O primeiro dia de competição passou mais rápido do que o esperado.
As confraternizações e tentativas de amizade foram interrompidas assim que a responsabilidade resolveu aparecer.
Piero seguiu com seu grupo para o restaurante à beira da piscina.
Ainda tentou acompanhar a banda de — com claras intenções de uma nova interação —, mas ela não estava ali.
A tranquilidade durou pouco.
Os e-mails com horários de gravações e apresentações chegaram para cada grupo — cantores e compositores — e, de repente, o tempo pareceu curto demais.
As reações foram as mais variadas.
A banda de saiu literalmente correndo da piscina, tropeçando em toalhas e espreguiçadeiras, causando risadas entre os hóspedes. Irama foi atrás deles, Annalisa já estava ao telefone com o empresário, e Ghali parecia o único realmente tranquilo.
Os três do Il Volo apenas se entreolharam.
Depois de uma turnê recente, aquilo não parecia exatamente um problema. Uma passada de
Capolavoro e tudo se resolvia.
Foi então que ela passou.
Com muito mais finesse do que o restante da própria banda.
subiu pelas escadas que levavam à praia, com uma canga amarrada na cintura e uma camiseta larga cobrindo o corpo. Falava em um áudio, com um tom leve, quase distraído — como se não estivesse nem um pouco afetada pelo caos ao redor.
E sumiu para dentro do hotel.
— Bom… acho que devemos ir também, né? — Piero comentou.
Dessa vez, nenhum dos dois teve o que contestar.
Depois que cada um foi para um canto, ninguém mais apareceu nas áreas comuns do hotel.
As apresentações estavam marcadas para começar às oito da manhã. Seriam vinte apresentações, seguidas por momentos de interação com os apresentadores — então todos já sabiam que o dia seria inteiro dedicado a isso.
As apresentações começariam com os Competidores, exatamente na ordem do ranking do Festival de Sanremo. Começaria com Angelina Mango com
“La noia”, depois Geolier com
“I p' me, tu p' te”, em seguida Annalisa com
“Sinceramente”, até chegar ao Il Volo com
“Capolavoro”, na oitava apresentação.
Angelina se apresentaria apenas com a produção presente e, depois, se sentaria na plateia para assistir aos próximos — e assim por diante. Após os Competidores, todos assistiriam às apresentações dos Compositores, que eram, de fato, a grande surpresa da competição.
As apresentações aconteceriam no Teatro Ariston, fechado ao público, já que a transmissão só iria ao ar meses depois.
Mas isso não impedia que eles se amontoassem do lado de fora.
E eles se amontoaram.
Diversos fãs se espalhavam atrás das grades, com gritos e cartazes, esperando os artistas que chegavam praticamente um a um, a cada poucos minutos.
Quando Piero, Ignazio e Gianluca chegaram, as fãs foram à loucura.
Se dependesse apenas da votação popular, eles já teriam vencido várias vezes — inclusive com
“Capolavoro”. Mas foi somente em 2015, com
“Grande Amore”, que conquistaram esse feito.
Eles atravessaram o interior do teatro sob aplausos da produção, dos outros competidores e do som ambiente preparado pela equipe.
— Prontos? — Ignazio perguntou.
— Prontos! — Piero e Gianluca responderam juntos, e os três trocaram um abraço rápido.
— Em três, dois…
A produção sinalizou.
E eles entraram no palco.
As luzes mudaram de cor enquanto a
música começava suave.
E Gianluca começou com o microfone em mão.
Io che sto seduto dentro a un cinema
(Eu sentado dentro de um cinema)
A sognare un po’ d’America e un po’ di casa tua
(Sonhar um pouco com a América e um pouco com a sua casa)
E mi chiedo sempre quanto durerà
(E eu sempre me pergunto quanto tempo isso vai durar)
Questo amore infinito che infinito non è
(Esse amor infinito que não é infinito)
Piero deu um passo à frente, e a luz o acompanhou.
Io che mi sentivo perso
(Eu me senti perdido)
Una vela in mare aperto
(Uma vela em mar aberto)
E all'improvviso tu, tu
(E de repente você, você)
O tom mudou.
Era a vez de Ignazio.
Cadi dal cielo come un capolavoro
(Cair do céu como uma obra-prima)
Prima di te non c’era niente di buono
(Antes de você não havia nada de bom)
E, então, no ponto alto, os três cantaram juntos.
Come se
(Como se)
Tu fossi l’unica luce a dare un senso
(Você era a única luz que fazia sentido)
E questa vita con te
(E esta vida com você)
È un capolavoro
(É uma obra-prima)
A música envolveu o teatro, arrepiando a plateia, abrindo sorrisos surpresos diante da potência vocal dos dois tenores e do barítono.
Inclusive .
Ela se escondia entre os espaços mais escuros da plateia.
A boca levemente aberta, exatamente como ficava ao ouvi-los no Spotify ou no YouTube — mas, ao vivo, a poucos metros de distância, era outra realidade.
Como é possível alguém cantar assim?
E olha que conhecia artistas de todos os tipos.
— Ele é incrível… — sua voz saiu baixa.
— Uhu-u-um… — Brian concordou, tão impressionado quanto ela.
E questa vita con te
(E esta vida com você)
Sì, la mia vita con te
(Sim, minha vida com você)
È un capolavoro
(É uma obra-prima)
se juntou aos outros competidores para aplaudir com força.
Os aplausos foram mais longos do que o esperado.
Mas não era surpresa.
Eles eram incríveis.
— É… agora é a nossa vez — Brian disse, dando dois toques leves no braço dela.
soltou um suspiro.
— Fodeu…
— Muito bem, ragazzi! – Gianluca falou, dando duas palmas rápidas.
— Vamos ver o que acontece, né?! – Ignazio falou rindo e eles saíram do palco.
Piero deu uma última olhada no teatro antes de sair, ainda com a energia da apresentação correndo pelo corpo. Um membro da produção os guiou até uma fileira específica na plateia.
— Aqui.
Eles se sentaram lado a lado: Piero no corredor, Ignazio no meio e Gianluca ao lado.
— E agora esperamos. – Ignazio comentou, já mais relaxado, virando-se levemente para Piero.
Mas Piero não estava relaxado.
As mãos estavam juntas no colo, esfregando uma na outra, inquietas. A expectativa tinha um nome agora.
Ou dois.
.
.
Enquanto esperavam, Alessandra Amoroso subiu ao palco com “
Fino a qui”, seguida por Alfa com “
Vai!”. As apresentações correram bem, seguras, dentro do esperado.
Então veio a segunda parte.
Os Compositores.
Agora era outro tipo de nervosismo. Gente que ninguém conhecia. Gente que precisava provar tudo em poucos minutos.
*Luca Ferretti abriu, seguro, com uma balada que parecia feita para tocar no rádio.
Maya Kovács veio depois, diferente, quase etérea, com sons eletrônicos que deixaram parte da plateia confusa.
Diego Álvarez trouxe intensidade, palmas marcadas e um espanhol que ecoava pelo teatro.
Piero mal percebeu.
Cada nome anunciado fazia seu coração acelerar um pouco mais.
Até que—
— Nascida no Brasil, criada nos Estados Unidos em uma família de músicos, com 30 anos… ela traz o rock em sua essência... e sempre algo mais.
Uma pausa.
— Com vocês… !
— … — o nome escapou dos lábios de Piero, quase em um sussurro.
As luzes se apagaram.
O teatro mergulhou no escuro.
Um segundo.
Dois.
O som metálico de uma corrente sendo arrastada ecoou pelos alto-falantes.
E então—
A guitarra explodiu.
As luzes acenderam de uma vez.
Os cinco estavam no palco, recortados entre luz e sombra.
E ela.
No centro.
Os cabelos loiros soltos, lisos, com mechas em rosa vibrante marcando a lateral da franja e as pontas. O delineado escuro, levemente borrado, destacava ainda mais o olhar — pesado, intenso. Uma gargantilha preta envolvia seu pescoço, contrastando com a pele clara.
A roupa não tinha absolutamente nada da garota do vestido de flores.
Calça de couro justa, marcada por correntes que tilintavam a cada movimento. Jaqueta pesada. Camiseta listrada por baixo. Luvas de couro sem dedos. Pulseiras pretas e rosas se acumulavam nos pulsos.
E presença.
Muita presença.
Take me, I'm alive
(Me leve, estou viva)
Never was a girl with a wicked mind
(Nunca fui uma garota com a mente maligna)
But everything looks better
(Mas tudo parece melhor)
When the Sun goes down
(Quando o Sol se põe)
A boca de várias pessoas se abriu. Mas a de Piero—
Simplesmente caiu.
Era informação demais.
I had everything
(Eu tive tudo)
Opportunities for eternity
(Oportunidades infinitas)
And I could belong to the night
(E eu poderia pertencer à noite)
Ela se movia sem coreografia. Sem marcação óbvia.
Sentia a música.
Cada passo fazia a corrente na cintura bater contra o couro, marcando o ritmo junto com a bateria. O corpo acompanhava as notas como se fosse parte delas.
Your eyes, your eyes
(Seus olhos, seus olhos)
I can see in your eyes
(Eu posso ver nos seus olhos)
Your eyes
(Seus olhos)
Então ela ergueu o rosto.
E o encarou.
You make me wanna die
(Você me faz querer morrer)
Piero parou de respirar.
I'll never be good enough
(Eu nunca vou ser boa o suficiente)
You make me wanna die
(Você me faz querer morrer)
And everything you love
(E tudo que você ama)
Will burn up in the light
(Vai queimar na luz)
And every time I look inside your eyes
(E toda vez que eu olho dentro dos seus olhos)
You make me wanna die
(Você me faz querer morrer)
Ignazio já acompanhava o ritmo com a cabeça, empolgado.
Ele sabia.
Agora sabia exatamente de onde a reconhecia.
.
Não .
não estava ali.
Ou talvez estivesse mais do que nunca.
A performance crescia.
Elijah no baixo, acompanhando nos vocais. Mason na guitarra principal. Brian na bateria, preciso. Jackson completando com outra guitarra e
backing vocal.
Mas era ela que puxava tudo.
Que segurava tudo.
Que comandava.
I would die for you, my love
(Eu morreria por você, meu amor)
My love
(Meu amor)
I would lie for you, my love
(Eu mentiria por você, meu amor)
My love (make me wanna die)
(Meu amor (me faz querer morrer)
Piero acompanhava cada passo.
Hipnotizado.
I would steal for you, my love
(Eu roubaria por você, meu amor)
My love (make me wanna die)
(Meu amor (me faz querer morrer))
And I would die for you, my love
(E eu morreria por você, meu amor)
My love
(Meu amor)
Então—
Ela olhou diretamente para ele.
Não por acaso.
Sabendo exatamente quem estava ali.
Um sorriso mínimo surgiu no canto dos lábios.
“É agora.”
Ela jogou a cabeça para trás.
A música explodiu novamente.
Will burn up in the light
(Vai queimar na luz)
And every time I look inside your eyes
(Toda vez que eu olho dentro dos seus olhos)
(I'm burning in the light!) I look inside your eyes!
((Estou queimando na luz!) eu olho dentro dos seus olhos!)
(I'm burning in the light!) I look inside your eyes!
((Estou queimando na luz!) eu olho dentro dos seus olhos!)
You make me wanna die
(Você me faz querer morrer)
E então—
Escuro.
Silêncio.
Por um segundo longo demais.
Os aplausos vieram depois, puxados pelo som do teatro.
Ignazio foi o primeiro a se levantar.
Gianluca veio logo depois, rindo sem saber exatamente por quê.
A reação geral era clara:
Surpresa.
Admiração.
Choque.
E, em alguns casos… dúvida.
era incrível.
Mas definitivamente não era o que todos esperavam.
— Vem! – Ignazio puxou Piero para cima.
Ele se levantou no automático.
Ainda tentando entender.
As luzes voltaram, e fez uma leve reverência antes de sair do palco.
Os cinco desceram pelo corredor central.
Todos os olhares neles.
Quando passou pela fileira de Piero—
Ela piscou.
Simples.
Direto.
Como se dissesse:
viu só?
Piero sorriu.
Bobo. Perdido.
Em choque.
Aquela não era a garota do vestido de flores.
E, ao mesmo tempo…
Era exatamente ela.
— UAU! Que show foi esse? — Amadeus surgiu novamente sob a luz. — E agora, o momento que todos esperavam: o sorteio! — posicionou-se no centro do palco. — Teremos o Pote A e o Pote B. Georgia fará o sorteio do Pote A e Luca ficará com o Pote B.
Ele explicava com clareza, em tom de apresentador de
talk show, como se falasse diretamente para a plateia.
— Após o sorteio, nossos compositores terão apenas dez dias para elaborar música e letra para os competidores, que deverão apresentá-las neste mesmo palco. Essa música não pode ter sido criada antes, nem pode ter base em algo já existente. É permitida a ajuda de membros da banda, da produção, e os compositores também poderão contar com nossos músicos. — Amadeus indicou a banda da produção. — A sorte está lançada. Vamos lá?
Piero sentiu o peso daquelas palavras.
Ele não gostava de nada inesperado.
Sanremo era fácil. Os produtores entregavam opções, e eles só precisavam escolher o que combinava com eles — e com o festival.
Agora isso? Nada o preparava para o que poderia vir.
— ou — estava relaxada na poltrona, as mãos apoiadas sobre o cinto de correntes preso à calça. A experiência falava mais alto. Ela sabia lidar com pressão.
Claro, ali estavam alguns dos maiores nomes da música italiana. Conflitos eram quase inevitáveis.
Mas ela estava pronta.
— Primeiro nome! — anunciou Amadeus. — Annalisa e Luca Ferretti.
Os dois se levantaram e seguiram pelo corredor central até o palco.
Um murmúrio percorreu a plateia.
Pop refinado e música lírica. Perfeito demais.
— Segundo! — Amadeus continuou. — Loredana Bertè e Rafa Torres.
Eles se encararam antes de caminhar.
Rock com rock.
Podia dar muito certo.
Ou muito errado.
— Terceiro! Irama e Sofía Ríos!
Ambos se levantaram surpresos — talvez animados, talvez não.
Indie folk com música latina. Intensidade e delicadeza.
— Quarto!
Os nomes foram sendo chamados, um a um.
Pessoas se levantando, reações contidas, outras nem tanto.
As mãos de Piero começaram a suar.
Cada vez mais.
Ignazio percebeu. Sem dizer nada, segurou discretamente a mão do amigo, tentando acalmá-lo.
— Ghali e Noah Whitaker! Mahmood e Kenji Watanabe!
E então—
— Il Volo!
Amadeus abriu o pote A.
Piero prendeu a respiração.
Sexto nome.
Ainda restavam vários Compositores.
Metade.
— !
— O quê? — Piero murmurou, sem conseguir disfarçar.
— Pff… — Gianluca conteve uma risada.
Não por desrespeito.
Mas porque o destino claramente tinha senso de humor.
e sua banda se levantaram.
Ela trazia um sorriso brincalhão nos lábios.
Não fazia questão nenhuma de esconder que estava… gostando daquilo.
Ignazio puxou Piero discretamente para cima.
Sem escolha.
Eles seguiram pelo corredor central.
E, no meio do caminho, os alcançou, andando lado a lado com eles.
— Qual é… vai ser divertido — disse, em tom baixo, olhando diretamente para Piero.
Mas quem reagiu foi Ignazio.
— Ah, vai mesmo! — respondeu, rindo.
Elijah e Mason trocaram olhares, segurando o riso.
— Muito bom! — comentou Amadeus quando os dois grupos chegaram ao palco. — Sétimo...
Mas Piero já não ouvia mais.
Do outro lado, .
O cabelo claro com as pontas rosas.
O preto, as correntes, a postura relaxada.
Tudo nela gritava controle.
E isso o deixava… completamente sem o dele.
sustentou o olhar.
E aquele meio sorriso continuava ali, dançando nos lábios.
— Que os jogos comecem — murmurou Brian, ao lado dela.
deu um leve empurrão nele com o cotovelo.
— Ei. — repreendeu, baixinho.
*Todos os Compositores foram criados. Somente os Competidores que são o top 10 do Festival de Sanremo de 2024.