulosa, tinha custado uma pequena fortuna e incontáveis horas de pesquisa. Mas quando ela o ergueu, a boca entreaberta num "o" de puro encanto, e depois o abraçou contra o peito com um sorriso tão amplo e genuíno que parecia iluminar o cômodo… ah, sim. Valera cada centavo. Cada segundo.
Ele se pegou sorrindo, um sorriso involuntário e relaxado, enquanto a observava virar o brinquedo com reverência, examinar cada roda, cada curva da pintura. Parecia uma criança maravilhada e essa vulnerabilidade desarmada só a tornava mais irresistível.
– E se você olhar aqui dentro… – Ele se inclinou para frente no sofá, aproximando o rosto do dela. Seu dedo indicou o interior do carrinho, onde um detalhe minucioso podia ser visto. – Pedi a um conhecido para fazer umas modificações. Não que eu aprove oficialmente esse seu… entusiasmo por velocidade, mas… Achei que gostaria de algo mais parecido com o seu.
Era um painel em miniatura. Pequeno, impecável, absurdamente detalhado. Uma réplica perfeita do antigo carro de corrida dela. Aquele. O que Mariah amara com uma devoção quase imprudente. O mesmo que ela fora obrigada a abandonar para pagar uma dívida que a corroera por dentro.
Os olhos dela se arregalaram no mesmo instante. Brilharam. Fascinados. Quase infantis. Com um cuidado reverente, seus dedos percorreram o volante minúsculo, os pedais, os marcadores do painel. Ela tocava como se o objeto pudesse desaparecer a qualquer segundo.
– Caramba… – Ela sussurrou.
Quando ergueu o olhar para ele, Mariah soltou uma risada curta, contida – quase tímida – antes de devolver o carrinho à caixa com um zelo extremo, como se estivesse guardando algo sagrado. Então, sem aviso algum, avançou contra ele em um abraço apertado.
– Obrigada – Murmurou contra o pescoço dele. – Quer seu presente agora também? – Perguntou, baixo.
Ele levou um segundo a mais do que o normal para processar. A mente ainda atordoada pelo calor do corpo dela colado ao seu. Quando finalmente entendeu, ergueu uma sobrancelha, surpreso.
– Você trouxe algo… para mim? – Escapou, incrédulo.
– Na verdade, não. – Ela riu baixo, olhando em volta para se certificar de que estavam sozinhos. – Mas não posso deixar você sem nada depois de um presente daqueles.
Antes que ele pudesse reagir, Mariah se moveu. Num gesto fluido, deliberado, sentou-se sobre ele, uma perna de cada lado de seus quadris.
Spencer travou.
Todos os pensamentos se apagaram no instante em que o peso dela se acomodou em seu colo. O ar simplesmente faltou. Ele a encarava dividido entre o choque absoluto e um desejo crescente.
– Você não… precisa....
– Não recuse meu presente, Spencer. – Ela murmurou, inclinando-se para a frente, guiando as mãos dele para dentro do moletom.
As mãos dele se fecharam instintivamente na cintura dela, sentindo o ventre liso e quente sob as palmas. O cérebro simplesmente… falhou. Quando Mariah se aproximou mais, os rostos a centímetros de distância, tudo nele derreteu. Ela puxou o queixo dele e roçou seus lábios nos dele.
– Feliz Natal, meu bem. – Ela murmurou contra os lábios dele antes de aprofundar o beijo, envolvendo o pescoço dele com os braços, os dedos puxando de leve seus cabelos.
A pontada de dor prazerosa percorreu o couro cabeludo dele, misturando-se ao êxtase e o deixando tonto. A respiração já não obedecia a ritmo algum quando ele a beijou de novo, mais intenso, mais perdido. Mariah guiou a mão dele até a curva de sua bunda com um gesto ousado, rindo baixo contra seus lábios.
Os dedos dele exploraram as curvas do corpo dela com posse, deslizando sob o elástico do moletom até encontrar a pele quente por baixo. Ele sentia – nos tremores sutis do corpo dela, na respiração entrecortada – que Mariah estava tão afetada quanto ele.
Spencer inclinou a cabeça e mordeu aquele ponto sensível logo abaixo da orelha dela e Mariah arfou, os dedos se fechando em seus cabelos e ele apertou suas nádegas com mais força, puxando-a completamente para si, até não restar espaço. Nem razão.
Ele a beijou outra vez, afastando o cabelo do rosto dela com delicadeza. Os lábios se abriram por reflexo, a mão dele subiu pelas costas dela até se perder em seus cabelos, puxando-a com uma urgência faminta e então...
As luzes se acenderam.
Spencer ficou rígido no mesmo instante, como se alguém tivesse puxado um freio de emergência dentro de seu peito. Todo o calor, toda a tensão, toda a deliciosa loucura daquele momento se dissiparam como fumaça.
– Viu? Eu disse! – William explodiu em gargalhadas, encostado na parede, como se tivesse acabado de receber o melhor presente de Natal de toda a sua vida.
Era o riso de um homem que acabara de receber a confirmação do maior segredo da casa, e que parecia se deleitar com o caos resultante. Ao lado dele, Deb não se mexia. Estava completamente petrificada. Seus olhos, arregalados, estavam fixos na cena no sofá, mas pareciam não ver nada.
Os olhos de Spencer e Mariah se encontraram. Foi um instante fugaz, um único segundo suspenso no ar rarefeito do desastre.
Nele, passou tudo: O constrangimento agudo. A cumplicidade instantânea. E algo mais, algo profundo que pulsava no centro de tudo (um fio de excitação proibida que o choque não conseguiu apagar).
Spencer teve a certeza física de que sua alma se desprendeu do corpo. Talvez tivesse subido pelo teto, talvez tivesse se esvaído pela janela escura. O que restava era uma casca de carne quente e vergonha, o rosto em chamas, incapaz de erguer o olhar para encarar o mundo que desabava.
Deb foi a primeira a se mover.
Emitiu um gemido longo e angustiado, um som vindo das profundezas. Cobriu o rosto com as duas mãos, os dedos crispados, e começou a balançar a cabeça lentamente, para um lado e para o outro, num movimento de negação e consternação.
– Puta merda... – A palavra saiu como um sussurro rouco, carregado de um cansaço infinito.
E no centro de tudo, no olho exato do furacão, Mariah ainda estava sentada em seu colo. Relaxada demais, como se a cena não fosse com ela.
Ela inclinou a cabeça para o lado, um sorrisinho torto dançou em seus lábios. Então, ergueu os olhos para o caos à sua frente – para o padrasto rindo à beira da histeria, para a mãe paralisada de horror – e, com uma voz baixa, suave, e perversamente divertida, disse:
– Hm… feliz natal?
