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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 10/02/2026.

Baltimore, 31 de dezembro de 2025

A música do salão de festas no 25º andar do edifício Lambert vibrava pelas paredes como se o prédio inteiro tivesse sido transformado em uma imensa casa de shows. Lá dentro, a contagem regressiva ainda estava longe. Eram nove e quarenta e oito da noite, mas o ambiente já tinha aquele cheiro característico de cidra de maçã, ansiedade e discurso de “eu prometo” decorado.
Era sempre a mesma ladainha.
No 18º andar, Jubileu trancou a porta, guardando a chave no bolso do vestido. Nada de celular, nada de bolsinha, apenas um relógio de pulso delicado e um vestido preto simples, que insistia em agarrar nas pernas. Era o tipo de vestido que alguém escolhe quando não sabe se vai arrumar confusão — afinal, não era branco nem colorido —, arrumar um namorado ou só arrumar dor de cabeça com algum morador inconveniente.
Ela analisou o painel em LED do elevador subindo. Respirou fundo e entrou antes que a porta fechasse.
Ela ainda estava processando a própria existência naquela festa quando a mão de alguém impediu o fechamento. Um rapaz com mochila no ombro, vestindo um moletom preto sob um blazer cinza entrou, aparentava ter uns vinte e poucos anos, não muito mais velho do que ela, barba por fazer e com cara de quem vive cansado só por existir — e, apesar de todo o contexto, ainda assim, ele era muito bonito.
— Valeu — disse ele, apertando o botão do 25º.
— Sem problema — ela respondeu, sem saber se ele realmente esperava uma resposta.
Não disseram mais nada. O elevador subiu para o 20º andar, a porta se abriu dando passagem a uma mulher na casa dos 30 anos, com colar de miçangas de florzinhas, vestido boho estampado na altura das canelas e botas country, cabelo preso de forma tão cuidadosamente bagunçada que parecia ter levado meia hora para ficar daquele jeito. Ela tinha uma bolsa e segurava um pote de vidro com algo suspeito dentro. Era estranhamente bonita, tinha um aroma forte de patchouli e emanava uma serenidade comedida.
— Vocês não sentem o ar diferente hoje? — ela perguntou como se o elevador fosse um spa, antes mesmo da porta fechar.
O rapaz revirou os olhos com tanta força que Jubileu temeu que ficassem presos para dentro.
— Moça, eu só sinto calor.
— É normal resistir à vibração — ela sorriu, sentindo alguma pena dele.
Jubileu pressionou os lábios para não rir.
A porta quase se fechava quando um garotinho apareceu correndo pelo corredor, segurando um chapéu de festa com a mão toda suada.
— Espera, espera, espera! — Ele gritou, afobado.
Jubileu segurou a porta.
O menino era só bochechas, bochechas essas que estavam super vermelhas. Ele entrou, ofegante, e imediatamente começou a falar como se tivesse treinado aquele discurso:
— Obrigado! Meu nome é Oliver Park. Minha mãe disse que se eu me perder é pra subir até o último andar e olhar pela janela que eu encontro ela porque minha mãe brilha muito e aí eu vou achar ela pelo brilho e—
— Ótimo — murmurou o rapaz, assentindo indignado para ninguém específico. — Vai ser divertido.
A mulher, que parecia ter brilhinhos flutuando ao redor dela, abaixou-se até a altura de Oliver.
— Oi, amiguinho. Eu sou a Charlie. Você tem uma energia linda, sabia?
— Tenho? — ele arregalou os olhos pequenos, maravilhados. — Ela é verde, azul, ou explode?
— Não explode — disse ela, rindo. — Só ilumina.
A porta fechou. O elevador subiu dois andares. O elevador soltou um ruído pavoroso, uma mistura de metal se rasgando e uma tosse mecânica grave. As luzes de LED morreram de uma vez, e a cabine foi engolida por uma escuridão espessa, o silêncio sendo quebrado apenas pelo grito agudo de alguém, em algum lugar lá fora, que parecia ter tropeçado.
A cabine estava parada, oscilando suavemente. Uma luz de emergência fraquíssima, de um tom amarelo-sujo acendeu. O número 22 piscava igual um olho doente, no visor digital.
O rapaz revoltado levantou as mãos.
— Pelo amor de Deus! — ele gritou, sacudindo o celular no alto. — Sem sinal! Não é possível que em pleno 2025 o sistema de elevadores seja esse lixo!
O painel piscou novamente. Uma luz vermelha acendeu.
Silêncio.
Jubileu ajeitou o cabelo atrás da orelha, endireitando a postura.
— Deve voltar já. — Nem ela acreditava nisso.
— Com certeza — disse o rapaz, cético — porque elevadores têm reputação ótima na véspera de Ano Novo. Quase não travam. Super confiáveis.
Cinco minutos depois e o elevador não voltou.
Oliver ergueu o braço.
— Com licença. A gente vai morrer? — Questionou inocente.
— Não — Jubileu falou.
— Talvez — disse o rapaz, mau-humorado.
— Claro que não — Charlie disse, convicta.
— Tá, agora tô confuso — o garotinho inclinou a cabeça para o lado.
De repente ouviram um chiado esquisito, e uma voz feminina e irritada tanto quanto irritante saiu pelo interfone:
Boa noite a todos. Nós estamos cientes do problema no andar 22. Provavelmente é uma queda de energia parcial ou algum cabo solto. Então, precisamos que tenham paciência e aguardem um pouco.
— Quanto tempo é “um pouco”? — sondou Jubileu, estreitando os olhos.
A voz fez um barulho de quem está sendo sincera demais:
Bem… é difícil dizer. Só peço que fiquem calmos.
O interfone morreu.
Brendan, que finalmente decidiu se apresentar, colocou a mochila ao seu lado no chão, cruzou os braços sobre o peito e se encostou na parede, relaxando a postura.
— Meu nome é Brendan — murmurou de repente, sem um pingo de entusiasmo. — Pra facilitar quando decidirmos quem vamos comer primeiro se isso aqui virar um jogo de sobrevivência.
Oliver arregalou os olhos de novo.
— Ele tá brincando — Jubileu sorriu amarelo para o menino.
— Talvez sim, talvez não — Brendan deu de ombros.
Charlie inspirou fundo e sentou-se no chão, tranquila, como se aquela situação fosse a coisa mais normal e interessante do mundo.
— Sabiam que tudo isso tem um propósito?
— Sim — Brendan moveu o maxilar. — O propósito é me irritar.
— Não, meu jovem. O propósito é conectar pessoas.
— Maravilha — ele resmungou. — Então, universo, conecta a porta com o resto do prédio também, por favor.
Oliver, curioso que só ele, apertou o botão de emergência do elevador como quem testa um brinquedo novo. O botão apitou um barulho de doer no juízo.
— Não aperta de novo! — gritou Brendan.
— Mas eu gosto do barulho! — disse Oliver.
— Eu não! — Brendan rebateu irritado.
Jubileu segurou o riso e verificou o relógio de pulso, que marcava 22h da noite. Havia se passado doze minutos desde que entrou no elevador. E o ar ali dentro parecia diminuir um pouquinho a cada minuto.
Charlie, cantarolando, abriu o pote de vidro que havia trazido e de dentro tirou uma vela. Uma vela. Ela realmente trouxe uma vela pra festa.
— A gente precisa acalmar o ambiente. Luz sempre ajuda a dissipar o medo.
— Não acende isso — Brendan colocou a mão na frente. — Sério. Fogo num elevador parado. Você quer transformar a gente em churrasquinho?
— Confia — ela sorriu serena. — A chama é um símbolo.
— Símbolo de incêndio — murmurou ele.
Mas antes que pudesse impedir, Charlie acendeu — depois de três tentativas falhas. A chama oscilou, parecia dançar de maneira tímida. Oliver olhou, hipnotizado.
— Uaaaaaaaau!
— Tá vendo? — Charlie encarou Brendan. — Já trouxe paz.
— Trouxe mais calor — Brendan já sentia o suor se desprendendo do corpo. — A gente vai virar estatística em cinco minutos.
Oliver olhava como se o fogo fosse magia pura.
— Você é uma bruxa? — O menino indagou.
— Sou só alguém que acredita em preparar o espírito — Ela respondeu, suave.
— Isso significa que sim — Brendan afirmou.
Charlie ignorou.

Jubileu segurou a risada, mas seus ombros tremiam.
A música da festa lá em cima parecia distante, abafada, como se o mundo estivesse prosseguindo sem eles. E de fato estava, alheio às 4 vítimas das circunstâncias. Isolados dentro daquele cubículo sem ter como pedir ajuda, um SOS, nada.
Brendan, realmente sentindo que sua pressão poderia baixar a qualquer minuto, retirou o blazer, passou o moletom pela cabeça e ficou apenas com a regata preta que usava por dentro, evidenciando seus músculos. Ele olhou a vela, logo depois o sorrisinho de Charlie, e Oliver sentado no chão admirando a chama. Olhou para Jubileu, que encarava o nada. Ele suspirou.
— Eu devia ter ficado em casa.
— Por quê? — Oliver desviou os olhos da pequena chama.
— Porque lá não tem elevador quebrado. Lá tem minha cama. E comida.
— Tem suco?
— Tem.
— E videogame?
— Tem.
— Posso ir morar com você?
— Não — Brendan respondeu sem hesitar.
— Por quê?
— Porque eu gosto de silêncio.
— Mas eu faço silêncio quando eu durmo!
— Ótimo — Brendan sorriu sem humor. — Então dorme agora.
— Não tô com sono.
— Claro que não tá. — Ele bufou.
Charlie riu baixinho, achando aquela interação um máximo.
— Vocês dois parecem irmãos brigando.
— Não insulte meu futuro — disse Brendan.
Jubileu se levantou e apertou o botão do interfone de novo. Silêncio. Nada. Ninguém respondeu.
— Deve ter falhado — ela encolheu os ombros.
— Incrível — Brendan secou o suor da testa. — Estamos presos num caixote de ferro com uma mulher zen, um Pokémon hiperativo e… — Ele olhou para Jubileu. Pausa. — E você.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— E eu o quê? — ela cruzou os braços, tentando não se sentir ofendida pelo fato de não ter recebido adjetivo nenhum.
— Você parece normal demais pra estar aqui. — Ele fez um movimento com a mão.
— Obrigada… eu acho?
— Isso não é elogio — informou ele.
Charlie fechou os olhos por alguns segundos, pensando no que fazer enquanto estivesse ali dentro. Estarem presos era claramente o sinal de algo, ela só não sabia dizer, ainda, o quê exatamente. E como um clique em sua cabecinha iluminada, ela disse:
— Eu posso puxar uma oração?
— Pode não — Brendan falou rápido.
— Ahh! Eu quero uma oração! — Oliver se animou. — Minha mãe ora comigo toda vez que a gente entra no carro!
— Você sabe dirigir? — Brendan arqueou a sobrancelha, intrigado.
— Eu tenho sete anos, cara. — O menino respondeu como se isso fosse óbvio.
— Então por que vocês oram pra entrar no carro?
— Porque minha mãe dirige.
— Faz sentido — Brendan admitiu, e riu.
Charlie limpou a garganta tentando não rir também.
— Eu não sou cristã, mas acredito em Deus. E, em situações como essa, não há ninguém em que possamos confiar senão nEle. Então, queridos, vamos respirar juntos…
— Não — Brendan negou.
— …visualizar uma luz…
— Não, gente. Não visualizem nada! Visualizar luz num elevador quebrado é perigoso. A gente já tem fogo, Charlie. Fogo! A gente não precisa imaginar mais luz nenhuma.
Jubileu, sem aguentar segurar mais, finalmente riu alto. Sua risada era contagiante, ela riu de um jeito tão intenso que seus ombros chacoalharam. Brendan a encarou, não se sentia ofendido, só muito exausto.
— Engraçado, é?
— Muito — Jubileu respondeu, o riso morrendo aos pouquinhos.
Charlie ignorou os protestos dele e começou a orar baixinho. Oliver segurou a mão dela, fechando os olhinhos. Jubileu, meio sem jeito, tocou o ombro do garotinho. Brendan cruzou os braços e olhou para o teto buscando negociar paciência com Deus.
A chama da vela tremulou e um calor suave se espalhou. E, por um segundo, o silêncio pareceu menos opressor.
Então Brendan, sempre Brendan, quebrou a leveza do momento.
— Já que ninguém perguntou, eu também posso contribuir para o clima: tenho uma história sobre elevadores quebrados.
— Você tem? — perguntou Oliver, animadíssimo.
— Claro que não. Eu inventei agora. Mas posso contar mesmo assim se isso mantiver vocês ocupados e impedir a Charlie de acender uma fogueira aqui dentro.
Jubileu cruzou os braços e sorriu de lado.
— Conta, vai. Pior do que já tá, não fica.
Brendan respirou fundo, como se estivesse prestes a saltar de um penhasco.
— Era uma vez, um cara que só queria chegar na festa de fim de ano e comer de graça, mas a vida olhou pra ele e disse “hoje não, campeão”. Então ele ficou preso no elevador fuleiro com um menino que fala sem parar, uma sacerdotisa das chamas e uma moça com cara de quem sabe todos os segredos do universo, mas não conta nenhum.
Jubileu piscou devagar, apontando para si mesma.
— Eu?
— Sim. — Brendan umedeceu os lábios. — Você tem essa vibe de quem é cheia de reviravoltas.
— Ou talvez eu só esteja tentando sobreviver a vocês três — ela deu de ombros.
Oliver bateu palmas.
— Continua!
— Não tem continuação — Brendan secou o suor que escorreu pela ponte do nariz. — Minha história é curta. Tipo minha paciência.
Charlie acenou com a vela, muito satisfeita.
— Cada um aqui está revelando exatamente quem é. Isso é lindo.
— Lindo é a porta abrindo — respondeu Brendan. — E não está acontecendo.
Eles se entreolharam.
O relógio agora marcava 10:27 PM. O ar ficou relativamente mais quente.
E a situação do momento era: um elevador parado, quatro desconhecidos, uma vela acessa e a sensação absurda de que aquilo ali era só o começo.



Brendan bebeu o último gole de água que havia em sua garrafa. Charlie compartilhou o chá de camomila que tinha na bolsa com Oliver e Jubileu. A vela já tinha queimado uns bons dois centímetros, o que significava duas coisas:
Um: Charlie estava mais encantada.
Dois: Brendan estava calculando mentalmente quantos anos de terapia iria precisar depois daquela noite.
O elevador continuava parado, firme, decidido, teimoso, como se tivesse feito um voto pessoal de que ninguém ali ia brindar o Ano Novo até resolver seus traumas internos, pois já tinha feito demais por eles naquele ano.
Oliver, sentado no chão, batucava no metal, tal qual estivesse treinando para ser baterista
— Você pode parar? — pediu Brendan. — Por favor. Eu imploro. Eu faço qualquer coisa.
— Qualquer coisa? — o garoto abriu um sorriso demoníaco.
— Calma — Brendan levantou as mãos. — Quase qualquer coisa.
Jubileu riu baixo, encostada na parede. A luz quente da vela deixava o rosto dela com um ar de calma que ninguém mais naquela caixa metálica parecia possuir.
— Deixa ele — ela disse, cutucando Brendan. — Ele tá só passando o tempo.
— Existem jeitos menos… intensos — Brendan acentuou. — Pular corda, talvez. Ou meditar. Ou dormir.
— Você quer que eu durma de novo? — Oliver olhou pra ele, indignadíssimo.
— Sim — Brendan respondeu simples.
— Eu não sou galinha, Brendan!
— É o que você pensa…
Charlie suspirou profundamente, no tom exato de uma pessoa que mora numa comunidade de retiro espiritual em Bali.
— Estamos todos inquietos porque estamos lutando contra o que o universo está oferecendo.
— Eu tô lutando contra o calor — Brendan reclamou, se abanando. — E contra você acender uma segunda vela. Aliás, por que você trouxe duas velas pra uma festa?
— Sempre levo uma vela reserva — ela respondeu com total seriedade.
— Claro — Brendan murmurou. — Porque nunca se sabe quando o mundo vai precisar de mais incêndio.
Oliver levantou a mão como se estivesse na escola.
— Se eu fizer uma pergunta difícil, vocês respondem?
— Depende, garoto — Brendan se juntou a eles, sentando no chão. — É sobre matemática? Porque aí já complica.
— Não — disse Oliver. — É sobre a vida.
— Ah, pior — Brendan se mexeu. — Vai, manda.
O menino olhou para os três, com aquele ar sincero que só crianças atentadas têm quando vão estragar a paz mental de adultos.
— Vocês têm medo do quê?
Jubileu respirou fundo.
Charlie abriu um leve sorriso.
Brendan ficou muito imóvel, parecia ter sido atingido por um tranquilizante.
— Eu tenho medo de aspirador de pó — Oliver começou, orgulhoso.
— Isso não é medo da vida — implicou Brendan.
— Claro que é! — o menino rebateu. — Ele faz barulho e suga tudo. Se eu vacilar, ele suga minha alma!
— Então o seu medo é minha sogra — O rapaz murmurou.
— Você tem sogra? — Jubileu o encarou, surpresa.
— Não — Brendan respondeu com o cenho franzido. — Mas se tivesse, tenho certeza que seria igual a um aspirador de pó, no mínimo em espírito.
Charlie colocou a vela no chão e se ajeitou melhor.
— Eu tenho medo de não ouvir Deus quando Ele fala — disse ela, colocando a mão no coração.
Brendan quase tossiu rindo.
— Desculpa — disse ele — mas se Deus estiver falando, Ele precisa de microfone? Porque se for assim, eu também tenho medo de perder esse aviso.
— O problema é que você não escuta nada além da própria irritação — ela disse, com doçura venenosa.
— Você está sempre ouvindo mensagens subliminares do universo, eu não confio em você como critério — Ele rebateu, fazendo cara de desconfiado.
Oliver olhou para Jubileu.
— E você, Jubileu?
— Eu? — ela franziu o cenho.
— Aham. Você parece… — ele procurou a palavra com a língua pra fora — parece alguém que tem medo de coisas importantes.
Jubileu riu com aquele riso sem graça que tenta parecer despreocupado.
— Eu tenho medo de… — Ela hesitou.
As chamas da vela dançaram. Brendan ficou em silêncio, atento ao que ela tinha a dizer.
— …ter uma vida que não significa nada — ela expôs, finalmente. — Só isso.
O elevador ficou silencioso por três batidas de coração.
Aí Brendan, mais uma vez, estragou tudo:
— Parabéns — ele bateu palmas. — Agora todo mundo está deprimido. Até a vela ficou triste, olha o jeito que ela tremeu.
Charlie balançou a cabeça.
— Você é impossível, Brendan.
— Obrigado.
— Não era elogio.
— Nunca é — ele negou.
Charlie uniu as sobrancelhas pela resposta dele; Oliver se aproximou da vela, quase colando o nariz nela.
— Como vocês sabem que ela ficou triste?
— Porque ela soube da minha vida — Brendan declarou.
Jubileu soltou outra risada, aquela risada de canto, curta, que escapava quando ela estava tentando não chamar atenção, mas Brendan percebeu. E percebeu que gostava daquele som. No entanto, antes que pudesse arrumar problemas com isso, o elevador fez um TUM aterrorizante e forte o suficiente para todos perderem meio ano de vida.
— O que foi isso?! — Jubileu segurou a parede e apertou o braço Brendan.
— O universo espirrando — Ele brincou. — Saúde pra ele.
O painel piscou. Uma luz verde acendeu por dois segundos. E apagou de novo.
Oliver ajoelhou-se no chão, dramaticíssimo.
— Adeus, mundo! Fui uma criança boa! Talvez um pouco bagunceira! Mas boa! Meu cachorro vai sentir saudade de mim!
— Por acaso você tem cachorro? — Brendan arqueou uma sobrancelha.
— Não, mas ainda assim, algum cachorro com quem brinquei na rua vai sentir saudade!
Charlie colocou a mão no coração.
— Isso é só mais um sinal.
— De quê? — Brendan perguntou.
— De que precisamos nos conectar.
— Eu não vim aqui fazer amizade, Charlie — ele explicou, exausto. — Eu vim porque tinha comida grátis lá em cima.
— Você veio porque precisava estar aqui.
— Eu precisava estar em qualquer lugar que não fosse esse elevador.
— Não, Brendan — ela sorriu, como quem vê além. — Você tem medo de ficar preso.
— Claro que eu tenho medo de ficar preso! Eu estou preso!
— Não é desse jeito.
— Ah pronto, agora vêm análise psicológica.
Jubileu levantou a mão.
— Gente…
Ninguém ouviu.
Brendan e Charlie começaram a discutir num ritmo tão rápido que parecia briga de hienas em slow motion.
— Você vive fugindo da própria vulnerabilidade.
— Eu vivo fugindo de conversa fiada.
— Você se fecha pra não sentir.
— Eu me fecho porque vocês acendem velas dentro de um elevador!
— Você teme se conectar com as pessoas.
— Eu temo morrer queimado aqui dentro!
Jubileu tentou intervir de novo.
— Ô gente…
Nada. Ela fechou os olhos e gritou a plenos pulmões:
EI!
Os dois pararam imediatamente.
Oliver arregalou os olhos, impressionado com o poder da voz dela.
Jubileu cruzou os braços, se recompondo.
— Se vocês dois forem brigar, escolham um canto. Só não briguem em cima da minha cabeça.
— Desculpa, Jub — Charlie murmurou, envergonhada.
— Desculpa — Brendan murmurou quase inaudível.
— Não ouvi, Brendan. — Jubileu tentou soar irritada com ele.
— Desculpa — ele repetiu, como quem está confessando um crime.
Oliver levantou o dedo indicador.
— Eu posso contar uma história?
— Pode — Jubileu assentiu.
— Pode não — negou Brendan.
— Ignora ele — Jubileu sorriu.
O garoto respirou fundo, preparou-se como um poeta prestes a recitar Shakespeare.
— Era uma vez um homem que tinha medo de muitas coisas, mas o maior medo dele era ficar sozinho, porque ele achava que ninguém ia gostar dele se mostrasse quem ele realmente era. Mas daí, um dia, ele ficou preso num lugar e tinha uma vela e também tinha pessoas e essas pessoas descobriram que ele era legal mesmo sendo todo… — Oliver fez um gesto circular com a mão, tentando achar a palavra. — Espinhoso.
Brendan piscou lentamente.
— A história é sobre mim? — ele perguntou meio atônito.
— Óbvio — Oliver gesticulou. — Todo mundo aqui percebeu.
— Eu não percebi — retrucou.
— Porque você é adulto — respondeu Oliver de um jeito óbvio. — Adultos são lentos.
Jubileu explodiu em risadas, olhando para o rosto meio pálido do rapaz. Charlie riu junto. O elevador, por um instante, pareceu um lugar menos apertado.
Oliver deu de ombros e continuou sua história.
— E no final, esse cara descobriu que ninguém queria fugir dele, e sim ajudar ele. Porque às vezes as pessoas só precisam de um pouquinho de gentileza para não virar pedra.
Brendan se sentiu um pouco desconcertado, aquela informação era emocional demais para ser administrada dentro de quatro paredes metálicas e sem ventilação.
— Tá — ele disse finalmente. — A história é boa.
Oliver abriu um sorriso triunfante e genuíno.
— Viu? Sabia que ia gostar.
— Eu não disse que gostei. Eu disse que é boa.
— Mesma coisa.
— Não é.
— É sim.
— Não é.
— É sim.
— Eu desisto.
— Ganhei! — Oliver vibrou.
Charlie olhou para todos com aquele olhar de quem enxerga destino em qualquer movimento.
— Sabe, essa história dele… foi um sinal.
— Charlie — Brendan massageou a testa — se você disser “universo” mais uma vez, eu arranco essa vela da sua mão.
— Então é melhor não dizer — ela sorriu, provocando.
A tensão se derreteu. A luz da vela tremulou, criando sombras amareladas. O calor era desconfortável, mas havia algo ali que aquecia mais do que irritava.
Jubileu, encostada no canto, observava os três:
Brendan, irritado mas rindo. Ela percebeu que estava o olhando demais, afinal, ele era um homem muito bonito, apesar do mau-humor crônico.
Oliver era um ótimo garotinho e um exímio contador de histórias improváveis.
Charlie, com seu jeito sereno e plácido, abraçando o caos instaurado como se fosse um amigo íntimo.
Uma onda suave, de alguma coisa que ela não conseguiu intitular, percorreu o peito dela e era uma sensação muito boa.
“Talvez eu nunca mais conheça pessoas como essas de novo depois de hoje.” ela pensou por um instante.
Então, de repente, a campainha do elevador tocou.
Uma voz se fez ouvir, a mesma voz irritante de mais cedo, no interfone.
Boas Notícias, pessoal! Estamos conseguindo acesso pelo piso mecânico. Deve demorar mais um pouco, mas estamos chegando.
Brendan colocou as mãos no rosto.
— “Mais um pouco”. A frase mais mentirosa da língua americana.
Oliver pulou.
— Eles tão vindo!
— “Em espírito”, talvez — murmurou Brendan.
Jubileu inspirou fundo e voltou a se sentar no chão.
— Pelo visto vai ser uma longa noite, acho.
— Com vocês? — disse Brendan. — Com certeza.
Mas, pela primeira vez desde que o elevador parou, ele disse isso sorrindo.
E, sem que ninguém percebesse exatamente quando começou, algo pequeno e bonito se instalou entre eles; quase imperceptível, tímido e escondido.
Mas estava ali e crescendo.



A vela já estava no meio, derramando cera num círculo torto no chão metálico do elevador. Ela parecia menor, mais frágil, mas resistindo. E talvez fosse só uma vela, mas ali dentro, onde o ar parecia pesado e o tempo não andava, aquela luz fazia diferença.
O relógio marcava 10:49 PM.
O barulho da festa no 25º andar agora parecia um eco distante de uma vida que eles tinham deixado para trás, ainda que involuntariamente.
Jubileu sentia o forro do vestido grudando na pele, mas não era só o calor. Era algo dentro dela se mexendo, se abrindo, como se aquele elevador fosse menos um caixote de ferro e mais um confessionário. Um útero emocional. Um casulo. Um lugar onde a verdade não precisava ser generosa pra ser dita.
Charlie respirava fundo, olhos fechados, parecia estar conversando com o universo por um Bluetooth invisível.
Oliver brincava com a própria sombra no chão, moldando animais estranhos com as mãos.
Brendan estava sentado, de joelhos dobrados, cabeça encostada na parede, expressão cansada demais para continuar sarcástico.
Por alguns minutos, ninguém falou nada.
E foi justamente essa ausência de som que fez aparecer o tipo de barulho que mais amedronta adultos: o barulho das coisas que se tenta não pensar quando a vida está ocupada demais.
Jubileu olhou para as unhas, encarou a porta fechada do elevador e quebrou o silêncio, baixinho:
— Eu nunca imaginei que passaria a Véspera de Ano Novo assim.
Brendan levantou os olhos, mas não fez piada. Isso, por si só, já era estranho.
— Nem eu — ele confessou.
Charlie abriu um sorriso gentil.
— Talvez seja exatamente por isso que estamos aqui.
Brendan suspirou.
— Não começa, Charlie.
— Não tô começando nada — ela respondeu, suave. — Só é estranho, né? A gente passa o ano inteiro correndo, se prometendo coisas, fugindo de outras… e no fim das contas, fica preso num elevador com desconhecidos. E descobre coisas que nunca descobriria se estivesse lá em cima com música alta e luz piscando.
Oliver se aproximou da vela, cochichando com ela como se estivesse viva.
Jubileu olhou para ele.
— O que você tá fazendo, Oliver?
— Perguntando pra vela se ela tem medo de acabar — havia uma expressão muito séria em seu rostinho infantil.
Jubileu sorriu, mas algo puxou um fio delicado dentro dela, semelhante a quem acorda um sentimento esquecido.
Brendan apoiou a cabeça nos braços, a voz saiu abafada.
— E o que a vela te disse?
— Nada ainda — Oliver fez um biquinho adorável. — Acho que ela é tímida.
Charlie inclinou a cabeça.
— Talvez seja porque ela não tem medo. Ela só cumpre o que nasceu pra fazer.
Brendan exalou um som entre um riso e um suspiro.
— Porque até a vela tem chama emocional superior à minha.
Mas havia algo diferente no tom dele, uma suavidade que não estava ali antes. Jubileu o observou. Algo dentro de Brendan parecia cansado de esconder que doía.
— Você tá quieto — ela comentou.
Ele levantou a cabeça, abriu um olho, depois o outro.
— Porque se eu abrir a boca demais eu falo besteira — ele piscou lentamente, olhando-a — E porque, sei lá. — Ele fez um gesto vago. — A gente tá preso aqui faz horas. Tá calor. Tô suando. E… — ele hesitou — acho que tô pensando demais, sabe?
— Pensando no quê? — Oliver perguntou, sincero.
Brendan encarou a criança como se considerasse responder ou não, e algo naquele olhar pequeno, curioso e completamente atento o desarmou.
— Pensando que eu passei o ano inteiro fugindo — ele começou, devagar. — De gente. De trabalho. De mim mesmo. Eu fiquei inventando desculpas pra não aparecer nos lugares, e recentemente na academia. Voltei tarde do trabalho várias vezes pra não ter que conversar com ninguém. Ficava dizendo que era “cansaço”, mas… acho que só tava com medo mesmo.
Jubileu sentiu o estômago apertar não por dó, mas por identificação.
Brendan continuou:
— Eu fico falando que não gosto de gente, mas na real… — ele desviou o olhar, engolindo a saliva um tanto escassa juntando a sensação de entregar um segredo a contragosto — Acho que eu só não sei mais como lidar com as pessoas. E quando não se sabe, é mais fácil fingir que não se quer.
Jubileu respirou fundo, sentindo o próprio peito apertar.
Charlie abriu um sorriso pequeno, empático.
Oliver se aproximou devagarinho e colocou a mão no braço de Brendan, sem pedir permissão.
— Eu gosto de você — ele disse, afagando a pele úmida de seu braço.
Brendan arregalou os olhos, abalado pela confissão do menino.
— É sério?
— Aham. Mesmo você sendo… — Oliver procurou a palavra — azedo às vezes.
Jubileu riu, mas havia lágrimas presas no canto dos olhos.
Brendan engoliu em seco, ele não esperava ouvir isso.
— Valeu, campeão.
Charlie olhou para a vela, a chama parecia contar algo que só ela entendia.
— Eu também tenho medo — disse ela, de repente.
Ninguém esperava isso.
Ela sempre parecia firme e sossegada demais, iluminada demais, equilibrada demais.
— Medo de quê? — perguntou Jubileu, cuidadosa.
Charlie respirou fundo, mexendo no colar de miçangas de florzinhas roxas.
— De não ser suficiente — disse ela, baixinho. — De tentar ajudar as pessoas e… falhar. De ser só uma mulher tentando parecer sábia porque tem medo de que, se não for útil, não seja amada.
O elevador ficou silencioso. Muito silencioso.
Até Brendan, que ela esperou mentalmente que fizesse alguma piada ou comentário sarcástico, ficou quieto.
Oliver, com a sabedoria de quem ainda não aprendeu a ter vergonha do amor, abraçou Charlie com carinho. Simples assim, sem cerimônia, sem dramatização.
Charlie sorriu entre lágrimas, apertando-o no abraço e agradecendo por ele ser um menino tão lindo e bonzinho e que seus pais deviam ser muito orgulhosos em ter um garotinho como ele.
Jubileu sentiu algo quente escorrendo pela bochecha e percebeu ser lágrimas discretas, não de tristeza, de reconhecimento.
Brendan olhou para ela.
— Ei… — chamou, baixando a voz. — Você está chorando?
— Não — ela negou, enxugando o rosto. — É o calor.
— Claro que é — ele murmurou, mas o olhar dele era gentil.
Jubileu respirou fundo, sorriu para ele e se endireitou melhor.
— A verdade é que… — ela iniciou — eu também tenho medo. — Riu, nervosa, unindo as sobrancelhas numa expressão triste. — Medo de passar a vida inteira tentando ser forte pra todo mundo e, no fim, não ter ninguém sendo forte por mim.
Brendan a encarou com um tipo de atenção que ele nunca oferecia a ninguém, completamente devoto a ela.
— Você não precisa ser forte agora — ele disse, a expressão compreensiva em seu rosto.
Foi simples e verdadeiro, foi tão sensível que fez algo dentro dela ceder.
E aí aconteceu uma coisa delicada: a chama da vela tremulou mais forte, como se aprovasse aquela confissão.
O elevador fez um ruído leve.
E Jubileu percebeu algo engraçado: às vezes, tudo o que alguém precisava pra começar a se curar era ficar preso com três desconhecidos, no calor, com cansaço, com fome, sede, com uma vela acesa e com a impossibilidade absoluta de fugir.
A voz do interfone voltou.
— E aí, pessoal? Ainda vivos? Brincadeirinha. Estamos pertinho de conseguir. Só mais alguns minutos. Aguentem firme!
Brendan fechou os olhos novamente e sorriu, cansado, mas genuíno.
— Agora que a gente tá finalmente falando a verdade, o elevador quer soltar a gente.
Oliver segurou a vela nas mãos pequenas.
— Posso fazer uma pergunta?
— Sempre — disse Charlie.
— Vocês acham que quando a gente sair daqui vai ser tudo igual de antes?
Jubileu respondeu antes de pensar:
— Não.
Ela olhou para os outros três e viu ali não mais estranhos, mas pessoas que estranhamente acabaram de se tornar uma parte significativa dela.
— Tem coisa que não volta a ser como era — ela disse, com a voz que tremia só um pouco. — Porque agora a gente sabe. — Ela engoliu. — Sabe que não tá sozinho neste mundo, mesmo quando parece.
Charlie sorriu com os olhos brilhando.
Brendan assentiu devagar, ele não admitiria em voz alta, mas sentia.
Oliver “abraçou” a vela como se fosse um pequeno sol particular.
E, por alguns segundos, antes das portas serem abertas, antes da vida lá fora voltar a engolir tudo, antes da contagem regressiva e do barulho e da multidão, eles ficaram ali.
Quatro almas. Uma chama. Um silêncio cheio de tudo, e o tipo de momento que muda um ano inteiro antes mesmo que o ano comece.



O aviso do sistema de emergência falhou pela terceira vez, sendo substituído por um chiado longo e derrotado. Brendan, encostado no corrimão, ergueu as sobrancelhas como se aquilo confirmasse a opinião que ele tinha do universo desde que acordou naquela manhã: tudo é uma piada mal contada.
Jubileu já nem sabia mais se estava morrendo de calor ou se era só o cansaço de tantas emoções espremidas no mesmo metro quadrado. Charlie, imóvel há alguns minutos, segurava a vela já quase derretida entre as mãos, tal qual segurando um filhote de luz prestes a dormir. E Oliver… bem, Oliver continuava fazendo perguntas para o teto, como se Deus tivesse instalado um microfone escondido lá.
— E se a gente estiver descendo em câmera lenta e ninguém percebeu? — ele questionou com toda a seriedade que só uma criança convencida da própria lógica consegue ter.
Brendan cutucou o garoto com o pé.
— Se a gente estivesse descendo, eu já teria enjoado, garoto.
— Você já está enjoado desde que entrou — rebateu Oliver, sem nem olhar pra ele.
Charlie abriu um sorriso cansado.
— Crianças são os relojoeiros de Deus — ela disse, numa voz quase sussurrada. — Sempre lembram o que a gente esquece.
Brendan revirou os olhos.
— Tá vendo? É por isso que eu não frequento retiro espiritual.
— E é justamente por isso que você precisa deles — Charlie devolveu, tranquila.
Jubileu mordeu a língua para não rir alto, nem parecia que há minutos tiveram o maior momento de confissões de suas vidas, mas era decerto que o humor involuntário dos dois virou o coração da noite. O caos agora soava mais familiar, era como se todos ali tivessem sido obrigados a morar juntos em um apartamento minúsculo por semanas.
Ela suspirou.
— Alguém percebeu que faz um tempo que não ouvimos mais gente tentando nos contatar lá fora?
A frase reverberou no ar. Charlie abaixou a vela. Brendan se aprumou. Oliver levantou o queixo, atento.
Então, o elevador fez um barulho estranho. Algo entre um clac e um suspiro. O tipo de som que faria qualquer adulto se desesperar.
— Ah, não — Brendan murmurou. — Por favor, não cai. Não cai. Não cai.
— Não vai cair — Jubileu garantiu, com mais convicção do que realmente sentia. — Tá só respirando.
— Elevadores não respiram, Jubileu — ele rebateu.
— Essa noite, tudo respira — ela devolveu.
Antes que ele pudesse discutir, o elevador deu um tranco leve. Um segundo depois, as luzes piscaram de novo.
Charlie, quase instintivamente, colocou a vela no chão e segurou a mão de Oliver. O menino não hesitou. Jubileu sentiu a própria mão sendo tomada pelo pequeno braço do garoto também. E, quando percebeu, Brendan pegou na mão de Charlie só para não parecer excluído — ou talvez porque percebeu que ninguém estendia a mão para ele primeiro desde muito tempo.
Ninguém falou nada.
As luzes voltaram e, dessa vez, permaneceram acesas.
— Isso é bom? — Oliver perguntou.
— É ótimo — Jubileu respondeu.
— É suspeito — Brendan corrigiu.
Um chiado irritante tomou o elevador, mas agora era outro. O interfone novamente, mas agora era a voz de um homem que saia por ele.
— Alô? Estamos ouvindo vocês! Conseguimos acessar o painel! Vocês estão bem?
Os quatro olharam uns para os outros com expressões tão diferentes que ninguém diria ser possível estarem vivendo a mesma noite.
Charlie sorriu como se estivesse vendo o sol nascer. Brendan se encolheu um pouco, já antecipando a vergonha pública. Jubileu sentiu vontade de rir, chorar e abraçar alguém ao mesmo tempo. Oliver respondeu por todos primeiro:
— A gente tá vivo! Eu acho!
A voz no alto-falante continuou:
— Vamos abrir as portas devagar. Não se assustem.
Brendan se agarrou ao corrimão.
— “Não se assustem”, essa frase nunca me acalmou na vida.
Jubileu passou a mão no cabelo dele, inconsciente da vontade que teve de fazer aquilo o tempo inteiro que estiveram ali.
— Se for pra morrer, pelo menos você morre de mãos dadas com três pessoas que não pediram nada disso.
— Confortante — ele sorriu, irônico.
As portas fizeram um esforço curto e finalmente abriram.
O clarão do corredor invadiu o elevador. Algumas pessoas esperavam do lado de fora: síndico, vizinhos, curiosos, gente preocupada, gente só querendo postar stories. Aquele tipo de multidão que a cidade produz sem vergonha.
Mas o elevador, por um instante, continuava sendo um mundo à parte.
Oliver saiu primeiro, segurando a vela derretida como se fosse um troféu. Uma mulher correu até ele — a mãe — e o abraçou com tanta força que ele soltou um grunhido.
— Mãezinha, calma! Eu sobrevivi, não virei saudade!
Ela ignorou e o beijou no topo da cabeça.
Charlie saiu devagar, como se estivesse sentindo o chão pela primeira vez. A música distante da festa chegou até ela, e seus olhos brilharam, não de emoção óbvia, mas de agradecimento. Ela respirou fundo e tocou o corrimão, quase agradecendo a ele.
Brendan pegou a mochila colocando-a nas costas e suas peças de roupa. Ele ficou parado, como se não quisesse cruzar a linha entre o antes e o depois. Jubileu percebeu e tocou no braço dele.
— A gente precisa sair — ela disse.
Ele estalou a língua.
— Eu sei. É só que ninguém nunca vai acreditar que eu orei hoje.
Ela riu.
— Eu conto pra eles.
— Jura?
— Claro que não.
Ele finalmente sorriu de verdade, não aquele sorriso torto de defesa. Um sorriso cansado, mas abertamente sincero. E que sorriso.
Os dois saíram juntos.
O ar do corredor era frio e movimentado, diferente do ar quente e apertado do elevador. Pessoas falavam, perguntavam, tiravam dúvidas que ninguém ali queria responder. Charlie abraçou a mãe de Oliver. Brendan recebeu um copo d’água e derramou metade sem querer. Jubileu tentou ajeitar o cabelo, mas a franja longa estava em pé de guerra.
Todavia algo tinha realmente mudado, e não era só o fato de terem sobrevivido, era outra coisa.
Charlie se aproximou de Jubileu e pegou suas mãos.
— Obrigada — ela disse. — Por manter a calma, por não desistir, e por deixar o elevador ser mais do que um quadrado de metal.
— Imagina. Eu só tentei não surtar.
— E não percebeu que isso é exatamente o que as pessoas corajosas fazem.
Jubileu sentiu os olhos arderem.
Brendan encostou ao lado, com seu típico jeito de quem finge que não liga.
— Olha, antes que eu volte ao meu estado emocional normal… — ele a olhou nos olhos — Obrigado também. Você meio que foi a pessoa que manteve tudo junto.
— Eu não fiz nada sozinha — ela respondeu, piscando para ele.
— Não estrague o elogio — ele reclamou, mas deu ar de riso.
Então Oliver apareceu, segurando a vela como se estivesse devolvendo algo importante.
— Isso aqui é seu — ele disse, colocando a vela derretida na mão de Jubileu. — Você acendeu sem fogo. Quer dizer, não literalmente. Mas você acendeu a gente.
Jubileu segurou a vela e percebeu que a noite inteira coube ali: nas digitais tortas, na cera derretida, no cheiro leve de fumaça.
Brendan coçou a nuca, claramente atingido também.
— Isso foi bonito, garoto.
— Eu sei — Oliver disse, orgulhoso. — Feliz Ano Novo, Jubileu!
Ele abraçou-a pelas pernas e Jubileu retribuiu, o desejando de volta. A mãe de Oliver se aproximou os cumprimentando e agradecendo, logo depois o puxou pela mão, mas ele deu tchau para os três, muito animado, após pedir que continuassem amigos e não esquecessem dele.
Charlie respirou fundo e olhou para a cidade iluminada lá fora, explodindo em fogos de artifício, através do painel de vidro do andar.
— O ano vai nascer diferente.
— Por quê? — Brendan perguntou.
Ela sorriu.
— Porque a gente entrou naquele elevador como estranhos e saiu como a gente.
Jubileu sentiu o peito apertar de um jeito bom, sentindo que algo dentro dela ganhou uma forma nova.
As portas do elevador permaneceram abertas, exibindo o interior vazio. As paredes, antes ameaçadoras, pareceram agora um retrato ingênuo de tudo que se passou ali dentro: caos, risadas, medo, fé, confissões, pequenos milagres, e aquele silêncio compartilhado que só existe quando ninguém tem mais força para mentir.
Jubileu deu o último passo, cruzando definitivamente o limite entre o que foi e o que é.
A música da festa cresceu, o corredor se iluminou, e o relógio em alguma sala anunciou que faltavam cinco minutos para a meia-noite.
Brendan parou ao lado dela, como se lesse seus pensamentos.
— E aí? Pronta pro ano mais estranho da sua vida?
Ela olha para ele, para Charlie, para Oliver que acenava de longe, e para a vela derretida em sua mão.
— Acho que finalmente estou.
As portas se fecharam atrás deles. O ano, quietinho, se preparava para nascer e Jubileu silenciosamente prometeu a si mesma que viveria o que vinha depois da porta aberta.



Seul, 31 de dezembro de 2025

Seul parecia ter decidido competir com o próprio céu naquela noite.
Luzes penduradas de forma estratégica em árvores nuas, fachadas piscando em vermelho e dourado, letreiros dizendo “Feliz Ano Novo” em inglês, coreano, chinês, até em uma língua que Ahn Bohyun juraria ser um espanhol meia-boca. Tudo brilhava, piscava ou tocava alguma música de Natal atrasada e enjoativa.
Dentro do carro, no entanto, a luz vinha só do painel.
Bohyun bocejou tão fundo que a mandíbula estalou e uma lágrima escorreu. Fungou e balançou a cabeça para tentar despertar. Olhou para o relógio digital do carro: 22h04.
— Feliz véspera de Ano Novo, carteira vazia — murmurou, esticando os dedos no volante.
O aplicativo mostrava a contagem da noite: quatro corridas, duas pessoas simpáticas, um bêbado emocionado e uma senhora que tinha passado o trajeto inteiro reclamando do governo, das nuvens, do frio e da juventude que não sabia mais apreciar o “verdadeiro espírito do Natal”, mesmo faltando algumas poucas horas para se tornar um novo ano.
Aumentou um pouco o volume da música. Um louvor suave de uma banda chamada AGAPAO Worship, qual ele gostava muito, preenchia o interior do carro, o tipo de música que tocaria na igreja naquele exato momento. Ele imaginou como estariam os preparativos para o culto de virada; ele adorava participar, adorava ver a animação de quem caprichava para virar o ano “na presença de Deus”.
E ele ali, virando o ano na presença do taxímetro digital.
— É só hoje — disse para si mesmo. — Só hoje, aí mês que vem, o aluguel não me mata.
A consciência rebateu com a rapidez de sempre: se confiasse mais, talvez não precisasse se matar de trabalhar. Ele suspirou e girou um pouco o corpo, tentando alongar as costas.
O aplicativo vibrou.
Nova corrida. Graças a Deus.
Ele endireitou o boné, conferiu se o painel estava minimamente limpo e tocou na tela. O ponto de partida era ali perto, em uma rua transversal da Jongno. Mas o que prendeu o olhar dele foi outra coisa.
Mensagem do passageiro.
Passageiro: Olá! Você faz tour pelas luzes de Natal da cidade ou só corrida normal? :)
Bohyun franziu a testa.
— Ah, claro — resmungou. — Começou a hora da zoeira.
Abriu o chat para responder, os dedos pairando sobre o teclado.
Motorista: Boa noite. Faço corrida normal, não sou guia turístico.
Não enviou, apagou.
Ele encarou o valor estimado da corrida: não havia. O passageiro tinha deixado em aberto. Arriscado. Mas era véspera de Ano Novo, ele estava cansado, e a única opção menos atraente que dirigir até tarde era voltar para o apartamento minúsculo, esquentar lamén instantâneo e assistir a um programa de retrospectiva repetindo desastres do ano com trilha dramática.
Talvez um “tour pelas luzes” não fosse a pior ideia do mundo.
Digitou:
Motorista: Boa noite! Depende do que você tem em mente. :)
A resposta veio quase instantaneamente.
Passageira: Quero rodar pela cidade vendo as luzes, sem destino específico. Bairros diferentes, ruas bonitas. Você escolhe o trajeto. Eu pago o suficiente para você não sentir que perdeu a noite. Pode ser?
Ele leu a mensagem duas vezes.
— Ou é golpe, ou é alguém muito rico, ou muito triste — murmurou.
Sentiu um pequeno incômodo familiar no peito. Ele conhecia o tipo de solidão que fazia alguém gastar dinheiro só para não ficar em casa.
Respirou fundo, como se pudesse decidir sua vida naquele suspiro.
Motorista: Pode ser, sim. Estou a 4 minutos do ponto. Pode me aguardar na porta do café?
Enviou e aceitou a corrida.
O café era um desses lugares que tentavam parecer europeus: portas de madeira clara, guirlandas com laços vermelhos na moldura, uma escrita cursiva no vidro e um Papai Noel magro demais para convencer qualquer criança.
Uma mulher estava encostada no corrimão da escada de entrada, segurando um copo de papel com as duas mãos, como se o calor fosse a única coisa que a mantinha de pé no frio da noite.
Bohyun reduziu a velocidade e encostou o carro, conferindo a placa do aplicativo no celular.
Nome da passageira: Nam Jihyun.
Ela ergueu o olhar quando o farol banhou o rosto dela. Os cabelos estavam presos em um coque bagunçado, alguns fios soltos ao redor do rosto, e o gorro de lã preta dava a impressão de que a cabeça dela tinha se encolhido uma meia idade. O sobretudo bege caía até os joelhos, e as botas pretas pareciam mais estilosas do que quentes.
Jihyun se aproximou, inclinando-se para o banco do passageiro.
— Ahn Bohyun? — a voz dela tinha um ar de rouquidão leve, como quem tinha rido demais ou discutido demais nos últimos dias.
Ele assentiu.
— Isso. Jihyun?
— Sim — ela abriu a porta e entrou, enchendo o carro com o cheiro de café e algum perfume delicado, nada doce demais. — Pronta para o meu tour emocional pela iluminação natalina da cidade.
Ele riu, um pouco surpreso com a frase.
— Você avisou que era só um tour pelas luzes. Em nenhum momento mencionou terapia.
— Eu pago bem, lembra? — ela respondeu, prendendo o cinto. — Inclui taxa de escutar desabafos.
Bohyun lançou um olhar rápido para o aplicativo, confirmando o nome dela, e começou a dirigir devagar.
— Então… qual o plano, exatamente? — perguntou, enquanto manobrava para entrar na avenida principal.
— O plano é simples — ela levou o copo aos lábios. — Você me leva para ver as luzes mais bonitas da cidade. Myeongdong, Gangnam, o rio com aquelas lanternas de papel, não lembro o nome…
— Cheonggyecheon.
— Esse mesmo — ela apontou com o dedo, como se o nome estivesse na frente deles. — E, enquanto isso, a gente finge que não está virando o ano sozinho.
Ele abriu um meio sorriso.
— Isso é parte do pacote turístico?
— É a parte principal — disse, encarando pela janela o letreiro de um mercado cheio de luzes coloridas. — Topa?
Bohyun sentiu a pergunta bater em um lugar mais fundo do que pretendia.
Topava?
Ele deveria estar na igreja, tecnicamente. Ou com a mãe, comendo tteokguk e ouvindo pela milionésima vez como era importante começar o ano com a tigela vazia, símbolo de longevidade e essas coisas todas. Em vez disso, tinha inventado que ia trabalhar “só um pouco”, e agora estava ali, oferecendo um banco de carona para uma desconhecida que não queria estar sozinha.
— Topo — respondeu, por fim. — Mas aviso que meu conhecimento turístico é limitado. Sou mais especializado em desviar de trânsito e evitar bêbados.
— Tá ótimo — ela riu, e o som foi leve, mas com uma pontinha de cansaço no fundo. — Eu já desisti de gente que “sabe demais” sobre qualquer coisa.
Ele não entendeu completamente, mas deixou passar.
O carro se lançou pela avenida, em direção a Myeongdong. O movimento aumentava, carros buzinando, pedestres atravessando ruas com tiaras de orelhinha de coelho brilhantes e faixas “202X” na cabeça.
— Parece que metade da cidade decidiu se aglomerar no mesmo cruzamento — comentou Bohyun, reduzindo para não atropelar um grupo de adolescentes que atravessavam distraídos.
— É a beleza do comportamento de manada — disse Jihyun, apoiando o queixo na mão, perto do vidro. — Se todo mundo estiver indo, deve ser bom, né?
— Você não gosta de aglomeração?
— Eu não gosto da sensação de que estou fazendo as coisas porque é “assim que tem que ser” ou porque todo mundo está fazendo — ela virou o rosto de leve, encarando-o. — Ano Novo, Natal, casamento, carreira, filhos… a sociedade tem uma agenda muito cheia pra minha vida.
Ele riu.
— E o seu “tour pelas luzes” é o quê? Um ato de rebeldia?
— É um ato de sobrevivência — ela respondeu, sem hesitar. — Se eu ficasse em casa, ia acabar comendo pizza fria, stalkeando gente feliz no Instagram e fazendo a lista de tudo o que deu errado neste ano. Preferi terceirizar a minha crise existencial para um motorista de aplicativo.
Bohyun levantou uma sobrancelha.
— Eu devia começar a cobrar taxa extra por isso.
— Eu já disse que vou pagar bem — ela deu um gole no café, que parecia mais um consolo do que uma bebida. — E você? Prefere ganhar dinheiro ou virar o ano em um lugar barulhento com gente gritando “feliz ano novo” para estranhos que nem sabem seu nome?
Bohyun hesitou por um segundo.
— Depende. O lugar barulhento poderia ser a igreja. Pelo menos lá, as pessoas sabem meu nome.
— Igreja? — Jihyun virou-se um pouco mais, curiosa. — Você é do tipo que vai na vigília, ajoelha, chora, agradece e tal?
Ele deu de ombros, tentando parecer casual.
— Eu sou do tipo que cresceu em banco de igreja. Não sei fazer réveillon de outro jeito. Mas esse ano… — deixou a frase morrer no ar. — Esse ano eu precisava do dinheiro.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos e voltou à posição normal, observando um grupo de turistas tirando fotos com um boneco inflável de rena.
— E Deus concordou com essa troca? — perguntou, sem ironia agressiva, só uma curiosidade meio ácida.
Ele pensou na resposta antes de falar.
— Acho que Ele não é um gerente de RH, marcando presença em planilha. — Respirou fundo. — Mas eu mesmo, pessoalmente, não tô muito convencido da minha decisão.
— Sinceridade, gostei — ela sorriu de lado. — Então você acredita mesmo?
— No quê, exatamente? — ele entrou em uma rua que levava a Myeongdong, onde as vitrines pareciam competições de luzes e enfeites.
— Em Deus. Em alguma coisa lá em cima organizando o caos cá embaixo — Jihyun fez um gesto amplo, que incluía tanto o trânsito quanto a decoração natalina exagerada.
Bohyun pensou em todas as vezes em que tinha orado no vazio do quarto, pedindo coisas que não vieram na hora que ele queria. Pensou na mãe, com a fé simples e constante. Pensou nas noites em que só conseguiu dormir depois de repetir “Deus tá no controle” até acreditar um pouco.
— Sim — respondeu, enfim. — Acredito.
— Que bonito — ela comentou, olhando para frente. — Deve ser reconfortante.
Havia algo na entonação dela que não era exatamente deboche, mas também não era admiração.
— E você? — ele devolveu. — Acredita em quê?
— Eu acredito em café forte, boletos, e na lei de Murphy — enumerou nos dedos, sem hesitar. — Se algo pode dar errado, vai dar. E, se algo pode piorar, pode apostar que melhora o desempenho.
Ele riu, apesar do teor.
— Isso é uma filosofia de vida bem… otimista.
— Eu fui otimista por muito tempo — disse, brincando com a tampa do copo. — Aí a vida foi realista comigo. Estamos tentando achar um meio-termo agora.
Eles entraram no coração de Myeongdong. As ruas estreitas estavam tomadas por gente, as lojas de cosméticos jogando música alta para disputar atenção, e luzes penduradas cruzando de um lado a outro das ruas como constelações organizadas.
Jihyun encostou a testa no vidro por um segundo, como se quisesse aproximar o rosto da luz.
— Uau… — murmurou. — Eu esqueço que essa cidade pode ser bonita assim.
— Você mora aqui? — Bohyun perguntou, seguindo devagar, quase na velocidade dos pedestres.
— Morei, saí, voltei. Seul é tipo aquelas relações tóxicas — ela respondeu, sorrindo amarelo. — A gente reclama, diz que vai embora, fala mal para os amigos e daqui a pouco volta como se nada tivesse acontecido.
— Entendi — ele riu e assentiu. — E por que você voltou dessa vez?
— Trabalho — ela deu de ombros. — E porque não tinha mais para onde fugir.
Ele percebeu a sombra na voz dela e decidiu mudar levemente de assunto.
— No meu caso, eu nunca saí — comentou. — Sempre morei mais ou menos por aqui. A única diferença é que antes eu via Seul da janela do ônibus, agora vejo do volante.
— É muito diferente? — ela inclinou a cabeça. — A vista, quero dizer.
— Do volante? — ele pensou por um instante. — Sim. Quando você dirige, tem a impressão que está decidindo o caminho, mesmo que seja só o GPS mandando. No ônibus, você só aceita que alguém já escolheu tudo por você.
Ela assentiu lentamente.
— Caramba! Isso tem muito potencial para metáfora de vida — comentou, humorada. — Você devia tomar cuidado. Pode acabar virando guru motivacional.
— Deus me livre — Bohyun riu, sincero. — Mal dou conta da minha própria vida. Imagina a dos outros.
O trânsito começou a travar mais à frente. Uma multidão se aglomerava na praça, onde haviam montado um palco improvisado com luzes coloridas e um telão exibindo uma contagem regressiva ainda distante da meia-noite.
— Quer descer para tirar alguma foto? — ele sugeriu. — Ainda dá tempo de estacionar ali atrás, se você quiser andar um pouco.
Jihyun observou o movimento, avaliando os grupos de amigos, casais abraçados, crianças correndo com balões brilhantes.
— Não — respondeu, com uma firmeza surpreendente. — Se eu descer, vou me arrepender em dez minutos. Vamos só… passar devagar e fingir que a gente está participando de longe.
— Tá bom.
Eles cruzaram a rua lentamente, o reflexo das luzes coloridas dançando no vidro do carro. Um grupo de garotos levantou latinhas de cerveja e gritou algo ininteligível em direção ao veículo. Uma menina com uma tiara de unicórnio piscou para a câmera do próprio celular, fazendo um vídeo para alguém que provavelmente veria aquilo deitado em casa.
Jihyun soltou um riso breve.
— Sabe o que é mais irônico? — perguntou, sem tirar os olhos do cenário.
— Hm?
— Que todo mundo aqui parece acreditar em alguma coisa — ela fez um gesto com a mão, abrangendo a praça. — Nem que seja o ano novo como botão de reset. “Ano que vem vai ser diferente”, “dessa vez vai dar certo”. Eu não consigo mais.
— Mais o quê? — ele perguntou, curiosamente cuidadoso.
— Mais me prometer coisas — havia uma ponta dolorida em sua voz. — Já prometi demais. Já acreditei demais. Cansei de fazer acordo com o futuro.
Bohyun pensou em todas as resoluções de Ano Novo que tinha deixado pelo caminho. Ler mais a Bíblia. Economizar dinheiro. Comer melhor. Ser mais paciente. Talvez se apaixonar também.
— Talvez o problema seja a lista — insinuou. — A gente faz uma lista de “novo eu” como se fossemos um aplicativo atualizado.
Ela deu uma risada curta.
— E você? Vai prometer o quê para Deus esse ano? Que vai trabalhar menos na véspera de Ano Novo?
— Ele provavelmente colocaria isso no topo da lista — Sorriu pequeno. — Mas, sinceramente? Eu só queria passar um ano sem ter a sensação de que estou sempre “correndo atrás”.
— Atrás do quê? — ela inclinou o rosto, interessada.
Ele hesitou. O carro virou em uma rua menos apertada, com prédios mais altos e letreiros mais sóbrios.
— De tudo — admitiu. — Dinheiro, aprovação, tempo, paz. Parece que eu estou sempre atrasado para uma vida que eu deveria estar vivendo.
Jihyun ficou em silêncio, mexendo no próprio anel por alguns segundos.
— Isso é engraçado — disse, crispando os lábios. — Porque, do meu lado, parece que todo mundo ao meu redor está correndo atrás de alguma coisa, menos eu.
— E isso é bom ou ruim?
— Depende do dia — ela respondeu. — Hoje… é só um vazio.
Ele sentiu vontade de dizer algo que consertasse aquilo, algo que ela pudesse pegar e segurar como se fosse uma manta quente. Em vez disso, só murmurou:
— O vazio pesa bastante, né?
Ela assentiu, sem olhar para ele.
— Até mais que tristeza, às vezes.
O aplicativo vibrou com uma notificação qualquer, quebrando o silêncio.
— Próxima parada? — ele perguntou, tentando dar um tom mais leve à voz. — Cheonggyecheon?
— Rio com lanternas, por favor — Jihyun respondeu, como se tivesse acabado de pousar de algum lugar distante. — Preciso ver água correndo para lembrar que o tempo empaca só na minha cabeça.



Cheonggyecheon parecia um cenário de dorama.
O rio artificial cortava a cidade e suas margens estavam decoradas com luzes penduradas em forma de estrelas, bolas, cristais. Havia lanternas de papel coloridas, algumas com desenhos de anjos, renas, árvores, outras com símbolos que Bohyun não sabia identificar. Casais caminhavam de mãos dadas, os mais empolgados parando para selfies em cada curva do curso d’água.
Ele encontrou uma vaga um pouco distante da parte mais lotada e desligou o motor.
— A gente pode descer aqui e andar um pouco se você quiser — sugeriu. — Não vou ligar o taxímetro por hora nem nada. Considere um bônus do pacote.
— Você não precisa… — ela começou.
— Eu sei — ele deu de ombros. — Mas meu médico disse que é bom esticar as pernas e ter contato com a luz natural.
Ela olhou para as luzes artificiais refletidas na água e riu.
— Serve assim também?
— Vamos fingir que sim.
Eles desceram. O ar frio bateu no rosto dos dois, fazendo com que Jihyun puxasse mais o sobretudo para perto do corpo. Bohyun trancou o carro e enfiou as mãos nos bolsos.
Caminharam lado a lado em silêncio por alguns metros, ouvindo o som da água correndo, misturado ao murmurinho das conversas e à música distante de algum palco improvisado.
— Isso é quase romântico — Jihyun comentou, observando um casal que tentava, sem sucesso, tirar uma foto perfeita de suas mãos entrelaçadas com o rio ao fundo.
— Eu prefiro focar no “quase” — ele respondeu. — Se pensar demais no “romântico”, aí a solidão bate mais forte.
— Você sempre foi assim? — ela perguntou de repente. — Cínico com humor?
— Eu prefiro chamar de realista com graça — ele deu um meio sorriso. — Mas, sinceramente? Não. Eu era bem mais… — fez um gesto vago com a mão. — Ingênuo. Otimista. Acreditava que, se eu fizesse tudo certo, as coisas dariam certo comigo.
— Ah, o famoso contrato invisível — ela fez uma caretinha engraçada. — “Eu me comporto, a vida compensa.”
— É — ele riu, sem alegria. — Ainda tô tentando cancelar a assinatura.
Ela o observou pelo canto do olho.
— E o que te deixou assim? — perguntou. — Trabalho? Família? Um coração partido?
Bohyun encarou a água vendo o reflexo das luzes tremendo na superfície.
— Um pouco de cada — suspirou. — Meu pai foi embora quando eu era adolescente, aquele clássico. Prometeu que ia voltar, não voltou, mandou mensagens sofrendo, depois sumiu de vez. Minha mãe segurou tudo sozinha, e eu criei essa fixação em “não decepcionar ninguém nunca”. Spoiler: não deu certo.
— Tem pais que são especialistas em criar traumas vitalícios na gente, incrível — Jihyun murmurou.
— E você? — ele devolveu. — Qual é a sua história de origem, super-heroína triste?
Ela riu, mas o som pareceu preso na garganta.
— Eu era a filha certinha — começou. — Boas notas, faculdade certa, emprego certo, namorado certo. Eu fazia tudo “como deveria ser”. Aí descobri que meu namorado “certo” estava vivendo uma segunda vida com minha melhor amiga “certa”.
Bohyun parou por um segundo, virando-se um pouco para encará-la.
— Ele traiu você com a sua melhor amiga?
— Trair implica em algum nível de culpa — ela encolheu os ombros. — No caso deles, parecia mais um projeto de longo prazo. Mentira estruturada. Eu era só uma distração.
Ele inspirou devagar.
— Sinto muito.
— Eu também — ela respondeu com uma sinceridade cansada. — Mas, curiosamente, não é isso que mais pesa.
— E o que é?
Ela fitou uma das lanternas de papel que flutuava, suave, na beira da água.
— Perceber que eu não me conhecia fora da versão que eu representava para eles — ela o encarou. — Quando tudo desmoronou, sobrou quem? A Jihyun boa filha, boa funcionária, boa namorada, boa amiga… para quem? Não tinha mais palco.
Bohyun engoliu em seco.
— E agora?
— Agora eu estou tentando descobrir quem é a mulher que pega um motorista aleatório na véspera de Ano Novo para rodar pela cidade em vez de ir chorar no banheiro da mãe — explicou, com um meio sorriso. — Talvez não seja uma pessoa muito saudável.
— Ou talvez seja alguém que não quer repetir o mesmo papel — ele sugeriu, com cuidado. — Que decidiu que, se é pra estar mal, pelo menos vai estar mal vendo coisas bonitas.
Ela desviou o olhar, mas um cantinho do lábio se ergueu.
— Você tem essa mania de achar o lado “edificante” das coisas? — perguntou. — Isso é coisa de crente?
— Um pouco — admitiu. — Mas também é coisa de gente que precisa se convencer de que ainda vale a pena tentar.
Eles continuaram caminhando, o silêncio agora confortável de um jeito estranho. Próximos demais para serem totalmente estranhos, distantes demais para serem qualquer outra coisa.
Quando voltaram para o carro, o relógio marcava 23h12.
— Próximo destino? — Bohyun perguntou, ligando o motor.
— Surpreenda-me, motorista — disse ela, encostando-se no banco. — Me leva para um lugar em que eu possa fingir que minha vida está em ordem.
— Então talvez a gente devesse dar uma volta em Gangnam — ele riu. — Lá todo mundo finge muito bem.

⋆꙳•❅‧*₊⋆☃︎ ‧*❆ ₊⋆


Gangnam estava ainda mais caótica do que o normal.
Luzes de todos os lados, telas gigantes exibindo propagandas com idols sorridentes, carros importados desfilando devagar como se fossem parte de um desfile, e uma multidão que ocupava calçadas e parte da rua, com copos de plástico nas mãos e risadas altas demais.
— Aqui o dinheiro é a primeira religião — Bohyun comentou, observando o movimento.
— E a segunda é a estética — completou Jihyun. — Seul conseguiu transformar insegurança em modelo de negócios.
— Você trabalha com o quê? — ele perguntou, curioso.
— Marketing — ela respondeu, sem rodeios. — Sou uma das pessoas que ajudam outras pessoas a acreditarem que precisam de coisas que, no fundo, não precisam.
— Ah, então a culpa é sua — ele fingiu indignação. — Por sua causa eu já comprei uma fritadeira elétrica que nunca usei.
Ela gargalhou, genuinamente.
— Bom, pelo menos eu sou boa no que faço — reverenciou a si mesma. — Trabalho em uma agência. Campanhas, slogans, fotos perfeitas de vidas perfeitas que não existem.
— E isso não te cansa?
— Cansa — ela revelou. — Mas paga as contas. E, às vezes, é até divertido. Eu só não posso confundir as campanhas com a realidade. Nem sempre consigo.
Bohyun assentiu. Ele podia não entender de fotos perfeitas, mas entendia de fingir que estava tudo bem para não preocupar ninguém.
— E você? — ela perguntou, virando o rosto para ele. — Dirigir foi plano A ou plano emergencial?
— Plano… intermediário — ele escolheu as palavras. — Eu trabalhava em um escritório, daqueles com cubículos e ar condicionado forte demais. Mas aí a empresa fez cortes, mandaram muita gente embora. Eu fui um dos “muitos”.
— Isso tem cara de eufemismo para “foi um desastre” — ela comentou.
— Mais ou menos — ele deu um sorriso breve. — No começo eu entrei em pânico. Depois pensei que talvez fosse uma chance de fazer algo diferente. Aí comecei a dirigir. O problema é que “fazer algo diferente” não resolveu os boletos.
— Mas resolveu alguma outra coisa? — ela insistiu.
Bohyun pensou nas madrugadas ouvindo histórias de estranhos, nas vezes em que um simples “boa noite” tinha salvado o humor dele.
— Resolveu minha vontade de conhecer gente — admitiu. — Parece idiota, mas… tem algo bonito em ver um pedaço da vida das pessoas por meia hora e depois nunca mais.
— Mesmo quando elas vomitam no seu carro?
— Olha, aí já é experiência demais — ele fez expressão de nojo e riu.
O relógio avançava. Do lado de fora, uma contagem regressiva começou em alguma esquina, mas ainda faltavam alguns minutos para o ano virar de fato. Jihyun olhou pela janela, observando foguetes preparados em algumas sacolas.
— Você tem alguém? — ela perguntou, de repente. — Tipo… alguém esperando mensagem de “feliz ano novo”?
Ele pensou na mãe, que provavelmente mandaria um áudio longo, cheio de bênçãos. Pensou em dois amigos da igreja que com certeza lotariam o grupo de mensagens com gifs e frases de impacto, que ele silenciaria depois de um tempo.
— Tenho minha mãe — respondeu. — E alguns amigos. Mas ninguém… — fez uma pausa, procurando a palavra. — Ninguém que vá se ofender se eu virar o ano dirigindo.
— Eu tenho minha mãe também — ela coçou o olho esquerdo. — Mas é diferente. Se eu aparecesse lá hoje, ela ia me receber com comida, cobertor, sermão, e aquele olhar de “sabia que você ia voltar”. Não estou pronta para esse olhar.
— Ela sabe do… namorado? Da amiga?
— Sabe de uma parte — Jihyun tragou a saliva. — Minha mãe é do tipo que acha que a solução para a dor é: “ora, trabalha, casa de novo”. Eu ainda estou na fase do “eu não quero fingir que está tudo bem só porque eu poderia estar pior”.
Bohyun entendeu mais do que gostaria.
— É, tem gente que acha que fé é anestesia, e de certa forma, ela é — ele arrumou o boné. — Mas, tipo… “se você acredita em Deus, não devia estar triste”. Eu acho isso meio desumano. Sabe, Deus não invalida nossos sentimentos e dores, pelo contrário.
Ela o encarou, interessada.
— Você fala de Deus de um jeito… menos irritante do que a maioria — observou.
— Obrigado, eu acho — ele respondeu, rindo. — Eu só não consigo acreditar em um Deus que fica distribuindo castigo porque você não está “feliz o suficiente”. Jesus chorou por um amigo morto, e Ele sabia que ia ressuscitar o cara em cinco minutos. Então, acho que Ele aguenta a nossa tristeza também.
A frase parecia simples, mas pousou em um lugar inesperado dentro dela.
Jihyun voltou a olhar para a rua, como se precisasse de alguma coisa concreta para não encarar o impacto do que sentiu.
— Talvez — disse, por fim. — Mas eu ainda não estou pronta para fazer as pazes com Ele.
— Tudo bem — ele respondeu, sem pressa. — Ele tem tempo e acredite, Ele é muito paciente.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Do lado de fora, a contagem regressiva começou a ecoar em vários pontos da cidade, em coreano e em inglês.
Dez… nove… oito…
Ahn Bohyun olhou rapidamente para o relógio do carro. Aquela era, oficialmente, a virada do ano.
Sete… seis…
Jihyun ficou olhando pela janela, vendo um grupo de jovens subindo em um banco público para ter uma visão melhor dos fogos.
Cinco… quatro…
Bohyun encostou o carro em uma rua menos movimentada, reduzindo a marcha.
Três… dois… um…
Um coro estourou do lado de fora.
— Feliz Ano Novo! — milhares de vozes gritaram.
Fogos começaram a estourar no céu da cidade, refletindo nas janelas e nos prédios. O barulho metálico, a luz colorida, tudo parecia maior e mais alto do que realmente era.
Dentro do carro, por um segundo, houve só silêncio.
— Feliz Ano Novo, motorista — Jihyun disse, por fim, com um sorriso cansado, mas real.
— Feliz Ano Novo, passageira do tour — ele respondeu.
Ela virou o rosto, avaliando-o por um instante, como se quisesse guardar aquela imagem para mais tarde.
— Obrigada.
— Pelo quê? — ele perguntou.
— Por dirigir devagar enquanto eu tentava não desmoronar — disse, simples. — Poderia ser só mais uma corrida. Não foi.
Ele engoliu em seco, surpreso com a honestidade.
— Obrigado por… — procurou as palavras. — Me lembrar que, mesmo quando a gente acha que está só trabalhando, tem alguma coisa acontecendo com a gente também.
Ela riu baixinho.
— Isso foi quase um sermão.
— É o efeito colateral de crescer na igreja.
Ele seguiu dirigindo por mais alguns minutos, agora sem pressa, como se alongar o trajeto pudesse esticar também aquele intervalo de vida suspensa entre o que tinha sido e o que ainda vinha.
Por fim, o aplicativo indicou o destino final: um prédio residencial numa rua mais tranquila, longe do barulho principal.
— Chegamos — ele murmurou, encostando.
Jihyun olhou para o prédio, depois de volta para ele. Parecia relutante em soltar o cinto.
— Se eu disser que foi o melhor réveillon dos últimos anos, você vai achar triste demais? — perguntou.
— Vou achar sincero — respondeu. — E um pouco triste, sim. Mas… eu entendo.
Ela assentiu, como se isso bastasse.
— Vou encerrar a corrida aqui, tudo bem? — ele avisou, mexendo no aplicativo.
— Espera um segundo — ela pediu. — Deixa eu só… — pegou o celular na bolsa e digitou alguma coisa.
Enquanto isso, Ahn Bohyun finalizou a corrida com o valor mínimo indicado pelo sistema. Em seguida, apareceu a tela para avaliação do passageiro. Ele nem chegou a olhar.
— Pronto — disse Jihyun, guardando o telefone. — Agora você pode encerrar.
Ela tirou o cinto, mas não abriu a porta imediatamente.
— Ahn Bohyun?
— Hm?
— Se Deus estiver mesmo aí em cima, olhando — ela falou devagar —, diz para Ele que… eu ainda estou chateada, mas… sou grata por Ele te colocar no meu caminho essa noite.
Ele sorriu, surpreso pela frase.
— Posso dizer — respondeu. — Mas acho que Ele ouviu direto de você.
Jihyun abriu a porta, o ar frio invadindo o carro.
— Boa noite, motorista — disse, com um aceno pequeno.
— Boa noite, Jihyun.
Ela desceu, ajeitou o gorro e começou a caminhar em direção à entrada do prédio. Por um instante, Bohyun acompanhou o passo dela pelos espelhos.
O aplicativo apitou.
Corrida encerrada.
Ele suspirou, sentindo uma pontinha de vazio estranho. A noite tinha sido longa, mas não lenta. Tinha algo de diferente naquele passeio que ele não sabia dizer com exatidão o quê.
Ia guardar o telefone no suporte quando uma nova notificação surgiu na tela.
Mensagem de passageiro: Jihyun.
Ele franziu a testa e abriu o chat.
Passageira: Amanhã, mesmo horário, tour de Ano Novo?
Bohyun encarou a mensagem por alguns segundos, o reflexo dos fogos ainda piscando no para-brisa, embora já tivessem diminuído lá fora.
Um sorriso escapou antes mesmo que ele pudesse controlar.
Talvez o ano novo não fosse tão promissor quanto as propagandas diziam. Mas, por um breve momento, parecia que alguma coisa tinha se mexido um pouco para fora do lugar de sempre.
Os dedos dele correram pelo teclado.
Motorista: Conte comigo.
Ele ligou o carro e deu partida, planejando mentalmente as rotas para encontrá-la novamente.



Setagaya, 31 de dezembro de 2025

A neve em Tóquio não cai; ela se instala. Começa como uma promessa tímida nos telejornais da manhã e, quando a noite chega, já transformou a metrópole de neon e concreto em algo abafado, silencioso e estranhamente paralisado.
Para Minami, aquilo parecia menos um fenômeno meteorológico e mais um decreto de isolamento.
Do lado de dentro do apartamento 204, o mundo se resumia a um quadrado de doze metros, aquecido pelo zumbido constante do ar-condicionado/aquecedor e pelo brilho alaranjado da resistência do kotatsu. Ela estava sentada no chão, as pernas enfiadas sob o cobertor da mesa térmica, observando o vapor subir da tigela de Toshikoshi Soba. O macarrão da passagem de ano. A tradição dizia que comer aquilo cortava as mágoas do ano velho, mas Minami sentia que estava apenas mastigando o próprio tédio.
Ela olhou para o relógio na parede: 23h48.
— Doze minutos — murmurou para si mesma. A voz saiu rouca pelo desuso. Havia passado o dia inteiro revisando uma tese de doutorado sobre a sintaxe na era Meiji e não tinha dito uma única palavra em voz alta desde que agradeceu ao entregador do correio pela manhã.
Ela afastou a tigela e pegou o celular. A tela acendeu, fria e indiferente. “Sem Serviço.”
Minami suspirou, jogando o aparelho sobre as almofadas. A rede estava congestionada ou a nevasca tinha derrubado alguma antena crucial no bairro de Setagaya. Era o cúmulo da ironia moderna: a tecnologia que prometia conectar o mundo ruía diante de um pouco de água congelada.
Restava o telefone fixo.
Aquele aparelho bege, de fio espiralado encardido, que o proprietário do imóvel se recusou a retirar. "É bom para emergências", ele disse. Minami sempre o encarou como uma peça de museu, um intruso analógico em sua vida digital. Agora, era sua única ponte até a casa dos pais, em Kyoto.
Ela se levantou, sentindo o frio do chão penetrar através das meias grossas assim que deixou o refúgio do kotatsu. Caminhou até o balcão da cozinha, tirou o fone do gancho e ouviu. O sinal de discagem estava lá. Um zumbido contínuo, grave, reconfortante.
— Pelo menos você funciona — ela disse ao aparelho.
Discou o número de casa. Seus dedos conheciam a sequência de cor, um ritmo muscular que a levava de volta à infância. Um toque. Dois toques. O som do outro lado era estranho. Não era o toque límpido e digital a que estava acostumada. Havia uma estática grossa, como o som de chuva batendo em telhado de zinco, e ecos distantes de vozes que pareciam fantasmas presos na fiação de cobre da cidade.
Clique.
— Alô? Mãe? — Minami adiantou-se, a voz subindo uma oitava na ansiedade de ouvir algo familiar. — Mãe, desculpa a hora, o celular morreu e...
Eu não sou a sua mãe.
A voz do outro lado não era aguda, nem acolhedora. Era masculina, grave, arrastada, como se tivesse acabado de acordar ou estivesse profundamente cansado. E soava bem nítida, como se ele estivesse sentado no chão da sala dela.
Minami congelou. Afastou o fone do ouvido por um segundo, encarando os buraquinhos do auscultador, e o trouxe de volta.
— Perdão? — ela perguntou, a formalidade defensiva assumindo o controle. — Acho que disquei errado.
Acho que não — o rapaz respondeu. Havia um som de fundo do lado dele. Um bipe eletrônico repetitivo, talvez uma porta automática abrindo e fechando. — Eu estava tentando ligar para a pizzaria. A menos que sua mãe faça entregas debaixo dessa tempestade, nós dois caímos no lugar errado.
Minami franziu a testa. A irritação começou a borbulhar sob a pele. Ela tinha um plano: ligar, desejar feliz ano novo, ouvir a voz da mãe, talvez chorar um pouco de saudade, comer o macarrão já frio e dormir. Estranhos sarcásticos não faziam parte do cronograma.
— Olha, deve ser a neve — disse ela, seca. — Vou desligar e tentar de novo. Por favor, desligue também para liberar a linha.
À vontade.
Clique. O silêncio voltou.
Minami bufou, batendo o fone no gancho com mais força do que o necessário. Esperou cinco segundos. Dez. "Respira, Minami. É só uma falha técnica."
Tirou o fone do gancho novamente. O sinal de linha estava lá. Discou o número de Kyoto, com cuidado excessivo, pressionando cada tecla com a precisão de quem desarma uma bomba.
O chamado começou. O chiado de estática voltou, mais alto dessa vez. E então, o estalo.
— Mãe? — ela tentou, a esperança lutando contra a lógica.
Pizza de pepperoni, massa fina?
A voz dele novamente. Dessa vez, não havia sarcasmo, apenas uma resignação divertida. Minami sentiu o rosto esquentar.
— É você de novo! — ela exclamou, quase acusatória. — O que você está fazendo na minha linha?
Sua linha? — O rapaz soltou uma risada breve, soprada. Era um som grave, texturizado. — Moça, eu estou num telefone público dentro de uma loja de conveniência vazia. Acredite, a última coisa que eu queria era estar "na sua linha". Eu só queria comer uma pizza quente antes que o ano acabe.
Minami olhou para o relógio. 23h55. O pânico da virada solitária bateu em seu peito. Se ela não conseguisse falar com a mãe agora, só conseguiria pela manhã. A superstição boba de começar o ano desconectada da família pesou sobre ela.
— Escuta... — ela começou, a voz tremendo levemente. — Eu preciso muito falar com a minha casa. É Kyoto. O DDD é 075. Você não pode... sei lá, bater no telefone ou desligar com mais força?
Do outro lado, houve uma pausa. Ela podia ouvir a respiração dele. Lenta, compassada. Diferente da dela, que estava curta e errática.
Eu já desliguei três vezes antes de você ligar agora — disse ele, o tom agora mais suave, perdendo a aresta de zombaria. — O sistema deve ter entrado em curto. Os cabos velhos não aguentam o peso do gelo. Cruzamento de linhas. É raro, mas acontece. Basicamente, estamos presos no mesmo canal.
Minami encostou as costas no balcão da cozinha e escorregou até sentar no chão frio. Abraçou os joelhos, segurando o fone contra a orelha como se fosse um escudo.
— Isso é ridículo — sussurrou ela, mais para si mesma do que para ele. — Eu só queria ouvir "feliz ano novo".
O silêncio na linha se estendeu, mas não foi cortado. A estática chiou, como ondas do mar ao longe.
— Minami — ela disse, de repente. A necessidade de não ser apenas uma voz anônima no vazio falou mais alto que a prudência.
O quê? — ele perguntou.
— Meu nome. É Minami.
Houve um ruído do outro lado, como se ele estivesse mudando de posição, talvez se apoiando na cabine do telefone.
Kento — ele respondeu. — E, Minami... sinto muito pela sua ligação para Kyoto. Mas acho que a pizzaria também não vai me atender.
Ao fundo, na casa de Minami, ouviu-se o som abafado de uma sirene distante. Mas foi através do telefone, vindo do lado de Kento, que ela ouviu o som mais nítido. O primeiro sino. Grave, profundo, reverberando através da fiação elétrica da cidade até o ouvido dela. O Joya no Kane. As badaladas dos templos tinham começado.
Começou — disse Kento. A voz dele parecia ter ficado mais próxima, mais íntima, agora que a hostilidade inicial tinha se dissolvido na inevitabilidade da situação. — Feliz Ano Novo, Minami.
Minami fechou os olhos. A solidão do apartamento parecia menos vasta com a voz dele preenchendo o espaço entre sua orelha e seu ombro.
— Feliz Ano Novo, Kento — ela respondeu, e pela primeira vez na noite, não sentiu vontade de desligar.



O silêncio que se seguiu ao "Feliz Ano Novo" não foi vazio. Foi um silêncio habitado.
Minami podia ouvir o som da própria respiração rebatendo no bocal de plástico do telefone e, misturado a isso, a respiração de Kento, uma cadência mais lenta, acompanhada por um zumbido elétrico de baixa frequência que devia ser a geladeira de sorvetes da loja de conveniência.
Ela se levantou do chão frio da cozinha, segurando a base do telefone contra o peito como se fosse um gato assustado. O fio espiralado se esticou, tensionando-se enquanto ela caminhava de volta para a sala. O aparelho era velho, mas o cabo era surpreendentemente longo, permitindo que ela se arrastasse de volta para o calor do kotatsu.
Você ainda está aí? — a voz de Kento surgiu, grave e granulada pela estática.
— Estou — respondeu Minami, acomodando-se sob o cobertor térmico e puxando o telefone para o colo. — Onde mais eu estaria? A neve lá fora está na altura do tornozelo e meu celular continua morto. Você é minha única prova de vida humana.
Ele riu. Não foi uma risada educada, mas um som anasalado, curto.
"Prova de vida". Você fala como se estivesse em uma expedição no Ártico, e não no Japão.
— Para quem cresceu em Kyoto, Tóquio já é uma expedição estranha por si só. E você? — ela perguntou, tateando o terreno. A curiosidade de escritora começou a coçar. Quem era aquele rapaz que passava a virada do ano em um telefone público de konbini? — Você disse que trabalha com música, não é? Ou eu inventei isso na minha cabeça enquanto tentava não entrar em pânico?
Eu não disse. Mas você acertou. Faço faculdade de Música, especialização em engenharia de som. — Houve um barulho de papel sendo amassado do lado dele. Talvez ele estivesse abrindo algo para comer. — É por isso que eu não desliguei ainda.
— Como assim? — Minami franziu a testa, enrolando o fio do telefone no dedo indicador.
A acústica da sua linha — explicou ele, e o tom de voz mudou. Deixou de ser o rapaz cínico da loja de conveniência e virou algo mais técnico, apaixonado. — Tem um eco muito específico aí. Curto, seco. Você não tem muitos móveis, tem? O som bate nas paredes e volta rápido demais. E tem um zumbido... grave. 60 hertz. Ar-condicionado antigo?
Minami olhou ao redor de seu apartamento espartano. Estantes de livros abarrotadas, uma mesa, o kotatsu e nada mais. As paredes eram nuas. O ar-condicionado era, de fato, uma relíquia dos anos 90. Ela sentiu um arrepio estranho, como se ele a estivesse vendo através dos ouvidos.
— Isso é assustadoramente preciso — admitiu ela. — Você está fazendo um perfil psicológico do meu apartamento pelo som de fundo?
É o que eu faço. O som não mente, Minami. As pessoas escolhem as palavras para disfarçar o que sentem, mas a voz? A voz entrega tudo. A tensão nas cordas vocais, a pausa para respirar, o tremor imperceptível... — Ele parou por um instante. — Por exemplo, você diz que está irritada com a neve, mas sua voz baixou meio tom nos últimos dois minutos. Você está relaxando. Ou está com sono.
Minami sentiu o rosto esquentar e agradeceu por ele não poder vê-la.
— Sou estudante de Literatura — retrucou ela, sentindo a necessidade de defender seu próprio território, o das palavras. — E discordo. As palavras não são disfarces, são pontes. Se eu não escolher a palavra exata para descrever a neve agora, ela é só água congelada. Mas se eu disser que a neve é um "lençol de silêncio que abafa a cidade", eu crio uma imagem. Eu crio uma sensação.
"Lençol de silêncio" — repetiu Kento, testando o peso da frase. — É bonito. Um pouco dramático para uma quarta-feira, mas bonito.
— É Ano Novo, tenho licença poética para o drama.
O som de um sino badalou novamente. Mais longe dessa vez, talvez vindo de outro templo. A conversa fluiu para um ritmo menos defensivo.
— Então, Sr. Especialista em Som — começou Minami, sentindo uma coragem súbita. — Se você consegue "ver" meu apartamento pelo ouvido, o que eu deveria estar ouvindo do seu lado? Porque, para mim, soa apenas como estática e... fritura?
Ah, a sinfonia do konbini — Kento suspirou, teatral. — O que você ouve é a melodia complexa da madrugada urbana. O zumbido agudo é a luz fluorescente acima da minha cabeça, que está piscando e, muito provavelmente, prestes a queimar. O som grave é o freezer de bebidas. E o chiado de fundo... bem, isso é o óleo da fritadeira de frango karaage que o funcionário do turno da noite esqueceu de desligar antes de ir para os fundos dormir.
— Você está sozinho na loja?
Tecnicamente, tem um funcionário dormindo no estoque. Mas, na prática, sou eu, as revistas de mangá encalhadas, e uma vitrine de Nikuman que parece estar girando há três dias. — Ele fez uma pausa. — Estou sentado no chão, encostado no vidro da frente. A rua está deserta. A neve apagou as faixas de pedestre. Parece que a cidade foi formatada.
Minami fechou os olhos. A descrição dele, somada à voz grave, criou uma imagem nítida em sua mente. Ela podia ver o brilho branco e estéril da loja de conveniência recortado contra a escuridão azulada da neve. Podia ver um rapaz — o rosto ainda era um borrão, mas a postura era clara — sentado no chão, com o fone de um telefone público verde preso ao ombro.
— Você não ia comprar comida? — perguntou ela, lembrando-se da "pizza" que ele mencionou antes.
Ia. Mas a fome passou. Ou melhor, a preguiça de levantar e pegar algo é maior que a fome. E você? O que ia jantar com sua mãe pelo telefone?
Minami olhou para a tigela de soba, agora fria e empapada sobre a mesa.
— Toshikoshi soba. Para ter vida longa e cortar o azar.
E você comeu?
— Não. Esfriou. Parece uma peruca molhada agora.
Kento soltou uma gargalhada genuína, um som que fez o fone vibrar contra a orelha de Minami.
Certo, Sra. Escritora. "Peruca molhada" acabou com meu apetite também.
Ficaram em silêncio por um momento. Mas, diferentemente do início da ligação, não havia pressa em preenchê-lo. Era um conforto estranho, compartilhado por fios de cobre enterrados sob o gelo.
Sabe... — Kento disse, a voz ficando um pouco mais baixa, mais confessional. — É estranho. Eu deveria estar em uma festa em Roppongi. Meus amigos da faculdade foram. Tinha música, comida, gente fingindo que se importa com a contagem regressiva. Mas quando saí de casa... eu simplesmente não consegui ir. Então vim fazer um extra num konbini. Preparei um café e a neve começou a cair forte. E eu pensei: "Quer saber? Prefiro o barulho da neve do que o barulho daquela gente".
Minami apertou o fone com mais força. Ela conhecia aquela sensação. A exaustão social que não é cansaço físico, mas um esvaziamento da alma.
— Eu entendo — disse ela, suavemente. — Eu passei o dia revisando textos acadêmicos para não ter que pensar no fato de que não escrevi uma única linha da minha própria história este ano. A neve foi... uma desculpa conveniente para eu não me sentir culpada por estar sozinha.
Então somos dois fugitivos — concluiu Kento. — Escondidos na tempestade.
— Dois fugitivos presos por um cabo telefônico defeituoso.
Poderia ser pior — disse ele.
— É? Como?
Poderíamos estar presos em um elevador com desconhecidos ou fazendo um tour de última hora pela cidade com um motorista solitário. Pelo menos aqui eu tenho acesso a revistas em quadrinhos de graça e você tem... bom, você tem sua peruca molhada de macarrão.
Minami sorriu. Um sorriso real, que seus lábios haviam esquecido como formar nas últimas doze horas.
— Ei, Kento?
Sim?
— Já que estamos presos aqui e o ano já começou... você se importa se ficarmos na linha? Pelo menos até a neve diminuir? O silêncio do meu apartamento está meio alto demais hoje.
Do outro lado, ouviu-se o som de moedas caindo na máquina do telefone público. O som metálico, tilintante, de tempo sendo comprado.
Eu acabei de colocar todas as minhas moedas de 100 ienes na máquina, Minami — respondeu ele. — Tenho crédito para, pelo menos, mais duas horas de conversa. Me conte sobre o livro que você não escreveu este ano.
E, enquanto a neve continuava a cair, cobrindo Tóquio em um branco absoluto, Minami começou a falar. Não com a voz de revisora, mas com a voz de quem finalmente encontrou alguém disposto a ouvir não apenas o texto, mas a música por trás dele.



Então — disse Kento, o som de uma embalagem plástica sendo estraçalhada ecoando na linha. — O plano mestre para o Ano Novo é escrever o "Grande Romance Japonês"? Aquele que vai desbancar o Murakami* e fazer as pessoas pararem de ler no metrô só para suspirar?
Minami revirou os olhos, embora soubesse que ele não podia ver. A intimidade da última meia hora tinha lhe dado licença para ser menos polida.
— Não começa. E pare de fazer barulho de... o que é isso? Parece que você está amassando um esquilo.
É um pacote de salgadinho — corrigiu ele, mastigando com uma crocância que reverberou no ouvido de Minami como um terremoto nível 4. — Sabor "Edição Limitada de Ano Novo".
— E qual é o sabor? — Minami perguntou, receosa.
Mochi com Wasabi e... acho que maionese? — Kento fez uma pausa dramática, seguida de um som de engasgo contido. — Meu Deus. Isso é uma ofensa à culinária e à moralidade humana. Tem gosto de arrependimento.
Minami soltou uma risada que escapou pelo nariz, um som nada elegante.
— Bem feito. Quem manda comprar comida de konbini depois da meia-noite? É a hora da xepa gastronômica. Mas voltando ao meu livro... não, não quero escrever algo pretensioso.
Ah, não? — Ele parecia genuinamente interessado, apesar de continuar mastigando o "sabor arrependimento".
— Não. Eu só queria escrever algo que pagasse meu aluguel — confessou ela. — Sabe qual é o meu maior medo para este ano? Não é a solidão, nem a crise climática. É virar aquelas tias que corrigem a gramática dos sobrinhos no cartão de aniversário e acham que isso é o auge da carreira literária.
"Querido sobrinho, faltou uma crase no seu 'eu te amo'" — imitou Kento, fazendo uma voz fina e irritante. — É, é um destino cruel.
— E você, Sr. Engenheiro de Som? Qual o grande plano? Ganhar um Grammy? Mixar o próximo hit de J-Pop que vai tocar em todas as lojas de departamento até a gente querer arrancar as orelhas?
Credo, bata na madeira. — Ouviu-se um som seco: toc-toc. Ele bateu na cabine do telefone, mesmo não sendo supersticioso. — Meu sonho é muito mais humilde. Eu quero, finalmente, gravar o som perfeito de um gato espirrando.
Minami piscou.
— Oi?
Você não tem noção, Minami. É o Santo Graal da sonoplastia. É um som agudo, fofo e explosivo ao mesmo tempo. Já tentei gravar o gato da minha vizinha, o Sr. Whiskers, mas ele só me olha com desprezo e sai andando. Minha meta profissional para este ano é conseguir esse áudio e usá-lo em um filme de terror, na cena mais tensa, só para ver se alguém percebe.
Minami gargalhou. Dessa vez, foi uma risada alta, contagiante, que a fez jogar a cabeça para trás no tapete da sala.
— Você é ridículo.
Sou visionário. As pessoas confundem — retrucou ele, divertido. — Mas falando sério... meu medo real? Tenho medo de ficar surdo. Ou pior: tenho medo de ter que trabalhar em escritório. Sabe aqueles lugares com carpete cinza que suga sua força, luz branca que te deixa pálido e onde o som mais emocionante do dia é a impressora emperrando? Eu prefiro limpar o chão dessa loja de conveniência pelo resto da vida a ter que usar terno e crachá.
— Escritórios são cemitérios de sonhos com ar-condicionado — concordou Minami. — Eu trabalhei um mês em um arquivo morto. O silêncio lá não era paz, era opressivo. Era o som de papéis envelhecendo.
Uau. "O som de papéis envelhecendo". — Kento assobiou. — Viu? A escritora apareceu. Anota essa.
— Não tenho caneta aqui. E se eu sair do kotatsu agora, vou congelar e morrer antes de anotar a frase.
Certo, certo. Eu memorizo para você. "Papéis envelhecendo". Arquivado na pasta mental.
Houve um momento de pausa confortável, preenchido apenas pelo zumbido da linha.
Minami? — chamou Kento.
— Hum?
Você percebeu que, se houvesse um apocalipse zumbi agora, nós seríamos os únicos sobreviventes inúteis?
— Como assim?
Pense bem. Celulares sem sinal. Internet fora. Estamos nos comunicando por uma tecnologia que parou de ser relevante quando o Tamagotchi ainda era febre. Se os zumbis atacarem, ninguém vai nos avisar. Vamos achar que é só mais gente bêbada na rua gritando "Feliz Ano Novo".
— Eu tenho uma arma — disse Minami, confiante.
Ah, é? O quê? A tigela de soba fria? Vai jogar a "peruca molhada" na cara deles?
— Ei! Respeite meu soba — ela riu muito. — Tenho uma enciclopédia de Literatura Clássica Japonesa. Capa dura. Volume único. Deve pesar uns quatro quilos. Se eu acertar a cabeça de um zumbi com o Conto de Genji, ele cai. E você? O que tem aí? Salgadinho de wasabi?
Tenho o telefone — disse ele. — Esse bocal é de plástico duro dos anos 80. É indestrutível. Posso usá-lo como um mangual medieval. E tenho café quente em lata. Posso queimar a língua do zumbi. Zumbis sentem dor na língua?
— Acho que a gente morreria nos primeiros cinco minutos, Kento.
Com certeza. Mas seriam cinco minutos com uma trilha sonora impecável, porque eu narraria tudo.
Eles riram juntos novamente. A tensão da solidão havia se dissipado, substituída por aquela camaradagem boba que só surge às 2 da manhã, quando o cérebro já está cansado demais para manter filtros sociais.
— Sabe de uma coisa? — disse Minami, brincando com a franja. — Eu estava morrendo de medo desse ano. Achei que ia ser só mais um ciclo de aulas, revisões chatas e rejeições de editoras. Mas... começar o ano discutindo táticas de defesa contra zumbis com um estranho que come salgadinho ruim me parece um bom presságio.
É o melhor presságio possível — concordou Kento. — Significa que o ano não vai ser chato. Pode ser desastroso, pode ser caótico, mas chato não vai ser.
— Kento?
Sim?
— Por favor, não coma mais desse salgadinho. O barulho está me dando agonia. Parece que você está mastigando isopor.
Tudo bem, tudo bem. Vou trocar por um chocolate. — Barulho de papel. — Ah, não...
— O que foi?
Só tem chocolate sabor "Chá Verde com Flor de Cerejeira e Sal Marinho". Por que o Japão faz isso com a gente, Minami? Por que a gente não pode ter um chocolate sabor chocolate?
— É o castigo por estarmos acordados a essa hora. Aceite seu destino.
Aceitando... — Ele mordeu e mastigou, logo depois fez um som insatisfeito. — É, tem gosto de sabonete. Quer um pedaço virtual?
— Passo. Vou ficar com meu macarrão frio. Pelo menos ele não tem gosto de banho.
Kento deu risada do outro lado.
Nossa, Minami, você é cruel.



Às três e quarenta da manhã, o chão da sala de Minami já não era mais apenas frio; era uma agressão física às suas vértebras.
Ela tinha desistido da dignidade do kotatsu há uma hora. Agora, estava deitada de barriga para cima no tapete felpudo, as pernas apoiadas na parede num ângulo de noventa graus, o sangue descendo dos pés para a cabeça numa tentativa desesperada de não deixar o cérebro desligar. O telefone, aquele tijolo de plástico bege, estava equilibrado precariamente em seu esterno, subindo e descendo a cada respiração.
A orelha esquerda ardia. Estava vermelha, quente e pulsando, moldada pelo formato do auscultador.
— ...e aí ele me disse que "a melancolia é um recurso estético preguiçoso". Você acredita nisso? — A voz de Minami saiu abafada. — O Professor Kenshi. O homem usa gravata borboleta amarela numa terça-feira chuvosa e vem me falar sobre preguiça estética.
Do outro lado, Kento bocejou. Um som longo, descarado e barulhento que fez o diafragma do telefone estalar.
Talvez ele só esteja com inveja — disse Kento, com a voz pastosa de quem está lutando contra o sono pesado da madrugada. — Mas, sério, Minami, minha perna esquerda morreu. Acho que não a sinto desde as duas da manhã. Se eu tentar levantar agora, vou cair de cara na estante de revistas de fofoca. Seria uma morte humilhante. "Estudante encontrado soterrado por manchetes sobre divórcios de celebridades".
Minami riu, um som seco e cansado.
— A minha circulação também já era. Estou fazendo aquela posição de ioga de quem desistiu da vida. — Ela moveu os pés. — Sabe o que é pior? A fome voltou. O soba virou uma pasta cinza, então agora estou cogitando lamber o pote de açúcar.
Não faça isso. O pico de glicose vai te manter acordada até o dia 4 de janeiro. — Kento fez uma pausa. — Sabe, é engraçado. A gente está aqui falando sobre pernas dormentes e professores de gravata borboleta, mas eu nem sei de onde você está falando.
— Como assim? — Minami franziu a testa, olhando para o teto manchado de umidade. — Eu liguei para Kyoto. Para a casa dos meus pais. Imaginei que a linha tivesse cruzado lá na central de Kansai. Você não está em Kyoto?
Houve um silêncio confuso do outro lado.
Kyoto? Não. Minami, eu estou em Tóquio.
Minami desencostou as pernas da parede e sentou-se de súbito. O sangue desceu rápido demais, deixando-a tonta.
— Tóquio?
Sim. Setagaya. Como disse antes, estou fazendo extra num konbini perto da... esquece, a neve está tão alta que me impede de ver qualquer ponto de referência no momento.
— Espera. Eu estou em Setagaya! — O coração de Minami deu um salto estranho.
O quê?
— Eu moro em Setagaya. Perto do parque. — Ela se levantou, caminhando até a janela com o telefone pressionado com força contra o rosto, como se isso pudesse diminuir a distância física. — Eu achei que você fosse uma falha interurbana! Achei que estivesse a quinhentos quilômetros daqui!
E eu achei que você fosse de algum lugar distante, já que estava tentando ligar para a mãe no "interior". — A voz de Kento ganhou uma energia nova, a sonolência evaporando instantaneamente. — Minami, a gente não está falando através do país. Estamos falando através do bairro.
Aquela informação mudava tudo. Enquanto ele era uma voz sem corpo em Kyoto, Kento era uma fantasia segura. Um confidente anônimo que desapareceria com o nascer do sol. Mas saber que ele estava ali, na mesma cidade, debaixo da mesma nevasca, respirando o mesmo ar gelado de Setagaya tornava tudo perigosamente real.
— Qual konbini? — perguntou ela, a urgência tomando conta da voz. — Setagaya é enorme, Kento. Tem centenas de lojas.
É uma... espera, deixa eu olhar o nome na nota fiscal, o letreiro lá fora está coberto de neve. — Ouviu-se o barulho dele tateando os bolsos, o farfalhar de papel térmico. — É um Lawson. Aquele que fica perto de um posto de gasolina desativado. Tem um... tem uma estátua estranha de um pinguim na frente do posto.
Minami arregalou os olhos.
— O pinguim com o chapéu quebrado?
Isso! O chapéu está pela metade!
— Eu sei onde é! — Ela quase gritou. — Kento, isso é a uns vinte e cinco minutos a pé daqui! Eu passo por esse pinguim todo dia indo para a faculdade.
Vinte e cinco minutos? — Ele riu, um riso de descrença e excitação. — Minami, se eu sair correndo agora e não escorregar no gelo, eu chego aí antes de o seu macarrão terminar de estragar.
— Não corre, seu idiota! Está perigoso. — Ela estava sorrindo. Um sorriso nervoso, largo, bobo. — Mas... amanhã. Quer dizer, hoje. Quando amanhecer. O metrô não vai funcionar, mas dá para ir a pé.
A gente se encontra — disse ele, decidido. — No pinguim. Ao meio-dia? Quando o sol derreter um pouco desse caos?
— Ao meio-dia. No pinguim. — Minami sentiu um frio na barriga que não tinha nada a ver com a temperatura do apartamento. — Como eu vou te reconhecer? Além da voz?
Eu vou estar com uma jaqueta verde militar que é grande demais para mim. E vou estar segurando um café quente para você. E você?
— Eu... — Minami olhou para si mesma no reflexo do vidro escuro. — Eu tenho um casaco vermelho. Bem vermelho. E provavelmente vou estar com cara de quem não dormiu nada.
Casaco vermelho. Pinguim. Meio-dia. Fechado.
— Kento, isso é loucura. A chance disso acontecer é...
Zzzzzzt.
O som na linha mudou. Não foi um corte abrupto, foi uma limpeza. A estática grossa, que tinha sido o cenário sonoro da conversa a noite toda — aquele chiado de chuva, aquela textura de "fritura" e ecos distantes — desapareceu num piscar de olhos.
Foi substituída pelo silêncio asséptico, digital e perfeito de uma linha moderna.
— Kento? — Minami chamou. A própria voz soou estranha sem o retorno do eco. Límpida demais.
— ...
Nada. Nem a respiração dele, nem o zumbido da geladeira do mercado, nem o barulho do vento que vazava pela porta da loja. Apenas o tom contínuo, monótono e implacável de linha. Tuuuu... tuuuu... tuuuu...
— Não — Minami sussurrou. — Não, não, não!
Ela bateu no gancho do telefone freneticamente. Uma, duas, três vezes. — Volta! Agora não! Volta para o cruzamento!
A linha tinha sido consertada. O sistema automático da companhia telefônica, em sua eficiência cega, detectou a falha na rede de Setagaya e a corrigiu. O "curto-circuito" mágico que uniu os dois estranhos tinha sido reparado.
Minami largou o fone no gancho e o pegou de novo em menos de um segundo. Suas mãos tremiam tanto que ela errou o primeiro número.
— Calma, Minami. Pensa.
Ela não sabia o número dele. Ele estava num telefone público. Ela não sabia o sobrenome dele. Só "Kento". Estudante de música. Mas ela tinha discado para a casa dela. O "bug" aconteceu quando ela ligou para casa.
Com o coração batendo na garganta, ela discou o número dos pais em Kyoto. A sequência familiar. 0-7-5...
Ela fechou os olhos, apertando o fone contra a orelha com tanta força que doeu. "Por favor, esteja cruzada. Por favor, cai no konbini. Por favor, atende, Kento."
Um toque. Límpido. Cristalino. Sem nenhum chiado. Dois toques.
— Atende, Kento... — ela implorou para o vazio.
Clique.
Alô? — Uma voz feminina atendeu. Doce, sonolenta e inconfundível.
O mundo de Minami parou.
— Kento? — ela tentou, a voz falhando, numa última esperança irracional.
Quem? — A voz do outro lado bocejou. — Minami? É você, filha? — O tom mudou de sono para preocupação materna em milissegundos. — Pelos Céus, são quase quatro da manhã! Aconteceu alguma coisa? Por que você não ligou na virada? A gente ficou esperando!
Minami escorregou pela parede até o chão, sentindo o peso do telefone dobrar sua mão. A conexão era perfeita. Ela podia ouvir até o relógio de pêndulo na sala dos pais, a quinhentos quilômetros dali. A magia técnica tinha acabado. A realidade tinha sido restaurada com sucesso.
— Mãe... — Minami disse, sentindo as lágrimas quentes de frustração se acumularem nos olhos.
Filha, você está chorando? Está tudo bem aí em Tóquio? A neve parou?
Minami olhou para a janela. A neve continuava caindo, indiferente ao drama humano. Ela sabia que ele estava perto. Em algum lugar a quinze minutos dali, perto de um pinguim de chapéu quebrado. Mas a linha que os unia tinha sido cortada por, ironicamente, estar funcionando bem demais.
— Não, mãe... — Minami soluçou, rindo e chorando ao mesmo tempo. — A neve não parou. E a linha... a linha finalmente consertou.
Infelizmente.



A euforia é uma droga perigosa, especialmente quando misturada com a privação de sono.
Às dez da manhã, Minami já tinha experimentado cinco roupas diferentes. O apartamento era uma zona de guerra têxtil: blusas de lã jogadas sobre o sofá, cachecóis pendurados nas cadeiras e meias ímpares espalhadas pelo chão.
Ela parou em frente ao espelho do corredor. Casaco vermelho. O mesmo vermelho vivo que disse a ele. Por baixo, três camadas de roupa térmica, porque ela podia estar apaixonada (ou algo próximo disso), mas não estava disposta a morrer de hipotermia.
— Kento. — Ela testou o nome em voz alta, olhando para o próprio reflexo. — Kento... sem sobrenome.
Ela bateu a palma da mão na testa com força.
— Burra! Burra, burra, burra! — resmungou, andando em círculos pela sala. — Quatro horas de conversa. Falamos sobre zumbis, sobre a acústica da minha sala vazia, sobre o gosto de salgadinho de wasabi... e eu não perguntei o sobrenome dele! Nem o número do celular!
Era o tipo de erro amador que ela criticaria impiedosamente se encontrasse num manuscrito de um calouro de literatura. "Furo de roteiro", ela escreveria na margem com caneta vermelha. Mas a vida real não tinha margens para anotações, e agora ela estava presa num enredo escrito por um autor sádico.
Ela olhou para o relógio. 10h45. Faltava pouco mais de uma hora para o meio-dia. O plano era sair às 11h20, enfrentar a neve por vinte e cinco minutos e chegar ao "Pinguim de Chapéu Quebrado" com antecedência.
Minami foi até a varanda para checar o tempo. Ao afastar a cortina, o coração dela, que batia num ritmo ansioso, parou abruptamente.
O mundo tinha desaparecido.
Às quatro da manhã, a neve era um cenário romântico. Agora, era um monstro. Não se via o prédio da frente. Não se via a lavanderia com o letreiro rosa. Não se via nem a grade da própria varanda. Havia apenas uma parede sólida, branca e turbulenta de vento e gelo fustigando o vidro.
— Não... — sussurrou ela.
Nesse exato momento, o som que todo japonês aprende a temer começou a ecoar. Não vinha do telefone, nem da TV. Vinha da rua, dos alto-falantes de emergência do bairro, distorcidos pelo vendaval.
“Atenção, moradores de Setagaya. Alerta de nevasca severa. A visibilidade é zero. O transporte público está suspenso. Pedimos encarecidamente que não deixem suas casas. Repito: risco de vida. Não saiam.”
A voz metálica do locutor ecoou como uma sentença de prisão.
Minami correu para a televisão e a ligou. Todos os canais mostravam a mesma coisa: mapas do Japão cobertos por manchas brancas e roxas, repórteres encapotados segurando microfones que pareciam picolés de vento. "A nevasca do século", dizia o texto na tela. "Tóquio paralisada."
Ela olhou para o casaco vermelho. Olhou para as botas impermeáveis que tinha deixado na porta.
— São só vinte e cinco minutos — ela disse para a sala vazia. — Eu posso ir me segurando nas paredes.
Ela calçou as botas. Enrolou o cachecol até cobrir o nariz. Abriu a porta do apartamento. O corredor do prédio era aberto para a rua. No instante em que ela girou a maçaneta, o vento empurrou a porta de metal contra o corpo dela com a força de um lutador de sumô. Neve entrou voando no genkan, gelada e cortante como vidro moído.
Minami deu um passo para fora e quase foi derrubada. O frio não era apenas temperatura; era dor. Seus olhos lacrimejaram e congelaram instantaneamente. Ela não conseguia ver um palmo à frente do nariz.
Ela recuou, empurrando a porta com o ombro até conseguir fechá-la com um estrondo. Encostou as costas no metal gelado, a respiração saindo em nuvens brancas, o coração martelando contra as costelas.
Era impossível.
— Ele não vai — pensou ela, tirando o cachecol, sentindo o rosto arder. — Ele não é louco. Ele sabe que é impossível. O konbini deve ter fechado as portas e mandado todo mundo ficar lá dentro.
Ela voltou para a sala, derrotada, e deixou-se cair no sofá, ainda de casaco e botas. O relógio marcou 11h55.
Cinco minutos para o meio-dia.
Minami imaginou o pinguim de cimento. Sozinho, coberto até o pescoço de neve, o chapéu quebrado escondido sob um monte branco. Será que Kento estava lá? Será que ele era mais teimoso (ou mais estúpido) que ela e tinha enfrentado a tempestade? A imagem dele esperando no frio, segurando dois cafés que congelariam em segundos, fez o estômago dela revirar.
Ela olhou para o telefone fixo. Aquele aparelho maldito e bege. Se ela tirasse do gancho agora... se discasse para casa... será que o universo teria piedade?
Arrastou-se até a cozinha. Tirou o fone. Tuuuuuuuuu. Sinal de linha perfeito. Limpo. Sem chiado. Sem magia.
Ela discou o número da casa dos pais, só por via das dúvidas.
Alô? — A voz da mãe, clara e nítida. Minami desligou sem dizer nada.
— Droga! — Ela bateu a mão na mesa. — Por que o sistema telefônico tem que funcionar direito logo hoje? Eu quero a falha de novo!
O meio-dia chegou. O relógio digital do micro-ondas piscou 12:00. Lá fora, o vento uivava, zombando dela.
Minami tirou o casaco vermelho e o jogou no chão. Sentia-se ridícula. Uma heroína de comédia romântica que foi barrada pela meteorologia. Ela tinha se apaixonado por uma voz, marcado um encontro cego e levado um bolo da Mãe Natureza.
E agora? Ela sabia que ele se chamava Kento. Sabia que ele estudava Música e Engenharia de Som. Sabia que ele trabalhava num Lawson perto de um posto com um pinguim. Mas não sabia o sobrenome. Não sabia a universidade. E em Tóquio devia haver milhares de Kentos.
Ela foi até a janela, limpando o vidro embaçado com a manga da blusa térmica.
— Kento — sussurrou ela para a parede branca de neve lá fora. — Você também está xingando o tempo agora? Ou está rindo, dizendo que isso é um sinal de que deveríamos ter ficado falando de zumbis? — Ela pegou o resto da garrafa de suco que tinha aberto na véspera e encheu uma caneca de café. — Feliz Ano Novo, Minami — brindou ela para o pinguim invisível lá fora. — Bem-vinda à realidade.

⋆꙳•❅‧*₊⋆☃︎ ‧*❆ ₊⋆

(O lado de Kento)


Para um engenheiro de som, o silêncio nunca é apenas a ausência de barulho. É um vácuo técnico e preciso. No momento em que a linha limpou, o mundo de Kento se transformou em um "mudo" digital que doía nos tímpanos.
— Minami? — ele chamou, a voz ecoando contra o vidro frio da cabine do telefone. — Ei, Minami?
Nada.
O ruído reconfortante da respiração dela, o leve chiado que ele já tinha aprendido a ignorar, tudo fora substituído por aquele tom de linha perfeito e estéril. Kento bateu no gancho do telefone público, as moedas de 100 ienes tilintando dentro da máquina como se rissem da cara dele.
Ele sentiu um soco de adrenalina no estômago. Ele não tinha o número dela. Ele nem sabia se o telefone dela era o que estava cruzado ou se era o dele. Ele era um especialista em áudio que acabou de perder a única frequência que importava.
— Droga! — ele rosnou, saindo da loja de conveniência.
A neve o atingiu como um tapa. Ele estava apenas de moletom, a jaqueta militar tinha ficado pendurada no balcão do estoque. Ele tentou voltar para o telefone, mas o funcionário do turno da noite que estava “junto” com ele o olhou com desconfiança. Kento tentou ligar para o próprio celular de um amigo, rezando para que a linha cruzasse de novo. Tentou ligar para a pizzaria. Tentou ligar para qualquer lugar.
A rede estava impecável. O erro foi corrigido.
As horas da manhã foram um pesadelo branco. Kento não dormiu em seu horário de descanso. Ele ficou sentado no banco de plástico da loja, olhando para a parede de neve lá fora. Quando o alerta de emergência soou nos alto-falantes da rua, ele sentiu um desespero real. "Ela vai tentar ir", ele pensou. "Ela parece ser teimosa o suficiente para enfrentar isso."
Às onze da manhã, ele ignorou as ordens do funcionário de que ninguém deveria sair.
— Se eu não for agora, eu vou perder a única coisa real que aconteceu na minha vida em anos — ele falou, enquanto vestia a jaqueta verde.
A caminhada de 20 minutos levou quase uma hora. O vento era um uivo constante que tentava empurrá-lo de volta. Quando finalmente chegou ao pinguim, o gelo já estava cobrindo a estátua. Ele esperou. Esperou até que seus dedos ficassem roxos e ele perdesse a sensibilidade no nariz.
— Ela não vem. Graças a Deus, ela não é tão louca quanto eu — murmurou, tremendo violentamente.
Ele puxou do bolso uma folha que arrancou do seu caderno de partituras. A mão mal obedecia, a caligrafia saindo como se fosse de uma criança. Ele escreveu um bilhete, comprou dois cafés (que esfriaram em três minutos) e os escondeu atrás do pinguim numa sacola plástica, usando uma pedra para que o vendaval não levasse sua única esperança embora.
Enquanto se afastava, ele viu um homem idoso, embrulhado em mil casacos, observando-o de longe. O homem parecia interessado na pedra que Kento usou.
— Ei! — Kento gritou, a voz sendo engolida pelo vento. — Não mexe aí! É para uma pessoa!
O velho deu de ombros e seguiu caminho. Kento voltou para o trabalho com o coração na mão, pediu para dobrar o turno extra naquele konbini com a alma em frangalhos, rezando para que ela encontrasse aquele papel molhado.



Três dias haviam se passado, e a neve, que antes era um manto branco, melancólico e absoluto, transformou-se naquela lama cinzenta e ingrata que as cidades grandes produzem. Tóquio estava despertando do seu coma de gelo com um mau humor visível: o som das máquinas escavadoras, o barulho do tráfego voltando a rugir pelas ruas e o cheiro de asfalto molhado.
Para Minami, porém, o mundo ainda estava em suspenso. Ela passou as últimas 72 horas em um estado de vigília obsessiva, revisando cada segundo daquela ligação em sua mente, como se pudesse extrair um sobrenome ou um endereço de um suspiro ou de uma risada de Kento.
— "Kento, música, engenharia de som, Lawson, pinguim" — ela recitava como um mantra enquanto amarrava as botas.
Dessa vez, ela não usou o casaco vermelho. Sentia que, se o usasse e ele não estivesse lá, a cor seria um lembrete berrante do seu fracasso. Optou por um sobretudo marrom, discreto. Enfiou as mãos nos bolsos e saiu.
A caminhada até o posto de gasolina desativado levou quarenta minutos, pois ela ainda precisava desviar das montanhas de gelo acumuladas nas calçadas. Quando finalmente avistou o pinguim, sentiu um aperto tão forte no peito que precisou parar por um instante.
Lá estava ele. A estátua de concreto, de perto, era menor do que ela imaginava, com o chapéu de coco partido ao meio, parecendo um aristocrata que tinha sobrevivido a uma guerra. Não havia ninguém ao redor. Apenas o pinguim, coberto por uma fina camada de fuligem cinza.
— Você viu ele? — ela sussurrou para a estátua, sentindo-se a pessoa mais patética de Setagaya.
Ela esperou. Cinco minutos. Dez. O sol de inverno estava pálido, sem calor. Cada rapaz que passava pela rua com uma jaqueta escura fazia seu coração dar um solavanco, mas nenhum deles tinha o andar que ela imaginava para Kento. Nenhum deles parava. Nenhum deles procurava por um casaco vermelho.
— O Lawson — disse ela para si mesma, endireitando a postura. — Ele trabalha no Lawson.
Havia um Lawson a duzentos metros dali. Ela entrou na loja, e o sino da porta tocou com um plim alegre que contrastava com sua ansiedade. O interior da loja cheirava a oden e a produtos de limpeza.
Ela caminhou pelos corredores fingindo procurar algo, mas seus olhos escaneavam cada funcionário. Havia uma moça no caixa e um senhor repondo as prateleiras de bebidas. Nada de rapazes com cara de estudantes de música.
Ela se aproximou do caixa com um onigiri de atum por puro nervosismo e uma latinha de chá preto com limão.
— Com licença — exprimiu ela, a voz saindo mais trêmula do que pretendia. — Eu estou procurando por um funcionário que trabalha aqui no turno da noite... o nome dele é Kento.
A moça do caixa, que parecia estar operando com 10% de bateria social, piscou devagar.
— Kento? Aqui não tem nenhum Kento.
Minami sentiu o chão balançar levemente.
— Tem certeza? Ele disse que era no turno da noite. Estudante universitário, alto, talvez... — Ela parou. Ela não sabia a altura dele. — Ele trabalha com áudio.
— Moça, o turno da noite aqui é feito pelo Sato-san e pelo Tanaka-kun. E o Tanaka-kun está de férias há dois dias — a funcionária respondeu, bipando o onigiri com uma eficiência robótica. — Talvez seja no Lawson da rua de trás? Ou no da estação? Tem quatro nessa área. Também tivemos funcionários extras de outras redes que cobriram turnos esses dias, mas não me recordo do nome de nenhum deles.
Minami pagou, pegou o recibo e saiu para o frio, sentindo o leve calor do chá morno em sua palma através da lata.
— Quatro — murmurou ela. — Ótimo.
Ela foi ao segundo. Depois ao terceiro. No terceiro, um rapaz chamado Kento realmente trabalhava lá, mas quando Minami o viu de longe, percebeu que ele tinha pelo menos uns quarenta anos de idade e uma expressão de quem odiava música, som e, possivelmente, a humanidade. Não era ele.
A frustração começou a se transformar em uma raiva ácida. Raiva da neve, raiva do sistema telefônico japonês e, principalmente, raiva de si mesma. Como ela pôde ser tão literária e tão pouco prática? "Vamos nos encontrar no pinguim", ela disse. Que ideia de iniciante! Por que não disse "Meu número é tal"?
Às três da tarde, ela estava de volta ao pinguim de chapéu quebrado. Estava exausta. Seus pés doíam e sua esperança estava se desintegrando como a neve na calçada.
— Ele não veio — pensou ela, sentando-se no mureto baixo ao lado da estátua. — Ou ele veio e eu não estava aqui. Ou ele deu o nome errado. Ou ele nem existe e eu tive um surto psicótico por causa da solidão do Ano Novo.
Ela pegou o celular do bolso. O sinal estava cheio. O mundo digital estava de volta, implacável. Ela abriu o Instagram e digitou “Kento Setagaya”. Apareceram dois mil resultados. Digitou “Kento Música”. Mil e quinhentos. “Kento Lawson” nenhum resultado.
Ela olhou para o pinguim.
— Sabe o que é pior? Eu nem sei se a voz dele combina com o rosto dele. E se ele for um idiota? E se ele tiver uma risada que eu odeie ao vivo?
Ela soltou uma risada amarga, que se transformou em um suspiro longo. O sol estava começando a descer, tingindo a neve suja de um laranja melancólico. Minami se levantou para ir embora, pronta para aceitar que Kento seria apenas um capítulo não escrito no seu livro de frustrações.
Foi quando ela notou algo.
Atrás da base de concreto do pinguim, protegida do vento, havia uma pequena sacola de plástico branca, presa no chão por uma pedra pesada. Dentro da sacola, havia algo escuro.
Minami se ajoelhou na lama, ignorando a sujeira no seu sobretudo marrom. Ela puxou a sacola.
Dentro, havia duas latas de café. Elas estavam geladas, é claro. E preso entre as latas, um pedaço de papel de caderno, arrancado com pressa, com a borda serrilhada.
Ela abriu o papel com os dedos trêmulos. Não havia um número de telefone. Havia algo escrito em uma caligrafia rápida, mas firme:
“Minami, Eu vim. Esperei até às duas da tarde, mas o gerente da loja me ligou dizendo que eu precisava cobrir o turno de alguém que ficou preso na neve em Chiba. Eu não podia perder o emprego, você sabe como é o 'cemitério de sonhos'. Eu não sei seu sobrenome. Não sei seu rosto. Mas sei que você gosta de escrever e odeia macarrão frio. Se você ler isso, por favor, não desista de mim. Eu vou estar aqui de novo amanhã, às sete da noite. Sem falta. Vou trazer um café que não seja uma pedra de gelo. Kento (o do salgadinho de arrependimento)."
Minami apertou o papel contra o peito. O riso que saiu dela dessa vez não foi amargo; foi uma explosão de alívio que ecoou pela rua deserta. Ele veio todos os dias. Ele era real. E ele era tão desastrado quanto ela.
Mas, ao virar o papel, ela viu uma última linha escrita no verso, que fez seu sangue gelar novamente:
"P.S: Minami, tem um cara estranho me olhando enquanto eu escrevo isso. Acho que ele quer a pedra. Se você não achar este bilhete... bom, eu vou continuar vindo até você aparecer."
Minami olhou ao redor, mas a rua estava vazia. Ela guardou o bilhete no bolso mais profundo do casaco, como se fosse um tesouro nacional.
Ela tinha um encontro. Amanhã. Às sete. Mas Tóquio era uma cidade grande, e o destino parecia adorar pregar peças neles.
— Amanhã — disse ela para o pinguim, dando um tapinha no chapéu de pedra dele. — Amanhã a gente termina essa conversa.



A transição da neve para a chuva em Tóquio foi como trocar um drama épico por um filme de baixo orçamento e deprimente. O branco imaculado deu lugar a uma lama pastosa, e o céu, antes silencioso, agora despejava uma água gélida e persistente que parecia atravessar até o couro das botas.
Minami estava ensopada. O guarda-chuva transparente que ela comprou no caminho tinha virado do avesso com uma lufada de vento e agora era apenas um esqueleto inútil de plástico na lixeira da esquina.
Era por volta das 18h40. Ela estava a caminho do pinguim, mas a chuva se transformou em um dilúvio bíblico. Seus óculos de descanso estavam embaçados, o cabelo grudava no pescoço e a esperança de parecer minimamente apresentável para o "encontro da vida dela" tinha escorrido pelo bueiro.
— Que se dane — sibilou ela, avistando o letreiro acolhedor de uma livraria-café chamada Kotoba.
Ela entrou, sendo recebida pelo cheiro reconfortante de papel velho, café torrado e chá de gengibre com mel. O lugar estava quase vazio devido ao tempo. Minami tirou o sobretudo bege — agora pesando uns três quilos por causa da água — e caminhou até o fundo, onde ficavam as poltronas de couro desgastadas.
Havia apenas uma pessoa naquela seção. Um rapaz sentado de costas para ela, usando um moletom cinza largo, com fones de ouvido grandes pendurados no pescoço. Ele estava debruçado sobre uma mesa de madeira escura mexendo no notebook, parecendo focado em editar alguma coisa, também havia uma mochila aos seus pés, seus coturnos sujos de lama. A luz de um abajur próximo recortava sua silhueta, mas Minami não lhe deu importância. Para ela, ele era apenas parte da mobília silenciosa daquela tarde cinzenta.
Ela desabou na poltrona logo atrás dele, a uma distância curta, mas sem vê-lo de frente. Ela fechou os olhos. A imagem do pinguim de pedra, sozinho na chuva, queimava atrás de suas pálpebras. Enterrou o rosto nas mãos, sentindo a umidade das palmas.
— Inacreditável, eu pareço um bicho molhado — ela sussurrou, a voz saindo em um fio quebrado, logo mudando para um tom baixo e ríspido de quem está prestes a ter um colapso nervoso. — Primeiro uma nevasca histórica. Agora uma monção. O universo realmente não quer que eu conheça esse cara. Ele deve ser um psicopata. É a única explicação. Eu sou uma idiota!
O rapaz à frente dela não se mexeu, mas as mãos dele, que digitavam precisas algo no teclado, pararam por um segundo.
— Ele nem deve existir — continuou Minami, aumentando um pouco o tom, ignorando a presença dele, a frustração ganhando peso. — "Vamos nos encontrar no pinguim". Que tipo de pessoa marca encontro em uma estátua de posto de gasolina? Eu deveria estar em casa, revisando uma tese sobre gramática arcaica e comendo comida que não tem gosto de "arrependimento".
Desta vez, o rapaz inclinou a cabeça levemente para o lado. Ele não se virou, mas retirou os fones do pescoço e os colocou sobre a mesa.
— E o bilhete... "Kento, o do salgadinho". Que tipo de nome de guerra é esse? E se ele for um esquisito que mora num porão? — Minami soltou um longo suspiro. — E se a voz dele for a única coisa boa e, de perto, ele tiver bafo de café de lata e olhos de peixe morto? Eu vou chegar lá, o pinguim vai estar boiando na enchente e eu vou pegar uma pneumonia só por causa de uma conexão de telefone que nem deveria ter existido.
O rapaz soltou um som. Não foi uma fala. Foi um riso soprado, curto, exatamente na mesma frequência acústica que Minami tinha ouvido durante quatro horas através de um fio de cobre.
Ela parou de respirar. O som não veio de um telefone. Não veio de um alto-falante. Ele veio do ar, ricocheteou nas estantes de livros e atingiu seu peito como uma descarga elétrica. Era aquela frequência. Ela conhecia a vibração de cada nota daquela risada.
Minami congelou. O medo de que, se abrisse os olhos, o som desaparecesse, era paralisante. O ar parou nos seus pulmões. O rapaz girou a cadeira devagar. O som da madeira rangendo pareceu durar uma eternidade.
Quando ela finalmente baixou as mãos, Kento estava ali. Ele não tinha olhos de peixe morto, tinha olhos escuros e cansados, com olheiras de quem também não dormia há dias, um cabelo bonito na altura dos ombros — uma pintinha adorável e despercebida na maçã direita do rosto —, um sorriso de canto que era metade timidez e metade vitória e uma expressão de quem também estava prestes a desmoronar de alívio.
Ele era exatamente como a voz dele sugeria: alguém que parecia estar sempre ouvindo algo que ninguém mais percebia.
— Sabe — disse Kento, e o som "ao vivo" fez os pelos dos braços de Minami se arrepiarem. Era mais profundo, mais rico, sem a estática do telefone. — Eu não moro em um porão. E meu bafo, no momento, é de chá de hortelã, o que é um upgrade em relação ao café de lata.
Minami sentiu o rosto queimar em um tom de vermelho que faria seu antigo casaco parecer pálido. Ela abriu a boca para falar, mas só conseguiu produzir um som de engasgo. Kento inclinou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, ficando a pouco mais de um metro dela.
— E para sua informação, o pinguim não está boiando. Eu passei por lá agora pouco para deixar um novo bilhete dizendo que eu estaria aqui esperando a chuva passar. Só não esperava que você fosse entrar logo na livraria onde eu decidi me esconder.
Minami sentiu as lágrimas subirem, quentes e teimosas, nublando sua visão. Ela soltou um riso curto, um som que era metade soluço, recuperando a voz, embora ela ainda estivesse trêmula.
— Você ouviu tudo o que eu disse, não ouviu?
— Cada palavra — ele sorriu, e dessa vez o riso foi aberto. — "Psicopata", "bafo de café”. Foi uma das melhores críticas construtivas que já recebi.
— Ai, meu Deus — Minami cobriu o rosto com as mãos novamente, mas dessa vez ela estava rindo entre os dedos, as lágrimas insistindo em vir.
— Aliás… Você está atrasada — ele disse, e havia um tremor quase imperceptível em sua voz que o telefone nunca teria captado.
— Eu perdi meu guarda-chuva — ela conseguiu dizer, a voz falhando. — E meu casaco vermelho está no chão da minha sala porque eu achei que você não viria. Eu achei que... que eu tinha imaginado você.
Kento se levantou — ele era mais alto do que ela imaginou — e estendeu a mão para ela. As mãos dele eram grandes, com dedos longos de quem tocava instrumentos.
— Minami. Sem sobrenome. Revisora de textos e futura escritora do "Grande Romance Japonês". Eu sou Kento Yamazaki. O cara do som de gatos espirrando.
Minami olhou para a mão dele e depois para o rosto. O pânico da expectativa desapareceu, substituído por uma sensação estranha de familiaridade, como se eles estivessem continuando uma conversa que nunca tinha sido interrompida.
Percebendo que ela ainda estava incrédula, ele se ajoelhou no tapete ao lado da poltrona dela, ficando na altura dos seus olhos. O cheiro dele não era de café de lata; era cítrico amadeirado, era de chuva, papel e algo quente, como o ar que sai de uma padaria no inverno.
— Eu não sabia seu rosto — ele sussurrou estendendo a mão, mas parando a centímetros do braço dela, esperando permissão. — Mas eu reconheceria seu jeito de falar, como se estivesse revisando o próprio destino, em qualquer lugar do mundo.
Minami inclinou o corpo para a frente, diminuindo a distância, e tocou a mão dele. Os dedos de Kento estavam quentes e envolveram os dela com uma firmeza que dizia "eu não vou deixar essa linha cair de novo".
— Meu Deus, você é real — ela balbuciou, a primeira lágrima finalmente caindo.
— Eu sou — ele sorriu, e o brilho nos olhos dele era mais quente que qualquer kotatsu. — E, só para constar, você não parece um bicho molhado. Você parece exatamente a pessoa que eu queria encontrar no final daquela nevasca.
Sem esperar mais, Minami sucumbiu à ânsia que vinha sentindo há três dias e abraçou Kento, apertando-o em seu abraço temendo que tudo aquilo fosse um sonho. Temerosa em acordar e descobrir que ainda estava na noite da virada, em seu pequeno apartamento, e tudo ter sido fruto de sua imaginação.
Mas não era, ele realmente estava ali e ela finalmente revelou que seu sobrenome era Hamabe. Após a troca de calor e saudade inconsciente, Kento se levantou estendendo a mão para ela imitá-lo.
— Que tal a gente ir comer alguma coisa que não tenha um sabor duvidoso? — ele convidou, e Minami riu, lembrando-se do salgadinho e do chocolate.
— Só se você prometer não descrever a acústica da minha mastigação — ela brincou, pegando a bolsa esquecida.
— Não prometo nada — ele piscou, pegando o notebook e a mochila. — Mas posso prometer que, dessa vez, a gente não vai depender de fios de cobre para terminar o assunto.
Enquanto eles caminhavam em direção à saída, a chuva continuava a fustigar as janelas da livraria, mas, pela primeira vez em dias, Minami não se importou com o clima. Ela tinha o resto da noite, e talvez do ano, para descobrir se a realidade era tão boa quanto a frequência daquela voz. A tempestade continuava a castigar Tóquio, mas agora o sinal estava, finalmente, completo. Não havia estática, não havia tempo limite de moedas, e não havia mais ninguém entre a escritora e o músico.



Janeiro de 2027, um ano depois

Era começo da noite em Baltimore, Jubileu e Brendan, agora namorados (depois de muito brigar com Charlie e implicar com o pequeno Oliver nos passeios em grupo, ele finalmente se declarou), passeavam de mãos dadas pelas ruas gélidas da tarde quando, ao passar por um Coffee Book, um livro em especial, de uma nova autora japonesa, chamou sua atenção. Brendan não era muito de ler romances, mas até ele sentiu uma ponta de curiosidade, incentivando Jub a levá-lo.
— Você vai ler comigo? — Ela o entregou o exemplar e ele se encaminhou ao caixa para pagar.
— E eu tenho escolha? — Ele fingiu, ela emburrou e ele sorriu, exibindo as covinhas salientes. — Vou ler sim. Por alguma razão, parece que esse livro fala sobre a gente.
Os olhos de Jubileu brilharam.
— Eu tive a mesma sensação quando toquei nele!
Brendan teve um pensamento rápido, não aguentou e riu.
— Andamos muito com a Charlie, estamos até tendo as mesmas paranoias!
Jubileu deu um tapa leve em seu peito, repreendendo com o olhar, mas suas feições cederam ao riso também. Brendan esticou a mão para ela, que entrelaçou os dedos aos dele imediatamente.
Brendan tinha o típico jeito mau-humorado e sarcástico, mas Jubileu mentiria se dissesse que ele não a deixava muito feliz. Sorrir com ele era muito fácil, estar com ele era gostoso e leve. Bendito seja o dia que o elevador parou com eles dentro, porque agora ela não precisava mais direcionar olhares furtivos para ele, pois estavam juntos.
— Vamos comprar um lanche e começar esse livro.

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Em Seul, sob o sol gostoso de fim de tarde, sentada sobre a grama verdinha às margens do rio Han, Jihyun sentia a brisa soprar seus cabelos e uma sensação de paz a acometia a cada suspiro satisfeito que saia de seus lábios. Havia uma cesta com as sobras do piquenique que tinha feito com o homem que, com muita paciência, sabedoria, tours furtivos, e principalmente oração, mostrou-a um outro lado da vida — ele ganhou sua confiança, consequentemente seu coração.
Bohyun, deitado com a cabeça em seu colo, recebia um carinho preguiçoso nos cabelos, ele também não poderia estar mais em paz com tudo o que Deus o havia prometido. Ele finalmente podia dormir tranquilo e cuidar melhor de sua mãe, porque investiu suas economias num pequeno restaurante prestes a fechar e, para a glória de Deus, agora estava abrindo mais três. Bohyun se tornou dono de uma franquia que cresceria cada dia mais.
Ele pegou a mão livre de Jihyun e beijou com carinho justamente onde a aliança de noivado repousava; se casariam em dois meses — com direito a lua de mel no Japão, mas essa parte era uma surpresa para ela. Ele era o seu Boaz, e ela havia se tornado uma Rute, porque passou a crer também.
Estavam em bonança, mas sabiam que as tempestades iriam chegar em algum momento. Todavia, estavam prontos para enfrentar o que fosse juntos, porque um cordão de três dobras é mais resistente que o de duas.

.❅.❅.


A livraria Kotoba estava diferente naquela noite. O cheiro habitual de café e papel velho fora levemente mascarado pelo perfume de lírios brancos e pelo aroma de suco barato servido em copos de papel. Havia uma fila que serpenteava entre as estantes de poesia e se perdia perto da seção de música.
Minami estava sentada atrás de uma pequena mesa de carvalho, com a coluna tão ereta que chegava a doer. Ela usava o casaco vermelho — o original, aquele que ficou jogado no chão do apartamento um ano atrás. À sua frente, uma pilha de livros com capas foscas exibia o título em letras prateadas:

大晦日と年越しの間に: 雪の周波数
Ōmisoka to Toshikoshi no Aida ni: Yuki no Shūhasū
(Entre a Véspera e a Virada: A Frequência da Neve).


Sua mão direita latejava. Ela já havia assinado mais de cinquenta exemplares, mas cada vez que abria a primeira página e via seu nome Hamabe Minami impresso abaixo do título, sentia um pequeno choque elétrico na ponta dos dedos.
— Para quem eu dedico este? — ela perguntou, sem levantar os olhos, focada em manter a caligrafia legível.
— Para alguém que ainda não aprendeu a não comer salgadinhos de procedência duvidosa — respondeu uma voz grave, vinda logo à frente.
Minami parou a caneta no ar. O sorriso que surgiu em seu rosto foi automático, um reflexo condicionado que nenhuma etiqueta de lançamento poderia conter. Ela levantou o olhar e encontrou Kento. Ele não estava na fila, é claro; ele estava ali o tempo todo, mas agora se aproximou para a "formalidade". Ele usava um suéter escuro e carregava um par de fones de ouvido profissionais pendurados no pescoço.
— Sinto muito, senhor — ela brincou, retomando o movimento da caneta. — Eu não assino livros para pessoas com gostos culinários tão deploráveis.
Kento inclinou-se sobre a mesa, apoiando os braços na madeira. Ao lado dele, havia um pequeno totem com um QR Code que ele mesmo ajudou a instalar. Quem escaneasse o código podia ouvir uma "paisagem sonora" exclusiva enquanto lia o livro: o som do vento em Setagaya, o tilintar das moedas num telefone público e, no final de tudo, o som quase imperceptível de um gato espirrando.
— Os leitores estão adorando o áudio — sussurrou ele, os olhos brilhando. — Ouvi uma menina dizer que chorou na parte do "pinguim" porque o som do telefone caindo parecia "o fim do mundo".
— E foi — Minami murmurou, entregando o livro assinado para a próxima pessoa na fila, mas mantendo o contato visual com Kento por um segundo a mais. — Foi o som do meu mundo quebrando.
O evento seguiu por mais uma hora. Minami ouviu histórias de estranhos que também tiveram linhas cruzadas, de pessoas que se sentiam sozinhas na multidão de Tóquio e de jovens escritores que queriam saber como ela transformara um erro técnico em poesia.
Quando a última pessoa saiu e as luzes da livraria foram parcialmente apagadas, restando apenas o brilho âmbar das lâmpadas de leitura, o silêncio finalmente se instalou. Mas não era um silêncio vazio. Era o silêncio de uma obra concluída.
Kento aproximou-se dela com duas latas de café. Ele as entregou com um sorriso torto.
— Estão quentes. Eu verifiquei antes de comprar.
Minami segurou a lata, sentindo o calor penetrar em suas mãos cansadas.
— Lembra quando a gente achava que nunca ia saber o rosto um do outro?
— Eu lembro de ter medo de você ser uma inteligência artificial muito avançada — Kento riu, sentando-se no mureto da janela ao lado dela. — Ou uma assombração de Kyoto.
— E eu tinha medo de você ser um cara de quarenta anos que odiava música. — Ela encostou a cabeça no ombro dele. — Sabe, Kento... às vezes eu ainda olho para o telefone fixo lá em casa e espero ouvir aquele chiado. Só para ter certeza de que tudo isso não foi um sonho causado pela falta de sono daquela virada.
Kento deixou a lata de lado e passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para mais perto. O casaco vermelho dela roçou no moletom dele, um som suave de tecido contra tecido que ele provavelmente adoraria gravar.
— O chiado era só o rádio — ele disse, suavemente. — O que importa agora é a música.
Ele tirou os fones do pescoço e colocou um dos lados no ouvido de Minami, mantendo o outro para si. Ele apertou o play em um pequeno gravador de bolso.
Não era música comercial. Era o som da livraria vazia, captado minutos antes: o barulho da caneta dela no papel, o riso dela ao falar com um fã, e o som da chuva que começava a bater no vidro lá fora. No meio de tudo, ele havia mixado a voz dela, daquela primeira noite: "Meu nome é Minami".
Minami fechou os olhos, sentindo as lágrimas de gratidão arderem. Ela não era mais apenas uma revisora de textos escondida sob um kotatsu. Ela era a mulher que encontrou sua voz e o homem que soube ouvi-la.
Lá fora, a noite de Tóquio continuava seu ritmo frenético, bilhões de conexões digitais cruzando o ar a cada segundo. Mas ali, entre prateleiras de livros e cafés quentes, duas frequências haviam se encontrado permanentemente. E, pela primeira vez na vida, Minami não precisava revisar nenhuma palavra. A história estava perfeita exatamente como estava escrita.
— Vamos para casa? — Kento perguntou, guardando o gravador.
— Vamos — ela respondeu, fechando o seu próprio exemplar do livro. — Tenho uma ideia para um novo livro. Mas esse a gente vai ter que escrever sem telefone.
Eles saíram da livraria de mãos dadas, atravessando a garoa fina de Tóquio. No bolso de Minami, o celular estava no modo silencioso. Ela não precisava mais de sinais distantes. A conexão mais importante da sua vida estava bem ali, caminhando ao seu lado, ao alcance de um toque.


FIM


Nota da autora: Obrigada a todos que chegaram até aqui. Alguns vão se agradar, já outros nem tanto, e tudo bem. O que vale é a experiência, inclusive para mim. Foi gostosinho demais escrever essa antologia, que é um mix de 3 Enredos Cósmicos da Expedição de Fim de Ano, aqui do site. Não sei se agradei a quem os doou, mas agradeço pela permissão. Quero agradecer a Ste (Saturno) pelo carinho com minha história, mesmo não sendo a vibe dela 💜 (Ste, você é uma scribe maravilhosa, obrigada!) e a Jess A. pela arte linda, obrigada querida 💜. Deus é bom o tempo todo, o tempo todo Deus é bom. Beijão, até a próxima!

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Nota da Saturno: Imagina, meu amor! Foi um prazer codificar essa história incrível. E que venham muitas mais. ♥

Se você encontrou algum erro de codificação, entre em contato por aqui.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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