Codificada por: Polaris 👩🏻🚀
Última Atualização: 05/10/2025Mais tarde, deitada na cama de costas para o lado vazio – decidira "trabalhar" até tarde, uma desculpa que se tornara frequente –, sentiu o vazio do apartamento ecoar dentro do peito. A beleza suave que a caracterizava estava escondida sob a máscara da decepção. Ela era jovem, cheia de um desejo pulsante por algo mais, por uma conexão que a fizesse sentir viva e vista. Algo que ia além da rotina sufocante e das expectativas frustradas.
Com os olhos inchados e o coração um peso morto no peito, estendeu a mão para o celular na mesa de cabeceira. A tela brilhou no escuro, iluminando seu rosto marcado. Sem pensar, os dedos encontraram o ícone de um jogo online, um mundo de fantasia onde ela não era a esposa invisível de .
Era apenas Himawari, uma guerreira com uma espada. Alguém que, naquele universo pixelado, ainda podia sentir que sua existência importava. Era uma fuga frágil, mas era a única que lhe restava. Ela clicou no ícone, ansiosa pelo barulho das batalhas virtuais, que seriam infinitamente mais silenciosas que a guerra silenciosa em seu próprio lar.
E ali, na penumbra do quarto, permitiu-se existir novamente, mesmo que apenas por alguns minutos. O mundo real podia esperar, pelo menos até o amanhecer.
A porta do apartamento fechou-se com um clique baixo, o som final de mais um dia que não tinha sido bom. tinha saído para “dar uma volta”, o que na linguagem deles significava horas de silêncio e distância. O vazio da sala de estar era palpável, mas já não sentia mais o aperto no peito de antes. Em vez disso, uma familiar sensação de alívio começou a tomar conta. Era a hora dela.
Com movimentos quase automáticos, ela se instalou no cantinho do sofá que havia se tornado seu refúgio, pegou o headset e ligou o console. O mundo real, com seus cheios de tofu frio e silêncios cortantes, foi temporariamente desligado.
A tela do jogo iluminou-se com cores vibrantes, um contraste gritante com a penumbra do apartamento. Dois ícones de amigos já piscavam online.
— Entrando, gente! — ela disse, o sotaque brasileiro tingindo seu inglês, enquanto se conectava ao chat de voz do grupo.
— Finalmente, Himawari! Tava demorando, coração! — veio a voz animada e um pouco aguda de Rafa, o Killer.
— Desculpa, xuxu. O jantar foi… longo — respondeu , já se sentindo um pouco mais leve. No jogo, ela não era a frustrada do casamento. Era Himawari, a suporte estratégica, a que salvava todo mundo no último segundo.
— Tudo bem, meu bem? Tá pronta pra farmar uns itens raros hoje? — era a voz mais calma e profunda de Matheus, o Orion, o tank do grupo.
— Sempre pronta! — ela disse, forçando um entusiasmo que, para sua surpresa, começou a se tornar genuíno. — Mas a gente precisa de mais um. Vamos buscar um random pra fechar o squad?
Os amigos concordaram. Himawari navegou pelo menu e acionou a função de busca por um quarto jogador. A roda girou por alguns segundos até, finalmente, travar em um nome.
Drift entrou no grupo.
— E aí, galera — uma voz disse, clara e descontraída, com um sotaque australiano inconfundível. Era uma voz quente, que soava como um sorriso.
— Oi! — Himawari respondeu, um pouco surpresa pela prontidão. — Iae, Drift. Beleza?
— Tudo top! Vamo botar pra fuder nessa missão? — ele disse, naturalmente, já sincronizando com a energia do grupo.
— É isso que eu gosto de ouvir! — gritou Killer. — Partiu, xuxu!
A missão começou. Eles foram teleportados para um campo de batalha futurista, com ruínas e criaturas mecânicas por todos os lados. A química do trio original era boa, mas Drift… Drift era diferente. Ele não era apenas bom; era intuitivo.
Enquanto Orion atraía a atenção dos inimigos e Killer causava o maior dano possível, Drift parecia sempre estar no lugar certo, na hora certa. E, o mais importante, ele parecia sempre saber onde Himawari estava.
Em uma jogada arriscada, Killer avançou demais e ficou cercado.
— Gente, tô ferrado! — ele gritou.
— Segura, coração! — Himawari correu em sua direção, mas uma horda de inimigos cortou seu caminho.
Ela não precisou dizer nada. Do flanco esquerdo, Drift surgiu como um furacão, usando uma habilidade de área que empurrou todos os inimigos para longe, abrindo um corredor perfeito para ela.
— Go, go, go! Tô de cover! — a voz dele ecoou no headset, calma mas firme.
Himawari correu, curou Killer no último segundo e todos recuaram em segurança.
— CARACA! Drift, você é um monstro, mano! — Killer exaltou-se, ofegante. — Salvou minha pele!
— Tranquilo, bro! Trabalho em equipe, né? — a voz de Drift soou leve, como se não tivesse feito nada demais. — A Himawari é que mandou bem, a cura foi no timing perfeito.
sentiu um calorzinho bobo no rosto. Era um elogio de um estranho em um jogo, mas a forma específica, o reconhecimento da técnica e não apenas do resultado, foi diferente.
— Obrigada — disse, tentando soar despretensiosa. — Você joga muito.
— Ah, obrigado você, Himawari — ele respondeu, e ela pôde ouvir o sorriso na voz dele. — Gosto de jogar com gente que sabe o que está fazendo. É raro.
A missão continuou, e as horas simplesmente voaram. As piadas rolaram soltas. Killer e Orion contavam histórias engraçadas, e Drift se encaixou perfeitamente, com um humor rápido e gentil. Ele ria fácil, uma risada contagiante que fazia Himawari rir também, mesmo de piadas sem graça.
Ela notou que ele a ouvia. De verdade. Quando Orion perguntou sobre seu dia, ela resmungou “ah, complicado”, tentando evitar o assunto.
Foi Drift quem puxou, de forma leve, minutos depois:
— Espero que a parte ‘complicada’ do seu dia tenha ficado pra trás agora, Himawari.
Era uma pequena coisa. Uma ninharia. Mas foi um questionamento. Alguém tinha notado a entonação da sua voz e se importou o suficiente para perguntar, mesmo que de forma indireta. não tinha notado nem o seu cabelo.
Quando a missão finalmente acabou, com uma vitória estrondosa, uma sensação estranha tomou conta de . Era… felicidade. Um contentamento simples e raro que ela não sentia há tempos.
— Gente, preciso sair. Amanhã trabalho cedo — disse Orion.
— Eu também, meu bem — Himawari concordou, com um suspiro de pesar.
— Foi incrível, galera! Drift, você é demais! Vamos fechar de novo, hein? — Killer quase suplicou.
— Com certeza! Foi muito daora jogar com vocês — a voz de Drift soou genuinamente animada. — Principalmente você, Himawari. Joga pra caramba. Até a próxima!
— Até, Drift — ela disse, o nickname soando estranhamente familiar em sua boca agora. — Obrigada pela ajuda hoje.
— Sempre às ordens.
Os ícones de Killer e Orion escureceram. Himawari ficou parada na tela de vitória por um momento, ouvindo o som ambiente do jogo. Ela estava prestes a sair quando a voz dele ecoou novamente, sozinha no chat de voz.
— Hey, Himawari?
O coração dela deu um salto ridículo.
— Hmn?
— É… seu nome de usuário. Himawari. Significa ‘girassol’, né?
ficou boquiaberta. Ninguém nunca tinha notado. Muito menos sabia o significado.
— Sim! Exatamente! Você… você sabe japonês?
— Ah, não, nada assim. Sou produtor musical, acabo me envolvendo com um monte de cultura diferente por causa de samples e tal. Girassol é uma flor bonita. Combina com você.
O mundo exterior, o apartamento silencioso, o marido ausente, tudo desapareceu por um segundo. Tudo o que existia era a tela do jogo e a voz calorosa de um estranho do outro lado do mundo que tinha visto um girassol onde ela só esperava ser invisível.
— Obrigada — ela sussurrou, sem saber mais o que dizer.
— De nada. Tenha uma boa noite, girassol. Até a próxima.
O ícone Drift escureceu.
tirou o headset lentamente. O silêncio do apartamento a atingiu como um choque. Mas era um silêncio diferente. Agora, ele era preenchido pelo eco de uma risada fácil e pelo calor de um elogio que veio de um lugar inesperado.
Pela primeira vez naquela noite, um sorriso verdadeiro, daqueles que tinham o poder de transformar o ambiente, iluminou seu rosto. Ele era só um random, Drift. Mas naquela escuridão, ele tinha sido um clarão de luz.
