Rolei na cama ao despertar e quando abri os olhos, encarei o teto branco do quarto de hóspedes com um sorriso no rosto. Fazia tempo que eu não acordava de bom humor assim, mas era o que vinha acontecendo nos últimos três dias.
A quinta-feira havia chegado, o que significava que era o dia de viajar com para a casa da minha mãe. Eu havia reservado um voo noturno para que pudesse trabalhar e folgar no dia seguinte, e levaria cerca de três horas de Manhattan até Nova Orleans.
Poderíamos ir na sexta, mas costumava ficar meio enjoada quando viajava, mesmo que fosse uma curta distância. Além disso, agora que tinha voltado a morar com , ela precisava percorrer uma distância maior até o trabalho. Embora eu não soubesse quanto tempo exatamente isso levava, eu imaginava que seria cerca de uma hora e meia, considerando o horário de pico da manhã. Não era preciso ser um gênio para adivinhar que ela estaria cansada à noite, e viajar na sexta durante o dia não era uma opção. sempre preferiu viajar à noite quando íamos visitar minha mãe.
Nosso voo sairia às oito e meia, então ela teria tempo de se aprontar. De todo modo, isso significava mais tempo com ela.
A ideia me fazia rir que nem um idiota.
Quem disse que ser teimoso e infantil não dava certo? Não que eu estivesse mentindo ao dizer que não viajaria sozinho — eu realmente não viajaria, e minha mãe já sabia disso. Tive que prometer passar um final de semana inteiro com ela para compensar, assim que encontrasse uma brecha na agenda.
Mas a verdade era que eu queria, sim, estar presente no aniversário dela, só que com . No entanto, eu também sabia que convidá-la estava fora de questão, por isso propus que ela fosse sozinha a princípio. Eu tinha que plantar a ideia da viagem na cabeça dela primeiro. admirava o relacionamento que eu tinha com minha mãe, e eu sabia que ela traria o assunto à tona novamente, tagarela do jeito que era. Ela sempre se esforçou para agradar à mamãe e tinha uma ideia meio ultrapassada de que minha mãe seria exigente com sua nora por eu ser seu único filho, mas nada disso era verdade.
De todo modo, foi a primeira namorada que apresentei a ela desde o ensino médio, quando tive um breve relacionamento que durou menos de três meses com uma colega de turma que me trocou pelo capitão de futebol, o que me fez ir sozinho ao baile de formatura. Acho que eu parecia um perdedor perto dele por ser mais quieto, e isso me deixou bem chateado na época.
Quando estreei como artista, uma das minhas músicas mais populares foi justo uma que escrevi por causa dela. A música falava sobre festas, dinheiro e como eu estava diferente e legal agora, mas honestamente, só a parte do dinheiro era verdade. Eu ainda era o mesmo cara introspectivo de sempre.
No fim, cheguei à conclusão de que só namoramos porque ela se sentiu grata por eu tê-la ajudado a passar em geografia. Nem todo mundo pegava essa disciplina, e acho que ela se arrependeu profundamente disso, até eu me oferecer para ajudá-la depois de um trabalho em dupla.
Namoradas à parte, eu achava que sempre seria a favorita. Minha mãe a via praticamente como uma heroína por ter conseguido, nas palavras dela, “derreter meu coração de gelo”.
Como se tivesse corrido atrás de mim.
Não era segredo para ninguém que eu fui o responsável, mas era ela quem levava o crédito.
O que minha mãe nunca soube foi que dormimos juntos na noite em que nos conhecemos. Para ela, foi amor à primeira vista em um bar, uma noite de conversa que terminou comigo indo deixar em casa e a chamando para sair depois. Uma história simples e pura, omitindo metade da verdade, e eu ria sempre que lembrava dela.
Me sentei na cama e esfreguei os olhos, então ouvi meu celular vibrando embaixo do travesseiro. Rolei os olhos antes de atender a ligação.
— Oi, Jace.
— Você viu o artigo que mandei?
— Que artigo? — perguntei, tranquilamente, em meio a um bocejo.
— Você e foram vistos juntos há alguns dias.
— Ah, isso.
— É. Vocês não tinham terminado? Já voltaram, por acaso?
Como assim, já? Me irritei um pouco.
— Não, Jace. Não voltamos.
— E por que saíram juntos?
O que é isso? Outro interrogatório? Respirei fundo, antes de responder.
— Não que seja da sua conta, Jace, mas fomos atrás de um presente de aniversário pra minha mãe.
— Sua mãe? E o que ela tem a ver com isso?
— vai comigo.
— Como assim? Você falou que não ia viajar.
— Mudei de ideia.
— Por causa dela?
— Sim, Jace. Por causa dela — respondi, impaciente. — Você tem mais perguntas ou já acabou o interrogatório?
— As pessoas estão achando que vocês estão juntos.
— Tecnicamente estamos. Nunca admitimos o término. E entramos num acordo de não fazer isso agora por causa do lançamento do álbum.
— Ainda, você tá fazendo sua vida girar em torno dessa mulher. Não deveria agir como um capacho.
— Ah, claro. Eu devia tratá-la como lixo, que nem você faz com todas as mulheres com quem se envolve, né?
— Só estou dizendo que você é . Não deveria estar sofrendo por alguém que te largou por uma besteira.
Ah, agora ele foi longe demais. De novo.
— Besteira? Minha mulher ficou traumatizada por perder nosso filho e isso é uma besteira pra você?
— Você disse que ela nem lembrava de nada. Além disso, mulheres abortam o tempo todo.
Tive que contar até dez mentalmente.
— Jace, por que você não vai encher o saco de outra pessoa e me deixa em paz? Antes que eu vá aí e dê um soco na sua cara, seu imbecil.
— O quê? — Ele riu. — Do que você tá falando? Ficou com raiva por causa de um comentário?
Rolei os olhos mais uma vez.
— Jace, me diz uma coisa... Você pensa? Quer que eu ouça você insultar minha mulher e fique quieto, seu idiota?
— Você quer dizer ex-mulher. E vocês não eram casados, então, ex-namorada.
— era praticamente minha esposa, e nunca precisamos de um pedaço de papel pra confirmar isso. E quer saber? Eu tô no meu limite com você, cara. Cuida da sua vida e para de se meter na minha. Eu não tenho obrigação nenhuma de te dar satisfação da minha vida pessoal, e já falei isso várias vezes.
— .
— Não me ligue, não me mande mensagens, nem sequer por e-mail. Vou visitar minha mãe e só vou atender chamadas de emergência, entendeu?
Ouvi um suspiro.
— Certo — ele respondeu finalmente. — Me desculpa, eu fui insensível.
Abri um sorriso de escárnio e desliguei, sem responder.
Eu ia me livrar desse idiota o quanto antes.
***
Passei a tarde preparando uma mala para a viagem, enquanto tentava manter a calma. Eu estava me sentindo meio idiota, nervoso por ter mais um tempo a sós com , mesmo sabendo que isso provavelmente não significaria nada. Nada além da amizade que desenvolvemos em nossos anos juntos como um casal, pelo menos.
O plano era chegar na casa da minha mãe ainda na quinta e voltar no sábado. voltaria para Manhattan sozinha, enquanto eu seguiria para Los Angeles, passaria a noite lá, e então voltaria para casa na manhã seguinte.
Cansativo, mas eu tinha dado um jeito de conseguir uma reunião extraordinária no domingo, e faltar não era uma opção. Todos estavam ocupados e eu queria resolver aquele assunto de uma vez, de preferência antes de voltar para a apresentação que eu teria lá.
No meio da tarde, enviei mensagem para perguntando se ela já tinha escolhido uma fantasia e dizendo que eu não tinha ideia do que vestir. Sua resposta veio pouco depois.
♥: Sempre deixando pra última hora. Vou de Anastasia, é uma das poucas fantasias que posso usar sem peruca.
Anastasia tinha várias opções de roupa, mas imaginei que escolheria algo elegante, já que adorava festas à fantasia. Na última vez que participamos de uma, em Los Angeles, na casa de Ji Ho, ela se vestiu de Jessica Rabbit. estava impecável e eu a ajudei a colocar o vestido naquela noite, auxiliando com o zíper. Também ajudei a tirá-lo horas mais tarde, o que foi a melhor parte.
: Você tem alguma sugestão pra mim?
Perguntei, sem nenhuma vergonha. Eu não tinha muitas opções e me vestir de super-herói não era uma delas.
♥: Que tal Clark Kent? Ou James Bond? Com certeza deve ter algum Bond que você se encaixe. Mas aí ninguém vai saber que você é ele.
: Kent, então? Acho que tenho um óculos quadrado em algum lugar.
♥: No closet, no armário onde eu guardava meus acessórios.
: Certo, vou procurar. Obrigado.
♥: Você também tem uma camiseta com a estampa do Superman em algum lugar, vê se acha também. Você pode vestir por baixo do terno.
: Eu vi ela essa semana.
Me concentrei em procurar e, depois de uns cinco minutos, encontrei tanto os óculos quanto a camisa azul. Escolhi um terno preto e coloquei tudo na mala, fechando-a em seguida. Três horas mais tarde, peguei um táxi até a editora para encontrar e irmos para o aeroporto. Ela havia levado a mala para o trabalho e conseguiu tomar um banho lá mesmo, assim que seu expediente terminou.
Não houve muita conversa no caminho. O taxista, um senhor de idade, parecia mais preocupado em sintonizar uma estação de rádio do que em conversar conosco. Cumprimentei baixinho quando ela entrou, mas não passou disso até chegarmos ao aeroporto. Antes de sair do carro, coloquei uma máscara e um boné preto. podia passar despercebida nos lugares, mas para mim nem sempre dava certo. Especialmente em um aeroporto repleto de gente de todos os lugares do mundo.
Caminhamos até o portão de embarque e após longos minutos de espera, finalmente pegamos nosso voo.
Eu havia comprado passagens de primeira classe, o que nos dava um pouco de privacidade, mas só depois que nos acomodamos nas poltronas foi que tirei a máscara e o boné.
— A gente vai ficar na casa da sua mãe mesmo ou em um hotel?
— Na casa dela. Mas eu pedi pra ela aprontar mais um quarto pra você.
Minha mãe tinha uma casa grande e ia receber alguns parentes, no máximo dois ou três. Ela ficou bastante animada quando mencionei que eu e iríamos, mas pude ouvir seu sorriso desaparecer quando mencionei que ficaríamos em quartos separados.
— Você tá maluco? — perguntou. — Ninguém sabe sobre a gente. Acha que faz sentido dormirmos em quartos separados?
— É que... Achei que você fosse ficar desconfortável.
— Eu posso muito bem dividir um quarto com você, . Eu sei que pode ser meio estranho pra gente agora, mas é só... fingir que somos uma parede ou coisa assim.
— Uma parede com seios e uma bunda enorme é novidade pra mim, — brinquei, sem pensar.
— ! — Ela me bateu no ombro e eu ri, resmungando baixinho enquanto esfregava o local atingido.
— Espero que você não tenha escolhido aquela camisola azul como pijama — comentei e imediatamente ela ficou em silêncio. Meu sorriso morreu. — Você escolheu ela, não foi? Porra, !
— Olha, eu não pensei, tá? Foi literalmente a primeira que vi — retrucou. — E não tem nada de mais. É bem mais comportada do que meus outros pijamas.
— E cheia de renda, sexy pra cacete.
Ela ficou em silêncio outra vez e, por um segundo, me perguntei se a tinha deixado desconfortável com aqueles comentários. No entanto, quando ela continuou a falar, percebi que não.
— Eu posso resolver isso facilmente pegando um moletom seu e uma calça emprestada. — Ela deu de ombros, inabalável.
— Pior ainda. — Vou querer tirar tudo de você, eu quase disse. — Mas tudo bem, eu tenho travesseiros suficientes na cama.
— Pra montar uma barreira? — Ela riu com a possibilidade.
— Ou improvisar outra cama no chão — acrescentei.
riu de novo e senti o som reverberar pelo meu peito, absorvendo-o com gosto.
Uma aeromoça se aproximou para nos oferecer uma bebida.
— Por que não? — arqueou uma sobrancelha, interessada. Cinco minutos depois, ela estava com um Martini de limão nas mãos, enquanto eu preferi ficar só na água com gás.
Quando acabou, ela se virou para o lado e adormeceu até pouco antes do avião pousar em Nova Orleans.
***
Na casa da minha mãe, ela nos recebeu com um abraço apertado. Notei que ela parecia felizinha e imaginei que tivesse bebido um pouco de vinho enquanto nos esperava.
Era quase meia-noite quando chegamos.
— Venham para a cozinha, preciso falar com vocês.
Nós acompanhamos em silêncio e, já na cozinha, minha mãe se virou para mim.
— Seus primos Percy e Wanda estão aqui em casa.
— Você convidou aqueles idiotas? — cochichei, olhando para os lados, mesmo sabendo que eles deviam estar no andar de cima.
— Eu convidei a família toda, mas não imaginei que eles viriam de Londres até aqui. Foi uma surpresa.
— Que merda, mãe.
— Pois é, tive que dar um dos quartos pro Percy, então vocês vão ter que dividir o de sempre.
Respirei fundo, e então encarei .
— O que você acha? Podemos ir para um hotel se você quiser.
— Vamos ficar. — Ela deu de ombros. — Já conversamos sobre isso.
— Ótimo — falei, já me preparando psicologicamente para A Camisola Azul. — Vamos então.
Peguei as malas enquanto se arrastava atrás de mim e, quando entramos no quarto, a primeira coisa que ela fez foi tirar os sapatos e se trancar no banheiro para trocar de roupa.
Cumprindo o que eu tinha dito no avião, peguei dois travesseiros e os coloquei no meio da cama, criando uma barreira. Quando ela voltou, foi a minha vez de ir ao banheiro e rapidamente vesti um pijama, incluindo a camiseta. Com exceção do inverno, eu não costumava dormir com nada além de uma cueca boxer, mas não podia mais fazer isso com ela ali.
Infelizmente, não se importou em expor menos pele e parecia bastante tranquila para alguém que dormiria na mesma cama que o ex.
Involuntariamente, um pensamento me ocorreu. Será que ela agiria assim com Andrew também, agora que estava solteira? Tratando ele como um mero amigo com quem poderia dividir uma cama? Não foi difícil para mim deduzir que sim, ela provavelmente faria isso sem problemas, mas a ideia de outro homem — amigo ou não — dormindo ao lado dela provocou um súbito mau-humor em mim.
De repente, minha mente se encheu de possibilidades e até cheguei a pensar em quando ela poderia abrir o coração para outra pessoa no futuro e iniciar um novo relacionamento, enquanto eu ficava para trás. Só de pensar nisso, meu coração se apertava.
Eu a tinha perdido por um motivo que ia além da perda do nosso bebê, mas não tinha ideia do que era. Ela não ia me contar, nem eu a forçaria a fazer isso, por mais que me incomodasse não saber.
Talvez com o tempo, se ela não conhecesse ninguém e se ainda tivesse sentimentos por mim... Então nós poderíamos conversar.
Eu poderia esperar o tempo que fosse por ela.
Apaguei as luzes e deitei ao seu lado na cama, em silêncio. As cortinas da janela do meu quarto estavam fechadas e estava de costas para mim.
Antes eu me aconchegaria nela e conversaríamos até cair no sono. Agora, ela estava a um braço de distância e não poder mais fazer isso era um saco. Passei semanas para me acostumar a dormir sem a presença dela ao meu lado no nosso apartamento e, quando eu voltasse, teria que reaprender. As duas noites que passaríamos naquele quarto eram suficientes para bagunçar o meu sono.
Respirei fundo e encarei a barreira de travesseiros. Meus pensamentos intrusivos me diziam para me livrar deles e puxar o corpo dela de encontro ao meu.
No avião, não consegui dormir. Eu deveria estar com sono naquele momento, mas parecia impossível pregar o olho. permaneceu na mesma posição enquanto eu me revirava na cama até decidir ficar parado, encarando o teto até adormecer. Não sei quando isso aconteceu, mas na manhã seguinte, acordei com um corpo em cima do meu.
Os travesseiros estavam no chão e me abraçava, com uma perna sobre meu corpo. Eu tinha certeza absoluta de que não era o culpado. Acordei na mesmíssima posição em que adormeci, mas ela estava ali, invadindo meu espaço pessoal, mesmo tendo dois terços da cama livres.
Grudada em mim como um chiclete.
Infelizmente, gostei demais para me afastar, então continuei parado até ela acordar e se dar conta do que tinha feito. De jeito nenhum eu fingiria que aquilo não tinha acontecido. Se ela fez, então que lidasse com as consequências.
Vi o exato momento em que ela arregalou os olhos e se afastou cuidadosamente até notar que eu a encarava. Eu não podia negar, era divertido pra cacete.
— Por que você não me acordou? — ela quis saber.
— Por que você ultrapassou a barreira? — devolvi.
respirou fundo e se sentou de costas para mim no seu lado da cama, colocando um pouco de distância entre nós.
— Acho que foi enquanto eu dormia, desculpa.
— Não tô ofendido. Na verdade, é até bom saber que seu corpo procura pelo meu quando você tá inconsciente. Tive que me policiar pra não fazer o mesmo — falei e vi seus ombros enrijecerem. Uma pontada de decepção me atingiu, e me arrependi de ter comentado aquilo.
Eu estava tão acostumado a ser cem por cento sincero com e a falar o que me vinha à cabeça que não poder, não dever mais fazer isso era absolutamente ruim. Eu odiava. Queria minha melhor amiga de volta, minha mulher de volta.
— Não vai acontecer de novo — disse .
Aquilo foi o suficiente para que eu também colocasse uma distância entre nós. Me sentei na cama e me levantei em seguida, anunciando que ia tomar banho. Nem mesmo perguntei se ela queria ir primeiro. Eu podia sentir o perfume dela em cima de mim e queria me livrar de tudo o quanto antes. Ficar naquele quarto só me faria remoer nosso término e as coisas não ditas pela milésima vez.
Quando saí do banheiro, meu humor estava um pouco melhor e eu esperei por ela para descermos juntos para tomar café da manhã. Então lembrei dos meus primos odiosos e intrometidos.
— Espera. — Segurei seu pulso, antes que ela abrisse a porta. — Percy e Wanda estão aqui.
— Ah, é. Você nunca me falou sobre eles.
— Você conheceu tipo noventa e cinco por cento da minha família. Nem todo mundo de Londres vêm pra cá, e eu passo cem por cento do tempo esquecendo que aqueles dois existem.
— Caramba. Quem são eles? — perguntou, interessada. — Já deu pra ver que você não simpatiza com nenhum. — Ela riu, divertida.
Eu já esperava que ela ficasse curiosa. adorava uma fofoca, e na minha família tinha de sobra, mas ela não sabia de tudo.
— E não simpatizo mesmo. Aqueles idiotas faziam bullying comigo quando a gente era criança. E isso durou até uns anos atrás, antes de eu te conhecer. Eu já tinha estreado como cantor, mas eles não levavam isso a sério. Na verdade, acho que todo mundo achava que não ia pra frente.
— Que infantil… Mas olha onde você tá agora. Pode esfregar seu sucesso na cara daqueles dois.
— Não vou fazer isso. A família deles é bem rica e influente na Inglaterra. Eles debocham porque são arrogantes. Não importa se eu tô ganhando dinheiro com isso ou não. Eles só apreciam música clássica e arte que ninguém entende.
Foi então que ela abriu um sorriso malicioso, com cara de quem ia aprontar.
— Que bom que para todos os efeitos você tem uma namorada meio maluca, então. Deixa comigo e eu coloco aqueles dois no lugar se falarem um ‘A' de você. Vamos. — Ela abriu a porta e me puxou pela mão, determinada.
Sorri atrás dela. era bem menor que eu, mas parecia uma loba quando o assunto era defender as pessoas de quem gostava. Eu amava esse lado dela.
Encontramos minha mãe, uma tia e meus dois primos já sentados à mesa e cumprimentamos todos, trocando as apresentações necessárias. As duas estavam de saída para resolver sei lá o que da festa e ficamos só nós quatro.
— Caramba, primo. Andou malhando muito? Você nem parece mais aquele garoto magricelo de antes — Percy comentou.
— se exercita a semana toda, mas acho que você não deve ter muita experiência com isso, né? — comentou com um sorriso doce, desviando os olhos para a barriguinha de chope dele.
Percy pigarreou e voltou a fazer seu prato.
— Não gosto de academias, prefiro fazer caminhadas de vez em quando, dizem que faz bem pro coração. Além disso, a empresa ocupa muito do meu tempo.
— Ah, sim... também é bastante ocupado, mas é aquela coisa... Quem quer, dá seus pulos. — Ela deu uma risadinha.
Meu primo a encarou levemente desconfortável, mas fingiu não perceber. Do outro lado, Wanda estava batendo pedaços de frango cozido em um suco verde. Quase enjoei só de ver. E reclamando dos meus shakes de proteína.
— É o que eu sempre digo a ele, — Wanda comentou. — Eu me exercito todos os dias, como três refeições diárias e alguns dias da semana só ingiro sucos caseiros com frango. São nutricionalmente eficazes pra mim.
Ao contrário de Percy, eu não tinha certeza se Wanda possuía alguma porcentagem de gordura corporal. A impressão que eu tinha era de que alguém poderia quebrá-la ao meio com um simples abraço.
— Ah, claro. Não sou muito fã disso. Eu malho pra comer o que der vontade — comentou.
— Deu pra notar. — Wanda a encarou de cima a baixo. — Quanto você usa de calça? Um quarenta e quatro?
— Trinta e oito, por incrível que pareça. Mas prefiro comprar tamanho quarenta pra ficar mais confortável, sabe como é...
— Na verdade, não sei não. Não acho que eu teria uma... bunda desse tamanho nem se eu comesse toda a comida do mundo. Mas tenho sorte que a minha genética impede que isso aconteça.
Caramba, ela tinha acabado de chamar de gorda? Tudo bem que praticamente tinha feito o mesmo com Percy, mas o insulto foi para me defender e foi definitivamente mais sutil. Eu estava com todos os panos prontos para passar para ela.
— Ainda bem que tenho sorte de ter um namorado bonitão que prefere essa versão de mim. — Ela me encarou e eu sorri.
— Ah, com certeza. — Dei um tapa na bunda dela, mostrando o quanto eu gostava.
— ! Não na frente da sua família — ela cochichou, divertida.
Eu dei uma risadinha e a beijei no rosto, antes de me afastar para fazer meu prato. Wanda tinha uma careta de nojo no rosto, mas aquela meio que era a expressão habitual dela. Felizmente, aquela conversa não se estendeu. me seguiu, ainda sorrindo, e foi quando me dei conta de que talvez ela estivesse mesmo aproveitando aquilo tanto quanto eu.
Em público, ainda éramos um casal. E eu aproveitaria aqueles momentos roubados para abraçá-la quando bem entendesse porque ela provavelmente faria o mesmo.
tinha terminado comigo, mas acordar com ela agarrada a mim só me fez ter certeza de que a atração física entre nós ainda era forte.
Algum tempo depois, minha mãe voltou e nos ocupamos em ajudá-la com alguns preparativos da festa. Ela tinha contratado pessoas para transformar o jardim de casa num local de festas. Havia até uma pista de dança no meio e dois quiosques de bebidas.
Ela me disse que tinha convidado apenas parentes e amigos próximos, mas eu sabia que haveria no mínimo umas cinquenta pessoas. Para mim, isso já era bastante gente para uma festa intimista, mas minha mãe sempre foi muito sociável e fazia amigos com facilidade, diferente de mim.
Organizar esse tipo de evento era divertido para ela e eu estava feliz de termos dinheiro suficiente para bancar tudo aquilo do jeito que ela queria sem nos preocupar financeiramente.
Meu pai provavelmente diria que era um desperdício de dinheiro, se estivesse ali. Quando eles se divorciaram, eu estava no ensino médio. Nossa relação, que já não era das melhores, se deteriorou mais ainda e nos falávamos apenas algumas vezes por ano. Ele nem mesmo sabia muito da minha vida pessoal e nunca fiz questão de apresentar para ele. Não era algo que a incomodava, no entanto. Até porque, para todos os efeitos, era a única parente dela que eu conhecia. Ambas se tornaram a única família uma da outra muito antes de eu aparecer. Mesmo não estando mais ao lado de , era bom saber que ela não estava sozinha e que tinha alguns amigos além da irmã.
Quando a noite veio, insistiu que eu tomasse banho primeiro enquanto ela terminava de arrumar o cabelo e, em pouco tempo, fiquei pronto. Normalmente, as pessoas que se fantasiavam de Clark Kent deixavam a camisa aberta, exibindo o símbolo do Superman, mas preferi não fazer isso. Eu sempre poderia abri-la se me perguntassem qual era minha fantasia.
Ou simplesmente poderia guardar o óculos e começar a fingir que eu era Dimitri, o par romântico de Anastasia.
Embora não tivesse visto sua roupa ainda, eu tinha uma leve suspeita de que tipo de vestido ela tinha escolhido e mal podia esperar para ver.
— Vou lá pra baixo, me avisa quando tiver pronta e eu venho te buscar — avisei.
— Tá bom — ela respondeu enquanto colocava mais um grampo no cabelo, sem olhar para mim.
Saí, pronto para cumprimentar o zilhão de pessoas que minha mãe tinha convidado e já estavam chegando e, cerca de uma hora mais tarde, eu acho que já tinha falado com quase todos ali presentes quando me mandou mensagem falando que estava pronta.
— Vou buscar — avisei para minha mãe, que estava ao meu lado em sua fantasia de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo.
— Sim, meu bem — ela respondeu, voltando a atenção novamente para a conversa com uma das minhas tias.
Subi as escadas rapidamente e parei no corredor, aproveitando o breve momento de paz sem ter que socializar com ninguém, antes de seguir até meu quarto.
Abri a porta de uma vez.
— , você tá... — Perdi a voz no meio da frase quando ela se virou para mim. — ...pronta?
— Oi. — Ela sorriu, um pouco tímida, e eu engoli em seco. — Você ficou um ótimo Clark Kent, eu sabia que combinava com você. O que achou da minha? — Ela se balançou de um lado para o outro, exibindo o vestido, absolutamente adorável.
Era um tom de azul-escuro, sem alças, com um véu translúcido e brilhante da mesma cor, preso nas costas. Seu cabelo tinha uma tiara brilhante e, nas mãos, um par de luvas brancas acetinadas.
Andei até ela, encantado. Levei uma mão ao seu rosto e me inclinei para beijar sua bochecha, sem deixar de notar que ela não enrijeceu ou se afastou.
— Você tá tão linda, . Essa fantasia ficou bem melhor do que eu esperava. — Segurei uma de suas mãos e levei aos lábios. — Vamos?
assentiu com um sorriso e entrelaçou o braço no meu.
Eu senti quando as pessoas notaram sua presença. Muitas pararam de falar no meio de uma frase, outras se viravam bruscamente, sem nem disfarçar. Não demorou muito para sermos abordados.
Felizmente, foi por minha mãe.
— , querida. Que fantasia mais linda! Quem você é?
— A princesa Anastasia. — sorriu. — A senhora tá linda e muito elegante também.
Minha mãe sorriu de volta, satisfeita com o elogio.
— Obrigada, meu bem. Venha, vamos tomar uns drinks. — E arrastou para um dos quiosques, me deixando para trás.
Suspirei e fui até o outro, em busca de uma dose de whisky.
Uma hora depois, ela e minha mãe estavam na pista de dança ao som de músicas dos anos 80, enquanto eu as assistia de uma mesa meio escondida atrás de um arbusto alto, feliz que ninguém estava falando comigo ou me pedindo para cantar aleatoriamente.
Ali, eu podia ser apenas eu.
Após um tempo, apareceu e me puxou para uma dança lenta. Ela já estava meio alta e bem mais desinibida. Se encostou em mim, passando os braços pela minha cintura e sorriu, nos balançando para lá e para cá, tentando me convencer a acompanhá-la.
Ela não parecia se importar com a música que tocava, mas eu estava terrivelmente incomodado, sendo alguém que tinha ingerido uma única dose de álcool, ao ouvir a letra de “It must have been love” de Roxette.
Me inclinei para cochichar com ela.
— Você tá bem? Por que a gente tá dançando essa música?
— Porque é uma boa música.
— Não gosto dela agora. Vamos sair daqui? Acho que você precisa tomar água.
— Eu não tô bêbada, . Até parece que você não sabe disso.
— Eu sei que não tá. Mas não quero que acorde de ressaca amanhã, pode ser?
revirou os olhos e paramos de dançar. Segurei sua mão e fomos até a cozinha da minha mãe que, felizmente, estava vazia e livre de olhares curiosos.
Peguei dois copos de água e coloquei um na frente dela.
— Você não tá se divertindo — ela reparou.
— Tô deixando você fazer isso por nós dois — comentei.
O único local que eu me sentia à vontade para me soltar era em um palco, retribuindo o tempo que as pessoas tinham reservado para me ver com uma apresentação o mais impecável possível. Era diferente de estar em um lugar onde dois terços das pessoas tinham me visto crescer. Eu me sentia exposto, rodeado de abutres em busca de um pedaço de mim. Era só mais uma brecha para fofocar, encontrar um defeito. Sempre tinha sido assim na minha família, mas eu imaginava que devia ser assim em qualquer uma que fosse grande demais.
— É o aniversário da sua mãe. Você devia ao menos dançar com ela.
— Tudo bem. — Suspirei, tomando um gole de água. — Acho que foi só minha bateria social que esgotou.
— Vamos ficar até os parabéns, comer um pedaço de bolo e subir, então. — Ela deu um passo para o lado, me abraçando pela cintura como tinha feito na pista de dança. — O que você acha?
— Tudo bem. — Beijei a testa dela.
— Ótimo! Então vamos voltar. Eu vou te fazer companhia, mas tem uns três ou quatro drinks diferentões que eu quero provar.
Rolei os olhos, contendo um sorriso, e deixei que ela me arrastasse de volta para um dos quiosques de bebidas. me convenceu a experimentar um drink com ela e, em seguida, me afastei para dançar com minha mãe, mantendo um olho nela de longe.
— Ela tá se divertindo, não precisa se preocupar. — Minha mãe riu, percebendo minha atenção em . — Você sempre foi muito cuidadoso com ela. Acho isso um amor.
— Aprendi com você. — Sorri. — Você parece feliz, mãe.
— E estou. Essa festa deu um trabalho pra organizar, mas tá melhor do que eu esperava.
— Bom saber.
Quando a dança terminou, fui até novamente e descobri que ela estava em seu terceiro drink desde que voltamos para o jardim.
— Oi, gostosão! — Ela sorriu, colocando uma mão no meu peito.
— Tá, agora você tá bêbada — comentei com convicção.
— Só um pouquinho. — Ela indicou com o polegar e o indicador, antes de passar os braços ao redor do meu pescoço. — Você tá um Clark Kent muito sexy. O que será que tem por trás dessa fantasia de bom moço?
— Você sabe muito bem o que tem. — A abracei pela cintura, contendo um sorriso.
— Sei mesmo — ela respondeu, me puxando pela gravata para um beijo repentino.
Me afastei após um instante.
— . Acho que nós não-
Ela me beijou novamente, me interrompendo. Em seguida, moveu os lábios para minha mandíbula e então para o meu pescoço.
— Você é tão gostoso, eu quero te comer todinho — ela murmurou no meu ouvido e tive que criar coragem para afastá-la de mim.
— Amor, aqui não. As pessoas tão olhando, lembra? — cochichei com ela. — Seja uma boa menina e se comporte.
— Não vou me comportar se você continuar falando desse jeito comigo.
— De que jeito?
— Do jeito que promete acabar comigo na cama.
Eu ri, nervoso, e olhei para os lados para ter certeza de que ninguém estava ouvindo aquela conversa.
— Eu bem que queria — respondi, olhando nos olhos dela. — Você sabe muito bem disso.
— Então a gente devia ir embora. — Ela sorriu, maliciosa.
— Ei, só depois dos parabéns e do bolo, lembra?
— Ah, é mesmo. — Seu sorriso desapareceu.
No entanto, menos poucos minutos depois, as pessoas começaram a cantar para minha mãe. Já eram quase onze da noite, então estava mais do que na hora. Depois da cantoria, ganhei o primeiro pedaço de bolo. Cinco minutos depois, eu estava sentado na mesma mesa de antes, com sentada ao meu lado, fazendo dancinhas enquanto comia uma fatia enorme de bolo de chocolate.
Torci para ela não passar mal depois, mas não tinha certeza se ela escaparia de uma dor de cabeça de ressaca. Pensei que comer doce faria um pouco do álcool em seu organismo se dissipar, mas não foi o que aconteceu.
Saímos de fininho da festa e, de volta ao meu quarto, se sentou na cama, já tirando os sapatos e puxando os grampos do cabelo.
— Quer ajuda? — ofereci, me sentando ao seu lado.
Ela assentiu em silêncio e comecei a procurar os grampos, soltando aos poucos seu cabelo, que caiu em cascata por suas costas.
— Ai, finalmente. Eu não via a hora de soltar o cabelo.
Eu ri baixinho e me levantei para colocar os grampos em um cantinho.
Quando me virei, estava terminando de abaixar o zíper lateral do vestido, que caiu aos seus pés um momento depois.
— Eu vou tomar banho — anunciei, já indo em direção à mala, em busca do meu pijama.
— Eu também — ela disse.
— Pode ir primeiro então, eu espero.
Felizmente, ela concordou e, um momento depois, entrou no banheiro sem se importar em fechar a porta.
Respirei fundo algumas vezes. Aquilo não era diversão, era tortura. Mas fiquei satisfeito comigo mesmo por mal ter bebido naquela noite. Assim, pelo menos um de nós poderia estar com a cabeça no lugar.
voltou só de toalha, com o cheiro do seu óleo corporal se espalhando pelo quarto, e eu me enfiei no banheiro o mais rápido que pude, trancando a porta atrás de mim, só por precaução.
Em seguida, tomei um banho de água fria.
Foi só quando terminei que percebi que tinha deixado a camiseta cair no chão do quarto. Que se dane então, xinguei mentalmente e vesti a cueca e a calça, antes de sair.
estava sentada de costas para mim do seu lado na cama, ainda de toalha, e parecia pensativa. Resolvi não dar atenção e apenas me deitei do meu lado, fingindo desinteresse enquanto mexia no celular.
— Até que fim você voltou — ela disse, antes de se levantar e se livrar da toalha, subindo na cama direto para o meu colo antes que eu pudesse reagir. — Eu tava esperando por você. — Ela sorriu, passando um dedo pelo meu peito desnudo.
— , para com isso. — Olhei para o teto, tentando me controlar para não encará-la em cima de mim.
Merda, o que eu fiz feito para merecer isso? A mulher que eu amava estava nua em cima de mim e eu não podia fazer nada porque ela estava bêbada e provavelmente se arrependeria no dia seguinte caso algo acontecesse.
— Por quê? Eu tô com saudade. — Ela se inclinou, beijando meu pescoço. — Eu quero você, .
Ela pressionou o quadril contra o meu e gemi baixinho, xingando mentalmente em todas as línguas que eu tinha aprendido a xingar.
— , não vou transar com você — consegui dizer.
— Por que não? Você me quer também, eu tô sentindo. — Ela se movimentou outra vez.
Merda. Merda. Merda.
Por que isso tinha que acontecer?
— Você me largou, lembra? — Decidi ir pelo caminho mais difícil. — Você terminou comigo, . Não podemos mais fazer isso, você nem é mais minha namorada.
— Eu também não era sua namorada na noite em que nos conhecemos — ela retrucou, parecendo inabalável. — E mesmo assim a gente transou.
Respirei fundo e inverti nossas posições.
— Agora é diferente e você sabe. Ninguém mandou terminar comigo — falei, firme. — Não vou dormir com você, . Acho melhor eu sair daqui.
Tentei me levantar, mas ela me puxou.
— Não, fica. Por favor, . Eu vou me comportar agora, prometo.
— Então vá se vestir. Não quero que você acorde nua do meu lado e ache que aconteceu alguma coisa.
— Você me ajuda? — ela pediu.
— Claro. — Me levantei, procurando a bendita camisola azul que ela tinha trazido.
Me atrapalhei um pouco com as alças que se entrelaçavam nas costas, mas no final deu certo. Quando terminamos, deitamos um ao lado do outro e ela se virou para mim.
— Posso te abraçar, pelo menos?
A encarei por um instante em silêncio, mas por fim abri os braços.
— Vem cá — chamei, e ela se aconchegou ao meu lado.
— Eu senti sua falta. Sinto muito por tudo, — ela começou a dizer. — Eu não queria terminar com você.
— Então, por que terminou? — perguntei, mesmo sabendo que provavelmente era o álcool que a estava fazendo falar aquelas coisas.
— Pra te proteger — ela admitiu baixinho.
— Me proteger? — Franzi o cenho. — Do que você tá falando, ?
— Do stalker. Ele é tipo... Nosso carma, pelo que descobri. Além disso, ela me disse que minhas escolhas podiam quebrar a maldição, então terminei com você por isso.
— O quê? Maldição? — Me afastei para encarar seu rosto. — Amor, acho que você tá confundindo alguma coisa.
Talvez ela tivesse lido algum livro de fantasia recentemente e estivesse resmungando aleatoriamente por causa da bebida.
Mas negou com a cabeça.
— Não, a xamã me disse. Não perdemos o bebê por acaso. Alguém provocou isso, e vem se repetindo em nossas vidas, porque você era casado e eu era sua amante.
— Como assim? — Sorri, sem entender nada. Eu estava certo de que ela tinha nos confundido com personagens literários, mas a deixei falar.
— Eu era sua amante antes dela. Vocês tiveram um casamento arranjado, mas nós continuamos a nos ver mesmo assim. Ela te queria, mas você era apaixonado por mim.
— E por que não me casei com você ao invés dela?
— Porque eu era uma cortesã. Seria mal visto na sociedade. Mas então eu engravidei e ela descobriu e nos jogou uma maldição que vem se repetindo há centenas de anos. Eu sempre engravido e perco o bebê, e algo de ruim sempre acontece com a gente.
— E você acha que a escolha certa foi se afastar de mim? — A abracei novamente. — O stalker te mandou alguma coisa?
— Não, mas eu sei que ele é ela. Só pode ser. Mas eu meio que me conformei, por mais doloroso que seja. Só que aí fizemos essa viagem e... — Ela suspirou. — Eu quis aproveitar alguns momentos roubados com você, mesmo sabendo que não devia.
Apertei ela ainda mais contra meu corpo, não vendo mais graça nenhuma naquela história.
— Como você descobriu isso, ?
— Comecei a sonhar com algo, acho que é uma entidade, mas ela tinha a aparência da Ayla e me disse isso, essa coisa de fazer a escolha certa. Então Kate, e eu visitamos uma taróloga, que também é xamã, e ela nos ajudou a entender.
— Você acredita mesmo nisso? — Levantei seu rosto, fazendo-a me encarar. — Acredita que o sofrimento vale a pena?
— Ela disse que a morte nos persegue — ela sussurrou, os olhos se enchendo de lágrimas. Em seguida, levou uma mão ao meu rosto, acariciando de leve. — Eu não posso arriscar que algo aconteça com você, . Eu não ia conseguir suportar.
Coloquei minha mão em cima da dela, confuso, sentindo o coração acelerar.
Eu não sabia mais se aquela conversa era fruto de uma mente inebriada pela bebida, mas parecia bem real. Como se ela realmente acreditasse naquilo.
Eu queria perguntar mais agora que ela estava falando, mas quando abri a boca para fazer isso, apenas um instante depois, notei que tinha adormecido em cima de mim, o rosto ainda molhado pelas lágrimas que haviam caído.
A chance havia passado.
E algo me disse que ela não tocaria mais naquele assunto de jeito nenhum.