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Revisada/Codificada por: Gemini

Última Atualização: 05/01/2026
Londres parecia sempre respirar em um tom menor. As ruas encharcadas devolviam reflexos de letreiros e passos apressados, como se cada pessoa tivesse seu próprio ritmo e o dela nunca coubesse em nenhum.
ajustou os fones de ouvido, o capuz cobrindo metade do rosto, enquanto subia os degraus da Rivera Records. Era sua primeira vez ali, mas o nome pesava: o lugar que transformava vozes em produtos, corações em cifras. Uma das maiores gravadoras do país, Rivera era o produtor que descobria talentos.
Ela não se considerava ingênua. Sabia que música era negócio. Mas ainda acreditava que existia espaço para alma entre os acordes. E era isso que esperava trazer para o novo álbum da banda The First Art.
Estava em um dia comum no apartamento quando recebeu uma mensagem do próprio Rivera: , preciso da sua ajuda para um novo projeto. Venha o mais breve possível me encontrar! Abraços.” A mensagem era como o homem, concisa e informativa.
Quando entrou no estúdio principal, o ar cheirava a madeira, cabos e café frio. Havia instrumentos por toda parte e, no centro, um homem de terno escuro regulava os volumes como se cada botão fosse uma questão de vida ou morte. Sua concentração era tamanha que nem o fechar da porta automática fez com que ele olhasse para .
Mas quando olhou, o impacto foi estranho: uma colisão muda, como se o som do mundo tivesse sido engolido por um silêncio absoluto. E esse silêncio era irônico para uma sala de música.
O homem à sua frente a mediu dos pés à cabeça e, quando chegou aos olhos, o mundo pareceu voltar a girar. Ele desviou o olhar de imediato, como se pudesse roubá-lo pela íris. A mulher riu do próprio pensamento.
? — ele perguntou, sem sorriso, sem qualquer traço de curiosidade. — Sou eu. E você também é... compositor, certo? — .
havia sido avisada pelo produtor que teria um companheiro durante a produção, mas ele não quis informar quem era. Agora ela entendia o porquê. O nome cortou o ar com precisão britânica.
Ela já tinha ouvido histórias: o perfeccionista, o crítico implacável, o homem que acreditava que emoção demais era um erro de mixagem. E, claro, já fizera inúmeras críticas às suas composições: “fora de métrica”, “sem precisão de tempo”, “o conceito dominou a musicalidade”.
Antes que ela pudesse dizer algo, a porta do estúdio se abriu. Um homem de cabelos grisalhos e expressão calculadamente amigável entrou, batendo palmas como quem tenta aplacar um temporal.
— Meus compositores preferidos — disse o Sr. Rivera, dono da gravadora e pai de uma das integrantes da banda. — Que bom ver vocês finalmente juntos.
e trocaram um olhar rápido. Nenhum dos dois sabia ainda se “juntos” era a palavra certa.
— Como está a banda? — perguntou , tentando soar casual.
Rivera suspirou, apoiando-se na mesa de som. — O primeiro álbum foi um sucesso. O problema é o que vem depois do sucesso. — Olhou para , depois para . — Eles travaram. Todos. Ninguém compõe, ninguém grava. — Bloqueio criativo? — perguntou. — E medo de cair — respondeu Rivera, com a objetividade de quem já viu muitos sonhos despencarem das paradas. — Além disso, a imprensa está transformando Danna e Shawn num circo. Cada briga vira manchete. Discordam de tudo: música, estética, até sobre quem fala nas entrevistas. — Fez uma pausa, torcendo o rosto num meio sorriso cético. — Ótimos rivais, péssimos companheiros de banda.
Houve um silêncio momentâneo, como se Rivera precisasse organizar os próprios pensamentos após a avalanche de informações.
pigarreou, desconfortável. — Então o senhor quer... o quê, exatamente? — Que vocês consertem isso. — Rivera cruzou os braços. — Conversando com a equipe de crises, tivemos uma ideia: usar a rivalidade deles como conceito para o próximo álbum. Algo como o que a Taylor Swift faz.
arqueou uma sobrancelha. — Vocês pensam rápido. — Foi assim que me consagrei — respondeu Rivera, com ironia contida. — E foi por isso que chamei vocês dois. Preciso que as músicas transmitam o conflito e nada melhor que duas pessoas que também não se dão para isso.
— O quê? Não, não é nada disso — rebateu de imediato. — Eu não tenho nada contra ele. Foi ele que falou mal de mim em uma coletiva. — deu de ombros. — Eu não controlo as perguntas que fazem pra mim. Só respondi sobre um álbum e disse o que achava — retrucou ele, direto.
desviou o olhar, encerrando o assunto. Mas ainda sentia o eco daquela crítica atravessando a conversa.
Meses antes, um artigo de autoria dele destrinchara seu último álbum solo com uma frieza quase cirúrgica. Não tinha sido apenas uma coletiva, como ele afirmava, ele escrevera um texto inteiro.
chama de desordem o que outros chamariam de sinceridade”, ela pensara ao ler. Ele descrevera suas canções como “emocionalmente honestas, porém estruturalmente ingênuas.” As frases a atingiram como lâminas. Ainda assim, ela relia o texto. Parte dela queria odiá-lo; outra parte queria entender o que ele via que ela não via.
Agora, olhando pra ele ao vivo, percebeu algo desconcertante: para , aquela crítica não havia significado nada. Era apenas mais um texto entre muitos, mais uma madrugada de análise impessoal.
Mas pra ela, havia sido uma ferida. Uma daquelas que doem tanto que acabam se tornando combustível. No mundo em que ela vivia, precisava aprender a lidar com esse tipo de coisa, mas lidar não tornava o processo menos doloroso.
— Tá, tá... isso não importa mais agora — interrompeu Rivera, encerrando o impasse. — A partir de hoje, vocês são parceiros.
Ele recolheu alguns papéis da mesa, já se preparando para sair. — Ah, e concordamos que tudo sobre o novo álbum será feito longe dos holofotes. O mais longe possível.
— Longe... quanto? — perguntou.
Rivera sorriu de canto. — Tenho uma casa de campo em Bath. Cercada de árvores, silêncio e solidão. É perfeita pra criar e pra esconder. A imprensa não precisa saber que o First Art está em crise.
trocou um olhar rápido com . Ela entendeu o que ele pensou sem precisar de palavras: isolamento forçado, convivência constante, nenhuma rota de fuga.
— Danna e Shawn vão com vocês — completou Rivera. — A ideia é que o ambiente inspire. Ou, pelo menos, que ninguém mate ninguém antes do álbum ficar pronto.
riu, mas manteve o semblante sério. — Isso não é um retiro artístico, é um confinamento — murmurou. — Chame como quiser, . Só me traga um disco pronto no fim.
O homem se afastou, levando o próprio cansaço junto. Antes de sair, apontou para os dois: — E uma última coisa. Não quero saber de desentendimentos. Já tenho dois artistas que não se suportam; não preciso de outro par de faíscas no estúdio.
O som da porta automática ecoou, e o silêncio voltou.
— Bom — disse , depois de um tempo — parece que estamos condenados a nos dar bem. ergueu o olhar, provocando: — Condenados é uma boa palavra. Ele arqueou a sobrancelha. — Espero que saiba trabalhar sob pressão. — Espero que saiba trabalhar com emoção — ela devolveu.
O olhar dele endureceu, e ela percebeu o que já esperava: aquele estúdio seria um campo de batalha, mas, como toda guerra entre compositores, isso viraria arte!



A chuva caía em linhas finas sobre o vidro do carro, transformando as luzes de Londres em borrões amarelos. observava a cidade se afastar pelo retrovisor enquanto o motorista seguia em direção ao interior, o mesmo trajeto que, segundo o contrato da gravadora, deveria ser “uma imersão criativa.”
Ele sabia o que aquilo significava: artistas demais acreditando que o caos é sinônimo de genialidade, e pouco espaço para o silêncio. estaria lá. E só o pensamento já era o suficiente para enrijecer os músculos de seu pescoço.
Ele ainda conseguia ouvir o som da voz dela no estúdio, mesmo depois de horas. Não pela técnica, que era falha, mas por algo que ele não conseguia nomear. Um defeito bonito demais pra ser consertado. E isso o irritava. Como alguém poderia ser um defeito bonito?
“Espero que saiba trabalhar com emoção”, ela havia dito. Ele ficara em silêncio, mas a frase não o deixava em paz. A verdade é que fazia tempo que ele não via alma em nada. Nem no próprio trabalho. Nem em si mesmo.
O carro parou diante da casa-estúdio: uma construção antiga de tijolos, cercada por árvores e por uma neblina que parecia respirar junto com a terra. Havia cabos passando pelas janelas, caixas de som empilhadas, e aquele cheiro específico de madeira molhada e eletricidade.
Por dentro, tudo parecia improvisado, o tipo de cenário que provavelmente chamaria de “pitoresco.” subiu as escadas com uma mala em uma mão e a pasta de partituras na outra.
No corredor do andar de cima, encontrou o coordenador de produção com um semblante nervoso.
— Senhor … tivemos um pequeno problema com os quartos.
arqueou uma sobrancelha. — O que quer dizer com pequeno problema?
— A casa só tem três quartos. Shawn e Danna já chegaram e se instalaram. Assim, sobrou apenas um… para o senhor e a senhorita .
— E o que isso significa, exatamente?
O homem pigarreou. — Que… bom, o senhor vai ter que dividir o quarto com a senhorita .
piscou, sem entender de imediato. Depois, o silêncio se instalou, um silêncio tão pesado quanto o de um microfone desligado.
— Isso é uma piada? — perguntou, sem humor.
— Juro que não. É apenas por uma noite. Amanhã resolvemos.
Ele respirou fundo, tentando conter a irritação. Não era o tipo de homem que perdia o controle, mas havia algo em que fazia o chão sob seus pés parecer instável. Como se cada palavra dela fosse uma nota fora de tom e, ainda assim, impossível de ignorar.
Tinha certeza de que, se ela estivesse ali, apenas soltaria uma risada e não se importaria. Quando abriu a porta do quarto, ela já estava lá. Sentada no chão, com os fones nos ouvidos, rabiscando algo em um caderno surrado. O lápis preso entre os dedos.
Ela o olhou por cima do ombro e sorriu, um sorriso rápido, travesso, quase gentil. — Ah, o perfeccionista chegou.
— E você continua sem fone de retorno, imagino.
Ela deu de ombros. — Às vezes, é melhor ouvir o som direto do peito.
Ele largou a mala sobre a cama, a única cama, e ficou alguns segundos em silêncio, avaliando as opções. O chão parecia frio demais. O sofá, pequeno demais. E ela, confortável demais com o desconforto dele.
— Pode ficar com a cama — disse ela, sem erguer os olhos do caderno. — Eu durmo no chão.
— Você é quase minúscula, acho que cabe no sofá.
Ela apenas recolocou o fone.
respirou fundo. A vontade de responder com algo mordaz era quase irresistível, mas ele se conteve. A maturidade, pensou, é o que sobra quando a paixão morre. E ele era um homem maduro, ou ao menos fingia ser.
Horas depois, enquanto ela dormia enrolada em uma manta, permaneceu acordado. O som do vento entrando pelas frestas da janela lembrava o chiado de uma fita antiga.
Ele olhou para o teto e se perguntou em que momento a música havia deixado de ser sobre emoção e virado apenas sobre controle. parecia sonhar, sorria de leve. E por algum motivo absurdo, ele desejou estar dentro daquele sonho.
O relógio marcava quase três da manhã. O vento batia nas janelas como dedos impacientes. virou-se de lado, encarando novamente a silhueta de à meia-luz: o cabelo espalhado, a respiração calma, o caderno ainda aberto sobre o peito.
Ele tentou desviar o olhar, mas havia algo hipnótico naquela cena, a bagunça ordenada dela. Como se a desordem fosse um idioma que ele nunca aprendeu a falar.
Pensou em Rivera, nas planilhas, nos prazos e relatórios que o esperavam. Tudo nele sempre fora mensurável. Até ela. Mas não cabia em nenhuma contagem de tempo.
Era improviso. Era o erro entre dois compassos.
E, pela primeira vez em muito tempo, percebeu que talvez quisesse errar também.
Virou-se na cama, tentou fechar os olhos, mas o som da própria respiração parecia alto demais. O estalar da madeira, o tique-taque distante do relógio, o leve suspiro de , tudo o mantinha desperto.
A música, pensou, costumava nascer desse tipo de silêncio. O silêncio que não é vazio, mas um prelúdio. Vestiu o casaco, pegou o caderno e desceu as escadas, os degraus rangendo sob o peso contido de cada passo.
A sala principal estava mergulhada em uma penumbra azulada. As caixas de som dormiam, os cabos se entrelaçavam no chão, e o piano antigo no canto parecia observá-lo. Ele acendeu apenas a luminária. O abajur lançava um círculo de luz amarela sobre o teclado, e por um instante, ele se permitiu respirar.
Deixou os dedos pousarem nas teclas, testando notas aleatórias, sem ordem, sem partitura. O som encheu o espaço de forma imperfeita e, por isso mesmo, viva.
— Você toca quando não consegue dormir? — a voz veio suave, quase um eco.
Ele se virou devagar. estava na porta, com a manta ainda sobre os ombros, os olhos turvos, o cabelo bagunçado.
— Pensei que estivesse dormindo — respondeu.
— Eu estava. — Ela se aproximou um pouco, hesitante. — Mas tive um sonho esquisito.
— Pesadelo?
Ela hesitou. — Acho que sim. Você estava nele.
tinha esse talento irritante de dizer tudo o que pensava. Não havia filtro, nem vergonha. Falava sobre um sonho com ele como quem comenta o tempo.
Ele arqueou uma sobrancelha, um vestígio de ironia atravessando o olhar. — Isso soa como um bom motivo pra continuar dormindo.
Ela sorriu de leve, sentando-se no chão, encostada no sofá. — Você não fazia nada. Só… me olhava. Era o olhar de quem queria me esganar. O mesmo que você me deu em todos os nossos dois encontros até agora.
permaneceu em silêncio. Depois, deixou escapar: — Talvez porque a maioria das pessoas não vê o certo.
— E qual é o certo?
Ele olhou para o piano, depois para ela. — Aquele que vem quando ninguém está prestando atenção. Quando se observa, e não apenas se olha.
o observou por um instante longo demais. — Você fala como quem é um espectador apenas.
A frase o atingiu como uma nota aguda, impossível de ignorar. Ele desviou o olhar e pousou os dedos nas teclas. — Talvez. Ou talvez eu só tenha aprendido a compor em silêncio.
se levantou e foi até o piano, encostando-se ao lado dele. — Então deixa eu ouvir o que você não consegue dizer.
Ele tocou uma nota, depois outra, e o som se espalhou como respiração. fechou os olhos, murmurando uma melodia improvisada, sem letra, sem direção.
Só um fragmento. Mas suficiente pra sentir o peito apertar. Quando ela abriu os olhos, ele a observava.
O mesmo silêncio da primeira vez, denso, elétrico, se instalou entre eles.
E percebeu que, pela primeira vez em anos, a música não o obedecia. E, pela primeira vez, ele quis obedecer. A ela.
As notas de Requiem in D minor surgiram em sua mente, como se Mozart tivesse previsto o instante exato em que o sagrado e o profano se encontrariam, no olhar de uma mulher que ele mal conhecia.



acordou com o som distante de notas sendo repetidas em sua cabeça, como se o sonho tivesse continuado tocando mesmo depois que ela abriu os olhos. O piano ainda estava ali, parado no canto da sala, mas o ar parecia diferente, mais leve, como se algo tivesse sido dito sem palavras durante a madrugada.
Ela lembrava do jeito como a olhara. Não com desejo, exatamente, mas com a atenção de quem escuta um som que não entende e, por isso, não consegue esquecer. Talvez fosse isso o que mais a confundia: ele não era um homem que demonstrava nada, mas havia paixão em cada silêncio dele.
O sol começava a atravessar as janelas, desenhando linhas de luz sobre o chão de madeira. sentou-se no sofá, ainda enrolada na manta, tentando decifrar a sensação que carregava no peito. Era uma mistura de culpa e euforia, como se tivesse invadido um espaço sagrado e deixado pegadas.
Do andar de cima, vinham sons dispersos: vozes, risadas abafadas, o ranger do soalho. Shawn e Danna, provavelmente. A casa, tão grande e cheia de eco, parecia menor desde que começara a habitar os cantos dela.
Quando ele apareceu na cozinha, já arrumado e com o mesmo ar calculadamente frio, percebeu que talvez o sonho não tivesse acabado, só mudado de forma.
— Dormiu bem? — perguntou, enquanto servia café. — Não dormi. — respondeu , sem erguer os olhos. — Eu sonhei com você de novo. — disse antes de pensar.
Ele congelou por um segundo, depois pousou a caneca com cuidado, como quem evita fazer barulho demais. — Isso está virando um hábito perigoso. — Ou inspirador. Depende de como você enxerga os pesadelos.
Ele suspirou, um som baixo, quase resignado. — Então você transforma tudo em arte. — E você transforma tudo em estrutura. — respondeu, sorrindo. — Talvez seja por isso que funcione.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi cheio do tipo que parece pedir um refrão. percebeu que o problema com não era ele ser frio. Era o fato de que ela começava a entender a temperatura exata do silêncio dele.
Seus pensamentos foram interrompidos por Shawn e Danna descendo as escadas enquanto mantinham uma discussão acalorada. Então de pronto retornou a sua postura original, distante e ereta.
Danna então sentou no braço do sofá, girando uma caneta entre os dedos, enquanto Shawn dedilhava distraidamente o violão. , ajustava o gravador como se o simples ato de respirar precisasse estar em perfeita metragem.
se sentou no chão, com as pernas cruzadas e o caderno aberto, rabiscando frases soltas. Nenhuma parecia certa, mas todas pareciam dela.
— Precisamos decidir o tom do álbum — disse , sem levantar o olhar. A voz dele sempre soava como um metrônomo: precisa, limpa, sem variação.
— O que vocês querem dizer com isso? — perguntou . — Significa que precisamos de uma base. Um conceito. Algo que una as faixas.
— Eu acho que devia ser sobre liberdade — disparou a mulher. — Sobre o que acontece quando a gente para de tentar agradar e só sente.
soltou uma risada curta, quase inaudível. — Sentir é o que todos dizem quando não sabem o que querem.
olhou para o homem, e aí reconheceu novamente o crítico de seu álbum e menos aquele compositor da madrugada.
— E controlar é o que todos fazem quando têm medo do que sentem.
Danna levantou o olhar, a expressão entre curiosa e entediada. — Acho que ele tem razão — disse ela, com aquela segurança ensaiada. — As pessoas querem algo polido. Algo que soe profissional, não só… emocional.
Shawn apoiou o violão no colo e balançou a cabeça. — Discordo. O último álbum da banda soava perfeito, e ninguém sentiu nada. Talvez o problema seja esse.
cruzou os braços, frio, técnico. — O problema é que vocês confundem autenticidade com desorganização.
— E você confunde estrutura com prisão — retrucou, antes que conseguisse impedir.
O silêncio que veio depois pareceu se alongar por minutos. Lá fora, o vento agitava as árvores, fazendo a casa ranger como se quisesse interferir também.
Shawn pigarreou, tentando suavizar o clima. — Tá, calma. Talvez o álbum possa ter os dois lados. A ordem e o caos.
— Uma harmonia dissonante — completou, encarando .
Ele segurou o olhar, e por um instante, pensou ter visto algo ceder ali, como uma corda prestes a romper.
Mas Danna se levantou antes que eu pudesse confirmar. — Rivera vai querer ouvir as primeiras demos ainda essa semana. Temos que decidir se seguimos o cronograma.
assentiu, voltando ao modo profissional. — Então façamos isso. Daqui dois dias, fazemos duas composições iniciais. Uma sua, , e uma minha. Vamos comparar as abordagens.
Ele saiu da sala logo depois, o som dos passos ecoando pela escada de madeira. E logo em seguida Danna também deixou o local. Quando e Shawn ficaram sozinhos, o jovem se pronunciou:
— Ele só tem medo de sentir, sabe? — disse. — Pessoas assim se protegem de si mesmas.
apenas sorriu, sem dizer nada. Talvez porque, no fundo, ela soubesse que ele estava certo. E que o problema não era só . Era o que ele despertava nela quando o som saía do controle. A harmonia, se deu conta, não era sobre combinar notas, era sobre sobreviver às dissonâncias.



A casa acordava antes do sol. O som dos passos, das portas rangendo, da chaleira no fogão, tudo tinha um padrão, uma cadência que se repetia dia após dia. observava. Era o que sabia fazer melhor.
costumava cantar baixo pela manhã, como quem tenta espantar os próprios pensamentos. Às vezes esquecia que o microfone estava ligado, e sua voz invadia o sistema do estúdio, atravessando fones, cabos e paredes. Um erro técnico, talvez. Mas havia algo naquela voz que o fazia não querer desligar.
Ainda dividiam o quarto, o que deixara de ser um problema depois da segunda noite. Para ele, o mundo existia em função do controle, ritmo, estrutura, harmonia, pilares, não ornamentos. Só que, desde que chegara àquela casa, o som parecia não obedecer mais a nenhuma regra.
Shawn e Danna viviam entre discussões, como se precisassem do caos para criar. e observavam de lados opostos, cada um sustentando sua própria crença sobre o que era arte.
Naquela tarde, entrou no estúdio sem bater, com o violão pendurado e os cabelos ainda úmidos da chuva. — Trouxe uma coisa — disse, sem olhar para ele.
Começou a tocar uma sequência simples, melancólica, quase infantil. A melodia crescia com uma honestidade desconcertante. E então, as palavras vieram: cruas, sem rima, sem medida. Era imperfeita. E, por isso mesmo, viva.
Quando terminou, o olhou, esperando a crítica. — Isso surgiu na minha cabeça enquanto estava na varanda observando a chuva cair. A corrente da calha criou esse ritmo, e de repente a melodia veio. O que achou?
demorou um instante para responder. Não odiara. Só não sabia como reagir a algo tão exposto. — Falta forma — disse, afinal, porque era o que se esperava dele. — E…? — ela o incentivou, cruzando os braços, como quem já sabe o que vai ouvir. — Não é boa. — Deu de ombros, voltando ao que fazia. — Mas já é alguma coisa, não? — se colocou à frente dele, bloqueando a visão do painel. — Você acha? — se pronunciou com certo desdém, sem erguer o olhar.
— E controle não é sinônimo de talento — rebateu, sem hesitar. — Você se acha melhor do que eu, do que a Danna, do que o Shawn, só porque conhece meia dúzia de estrofes a mais? — A voz dela saiu firme, sem tremer. — Sabe o que faz as pessoas ouvirem uma música, ? Não é uma divisão 4/4 perfeita. É o que se sente dentro dela. É se conectar ao artista, acreditar no que ele diz, nem que seja por três minutos e meio.
Ela deu um passo à frente, sem desviar os olhos dele. — E me desculpa, mas a sua arte não me apresenta sentimento algum. Essa é a minha crítica às suas composições, .
O nome dele soou como uma nota final, cortante, deixando no ar uma pausa que ele não soube preencher. O silêncio se instalou por um instante. Ela deu mais um passo, desafiando-o. permaneceu imóvel. Não porque ela o irritava, mas porque, em algum lugar, sabia que ela estava certa.
Ele se levantou, ajeitando o paletó como quem se recompõe de uma queda. — Boa noite, . — Disse o sobrenome como um escudo.
Quando já estava prestes a sair, a voz dela o alcançou, carregada de urgência: — Brigue comigo, discuta seu ponto… mas, pelo amor de Deus, sinta alguma coisa! Puta merda!
virou o rosto por um instante, o suficiente para que ela visse a tensão em seu maxilar. Depois, sem uma palavra, deixou o cômodo, e o som dos passos dele ecoou como o fim de uma canção que nenhum dos dois quis terminar.
O corredor estava mergulhado num laranja estridente de fim de tarde. desceu os degraus sem pressa, sentindo o peso de cada passo, como se o chão se recusasse a sustentá-lo. O som da voz de ainda ecoava na cabeça: “pelo amor de Deus, sinta alguma coisa.”
Ele foi até a sala vazia e ficou ali, observando o piano. Era sempre o mesmo ritual quando algo o atingia: o silêncio primeiro, a fuga depois. Mas dessa vez, o silêncio não bastava.
Encostou as mãos nas teclas sem tocar. O frio do marfim o lembrou de outra noite, de outra voz, outra casa. Clara estava sentada exatamente como estivera no dia anterior, inclinada sobre o piano, o cabelo caindo sobre o ombro. “Essa parte devia subir meio tom”, ela dissera, e ele rira, porque era a mesma coisa que ele pensava.
Naquela época, ainda acreditava que duas pessoas podiam respirar dentro da mesma música. Até que um dia, ela e o melhor amigo respiraram fora dela.
Essas memórias vinham em flashes, como notas soltas: o estúdio vazio, a porta entreaberta, as partituras faltando. A manchete semanas depois. A foto dos dois: “O casal que revolucionou a nova música britânica.” As mesmas letras, as mesmas melodias. Tudo dele.
E foi assim que aprendeu que emoção era perigosa. Que abrir o peito significava dar material para que outros escrevessem em cima. Então ele trancou tudo: a emoção, a melodia, o caos.
E quando o silêncio voltou, ele foi seu amigo, seu companheiro, o único que permaneceu.
Mas agora havia . E falava de sentir como quem fala de respirar. Ela dizia o que pensava, sonhava alto, o desafiava a se irritar, a existir fora do controle.
Ele encostou o punho no piano, respirando fundo. “Você fala como quem é um espectador apenas.” A frase dela voltava como uma maldição. Talvez fosse verdade. Talvez ele tivesse se tornado espectador da própria vida, observando as notas, as pessoas, os sentimentos de longe, sem se permitir tocar nada. Porque tudo o que tocava, um dia, era levado.
E pela primeira vez em muito tempo, percebeu que estava cansado de só assistir.



A mala não deveria pesar tanto. Eram só roupas, cadernos, um par de botas e meu violão, coisas comuns, coisas leves. Mas enquanto eu dobrava a última blusa, parecia que cada fibra grudava no meu peito como se implorasse para eu não fechar o zíper. Eu não ia chorar. Eu já tinha decidido que não ia chorar.
Mas então ouvi os passos no corredor, firmes e contidos, e soube antes mesmo de ver a sombra na porta: . Ele entrou sem anunciar, como se estivesse com medo de perder a chance se esperasse um segundo a mais.
— O que está fazendo? — ele perguntou, a voz baixa demais.
Meu coração deu um pulo, mas mantive as mãos ocupadas, porque se eu olhasse para ele naquele instante, talvez perdesse a coragem.
— Não é óbvio? — respondi. E finalmente ergui o rosto. — Estou indo embora.
Houve um silêncio curto, mas tão carregado que senti o ar mudar.
— Você não pode ir — ele disse.
Eu ri. E foi a pior risada que já dei na vida, porque não tinha humor, não tinha força. Só cansaço.
… nós somos um desastre. Você não sente nada. Não diz nada. Eu bato, bato, bato, e é como se você fosse feito de concreto. Eu não quero ser a idiota que implora emoção de alguém que só me olha como se eu fosse ruído de fundo.
Ele franziu o cenho como se cada palavra minha fosse uma facada, mas não rebateu. E isso doeu mais do que se ele tivesse gritado. Então ele deu um passo à frente.
— Eu não fui honesto com você.
Isso fez minha coluna gelar.
— Sobre o quê? — perguntei.
Ele passou a mão pelo rosto, um gesto desesperado, algo que eu nunca tinha visto fazer.
— Sobre o seu álbum.
Meu álbum? Por um segundo, não entendi. E então entendi demais.
— Como assim?
levou alguns segundos para falar, e quando falou, parecia que estava se abrindo ao meio.
— Eu não consigo ouvir suas músicas. Não consigo ouvir nenhum álbum seu. Não é técnica. Não é falta de forma. — Ele sacudiu a cabeça, frustrado consigo mesmo. — É porque Clara amava suas músicas.
O mundo ficou quieto. Silencioso de um jeito que machuca. Clara. Eu sabia o nome, claro. A noiva. A que tinha partido. Mas não sabia que tinha sido assim. Comigo no fundo da história.
— Ela…? — consegui murmurar.
— Ouviu tudo comigo — ele disse, com a voz rouca. — Cantávamos juntos. Ela dizia que você escrevia como se estivesse sempre à beira de quebrar. Ela achava isso… lindo.
Eu não me mexi.
— Depois que ela se foi… — Ele respirou fundo, e o peito dele parecia encolher. — Eu fiquei com as músicas. As suas. Elas estavam em tudo. Eu acordava e ouvia você. Dormia e ouvia você. E eu… — Ele fechou os olhos, apertando as mãos ao lado do corpo. — Eu não podia atacar ela. Não podia culpar ela. Então culpei você. Seu trabalho. Seu som.
Cada palavra dele se encaixava como peças que eu nunca soube que existiam. De repente, tudo fez sentido: a rigidez, o incômodo, a crítica severa, a frieza. E, também… a dor. Porque aquilo não era sobre mim. Era sobre ele sangrando por dentro.
Deixei a camiseta cair dentro da mala.
… — sussurrei.
Ele abriu os olhos na mesma hora, como se seu nome fosse a última corda que o segurava.
— Eu não quero que você vá — ele disse, num tom que nunca tinha usado comigo. Nenhuma ironia, nenhuma defesa. — Você tem razão. Eu me fechei. Eu virei espectador. Mas eu não… — Ele engoliu seco. — Eu não quero continuar assim.
Eu respirei fundo. Meu peito doía. Mas pela primeira vez desde que o conheci, senti que estava realmente diante dele.
… por que não me deixou entrar antes? — perguntei.
Ele abriu as mãos, quase num gesto de rendição.
— Porque sentir significa perder. E eu já perdi antes. De um jeito que ainda dói.
A mala estava ali, aberta, me esperando. Eu podia ir. Eu tinha o direito de ir. Mas olhando para ele, para os olhos dele, que pela primeira vez não estavam vazios, percebi que talvez… talvez eu não quisesse. Não porque eu acreditasse em finais felizes. Mas porque eu acreditava em recomeços honestos.
Caminhei até ele devagar, cada passo doendo e curando ao mesmo tempo.
— Eu fico — disse, enfim, com a voz firme. — Mas você precisa parar de correr do próprio som. Ele arregalou um pouco os olhos, surpreso. — E precisa me deixar entrar aos poucos. Não tudo de uma vez — completei. — Só… me deixa ver o que você tenta esconder.
assentiu devagar, como se aquela fosse a maior promessa que já fez na vida.
— Eu tento — ele disse. Não garantiu. Não dramatizou. Só disse assim: eu tento. E isso bastou.
Ele estendeu a mão para a mala, fechou o zíper devagar e empurrou para o canto do quarto. Depois voltou para mim. E pela primeira vez, os nossos silêncios conversaram.
— Então… paz? — perguntei, com um sorriso hesitante.
expirou, quase sorrindo, quase. Mas o quase dele valia mais que muitos sorrisos inteiros.
— Paz — respondeu.
E, de algum modo, aquele parecia o som mais alto que ele já fez.

— Hm?
Ele olhou para o chão por um instante, depois para mim, com uma honestidade que não cabia naquele quarto.
— Aquela melodia que você tocou hoje mais cedo… — Ele respirou fundo, como se admitir aquilo fosse expô-lo demais. — Eu pensei em uma coisa para ela.
Meu peito se apertou, não de dor, mas de surpresa e talvez esperança.
— Pensou? — perguntei, quase sussurrando.
— Pensei. — Ele desviou o olhar, o mínimo possível. — Se você quiser… posso te mostrar amanhã.
A palavra amanhã ficou pendurada no ar como promessa. Promessa de continuidade. De tentativa. De música.
— Eu quero — respondi.
E o sorriso que surgiu no canto da boca dele, discreto, involuntário, rápido demais, foi a coisa mais bonita que vi nele até agora.



A casa acordou antes de mim, o que nunca acontecia. Esses detalhes insignificantes sempre me incomodaram, porque quebravam a ordem natural das coisas. Mas naquele dia, ao abrir os olhos e perceber que não estava no quarto, a única coisa que senti foi uma estranha… antecipação.
Eu não deveria sentir. Não deveria querer sentir. Mas a verdade é que, desde ontem, algo dentro de mim havia mudado. A estrutura. A forma. O silêncio. E eu estava com medo de admitir o motivo.
Desci as escadas devagar, e a primeira coisa que ouvi foi a risada dela, baixa, arrastada, misturada com o som de uma colher batendo no vidro do pote de açúcar. Uma risada que não deveria mexer tanto comigo, mas mexia.
estava na cozinha, descalça, os cabelos presos de qualquer jeito, cantarolando a mesma melodia imperfeita de ontem. A melodia que eu não consegui tirar da cabeça. A melodia que, contra minha vontade, eu passei a noite reconstruindo mentalmente.
Ela me viu parado na porta e sorriu daquele jeito espontâneo que eu nunca soube produzir.
— Bom dia, .
Eu deveria ter reparado no tom de provocação, ela sempre colocava meu sobrenome quando queria cutucar, mas agora soava… brincadeira. Me aproximei devagar, quase em silêncio, tentando não parecer ridículo. Eu odiava isso nela, como tirava de mim o controle que eu havia cultivado como armadura.
— Você disse que tinha pensado em algo — ela me lembrou.
Assenti e fiz um gesto para que me seguisse. No estúdio, sentei ao piano. Minhas mãos ficaram suspensas por um segundo. encostou no batente da porta, esperando com uma paciência que eu não merecia. Toquei.
Não era perfeito. Nem era o tipo de composição que eu faria. Era algo entre nós dois, entre o caos dela e a precisão que sempre busquei. me observava como se eu fosse uma coisa viva, respirando diante dela pela primeira vez.
Quando terminei, ela não disse nada. Apenas se aproximou, devagar, como quem se aproxima de um animal arisco.
… — sussurrou. — Isso é lindo.
Meu peito apertou, não por orgulho. Por medo. Porque, pela primeira vez desde Clara, criar algo com alguém… não doía. E esse era o verdadeiro perigo.
— Não está pronto — murmurei, tentando manter a compostura.
— Não precisa estar — ela respondeu, se sentando ao meu lado. — Só… me deixa ver até onde a gente consegue ir juntos.
Juntos. Aquela palavra bateu em mim como uma nota forte demais. Mas pela primeira vez em anos… eu não quis fugir.
se aproximou do piano como quem pisa num território sagrado. Não parecia ter medo de mim, mas parecia ter respeito pela música. Isso, eu reconheci. Ela sentou ao meu lado, com as pernas cruzadas, apoiando o violão no colo. O calor do corpo dela invadiu meu espaço, e por um momento tive a impressão de que o ar do estúdio diminuía pela metade.
— Toca de novo — pediu, baixinho.
Obedeci. Não porque ela pediu. Mas porque a música parecia pedir por ela também. Enquanto eu tocava, começou a dedilhar o violão devagar, procurando um caminho onde pudesse encaixar o que eu havia criado. Seu ritmo era instintivo, quase animal. Ela fechava os olhos, inclinava a cabeça, ajustava a batida com o corpo inteiro, o oposto completo do que eu sempre fizera.
E ainda assim… funcionava. Quando a progressão terminou, ela levantou a cabeça e me encarou como se tivesse visto algo que eu mesmo não via.
— Acho que sei por onde ir — murmurou.
Seu polegar correu pelas cordas, tirando delas uma melodia tímida, como se ainda tivesse vergonha de existir. Eu acompanhei com o piano, devagar, quase pedindo permissão. Era assim que a música nascia. E então, sem aviso, começou a cantar.
Não com a voz grande, cheia, poderosa que ela usava no palco. Mas com uma suavidade que me atravessou como uma lâmina fina.
“Eu ouvi a chuva mudar de tom E quis seguir o som… Foi assim que te encontrei.”
A voz dela parecia se equilibrar entre algo novo e algo quebrado. Eu senti, pela primeira vez em muito tempo, aquela sensação antiga, perigosa, familiar: A emoção entrando onde não devia. Ela abriu os olhos no meio da frase. Encontrou os meus. E não desviou. Isso foi o que me destruiu.
continuou:
“Você fica no silêncio, eu fico tentando ler. Mas quem foi que te ensinou a se esconder?”
Minhas mãos erraram uma nota. Uma única nota, mas suficiente para cortar tudo.
? — ela chamou, preocupada.
Eu cerrei o maxilar, tentando recuperar o controle.
— Continue — pedi.
— Só se você não fugir de novo — ela respondeu, firme.
Era inacreditável. Ela enxergava tudo. As brechas. As fugas. As fissuras. Ela tocou meu braço discretamente, como se não tivesse intenção de causar nenhum impacto, mas teve. O suficiente para que meu corpo inteiro parecesse calcular uma resposta que não veio.
— Eu não vou fugir — menti, ou tentei não mentir.
sorriu de um jeito pequeno, sincero, que desarmou mais do que qualquer discussão nossa.
— Então vamos escrever isso juntos.
E ali, naquela mesa de madeira riscada, entre partituras espalhadas e café frio, começamos a moldar a primeira música do álbum. Ela escrevia versos soltos. Eu os lapidava. Eu sugeria uma mudança na harmonia. Ela contra-atacava com um refrão inteiro.
O caos dela e a precisão que eu insistia em manter se encontravam no meio, num lugar onde, pela primeira vez, eu não sentia medo. Horas passaram e, quando percebi, estava encostada no meu ombro, lendo a letra que tínhamos construído. Não era um gesto calculado. Não era flerte. Não tinha intenção.
Foi isso que me quebrou. Eu me peguei desejando que ela não se afastasse. Que continuasse ali, respirando perto. Que preenchesse o silêncio que eu cultivei por anos. Era errado. Era imprudente. Era inevitável.
E quando ela murmurou:
… isso está realmente lindo.
Eu não consegui olhar para ela. Porque se olhasse, ela descobriria. Descobriria tudo o que eu não deveria sentir. Tudo o que eu tinha aprendido a trancar. Tudo o que estava voltando, por causa dela. A música era perigosa. era perigosíssima.
E eu, pela primeira vez desde Clara, estava prestes a cair.
mal havia tirado os fones quando ouviu passos hesitantes no corredor, passos leves demais para serem de Danna, cuidadosos demais para serem de qualquer pessoa além de Shawn.
Shawn entrou primeiro. O ombro rígido, o olhar desconfiado, como se alguém tivesse chamado seu nome alto demais e ele não soubesse lidar com isso. — A … é… pediu pra eu vir — murmurou.
Danna veio logo atrás, batendo a porta com o quadril. — Se isso for sobre mixagem ruim, eu juro que jogo alguém pela janela — disse. — Quem vai morrer?
mordeu o lábio, animada. , sem cerimônias, apenas apontou para as caixas de som. — Ouçam.
A música começou. E o estúdio inteiro pareceu mudar de temperatura. Shawn ficou completamente imóvel, como se alguém tivesse apertado pause nele. Os olhos, sempre tão evitativos, se fixaram num ponto no chão… depois na mesa… e, por fim, na música.
Danna, diferente, ficou em pé, braços cruzados, boca entreaberta, incrédula.
Quando a faixa terminou, Shawn foi o primeiro a reagir. Só que não falou. Ele apenas respirou fundo, como se estivesse segurando um cometa no peito. — Isso… isso é muito bonito — murmurou, a voz baixa, quase tímida. — A… a melodia. E… a letra. Ele olhou rápido para , desviando em seguida. — Vocês fizeram isso juntos?
Danna bufou, jogando as mãos para cima. — “Muito bonito”? SHAWN, PELO AMOR DE DEUS! — Ela virou para e . — Isso ‘tá foda. Tipo, foda de verdade. Pegou o celular, colocou a música de novo, colocou no viva-voz, desligou, colocou outra vez, sem saber o que fazer com a energia. — Isso não soa como vocês dois… soa como uma banda adulta! — ela disse, genuinamente chocada. — Tem alma. Tem… tem alguma coisa acontecendo aqui, cacete.
Shawn coçou a nuca, envergonhado pela explosão da parceira de banda. — Eu… eu gostei muito. Pausa. — Posso… ouvir de novo?
sentiu algo próximo de um sorriso ameaçar sua boca.
Danna apontou para o centro da sala: — Vocês dois, repitam isso. Repetem essa parceria, essa química, essa… coisa aí que aconteceu. Olhou bem nos olhos de : — Se vocês fizerem um álbum inteiro nessa vibe, a gente não lança só música. A gente lança uma porrada emocional coletiva. O público vai cair duro.
Shawn assentiu, tímido. — É verdadeiro. Parece… honesto. E, para Shawn, isso era o maior elogio possível.
olhou para , à espera do que ele diria. Ele respirou fundo.
— Acho que encontramos — disse, enfim.
Danna arqueou uma sobrancelha. — Encontraram o quê, maestro?
encarou como se estivesse declarando algo que só os dois entendiam.
— O som certo para começar.



Já fazia alguns dias que a casa respirava música. Não aquela música perfeita, pronta, redonda, mas rascunhos, frases soltas, melodias que surgiam enquanto alguém servia café ou penteara o cabelo diante do espelho. Era como viver dentro de um álbum em construção. e eu tínhamos encontrado um ritmo.
Ele escrevia como quem esculpe mármore. Eu escrevia como quem joga tinta na parede. E, por algum motivo inexplicável, nossas duas maneiras de existir se encaixavam.
Todas as manhãs começavam do mesmo jeito: Shawn tentando fazer panquecas e falhando com uma elegância quase poética; Danna reclamando de calor, mesmo quando fazia frio, e eu tentando acordar , que fingia que não ouviu só para eu cutucar o ombro dele mais uma vez.
Mas naquela manhã algo estava… diferente. Muito diferente. Eu estava na sala com o caderno no colo quando ouvi um barulho no corredor. Um gemido abafado. Depois outro. Depois um “pelo amor de Deus, Shawn, mais forte”.
Pisquei, confusa. levantou os olhos do piano, uma expressão estranha, quase… pânico?
Os gemidos aumentaram.
— …Isso é…? — eu sussurrei.
— Não ouviu nada. Não sabe de nada — respondeu rápido, corando de leve, desviando o olhar.
Outro gemido. Dessa vez bem mais alto. Nós dois ficamos imóveis como estátuas.
— Acho que eles se odeiam menos do que dizem — murmurei.
massageou a ponte do nariz.
— Eles… definitivamente… não se odeiam.
A cama do quarto ao lado rangeu de um jeito tão escandaloso que eu arregalei os olhos.
— Meu Deus. — Sim. — Eles estão… — Sim, .
O colchão bateu na parede. Nós nos entreolhamos, envergonhados demais para comentar, corados demais para fingir que nada acontecia.
E foi aí que nós dois falamos ao mesmo tempo:
— Vamos sair.
Pegamos casacos e seguimos para fora. O campo se estendia em ondas verdes, respirando um vento fresco que parecia limpar tudo — inclusive a memória auditiva traumática que deixamos para trás.
Caminhamos em silêncio por alguns minutos. Mas aquele silêncio não era tenso. Era um silêncio confortável, quase íntimo, como se estivesse tudo dito sem precisar falar nada. caminhava ao meu lado, as mãos nos bolsos, o olhar perdido no horizonte.
— Eu nunca pensei que Shawn fosse… tão… — ele tentou.
— Ativo? — completei.
pigarreou.
— Sim. Isso.
Eu ri. Ele sorriu um pouco. Foi bonito. Ele sempre parecia querer esconder o sorriso, como se fosse um segredo perigoso demais para mostrar.
Seguimos por uma trilha estreita que cortava um pedaço de mato alto. O som da água começou a surgir de leve, como se nos chamasse. Quando atravessamos uma curva, a vimos: uma cachoeira pequena, escondida entre pedras cobertas de musgo, linda de um jeito quase cinematográfico demais para ser real.
— Uau… — murmurei.
ficou observando como se analisasse partituras caindo do céu. Descemos até a beira. O ar úmido grudava na pele, o barulho da água era intenso, quase como um abraço.
— É bonito.
— Você gosta de tudo que brilha — ele provocou.
— Nem tudo. — O olhei de lado. — Só o que vale a pena.
Ele chegou mais perto. O suficiente para que eu sentisse o cheiro da pele dele, o calor do corpo, o coração acelerado batendo tão perto do meu peito que parecia querer atravessar o espaço entre nós.
tocou meu rosto com as costas dos dedos. Devagar. Como se estivesse com medo de que eu desfizesse na mão dele.
… — ele disse, como se meu nome tivesse peso.
Aproximou a testa da minha. Meu corpo inteiro respondeu antes mesmo de eu respirar. Ele segurou minha cintura, puxando-me para mais perto, e meu coração deu um salto tão alto que eu poderia jurar que ia voar dali.
O beijo começou assim: lento, quente, urgente e contido ao mesmo tempo. beijava como quem espera há muito tempo. Como quem tem medo e quer ao mesmo tempo.
Minha mão subiu pelo peito dele até a nuca. Ele suspirou contra minha boca. Deslizamos até a pedra mais plana, e ele deitou comigo, ainda tão cuidadoso que parecia estar costurando cada movimento, pena por pena, pra que nada se quebrasse. Escondidos pelas pedras, pelo som da água, pelo fato de que pela primeira vez eu não pensava em nada além dele. Dos dedos dele na minha pele. De como ele dizia meu nome entre suspiros.
Transamos ali, como se o mundo tivesse parado, ou talvez como se estivéssemos finalmente acompanhando o ritmo dele. Foi… bonito. E urgente. E inevitável.
Quando nossos corpos se acalmaram, ele passou a mão pelo meu pescoço, suave, quase com reverência.
… — disse meu nome como se descobrisse uma nota que sempre existiu, mas que ninguém antes tinha ouvido.
E ali, deitada ao lado dele, meus cabelos molhados, o peito ainda acelerado… eu soube. Eu estava apaixonada. Completamente. Sem pedir licença a mim mesma.
Voltamos para casa quando o sol já pendia baixo, queimando em laranja. segurou minha mão durante parte do caminho, não inteira. Só o suficiente para que eu sentisse que ele queria, mas não sabia como manter.
Quando cheguei no meu quarto e fechei a porta, o silêncio caiu sobre mim como um cobertor quente. Me sentei no chão, com o violão no colo. E aí veio. A melodia. A letra. A dor doce. A beleza insuportável de ter encontrado as minhas asas em alguém… e oferecer de volta.
Doce Ícaro.
“Por que você quer me afundar? Solte meus pés…”
As palavras fluíam como se já estivessem escritas na minha pele.
Ele era o meu sol. E eu sabia que, se fosse preciso, eu o veria voar, mesmo que eu ficasse no chão. Terminei a música com as mãos tremendo e o coração cheio demais.
E naquele instante, entendi: Eu estava apaixonada. Irremediavelmente. Inconvenientemente. Intensamente.
E … Ah, . Ele seria o meu doce Ícaro.
Ou talvez, como sempre acontece com o amor, eu fosse o dele.
entrou na sala enquanto eu terminava a última estrofe. Ele ficou parado na porta, me observando.
— Você escreveu algo novo — disse, com aquela calma dele que sempre tenta disfarçar curiosidade.
Eu ergui o olhar e sorri, sentindo as bochechas queimarem.
— Escrevi.
— Posso ouvir?
Eu fechei o caderno devagar.
— Ainda não. — Por quê? — Porque… — respirei fundo — é sobre você. E eu não sei se estou pronta para te mostrar assim… tão cru.
não disse nada. Só se aproximou e tocou meu queixo com a ponta dos dedos.
— Estou.
Minha respiração falhou.
Ele sustentou meu olhar.
— Estou pronto para te ouvir, . Até onde você quiser que eu escute.
E naquele momento eu soube que nada, absolutamente nada, seria como antes.



A casa nunca ficava realmente silenciosa. Nem mesmo de madrugada, quando Shawn tropeçava em si mesmo ou Danna andava pela cozinha batendo armários como se estivesse duelando contra eles. Mas naquela semana… havia um tipo diferente de barulho. Um barulho bom. Vivo.
rabiscando letras no caderno. Shawn tocando trechos de guitarra que nunca terminavam. Danna testando melodias no celular.
E . Sempre . Cantando sem perceber. Derramando música por onde passava. Eu fingia que não escutava. Mas escutava tudo.
Naquela manhã, o que me tirou do eixo não foi a música. Foi o som vindo do corredor. Gemidos. De Shawn. E de Danna. ergueu o olhar para mim com o rosto em choque e… Deus!
Quando sussurrou: — Acho que eles se odeiam menos do que dizem…
Outro gemido ecoou, indecente, e nós dois falamos ao mesmo tempo:
— Vamos sair.
Sim. Antes que eu quebrasse o piano só para não ouvir mais nada.
O ar do campo era frio e limpo. andava ao meu lado com o casaco meio aberto, as mãos nos bolsos, os olhos brilhando com aquela curiosidade irritante, que eu já começava a achar encantadora demais.
— Eu nunca pensei que Shawn fosse… tão… Ela completou: — Ativo?
Eu pigarreei. Meu rosto ficou quente. Ridículo. De novo.
Ela riu, aquele riso leve, leve demais para alguém que parecia carregar tempestades dentro do peito e algo em mim afrouxou.
Seguimos pela trilha até que o som da água surgiu, constante, quase urgente. E então, a cachoeira apareceu. parou tão abruptamente que eu quase a atropelei. Ela abriu a boca, encantada, e eu me vi olhando não para o cenário, mas para ela.
Era sempre assim. O mundo inteiro existia, mas eu só percebia depois que via o reflexo nos olhos dela.
— Uau… — ela sussurrou.
Eu a observei em silêncio.
A água caía pesada, e o ar estava úmido. aproximou-se da beira, respirando fundo, fechando os olhos por um segundo. Quando abriu, olhou para mim. Só para mim.
Eu me aproximei. Minha mão levantou antes mesmo que eu percebesse. Toquei o rosto dela com os dedos, testando a própria coragem. Ela não recuou. Pelo contrário, inclinou-se.
— falei, e não era um nome. Era um pedido. Um aviso. Um erro e uma salvação misturados.
Ela encostou a testa na minha. Eu senti tudo. A respiração dela. A tensão. O desejo. O medo. E então ela me beijou.
Ou talvez eu a tenha beijado. Não sei. Não importa. O beijo foi aquilo que eu evitava há anos: sentimento em estado bruto.
Ela segurou minha nuca e puxou meu corpo contra o dela, sem hesitar. Meu controle, meu precioso, rígido, imbatível controle, quebrou como vidro fino.
Eu me deixei cair com ela sobre a pedra plana. A água fazia um som grave, constante, acompanhando nosso ritmo. arqueou o corpo ao meu toque e disse meu nome como se fosse música.
Eu pensei que ia desmoronar.
Quando acabou, ficamos deitados lado a lado, respirando como se tivéssemos corrido quilômetros. O cabelo dela estava molhado. O meu estava nas mãos dela. E eu… eu estava perdido.
Completamente.
virou o rosto e me olhou com algo que eu não via desde… antes de Clara. Antes da queda. Afeto verdadeiro. Sem cálculo. Sem artifício.
Algo em mim cedeu. Para sempre, talvez.
Voltamos em silêncio confortável. Eu quis pegar a mão dela. Peguei por alguns minutos. Soltei depois, não por vontade, mas por medo.
Quando entrei em casa à noite, ouvi o som. Um violão. Uma melodia lenta, subindo e caindo como respiração cansada. E a voz dela.
Aproximei-me da porta entreaberta e vi sentada no chão do quarto, escrevendo. As palavras vinham fluidas, devastadoras, como se ela tivesse aberto o peito e colocado tudo para fora.
“Por que você quer me afundar? Solte meus pés…”
Meu coração falhou uma batida. Depois outra. Eu não devia ouvir. Mas não consegui sair.
“Eu amo como você me ama Eu odeio como você me ama…”
Eu me apoiei na porta, sem forças. Ela estava escrevendo sobre mim. Sobre nós. Sobre algo que eu mal conseguia nomear.
Quando terminei de escutar, não percebi que tinha lágrimas nos olhos. Uma ou duas. O suficiente para me assustar.
Entrei devagar. fechou o caderno, os olhos brilhando num jeito que eu já começava a reconhecer, vulnerabilidade mascarada por coragem.
— Você escreveu algo novo — falei.
— Escrevi.
— Posso ouvir?
Ela hesitou. — Ainda não. É… sobre você. E eu não sei se estou pronta para te mostrar assim… tão cru.
Eu me aproximei. Toquei o queixo dela com a ponta dos dedos.
— Estou.
Ela prendeu a respiração.
— Estou pronto para te ouvir, . Até onde você quiser que eu escute.
Ela abriu o caderno. As mãos tremiam. E começou.
A música me atravessou como faca e abraço ao mesmo tempo. Era tão pura que doía. Tão honesta que eu quis fugir. Tão sobre mim que eu quis negar. E tão sobre nós que eu não consegui respirar.
Quando ela terminou, não falei nada por alguns segundos.
Depois, só consegui dizer:
— Você me vê.
se aproximou, devagar, como quem tem medo de que eu desapareça se ela piscar.
— Eu te vejo — murmurei.
E ela me beijou. Não como na cachoeira. Não com urgência. Mas com devoção. Com cuidado. Como quem sabe que, pela primeira vez em anos, eu estava sentindo tudo.
Eu segurei o rosto dela com as duas mãos, e pela primeira vez desde que perdi tudo, eu quis ficar. Quis merecer. Quis amar.
Quando nos afastamos, ela estava sorrindo. Eu também. Um sorriso pequeno, raro, proibido, mas real.
tocou meu peito com a ponta dos dedos.
— Seu coração está acelerado — ela sussurrou.
— Só acontece com você — respondi antes que pudesse evitar.
Ela fechou os olhos, respirou fundo, apoiou a testa na minha. E naquele instante, eu soube:
Eu estava perdido. Irremediavelmente. E, pela primeira vez… não queria me salvar.



Os dias na casa de campo tinham sido tão suaves, tão cheios de sol e pequenas intimidades, que ainda sentia a energia deles na pele. Os quatro tinham virado uma espécie de… mini família, bagunçada e deliciosa.
Danna e Shawn assumiram o óbvio: estavam muito apaixonados e muito ocupados na maior parte das manhãs. fingia reclamar. fingia que não achava aquilo fofo demais.
E ela e … eles viveram dias que só conseguia definir como amor em estado de rascunho. Ainda não dito, ainda não nomeado, mas tão presente quanto o cheiro de terra molhada no quintal.
Ele a segurava pela cintura enquanto cortava frutas. Ela passava a mão no cabelo dele quando ele dormia no sofá ao lado dela. Ele dormia com a cabeça no colo dela quando o álcool subia. Ela acordava com a camiseta dele por cima de si, porque ele sempre achava que ela ia sentir frio.
Eles eram um casal. Sem ter dito absolutamente nada sobre isso.
Por isso, naquele dia, enquanto dirigiam de volta para a cidade, ela estava nervosa. Feliz, mas nervosa. A volta ao mundo real sempre cobrava um preço.
estava calado no banco ao lado dela. Não tenso, mas… retraído. Silencioso daquele jeito antigo. Ela tentou não pirar. Às vezes ele simplesmente era assim.
Quando chegaram ao estúdio Rivera, o produtor já os esperava com uma ansiedade debochada.
— Então? Trouxeram magia ou só a boa e velha bagunça? — ele perguntou, abraçando .
— Trouxemos o álbum — respondeu, com um brilho orgulhoso nos olhos. — Todo ele.
Danna bateu palmas. Shawn segurou a mão dela, rindo. ficou atrás de , como um muro silencioso.
engoliu seco. Eles se posicionaram ao redor da mesa de som. deu play na sequência. As músicas tocaram, cruas, intensas e íntimas. Rivera ia ficando cada vez mais empolgado, cada vez mais impressionado. Quando a penúltima faixa acabou, olhou para . Ele evitou o olhar dela.
— E agora — ela disse com um sorriso suave — a última.
“Doce Ícaro” mal tinha chegado ao segundo refrão quando se remexeu na cadeira, inquieto. percebeu a mudança antes mesmo do primeiro suspiro impaciente dele. Então:
— Tira isso do álbum.
Rivera congelou. sentiu o sangue sumir do rosto.
— Como assim tira? — ele perguntou, confuso. — É uma faixa linda, profunda… — Eu disse que tira. — repetiu, voz de aço.
tentou manter a respiração uniforme.
, calma. Vamos conversar. — Não tem conversa. Isso não vai pro mundo.
Danna ergueu uma sobrancelha com força suficiente para cortar o ar.
— Que porra é essa agora?
Shawn, que até então analisava o instrumental no notebook, levantou a cabeça devagar. Ele parecia um cervo assustado prestes a atravessar a estrada.
tentou manter o tom neutro:
— É uma música honesta. Você mesmo disse que honestidade é essencial.
— Honestidade tem limites. — rebateu. — E você os ultrapassou.
Shawn pigarreou, gentil, tentando quebrar a tensão:
— Cara… talvez vocês possam… sei lá… revisar juntos? É só uma faix…
— Não é uma faixa — cortou.
Danna bufou, cruzando os braços.
— Ah, pelo amor de Deus. Para de falar como se fosse um manifesto político. É uma música. Uma música do caralho, inclusive.
— Não pedi sua opinião. — disparou, seco.
Danna arregalou os olhos, ofendida.
— Beleza. Então enfia sua opinião no c…
Shawn tocou o braço dela rapidamente, um “amor… por favor” silencioso. respirou fundo, mas o olhar dele estava duro demais.
— Você expôs coisas que não tinha direito de expor — disse, encarando . — Sem me consultar. Sem avaliar o impacto.
Aquilo bateu nela como um soco.
— Eu te mostrei. — disse, ferida. — Você ouviu.
— Eu ouvi rascunhos — ele devolveu. — Não isso.
Shawn tentou intervir de novo, educado, quase implorando por paz:
— Gente… sério… estamos todos cansados. Vamos dar uma pausa, conversar com calma.
— Não é cansaço — respondeu. — É irresponsabilidade.
— Irresponsabilidade é você achar que manda em tudo — Danna rebateu, já à beira de jogar uma cadeira. — Você não é o Messias musical. Ninguém aqui é seu discípulo.
a encarou, gelado.
— Se você entendesse metade de composição, saberia…
. — interrompeu, firme. — Não mude de assunto.
Ninguém ouviu. finalmente perdeu a linha:
— Você está com medo.
arregalou os olhos, surpreso, isso ele não esperava.
— Medo? — Sim. Medo de sentir algo que não consegue controlar. E agora você quer me punir por isso.
O silêncio ficou pesado. Rivera se mexeu na cadeira, desconfortável, percebendo que estava presente demais, mas sem entender nada.
se aproximou um passo, não gritou, não tremeu, mas a frieza foi absoluta.
— E você está confundindo vulnerabilidade artística com exposição emocional. — Estou confundindo? — riu, amarga. — Você está é fugindo.
Danna mordeu o lábio, quase murmurando:
— Ai, caralho
deu outro passo atrás, encerrando a discussão como uma porta que se fecha devagar, dolorosamente devagar.
— Terminem o álbum como quiserem. — … — Mas não contem comigo para validar isso. Eu confiei em você. E você transformou isso em espetáculo.
E saiu.
ficou ali, imóvel, sentindo tudo dentro dela rachar, e tentando não deixar que ninguém percebesse.
Rivera limpou a garganta.
— Ele… costuma ser assim? Danna respondeu antes que pudesse falar: — Não. Só quando está com medo de perder alguma coisa que quer muito.
E pela primeira vez desde a cachoeira, não me olhou ao sair. E eu soube: ele estava se fechando. Não para a música. Para mim.



Quatro meses. Quatro meses sem ouvir a voz dela fora de um estúdio. Quatro meses sem vê-la entrar na sala com aquele cuidado exagerado de quem tenta não fazer barulho, mas sempre fazia. E, o pior: quatro meses ouvindo o nosso álbum em todo lugar, rádio, TikTok, metrô e fingindo que não era sobre nós.
Ou fingindo que eu não queria que fosse.
Mas nada foi tão cruel quanto a faixa 13, aquela faixa sem nome, só silêncio. Um minuto e quarenta segundos em que não tocava nada, mas em que eu juro que conseguia ouvir o que não foi dito. O silêncio de quando fui embora. O silêncio que eu devolvi quando deveria ter corrido atrás. sempre soube transformar ausência em arte. Eu só não sabia que doía tanto ser a falta de alguém.
A coletiva estava insuportavelmente iluminada, cheia de flashes e jornalistas se espremendo para conseguir um lugar. Shawn estava do meu lado, tranquilo como sempre. Danna tamborilava os dedos na mesa, nervosa, isso já dizia tudo.
E então ela entrou. .
O salão inteiro virou a cabeça ao mesmo tempo, como se fosse combinado, mas ninguém virou tão rápido quanto eu. Quatro meses… e ela parecia exatamente igual.
Ou talvez eu fosse o mesmo idiota de antes, enxergando beleza em cada gesto que ela fazia. Ela sentou na ponta oposta da mesa, a maior distância possível. Nem olhou pra mim.
Merecido.
A coletiva começou. Perguntas sobre números, charts, impacto, a “faixa silêncio”, o novo movimento artístico do álbum. Eu respondia no automático, como se tivesse deixado um sósia no meu lugar.
Até que alguém fez a pergunta que matou minha compostura:
, qual foi sua experiência de trabalhar com ? Houve tensão criativa? Algo que precise ser dito?
A sala ficou quieta. Shawn parou de respirar. Danna me olhou com um “pelo amor de Deus, não estraga tudo”. Rivera, no fundo da plateia, quase caiu da cadeira.
E
finalmente olhou pra mim.
Foi rápido, súbito, como uma colisão. Mas suficiente pra eu sentir tudo voltando ao mesmo tempo, a cachoeira, os dias na casa de campo, as madrugadas de composição, o riso fácil, o toque difícil, a música que nunca tivemos coragem de admitir que era nossa.
E eu entendi uma coisa com tanta clareza que doeu: se eu não falasse agora, nunca mais falaria.
Peguei o violão que estava apoiado ao meu lado, era pra tocar outra música, a que a gravadora tinha planejado. Mas eu não estava aí pra seguir o script.
— Eu preciso responder isso direito, — falei no microfone, sem conseguir desviar os olhos dela.
arregalou os dela. Danna engasgou com a própria saliva. Shawn murmurou quase inaudível.
— Trabalhar com a … — respirei fundo. — Não é trabalho. Nunca foi. É caos. É inspiração. É dor. É… é tudo que eu não sei dizer com palavras, por isso digo com música.
A sala ficou em silêncio, o mesmo silêncio da faixa 13. O mesmo silêncio que eu a deixei. O mesmo silêncio que eu agora queria preencher. Então toquei os primeiros acordes de Doce Ícaro.
Não a versão de estúdio. A versão da cachoeira. A que era só minha e dela. A que nunca deveria ter sido exposta e que eu expus, porque entendi que amar alguém não deveria ser segredo.
“Eu te dei as minhas asas, e você acendeu o sol…”
Minha voz tremeu. Não de medo. De finalmente dizer a verdade.
No segundo verso, levantou a mão até a boca, como se tentasse segurar algo, um soluço, um suspiro, um “meu Deus”. Mas eu continuei. Porque aquela música não era mais nossa: era minha forma de dizer que eu estava ali, que tinha voltado, que não ia fugir de novo.
Quando terminei, deixei o violão de lado.
— Se você quiser ir embora, eu entendo. A sala inteira, centenas de pessoas, parecia desaparecer. — Mas se você quiser ficar… dessa vez eu fico também. Eu fico com você, .
Ninguém respirou. Nem ela.
Eu juro que consegui ouvir o coração batendo, não sei se era o meu ou o dela. se levantou devagar. Por um segundo, pensei que fosse embora. Que fosse atravessar a porta e me deixar cantando sozinho diante do mundo inteiro.
Mas ela deu a volta na mesa. Passou por Shawn, que abriu espaço; por Danna, que sorriu como se estivesse vendo a cena favorita dela; e parou diante de mim.
Tão perto que eu sentia o perfume. Tão perto que eu lembrava do que era perder o chão. Ela tirou meu microfone da base e disse, com a voz firme:
— Você demorou.
A sala explodiu em risos, aplausos e flashes. Mas eu só vi ela. passou a mão pelo meu rosto, como quem confirma se estou mesmo ali.
E então, baixinho, só pra mim:
— Você nunca foi embora de verdade, .
Eu sorri. Talvez pela primeira vez em quatro meses.
E quando ela me beijou, finalmente, definitivamente, o silêncio acabou.
A faixa sem nome finalmente tinha final.
E era nós.



FAIXA 13: DOCE ÍCARO

A música que escreveu sozinha, depois da cachoeira. A mesma que tocou quatro meses depois, diante do mundo inteiro. Aquela que, no fim, transformou dois silêncios em um só lugar para voltar.

“Por que você quer me afundar
Solte meus pés
Se eu quero curtir o sol com você na superfície
Eu amo como você me ama
Eu odeio como você me ama
Eu amo como você me vê
Eu odeio o que você vê em mim
Fique quieto, estou costurando
Pena por pena
Quero que você voe
Porque se você ficar
Será de verdade, não?
Doce Ícaro, tem sorte de ser minhas as asas
São de verdade
Não há cola, é amor que une
Vá até o sol
E espero que volte pra mim
E depois de você eu nunca mais sonhei
Ou voei
Eu te dei as minhas asas
Estou no chão te vendo voar”





Fim.


Nota da autora: Antes que você mergulhe nas páginas desta história, preciso te contar um segredo e, ironicamente, ele envolve um amigo secreto.
Escrever Doce Ícaro foi como aprender a respirar de novo. Cada cena nasceu com o coração apertado, cada diálogo foi costurado com cuidado, e cada música… bem, cada música carregou um pedaço meu que talvez eu ainda não tivesse coragem de admitir em voz alta. Esta história fala sobre amor, medo, criação, cura e sobre como, às vezes, a gente precisa aceitar que voar dói, mas ficar no chão dói ainda mais.
E, claro, não posso negar uma das minhas maiores inspirações: o Lux da Rosalía. A força estética, a melancolia bonita, o experimentalismo emocional... tudo isso encontrou eco no que escrevi aqui. Há algo no modo como ela transforma sentimento em ritmo que me guiou enquanto eu transformava meus próprios sentimentos em palavras.
E é aí que entra você, !
Quando vi seu nome, meu coração sorriu, porque eu sabia exatamente o que queria te entregar: algo que fosse feito com intenção, com afeto, com aquele tipo de cuidado que não precisa ser anunciado, apenas sentido. Esta história, esse pequeno universo que inventei, é meu presente para você. Que ele te faça sorrir, suspirar e talvez até acreditar, nem que seja por alguns capítulos, que o caos pode ser bonito e que o amor, mesmo o torto, vale a pena.
Obrigada por estar aqui, lendo isso. Obrigada por ser parte desse voo, mesmo sem saber.
Com carinho, Sua autora Nádia!

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