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Como Vai Você?

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Prólogo


O som das ondas era constante, quase hipnótico. O azul se misturava com a areia branca, se perdendo entre os dedos dos pés.
O sol descia devagar sobre o mar de Taormina, pintando tudo em tons dourados e alaranjados, enquanto a praia ainda mantinha aquele movimento preguiçoso de fim de tarde. Perfeito para relaxar sem o caos de turistas!
Mais afastados, dentro de uma área privada, longe da movimentação principal, três vozes conhecidas quase se perdiam no barulho do mar.
— Eu ainda não entendi por que a gente veio para a praia — resmungou Piero, de óculos escuros, sentado em uma espreguiçadeira como se estivesse ali contra a própria vontade. Chutando a areia dos pés conscientemente.
— Porque é verão. Porque a gente está na Itália. Porque somos italianos. Porque pessoas normais fazem isso — respondeu Ignazio, já com os pés na água, completamente à vontade, a voz aumentando conforme dava seus exemplos.
— E porque, se dependesse de você, a gente só via hotel, ensaio e palco — completou Gianluca, deitado só de sunga na espreguiçadeira, com os braços atrás da cabeça, sem nem abrir os olhos.
Piero soltou um suspiro baixo, passando a mão pela areia, distraído.
— A gente veio trabalhar.
Ignazio virou o rosto na direção dele, com um sorriso de quem já estava prestes a causar.
— A gente também pode viver um pouquinho, sabia?
— Eu vivo. – A voz de Piero saiu mais forte que o esperado.
— Você ensaia — corrigiu, sem hesitar.
Gianluca soltou uma risada leve.
— Ele tem um ponto.
Piero nem respondeu dessa vez. Só ficou olhando para o horizonte, quieto, como se já estivesse em outro lugar. Talvez pensando em quem seria o compositor que ficaria com eles.
Ignazio observou por alguns segundos, estreitando os olhos atrás dos óculos escuros.
— Eu vou te falar uma coisa.
Nenhuma reação.
— Esse festival…
Agora Piero olhou.
— Vai dar alguma coisa.
— Va-a-a-ai — respondeu ele, automático. Rindo sem perceber.
Ignazio balançou a cabeça, negando, ainda com aquele meio sorriso.
— Não estou falando de música.
Gianluca abriu um dos olhos, curioso.
— Ih…
— Eu estou falando que você vai finalmente parar de fugir.
Piero franziu a testa.
— Fugir de quê?
Ignazio deu de ombros, virando de volta para o mar.
— Bem, seu último relacionamento foi há... um milhão de anos?
— Dois! – Piero falou rápido.
— A mesma coisa... – Foi a vez de Gianluca falar sem abrir os olhos.
— Você vai ver! Vai acontecer! – Piero franziu a testa, mas Gianluca captou a ideia no mesmo segundo.
— O quê? – Piero perguntou.
— Quando acontecer, você vai saber. — Piero revirou os olhos, preferindo não discutir.
Um silêncio confortável se instalou entre os três, preenchido só pelo som das ondas e pelo vento leve que vinha do mar. Bom, desconfortável para Piero.
— Eu vou para o quarto. — Ele falou.
— Até ma-a-a-ais! — Ignazio disse, com um aceno.
— Vai pela sombra! – Gianluca repetiu, sem ver o mais velho dentre os três, seguir pela parte interna do hotel.
Mais ao longe, algumas pessoas começavam a chegar. Equipes, artistas, vozes novas ocupando o espaço aos poucos.
O festival estava começando a respirar.
E, em algum ponto entre a areia quente e o mar tranquilo, algo ainda invisível já estava em movimento.
Piero não percebeu.
Mas não demoraria muito.
— Tentando ser cupido, Ignazio? – Gianluca perguntou, finalmente abrindo os olhos.
— Não custa tentar, certo? — Ignazio riu, se sentando na beirada da espreguiçadeira de Gianluca.
— Nunca! – Riram juntos e Gianluca voltou a fechar os olhos.
Ignazio viu o amigo de longa data subir pelas escadas de madeira do hotel e suspirou. Sempre quieto, sempre profissional, sempre preocupado. Ignazio queria ver Piero solto, relaxado e feliz. Realmente usando esse talento que Deus lhe deu para algo mais relevante...
Melhor, para alguém.
Pelo menos foi assim da última vez.
— Eu vou ver se ele está bem. – Ignazio falou, se levantando.
— Tudo bem, encontro vocês mais tarde. — Gianluca nem se mexeu, somente arrumando os óculos escuros novamente.

Capítulo I

Piero subiu os degraus da praia até o hotel, pensativo.
Não era chato. Não pensava só em ensaiar, praticar e se apresentar — ele também gostava de curtir. Do jeito dele.
Mas eles não estavam ali de férias.
Vieram para Taormina por causa de uma competição nova, organizada pelos mesmos produtores do Festival de Sanremo. Taormusica.
O nome era meio brega, mas funcionava — ficava na cabeça.
A primeira edição reunia o top 10 de Sanremo. E, como o Il Volo tinha ficado em oitavo — injustamente, na opinião dele —, eles estavam ali. Cercados por outros artistas italianos, e alguns convidados internacionais.
A proposta era simples, pelo menos no papel: cada artista receberia um compositor surpresa, responsável pela música da apresentação final.
Duas semanas confinados no San Domenico Palace, em Taormina. Com câmeras por todos os lados.
Quase um reality show.
Piero soltou um suspiro ao alcançar a área da piscina. Mesmo em forma, subir aquelas escadas ainda cobrava seu preço.
Ele atravessou o espaço quase vazio, passando por algumas espreguiçadeiras abandonadas, e seguiu em direção ao lobby, pronto para finalmente ir para o quarto.
Ao se aproximar da entrada, precisou desviar de uma van parada.
Foi então que notou o pequeno grupo reunido ali.
Cerca de oito pessoas. Sete homens e uma mulher.
E, sem muito esforço, os olhos dele foram direto para ela.
O vestido rosa de florezinhas brancas chamava atenção sem precisar pedir. O comprimento batia nas canelas, contrastando com um All-Star preto de cano baixo. Mochila nas costas, mala de bordo com uma capa estampada com a bandeira do Brasil.
Simples. Diferente.
Ela virou o rosto para falar com alguém, e foi aí que ele reparou melhor — o coque meio bagunçado, os óculos de grau, o jeito leve.
E, sem perceber, ele sorriu.
— Piero!
Ele piscou, como se tivesse sido puxado de volta, e se virou ao ouvir a voz de Ignazio se aproximando.
— Ei…
Ignazio parou ao lado dele, apoiando uma mão em seu ombro, analisando sua expressão.
‘Tá tudo certo, amigo? Não queria te irritar lá na praia.
‘Tá, ‘tá… tudo certo — respondeu, rápido demais.
Mas seus olhos já tinham voltado para o mesmo ponto.
A garota de vestido rosa passava por eles naquele momento, puxando a mala com uma mão, completamente alheia.
— Tudo… bem…
Ignazio acompanhou o olhar.
E sorriu.
— Hum. Acho que minha previsão já aconteceu.
Piero soltou um suspiro, cruzando os braços.
— O quê? Não. A gente veio para a competição, só isso.
— Ai, como você é chato.
— Ignazio…
— Faz tempo que esse coração não esquenta, hein? — provocou, esfregando o punho de leve no peito dele.
Piero afastou a mão dele, incomodado.
— Para com isso.
Ignazio inclinou a cabeça, ainda olhando na direção dela.
— Vai lá falar com ela.
Piero hesitou, o olhar indo e voltando.
— Ela pode ser da produção.
— Ou pode não ser — Ignazio deu de ombros, como se fosse irrelevante.
Piero passou a mão pelo cabelo, nervoso.
— E o que eu falaria?
Ignazio parou.
Virou o corpo inteiro para ele.
— Você ‘tá falando sério?
Piero deu de ombros, evitando contato visual.
‘Tô.
Ignazio respirou fundo, segurando um sorriso.
“Ciao, come stai?” — disse, pausando entre as palavras. — Simples.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Ou melhor… “como vai você?”
O português saiu natural.
Piero franziu a testa.
— Como… o quê?
Ignazio apontou discretamente.
— Ela está com a bandeira do Brasil, não ‘tá? Pode ser brasileira.
Piero olhou de novo.
Ela já estava se afastando.
O tempo pareceu acelerar.
— Ela está indo embora…
Ignazio não hesitou.
— MOÇA!
Piero virou na hora, o coração disparando. Ignazio fugia.
— Tchau!
E saiu andando, rápido demais.
— Ignazio! — Piero murmurou, baixo, sem conseguir esconder o desespero.
Mas já era tarde.
Ela tinha virado.
E agora estava olhando direto para ele.
O mundo ficou silencioso por um segundo.
Hum… ciao… — ele tentou, sentindo a própria voz mais baixa do que gostaria.
Ela respondeu com um sorriso discreto, curioso.
Ciao…
Piero engoliu seco.
Era só uma frase.
Só uma frase.
— Co… como vai você?
O sorriso dela se abriu de verdade.
Reconhecimento.
— Eu estou bem. E você?
Português. Fluente. Natural.
E, de repente, ele não sabia mais nada.
A cabeça vazia. As mãos suando.
— Eu… io…
As palavras travaram na garganta.
O coração batia rápido demais, alto demais.
Ridículo.
— Eu tenho que ir.
Saiu rápido. Automático.
E antes que pudesse pensar melhor, ele já estava se afastando, passos largos demais para alguém que claramente estava fugindo.
— Era o cara do Il Volo? — um dos rapazes se aproximou dela.
Ela ainda olhava na direção em que ele tinha desaparecido, com um sorriso preso nos lábios.
— Era…
— O que ele queria?
Ela soltou uma risada leve, balançando a cabeça.
— Sabe que eu não sei?
— Eu hein! Vamos, liberaram o check-in.
Ela assentiu, ajustando a mochila no ombro.
Mas, antes de entrar, olhou mais uma vez para trás.
E sorriu sozinha, como se estivesse guardando aquele momento.
Sem nem imaginar que não seria o último.

— Então? — Ignazio praticamente saltou do lugar quando Piero entrou no quarto.
Piero nem respondeu de imediato.
Bateu à porta com mais força do que o necessário e caminhou direto até o sofá, se jogando nele como se tivesse corrido uma maratona.
— Então nada, né?!
Ignazio franziu a testa, acompanhando cada movimento.
— Como assim nada? Você não falou com ela?
— Ah, eu falei! — Piero respondeu, jogando o corpo de qualquer jeito no sofá, ocupando mais espaço do que precisava.
Ignazio se aproximou, desconfiado.
— Qual é o problema, então?
Piero passou a mão no rosto, claramente irritado.
— Eu não sabia o que responder!
Ignazio piscou, sem entender.
— Como assim?
Piero se sentou um pouco, imitando a cena, já impaciente.
— Eu perguntei “como vai você?” — disse, mudando o sotaque pro português — e ela respondeu “estou bem, e você?”
Ignazio esperou.
Um segundo.
Dois.
— …E?
Piero olhou pra ele, indignado.
— E eu não sabia o que responder!
Silêncio.
Ignazio ficou alguns segundos completamente parado, processando.
— Você não sabia o que responder… a um “tudo bem”?
Piero arrancou os óculos e afundou o rosto numa almofada.
— EU TRAVEI, OK?!
Ignazio passou as mãos pelo cabelo, andando de um lado para o outro.
— Mas é literalmente a pergunta mais fácil da história! Você podia falar qualquer coisa! “Bene, grazie”, “tudo bem também”, até um aceno servia!
Piero levantou um pouco a cabeça, ainda segurando a almofada.
— Eu sei!
— Então por quê?!
— Porque eu não estava esperando!
Ignazio parou no meio do quarto, encarando-o.
— Se for para esperar, entra num Tinder! — rebateu, apontando pra ele. — A vida ‘tá acontecendo, Piero!
Piero respirou fundo, tentando se acalmar.
— Eu sei… eu sei…
Ele jogou a almofada no chão e colocou os óculos de volta, passando a mão pelo rosto.
— Ela deve ser hóspede. Parecia que estavam fazendo check-in… eu posso tentar de novo, sei lá…
Ignazio virou o corpo pra ele, estreitando os olhos.
— O que você fez quando ela respondeu?
Piero evitou o olhar por um segundo.
— Eu… tentei responder.
Ignazio já começou a negar com a cabeça.
— Mas…
— Eu travei.
— Claro que travou.
— E aí eu vim atrás de você.
Ignazio fechou os olhos por um instante, levando a mão à testa.
— Ah, Madonna…
Ele se jogou no sofá oposto, derrotado.
— Minha Virgem , me ajuda.
Piero não respondeu.
Só puxou a almofada do chão de volta e apoiou no rosto, como se pudesse desaparecer ali mesmo.

ainda estava sorrindo quando entrou no quarto.
Não por muito — só aquele resquício leve de algo inesperado e completamente engraçado.
A mala foi deixada perto de um sofá, a mochila escorregou do ombro, e ela soltou um suspiro curto, olhando ao redor pela primeira vez com calma.
— Bonito. Grande… — murmurou, rindo em seguida.
— Melhor do que muitos quartos de hotel que a gente já pegou, hein? — Brian comentou, jogando o casaco em cima da poltrona.
— As coisas estão melhorando, vai… olha onde a gente ‘tá — ela respondeu, ainda sorrindo, vendo Elijah, Mason e Jackson entrarem logo atrás. — Isso aqui é praticamente uma casa.
— Então… — Brian se virou pra ela, já com aquele tom suspeito — vai me explicar o que foi aquilo no lobby?
virou o rosto, ainda distraída, tirando o tênis com um leve alívio.
— Aquilo o quê? — ela riu, se fazendo de desentendida.
— O cara do Il Volo falando português com você e depois… fugindo?
Ela soltou uma risada baixa.
— Eu também queria entender.
— O que aconteceu? — Elijah perguntou, curioso.
— O cara do Il Volo, aquele de óculos…
— Ah, o do vozeirão? — Mason perguntou na hora, e Brian assentiu.
— Esse mesmo — confirmou, rindo.
— Ele chegou na , falou alguma coisa e… sumiu! — Brian completou, arrancando risadas do resto.
— O que ele falou? — Jackson perguntou, cruzando os braços e encostando na parede.
ficou em silêncio por um segundo, revivendo a cena.
Então imitou, com cuidado:
— “Como vai você?”
A reação foi imediata.
Confusão geral.
— E…? — Jackson insistiu.
— E você respondeu? — Mason completou.
— “Estou bem, e você?” — ela deu de ombros.
— Aí ele… foi embora — Brian finalizou, ainda incrédulo.
Silêncio.
— Só isso? — Elijah perguntou, sem acreditar.
— Só isso — confirmou.
Ela puxou uma mecha solta do cabelo, enrolando no dedo, pensativa.
— Estranho.
— Estranho bom ou estranho ruim? — Mason perguntou.
Ela pensou por um segundo a mais do que deveria.
E, sem perceber, sorriu de novo.
— Estranho… curioso.
Jackson soltou uma risada leve.
‘Tá bom. Já vi esse filme.
Ela revirou os olhos, jogando uma almofada na direção dele.
— Para.
— É, para mesmo — Elijah se jogou ao lado dela. — Depois daquele alemão mala, você merece um pouco de emoção na vida. Vai, gata, me conta todos os babados — completou, apoiando o queixo nas mãos, piscando exageradamente.
franziu a testa, segurando o riso.
— Eu vou tomar banho — decretou, se levantando.
Pegou a mala e caminhou até os quartos.
Observou rapidamente — alguns duplos, um individual.
Como sempre, escolheu o individual.
Fechou a porta.
E, quando finalmente ficou sozinha, o silêncio trouxe a cena de volta.
O jeito travado.
O sotaque.
A tentativa.
Ela mordeu de leve o canto do lábio, pensativa.
— Como vai você… — repetiu baixo, quase testando o som.
E, dessa vez, o sorriso veio sem esforço.
— Pelo menos ele tentou...

— O quê?! — Gianluca Ginoble riu mais do que deveria, jogando a cabeça para trás. — Mah, Piero! No!
Piero revirou os olhos, já arrependido de ter contado.
— Não sei por que tanto escândalo. Todo mundo já travou assim!
— É, claro… com 11 anos! — Ignazio Boschetto fez uma careta exagerada, arrancando outra risada de Gianluca.
— Como você conseguiu namorar a Valentina mesmo? — Gianluca provocou, ainda rindo.
Piero respirou fundo, desistindo.
— Eu vou me servir.
Empurrou a cadeira para trás e se afastou antes que viessem mais provocações.
O buffet era enorme. Opções demais para alguém que nem estava com tanta fome assim.
Mas qualquer coisa era melhor do que ficar ali sendo alvo.
Pegou um prato, analisando sem muito interesse, e acabou colocando algumas folhas de alface — mais por obrigação do que por vontade.
Foi então que alguém passou ao lado.
E ele reconheceu.
A garota.
A mesma do lobby.
Por um segundo, até prendeu a respiração.
Ela seguiu até o outro lado do buffet, parando na parte japonesa. De costas para ele, tranquila, como se o mundo estivesse exatamente no lugar certo.
Ainda usava o vestido rosa de bolinhas brancas — agora com chinelos nos pés.
Simples.
E, ainda assim…
Piero desviou o olhar rápido demais.
Virou o corpo, voltou para a mesa sem nem perceber direito o que estava fazendo. Uma folha de alface caiu do prato no caminho.
— É ela! — sussurrou forte, sentando-se ao lado de Gianluca.
— Quem?
— A garota! — apontou discretamente. — É ela!
Gianluca olhou de relance, tentando não ser óbvio.
— Ela parece fofa…
— Ela é bonita — comentou Ignazio, fazendo um gesto de aprovação com a mão.
— Para! — Piero reclamou.
— Eu ‘tô sendo educado!
Ignazio revirou os olhos.
— Viu? Uma nova oportunidade para você.
— Eu não vou falar com ela.
— Por quê? — Gianluca entrou na conversa. — Qual é, talvez o Ignazio esteja certo. ‘Tá na hora de mexer um pouco esse coração.
Piero soltou o ar devagar.
— E se eu travar de novo?
— É só lembrar: “estou bem também, obrigado” — Ignazio respondeu, sarcástico.
Piero passou as mãos na bermuda, já sentindo o nervosismo voltar.
— Eu não sei se consigo…
— Quer companhia? — Gianluca sugeriu, se inclinando pra frente. — Posso fingir que vou pegar comida japonesa.
Ele fez uma pausa.
— O que, inclusive, não é fingimento nenhum.
— Ah, merda…
Andiamo! — Gianluca levantou, puxando Piero junto.
Piero respirou fundo algumas vezes enquanto caminhavam.
— Você ‘tá ótimo. Relaxa — Gianluca murmurou, já se aproximando do balcão.
Ciao! Tem sashimi de atum, por favor?
virou automaticamente ao ouvir a voz.
Reconheceu na hora.
— Claro!
Ela agradeceu ao sushiman, pegando o prato, e se virou.
— Ei!
Os dois pararam.
Piero congelou por meio segundo.
— Ei… — respondeu, com um sorriso nervoso. — Co… como vai você?
O sorriso dela se abriu de novo.
— Eu estou bem. E você?
Piero travou.
De novo.
— Eu…
Gianluca arregalou os olhos ao lado, já prevendo o desastre.
— Eu…
pressionou os lábios, já entendendo o que estava acontecendo.
— Estamos bem! — Gianluca entrou rápido. — Estamos ótimos!
Ele sorriu, tentando salvar a situação.
— O sushi está bom?
Ela desviou o olhar para ele.
‘Tá sim… o hossomaki com cebola crispy está ótimo — respondeu, rindo leve.
Mas, quando olhou de volta para Piero, ele ainda parecia preso no mesmo lugar.
O sorriso dela vacilou por um instante.
Quase imperceptível.
Ela suspirou de leve.
— Até mais… buon appetito.
Buon appetito! — respondeu Gianluca.
Ela se afastou, seguindo para a mesa.
— Dois a zero, Piero.
— Argh! — ele passou as mãos no rosto, frustrado.
Gianluca bufou, pegando o prato.
— O que acontece com você, hein?
Piero virou o rosto na direção dela, vendo-a sentar com outros homens.
— Ela é linda.
— É. E simpática. E claramente te deu abertura. E você…?
Piero soltou o ar, derrotado.
— Eu sou um idiota, né?
— Quer que eu responda? — Gianluca pegou o prato do sushiman.
— Aqui, senhor.
Grazie — respondeu, voltando para a mesa.
Ignazio já os esperava, ansioso.
— Então…?
— Não! Travou de novo!
— Que merda, cara! — Ignazio passou a mão no rosto. — O que ela é? Afrodite, por acaso?
Piero afundou a cabeça na mesa.
— Talvez…
Ignazio estreitou os olhos, olhando na direção dela.
— Eu tenho a sensação de que conheço essa mulher de algum lugar…
Piero levantou a cabeça na hora.
— Não vai dizer que você já namorou com ela.
— Nã-ão! Para! — Ignazio riu. — Só parece alguém…
Gianluca inclinou a cabeça, pensativo.
— Competidora, talvez?
Ignazio acompanhou o movimento do vestido rosa se perdendo entre as pessoas.
— Talvez…, mas não sei…

Capítulo II

A manhã começou normal.
Sem alarde, sem fãs — só Gianluca e Ignazio falando na orelha dele como sempre. Ainda assim, havia algo em seus pensamentos que o deixava inquieto.
A garota do vestido rosa com florezinhas brancas.
Piero soltou um suspiro mais pesado ao perceber para onde sua mente tinha ido. Passou a mão pela testa, ainda em choque com o que tinha acontecido no dia anterior.
Ou melhor… com o que não tinha acontecido.
Fazia dois anos desde seu último relacionamento. E, tentando lembrar de como tudo havia começado nas outras vezes, ele não se recordava de ter passado por algo tão… ridículo.
O nervosismo? Normal.
As borboletas no estômago? Esperado.
Até a vontade de vomitar, dependendo da situação.
Mas, pelo menos, ele sempre conseguia passar do “como vai você?”
Com Valentina, por exemplo, tinha sido tudo tão simples. Eles se conheceram por amigos em comum, ligados ao futebol — ela, filha de um técnico italiano — e a conversa simplesmente… fluiu.
Pensar no que aconteceu no dia anterior era quase um soco no próprio ego.
Piero se levantou, colocou os óculos e seguiu até o banheiro.
Cuidou da rotina matinal, se arrumou e, pouco depois, encontrou Gianluca e Michele, seu empresário, já sentados à mesa de café da manhã, montada na área interna do hotel.
Buongiorno! — cumprimentou, puxando uma cadeira.
Buongiorno, Pierito! — Gianluca respondeu, sorridente. — Bons sonhos?
Piero lançou um olhar firme na direção dele e ignorou completamente, servindo-se de café.
— Isso é um sim? — Gianluca provocou.
Piero apenas suspirou.
— Por que o café aqui hoje?
— Hm… queria ver um certo alguém logo cedo? — Ignazio apareceu vindo do quarto, com um sorriso suspeito.
— Não. É uma pergunta honesta — Piero respondeu, já irritado.
Ignazio riu, dando um beijo rápido na cabeça dele antes de se sentar.
— Calma, é brincadeira.
— Na verdade, a pergunta é válida — Michele interveio, apoiando os braços na mesa. — Hoje começa oficialmente a competição. A partir das oito da manhã até as cinco da tarde, sempre que estiverem fora dos quartos — com exceção de gravações noturnas — vocês poderão ser filmados. E esse material pode ir para a edição final.
Os três assentiram ao mesmo tempo.
— Às dez horas, depois do café, teremos uma reunião na sala de convenções com a produção. Vocês vão conhecer melhor as regras, os outros Competidores e possíveis Compositores. Essa parte não será filmada, então aproveitem para tirar dúvidas.
— Certo — Piero respondeu automaticamente, já entrando no modo profissional.
— Você tem ideia de quem são os Compositores? — Ignazio perguntou.
— Os cantores são o top 10 de Sanremo, então isso vocês já sabem — Michele respondeu. — Mas os Compositores… — ele fez um gesto leve com a cabeça — vieram de vários lugares. Inclusive de fora da Itália. E de estilos bem diferentes.
Ele estendeu uma prancheta.
Piero pegou, passando os olhos pelos nomes.
Alguns conhecidos. Outros completamente novos. Alguns individuais. Outros que pareciam nomes artísticos de bandas.
— Tem Giani Marcello… — comentou. — Ele é lírico também.
— A combinação seria perfeita — Gianluca disse, pensativo.
Michele riu.
— Duvido que seja tão fácil assim.
Ele se levantou, já se preparando para sair.
— Serão três apresentações: uma de apresentação, uma que servirá como videoclipe e a final, com a música composta para vocês.
Giusto! — os três responderam juntos.
— Terminem o café e se arrumem. Eu volto para acompanhar vocês.
Grazie! — disseram quase em uníssono.
Michele se afastou.
Por alguns segundos, o silêncio voltou à mesa.
— Vamos lá, né… — Ignazio comentou, pegando sua xícara.
Andiamo… — Piero respondeu.
Mas sua mente já não estava mais ali.
Ou melhor…
Estava presa em alguém.

— Isso não vai ser televisionado mesmo, né? — colocou a cabeça para fora do quarto.
— Não. Pode ir de mesmo — Camille respondeu, sem tirar os olhos do celular.
— Daqui a pouco a gente vai começar a falar da como se fosse um sexto integrante da banda — Jackson comentou, vestindo a jaqueta de couro.
— Bem… meio que é, né? — riu, prendendo o cabelo só na parte de cima, deixando o restante solto sobre os ombros.
— Seu próprio “No Pique de Nova York” — Brian comentou, divertido.
é Jane, é Roxy. ‘Tá tudo certo — ela respondeu, passando um batom claro nos lábios.
— Eu acho que ‘tá mais pra “Operação Cupido” — Mason provocou.
inclinou a cabeça para fora do quarto e lançou aquele olhar.
O olhar de .
Mason levantou as mãos na hora.
— Qual é, ! Ele tentou de novo…
— E travou! — Elijah gargalhou, puxando os outros junto.
— Mano, ele é muito desajeitado! — Jackson riu.
— E eu achando que era ruim! — Brian completou.
— Já acabaram? — a voz de veio mais firme, cortando o corredor.
As risadas cessaram quase instantaneamente.
— Nunca erraram na vida, não? — ela continuou, cruzando os braços. — Ele pode não ser bom no flerte…
Fez uma pequena pausa.
— Mas tem a voz de um anjo.
E voltou para o quarto.
— Ih… — Mason soltou baixo, olhando para os outros.
— Se foderam — Camille comentou, ainda no celular.
— Que nada! — Mason rebateu. — Ela se interessou.
Ele ajeitou a gravata frouxa no pescoço.
— E, sinceramente, agora até eu ‘tô curioso pra ver onde isso vai dar.
— Bem… temos duas semanas pra descobrir — Elijah disse, mais tranquilo.
— Doze dias — Jackson corrigiu.
Eles assentiram.
— Mas ela tem razão — Brian comentou. — O cara tem uma voz absurda.
— Queria eu cantar daquele jeito…
— É, amigo… sorte a sua que manda bem na guitarra — Elijah deu dois tapas nos ombros dele.
— E na voz divina que quebra vidro — Jackson completou.
— Obrigado pela parte que me toca — Mason revirou os olhos.
— Prontos?
voltou para a sala.
Saia abaixo do joelho, camiseta por dentro e o All-Star de sempre — dessa vez, sem meia.
Simples.
E ainda assim…
— Vamos — Brian disse.
— Sua braguilha ‘tá aberta — Camille comentou, sem olhar.
— Como você sabe?! — Brian puxou o zíper, indignado.
Camille deu de ombros, já caminhando na frente.
— Talvez eu seja um anjo.
— Ha. Ha. Ha — Brian respondeu, sarcástico, indo atrás dela.
O restante seguiu logo depois.

Enquanto caminhavam pelos corredores do hotel ao lado de Michele, Piero, Ignazio e Gianluca chamavam atenção — mesmo sem tentar.
Talvez fosse o peso do nome.
Talvez a presença construída ao longo dos anos.
Ou simplesmente o fato de serem… quem eram.
Nem as roupas casuais daquele dia diminuíam isso. Pelo contrário.
Calças, camisetas, jaquetas e tênis. Simples.
E ainda assim, diferentes.
O Il Volo não era só uma banda.
Era uma presença.
Ao entrarem no salão de convenções, alguns rostos conhecidos surgiram imediatamente.
Irama. Annalisa. Ghali.
Colegas de profissão. Alguns mais próximos, outros nem tanto — mas todos relevantes dentro da música italiana.
— E aí, galera? — Ignazio cumprimentou Irama, que abriu um sorriso na hora.
— Ei, ragazzi!
Abraços, cumprimentos, risadas rápidas.
Por alguns minutos, parecia apenas mais um encontro entre artistas.
Até entrarem de fato no salão.
As cadeiras já estavam quase todas ocupadas.
Mas não pelos cantores.
Compositores.
Desconhecidos.
As expressões mudaram automaticamente.
Estranhos.
O pensamento era coletivo.
Eles seguiram pelo corredor central, se dividindo entre os lados.
Foi então que aconteceu.
Piero passou por uma das fileiras… e parou.
Ou melhor — não parou.
Mas seu olhar sim.
Ela.
Os cabelos claros agora soltos, levemente ondulados nas pontas. Roupa diferente da noite anterior, mas o mesmo ar tranquilo.
O mesmo olhar.
percebeu.
E sorriu.
O mesmo sorriso leve das outras vezes.
Simples. E direto.
Ela ergueu levemente a mão em um aceno.
Piero travou por um segundo inteiro.
Só desviou quando esbarrou em Ignazio.
— Ei, cara! — Ignazio riu.
— Desculpa… — Piero murmurou, ajeitando os óculos. — Não vi.
Ignazio seguiu o olhar dele.
E encontrou o motivo.
ainda olhava na direção deles.
Sorriu de leve também.
— Eu sabia que conhecia ela de algum lugar… — Ignazio sussurrou, se sentando ao lado de Piero. — Ela canta.
Piero apertou o apoio de braço, sentindo as mãos suarem.
— Pelo visto… — respondeu baixo. — Você sabe quem é?
— Não reconheci o nome na lista… — Ignazio se inclinou, tentando olhar de novo. — Será que dá para tirar uma foto—
Piero deu um tapa leve nele.
— Olha para a frente!
Ignazio riu, se ajeitando.
— Ela ‘tá aqui — Gianluca comentou do outro lado.
— Eu vi… — Piero suspirou.
— Isso vai ser interessante…
— Cala a boca — ele respondeu, baixo.
Cerca de dez minutos depois, o salão estava cheio.
Cantores, Compositores, equipes.
Difícil dizer quem era quem.
Talvez cinquenta pessoas no total.
— Bom dia a todos.
O organizador subiu ao pequeno palco.
— Eu sou Amadeus Garcia, e agradeço a presença de todos no Taormúsica. Uma espécie de… férias pós-Sanremo.
Alguns riram.
— A competição começa oficialmente hoje. E sim, também somos um reality show.
Alguns olhares foram trocados.
— Das oito da manhã às cinco da tarde, vocês poderão ser filmados. Ensaios, reuniões e até momentos de lazer. As apresentações noturnas também farão parte da transmissão dessas duas semanas.
— Doze dias… — Jackson cochichou ao fundo.
— A votação será aberta ao público, através do nosso site. Não teremos votação de jurados, mas teremos alguns músicos para apoio. Cada competidor será pareado com um compositor por sorteio. E a música final deverá ser criada exclusivamente pelo Compositor.
Alguns dos Compositores assentiram.
— O Competidor pode sugerir tom, harmonia, direção…, mas não interferir diretamente na letra.
Um Competidor levantou a mão.
— E se os estilos forem completamente diferentes?
Amadeus sorriu.
— É exatamente isso que queremos.
Algumas risadas surgiram.
— A música deve ser criada durante essas duas semanas. Nada de material prévio. Teremos verificação de arquivos, dispositivos e qualquer outro recurso necessário.
Agora, os Compositores reagiram mais seriamente.
— Queremos autenticidade. Experiência real.
Ele fez uma pausa.
— Alguma dúvida?
— Como será feita a escolha das duplas? — Piero perguntou.
— Sorteio. Estilo Copa do Mundo. Pote A e Pote B.
— Quantas apresentações? — alguém perguntou.
— Três. Uma de introdução, uma de interlúdio e a final, que será a música criada.
— E os Compositores? — levantou a mão.
Piero olhou na hora.
— A primeira e a segunda apresentações são livres, autorais é claro. A terceira, obrigatoriamente do Competidor.
— Senhor… que eu não pegue o Il Volo! — alguém brincou.
O salão riu.
— É um desafio — Ignazio respondeu, entrando na brincadeira.
Amadeus sorriu.
— Aproveitem esse tempo para se conhecerem. Depois, vocês estarão focados em suas duplas. Se precisarem de alguma dúvida, ainda estarei por aqui por mais uns minutos.
A reunião foi encerrada, e, como esperado… os conhecidos se reencontraram.
E os desconhecidos… permaneceram à parte.

analisou o salão inteiro durante uns dez minutos.
As vozes dos Competidores aumentaram e alguns Compositores até se cumprimentaram de perto, mas era como uma recepção de escola — todo mundo deslocado.
— Bem, tem um mar lindíssimo lá fora… eu que não vou ficar fazendo amizades. — comentou com sua banda, se levantando.
Nesse momento, o grupo de Il Volo, Ghali, Irama e Annalisa já havia combinado de almoçar junto e, também, se levantava das poltronas.
— Tem certeza? — Brian perguntou.
— Nunca foi meu forte fazer amizades, você sabe disso… — ela respondeu, ficando de costas para o corredor.
Brian a encarou, meio desanimado.
— Talvez seja bom pra gente…
— Pra corrigiu, e ele assentiu. — Talvez eu devesse ter me trocado, né?
Brian riu.
— É, talvez…
— Talvez da próxima ve—
Ela sentiu alguém esbarrar nela.
— Ah, me desculpe! — disse, virando-se.
Gianluca.
— Não se preocupe — respondeu, com um leve sorriso. Mal sabia que havia sido de propósito.
Logo atrás vinham Ignazio, Ghali, Annalisa…
E Piero, por último, ao lado de Irama.
lançou um pequeno sorriso na direção dele.
E, automaticamente, Piero se sentiu nervoso.
Ela o olhava.
Fixamente.
Não tinha como ser para outra pessoa.
Ele tentou sorrir, mas provavelmente pareceu um alce desdentado.
No segundo seguinte, sentiu um leve puxão na manga da jaqueta.
Virou o rosto, quase sem escolha.
— Não vai me perguntar como eu estou? — o italiano dela saiu tão natural que Piero já não sabia mais o que o afetava mais: o nervoso, o toque ou o idioma perfeito, mesmo com sotaque. — Eu não mordo, sabe… — ela completou.
Piero riu fraco.
— Me… — ele respirou fundo.
— Desculpe? — ela perguntou, sorrindo, claramente tentando deixá-lo à vontade.
— Sim… — ele assentiu. — Faz… faz um tempo.
— Como eu disse: eu não mordo — ela riu sozinha. — O Elijah, sim. E dói! — apontou para o baixista.
Piero não conteve a risada ao ver o aceno de Elijah.
— Então… você não vai perguntar?
— O-o quê? — Piero perguntou, nervoso de novo.
— Como eu estou. — mordiscou o lábio inferior.
— Sim… — ele riu de leve. — Eu só preciso lembrar…
Ela inclinou a cabeça, paciente.
— “Como…” — incentivou.
Piero engoliu seco.
— “Como…” — repetiu. — “Como… vai vo-você?”
— Eu estou bem. E você? — ela respondeu naturalmente, como antes.
— Estou bem… — ele repetiu em português, fazendo-a sorrir.
— Viu? Não foi mal.
Ele riu fraco.
— Sabe… tem um cantor brasileiro que chama Roberto Carlos…
— Eu o conheço… — Piero respondeu. — Canzone per te. Sanremo de 19—
— 68 — ela completou, e ele assentiu. — Ele tem uma música chamada “Como vai você?”. Escuta e me fala o que achou…
Ela deu de ombros.
— Eu vou… — ele respondeu, com um pequeno sorriso.
— A gente se fala depois — disse, sorrindo, antes de se virar e deixar o salão.
Piero ficou parado.
Completamente imóvel.
A banda dela observava, curiosa.
passou por Gianluca e Ignazio, que tinham acompanhado toda a cena, e acenou de leve ao passar.
Os dois esperaram até ela desaparecer pelo corredor.
Então olharam para Piero.
Ainda parado.
Agora com as bochechas visivelmente vermelhas.
— Ele falou — Gianluca comentou, rindo.
— Ele respondeu — Mason disse ao mesmo tempo, mais à frente.
— ISSO, CARA! — Ignazio gritou mais alto que o necessário, correndo para abraçar o amigo.
— Eu acho que preciso vomitar… — Piero sussurrou entre seus braços.
Ignazio se afastou dois metros na mesma hora.
— Não em mim!


Capítulo III

O primeiro dia de competição passou mais rápido do que o esperado.
As confraternizações e tentativas de amizade foram interrompidas assim que a responsabilidade resolveu aparecer.
Piero seguiu com seu grupo para o restaurante à beira da piscina. Ainda tentou acompanhar a banda de — com claras intenções de uma nova interação —, mas ela não estava ali.
A tranquilidade durou pouco.
Os e-mails com horários de gravações e apresentações chegaram para cada grupo — cantores e compositores — e, de repente, o tempo pareceu curto demais.
As reações foram as mais variadas.
A banda de saiu literalmente correndo da piscina, tropeçando em toalhas e espreguiçadeiras, causando risadas entre os hóspedes. Irama foi atrás deles, Annalisa já estava ao telefone com o empresário, e Ghali parecia o único realmente tranquilo.
Os três do Il Volo apenas se entreolharam.
Depois de uma turnê recente, aquilo não parecia exatamente um problema. Uma passada de Capolavoro e tudo se resolvia.
Foi então que ela passou.
Com muito mais finesse do que o restante da própria banda.
subiu pelas escadas que levavam à praia, com uma canga amarrada na cintura e uma camiseta larga cobrindo o corpo. Falava em um áudio, com um tom leve, quase distraído — como se não estivesse nem um pouco afetada pelo caos ao redor.
E sumiu para dentro do hotel.
— Bom… acho que devemos ir também, né? — Piero comentou.
Dessa vez, nenhum dos dois teve o que contestar.

Depois que cada um foi para um canto, ninguém mais apareceu nas áreas comuns do hotel.
As apresentações estavam marcadas para começar às oito da manhã. Seriam vinte apresentações, seguidas por momentos de interação com os apresentadores — então todos já sabiam que o dia seria inteiro dedicado a isso.
As apresentações começariam com os Competidores, exatamente na ordem do ranking do Festival de Sanremo. Começaria com Angelina Mango com “La noia”, depois Geolier com “I p' me, tu p' te”, em seguida Annalisa com “Sinceramente”, até chegar ao Il Volo com “Capolavoro”, na oitava apresentação.
Angelina se apresentaria apenas com a produção presente e, depois, se sentaria na plateia para assistir aos próximos — e assim por diante. Após os Competidores, todos assistiriam às apresentações dos Compositores, que eram, de fato, a grande surpresa da competição.
As apresentações aconteceriam no Teatro Ariston, fechado ao público, já que a transmissão só iria ao ar meses depois.
Mas isso não impedia que eles se amontoassem do lado de fora.
E eles se amontoaram.
Diversos fãs se espalhavam atrás das grades, com gritos e cartazes, esperando os artistas que chegavam praticamente um a um, a cada poucos minutos.
Quando Piero, Ignazio e Gianluca chegaram, as fãs foram à loucura.
Se dependesse apenas da votação popular, eles já teriam vencido várias vezes — inclusive com “Capolavoro”. Mas foi somente em 2015, com “Grande Amore”, que conquistaram esse feito.
Eles atravessaram o interior do teatro sob aplausos da produção, dos outros competidores e do som ambiente preparado pela equipe.
— Prontos? — Ignazio perguntou.
— Prontos! — Piero e Gianluca responderam juntos, e os três trocaram um abraço rápido.
— Em três, dois…
A produção sinalizou.
E eles entraram no palco.
As luzes mudaram de cor enquanto a música começava suave.
E Gianluca começou com o microfone em mão.

Io che sto seduto dentro a un cinema
(Eu sentado dentro de um cinema)
A sognare un po’ d’America e un po’ di casa tua
(Sonhar um pouco com a América e um pouco com a sua casa)
E mi chiedo sempre quanto durerà
(E eu sempre me pergunto quanto tempo isso vai durar)
Questo amore infinito che infinito non è
(Esse amor infinito que não é infinito)

Piero deu um passo à frente, e a luz o acompanhou.

Io che mi sentivo perso
(Eu me senti perdido)
Una vela in mare aperto
(Uma vela em mar aberto)
E all'improvviso tu, tu
(E de repente você, você)

O tom mudou.
Era a vez de Ignazio.
Cadi dal cielo come un capolavoro
(Cair do céu como uma obra-prima)
Prima di te non c’era niente di buono
(Antes de você não havia nada de bom)

E, então, no ponto alto, os três cantaram juntos.

Come se
(Como se)
Tu fossi l’unica luce a dare un senso
(Você era a única luz que fazia sentido)
E questa vita con te
(E esta vida com você)
È un capolavoro
(É uma obra-prima)

A música envolveu o teatro, arrepiando a plateia, abrindo sorrisos surpresos diante da potência vocal dos dois tenores e do barítono.
Inclusive .
Ela se escondia entre os espaços mais escuros da plateia.
A boca levemente aberta, exatamente como ficava ao ouvi-los no Spotify ou no YouTube — mas, ao vivo, a poucos metros de distância, era outra realidade.
Como é possível alguém cantar assim?
E olha que conhecia artistas de todos os tipos.
— Ele é incrível… — sua voz saiu baixa.
— Uhu-u-um… — Brian concordou, tão impressionado quanto ela.

E questa vita con te
(E esta vida com você)
Sì, la mia vita con te
(Sim, minha vida com você)
È un capolavoro
(É uma obra-prima)

se juntou aos outros competidores para aplaudir com força.
Os aplausos foram mais longos do que o esperado.
Mas não era surpresa.
Eles eram incríveis.
— É… agora é a nossa vez — Brian disse, dando dois toques leves no braço dela.
soltou um suspiro.
— Fodeu…

— Muito bem, ragazzi! – Gianluca falou, dando duas palmas rápidas.
— Vamos ver o que acontece, né?! – Ignazio falou rindo e eles saíram do palco.
Piero deu uma última olhada no teatro antes de sair, ainda com a energia da apresentação correndo pelo corpo. Um membro da produção os guiou até uma fileira específica na plateia.
— Aqui.
Eles se sentaram lado a lado: Piero no corredor, Ignazio no meio e Gianluca ao lado.
— E agora esperamos. – Ignazio comentou, já mais relaxado, virando-se levemente para Piero.
Mas Piero não estava relaxado.
As mãos estavam juntas no colo, esfregando uma na outra, inquietas. A expectativa tinha um nome agora.
Ou dois.
.
.
Enquanto esperavam, Alessandra Amoroso subiu ao palco com “Fino a qui”, seguida por Alfa com “Vai!”. As apresentações correram bem, seguras, dentro do esperado.
Então veio a segunda parte.
Os Compositores.
Agora era outro tipo de nervosismo. Gente que ninguém conhecia. Gente que precisava provar tudo em poucos minutos.
*Luca Ferretti abriu, seguro, com uma balada que parecia feita para tocar no rádio. Maya Kovács veio depois, diferente, quase etérea, com sons eletrônicos que deixaram parte da plateia confusa.
Diego Álvarez trouxe intensidade, palmas marcadas e um espanhol que ecoava pelo teatro.
Piero mal percebeu.
Cada nome anunciado fazia seu coração acelerar um pouco mais.
Até que—
— Nascida no Brasil, criada nos Estados Unidos em uma família de músicos, com 30 anos… ela traz o rock em sua essência... e sempre algo mais.
Uma pausa.
— Com vocês… !
… — o nome escapou dos lábios de Piero, quase em um sussurro.
As luzes se apagaram.
O teatro mergulhou no escuro.
Um segundo.
Dois.
O som metálico de uma corrente sendo arrastada ecoou pelos alto-falantes.
E então—
A guitarra explodiu.
As luzes acenderam de uma vez.
Os cinco estavam no palco, recortados entre luz e sombra.
E ela.
No centro.
Os cabelos loiros soltos, lisos, com mechas em rosa vibrante marcando a lateral da franja e as pontas. O delineado escuro, levemente borrado, destacava ainda mais o olhar — pesado, intenso. Uma gargantilha preta envolvia seu pescoço, contrastando com a pele clara.
A roupa não tinha absolutamente nada da garota do vestido de flores.
Calça de couro justa, marcada por correntes que tilintavam a cada movimento. Jaqueta pesada. Camiseta listrada por baixo. Luvas de couro sem dedos. Pulseiras pretas e rosas se acumulavam nos pulsos.
E presença.
Muita presença.

Take me, I'm alive
(Me leve, estou viva)
Never was a girl with a wicked mind
(Nunca fui uma garota com a mente maligna)
But everything looks better
(Mas tudo parece melhor)
When the Sun goes down
(Quando o Sol se põe)

A boca de várias pessoas se abriu. Mas a de Piero—
Simplesmente caiu.
Era informação demais.

I had everything
(Eu tive tudo)
Opportunities for eternity
(Oportunidades infinitas)
And I could belong to the night
(E eu poderia pertencer à noite)

Ela se movia sem coreografia. Sem marcação óbvia.
Sentia a música.
Cada passo fazia a corrente na cintura bater contra o couro, marcando o ritmo junto com a bateria. O corpo acompanhava as notas como se fosse parte delas.

Your eyes, your eyes
(Seus olhos, seus olhos)
I can see in your eyes
(Eu posso ver nos seus olhos)
Your eyes
(Seus olhos)

Então ela ergueu o rosto.
E o encarou.

You make me wanna die
(Você me faz querer morrer)
Piero parou de respirar.

I'll never be good enough
(Eu nunca vou ser boa o suficiente)
You make me wanna die
(Você me faz querer morrer)
And everything you love
(E tudo que você ama)
Will burn up in the light
(Vai queimar na luz)
And every time I look inside your eyes
(E toda vez que eu olho dentro dos seus olhos)
You make me wanna die
(Você me faz querer morrer)


Ignazio já acompanhava o ritmo com a cabeça, empolgado.
Ele sabia.
Agora sabia exatamente de onde a reconhecia.
.
Não .
não estava ali.
Ou talvez estivesse mais do que nunca.
A performance crescia.
Elijah no baixo, acompanhando nos vocais. Mason na guitarra principal. Brian na bateria, preciso. Jackson completando com outra guitarra e backing vocal.
Mas era ela que puxava tudo.
Que segurava tudo.
Que comandava.

I would die for you, my love
(Eu morreria por você, meu amor)
My love
(Meu amor)
I would lie for you, my love
(Eu mentiria por você, meu amor)
My love (make me wanna die)
(Meu amor (me faz querer morrer)


Piero acompanhava cada passo.
Hipnotizado.
I would steal for you, my love
(Eu roubaria por você, meu amor)
My love (make me wanna die)
(Meu amor (me faz querer morrer))
And I would die for you, my love
(E eu morreria por você, meu amor)
My love
(Meu amor)


Então—
Ela olhou diretamente para ele.
Não por acaso.
Sabendo exatamente quem estava ali.
Um sorriso mínimo surgiu no canto dos lábios.
“É agora.”
Ela jogou a cabeça para trás.
A música explodiu novamente.

Will burn up in the light
(Vai queimar na luz)
And every time I look inside your eyes
(Toda vez que eu olho dentro dos seus olhos)
(I'm burning in the light!) I look inside your eyes!
((Estou queimando na luz!) eu olho dentro dos seus olhos!)
(I'm burning in the light!) I look inside your eyes!
((Estou queimando na luz!) eu olho dentro dos seus olhos!)
You make me wanna die
(Você me faz querer morrer)


E então—
Escuro.
Silêncio.
Por um segundo longo demais.
Os aplausos vieram depois, puxados pelo som do teatro.
Ignazio foi o primeiro a se levantar.
Gianluca veio logo depois, rindo sem saber exatamente por quê.
A reação geral era clara:
Surpresa.
Admiração.
Choque.
E, em alguns casos… dúvida.
era incrível.
Mas definitivamente não era o que todos esperavam.
— Vem! – Ignazio puxou Piero para cima.
Ele se levantou no automático.
Ainda tentando entender.
As luzes voltaram, e fez uma leve reverência antes de sair do palco.
Os cinco desceram pelo corredor central.
Todos os olhares neles.
Quando passou pela fileira de Piero—
Ela piscou.
Simples.
Direto.
Como se dissesse: viu só?
Piero sorriu.
Bobo. Perdido.
Em choque.
Aquela não era a garota do vestido de flores.
E, ao mesmo tempo…
Era exatamente ela.

— UAU! Que show foi esse? — Amadeus surgiu novamente sob a luz. — E agora, o momento que todos esperavam: o sorteio! — posicionou-se no centro do palco. — Teremos o Pote A e o Pote B. Georgia fará o sorteio do Pote A e Luca ficará com o Pote B.
Ele explicava com clareza, em tom de apresentador de talk show, como se falasse diretamente para a plateia.
— Após o sorteio, nossos compositores terão apenas dez dias para elaborar música e letra para os competidores, que deverão apresentá-las neste mesmo palco. Essa música não pode ter sido criada antes, nem pode ter base em algo já existente. É permitida a ajuda de membros da banda, da produção, e os compositores também poderão contar com nossos músicos. — Amadeus indicou a banda da produção. — A sorte está lançada. Vamos lá?
Piero sentiu o peso daquelas palavras.
Ele não gostava de nada inesperado.
Sanremo era fácil. Os produtores entregavam opções, e eles só precisavam escolher o que combinava com eles — e com o festival.
Agora isso? Nada o preparava para o que poderia vir.
— ou — estava relaxada na poltrona, as mãos apoiadas sobre o cinto de correntes preso à calça. A experiência falava mais alto. Ela sabia lidar com pressão. Claro, ali estavam alguns dos maiores nomes da música italiana. Conflitos eram quase inevitáveis.
Mas ela estava pronta.
— Primeiro nome! — anunciou Amadeus. — Annalisa e Luca Ferretti.
Os dois se levantaram e seguiram pelo corredor central até o palco.
Um murmúrio percorreu a plateia.
Pop refinado e música lírica. Perfeito demais.
— Segundo! — Amadeus continuou. — Loredana Bertè e Rafa Torres.
Eles se encararam antes de caminhar.
Rock com rock.
Podia dar muito certo.
Ou muito errado.
— Terceiro! Irama e Sofía Ríos!
Ambos se levantaram surpresos — talvez animados, talvez não.
Indie folk com música latina. Intensidade e delicadeza.
— Quarto!
Os nomes foram sendo chamados, um a um.
Pessoas se levantando, reações contidas, outras nem tanto.
As mãos de Piero começaram a suar.
Cada vez mais.
Ignazio percebeu. Sem dizer nada, segurou discretamente a mão do amigo, tentando acalmá-lo.
— Ghali e Noah Whitaker! Mahmood e Kenji Watanabe!
E então—
— Il Volo!
Amadeus abriu o pote A.
Piero prendeu a respiração.
Sexto nome.
Ainda restavam vários Compositores.
Metade.
!
— O quê? — Piero murmurou, sem conseguir disfarçar.
— Pff… — Gianluca conteve uma risada.
Não por desrespeito.
Mas porque o destino claramente tinha senso de humor.
e sua banda se levantaram.
Ela trazia um sorriso brincalhão nos lábios.
Não fazia questão nenhuma de esconder que estava… gostando daquilo.
Ignazio puxou Piero discretamente para cima.
Sem escolha.
Eles seguiram pelo corredor central.
E, no meio do caminho, os alcançou, andando lado a lado com eles.
— Qual é… vai ser divertido — disse, em tom baixo, olhando diretamente para Piero.
Mas quem reagiu foi Ignazio.
— Ah, vai mesmo! — respondeu, rindo.
Elijah e Mason trocaram olhares, segurando o riso.
— Muito bom! — comentou Amadeus quando os dois grupos chegaram ao palco. — Sétimo...
Mas Piero já não ouvia mais.
Do outro lado, .
O cabelo claro com as pontas rosas.
O preto, as correntes, a postura relaxada.
Tudo nela gritava controle.
E isso o deixava… completamente sem o dele.
sustentou o olhar.
E aquele meio sorriso continuava ali, dançando nos lábios.
— Que os jogos comecem — murmurou Brian, ao lado dela.
deu um leve empurrão nele com o cotovelo.
— Ei. — repreendeu, baixinho.

*Todos os Compositores foram criados. Somente os Competidores que são o top 10 do Festival de Sanremo de 2024.

Continua...
Nota da autora
Oi, gente, tudo certo! Sejam bem-vindas à "Como Vai Você?", meu novo vício.
E vício mesmo, o tanto que eu escrevi só na primeira semana não está escrito! É loucura e empolgante ao mesmo tempo.
Para quem nunca ouviu falar no Il Volo, sugiro que dê uma chance para esses meninos lindos, fofos, engraçados e talentosos!
Para quem já conhece: vamos nos afundar juntos?
Aproveitem e não se esqueçam de deixar aquele comentário!
Beijos e até a próxima!
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