Revisada por: Sagitário
Última Atualização: Julho/2025Mas a paz não durou.
Quando os mortais descobriram o poder dos Corações, a ambição se infiltrou em seus corações. Guerras devastaram o mundo, e os elementos, antes unidos, se voltaram uns contra os outros. Para evitar a destruição total, os guardiões selaram os Corações, escondendo-os nos confins de cada reino. A unidade foi perdida, e Eryndor se fragmentou em quatro nações, cada uma guiada por sua própria força elementar e governante.
Os antigos sabiam que a única maneira de restaurar o equilíbrio era cumprir uma profecia, uma antiga visão guardada nos livros esquecidos.
Agora, sinais do desequilíbrio começam a surgir. Os mares do Reino da Água estão mais violentos. Os ventos do Reino do Ar trazem sussurros de mudanças. Os vulcões do Reino do Fogo rugem em inquietação. E as florestas do Reino da Terra se enchem de sombras.
Em uma aldeia pacata nos limites da floresta, uma jovem chamada Madeline acorda de um sonho estranho e inquietante. Nele, uma luz dourada brilha intensamente no centro de Eryndor, cercada por criaturas majestosas. Uma voz ecoa em sua mente:
Eryndor está à beira de uma nova era, mas será de união ou destruição?
Maddie se encontrava nos campos, o sol pintando seus cabelos castanho-escuros com reflexos dourados. Ela tinha 19 anos, os olhos verdes como as esmeraldas que, segundo as histórias, eram enterradas nas profundezas da terra. Sua pele, marcada pelo trabalho ao ar livre, era tão firme quanto sua determinação. Embora Druantia fosse um lugar pacato, ela nunca se sentiu parte dele. Havia algo que sempre parecia chamá-la para além das montanhas, para os reinos que apenas ouvira falar nas histórias de sua avó.
Naquela tarde, porém, Madeline não pensava em nada tão grandioso. Trazia uma cesta trançada de junco, cheia de frutas silvestres que colhera pela manhã, e seguia pelo estreito caminho de terra batida que levava até sua casa, na beira da vila. O vento balançava suavemente sua saia simples de algodão, e os pássaros chilreavam entre os galhos grossos das árvores, como se anunciassem o fim do dia.
À sua espera, na pequena cabana de madeira, estava sua mãe, Thalia, uma mulher de semblante calmo, cabelos escuros já marcados por alguns fios brancos, que exalava doçura, embora tivesse a força de quem sempre cuidou da família sem reclamar. Thalia sorria ao ver a filha chegar, secando as mãos no avental florido.
— Conseguiu muitas amoras hoje, querida? — perguntou, aproximando-se para ajudá-la com a cesta.
— Bastante, mãe. O bosque está cheio delas este ano — respondeu Maddie, entregando a cesta. — Vou guardar o cavalo antes que anoiteça.
Torik, o velho cavalo castanho da família, pastava tranquilo ao lado do cercado. A garota afagou seu pescoço antes de levá-lo ao pequeno estábulo de madeira, onde depositou feno fresco e trocou a água do balde. Movimentos que já faziam parte de sua rotina, quase automáticos, mas que ela realizava com cuidado, respeitando cada animal como se fosse um velho amigo.
De volta à casa, encontrou os irmãos sentados perto da lareira: Darin, de 14 anos, sempre curioso e falante, entretido afiando um pequeno canivete; Myrna, de apenas 10 anos, brincando com retalhos de tecido; e o pequeno Jace, de 7, segurando um pedaço de pão quase maior que ele. O pai, Harrin, retornara dos campos de trigo havia pouco, com as botas ainda sujas de terra, mas o olhar satisfeito de quem se orgulhava de seu trabalho honesto.
A cabana era simples, com paredes de tábuas envelhecidas e janelas pequenas que deixavam entrar a luz suave do entardecer. O cheiro do ensopado que borbulhava sobre o fogo enchia o ambiente de aconchego, enquanto Thalia ajeitava a mesa de madeira, gasta pelo uso, mas sempre limpa.
— Filha, pode buscar mais lenha? — pediu Harrin, mexendo o caldo no caldeirão.
Ela concordou, calçando rapidamente as botas de couro que estavam ao lado da porta. O bosque era tão familiar para ela quanto sua própria casa. Caminhou entre as árvores, ouvindo o ranger suave das folhas, apanhando alguns galhos secos para a lareira. Um coelho atravessou o caminho, saltitando rápido, e Madeline sorriu, apreciando aquele instante de paz que Eryndor lhe oferecia.
Ao voltar, ajudou a mãe a servir a refeição. A família se reunia ao redor da mesa de forma simples, mas calorosa, cada um contando sobre o dia: Jace se gabava de ter aprendido a fazer contas, Myrna mostrava um bordado mal acabado, e Darin falava empolgado sobre o sonho de caçar um veado na próxima estação. Harrin ouvia a todos com atenção, orgulhoso dos filhos.
Maddie, enquanto comia seu pedaço de pão e o caldo fumegante, sentia-se grata por aquela rotina. Por mais que às vezes desejasse aventuras além das fronteiras da aldeia, no fundo amava o calor daquele lar, o som da risada de seus irmãos, o olhar tranquilo dos pais.
Depois do jantar, ajudou a mãe a lavar as vasilhas na pequena bacia de pedra do lado de fora. O céu agora se enchia de estrelas, e a lua surgia clara, banhando a vila com sua luz prateada. Ela respirou fundo, admirando o brilho suave no lago próximo à vila, onde, às vezes, ela gostava de se sentar para sonhar.
Torik relinchou suavemente no estábulo, como se a chamasse, e a jovem caminhou até lá para conferir se estava tudo certo. Fez um carinho na testa do animal, sussurrando-lhe palavras de calma, e depois voltou para dentro, onde Myrna já cochilava enrolada num cobertor.
Quando chegou seu momento de deitar, ela estendeu-se sobre a cama simples de palha coberta por uma manta de lã, ouvindo o som familiar do vento soprando pelas frestas da janela. O sono demorou a vir, pois sua mente vagueava para além das colinas, imaginando o que haveria do outro lado do mundo que sempre lhe fora negado.
Mas, por ora, era apenas Madeline, uma jovem comum, sem nenhuma pista de que o destino, lá na frente, cobraria dela muito mais do que uma vida tranquila.
Thalia já estava de pé, retirando pães quentinhos do forno a lenha, e sorriu ao ver a filha chegar com os cabelos ainda soltos e os olhos sonolentos.
— Dormiu bem? — perguntou a mãe, estendendo-lhe um pãozinho quente.
— Dormi — respondeu, mordendo o pão e sentindo a manteiga derreter na boca. — E sonhei outra vez com o lago.
Thalia arqueou uma sobrancelha, curiosa. — O lago?
— Sim… eu estava lá, mas era diferente, como se estivesse vivo. Como se me chamasse — disse Maddie, meio envergonhada.
A mãe acariciou seus cabelos. — Você sempre teve uma imaginação fértil, filha. É bom sonhar — comentou, e voltou ao trabalho.
A garota terminou de comer e saiu para ajudar o pai no campo de trigo. O orvalho ainda brilhava sobre as espigas douradas, e Harrin já trabalhava desde antes do sol nascer, arrancando ervas daninhas e checando se havia pragas. O cheiro de terra úmida era forte, quase revigorante.
— Pode pegar a foice? — pediu Harrin, enxugando o suor da testa.
Ela apanhou a ferramenta junto ao velho celeiro e começou a ajudar a cortar algumas partes do trigo já amadurecidas. O trabalho era pesado, mas Madeline tinha força nos braços e não reclamava. Enquanto trabalhava, Darin apareceu, animado, trazendo um arco improvisado de galho torto e uma flecha de madeira bruta.
— Olha só o que eu fiz! — disse o irmão, orgulhoso.
— Vai acabar acertando o pé de alguém — riu ela, balançando a cabeça.
— Eu vou ser caçador de verdade, você vai ver — disse ele, disparando a flecha em direção a um alvo improvisado, que falhou miseravelmente em acertar.
O pai apenas riu, balançando a cabeça, e seguiu o trabalho. Era uma manhã comum em Valmera, marcada por risadas, suor e o tilintar das ferramentas.
Quando o sol estava alto, Thalia chegou trazendo água fresca e pedaços de queijo embrulhados num pano de linho. Todos sentaram sob a sombra de um grande carvalho para fazer a pausa do almoço. Jace, o menor, brincava de perseguir gafanhotos, enquanto Myrna tentava ensinar-lhe a contar até dez.
Maddie observava a família com um sorriso, sentindo no peito a serenidade daquele momento. Era simples, mas era o que ela conhecia, e isso bastava.
Após ajudar a recolher os feixes de trigo, ela ganhou o resto da tarde livre. Montou em Torik, o cavalo velho, mas ainda forte, e decidiu cavalgar pelas colinas que circundavam Druantia. O vento batia em seu rosto, trazendo cheiro de flores do campo e resina de pinheiro. À medida que galopava, sentia o coração leve, como se pudesse voar dali para bem longe.
Chegou até o lago que ficava a menos de uma hora da vila. A superfície da água reluzia como espelho, refletindo nuvens brancas e o céu azul profundo. Ela desmontou, sentando-se sobre uma pedra grande, mergulhando os pés descalços na água fresca.
Ali, gostava de pensar em tudo e em nada ao mesmo tempo. Observava libélulas dançando na superfície e peixes saltando. Um sentimento estranho a invadia às vezes, como se aquilo tudo fosse apenas uma parte do que o mundo poderia oferecer.
"E se existisse algo maior?", pensou. Mas logo afastou essa ideia, rindo de si mesma.
Ainda assim, a brisa pareceu sussurrar em seu ouvido, como se a água murmurasse palavras antigas que ela não conseguia compreender.
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o lago de laranja e rosa, a garota voltou para casa. Encontrou a família reunida outra vez ao redor da mesa, rindo de uma piada boba contada por Darin. A pequena Myrna cochilava no colo da mãe, e Jace estava com a boca lambuzada de mel.
Harrin ergueu o olhar para a filha, satisfeito por vê-la retornar antes do anoitecer. — Boa cavalgada?
— Sempre é — disse, sorrindo.
Depois do jantar, sentaram-se todos ao redor do fogo, enquanto Thalia contava histórias antigas, como fazia desde que eram pequenos. Falou sobre reis distantes, criaturas místicas que viviam nos mares e nos céus, e sobre magias que podiam mover montanhas.
Madeline ouvia fascinada, ainda que não acreditasse em tudo. Mas aquelas histórias sempre faziam seu coração bater mais forte. Era como se, em algum canto profundo de si mesma, ela soubesse que o destino poderia ser muito maior do que a pacata vida que levava.
Quando se deitou naquela noite, o vento soprava suave pela janela de madeira, e a lua cheia iluminava seu rosto. Fechou os olhos, abraçada ao travesseiro simples de palha, sem imaginar que em breve aquela tranquilidade seria despedaçada, e que seu nome ecoaria muito além de Druantia.
Vestiu seu vestido simples, azul desbotado, e trançou os cabelos com cuidado, como sua mãe sempre lhe ensinara. Enquanto calçava os sapatos gastos, ouviu o riso de Myrna lá fora, correndo com Darin e Jace, que brincavam de perseguir galinhas no quintal.
Antes de descer, ela parou diante de um pequeno espelho de bronze, observando o próprio reflexo. O verde intenso de seus olhos sempre lhe chamava a atenção — herdado da avó, diziam — e às vezes se perguntava se havia algo diferente neles. Mas logo espantava esses pensamentos, pois o dia a esperava.
Na cozinha, Thalia já estava atarefada preparando tortas de maçã para vender na feira do vilarejo. A mulher tinha as mãos ágeis, e a jovem gostava de ajudá-la, espalhando canela e açúcar sobre as fatias de fruta.
— Hoje vai encontrar o Senhor Abel, não é? — perguntou a mãe, referindo-se ao padeiro local.
— Sim — disse Madeline. — Ele pediu para ver se consigo umas frutas frescas para as fornadas dele.
— Então leve algumas das amoras que sobraram — sugeriu Thalia, entregando-lhe um cestinho.
A garota saiu carregando as frutas pela vila, sentindo o ar fresco e ouvindo o burburinho das pessoas acordando para mais um dia de trabalho. O pequeno mercado se erguia no centro da aldeia, com barracas improvisadas de madeira e lona, cheias de legumes, queijos e tecidos.
No caminho, cumprimentou algumas figuras que faziam parte de sua rotina: Mirna, a costureira de mãos calejadas, que a presenteava com retalhos coloridos. Thalion, o pastor de ovelhas, sempre gentil e contando piadas sem graça. Ari, a jovem aprendiz de ervas, que sonhava em viajar para a capital e aprender magia de cura.
Essas pessoas formavam a essência de Druantia, com suas pequenas alegrias e grandes preocupações.
Quando chegou à banca do Senhor Abel, o homem — gorducho, bochechas rosadas e sempre com farinha nos cabelos — saudou-a com um sorriso largo.
— Maddie, minha flor, trouxe o que pedi?
— Amorinhas frescas — disse ela, entregando o cesto.
— Maravilha! Vou fazer tortas tão boas que até os deuses vão querer provar — brincou ele, e piscou um olho.
Enquanto pesava as frutas, Abel comentou, abaixando a voz:
— Soube que a colheita de trigo está atrasada no norte. Dizem que a terra anda estranha, mais seca do que devia.
Ela franziu o cenho. — Estranha como?
— As plantações murchando sem razão. Mas vão resolver, com certeza. Não se preocupe, menina — disse, mudando logo de assunto.
Madeline se despediu, mas a conversa ficou rondando sua mente. Ela se forçou a esquecer, focando no restante do mercado: comprou agulhas para a mãe, trocou algumas flores por um pedaço de tecido para Myrna, e ainda parou para ouvir Ari contar sobre novas ervas medicinais que andava testando.
No fim da manhã, voltou para casa, ajudou a mãe a preparar o almoço e depois foi com Darin buscar lenha no bosque. Os dois irmãos caminhavam lado a lado, rindo das histórias exageradas de Darin, que insistia que vira um cervo “do tamanho de um urso” na última caçada.
Maddie escutava com paciência. Gostava do irmão, apesar de seu jeito meio metido. Enquanto colhia gravetos, reparou no canto suave de pássaros e na brisa cheirando a pinheiro, tão reconfortante que quase a fazia esquecer qualquer preocupação.
De repente, encontraram Vincent, um jovem vizinho de cabelos castanhos claros e sorriso tímido, que trazia algumas redes de pesca nas costas. Vince era gentil, e sempre a olhava de um jeito diferente, embora jamais tivesse coragem de dizer algo.
— Bom dia, Maddie — cumprimentou, ajeitando a alça da rede no ombro. — Quer ajuda para carregar a lenha?
— Obrigada, Vince, mas acho que conseguimos — respondeu ela, sorrindo.
— Se mudar de ideia, estarei perto do lago — disse ele, antes de seguir seu caminho.
Darin lançou à irmã um olhar maroto, dando uma cotovelada divertida. — Ele gosta de você.
— Não comece — retrucou, rindo.
Quando voltaram para casa, encontraram Thalia costurando e Harrin ajeitando algumas ferramentas quebradas. O entardecer chegou rápido, tingindo o céu de tons alaranjados. Depois da janta, a família se reuniu junto ao fogo outra vez, e Maddie ajudou Myrna a aprender novos pontos de bordado, enquanto Darin recitava de cor antigas adivinhações que ouvira de viajantes na feira.
Thalia, sempre com um ar sonhador, começou a contar outra de suas histórias favoritas, falando de dragões e fadas, de reinos distantes governados por reis de fogo e rainhas de ar. O olhar da jovem garota se acendeu, como sempre, absorvendo cada palavra.
"Se existissem mesmo… como seriam?", pensou, mas logo afastou a ideia.
Lá fora, o vento começava a uivar levemente, balançando a copa das árvores. Havia algo diferente naquela noite, uma quietude estranha que Madeline não conseguia explicar.
Mesmo assim, se recolheu cedo, cobrindo-se com a velha manta bordada pela mãe. Seus olhos pesavam de cansaço, mas no fundo de sua mente, os contos de magia e aventura pareciam mais vivos do que nunca.
Sem saber, ela já estava destinada a descobrir um mundo muito maior do que poderia imaginar.
Enquanto amassava a massa macia com as mãos fortes de quem já aprendera a lidar com a dureza da vida no campo, sentia o cheiro do fermento se misturar ao calor da lenha. Thalia a observava com orgulho, corrigindo pequenos detalhes aqui e ali, como a quantidade de sal ou o cuidado ao apertar as bordas dos pães.
— Você leva jeito, Madeline — comentou a mãe, sorrindo. — Se um dia quiser abrir sua própria tenda de pães, já saberá como.
Ela riu, balançando a cabeça. — Acho que prefiro cuidar do campo… ou quem sabe dos animais.
— E talvez viajar um pouco — completou a mãe, lançando-lhe um olhar de quem percebia mais do que dizia.
Maddie não respondeu. Viajar… era um sonho tão distante quanto os contos de fadas da lareira. Mas algo em seu peito sempre pulsava quando escutava histórias de terras além das montanhas.
Após o forno liberar seu aroma irresistível, a garota e seu pai carregaram os pães e algumas compotas de frutas no velho carro de boi, junto com outros produtos para trocar no mercado. Myrna insistiu em ir junto, animada por ver movimento além da pequena Druantia.
O caminho até a vila maior era uma estrada de terra estreita, ladeada por colinas verdejantes e bosques de carvalhos centenários. Madeline sentia o vento bater no rosto, brincando com os fios de cabelo soltos, enquanto escutava as rodas do carro de boi rangendo ritmadas.
Pelo caminho, cruzaram com Jorah, o ferreiro da região, levando peças de arado recém-reparadas, e com Nella, uma pastora de cabras que contava histórias sobre lobos rondando as montanhas — histórias que faziam a irmã da garota arregalar os olhos de medo e fascínio.
Ao chegarem à vila maior, o movimento era intenso: homens descarregando sacos de cereais, mulheres vendendo flores frescas, crianças correndo com pães nas mãos. O som de martelos, risos e vozes em discussão preenchia o ar. Maddie adorava aquela confusão, pois era seu único vislumbre de algo maior do que Druantia.
Ela ajudou a montar a barraca ao lado de Harrin, ajeitando com cuidado os pães e potes de compota, enquanto Myrna observava tudo com olhos curiosos, fascinada pelo colorido do mercado.
Enquanto servia alguns fregueses, Madeline percebeu um jovem estranho parado a certa distância. Tinha a aparência de forasteiro: roupas um pouco gastas pelo sol, cabelos castanhos longos presos num laço de couro, e um colar com pingente em forma de folha. Parecia observar tudo com atenção exagerada, como se avaliasse cada detalhe do mercado.
Por um momento, ela sentiu calafrios, mas logo desviou o olhar, ocupada atendendo um velho que comprava seis pães de uma vez.
Mais tarde, quando já recolhiam as sobras para voltar para casa, o forasteiro aproximou-se. Maddie conteve o impulso de se afastar. Ele sorriu de forma amistosa.
— Desculpe interromper, moça — disse, a voz grave, mas gentil. — Este pão é de vocês?
— É, sim — respondeu, um pouco desconfiada.
— Vou levar um. E… — ele a fitou por um instante, como se ponderasse —… vocês têm ouvido falar de tremores, ou da terra ficando mais seca do que devia?
A pergunta pegou a jovem de surpresa. — Tremores? Não… por quê?
O homem assentiu, mas parecia insatisfeito. — Apenas curioso. Coisas estranhas estão acontecendo em algumas aldeias do sul. Melhor tomarem cuidado.
Sem dizer mais, pagou pelo pão e se afastou, misturando-se na multidão. Madeline ficou olhando para onde ele desaparecera, sentindo uma pontada de inquietação no peito, embora tentasse ignorar.
Na volta para a vila, o sol já caía atrás das colinas, tingindo a estrada de tons alaranjados. Myrna cochilava no carro de boi, abraçada a uma boneca nova que ganhara de presente. Harrin conversava com Maddie sobre a próxima safra de trigo, e a jovem tentava manter a atenção, mas as palavras do forasteiro não saíam de sua mente.
— Tremores? — murmurou baixinho, olhando a terra firme sob seus pés.
Naquela noite, ajudou a descarregar tudo, guardou as sobras na dispensa e depois sentou-se ao lado da mãe para costurar algumas remendas nas roupas da família. Enquanto puxava a linha pelo tecido, escutava Jace contar histórias de monstros inventados, rindo com a inocência infantil dele.
A casa estava aquecida pelo fogo, as vozes misturadas em harmonia, como uma canção antiga que sempre se repetia. Era uma vida simples, mas segura, e ela valorizava cada momento.
Quando foi dormir, olhou mais uma vez para fora pela pequena janela, onde a lua alta iluminava a relva. Um vento gelado sacudiu as folhas do carvalho, e sentiu algo diferente — como se o ar estivesse carregado de um aviso silencioso.
Ela se encolheu sob as cobertas, tentando afastar aquela sensação estranha. Ainda não sabia que em breve o mundo que tanto conhecia mudaria para sempre.
Numa manhã especialmente quente, ela acordou antes de todos. O sol ainda surgia no horizonte, pintando de ouro as nuvens baixas. Ela decidiu caminhar até o lago, em busca de alguns momentos de paz antes que as tarefas começassem.
O lago, como sempre, era um espelho perfeito. Maddie se aproximou, sentindo a brisa suave no rosto, e ficou ali, apenas observando a água. Mas dessa vez, algo parecia diferente. A superfície tremeluzia de maneira estranha, como se pequenas ondas dançassem sem vento algum.
Ela se ajoelhou, tocando a água com a ponta dos dedos — e sentiu uma vibração leve, quase como um sussurro que passasse por dentro dela. Era tão suave que pensou ter imaginado, mas ainda assim um calafrio subiu por sua espinha.
"Madeline..."
A jovem se sobressaltou, olhando ao redor. Nenhuma alma viva. O som tinha sido real? Parecera tão próximo, tão familiar. Ela franziu o cenho, tentando entender, mas logo afastou a sensação com uma risada nervosa.
— Você está ficando maluca — murmurou para si mesma, enxugando as mãos na barra do vestido.
No mesmo dia, Druantia estava agitada. Seria realizada a celebração anual da colheita, um dos eventos mais importantes para a vila, quando todos se reuniam para agradecer à terra pelos frutos e pelo alimento.
Maddie ajudou a enfeitar a praça com flores e fitas coloridas, junto de Ari, a aprendiz de ervas. Ari trazia pequenos saquinhos cheios de pétalas secas perfumadas, que distribuía às crianças para jogar ao vento durante as danças.
— Este ano vai ser ainda mais bonito — disse Ari, sorridente. — Os anciãos vão escolher a donzela da colheita. Quem sabe seja você?
— Eu? — Ela riu, corando. — Duvido muito.
Mas Ari piscou para ela, divertida. — Você é a menina mais bonita de Druantia, Maddie.
A conversa foi interrompida quando o sino da capela tocou, chamando todos para o início da celebração. Mesas compridas foram dispostas na praça, cheias de pães, tortas, queijos e frutas. As crianças corriam de um lado para o outro, rindo alto, e músicos da vila afinavam instrumentos simples de cordas.
Ela se sentiu feliz, misturada ao calor das pessoas que conhecia desde sempre. Dançou com Darin e Myrna, rodopiando até ficar tonta, e depois ajudou a servir vinho para os adultos, ouvindo as histórias antigas dos mais velhos.
Mas, no meio de toda a alegria, não conseguiu esquecer a sensação estranha no lago naquela manhã. Às vezes, parecia sentir um arrepio, como se olhos invisíveis a observassem entre a multidão.
Já era noite quando a celebração terminou. Madeline ajudava a arrumar as mesas, recolhendo pratos e copos, quando percebeu alguém parado perto do carvalho sagrado, à margem da praça.
Um homem, envolto num manto escuro, capuz cobrindo parte do rosto. Ele observava as pessoas em silêncio, quase imóvel, como uma estátua. Quando ela olhou diretamente para ele, sentiu um calafrio — o mesmo que sentira no lago.
O homem pareceu notar o olhar dela e inclinou a cabeça levemente, como em um cumprimento silencioso, antes de se afastar entre as sombras das casas.
— Quem era aquele? — sussurrou para si mesma, assustada.
Não teve resposta. Mas algo dentro dela dizia que não era a última vez que veria aquele forasteiro misterioso.
Naquela noite, o cansaço venceu rápido, e a garota caiu no sono profundo. Mas os sonhos vieram cheios de cores e sons estranhos: uma luz intensa, criaturas aladas sobrevoando torres altíssimas, e, no meio disso tudo, uma voz ecoando:
"Quando a terra tremer, você saberá..."
Maddie acordou ofegante, ainda com a voz ressoando em seus ouvidos, tão nítida que sentiu o coração disparar.
"O que significa isso?", pensou, olhando para o teto escuro de seu quarto.
Respirou fundo, tentando se acalmar, mas o pressentimento de que algo estava mudando não a deixou dormir novamente.
Ela procurava distrair a mente ajudando a mãe a costurar, varrendo a casa, cuidando das galinhas, mas sempre que ficava sozinha, aquela voz sussurrada voltava:
"Quando a terra tremer, você saberá..."
No fim de uma tarde quente, decidiu ir até o bosque buscar ervas medicinais para Ari, que ficara sem lavanda para suas infusões. Andou por uma trilha antiga, ladeada por carvalhos retorcidos, respirando o cheiro de folhas secas.
Ali, parecia haver mais silêncio do que o normal. Nenhum pássaro cantava. Ela sentiu a pele arrepiar, mas continuou andando, tentando ignorar o incômodo. Quando se abaixou para colher um punhado de flores roxas, ouviu algo.
Um som profundo, vindo do interior da terra. Como um estalo abafado, ecoando pelas raízes.
Maddie congelou, sentindo o solo tremer sob seus pés. Foi tão rápido que quase duvidou — mas não era imaginação. O chão realmente pulsara, como se respirasse.
Assustada, recuou alguns passos, o coração disparado. O eco do sussurro que ouvira nos sonhos ressoou de novo em sua mente:
"Quando a terra tremer..."
Ela largou as flores e correu de volta para a vila.
Ao chegar em Druantia, encontrou Ari na porta da casa dela, colhendo algumas flores.
— Você também sentiu? — perguntou Maddie.
Ari a olhou, tentando descobrir do que a amiga estava falando. — Senti o quê?
— O tremor. Foi tão rápido… mas eu estava recolhendo água no poço e senti.
As duas trocaram um olhar inquieto. Valmera nunca tivera tremores. O solo sempre fora firme, estável.
— Do que você está falando?
Então foi ali que Madeline percebeu. Ari não havia sentido ou percebido nada, apenas ela. Então apenas balançou a cabeça e ambas foram terminar as porções medicinais.
Naquela noite, Madeline dormiu mal. Sonhou com o lago, mas ele estava negro como tinta, engolindo a luz do sol. Vozes ecoavam da água, chamando seu nome:
"Maddie… acorde… Maddie…”
Ela se remexeu no leito, acordando suada e ofegante. O luar entrava pela janela, prateado e silencioso, mas a paz que sentira tantos anos antes parecia ter se partido.
"Por que eu? O que significa tudo isso?", pensou, abraçando o travesseiro.
Mas não havia resposta.
Dois dias depois, enquanto ajudava a mãe a recolher lenha no quintal, Madeline viu ao longe um cavalo preto, majestoso, se aproximando da vila. O cavaleiro usava um manto cinzento e trazia consigo um estandarte com símbolos desconhecidos.
O coração da garota disparou. O mesmo homem do festival.
Ele desmontou, olhando em volta, até encontrá-la. Então caminhou em sua direção com passos firmes.
— Madeline, filha de Harrin?
Ela engoliu em seco. — Sou eu.
— Preciso falar contigo — disse ele, em tom calmo, mas grave. — Há muito mais em você do que imagina.
Maddie arregalou os olhos, o medo e a curiosidade misturando-se como fogo e água dentro de si.
— O que… o que quer dizer com isso?
Ele respirou fundo, abaixando o capuz e revelando um rosto jovem, mas marcado por cicatrizes antigas. Olhos cor de âmbar, penetrantes, brilharam na luz suave do entardecer.
— Chegou a hora de começar a descobrir quem você realmente é.

