Revisada por: Júpiter
Última Atualização: 22/12/2025Terminamos em bons acordos, éramos amigos antes de nos envolvermos romanticamente e já era uma tradição fazê-lo passar os feriados conosco, porém desde que terminamos, Arthur ano após ano recusou os convites de minha mãe, como a pessoa educada e completamente psicologicamente saudável que era. Este ano foi diferente, e me pergunto se foi por causa do seu noivado.
Talvez ele quisesse mostrar para a noiva que a minha família era inofensiva e que era como uma família para ele também. Talvez ele quisesse receber a benção dos sobre a sua noiva, ou — esse era o meu palpite — ele estava esperando por uma oportunidade de esfregar sua noiva no meu nariz. Meu nariz simbólico e solteiro desde que terminamos há quase cinco anos.
E era por esse motivo que eu não estava a fim de ir ao Natal da família e estava me esquivando de todas as chamadas possíveis de minha mãe.
— Atende, por favor! Diz que eu estou em reunião! — Praticamente implorei para Kendra, minha melhor amiga, que ficava há algumas mesas de distância no escritório.
— Chega, , você vai ter que atender uma hora ou outra. Fala que você não vai e desliga. Depois você inventa alguma coisa.
— Você sabe que não é assim tão fácil, e... — O celular parou de tocar. Soltei todo o ar, fingindo que minhas pernas derretiam ao seu lado.
— Você é uma mole, isso sim. Anda, me deixa trabalhar e encara os fatos. Você vai ter que peitar a sua mãe em algum momento. — Ela abanou a mão e pegou o telefone do gancho, prendendo-o com o ombro.
— Eu não quero peitar ela — choraminguei sem me afastar.
— Nem eu!
— Vai lá, Kendra, eu te faço massagens nos ombros por uma semana. Compro seu café gelado preferido, aquele com creme de avelã... quem sabe eu não feche o seu carrinho de compras da Shein...
— Meu carrinho de compras tá em três mil, gata.
— Tá bom, então massagem, café e dois itens do seu carrinho, o que me diz?
— Não, vai pra terapia e supera os seus traumas de infância, pelo jeito são muitos, hein?
— Você é muito má comigo. — Meu celular voltou a tocar, dessa vez era chamada de vídeo. Virei o celular na direção de Kendra.
Fiz meu olhar de gatinho do Shrek.
Ela bufou e levantou a mão para tocar a tela do meu celular quando vi outra mão pegando meu celular, uma mão grande, branca e sardenta.
A mão do meu nêmesis, do calo em meu pé, do meu maior inimigo declarado daquela empresa. .
Ele atendeu a ligação, de frente para mim, e me agachei rápido, porque a primeira opção era que ele fosse me desmascarar bem ali na minha frente, virando a câmera.
— Bom dia, Sra. . — Sua voz retumbou em meus ouvidos, fazendo meu coração disparar em desespero.
— Bom dia, desculpe, esse é o celular da...
— Da , sim. Desculpe, é que ela está em uma reunião agora e deixou o celular comigo porque ela sabia que a sra. iria ligar. — estava... sorrindo? Eu nunca tinha visto seus dentes em todos aqueles anos de trabalho.
— Eu sei que ela está fugindo de mim! E quem diabos é você? — Minha mãe era um poço de sutileza, leveza e carisma.
— Ah, eu sou o , trabalho com a sua filha há...
— ?! Você?! — Fechei meus olhos, tentando me lembrar o quanto eu já tinha falado de para minha mãe, o suficiente para ela reconhecer o nome, disso eu tinha certeza. — Querido, se você soubesse o quanto fala mal de você, provavelmente não estaria fazendo favores a ela.
riu, riu de verdade, aqueles risos de jogar a cabeça para trás e passar a mão no cabelo. Perdi a linha de raciocínio vendo seu queixo bem delineado pela barba por fazer enquanto me levantava, fazendo sinal para que ele desligasse a ligação.
— Eu sei de tudo, Sra. , não se preocupe, ela vai ficar me devendo essa, massagens nos ombros, café durante uma semana, essas coisas... — Tentei roubar o celular de volta e ele apenas se esquivou. Minha mãe riu do outro lado da ligação.
— Tá bem, então diga a ela que estou esperando a confirmação de que ela vem.
— Ela vai! Ela já me disse isso, só está meio corrida aqui com as reuniões. — Meu coração parou. Eu morri, certo? É isso, tive um ataque cardíaco e morri. — Será que tem espaço para mais um? — O ouvi perguntando, mas meu corpo estava literalmente paralisado, como se eu estivesse vivendo meu pior pesadelo diante de meus olhos, como uma paralisia do sono.
— Ah, que maravilha! Não acredito que te convidou e nem me avisou, aquela safadinha! — A única funcionalidade que não estava comprometida em meu corpo era a respiração. Ao meu lado, Kendra estava tão boquiaberta quanto eu. , por outro lado, estava tão tranquilo e natural falando com minha mãe que nem parecia que tinha roubado meu cliente para se promover há alguns meses.
— Acho que é por isso que ela está te evitando, está com vergonha de admitir que convidou a pessoa que vivia falando mal, achou que a sra. não iria entender, sabe?
— é uma boba, você será mais do que bem-vindo, querido, obrigada por confirmar, viu?
— Muito obrigado, Sra. , foi um pra...
— AMOR! A VAI VIR E VAI TRAZER UM NA-MO-RA-DO! — O berro de minha mãe para meu pai, interrompendo , me fez acordar. Arranquei o celular de sua mão e desliguei a ligação.
— Qual é o seu problema?! — Enfiei o dedo em seu peitoral e senti a pontada de dor logo em seguida, o peitoral dele parecia pedra. Maldito.
— Você estava com um problema e eu resolvi. — Ergueu os ombros como se aquilo fosse a coisa mais simples do universo. — De nada.
— De nada? Eu não queria ir!
— Ouvi você dizer que não queria ir sozinha.
— Então além de idiota, você fica ouvindo as conversas alheias?
— Você não se esforça muito para esconder.
— Não é motivo para você interferir!
Argh.
ser idiota não era novidade, a novidade era o ter se intrometendo em assuntos particulares, ele nunca tinha atravessado essa linha e isso me assustava para caramba.
Como, em nome de Deus, eu iria ligar para a minha mãe e dizer que, além de não ir, também não iria? Que aquilo tinha sido uma brincadeira de mau gosto e que eu o continuava odiando por isso?
Não era uma tarefa difícil dizer que ele estava apenas sendo um babaca, mas eu teria que lidar com minha mãe sobre a verdade de qualquer jeito e lidar com Margareth não era fácil. Eu nunca fui muito boa com isso. Era serviço do meu irmão mais velho ser o cara que fazia tudo certo.
Eu gostava de compará-lo ao Ross enquanto eu era a Mônica quando o assunto era família.
— Desculpe, mas... podemos falar em particular? — perguntou ele, me pegando de surpresa, dando uma olhada significativa em Kendra que se divertia tanto que só faltava um balde de pipoca em seus braços.
Assenti e ele segurou meu braço com gentileza, me levanto até a copa.
— Eu preciso da sua ajuda. Também preciso de uma companhia para o Ano Novo. Achei que podíamos colaborar juntos.
Um calor subiu por seu pescoço, e ele ruborizou. Eu nunca o tinha visto daquele jeito.
— Você não podia ter me falado isso antes? Como uma pessoa normal? — bufei, irritada.
— Você teria aceitado?
— Não. — A resposta automática surgiu sem que eu sequer pensasse.
— Tá vendo? Caralho, . Nós dois precisamos de ajuda, será que é tão difícil assim? Eu sei que meus métodos foram pouco confiáveis, mas, se eu fizesse do jeito certo, você não aceitaria. Eu precisei usar o que eu tinha a meu favor e envolver a sua família.
— Você atura a minha família e eu aturo a sua? Sem brincadeirinhas?
— É só isso, eu juro. — Cruzou o dedo sobre o peito, ele usava uma camiseta de botões azul claros que realçava seus olhos claros.
É claro que aquilo era uma furada sem precedentes.
É claro que não tinha a mínima possibilidade de aquilo dar certo.
É claro que eu me arrependeria até o meu último fio de cabelo.
— Ok.
— Ok? Você concorda?
— Eu vou me arrepender profundamente disso, mas sim.
Para fechar com chave de ouro toda a esquisitice daquela situação, esticou a mão até mim.
— Natal e Ano Novo com a família, sem pegadinhas, sem brincadeiras idiotas, só... tentando sobreviver aos parentes? — perguntou ele, querendo se certificar de que a bandeira de trégua estava erguida. O que eu tinha a perder?
— Combinado.
— Alguma prévia que eu deva saber sobre a sua família?
Estávamos no meu carro, era uma viagem de duas horas até a Philadelphia, minha cidade natal. Tudo ali gritava que tinha algo errado: pondo sua mala ao lado da minha no porta-malas; usando uma jaqueta puffer com cachecol e touca; sentando-se no banco do carona, esfregando as mãos umas nas outras; seu olhar sereno enquanto eu dava partida no carro; ele levantando-se para abastecer o carro, depois trazendo meu salgadinho preferido de sal e vinagre. Nada daquilo se encaixava em “normal”. Ele sequer comentou sobre minha playlist com músicas natalinas de Glee.
— Minha mãe é uma pessoa difícil de agradar, mas é fácil de lidar. Puxe o saco sempre que puder. Meu pai é tranquilo, vai querer falar sobre a final do Superbowl, e você pode elogiar a árvore de Natal quando ele estiver presente, ele vai gostar.
— Faltam dois meses pra final.
— Fale isso e provavelmente ele vai responder com um “falta um mês, dois dias e trinta e cinco minutos”.
soltou uma risadinha pelo nariz.
— Tá bom, e o resto? Você tem um irmão mais velho, certo?
— Sim, Bruce. Ele parece ser um idiota, mas é gente fina. A sua mulher é insuportável, só faz comentários desagradáveis, mas deu à luz aos meus sobrinhos, que são a luz da minha vida.
— E qual é o motivo de você não querer ir? Sendo que todo ano você vai e adora deixar claro pra todo mundo do andar que os biscoitos de gengibre da sua mãe são os melhores do mundo?
Suspirei fundo, sabendo que aquela pergunta seria feita em algum momento. Eu tinha que falar a verdade para ele. Em algum momento aquilo iria surgir.
— Meu ex. Ele era um amigo da família e todo ano ele é convidado e rejeita educadamente. Esse ano ele ficou noivo e achou de bom tom aceitar o convite feito por educação.
— Que babaca.
— Nem me diga. Foi um término amigável, sabe? Éramos amigos de infância, então ele vivia lá em casa e vice-versa. Só que, desde que terminamos, ele não deu as caras, o que era de se esperar, por mais que meus pais sempre o convidassem para a Ação de Graças e sei lá mais o que, e agora que ele noivou eu achei... estranho pra caralho.
— Não é estranho, é escroto pra caralho. O cara quer esfregar na tua cara o relacionamento perfeito dele, ou o quê?
Aquilo tirou cinco quilos de peso das minhas costas, eu não podia ser a única que pensava daquele jeito. Kendra defendia que ele só queria a aprovação da minha família, já que a família dele é toda separada e quebrada, mas eu tinha sim as minhas dúvidas de que ele fosse ingênuo àquele ponto.
— Não é? Eu tentei explicar isso pra minha mãe, da primeira vez que ela me contou, mas ela levou para o lado de “você não superou ele ainda, querida?”.
— ...e superou? — perguntou depois de um longo período de silêncio.
— É claro que sim, como eu disse, foi um término amigável, mantivemos um contato educado de e-mails, dando felicitações de aniversário e datas comemorativas, tipo dia de São Patrício. — Eu realmente não tinha nenhum tipo de sentimento reserva por Arthur, éramos meros conhecidos à essa altura. Não sei por que estava interessado nisso, ele tinha que ficar do meu lado. — Normalmente, sou eu que respondo seus e-mails e não eu que envio. — Tentei finalizar meu atestado de boa ex-namorada.
— Quem manda parabéns no dia de São Patrício?
— Aparentemente, Arthur envia.
— Você é irlandesa?
— Não.
— Ele é irlandês?
— Não.
— Então ele talvez tenha tido dificuldade em terminar tão amigavelmente quanto você está defendendo.
— Que besteira.
— Eu juro que nunca ouvi falar de alguém que manda felicitações no dia de São Patrício para alguém que não é um entusiasta desse feriado.
— Como você sabe que eu não sou uma entusiasta desse feriado?
— Nunca te vi usando verde nesse dia — retrucou ele com indignação.
Espera, ficava notando a cor das roupas que eu casualmente usava no dia de São Patrício? Isso é no mínimo curioso.
— Verde não é a minha cor, não é algo exclusivo de São Patrício.
— Exatamente, mas se você fosse entusiasta desse feriado, você iria se esforçar para usar verde pelo menos nesse dia, não?
— Isso definitivamente não vem ao caso, porque ele está noivo.
Entramos em um silêncio sem estranheza pela primeira vez. pareceu engolir qualquer desculpa esfarrapada que eu dei, simplesmente porque aquilo não me dizia mais respeito. Meu único problema era ter que lidar com aquela situação sozinha, por isso estava há intermináveis semanas insistindo para que Kendra viesse passar o Natal comigo. Por fim, sabendo que ela não cederia, eu estava apenas pedindo para ela atender a ligação e dizer à minha mãe que eu não iria.
— E como vai ser a nossa relação? Sua mãe acha que somos namorados. Pelo menos foi isso que ela disse naquele dia... Você corrigiu ela?
Eu não teria um segundo de paz para ouvir os agudos natalinos de Mercedes Jones daquele jeito.
Juro que tentei corrigi-la, mas a cada ligação aquele assunto ficava mais insalubre, já que ela aparentemente tinha achado o homem mais bonito de toda a América do Norte. Por fim, aquilo me subiu um pouco à cabeça, já que era bom ser notada por minha mãe de vez em quando, principalmente no Natal, mesmo que aquilo não fosse um mérito realmente meu.
— Eu tentei corrigir, mas acabei forçando mais ainda a ideia de que eu estava me esquivando para te esconder, e agora a família inteira acha que somos namorados, então, por favor, você pode manter isso? Já que isso tudo é culpa sua. — Tirei os olhos da estrada para lhe encarar. estava sem a touca, os cabelos estavam bagunçados e o cachecol não estava mais enrolado em seu pescoço, apenas apoiado sobre os ombros. A ponta do seu nariz estava vermelha. Ele ficava meio apertado no meu Kwid, mas não fez nenhuma objeção. Já era loucura suficiente ter um carro em New York, eu não iria gastar com um carro enorme e pouco econômico só para ir visitar minha família nos feriados.
— Tudo bem, desde que a gente faça o mesmo no fim de ano.
— E qual é o mistério de fim de ano? Uma ex-namorada sem noção como o meu?
— Quando a gente passar pelo obstáculo da sua família, eu explico as peripécias da minha, não vamos sofrer com antecedência.
— Tudo bem, não é algo no estilo do filme “Corra!”, certo?
Ele soltou uma risada genuína, alta, clara e gostosa, que fez o interior da minha barriga tremer.
— Não. Prometo.
me ajudou com as malas enquanto ouvíamos os gritos de minha mãe lá dentro de casa.
— Se prepara pra bastante contato físico — murmurei, arrancando um sorriso minúsculo dele. Deus, eu nunca iria me acostumar com aquilo. Conhecia há pelo menos três anos e nunca tive um vislumbre de qualquer sorriso seu, e agora eu já estava me acostumando, inclusive ansiava para ouvir outra gargalhada sua. Aquele som mudou a química do meu cérebro.
— Filha, meu bem! — Minha mãe veio até mim primeiro, porque sabia que ficaria feio passar por mim sem me cumprimentar, mas eu podia ver seus olhos já brilhando na direção de .
— Oi, mãe. — Ela me apertou, depositando um beijo em minha bochecha.
— Você está linda, querida. Ganhou uns quilinhos depois que começou a namorar? — Passou as mãos delicadamente por minhas bochechas e deu um sorrisinho.
Ah, o Natal...
Meu pai vinha logo atrás, abanando a mão como se dissesse “só ignora”.
— Ai, meu, Deus, ! Você é ainda mais lindo pessoalmente! — Minha mãe voou no pescoço dele. a abraçou sem qualquer resquício de vergonha. — Como a nossa conseguiu pescar um peixe como esse?
— Não ouve a sua mãe, ela tá entediada aqui, porque Bruce e as crianças foram no Centro ver as casas decoradas. — Ele me abraçou e beijou minha testa. — Você está linda, minha filha.
— Obrigada, pai. — Eu sorri, vendo a sinceridade estampada no rosto de meu pai. Virei para trás e vi minha mãe ainda agarrada em . — Pode largar, mãe. Ele não vai fugir... ainda.
— Ai, ai, desculpa. É que ele está tão cheiroso.
Deus do céu, me ajuda aqui.
— Oi, Sr. , é um prazer. — esticou a mão para meu pai, que apertou meio desconfiado.
— Então você é o cara que fisgou o coração da minha garotinha?
Ele sorriu, meio sem graça.
— Estou tentando, sr. — brincou ele e meu pai riu.
— É isso mesmo, filha. Não pode deixar qualquer um entrar nesse coração.
Eu pisquei para meu pai, minha mãe agarrou um braço de depois que ele conseguiu pegar a minha mala e eu fiquei para trás com a mala dele.
Pelo menos era bem mais leve do que a minha.
— Vocês vão ficar no seu antigo quarto, tá bem? — minha mãe informou, levando seus olhos de para mim, depois voltando para ele e suspirando disfarçadamente.
— Desculpe, Sra. . — pigarreou. — Não tem outro quarto vago? Não quero ser mal-educado e...
— Primeiro, para você é Maggie, meu bem. Segundo, não somos inocentes de achar que vocês não fazem sexo, querido. Somos pais descolados, e mais, só temos quatro quartos e vamos ter quatro casais.
Puta merda, estava vivendo o plot que eu mais gostava de ler em livros de romance, mas quando isso passava para a vida real, não parecia ser tão divertido assim.
O olhar de caiu sobre mim e eu apenas ergui os ombros como se pedisse desculpas. Subimos as escadas até o meu quarto. Fechei a porta atrás de mim assim que ele passou.
— Caralho, caralho, me desculpa por isso. Que ideia péssima. Quer ir embora? Vamos embora, eu não sei onde tava com a cabeça, e... — agarrou meus ombros, abaixando o rosto na altura dos meus. Seus olhos azuis intensos me fitaram, tão próximos que notei padrões de ramificações que nunca imaginei ver na vida. Me lembravam o mar aberto, aquele azul escuro profundo.
— , tá tudo bem. Não tem nada de mais. Sua mãe é um pouco intensa e não tem noção de espaço pessoal, mas acho que consigo lidar com isso numa boa.
, ele nunca tinha me chamado assim. Ninguém me chamava assim.
Respirei fundo, soltando o ar pela boca. Isso o fez fechar os olhos por alguns segundos e pensei que pudesse estar com mau hálito, mas eu tinha recém pegado um chiclete de melancia no carro. De olhos fechados, finalmente notei que até suas pálpebras tinham sardas e seus cílios, suas sobrancelhas e qualquer outro pêlo em seu rosto eram ruivos.
Minha mãe não estava errada, era sim um cara bonito acima da média.
— Tem certeza? Acha que consegue aguentar quatro dias disso?
— Eu... É claro que consigo.
Aquela proximidade toda estava acabando com qualquer raciocínio lógico em mim.
Acorda, . Esse é o cara que roubou os seus clientes para ser promovido.
Ele pareceu perceber que eu estava incomodada e deu um fim à nossa proximidade. Senti meu corpo reclamar e fingi não perceber isso, o calor das suas mãos em meu ombro seguiu firme como se fosse um fantasma.
— Eu durmo no chão — explicou ele, abrindo sua jaqueta e revelando um suéter muito justo que não combinava com ele, mas parecia o tipo de roupa que a gente tem guardada só por precaução, achando que nunca vai usar, ou que vai usar por baixo de outra roupa mais bonita. Porém, por mais feio que fosse, aquele suéter me mostrou curvas e ombros que eu não estava esperando.
Desviei o olhar assim que o seu recaiu sobre mim, e eu mesma tirei minha jaqueta grossa de lã batida. Dentro de casa, com a calefação, o clima era bem agradável para uma roupa comprida, porém leve. Mantive meu cardigã. Ele trocou o suéter por um moletom azul.
— Não precisa, vai estar bem frio à noite.
— O chão é de carpete, acho que vou sobreviver.
— Se você estava sendo só educado, se ferrou, porque eu não vou insistir de novo.
Ele apenas sorriu sem mostrar os dentes enquanto passava por mim para sair do quarto.
Ajudamos minha mãe a fazer o jantar, cordeiro assado ao molho madeira, salada de aspargos, batatas ao murro e macarrão com queijo para as crianças.
foi atencioso com cada palavra que minha mãe dizia, respondeu cada uma de suas perguntas sobre a sua família e ajudou em cada detalhe que ela pediu, fosse para embalar os ossos do cordeiro com papel alumínio ou branquear os aspargos na manteiga.
Quando terminamos de pôr a mesa, ele já a tinha cativado o suficiente para que ela não achasse que ele estava sendo pago para estar comigo.
Meu irmão chegou com meus sobrinhos e a bruxa assim que acendemos as velas para deixar o clima mais aconchegante.
— E aí, pirralha. — Bruce me abraçou, tirando-me do chão e fazendo meus sobrinhos rirem do gritinho que eu dei. — O famoso — continuou, dando um aperto de mão tão forte em que o barulho das mãos ecoou pela sala de estar.
Dei um beijinho singelo em Ângela para não ser mal-educada, mas ela nem ligou porque seus olhos também estavam em .
— Famoso? Espero que só coisas boas... — brincou e meu irmão gargalhou.
— Ah, sim, as coisas boas variavam entre babaca escroto e desgraçado filho da puta.
Dei uma risada nervosa, sentindo meu rosto esquentar. O olhar de sobre mim fez um sorriso amarelo surgir automaticamente em minha boca.
— Alguma coisa pra dizer em sua defesa? — indagou ele, seu tom era divertido.
— A culpa não é minha se você era um babaca escroto mesmo!
— Vish, acho que pesei o clima.
— Mas agora você não é mais, meu amorzinho! — falei, levando minha mão em sua bochecha, acariciei e depois dei um tapinha leve. A sua barba por fazer roçou em minha pele fazendo um arrepio subir pela minha espinha.
— Tá bom, acredito... — brincou, segurando minha mão e dando um beijo estalado ali.
Nos sentamos à mesa depois que todos estavam devidamente apresentados.
Minha mãe puxou uma reza simples que sempre fazia parte das nossas pré-refeições, minha mão trocava calor com a mão de e de Ian, um de meus sobrinhos que estava sentado ao meu lado. De olhos fechados, me peguei pensando o que estava achando de tudo aquilo. Eu perguntaria quando chegássemos ao quarto.
Nos servimos e jantamos na maior santa paz até Ângela abrir o bico.
— Então, como os pombinhos se conheceram? Quero dizer, como se apaixonaram? Já que tudo que nós sabemos é que vocês se odiavam...
— Vou deixar o contar, ele gosta tanto de falar sobre isso. — Dei dois tapinhas em sua mão ao meu lado e ele riu, nervoso, cutucando minha perna com o pé por baixo da mesa.
— Bom, ahm, eu nunca odiei a . No começo, ela nem me notava, vejam só. Mas eu percebi que ela me notou em algum certo ponto, e não só me notou como me odiou. Eu realmente não sabia dizer o que eu fiz pra receber tantas caretas de ódio e tantas reclamações, bufadas e encontros desagradáveis no escritório. Mas aquilo ali foi alimentando alguma coisa dentro de mim e eu comecei a responder à altura as loucuras dela... A sua filha é meio louca, a sra. sabia? — perguntou ele em tom brincalhão, arrancando risadinhas de minha mãe. — Então... Em um certo dia eu decidi que não ia mais ficar aturando esse ódio gratuito dela e chamei ela pra tomar um café... Isso faz o que... uns... — Ele me olhou, pedindo ajuda.
— Oito meses? — arrisquei e ele sorriu, apertando minha mão sobre a mesa.
— Oito meses — confirmou.
— E o que foi que ele fez para você ter esse ódio tão mortal dele no começo, ? — instigou Ângela, como se não tivesse comprando a história completamente.
— Ah, isso são águas passadas, já conversamos o suficiente sobre isso...
— Tem certeza? — me encarou, uma das sobrancelhas erguidas. — Porque, se não é algo que te incomoda mais, acho que podemos falar mais uma vez, não é?
Maldito seja o momento que aceitei a proposta idiota desse idiota maior ainda.
— roubou um cliente meu para ser promovido, mas está tudo bem, nós já nos entendemos e...
Eu pude ouvir o gole em seco que deu ao meu lado, como se ele quisesse rebater aquilo, mas estava se segurando para não estragar nosso disfarce. Ângela nos olhava com um brilho esplêndido no olhar, como se tivesse plantado a sementinha da discórdia, como se fosse deitar a cabeça no travesseiro à noite e ouvir nossa discussão pelas paredes a noite inteira. Vaca.
Por esse motivo, continuei:
— Foi só um mal-entendido, não sabia que eram meus clientes e não sabia que ia rolar uma promoção com aqueles resultados... De qualquer maneira, sempre foi uma competição saudável entre colegas de trabalho.
discordaria da vez em que joguei um grampeador em sua cabeça. Ou da vez em que coloquei glitter por toda a sua mesa.
Ele confirmou com a cabeça, ainda meio vago demais.
— Afinal, não tem como ficar brava por muito tempo com um rostinho como esse, não é, mãe? — perguntei, apertando sua bochecha e depositando um beijinho ali em seguida.
O rosto dele se pigmentou de vermelho e todos na mesa riram, até as crianças.
— É verdade, filha, não sei como você aguentou tanto tempo.
Fechei a porta do quarto atrás de mim, soltando uma lufada alta de ar. A voz de minha mãe, que eu recém tinha encontrado no banheiro enquanto mostrava tudo lá para tomar uma ducha, ressoou em minha mente.
“Queridos, sei que falamos que podem dormir juntos, mas só quero te lembrar, , que seu quarto não tem chave e estamos com crianças na casa”. Seu sorrisinho malvado surgiu. “Sei que deve ser difícil aguentar perto desse sonho de consumo, mas você sabe como o Ian e o Liam são, né?”.
Eu tinha esquecido que meu quarto não tinha chave!
Será que era seguro arriscar com dormindo no chão? Eu não queria motivos para a vaca da Ângela ficar falando de nós com aquele seu sorrisinho cínico.
Fiquei sentada na cama, arrancando bolinhas de penugem da minha calça xadrez do pijama, esperando voltar.
— Por que o seu quarto não tem chaves? — Foi a pergunta que ele fez quando fechou a porta atrás de si. Ele usava um samba canção azul com uma camisa branca básica, seus cabelos vermelhos estavam escuros por causa da água.
— Meu pai nunca confiou muito em Arthur quando ele vinha aqui, então a regra da porta aberta era a regra número um da nossa casa quando eu era adolescente. Em algum momento, ele retirou as chaves e nunca devolveu, provavelmente deve ter perdido. Desculpa, eu realmente não lembrava, mas a cama deve ser confortável para nós dois, se você não se importar.
engoliu em seco, o pomo de adão subindo e descendo em sua garganta, me fazendo perder os olhos em seu pescoço por um instante.
A casa estava silenciosa por trás da porta e eu sabia que tínhamos que ter cuidado com qualquer conversa um pouco mais alta.
— Não me importo. — Sua voz estava baixa e gutural e me arrancou um arrepio sincero que tive que disfarçar esfregando as mãos em meus braços.
— Qual lado você prefere? — Indiquei a cama e ele avaliou por um segundo. — Esquerdo.
— Perfeito — falei, afofando o travesseiro do meu lado da cama. Ficamos em silêncio por vários minutos ensurdecedores enquanto eu já estava deitada na cama e ele terminava de arrumar suas coisas, passava desodorante, separava a muda de roupa que iria usar no dia seguinte, guardava as roupas usadas e, por fim, apagava as luzes.
Assim que ele se deitou ao meu lado, o seu cheiro de banho recém tomado me arrebatou e eu tive que morder os lábios para não soltar um gemido.
Caralho, . Esse é o cara que roubou o seu cliente. Estava começando a soar cada vez mais idiota aquela desculpa, e para terminar de jogar a pá de cal, a voz de ressonou pelo quarto silencioso:
— Eu não roubei o seu cliente. — Eu estava com as cobertas até o pescoço enquanto ele estava com os dois braços para fora da coberta. Com o canto de olho, notei seus braços sardentos reluzindo na pouca luz do abajur ao lado da cama.
— A Craig’s Company? Tem certeza?
— Absoluta.
Não respondi nada, porque eu tinha certeza de que estava falando com o gerente da Craig’s há um bom tempo antes de ele magicamente decidir fechar negócio com , lembro que as palavras de Kendra foram “maldito machista”.
— Eu não sabia que a CC era sua, foi o próprio Marvin que me disse que eles estavam livres, mas eu não sei te confirmar se ele fez isso de má fé ou se ele já sabia que eles eram teus.
Continuei em silêncio.
Eu acreditava nele, não sabia explicar o motivo, talvez a proximidade forçada, talvez o fato de ele não ter motivos sólidos para mentir para mim, talvez o fato de ele ter embarcado nessa aventura comigo, mas parecia diferente.
— O Marvin sabia que ele era seu cliente? — perguntou ele, diante do meu silêncio.
— Foi... foi o Marvin que me indicou eles. — Pigarreei, minha voz saindo craquelada por conta do tom mais baixo que estávamos usando.
Eu não sabia que Marvin era baixo a esse ponto.
Mais uma vez ficamos em um silêncio estranho, a respiração dele era baixa e ritmada, ambos olhando para o teto. O calor que emanava dele era surreal, enquanto meus pés pareciam pedras de gelo mesmo com as meias grossas.
— Me desculpe, . Eu não sabia, de verdade. Se soubesse, jamais teria pegado aquele cliente, eu não sou esse tipo de cara. — Ali estava o apelido de novo, saindo tão naturalmente dos seus lábios que eu já estava me convencendo de que ele não estava me chamando assim apenas na frente da minha família, é como se ele já me conhecesse com aquele apelido em sua cabeça.
— Tudo bem. Já passou tanto tempo que esse ódio idiota já podia ter parado. — Eu nem odiava de verdade, aquilo já tinha deixado de ser ódio e virado uma brincadeira questionável de escritório há muito tempo. Eu já tinha planejado colocar suas coisas em gelatina, pelo menos, umas dez vezes, era Kendra que sempre me impedia.
— Eu nunca te odiei. — Sua voz era suave agora, limpa, um sussurro em forma de calor. — Eu só gostava de te irritar.
— Isso era bem claro às vezes.
adorava pedir para o estagiário trocar o meu sabor de café, diminuir a fonte do meu laptop para eu ficar pensando que minha miopia tinha aumentado. Também adorava trocar meus utensílios de cor quando eu não estava olhando. A minha mesa tinha tantos objetos rosa que eu nem reclamava mais, post-it rosa, marca texto rosa, lápis com pom-pom rosa… no fundo eu gostava, me sentia a Woods negra.
— Nós estamos bem? — perguntou ele, e percebi pela minha visão periférica que ele estava me encarando. Continuei avaliando o teto cor de lavanda, um tom de roxo que eu era apaixonada quando mais nova.
— Acho que sim. — Eu sentia seus olhos de pálpebras baixas sobre mim, queimando minha pele.
— Sua cunhada é perigosa — mudou de assunto.
— Aquilo lá é a besta em forma humana, não sei como Bruce... enfim, toma cuidado com ela. — riu do meu comentário, seu hálito batendo na lateral do meu rosto.
— E o seu ex? Chega quando? — perguntou ele de maneira divertida, querendo manter o clima leve. Soltei um gemido de irritação e cansaço.
— Amanhã... O que será que eu fiz pra Deus me devolver esse fardo tão incoerente com as minhas ações?
— Incoerente? , você literalmente jogou um grampeador na minha cabeça.
— Você mereceu! — me defendi, fazendo-o soltar uma risada, aquela que fazia o meu interior tremer.
— Eu troquei seu chá gelado por café preto, será que realmente foi tão merecedor assim?
— Eu tinha uma apresentação, já estava nervosa e ansiosa, o meu chá era de camomila e você trocou por cafeína pura. Automaticamente a culpa é sua, porque o chá teria me acalmado e o seu dia podia ter sido muito mais tranquilo. Além do mais, eu pedi desculpas.
Era verdade, fomos para a copa e eu fiz uma bolsinha de gelo para pôr em sua cabeça, mas meu temperamento amigável não durou muito quando ele ficou me irritando enquanto eu colocava o gelo, então larguei a bolsinha em sua testa e fui continuar meu trabalho.
— Sim, você foi até a cozinha e jogou o pacote de gelo na minha cabeça pra equilibrar.
Dessa vez, fui eu que soltei uma gargalhada, virei meu rosto para ele que ainda sorria e empurrei seu rosto de leve, a mão espalmada em seu nariz.
— Sai, você ainda está me irritando. Só de lembrar, fico irritada de novo.
— Você precisa relaxar... só porque está na sua casa de infância, passando o Natal com seus pais, seu ex-namorado, a noivazilla dele, sua cunhada bestial e o cara que você mais odeia no trabalho está deitado na mesma cama que você... não é motivo suficiente pra estar assim tão irritada.
As risadas tomaram conta do ambiente, segurava minhas mãos para que eu não o estapeasse novamente e ficamos nessa lutinha boba até ouvirmos batidas na parede.
— Tá bom, pombinhos, agora vão dormir que tem adulto aqui querendo descansar. — A voz de Bruce era abafada, mas dava para ouvir com certa dificuldade.
— Vai dormir, seu mal-amado! — berrei alto, e devolvi as batidas na parede.
— Eu tô tentando, mas tem gente que tá dando gargalhadinha tarde da noite!
— Desculpa se a sua mulher não te... — tapou minha boca com a mão, os olhos arregalados, mas um sorriso enorme no rosto.
— Desculpa, gente. Nós vamos parar! — respondeu ele, rindo, o rosto tão perto do meu que pude finalmente notar cada um dos seus dentes bonitos.
A porta do quarto foi aberta e a bagunça acordou que puxou a mão com velocidade.
— Tia! Tia! Tia! — A voz de um dos gêmeos berrou enquanto os dois escalavam a cama.
— Papai mandou a gente te acordar! — Finalmente me sentei na cama, esfregando os olhos.
— Diz pro pai de vocês que ele é um cuzão.
— Tá bom — Ian, finalmente pude reconhecê-los, disse, animado, descendo da cama e indo para fora do quarto.
— Nós temos que organizar a gincana ! — Liam explodiu de animação, pulando em meu pescoço no processo.
— A tia não vai participar da gincana esse ano — tentei explicar, vendo que ele usava um pijama grosso em formato de macacão.
— Por que não?! — Seus olhos castanho-claros me encararam com tristeza.
— A tia está muito cansada. Vocês me acordaram muito cedo.
— Não, tia! — Deu outro pulo, saindo do meu colo.
— É verdade, vai lá contar pro seu pai a novidade, Liam.
— Tá bom. — Assim como o irmão, ele saiu pela porta como um furacão, correndo pelo corredor com os braços para trás como o Naruto.
— Caramba, desculpa por isso — falei, me espreguiçando. — Parece um furacão, eles vêm sempre em dupla.
— Tá tudo bem, relaxa.
Saí da cama, enrolando meu cabelo em um coque e prendendo com minha piranha dourada, catei uma muda de roupa em minha mala e segui para o banheiro.
— Vou só lavar o rosto e já libero pra você, tá bem? Te espero pra descer.
Ele gemeu algo em resposta, ainda deitado.
— Como assim você não vai participar da gincana? — meu pai perguntou assim que colocamos os pés na cozinha.
— Ah, pai. Já está ultrapassado, não acham?
A verdade era que eu não havia contado nada sobre aquilo para e não queria forçá-lo a fazer aquilo.
— Ultrapassado? Você só está falando isso porque o seu namorado está aqui! — Bruce falou, apontando para que se sentava ao meu lado na banqueta da ilha. Apenas Bruce e Ângela estavam comendo, meus pais estavam de pé apenas conversando, deviam ter acordado cedo.
— Senta aqui, querido. Nós já comemos. — Minha mãe puxou uma cadeira da pequena mesa da cozinha para ele. Eu acompanhei, mesmo que minha mãe não tivesse puxado uma cadeira para mim.
— Ao contrário de você, Bruce, eu sempre ganho a gincana e estou cansada desse título, estou declarando aposentadoria.
— Ah, não! Você não pode fazer isso, meu bem — meu pai interferiu. — Não no ano que seu namorado vai entrar pra família.
— Ele está entrando pra família invicto, com a maior vencedora da gincana de Natal, é um pagamento justo — defendi minha honra.
não falava nada, apenas nos observava debater o assunto enquanto se servia de café, pondo um pingo de leite dentro.
— Você está com medo que ele seja péssimo e tire a sua coroa, ? Isso é baixo, até pra você. — A voz de Ângela me tirou dos eixos.
Respirei fundo antes de responder. Sabendo que o que estava na ponta de minha língua iria pesar o clima.
— Não tenho nenhuma dúvida de que ele se sairia bem, só não estou no clima mesmo...
— Então participa e prova isso.
— Meu Deus, vocês são chatos! Tá bem! Nós participamos!
A comemoração foi geral.
— Tá legal, e o que é a Gincana de Natal dos ? — A voz de soou preocupada ao meu lado.
— É o próximo título que você vai poder colocar no seu currículo, meu bem — respondi, piscando para Bruce, que me deu um dedo do meio.
— Ah, que maravilha! Arthur e a adorável Suzana chegaram — minha mãe disse, animada, espiando pela cortina da janela.
— Nossa, maravilha... — falei baixinho para , que sorriu, bebendo um gole do seu café.
Ficamos na mesa nos servindo enquanto minha família foi receber o hóspede sem noção.
— Qual é a dessa gincana? — perguntou pertinho de meu ouvido, não querendo demonstrar para o resto da família que eu não o tinha preparado para aquele evento.
— São umas brincadeiras idiotas que meus pais fazem desde que tínhamos a idade dos gêmeos. Corrida do ovo, corrida de três pernas, essas besteiras assim. Todo ano Bruce perde, eu sou meio competitiva, sabe?
— Sei — respondeu, e virei o rosto para encará-lo, indignada.
— Você é competitiva, todo mundo do escritório sabe disso, você parece a Monica Geller. Tem que ser a melhor do mundo em tudo que se propõe.
— Ei! — Eu sabia que era verdade, estava protestando apenas para irritá-lo.
Ele sorriu, um sorriso lindo munido de olhos apertados e nariz enrugado.
Ouvimos uma movimentação, o barulho aumentando à medida que os passos se aproximavam.
— Tá preparado? — perguntei, compartilhando o mesmo sorriso, e ele concordou com a cabeça no exato momento em que minha mãe entrou na cozinha fazendo estardalhaço.
— Olha, , quem está aqui! — Virei o rosto e vi minha mãe agarrando o braço de Arthur como se ele fosse alguma preciosidade, e não o garoto que cresceu aqui dentro de casa e ela via em todas as ocasiões em que era convidado.
— Oi, Arthur. Quanto tempo — falei, sorrindo sem muita vontade.
Seus braços se guiaram em minha volta, ao contrário de mim, ele me abraçou com vontade.
— Muito tempo mesmo, uau! — Separamos o abraço e seus olhos castanhos zanzaram pelo meu rosto antes de se guiarem para .
Ele estava bonito, barba feita, cabelos penteados para o lado, óculos, do jeitinho que eu lembrava, era o completo oposto de . Tinha a pele naturalmente bronzeada, cabelos negros e ligeiramente compridos demais.
Os dois se cumprimentaram.
— Esse é o . Meu namorado — falei enquanto o aperto de mão ainda acontecia, parecendo durar uma eternidade em minha cabeça.
— É um prazer, Arthur — quebrou o silêncio.
— Digo o mesmo, . — Os dois se olharam mais uma vez nos olhos antes de eu quebrar o silêncio.
— Oi, você deve ser a Suzana!
— Ah, é, essa é a minha noiva. — Arthur finalmente pareceu lembrar que estava acompanhado. — Suzana, essa é a , minha amiga de longa data e esse é o namorado dela.
— . — Ele fez questão de se apresentar quando apertou a mão da moça.
Eu não ia deixar o silêncio constrangedor dar as caras de novo, então fiz o possível:
— Querem tomar café?
— Ah, não. Obrigada — Suzana falou, envergonhada, praticamente se escondendo atrás de Arthur.
— Que isso, minha filha, não fica acanhada não. Pode sentar, o Bruce e a Ângela já tinham terminado mesmo.... — Minha mãe tirou os pratos que sobravam na mesa e serviu novos para eles que ficaram sem graça de dizer não.
Para nossa sorte, minha mãe ficou importunando-os com perguntas demais, e assim, eu e conseguimos comer passando despercebidos. Fugimos assim que possível.
— Se um júri do Guiness Book estivesse aqui hoje, o aperto de mão de vocês dois estaria na edição, tenho certeza. O aperto de mão mais longo, silencioso e esquisito da face da Terra.
— Tá reclamando do quê? Graças a mim, você está no Guiness Book, de nada.
Soltei uma risada alta, estávamos no sofá vendo Ian e Liam brincarem de lutinha no tapete. Eu apostei em Ian e apostou em Liam, quem ganhasse ia levar cinco dólares para gastar na loja de brinquedos quando eu e fôssemos comprar os presentes mais tarde.
— Não estou reclamando de nada, estou apenas comentando. — Ergui as sobrancelhas e ele sorriu. Nunca imaginei estar vendo tantos sorrisos de de uma vez só, era viciante, era inebriante, eu queria olhá-lo sorrindo o tempo inteiro.
Liam ganhou, tivemos que separá-los.
— Está tudo bem, querido. Te dou um pirulito depois, o que acha? — comentei, afagando Ian. Os gêmeos eram muito parecidos, tanto fisicamente quanto sua personalidade. Os dois tinham energia demais para gastar, gostavam de dinossauros e Naruto e os mesmos dentes estavam faltando. Eles tinham a pele marrom claro e belos cachos que puxavam para uma cor linda de castanho com dourado. Eu detestava Ângela, mas a cadela tinha feito duas criaturinhas lindas, uma misturinha perfeita café com leite.
— Mamãe disse que não podemos comer açúcar fora do horário. — Ian fez beicinho para mim.
— Pirulito e sorvete, então?
me deu um olhar de reprovação, como quem diz “não passe por cima das regras de uma mãe”.
— Eu sou a tia que vê os sobrinhos duas vezes por ano, posso, por favor, ter o passe de tia legal?
— Você pode ser legal sem passar por cima das regras da mãe.
— Argh, , eu estava começando a gostar de você — bufei, me levantando.
— Estava?
— Agora você vai ter que se esforçar pra conseguir progredir tudo de novo.
— Não, não, volta. Vamos dar sorvete com pirulitos, chocolates com milk-shakes. — Ele agarrou meu braço de maneira dramática, eu podia ver o sorrisinho no cantinho dos seus lábios quando meus olhos subiram de sua mão para seu rosto. Seus olhos eram doces e brilhantes contra a luz do sol que invadia pelas janelas, cada uma das constelações em seu rosto formando uma pintura abstrata que deixavam seu rosto único. Os cabelos flamejantes brilhavam com intensidade. Caramba, era bonito à luz do sol.
Senti algo contorcer minhas entranhas.
— O que acham, meninos?
— Simmm! — O coro foi unânime.
— Então vão se arrumar para irmos passear. Você está incluso — falei, dando um peteleco em seu nariz bonito. As sobrancelhas ergueram-se de maneira sugestiva e ele lambeu os lábios antes de sorrir, soltando finalmente meu braço.
Comprei um par de meias engraçadas para cada membro da família.
Encontrei um par com desenhos de grampeadores dentro de gelatina para , uma edição especial de “The Office”, para ele não se sentir excluído quando fôssemos trocar as meias.
Depois escolhi os presentes de verdade, moletons e mangás do Naruto para os gêmeos, uma serra circular para meu pai, uma toalha de baralhos para minha mãe manter a jogatina com suas amigas de bingo, um jogo de PS5 que o garoto da loja me garantiu que era o último lançamento mais aguardado do ano para Bruce e um lenço bonito para Ângela. Não desperdicei dinheiro com Arthur e Suzana.
Ainda faltava um presente para , mas eu não sabia o que dar. Não fazia ideia do que poderia agradá-lo. Ele estava na praça de alimentação com os gêmeos, então acho que eu tinha tempo para dar uma olhada com calma nos produtos da loja até encontrar algo que pudesse agradecer todo esse tempo que ele estava fingindo ser meu namorado.
Depois de algumas voltas, encontrei um suéter natalino perfeito. Aqueles bem bregas, com vermelho e verde misturados, desenhos de renas com o nariz vermelho e flocos de neve gigantes tricotadas. Era melhor do que o suéter que ele estava usando no dia anterior e, merda, ele ficaria adorável em um daqueles.
Comprei.
Me juntei a eles na praça de alimentação enquanto Ian e Liam contavam uma história sobre o time de basquete deles que ganhou por causa de um gol, segundo eles, histórico.
Ambos comiam sorvetes no copinho e tinha uma casquinha de chocolate em mãos e havia um copinho com sorvete de baunilha separado para mim na cadeira vaga.
— Conseguiu comprar tudo o que queria? — perguntou ele, quando me sentei, largando as sacolas no chão.
— Acho que sim.
— Vovó pediu pra comprar balão — Liam avisou enquanto eu dava uma colherada no meu sorvete.
— E ovo — Ian completou.
— Balão e ovos? — parecia confuso.
— É pra gincana — expliquei. — E tinta? Não?
— Sim! Tinta sim! — os gêmeos concordaram, alegres.
— Tinta? — Era divertido o tom de surpresa misturado com desespero que ia tomando conta do semblante de .
— É surpresa. — Mostrei a língua para ele. — Não contem pra ele, meninos, o tio não está pronto pra verdade ainda.
Ian e Liam riram, compartilhando olhares maldosos, e aquilo deu o toque a mais que estava faltando para terminar de deixar preocupado.
Saímos do shopping e fomos para o mercadinho local, atrás dos itens que minha mãe havia pedido.
Ian e Liam andavam em volta do carrinho de compras, pedindo absolutamente qualquer coisa que eles podiam alcançar enquanto levava o carrinho com paciência e eu respondia, sem tanta paciência assim, cada uma das perguntas dos garotos.
— Não, devolve Liam.
— Tio , huh? — perguntou baixinho para mim.
— Nem sonhando, devolve, Ian — falei antes de baixar o volume para responder . — Achei que seria mais convincente na frente das crianças.
— Foi sim, eu gostei, deu um toque charmoso.
— Você nem sabe o que é isso, Liam. — Ele segurava uma caixa de absorventes internos. — Você não tem sobrinhos que te chamem de tio ? — perguntei baixinho a ele.
— Na verdade, tenho, mas não é a mesma coisa quando você fala.
Não entendi o que ele queria dizer com aquilo.
— Não, Ian, você não quer um vidro de azeite — falei, empurrando sua cabeleira para a frente, onde ele seguiu devolvendo o item para a prateleira e procurando outro mais interessante assim como seu irmão. Me inclinei para . — Não entendi.
— Você nunca me chamou de .
Isso era interessante.
Tanto o fato de eu nunca ter pensado em chamá-lo de , quanto o fato dele ter gostado que eu o chamasse assim. E também o fato de ele ter notado as duas coisas.
— Meninos, chega. Você só podem pedir coisas que sabem o que é. Não vale pegar algo só porque está perto das suas mãos. Andem, escolham um presente para os dois dividirem, e eu decido se vocês merecem. — Liam trouxe um saco de granola e Ian trouxe um pacote de polvilho.
— Nunca te chamei de porque nunca me senti íntima para te chamar por algum apelido — falei baixinho para ele enquanto observava os meninos correndo pelo corredor atrás de algo que os dois gostassem.
— Eu sei, mas acho que vai soar menos falso na frente dos teus parentes se você me chamar de . Sem contar que agora nós somos íntimos o suficiente, não acha? Nós dividimos uma cama.
Senti meu corpo se arrepiar, sentindo o peso da sua mão em minha cintura quando acordei.
— Tá bem, , se você quer tanto que eu te chame de , eu vou só te chamar de a partir de agora, satisfeito, ?
abriu um sorriso incrível.
— Muito.
Compramos uma dúzia de ovos, um pacote de balões pequeno e uma caixinha de tinta lavável para crianças. Os meninos escolheram uma caixa de Fruity Loops e a regra era que eles só podiam comer quando a mãe deles deixasse.
A gincana de Natal dos aconteceria no quintal atrás da casa.
Minha mãe sugeriu que e Arthur usassem roupas velhas de meu pai, para não se sujarem. Eu usava minha legging verde-limão da sorte e uma regata feita com uma blusa velha do papai e um top por baixo.
— Não tá com frio, tia ?
— Frio é pra perdedores, Liam — falei me aquecendo, tocando os dedos no chão com a perna esticada.
O clima fora de casa não estava tão frio, Philadelphia não era muito conhecida por um frio extremo no Natal. A neve só caía lá por fevereiro, nevascas em dezembro eram registradas a cada dez anos e não pareciam nada com o dia agradável que estava nos rodeando. As noites eram mais brutais, mas um dia ensolarado lembrava bastante o outono.
e Arthur voltaram logo depois, ambos com calças de moletom velhas o suficiente para ser difícil definir a cor exata, a de tinha manchas de tinta na parte da coxa e as de Arthur tinha manchas que pareciam ser de algum solvente ou produto de limpeza.
se aproximou enquanto eu dobrava meus braços atrás da cabeça, puxando meu cotovelo para o lado oposto.
— Vai com calma, Monica Geller. — Seu olhar demonstrava uma desconfiança engraçada, uma mistura de sobrancelhas franzidas com um pequeno sorriso surgindo nos lábios. O sol fazia até os seus cílios brilharem avermelhados.
— Isso faz de você o Chandler Bing? — questionei, sorrindo.
— Ele é o meu preferido.
— Ele é o preferido de todo mundo.
— Então isso faz de mim o seu preferido?
Ergui as sobrancelhas enquanto ele se aproximava de mim com casualidade e um sorriso imenso no rosto, passando a mão pelo vão da minha camisa, sua pele quente em contraste com a minha exposta ao frio, a mão espalmada em minhas costas me puxando para perto. Seus lábios colaram em minha têmpora em um beijinho rápido que fez minhas pernas vacilarem.
— Seu ex-namorado está com ciúmes. — Sua boca desceu até minha orelha, fazendo meu interior retorcer. — Você se importa se eu... — Deslizou a mão das minhas costas para minha cintura, arrancando um arrepio sincero em meus braços. Com a mão livre, ele segurou meu queixo com delicadeza, seus olhos intensos queimando meu rosto quando ele se afastou de meu ouvido. Balancei a cabeça, incapaz de formar alguma frase. selou nossos lábios com leveza e rapidez, algo simples que aparentaria rotineiro entre nós para quem estivesse olhando de fora. Minha mente rodopiou por alguns segundos antes de ele soltar meu queixo. Meus lábios formigando.
— Eu não vou deixar esse idiota vencer, porque eu tive a sensação de que ele acha que vai ganhar mais do que uma competição de família. — Sua voz voltou a soar próxima do meu ouvido e eu estava petrificada, sentindo um calor em meu ventre.
Aquilo era tesão?
Era um sentimento novo vindo de , mas aquela agressividade passiva com Arthur, o desejo de ganhar tão grande quanto o meu próprio e o sentimento de possessividade me fez engolir em seco enquanto ele se afastava, sua mão lentamente deixando a minha cintura. Minha pobre cintura que no momento só queria um pouco mais de afeto.
Quando o vi se afastando de mim, aquecendo os braços igual eu fazia, meu cérebro finalmente pareceu entender o que havia acabado de acontecer. Corri até ele.
— Espera, o que ele te disse?
virou o rosto para mim e pude notar suas bochechas coradas, mas não era como se ele estivesse com vergonha, era... outra coisa.
— Não foi o que ele disse, foi como ele disse — respondeu ele, e mordi meu lábio inferior tentando entender o que Arthur poderia ter dito. Os olhos dele desceram para minha boca.
— E o que foi?
— Não vou falar, você vai querer tirar satisfação com ele e vai estragar toda a brincadeira. Só se alimenta dessa raiva pra ganharmos. Espera... É em dupla, né?
— Sim, tá bom, mas depois que ganharmos você vai me contar.
— Eu adoro essa sua certeza de que vamos ganhar. — Seu sorriso me fez sorrir também.
— Qual é, Bruce toma cerveja todo dia e nunca viu uma academia na vida, Ângela tem dois filhos de sete anos, Arthur é um nerd de computador e Suzana parece estar em forma, mas não conhece as táticas de jogo. Nós dois estamos em ótima forma, a vantagem aqui é nítida.
Ele lambeu os lábios antes de sorrir novamente.
— Eu estou em ótima forma?
— Não se faça de idiota, , eu sei que você tem músculos embaixo de toda essa carcaça ciumenta.
— Não sou ciumento. — Ele ergueu o dedo em protesto. — Só não gosto de marmanjo tratando minha namorada falsa como se ela fosse um prêmio que pode ser conquistado.
— Tudo bem, s. A primeira prova é a corrida do ovo, no estilo de sempre, nada de ovo cozido. Cada dupla tem direito a três ovos apenas. Se o ovo cair, não pode pegar com a mão e, se bater no chão sem quebrar, tem que juntar, não pode pegar um ovo novo.
Assim que minha mãe terminou de falar, puxei pelo braço.
— Prende a colher nos dentes de trás, não corre, mas ande rápido sem impacto. Eu vou primeiro pra você ver como é. A corrida é fácil, o difícil é passar o ovo.
— Tá.
— Tenta não quebrar nenhum ovo, eu gosto de jogar nos meninos quando termina. O quê? Eles adoram!
Nos enfileiramos, assim como eu, todas as duplas deixaram os mais experientes irem primeiro, então Bruce estava do meu lado direito, Liam no meu lado esquerdo e Arthur estava do lado de Liam.
— Em suas marcas. — Minha mãe gritou, animada, e notei que alguns vizinhos olhavam das janelas do segundo andar. Prendi minha colher com os dentes molares e pus minhas mãos para trás.
O apito soou e as pessoas comemoraram, dei meus passos ligeiros e suaves como um cisne, liderei a prova com facilidade, dei a volta no cone no fim do quintal e voltei passando por meus oponentes lentos. me esperava na largada, com uma colher na boca do jeito que indiquei, as mãos atrás das costas assim como eu e com a postura imponente. Sério.
— Abaixa — ordenei com dificuldade já que a mandíbula estava travada na colher quando me aproximei o suficiente. Ele dobrou os joelhos, ficando na minha altura. Levei minhas mãos em seu ombro para estabilizar a manobra, encostei minha colher na sua e lentamente virei, devagar, com calma e a precisão que eu precisaria ter se resolvesse fazer medicina. O ovo tombou em sua colher graciosamente, levantei meus olhos para o seu rosto e notei que ele me olhava de uma maneira estranha, os olhos brilhantes, tão azuis que doía. — , foco.
Ele se endireitou e fez o mesmo que eu. Enquanto ele ia, Arthur acabava de chegar em Suzana, Bruce terminava de dar a volta no cone e Liam estava na metade do caminho de voltar.
A gincana era constituída de três provas, já era certo que a gente sempre deixava Ian e Liam ganharem a prova dos balões — eles adoravam! — e quem fizesse mais pontos ganhava a gincana.
estava tão concentrado em vencer que achei graça do seu rosto sério ao dar a volta no cone. À esta altura, Suzana já estava a caminho de ir e Ian e Liam trocavam de participante. Bruce e Ângela deixaram o ovo cair e tiveram que reiniciar a prova. Coitados, Bruce era péssimo nisso.
— Põe na mesinha — instruí ele quando ele passou da linha de chegada. — Se quebrar o ovo na comemoração, perdemos pontos.
Eu já o aguardava de braços abertos quando ele guardou o ovo, e ele não esperou nem um segundo para me abraçar, tirando meus pés do chão no ato.
— Acho que nunca fiquei tão nervoso na vida — ele disse, ainda me abraçando. Era gostoso sentir o seu corpo contra o meu, o calor, o impacto, ele parecia uma parede de músculos e o seu cheiro me deixava tonta.
— Trate de relaxar, temos mais duas provas pela frente.
— Não sei se vou conseguir, o meu coração não vai aguentar. — Ele me pôs no chão, o sorriso tomando conta do rosto inteiro.
Acho que eu não seria mais capaz de sobreviver sem esse sorriso. Estava viciada.
A segunda prova era a prova do balão, que consistia em um paintball de balões, as tintas eram diluídas em água e cada dupla ganhava vários balões de uma mesma cor. No final, os acertos eram contabilizados.
— Nessa prova, tem um segredo que eu tenho que te revelar — sussurrei ao seu ouvido, ele se inclinando levemente para baixo. — Liam e Ian têm dez balões a mais, cinco para cada, então se eles não errarem muito, é certo que vão ficar em primeiro, mas isso não é motivo para não lutar pelo segundo lugar.
O quintal inteiro era usado para essa prova, havia algumas mesas de plástico tombadas que seriam usadas como escudos e a luta era geral.
— Alguma dica em especial?
— Tenta não levar muitos balões. E vai me avisando quando acabarem os seus.
Nos posicionamos atrás de uma mesinha de plástico, cada um com uma cestinha de vime com seis balões azuis. Minha mãe ditou as regras.
— Nada de balões no rosto. Quem receber menos balões pelo corpo, ganha.
O apito soou e todos ficaram em silêncio. Ninguém tinha coragem de iniciar, era sempre assim.
— Você é bom de pontaria? — perguntei e ele ergueu os ombros, me passando zero confiança. — Tá, pega um balão e joga na mesa do Bruce.
— Mas...
— Confia em mim. No três, um, dois... três!
ergueu a cabeça para fora do nosso forte de mesa e acertou o balão na mesa de frente para a nossa. Assim que o balão estourou, pintando a mesa toda de azul, Bruce levantou o rosto para olhar quem tinha dado o primeiro golpe, e eu acertei um em seu ombro, que respingou escorrendo por seu pescoço.
— Vai se foder, .
Soltei uma gargalhada alta.
— Você é boa.
Antes de pensar em qual seria o próximo passo, sentimos um balão amarelo atingir nossa mesa, troquei de lugar com , por causa do meu braço de arremesso e ao invés de jogar por cima, joguei o balão pela lateral, acertando a mão de Bruce que já estava pronta para atacar de novo.
— Aaaaargh!
Ele perdeu as estribeiras e se levantou, segurando a sua cesta de balões, saindo do esconderijo e vindo na minha direção.
— Mira nos outros — avisei para , que provavelmente iria querer acertar Bruce.
Quando me levantei, o campo de batalha foi sangrento, Ian e Liam jogavam balões no pai e até Arthur estava de pé, rindo, enquanto jogava balões em Bruce. Antes de eu desviar o olhar dele, notei um balão azul acertando seu peito em cheio. Joguei um em Liam e outro em Ian para eles não saírem invictos e recebi um balão amarelo em meu ombro antes de conseguir mirar um em Suzana.
As risadas ecoavam altas, todo mundo estava multicolorido e tudo parecia estar em câmera lenta, por fim, só Liam e Ian jogavam balões verdes em nós. Eu consegui me esquivar de dois balões que estouraram atrás de mim e vi desviar de pelo menos um, então tínhamos alguma chance.
— Caralho, isso foi intenso. — Ele estava de braços abertos para me mostrar o estrago.
Verde, amarelo e vermelho se misturavam por toda a parte de cima do seu corpo, estava tão molhado que a camisa colava em seu tórax em alguns lugares. Eu sentia a tinta escorrendo por meu pescoço e passear por entre meus peitos.
— A última prova é tranquila. Prometo.
Passei a mão por seu rosto, tentando retirar os respingados de tinta, mas acabei deixando tudo pior porque minha mão estava suja. Comecei a rir enquanto a cada passada de mão que eu dava, pior ia ficando e mais ria do meu desespero.
— Ei, pombinhos. Venham contabilizar os pontos — Bruce chamou, e quando virei o rosto, notei Arthur nos encarando. também notou, já que segurou minha mão enquanto atravessávamos o gramado do quintal.
A terceira e última prova era a corrida de três pernas.
Mamãe passou por nós amarrando cada dupla com um cinto regulável, era uma corrida de ida e volta, tendo que dar a volta no cone no fim do jardim, o mesmo circuito da corrida de ovos.
— Alguma dica nessa?
— Sincronizar os passos, e tentar ver uma velocidade que fique boa pra nós dois, o seu passo é bem maior do que o meu, então você vai ter que se adaptar com o meu.
Pude notar de soslaio que Arthur não tirava os olhos de nós dois e aquilo me irritava de uma maneira descomunal, já que a sua noiva estava logo ali e ele devia estar dando atenção a ela. Do mesmo jeito que estava se dedicando a fazer parte daquilo, prestando atenção em mim.
— Você também notou?
— O quê?
— Ele não tira os olhos de você.
— De nós — o corrigi.
— Ele claramente não te superou ainda, você está bem com isso?
— Estou ótima, achei que talvez fosse sentir uma palpitação diferente quando o visse, ou algo assim, mas... nada — admiti, sentindo os olhos de sobre mim, a intensidade do seu olhar me deixava sem ar. Era aquilo ali que eu devia estar sentindo por Arthur, mas só o que eu sentia era ranço e pena de sua noiva.
— Que bom, confesso que estava com medo de vir aqui e você magicamente voltar para o seu ex e eu ser o otário que veio só atrapalhar o “casal de verdade”.
— Eu nunca faria isso com você.
— Você, a mulher que mais me odeia no mundo, me dizendo isso? — Seu sorrisinho era charmoso e convencido.
— Sei que é difícil para você aceitar isso, , mas eu não sou uma babaca. Com meu irmão talvez. — Seus olhos passearam por meu rosto e fomos interrompidos pelo apito de minha mãe.
Ela ditou as regras e fomos até a linha de partida.
Quando o apito soou, indicando o início da prova, me vi ditando para :
— Perna solta, perna presa, perna solta, perna presa, perna solta, perna presa.
Eu dava o maior passo que conseguia dar e ele reduzia suas pernas às minhas passadas mais curtas, o esquema funcionou e disparamos na frente dos outros, parecia que tínhamos nascido daquele jeito. Continuei ditando as pernas enquanto dávamos a volta no cone. Era fácil, fluido e sincronizado.
Em certo momento, acabei tropeçando e me desequilibrando, mas ele me segurou pelas costelas com força e me manteve em pé. Ele era, definitivamente, tão competitivo quanto eu. E aquilo estava me dando um tesão dos infernos.
Terminamos a prova com tanta facilidade que ver Bruce e Ângela e Arthur e Suzana se embolando no chão aos tropeços parecia algo errado e surreal. Ian e Liam chegaram em segundo lugar.
Separamos nossas pernas, comemoramos com um high-five e com os gêmeos antes de ficarmos analisando os casais restantes, sentados na grama de pernas cruzadas. Vez ou outra ele me cutucava com o pé, só para me desconcentrar ou me fazer rir.
Meu corpo resetou vendo seu tronco musculoso, com ombros largos e uma vastidão de pintinhas e sardas que moldavam sua pele. O peitoral definido não era nada do que eu já pudesse ter imaginado, era firme, brutal. Tinha a sensação de que poderia afiar uma faca ali.
Pisquei algumas vezes antes de conseguir fingir normalidade, respirando fundo e finalmente chamando a atenção dele, que olhava minhas antigas coisas sobre a penteadeira, meus CDs e os bonequinhos de plástico da Coca-cola.
— Mais tranquilo agora que conseguiu ganhar a gincana? — brinquei, o fazendo dar um risinho pelo nariz.
— Você quer dizer agora que posso esfregar na cara daquele idiota que ele não tem nada a ganhar porque você não é a porra de um objeto?
— O que ele disse que te deixou assim, afinal?
Ele suspirou antes de iniciar.
— Ele veio com um papinho furado sobre participar da gincana, eu achei que fosse só pra puxar assunto, conhecer o inimigo, sei lá — ele contava de maneira tranquila, enquanto voltava a atenção para sua mala aberta sobre a cama. Meu olhar não sabia se focava em seu rosto, para tentar ler as nuances de sua expressão ao falar aquilo, ou se focava em seu abdome definido movendo-se conforme ele falava e respirava, Deus do céu, me ajuda aqui. — Você tinha que ouvir o tom condescendente dele para conseguir sentir a raiva que eu senti na hora, mas ele disse “boa sorte em ganhar a gincana, sou muito bom com isso”.
Um misto de achar graça e ficar com raiva tomou conta de mim e uma risada irônica saiu de minha garganta. me observava de sobrancelhas franzidas.
— Caralho, ele não era idiota assim quando terminamos. E eu, definitivamente, não estou sendo idiota assim com a noiva dele. — A raiva foi crescendo em meu peito. — E mais, aquele babaca nunca ganhou uma gincana na vida, ele só me fazia perder. Então é óbvio que ele não estava falando da gincana e você não estava errado sobre isso.
Desenrolei a toalha de minha cabeça jogando-a com força sobre a cama.
— Quer saber? Eu vou dar uma palavrinha com ele. — Abri a porta do quarto, mas ela se fechou com força quando notei a mão de na altura da minha cabeça, forçando a porta a ficar fechada.
— Você não vai fazer isso, nós já ganhamos a gincana de lavada. Sua mãe disse que foi uma vitória histórica. — A voz dele estava perto, e soava atrás de mim como um campo de força. Lembrei de seus braços fortes me segurando da queda na corrida e fechei os olhos.
— Mas... — Eu nem queria falar com Arthur tanto assim, porém o que eu estava sentindo naquele momento... Eu precisava de mais. O calor em meu ventre subindo por meu peito, chegando em meu pescoço. Era de outro mundo.
— Aquele cara já te perdeu duas vezes, . Não precisa ir atrás da humilhação pública. — Sua voz era rouca e calma, ele ainda estava parado atrás de mim.
Ai, papai.
Estava calor ou era impressão minha? Não devia ser inverno?
Virei de frente para ele, o que foi um erro tremendo, já que ele estava realmente perto de mim, sem camisa e seu braço estava apoiado na porta. O cheiro de sabonete da sua pele fez meu coração acelerar e seus olhos eram doces o suficiente para me fazerem derreter.
Me vi encurralada por meu próprio desejo, engoli em seco quando a sua respiração bateu em meu rosto e meus olhos saíram do seu peitoral, escaneando cada milímetro de pele em meu cérebro, passando por seu pescoço comprido, seu queixo imponente, seus lábios vermelhos que perdi tempo demais admirando, e finalmente acordei de meu transe quando encontrei seus olhos fixos em meus lábios.
Não. Você passou os últimos três anos da sua vida odiando esse cara, .
Não vai ser um feriado prolongado que vai te desestabilizar desse jeito, mesmo que o tanquinho dele diga o contrário.
Não vale o estrago, dia 2 de janeiro você vai ter que voltar a trabalhar com ele e o inferno será instaurado na Terra novamente.
Com essa informação fresca em minha mente, consegui pigarrear e dar um passo para longe da porta.
— Você está certo, não vale a pena — finalizei aquele assunto e peguei meus produtos para finalizar meus cabelos. Não ousei olhar para ele, porque eu tinha medo do que se passava em sua mente, medo de que ele soubesse que minha mente perversa estava tentando me sabotar e medo de que a mente deve estivesse fazendo o mesmo.
se afastou da porta e voltou ao seu lugar de origem, em frente à sua mala.
— Não vale a pena e eu não quero que ele ache que eu estou me escondendo atrás de você. — Abri a boca para rebater, mas ele foi mais rápido. — Eu sei que você consegue se defender sozinha, , mas eu também consigo. E acho que, nessa situação, em particular, nós vencemos ele, juntos.
— É, tudo bem. — Eu desembaraçava meu cabelo para iniciar o processo de fitagem.
— Vamos ver como ele vai ser no jantar, você pode brigar com ele lá. Que tal?
— Eu não vou brigar com ninguém. — Suspirei, dramática. — Sou um ser-humano evoluído.
Ouvi um risinho pelo nariz.
— Vou fingir que acredito — resmungou ele. — Você vai demorar?
— Quinze minutinhos, talvez mais, por quê?
— Vou tirar um cochilo, você me acorda quando terminar?
— É claro.
Fitei meu cabelo, cacho por cacho, e como já era tarde, decidi secá-lo para não dormir com ele úmido. Fui até o banheiro, saindo do quarto na ponta dos pés, e o sequei lá com meu difusor. No corredor, eu senti o cheiro do jantar sendo feito e fui conferir se minha mãe precisava de ajuda.
— Não, querida, Ângela e Suzana estão me ajudando, você fica com a louça, pode ser?
— Claro. Já estamos descendo.
Voltei para o quarto, onde ainda cochilava. Ele havia escolhido um suéter fino, que ficava larguinho nele e combinava com a calça de lavagem clara que ele havia escolhido. Me abaixei ao seu lado.
— ? — chamei baixinho, passando a mão em seu antebraço. Ele se remexeu na cama, mas não pareceu acordar. — Vamos, , não temos a noite toda.
— Calma, amor, mais dez minutos, vai — resmungou ele, pondo o braço livre sobre o rosto como se a claridade estivesse incomodando.
Amor?
Será que estava me confundindo com sua namorada? Ou melhor, tinha uma namorada? Eu sabia que ele tinha saído com a Ashley do escritório há alguns anos, mas todo mundo sabia que não tinha dado em nada.
— , você está cochilando há 30 minutos, meu bem, não vou te deixar dormir mais, e muito menos descer sem você. Não vou aturar Bruce e Arthur sozinha, não foi esse o trato. — Ele estava fofo para caralho.
Ele pareceu despertar.
— ? Desculpa. — Esfregou os olhos. — Nossa, peguei no sono legal. Tava até sonhando.
— Percebi — comentei, dando uma risadinha e me levantando.
— Puta merda. — O ouvi resmungar baixinho, mas virei para ele com as sobrancelhas erguidas.
— Desculpe?
— Seu cabelo está...
— Solto e finalizado? — Dei um sorrisinho, afofando meus cachos perfeitinhos. Seu olhar era maravilhado, a boca entreaberta, os olhos brilhantes, um sorriso se formando lentamente.
— Lindo, lindo pra caralho. — O calor subiu por meu pescoço, se instalando em minhas bochechas. Perdi mais uma vez o ar quando levantou da cama e se aproximou. — Posso tocar?
Eu não me lembrava se em algum momento eu já tinha ido trabalhar com o cabelo assim, normalmente eu os prendia em coques desfiados ou coques com gel e um babyhair meticuloso, mas eu não curtia usar o cabelo solto no trabalho porque me distraía, sem contar que eu não tinha tempo ou paciência de lidar com meus cabelos às seis da manhã. Um coque despojado salva a vida das cacheadas.
— Ahn, claro... Só não enfia os dedos igual um pente, vai desmanchar...
Meu coração batia forte a ponto de eu conseguir sentir no pescoço, meus neurônios diziam que eu devia me afastar e sair dali, mas meus instintos diziam o contrário, diziam “deixe esse homem gostoso passar a mão no seu cabelo, e daí que você o odiava, e daí que você trabalha com ele, e daí que vocês estão fingindo ter um relacionamento? Quem sabe ele queira cheirar o seu pescoço também...”
ainda tinha os olhos brilhantes e maravilhados quando ergueu as mãos e tocou os cachos próximos da minha bochecha, a tensão naquele quarto dava para sentir a quilômetros, o som de nossas respirações enchia o ambiente.
Sua mão soltou meu cabelo e deslizou marota pelo meu pescoço, logo abaixo de minha orelha, fechei meus olhos por instinto e suspirei, sentindo o maldito arrepio me denunciar. Quando voltei a abrir os olhos, aproximou o rosto do meu cabelo e inspirou com força.
— Porra — sussurrou e se afastou. — Desculpa, meu Deus, desculpa. — Seu rosto queimava, vermelho escarlate como eu nunca tinha visto. Pigarreou. — Seu cabelo está lindo, e cheiroso pra caralho, quero dizer... você está linda, e também está cheirosa pra caralho.
Cada palavra que ele dizia, mais o seu rosto ficava vermelho. Eu nunca tinha visto baixar a guarda daquele jeito, era estranho, era sexy, era delicioso. Conhecer esse lado inédito dele me incomodava de maneira não usual, porque eu tinha acabado de perceber que... eu queria transar com .
Não.
Querer não é poder, e você sabe que não é o momento para isso, .
— Obrigada, .
Descemos a escada e nos dividimos, foi para a sala com os rapazes e eu fui para a cozinha com as mulheres.
— Uh lá lá, querida, você está vermelha — Ângela comentou, ácida.
— Quem não ficaria, com um pitel como aqueles? — Minha mãe riu. — Conta pra gente, , como você conseguiu fisgar ele? Estávamos agora mesmo falando em quando ele tirou a blusa lá no gramado e...
Ah, o incidente da blusa no gramado... O que dizer sobre isso? Quando todas as provas tinham terminado e meu pai estava contabilizando os pontos, foi conversar com Bruce e Arthur que estavam batendo um papo despretensioso depois da prova, e ele simplesmente resolveu que estava esbaforido de calor e tirou a blusa na frente de todo mundo, a tinta da prova anterior havia passado pelo tecido da blusa e o tronco dele escorria todas as cores do arco-íris. Eu fingi normalidade e não olhei muito, mas minha mãe, Ângela e até Suzana o fitaram por tempo demais. No caso de minha mãe foi por tempo indeterminado, até Bruce e Arthur ficaram meio boquiabertos com a situação geral.
não notou, e se notou, fingiu que não. Ele só jogou a blusa no ombro e continuou conversando como se não estivesse uns 50 °F lá fora.
— ... o que você diz?
— Desculpa, o quê? — perguntei, perdida, enquanto me servia de vinho branco.
As três riram da minha cara.
— Ela está tão apaixonada que está perdidinha — Suzana comentou, sorrindo.
— Conta pra gente, o que você fez pra fisgar ele.
— Ah, eu só... sei lá, fui eu mesma.
— Querida, seja o que você tenha feito, continue fazendo, Deus sabe que você não tem tantas qualidades assim...
— Do que é que você está falando, sra. ? — Suzana perguntou, espantada. — A sua filha é linda! E olha só, eu daria qualquer coisa para o Arthur me olhar do jeito que te olha.
— É... O quê? — Foram tantas informações jogadas em minha cara em menos de um minuto que ficou difícil acompanhar.
Primeiro, Suzana estava me defendendo de minha mãe?
Segundo, ela achava que Arthur não a olhava de maneira apaixonada?
Terceiro, ela achava que me olhava de maneira apaixonada?
Caramba, como eu responderia isso?
— Ah, sim! Ele a olha de um jeito... estranho, mas não ruim, não me entenda mal. Ele te admira, os olhinhos ficam brilhando feito um cachorrinho — Ângela comentou e eu não conseguia entender aquela mulher.
— Vocês estão exagerando, não? Suzana, Arthur te ama, vocês estão noivos, caramba! São um casal lindo! — tentei respondê-la e tranquilizá-la ao mesmo tempo.
— Não sei não, eu amo Arthur, mas falta algo, sabe? Estava aqui agora falando sobre isso com a sua mãe e Ângela.
— Nós tentamos explicar que depois de alguns anos de casados e alguns filhos no caminho, é natural essa paixão do início passar um pouco, as coisas ficam menos calorosas, mas enquanto é namoro, e noivado, as coisas têm que pegar fogo, se é que me entende — minha mãe explicou todo o contexto da conversa.
— É, no início de namoro, eu e o Bruce não nos separávamos por nada, era de manhã, de tarde e de noite. As coisas esfriam um pouco depois do casamento, mas não podem simplesmente apagar — Ângela adicionou, conversando pacificamente como um ser humano normal, sem segundas intenções ou fofoquinhas.
— E aí, chegamos ao seu relacionamento com . Dá pra ver que tem algo ali, está nas entrelinhas, nos olhares, tem fogo, tem química, caramba, eu quero algo assim, sabe? — Suzana explicou, pondo seu cabelo loiro para trás da orelha, meio sem graça.
— Mas você acha que não tem todas essas coisas com Arthur? Poxa, vocês parecem se dar tão bem. — Bebi um gole do vinho, ainda achando aquela conversa estranha demais. Infelizmente, eu não podia perguntar mais sobre os supostos olhares de porque ia soar estranho, mas aquilo tinha ativado minha curiosidade.
— A gente se dá bem sim, mas parece que não tem aquele fogo, sabe?
— Será que não é porque ele é um nerd de carteirinha? — Ângela insinuou, rindo.
Arthur era um nerd sim, e ele não era a pessoa mais sexual do universo mesmo, mas nosso relacionamento tinha paixão, tinha entendimento e intimidade. Se era isso que Suzana estava sentindo falta, talvez ele não fosse a pessoa certa para ela mesmo.
— Ah, não sei, acho que não é só isso, falta um tchan.
— Você acha que esse casamento pode não acontecer, meu bem? — minha mãe perguntou, pondo a mão no peito em choque.
— Talvez, não sei ainda...
Um silêncio estranho tomou conta da cozinha e eu tomei mais um gole grande de vinho antes de minha mãe pedir para eu colocar a mesa.
Fui até a sala onde os homens riam, cada um com sua cerveja em mãos, todos viraram o rosto em minha direção quando entrei lá.
— Aí está a minha vencedora. — Meu pai abriu os braços para me receber, o abracei, sorrindo, enquanto ele beijava minha bochecha.
— Me ajuda a pôr a mesa? — perguntei, olhando para , já que talvez ele quisesse um tempo dos meus parentes chatos, mas antes que ele pudesse responder, Arthur pulou da poltrona rapidamente e se ofereceu.
Apenas dei um olhar de desculpas para e ele deu de ombros, bebendo sua cerveja.
— É sério que você está namorando aquele cara? — disparou Arthur assim que entramos na sala de estar.
— O que você quer dizer com isso?
— Ele é um engomadinho, . Um idiota de fraternidade, sabe? O tipo de cara que você sempre falou mal — disse ele, pegando os pratos no armário.
— E qual é o problema, Arthur?
— Essa não é você, a que eu conheço nunca ficaria com um cara como ele.
— Por quê? Por que ele se veste bem e, sei lá, penteia o cabelo? — Distribuí os sousplat sobre a mesa.
— Você sabe do que eu estou falando. — Arthur nem olhava em meus olhos enquanto falava, colocou os pratos sobre o descanso que eu tinha acabado de colocar e foi atrás dos talheres.
— Não sei não, você pode me explicar, por favor?
Arthur suspirou alto, coçou atrás da cabeça e me fitou finalmente.
— Ele não merece você.
O encarei pelo que pareceu ser uma eternidade. Onde o garoto gentil e envergonhado pelo qual me apaixonei anos atrás estava? O nerd que não gostava de ser julgado por gostar de quadrinhos e Star Wars agora julgava uma pessoa pela aparência.
— Você não sabe nada sobre ele.
— Nem você sabe! Qual é, ! Qual é a cor favorita dele? A música que ele mais escuta? E o filme favorito?
— Caramba, Arthur, quer saber a cor da cueca que ele está usando também? Espera, você está interessado nele, por isso está querendo saber tantas coisas? Posso passar o número dele pra você, se isso for tão importante.
Ele bufou, irritado.
— Tudo bem, , me procura quando ele te der um pé na bunda, quando ele te trocar pela loira gostosa que sente cheiro de grana há quilômetros.
— Você está noivo de uma mulher exatamente assim e você não está me vendo falar nada.
— Sobre isso...
— Arthur, para. Eu não quero saber nada de você. Eu estou namorando e estou feliz pra caramba. Pode ir pra lá, eu termino aqui.
Seus olhos pareciam tristes quando ele voltou a me fitar. Dobrei os guardanapos de pano em quatro pela diagonal e coloquei sobre cada prato, ele abaixou a cabeça e saiu.
Apoiei meus braços sobre a mesa e abaixei a cabeça, respirando fundo.
Respirei uma, duas, três vezes. Fui até o banheiro no andar de baixo para jogar uma água no rosto e esfriar a cabeça.
— Ei. — me esperava do lado de fora da porta. — Está tudo bem?
— Sim.
— Não parece. — Se aproximou, cauteloso, subiu a mão pelo meu braço e me puxou lentamente para si. Ele me abraçou sabendo que eu precisava daquilo, deitei minha cabeça em seu peito e o abracei de volta. O calor que emanava dele me fazia sentir como se nada de ruim jamais fosse acontecer, me acalmava.
— Eu preciso bater em alguém?
Soltei uma risada, o abraçando mais forte antes de soltá-lo. Meu corpo protestou.
— Não, resolvi sozinha. — Nos separamos, mas ele manteve minha mão na sua.
— Típica Monica Geller. — Depositou um beijinho em minha mão antes de me puxar para a sala de estar.
O jantar foi calmo e o ponto alto foram os comentários da gincana, havia um clima tenso pairando no ar, nem Ângela se atreveu a fazer algum comentário idiota. Bebi quatro taças de vinho antes de perceber que havia ultrapassado meu limite entre ficar sóbria e levemente alterada. Na verdade, tinha esquecido que já tinha tomado uma taça antes de servirmos o jantar.
Depois, me ajudou a retirar a mesa, arrumar tudo e encher a máquina de lavar louça.
— Tia ? — Era Liam, sendo seguido por Ian. Ambos estavam sonolentos, os olhinhos passando de mim para .
— Sim, meu bem?
— Ano que vem, será que podemos ser duplas na gincana?
— É, Liam vai com a tia e eu posso ir com o tio — Ian disse, como se eles tivessem ensaiado aquela conversa a noite toda.
, que espirrava produto de limpeza sobre a bancada de mármore, deu uma risada gostosa.
— O que você acha, tio ? — perguntei, sorrindo, vendo-o olhar para os dois com olhinhos esperançosos.
— É, acho que vou ter mais chances de ganhar assim. Eu só vou ter que ter mais tempo pra decorar quem é o Ian e quem é o Liam...
— Eu sou o Ian! Eu vou ser a sua dupla, eu tenho a pintinha na bochecha — disse Ian, apontando para uma pintinha redonda muito charmosa que ele tinha na bochecha esquerda.
— A minha é no queixo — Liam explicou, mostrando a pintinha dele.
— Tudo bem, combinado, então. — Dei um high-five com Liam e Ian foi até fazer o mesmo.
— Meninos, vamos dormir! — Bruce os chamou e eles saíram, rindo, animados.
Terminamos de limpar a cozinha e subimos as escadas juntos. Fui até o quarto pegar meu pijama e a nécessaire de produtos pessoais, e quando estava saindo para o banheiro, segurou meu braço.
— Você está bem mesmo? O que aquele idiota falou pra você?
O calor de sua mão se espalhou pelo meu corpo como pólvora, não sei se era ele ou o vinho, mas algo dentro de mim despertou. Eu sabia que não devia ter bebido vinho.
Vinho me deixava com tesão.
Minha mão livre pousou na lateral do seu rosto e acariciei sua bochecha com o polegar. piscou devagar, os olhos focados em mim com uma intensidade sobre humana.
— Eu estou bem, prometo. — Dei um sorriso sincero e aproximei meu rosto do seu devagar. — Não vou falar, você vai querer tirar satisfação com ele e vai estragar toda a brincadeira — repeti o que ele me disse na gincana e me senti vingada.
engoliu seco, os olhos percorrendo meu rosto e parando em meus lábios.
Eu queria beijar , mas não com bafo de couve de bruxelas e vinho, por esse motivo me afastei. Ainda mantendo meu sorriso, depositei um tapinha leve em seu rosto e saí do quarto. Será que existia a possibilidade de eu estar percebendo os sinais errados?
Escovei os dentes, troquei de roupa e voltei para o quarto, onde um já com sua roupa de dormir, me esperava com a escova de dentes na boca.
Ele não levou três minutos e, quando voltou, eu estava mexendo no celular, respondendo algumas mensagens de Kendra. Guardou as coisas na mala e deitou ao meu lado.
— Qual a sua cor favorita? — perguntei assim que ele descansou, cruzando os braços por trás da cabeça.
— Branco, mas não gosto muito de admitir isso, porque acho muito básico, então normalmente eu falo que é azul.
— Querido, azul também é básico — respondi sem nem pensar direito e ele soltou uma gargalhada.
— Engraçacinha. Qual é a sua?
— Não sei, acho que é roxo.
— Você tem cara de ser uma garota do roxo, fez mechas quando era adolescente?
— Fiz — admiti, rindo, e ele me acompanhou.
— Foi isso que aquele idiota falou pra você? Que você não me conhecia o suficiente?
— Talvez...
— Tá bom, então vamos lá. Meu nome é Mitchell , tenho 33 anos, sou do signo de aquário e nasci no Maine. Meu filme favorito é Mad Max — Fury Road, e meu artista favorito é o Michael Jackson e quando eu era pequeno minha mãe me vestia todos os anos como ele no Halloween porque, se não fosse assim, eu não queria.
Soltei uma risada baixa.
— Thriller?
— É.
— Clássico atemporal.
— Obrigado. Meu livro favorito é o Cemitério, do Stephen King, mas confesso que não sou muito de ler, minha média é de três livros por ano, com muito esforço envolvido — listava as coisas em seus dedos, um sorrisinho nos lábios, olhando para o teto.
— Já é mais do que a média americana. — Eu estava achando aquilo surreal e incrível, estava encantada com o modo que ele simplesmente me leu e percebeu que eu queria que ele falasse aquilo para mim, que aquilo ia tirar um peso de minha mente e me deixar dormir mais tranquila, mesmo que significasse cavar fundo em conhecê-lo melhor.
— O que mais você quer saber?
— Amm, o que você gosta de fazer nas horas vagas?
— Ah, jogar vídeo game, caminhar com meu cachorro e, sei lá, sou um cara bem chato.
— Sei bem disso — brinquei e ele virou-se para mim, o sorriso invadindo seu rosto.
— E você?
— Eu o quê?
— Me fala mais de você, quem é ?
— Meu nome completo é Jaz . Tenho 29 anos, sou virginiana nascida aqui na Pensylvania. Meu filme favorito é, não ironicamente, “Corra!”, mas confesso que tenho uma quedinha por “As Patricinhas de Beverly Hills”, foi a primeira vez que eu vi uma adolescente negra sendo linda e autêntica e eu usei tranças boa parte da minha adolescência por causa da Dionne.
— Não faço ideia de quem seja essa pessoa, desculpe.
— Você nunca viu “As Patricinhas de Beverly Hills”?!
— Acho que não.
— E “Legalmente Loira”?
— Também não. — Ele virou o tronco de lado, ficando de frente para mim.
— Então qual é a das coisas rosa que você troca na minha mesa? Achei que era algo por causa disso. — Uni as sobrancelhas, observando seus cabelos bagunçados e levemente ondulados.
— Não, na verdade era só pra te irritar... — Ele riu baixinho, as bochechas recebendo um leve tom rosado. — Mas chegou algum momento em que você passou a gostar, então não parei de fazer por causa disso.
— Mas por que rosa?
— Ah, a primeira vez que eu te vi, você estava de rosa, uma camisa de botões rosa claro com um suéter rosa felpudo.
Aquilo fez meu coração errar uma batida.
— E... e você simplesmente lembrou disso?
— É, quero dizer, eu lembrei porque eu te achei a mulher mais bonita que eu já tinha visto na vida.
Meu corpo tinha caído em queda livre, meu peito sendo esmagado pelo vácuo do susto, um frio na barriga que se espalhou por todo o meu interior.
— É o quê?!
— Por favor, não finge que não sabe disso. — Seus olhos azuis estavam escuros, duros e impenetráveis.
— Não sei o que, meu bem? Você vai ter que ser mais específico...
lambeu os lábios e passou a mão pelo rosto em um sinal claro de impaciência.
— Que eu tenho uma queda por você.
— Você não tem namorada?
— Eu não teria vindo pra cá se tivesse namorada, .
O vinho falou mais alto e, com o coração na boca, levei minhas duas mãos em seu rosto puxando-o para um beijo. De primeira, os lábios apenas se ajeitaram, acostumando-se com a presença um do outro, ao mesmo tempo em que uma mão de pousou em minha cintura e escorregou para as minhas costas, me puxando para perto enquanto abria sua boca, aprofundando o beijo.
Nossas línguas se tocaram e uma sensação de puro êxtase tomou conta do meu corpo. Ele se apoiou no cotovelo livre e se inclinou para cima de mim, fazendo minhas costas tocarem o colchão de volta. O beijo era lento e delicioso, daquele tipo que se dá quando quer aproveitar cada segundo, as línguas se conhecendo, explorando, minhas mãos mergulhadas em seus cabelos, puxando sua cabeça em minha direção.
Separamos nossas bocas em busca de um contato mais encaixado. Me ajeitei na cama, sorrindo, enquanto ele se arrumava entre as minhas pernas. Puxei sua blusa, o fazendo cair sobre mim, e uni nossos lábios mais uma vez. O beijo se encaixou de maneira fluida, sua língua na minha, seus dentes mordiscando meu lábio inferior, suas mãos deslizando por minha cintura, escorregando para debaixo da minha camiseta velha. Puta merda, estava acontecendo, meu corpo estava em chamas, meu coração disparado como se eu estivesse correndo uma maratona e, quando eu não achei que pudesse ficar mais dependente daquela sensação, puxou o ar pelos dentes quando minhas unhas arranharam sua pele macia do abdome enquanto eu também subia sua blusa.
Era aquilo, eu estava completamente derretida, não existia outra opção em que houvesse uma versão desse momento em minha vida em que eu não estivesse ansiando pelo toque de , era como se todos os pontos da minha vida estivessem me trazendo para cá, no meu quarto da infância, com o cara que eu achava que odiava deitado em minha cama, lambendo meu pescoço com tanta vontade que achei que não conseguiria conter um gemido.
Ele sorriu quando finalmente percebeu o efeito que tinha sobre mim, vendo o quanto eu estava molinha e entregue ao seu toque, e ainda sorria quando ficou de joelhos na cama e retirou sua camiseta e pude finalmente tocar nas constelações de sardas que estavam me deixando doida há dias. Aproveitei o momento para retirar minha blusa também.
— Porra — xingou ele, os olhos fitando cada milímetro de pele exposta. Meu sutiã era um top preto de lycra completamente broxante, mas ele fingiu não levar isso em consideração. — Perfeita.
— Cala a boca, . — Ergui o tronco, levando minhas mãos em seus ombros largos e puxando sua cabeça para mais um beijo. Dessa vez, o beijo ganhou um tempero a mais, uma intensidade que tirou meu fôlego, como se quisesse fundir nossas bocas. Suas mãos apertaram minha cintura e, dessa vez, quando me deitou novamente na cama, seu quadril pressionou o meu e um soluço engasgado surgiu em minha garganta.
— Shhhh, . Por favor. Estamos na casa dos seus pais, seu irmão está em uma parede e seu ex está na outra. — A sua voz rouca em meu ouvido era exatamente o que eu precisava depois de presenciar a brutalidade que era o tamanho do seu pau.
Ele iniciou uma sequência de beijos em meu pescoço, descendo até chegar em meu sutiã questionável que ele percebeu que não tinha fecho e apenas enfiou os dedos por baixo e puxou para cima, devagar, os olhos acompanhando cada mínimo detalhe do meu corpo. Quando a peça estava longe, seus lábios voltaram a beijar meu colo, a língua molhada em meu mamilo, os dentes mordiscando, os lábios chupando e minha garganta ansiando por um gemido que não podia escapar.
Sua mão pousou em meu quadril, deslizou dando um apertão em minha bunda antes de subir para a barra de minha calça. parou de beijar meu seio e ergueu o rosto para mim:
— Posso? — As pontinhas dos dedos já estavam dentro da minha calça, mas não ultrapassavam o limite do elástico. Seus olhos eram puro desejo, banhados em luxúria, transbordando êxtase. Eu não estava em condição nenhuma de negar aquilo, não quando já sentia a umidade transbordando em minha calcinha.
— Por favor.
Sua mão deslizou para dentro de minha calcinha com urgência. Os dedos acariciaram meu clitóris em movimentos circulares que fizeram meus olhos girarem nas órbitas e minhas costas se arquearem. Puxei o ar com a boca, engolindo o gemido que queria me escapar. O dedo médio deslizou até a minha entrada e escorregou para dentro de mim com tanta facilidade que fiquei envergonhada.
— Puta merda, — sussurrou ele, rouco.
Eu não conseguia pensar em nada, apenas sentir as sensações causadas pelo meu corpo, pelos arrepios constantes e pelo dedo de deslizando para dentro de mim. A parte de não gemer era uma merda, eu queria poder gritar o seu nome, queria poder mostrá-lo o quanto eu estava gostando, de quanto aquilo parecia certo e que eu o achava o cara mais gostoso do mundo.
Nada poderia me preparar quando ele adicionou mais um dedo dentro de mim, massageou meu clitóris com o polegar e tapou minha boca ao mesmo tempo com a outra mão. O clímax surgiu em um turbilhão, espasmos e tremedeira vindo de dentro para fora feito um tufão. Por sorte, ele tinha tapado minha boca. Santo, .
Quando ele notou que minha respiração diminuiu, retirou a mão de minha boca e os dedos de dentro de mim.
— Vai se foder, — falei entre sorrisos, puxando seu rosto para um novo beijo, descendo minhas mãos por seu tronco, chegando até sua cueca.
Seus lábios beijavam minha mandíbula, meu pescoço e, caralho, tudo com era assim, intenso e delicioso.
Suas mãos deslizaram por meu corpo, chegando até minha calça xadrez, ao mesmo tempo em que eu tentava abaixar sua cueca. Compartilhamos uma risada silenciosa quando cada um cuidou da sua própria roupa, me livrei da calça e ele da cueca.
— Você tem camisinha?
— Você não?!
— Acredite, , eu não vim pra cá pensando que iria te comer.
Dei o sorriso mais maldoso que pude, enquanto agarrava seu membro. Ele fechou os olhos com força, suspirando com dificuldade enquanto eu o masturbava devagar.
— Eu tomo pílula. — Sorri, voltando a me deitar com os braços erguidos de maneira preguiçosa. Seus olhos vaguearam por meu corpo completamente nu, aquele brilho descomunal em seus olhos.
Ele apenas grunhiu, enquanto segurava a base do seu pau e lambuzava em minha lubrificação, esfregou a cabeça em meu clitóris, me arrancando arrepios e um gemido silencioso que segurei. Posicionou-se em minha entrada e forçou o quadril para frente com intensidade o suficiente para entrar completamente em mim, que sufoquei um grito de prazer.
Porém, ao invés de iniciar movimentos, olhou para mim e riu, enquanto pegava um dos travesseiros jogados sobre a cama e enfiava atrás da cabeceira que tinha dado um baque alto quando ele me deu a primeira investida, eu ouvi o barulho, mas a sensação de tê-lo dentro de mim me fez sentir tantas coisas que era difícil assimilar tudo ao meu redor.
— Agora sim, porra — sussurrou ele, deitando seu tronco sobre mim e iniciando um movimento delicioso de entra e sai que fazia meu interior transbordar.
Era ritmado, era molhado e magnífico.
Eu nunca tinha transado com alguém assim, tão entorpecida, tão conectada, tão inexplicavelmente entregue.
Sua mão enorme apertava meu seio, enquanto sua boca trilhava caminhos pelo meu pescoço, e seu pau me penetrava tão fundo que era difícil assimilar tudo que acontecia enquanto minhas mãos passeavam por suas costas, anotando cada músculo, cada centímetro de pele e minha boca acariciava qualquer pedaço de pele que se aproximava de mim, o cheiro de seu pescoço abalando todas as minhas estruturas.
— Você não faz ideia do tempo que eu quero fazer isso, — sussurrou ele em meu ouvido.
— Uma pena que a gente tenha escolhido o pior momento pra fazer isso — sussurrei de volta e ele me devolveu um sorriso delicioso enquanto erguia o tronco perfeitamente esculpido, ficando de joelhos na cama, saindo de dentro de mim. Meu corpo gritava por contato.
Ele puxou meu quadril para perto e deslizou de volta para dentro de mim, me fazendo arquear as costas. Seu olhar era profundo, a ponto de eu perceber que ele se afastou para ter uma visualização melhor do momento, e confesso que era um tesão vê-lo assim. continuou as investidas, mas dessa vez levou a mão até meu ventre e, com o polegar, iniciou uma massagem circular sobre meu clitóris enquanto socava tão fundo que me fazia ver estrelas. Aquilo foi o meu aviso final.
Fechei os olhos, abri a boca mesmo sem emitir ruído algum e deixei as sensações me levarem a outra dimensão, o tesão e o clímax me abraçando em uma enxurrada de sentimentos. A textura do seu dedo em minha parte sensível, a dimensão de seu pau entrando e saindo de mim foram demais para eu aguentar e meu corpo explodiu em pedacinhos enquanto eu fechava os olhos com força. E demorou menos de um minuto para desmoronar em cima de mim, suas costas úmidas de suor. Nossas respirações ofegantes sincronizadas.
— Onde você pensa que está indo? — Sua voz ronronou atrás de mim, eu literalmente conseguia ouvir o seu sorriso.
— Preciso fingir que sou uma filha exemplar e vou ajudar minha mãe no café da manhã.
— Ah, achei que a gente podia... ficar mais um pouquinho na cama. — Sua mão deslizou até meu quadril e sua ereção roçou com força em mim, fazendo minha respiração falhar.
Deus do céu, eu tinha que ser forte por nós dois naquele momento, já que a porta estava destrancada e já tínhamos sido irresponsáveis o suficiente na noite anterior.
— Eu não vou fugir de você, . Podemos fazer isso em um lugar mais... privado da próxima vez.
Ele riu.
Passamos a noite inteira trocando carícias que levavam a algo mais, conversamos baixinho sobre curiosidades nossas, e acabei descobrindo que já tinha quebrado dois dedos, que era um ótimo jogador de baseball e que tinha uma grande extensão de plantas em sua casa, o suficiente para que ele fizesse uma lista para seu melhor amigo ir cuidar naquele feriado.
— Tudo bem, você tem razão. É que isso é tão surreal que eu não queria perder a oportunidade.
— Prometo que compenso você quando estivermos em um quarto com chaves — falei, retirando sua mão do meu quadril com dificuldade e me sentando na cama.
— Vou lembrar disso.
Tomamos café com aquela animação natalina especial, já que minha mãe tinha feito os biscoitos de gengibre que eu tanto falei a .
— Olha só, se não é o casal mais conversador da história da madrugada — Ângela falou quando entrou na cozinha, e Bruce apenas riu. Mostrei o dedo do meio para ele que me devolveu com as duas mãos.
— Oh, meu Deus, são os melhores biscoitos que já comi na vida, Maggie, muito obrigado. — estava se saindo muito bem em puxar o saco da minha mãe.
Minha mãe correu para abraçar que sorria com o abraço desajeitado.
— Você tem que passar essa receita para .
— Ah, coitadinho... Ele não sabe ainda, querida?
— O quê? — Os olhos de saíram de minha mãe e recaíram sobre mim.
— Não, mãe. Ele ainda não sabe que sou péssima na cozinha.
— Isso não é muito típico de Monica Geller — ele sussurrou em meu ouvido, me fazendo rir sozinha.
Depois do café, os gêmeos me ajudaram a arrumar todos os presentes debaixo da árvore e, segundo a tradição da família, só podiam ser abertos depois da meia-noite.
aprendeu a fazer a gemada tradicional com os ovos que sobraram da gincana, depois passou a tarde toda ajudando meu pai e Bruce com os pisca-piscas que tinham parado de funcionar lá na frente de casa. Vez ou outra ele escapava e vinha me dar um beijo, e em um certo ponto do dia, fomos pegos nos agarrando na dispensa feito dois adolescentes.
O clima estava tão gostoso que eu tinha esquecido completamente o draminha idiota de Arthur no dia anterior e em como Suzana tinha dito que talvez o noivado não fosse para a frente, então foi realmente uma surpresa quando, poucos minutos antes de servirmos o jantar, Arthur e Suzana desceram as escadas com as malas feitas, alegando que iriam ter que ir embora, por causa de um assunto de família.
— Quer saber? — minha mãe comentou sorrateira quando estávamos jantando. — Acho que o Arthur veio só para ver a nossa .
— É, acho que ele pensou que ela estava solteira e solitária — Ângela continuou.
— Sim, e quis esfregar o noivado não tão perfeito assim na cara dela — Bruce adicionou.
— Azar o dele, já devia ter entendido que a nossa não era para o bico dele — meu pai disse, piscando para mim.
— E agora tem um homem de verdade com ela. — Mamãe suspirou, sorrindo para , que nitidamente ficou com as bochechas coradas.
— Vocês podem para de falar como se eu ou não estivéssemos aqui?
— É apenas a verdade, querida. Suzana estava bem triste com toda a situação, ela sabe que não era culpa sua.
— Espero que ela ache alguém que a dê valor, ela parecia ser bem legal — tentei finalizar o assunto.
Um silêncio se instalou entre nós, apenas o barulho de talheres batendo.
— , você assiste futebol?
— Sim, senhor.
— Não quer vir assistir o Superbowl com a gente? Nós fazemos um churrasco, é um evento para nós, sabe.
— Eu não perderia por nada. — sorriu, realmente comovido, ele sabia que ser convidado para o Superbowl da família era basicamente um alerta de que ele tinha sido aceito.
— Eu estou convidada também, ou é um evento de monopólio machista? — perguntei e todos riram.
— É claro que sim, minha filha.
Tomamos gemada sobre a lareira, conversando sobre qualquer coisa até dar meia-noite. Os gêmeos estavam dormindo no chão quando Ângela os chamou para abrir os presentes.
Fizemos nossa troca anual de meias esquisitas, ganhei uma meia com desenhos de pinhas de Natal (mãe), uma do burro do Shrek (Bruce), uma com pequenos desenhos de livros voadores (pai) e meu coração bateu estranhamente forte quando me deu um pacote que parecia realmente um pacote de meias.
— Os gêmeos me contaram — disse ele, com um sorriso tão animado que fez meus olhos marejarem.
Entreguei a ele o meu pacote e abrimos juntos.
A minha meia era roxa e cheia de desenhos de peru assado com óculos, do episódio em Friends onde a Mônica tenta animar o Chandler com o peru de Ação de Graças na cabeça.
deu uma gargalhada vendo a meia dele e puxou minha cintura, selando nossos lábios com vigor, não se importando que estávamos na frente de todos.
No final, ganhei um cachecol, um copo Stanley, um suéter e uma bolsa. adorou o suéter natalino que o dei e o colocou na mesma hora. Ao contrário de mim, ele ia muito bem com verde.
Batemos fotos em família, ficamos mais um pouco nos esquentando sobre a lareira enquanto os gêmeos vestiam os moletons do Naruto que eu tinha dado e lutavam, falando coisas que ninguém entendia.
— Puxa vida... — suspirou , dramático, observando a nossa árvore de Natal de maneira saudosa. — Essa árvore está realmente incrível, posso bater uma foto para mostrar à minha mãe?
Meu pai parecia à beira de lágrimas quando acenou com a cabeça.
— Acho que o pai vai querer dormir com você hoje à noite — sussurrei em seu ouvido, fazendo-o sorrir.
— Você acha que eu estou ganhando da Ângela? — devolveu ele, no mesmo tom baixo.
— Pare de ser tão competitivo, está me deixando com tesão.
— Como eu vou conseguir parar com uma afirmação dessas?
— Vocês têm certeza de que não querem ficar mais um pouco? — questionou minha mãe, agarrada ao lado de enquanto ele tentava levar as malas até o carro.
— Infelizmente não dá, Maggie. Agora vamos enfrentar minha família no Ano Novo.
— Nós viemos pra cá no Super Bowl, tá bem? — falei, olhando para meu pai, que sorria, encantado, com o fato de realmente irmos lá.
Nos despedimos com beijos no rosto e abraços quentinhos, Liam e Ian grudados no pescoço de como se ele fosse uma estrela de cinema tentando entrar no carro depois de um evento cercado de paparazzi.
— Preparada? — me perguntou quando pegamos a estrada.
— Mais ou menos.
— Prometo que não vai ter gincana, nem quartos sem chaves.
— Isso já é uma vitória sem precedentes — falei, dando uma risadinha que ele acompanhou.
— Você tem roupas mais quentes em casa? Porque no Maine você vai precisar.
— Talvez.
— Vamos passar na sua casa pra pegar, então.
— , você está tentando me convencer a dar uma paradinha antes?
— Na verdade, vai ser uma parada e tanto, já que o avião é só amanhã à tarde — ele disse, dando o sorriso mais malicioso que eu já o tinha visto dar.
— Isso é interessante.
— Sem sombra de dúvidas.
