Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 30/01/2026— SHELLEY, M. Frankenstein ou o Prometeu Moderno.
• ARQUIVO 107 • 1948.RELATÓRIO FINAL, KRASNYY KUKLA¹, 6.023: (...) nós não tivemos escolha (pausa longa) quando Schmidt decidiu que a melhor linha de ação era o assassinato de Erskine, tivemos certeza de que caminho estaríamos fadados a seguir (pausa longa, seguida de exalo) não havia outra maneira. Com a eliminação do criador, tínhamos um subjeto limitado, só havia um espécime com a fórmula correta, e, é claro, eles não iriam hesitar em protegê-la, nós sabíamos que isso não iria acabar bem (pausa longa). Não tinha como chegar até ele. Com Erskine morto, perdemos a fórmula finalizada, mas a fórmula original ainda estava em mãos de Schmidt, então, focamos nisso (pausa). Nós enviamos Howlett para os fronts, um agente infiltrado, queríamos que ele ficasse de olho no espécime americano, e quando a oportunidade surgisse, ele deveria trazer-nos uma amostra do sangue, nós iríamos analisá-lo e iríamos descobrir o componente chave que permitiu o sucesso (pausa longa seguida de exalo) não precisamos da amostra. Encontramos a resposta em Majdanek².
Havia acabado de chegar uma nova leva de prisioneiros. Os soldados, todos eles, variavam entre 39 anos a 15 anos. Soviéticos, capturados no front Austríaco. Homens e mulheres de Pavlichenko³ (pausa longa seguida de exalo) lembro-me deles, é claro que lembro-me. Estive no processo seletivo, antes da guerra estourar, havíamos pelo menos três remessas por sala de aula de potenciais soldados, mas dois se destacavam. Tão novos, não deveriam ter sequer chegado à maioridade quando foram enviados para o front. Snipers excelentes de ação estavam lá quando enviamos nosso esquadrão de operações (pausa) era sangue [CORTE]
(Exalo longo, seguido de pausa) a chave para estabilizar os componentes que compunham o soro SuperSoldado encontravam-se no sangue de um dos prisioneiros. (Pausa longa) nunca vi algo assim [CORTE] (Tosse) não era nada que já tivéssemos visto antes. Sempre soubemos que essas… coisas poderiam ser criadas. Nós já havíamos tentado anteriormente, mas eram (pausa longa) frágeis demais, não sobreviviam aos segundos testes e, quando muito, se tornavam apenas cascas. Essas… coisas agiam como humanos, pareciam humanos, mas não eram, podíamos sentir, pairava no ar como veneno, nos infectava. (Pausa longa seguida de exalo) a equipe Delta encontrou três, e a Beta dois, nós não sabíamos qual deles poderia ser a criatura em questão, então trouxemos todos. Nunca tivemos interesse nos experimentos de Zola, mas antes que pudéssemos saber que haviam mais prisioneiros sendo testados, os americanos invadiram, tudo tornou-se um caos [CORTE]
(Tosse seguido de inspiro) era uma coisinha ridícula o espécime. Patético e jovem. Sabia seu nome, havia conhecido seu pai, o treinador, sequer contava que fosse digna de atenção. Mas o que podíamos fazer (pausa longa) nós deveríamos ter esperado que seria um desastre. Deus sabe que eu tentei avisá-los! Mas ninguém estava ouvindo. Ninguém se importava. Progresso e ordem, uma resposta comunista para os malditos capitalistas do ocidente (pausa). Dois subjetos morreram na noite que chegaram à base. Estávamos na Sibéria, localização confidencial, mas qualquer idiota sabia que era Minsk. No meio do nada, coberto por árvores e gelo. Era a porra de um sacrifício. As noites pareciam longas demais, os dias não eram suficientes. Vi homens bons morrerem enquanto dormiam durante a vigília noturna. Mas nós precisávamos do gelo. Era isso que mantinha a criatura sob controle (pausa longa). Não foi o frio que matou os subjetos, foi aquela… coisa (pausa longa).
Começou pequeno, 10 dos nossos, dois subjetos, 12 ao total. Essa foi só a primeira noite (tosse seguida de pigarro). A segunda, foram 32. A terceira 65. A quarta foram 298 baixas (pausa longa). Comandei que nossas melhores armas fossem enviadas para conter aquele monstro, mas era impossível matar. Dois soldados, na época de outros projetos, haviam conseguido matar a coisa. Eles cortaram, pedaço por pedaço, e espalharam pela sala. Levaríamos para lugares opostos, na época, havia um certo interesse em encontrar aquelas criaturas vivas. Nós não podíamos deixar que eles soubessem que tínhamos um dos seus. Haveriam respostas, questionamentos, estávamos protegidos, a maioria infiltrada no governo americano, o restante espalhado no mundo, o infestando como veneno. (Pausa longa). O corpo remendou-se sozinho.
O sangue pulsava no ar, girava como flocos de neve, mas não se moviam. Tinham esse… (pausa) esse padrão esquisito, como se estivesse vivo. Era como assistir à atração de dois ímãs, como se aquele… aquela coisa reconhecesse a si mesma (pausa longa) se montou sozinho (pausa longa) em toda minha vida eu (pausa longa seguido de exalo) que Deus nos perdoe pelo o que fizemos aquele dia [CORTE] (barulho de respiração pesada seguido por pausa). Sem a morte, nos restou a única solução viável para lidar com aquela coisa (pausa) nós destruímos sua mente. Pedaço por pedaço. Fragmentamos o consciente, moldamos o inconsciente para que respostas instintivas seguissem nossos comandos, instalamos programações, palavras chaves para que a mente agora fragmentada pudesse compreender apenas o comando. Funcionou durante um tempo (pausa longa seguida de exalo), nós só não esperávamos que a quebra de sua mente criaria o monstro.
(Pausa longa seguida de pigarro) com o projeto Soldado Invernal e a instabilidade do primeiro subjeto, tivemos que construir uma ala abaixo do subsolo dos laboratórios onde as câmaras de criogenia encontravam-se. Nós prendemos o primeiro subjeto do projeto Soldado Invernal na primeira câmara de criogenia, e os subsequentes em uma sala posterior a dele. As câmaras consomem bastante energia. Dentro do gelo, o corpo atrofia, e a passagem de tempo pode causar danos irreversíveis, então esporadicamente os espécimes do projeto eram realocados, reintroduzidos como soldados dormentes na sociedade (pausa longa). Eles sequer saberiam quem de fato eram até que fossem acionados. Nós desconfiávamos que haviam agentes infiltrados nas bases, sabíamos que em algum momento não demorariam para se virarem contra nós (pausa longa). A única base que não esvaziamos foi a da Sibéria. (Pausa longa). Não havia escolha, não podíamos nos dar ao luxo de desligar aquela base, porque (pausa longa) nós prendemos a criatura ali [CORTE]
(Tosse seguida de pigarro) Nós (tosse) nós (tosses) [CORTE] (barulho alto de respiração) não tenho muito mais tempo. Como procedimento padrão, nós éramos envenenados todos os dias, e, ao final de cada dia, o antídoto era oferecido. Era uma maneira de conter o que era feito naqueles laboratórios, dentro do laboratório. Agora que tudo está acabado (tosse), receio que meu sistema não tenha se adaptado à quantidade ingerida. Sei que estou morrendo, mas admito que o faço com egoísmo (tosse seguida por pausa longa), não quero estar em um mundo onde esta verdade venha à tona. Não quero viver em um mundo onde esta criatura esteja viva (pausa), porque ela estará. [CORTE] (chiado alto) preciso que (chiado alto) não a liberte! (tosse) [CORTE] (respiração pesada, sons de engasgo) sei que pode (tosse seguido de pausa) não pode soltar (tosse seguido por chiado) não pode controlar (chiado) [CORTE] gelo corta a (chiado) parasita (tosse) [CORTE]
Krasnyy, Rzhavchina, Mishen’, Sneg, Gorenjy, Farfor, Dublikat, Sderzhivaniye, Granat4 (chiado) Krasnyy, Rzhavchina, Mishen’, (chiado) Sneg, Gorenjy, Farfor, Dublikat, Sderzhivaniye, Granat (chiado) Krasnyy…
A voz desapareceu no segundo que os dedos apertaram com mais força o gravador. Fincaram-se na peça com violência, usando de toda sua força para esmagar seus componentes. Peças se soltaram, caindo no chão como uma pequena chuva superficial, se espalhando pelo assoalho de madeira e a poça escura que se formava causada pelo pingar contínuo do sangue que deslizava pela toalha de mesa. A quebra do gravador foi acompanhada pelo sangue dele, mas não parecia sequer incomodar-se com. O olhar impenetrável permanecia fixo no chão, perdido entre os próprios pensamentos. Reluziram com um brilho esquisito, anormal. As orbes estavam completamente obscurecidas, de um preto pungente, mas as íris cintilavam com um tom vermelho intenso, como sangue. Veias projetavam-se pela pele, pulsando visivelmente.
Deixou o gravador cair no chão, indiferente. O que não havia conseguido quebrar com a mão, quebrou com o contato de sua bota contra o objeto. Caminhou, meio arrastado, pelo espaço por um momento, absorvendo a cozinha. Simples ao olhar, com nada demais, um fogão moderno e uma geladeira de duas portas. Prateleira com pratos e talheres, e uma gaveta cheia de temperos à esquerda. Uma escultura de madeira com o formato de uma ovelha permeada por facas. Fez uma careta pelo mal gosto, caminhando meio cambaleante em direção ao objeto e então retirando um cutelo dali. Girou-o por suas mãos. Por uma fração de segundos, seus olhos registraram, desfocados e erráticos, o rosto que o metal refletiu. Diferente da barba por fazer, o sangue que escorria pelos olhos, os cabelos escuros, e a pele morena, o que surgiu contra o metal da faca era um rosto empalidecido, lábios ressecados, e cabelos de um vermelho escuro, desalinhados pendendo a frente de seu rosto. A imagem sumiu tão rápido quanto apareceu quando ele levou o cutelo para trás e acertou em cheio no pulso esquerdo.
Não houve grito. Não houve dor. Observou, inexpressivo, quando o membro desabou no chão com um baque molhado. Do corte, sangue esvaia-se em demasia, se amontoando aos pés em uma poça, deslizando pelo assoalho como uma corrente de água, delineando as interseções e conexões da madeira, se encontrando com a poça de sangue que se acumulava à mesa de jantar mal posta. Um pulsar pareceu percorrer com o toque dos dois líquidos da mesma matéria. Um vibrar que o fez cristalizar no ar momentaneamente antes de voltar ao normal. Pulsando em um ritmo semelhante ao de um coração. Então algo aconteceu.
O sangue que escorria do corpo que jazia sobre a mesa retrocedeu. Não mais pingava contra o assoalho, se misturando ao do invasor, deslizou pelo ar até onde o buraco de tiro abria-se à testa. Gota por gota, retornou para dentro do corpo, a cor retornando perturbadoramente para a pele outrora necrosada. O processo foi lento, mas, quando acabou, o corpo do invasor desabou contra o chão, inerte, enquanto o do idoso retornou à vida com um arfar audível de dor. Os olhos embaçados piscaram. Por uma fração de segundos, enxergou escuridão, cabos e fios grossos, e um vidro espesso, coberto por gelo. Piscou, e então estava de volta à cozinha. Mais algumas piscadas e sua visão ao menos havia se clareado. O comando de seu corpo estava precarizado, a bala alojada no cérebro impediu sua reconstrução por completo, então a movimentação agora não passava de um arrastar cansado. Observou as próprias mãos, envelhecidas pelo tempo e trêmulas, antes de apoiá-las sobre a mesa, se empurrando para cima com um grunhido.
Arrastou-se, cego, pelo espaço. Esbarrou com cadeiras, quinas e móveis dispostos pelo caminho. Cambaleou, apoiando a mão contra a parede, as unhas fincando-se contra o drywall, tentando guiar-se até o quarto. Lá, empurrou quadros da parede e tirou gavetas do lugar, até que encontrou o cofre escondido na parede. Não sabia a senha, então fincou as unhas ali, a agarrou e puxou com mais e mais força, até que as unhas se quebrassem e sangue escorresse pelas pontas dos dedos. Este pairou pelo ar, pulsando com um ritmo estável, vibrando ao formar pequenas pontas afiadas antes de voltar a seu estado natural. Deslizou pelas trancas, se enroscando contra o metal. Ele se afastou alguns passos quando a vibração pareceu percorrer seu corpo inteiro, ao ritmo de um coração que não lhe pertencia. Pulsou uma vez, então duas, então, na terceira, a porta explodiu. O metal cortou o ar com violência, se enterrando na parede à sua esquerda, decepando parte de seu rosto. Mas não importava.
Cambaleando para frente, alçou de dentro do cofre o que precisava. Não era o dinheiro, tampouco as joias, sequer o brasão com a caveira e tentáculos enterrada ao fundo do baú. Agarrou o pedaço de plástico com cuidado, o girando em seus dedos, limpando com o polegar o sangue que se espalhava ali. O rosto enrugado e os cabelos grisalhos familiares, mas não tanto. As chaves estavam sob a cabeceira da cama. O carro era um chevrolet antiquado, da década de 80, movido a álcool. Levou quarenta minutos para que a ignição funcionasse. Quando deixou a garagem, foi acompanhado pelo o cheiro de etanol queimado.
Dirigiu em uma linha reta o caminho, familiar como sua própria respiração, em direção à usina nuclear abandonada. Quando parou na frente do porteiro, não fez movimento algum, apenas virou o rosto e aguardou que o homem se aproximasse. Não ouviu o ruído alto que o porteiro deixou escapar ao encará-lo, ou como havia agarrado o comunicador pedindo por reforços quase no mesmo segundo, os dedos tornando-se esbranquiçados tamanha força imprimia no gesto. Apenas encarou-o sem vê-lo de fato. Os dedos enrugados, sangrentos, se enroscaram com mais força contra o couro envelhecido do volante. Um pequeno estalo ecoou pelos ouvidos emudecidos enquanto o único olho bom permaneceu fixo no guarda. Um pulso correu por seu corpo inteiro, parecendo ser espelhado pelo do guarda.
O homem, desorientado, pareceu engasgar-se, ao levar as duas mãos em direção à própria garganta. Agarrou-se ali, unhas arranhando e cortando a pele, a rasgando em desespero, enquanto sangue começava a obscurecer e tomar para si as orbes de seus olhos. Gorgolejos desorientados escapavam do fundo da garganta do guarda, se engasgando com o próprio sangue quando escorreu por entre os lábios entreabertos e por entre as narinas. Mais uma pulsação. Mais intensa, mais violenta. O carro só seguiu caminho após o corpo do guarda explodir de dentro para fora. Uma mancha grotesca se formou na parede, pedaços de órgãos e ossos foram arrastados e esmagados pelas rodas do carro, criando uma linha grotesca vermelha sobre o chão empalidecido pela neve.
Desceu do carro ainda em movimento. Ele atingiu uma parede antes de parar. Mancou para dentro da usina abandonada, o cheiro pungente de ferrugem, mofo e poeira espalhava-se pelo ar como uma estática sufocante, as luzes oscilavam irregularmente, mas não fazia diferença alguma. As solas dos sapatos ecoaram pelos corredores vazios, se chocando contra poças de água parada, ao direcionar-se para uma parede ao final do andar. À frente da parede, buscou pela estante correta onde, abaixo do objeto, puxou a alavanca que abriu a porta grossa dos laboratórios no subsolo.
Não usou o elevador, foi de escada. Degrau por degrau, o ar parecia tornar-se mais denso, frio, quanto mais chegava ao seu destino final. Cabos grossos enroscavam-se por entre paredes de cimento queimado, câmaras entreabertas revelavam sangue e marcas de lutas que deveriam ter ocorrido ali. Um pedaço de metal dourado e forjado com a logo Indústrias Stark foi chutado para longe do caminho, ao parar novamente em frente a uma parede qualquer. Desta vez, o que alcançou foi uma caixa de eletricidade, arrancou o painel com toda a força que possuía em suas mãos, derrubando as peças e alguns dedos pelo caminho, antes de alçar um pequeno monitor. Estendeu o chip do cartão, o enfiando por um pequeno buraco para a leitura e liberação, e então afastou-se alguns passos cambaleados, voltando seu rosto na direção de onde a porta grossa com várias camadas de tranca e pressão abriu-se. Desceu os cinco degraus de metal que compunham a passarela que levava para dentro da gaiola e parou na frente do scanner. Ali, se inclinou para frente, em direção da identificação de retina. Por um momento, apenas piscou o único olho, tentando livrar-se do que tingia seus olhos, como o esvair de uma água, o olho preto e vermelho voltou ao normal por uma fração de segundos, revelando o tom prateado para o scanner, antes de voltar a cobri-lo outra vez como uma névoa. Piscou novamente, esperando que a porta interna fosse destravada, mas tudo o que fez foi acionar o alarme.
Inexpressivo, ele encarou o lugar no momento em que a porta que havia passado se fechou com um estalo alto que reverberou pelas paredes e estremeceu o chão. Luzes avermelhadas acenderam-se enquanto os laboratórios entravam em quarentena. Ele tremeu. Um grito inumano escapou de sua garganta, arrebentando o restante de suas cordas vocais, destruindo a traqueia ao avançar em direção ao acesso para a parte inferior da passarela fechada pela porta com tranca de identificação ocular. Acertou com toda a força de seu corpo a porta, mas de nada adiantou. O anúncio de quarentena ecoou alto e ensurdecedor, enquanto os alarmes tornavam-se um ruído contínuo que desaparecia no cenário. Acertou novamente, o sangue explodiu, manchando a porta de metal reforçada. Ele tremeu outra vez. Acertou mais uma vez, e então mais uma, até que ele explodiu.
A chuva de órgãos e estilhaços de ossos que se espalhou pelo espaço não foi acompanhada pelo sangue. Este pairou, pulsando em formas variadas pelo ar, antes de deslizar em direção à porta. Tomou-lhe pelas laterais, pelas frestas e pequenos espaços possíveis, deslizando lentamente, mas, certamente, para dentro da câmara. Mesmo um fino buraco seria o suficiente para que se guiasse em direção ao que desejava. Espiralou pelo ar como um gás perigoso, refletindo a iluminação baixa e ritmada das telas que cintilavam o sistema interno de segurança. Deslizou como uma serpente sobre o termostato da câmara, aos 54 graus abaixo de zero. Levou segundos para que o sangue que pulsava, rastejando e deslizando em direção ao centro da sala, se tornasse igual aos demais. Cresciam e espiralavam pelo ar como galhos, formavam padrões como folhas, e cintilavam individualmente como flocos de neve, cobrindo a sala inteira com o sangue desconhecido. Levou ainda menos para que as últimas gotas a se congelarem pulsassem, girando e se transformando novamente em um fragmento afiado.
Com a velocidade de um disparo, o fragmento de gelo atingiu em cheio o painel de controle da câmara. Foi congelado antes que pudesse infiltrar-se na parafernalha. Algo estranho, todavia, não tardou a acontecer. A gota congelada que recaiu sobre o painel, desta vez, havia conseguido ser rápida o suficiente para que se enroscasse nos teclados, se infiltrando por entre a fiação. A fiação envelhecida pelos anos de uso e a falta de troca dos últimos nove começou a sobreaquecer quando o gelo que envolvia o sangue derreteu sobre eles. Um curto circuito não tardou a pulsar, desligando o painel que sobrecarregou o sistema e travou o termostato. O termômetro preso na parede coberto pelo sangue congelado começou a marcar a numeração, outrora decrescente. Agora movia-se crescente, mais e mais a cada minuto que passava.
Como uma chuva, o sangue que pairava no ar desabou no chão, se movendo como se tivesse vida própria, espiralando e pulsando. Veios afiados projetavam-se para cima, enquanto o líquido escorria por entre as extremidades e laterais da porta, devido à quantidade exorbitante. Acompanhado ao sangue, em meio aos fios grossos, suspensos no ar, aos canos de criogenia e mordaça, as amarras e mesmo o explosivo preso à cabeça, a criatura encurvada em posição fetal, pela primeira vez, em muito tempo, respirou.
Olhos com órbitas pretas e íris vermelhas como sangue, se abriram furiosos.
¹ Krasnyy, do russo, significa Vermelho, e Kluka, do russo, significa Boneca.
² Majdnek, outrora conhecido como Lublin, foi um campo de concentração construído por volta de 1941 como um Campo de Prisioneiros de Guerra. Apenas em 1943 que se tornou um Campo de Concentração.
Pavlichenko, é uma referência à Franco Atiradora Lyudmila Pavlichenko, do exército soviético, conhecida por ser a Lady Death, famosa por matar 309 nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Adaptado aqui para melhor encaixe na história.
4 Razhavchina, do russo, significa Ferrugem. Mischen’, do russo, significa Alvo. Sneg, do russo, significa Neve. Gorenjy, do russo, significa Queimado. Farfor, do russo, significa Porcelana. Sderzhivaniye, do russo, significa Contenção. Granat, do russo, significa Romã.
SOLDADO INVERNAL
Um emaranhado de cachos vermelhos escuros se espalhavam por ombros franzinos quase raquíticos. Ossos pontudos projetavam-se pela pele pálida machucada. Acobertavam o rosto, agora quase esquelético, permeado por marcas arroxeadas. Formas de dedos marcavam sua mandíbula, com força o suficiente que havia afundado o osso para dentro, travando não apenas a mandíbula, mas sua boca. Não ocultava, todavia, os olhos , aterrorizados.
Acompanhado pelo ritmo irregular das gotas que se projetavam de infiltrações abaixo do concreto queimado das celas, o ruído alto e áspero do metal riscando o chão ao ser arrastado foi o suficiente para fazer com que ele sentisse o impulso de encolher-se. Despontou brusco, como uma adaga atravessando-lhe os ouvidos, se revirando para o melhor desapontamento e raspagem do órgão; pulsando, real e bruto, pelo restante do silêncio que envolvia o corredor vazio. Os olhos azuis esverdeados do homem desviaram-se do semblante maltratado e abusado da criatura pequena que se encolhia à sua frente, e, por uma fração de segundos, se voltou para a entrada do corredor. Parou ali, por um momento, apenas ouvindo. Passos pesados das botas dos soldados ecoavam à distância, se deslocando para as outras celas que aguardavam verificação; a movimentação agitada entre solas feitas de madeira espalhava-se com um zumbido de cientistas atrapalhados, braços repletos de papeis tentando escapar dali, mas sem obter quaisquer sucessos possíveis. Cliques mecânicos espalhavam-se pelo espaço da cela, câmeras erguiam-se de onde estavam cuidadosamente acopladas nas paredes, ocultas da visão imediata, registrando quaisquer mínimos movimentos feitos. Sentiu o pescoço rígido, a sensação desconfortável do músculo tensionado pareceu aumentar gradativamente ao voltar seu rosto outra vez para a criatura acovardada contra a parede suja de sangue seco. Marcas agressivas tingiam o cimento queimado, formando padrões abstratos, mas que não ocultavam o formato de seus dedos, de suas tentativas de escapar daquela cela. Algo pareceu obscurecer-se em seus olhos, uma expressão impossível de ser lida ao analisar os padrões e então repousar nos braços da criatura. A tinta fresca imprimia uma nova numeração na lateral do antebraço, evidenciava uma transferência de setor que encobria o número deixado para trás pelo campo de concentração, no interior de seu pulso.
A mordaça em formato de máscara que envolvia seu rosto pareceu fincar-se um pouco mais contra a pele e os ossos de seu rosto ao inclinar a cabeça para frente. Os olhos azuis esverdeados acompanharam o movimento atentamente, sem piscar, quase vidrados. Não foi o terror em seu rosto machucado que agitou a estranha composição de estilhaços que parecia jazer em seu peito; foi como ela encolheu-se. Mas ele apenas continuou encarando-a. Ao fundo de sua mente fragmentada, houve uma estranha sensação de reconhecimento, porventura efêmera e incerta, mas não menos real. Talvez fosse a maneira com que os olhos cintilavam, ariscos e incertos, ou talvez fosse a marca de uma mão pressionada o suficiente contra sua pele que havia afundado parte de seu ombro que o fez parar, mas algo ali estava perturbadoramente errado.
Deu um passo na direção dela, a sola emborrachada do coturno estalou abaixo de si com a pressão de seu peso contra o assoalho de cimento queimado; ruído baixo, desconfortável, tão artificial quanto as paredes que compunham sua jaula especial. Reverberou potente, afiado pelo silêncio sepulcral que os envolvia, e a fez encolher-se por instinto. Um murmúrio inteligível escapou por seus lábios duramente cerrados devido à quebra da mandíbula, mas ecoou por seus ouvidos como um pequeno fungado — um choro discreto, sequer percebido, uma súplica por misericórdia que nunca seria atendida. Isso o fez inclinar a cabeça para o lado, curioso com a criatura à sua frente. Havia algo de terrivelmente familiar naquela criatura miserável, algo que parecia reverberar por seu peito como pequenas ondas de choque ao atirar-se uma pedra em um lago estático; a memória muscular era instintiva. Percebeu-se inclinando-se em sua direção, tentando alcançá-la de alguma forma, tentando ignorar o instinto protetor que parecia ter se despertado nos fragmentos abandonados em seu peito. Suas ordens eram expressas, nítidas e inquestionáveis. Mas os olhos azuis esverdeados dele não conseguiam obrigar-se a desviar do semblante dela.
Sob o toque da luz pálida, os ferimentos pareciam perigosamente piores. A tonalidade arroxeada era profunda, quase preta, com a exceção de pequenas marcas vermelhas profundas de onde o sangue havia coagulado. Pequenas protuberâncias formavam-se ao redor de sua mão, evidenciando uma regeneração má formatória em sua mão direita; os ossos quebrados deveriam ter se curado da forma errada, era visível a dor pelos espasmos que o membro fazia. Os músculos que pareciam visíveis sob sua pele, quase translúcida agora, se tensionaram com o movimento por mero instinto; abruptos, selvagens. Algo nos olhos parecia alertar a falta de sua racionalidade. O fez pausar outra vez, se questionando o que aquela criatura era e o que diabos poderiam ter feito. Foi quando uma onda pungente e potente de dor percorreu pela espinha dele. Espalhou-se com a precisão de um disparo, rápida demais para preparo, deliberada demais para que ele pudesse ignorá-la. Disparou por sua coluna e então acertou seu cérebro com violência; um disparo elétrico. O choque pulsou por seu cérebro de forma agonizante, obstruindo sua visão, fazendo tudo ao seu redor desvanecer em uma névoa escura desorientadora.
Por um longo momento, houvera apenas dor.
Uma advertência silenciosa de seus superiores, uma reprimenda severa por sua hesitação e o desvio de sua missão imediata. Amorteceu seu corpo, o tornou estranhamente rígido, os músculos espasmódicos tensionando-se e relaxando, o congelando no lugar. Seu ouvido esquerdo pareceu emudecer, um zumbido crescente espalhando-se pela lateral de seu rosto, enquanto os olhos desnorteados corriam pela jaula sem conseguir focar em nenhum ponto específico. Dor, lancinante e pungente espalhou-se por todo seu corpo, tão profunda que fizera seu estômago revirar, o gosto amargo da bile retornou à sua língua, e, por uma fração de segundos, sua garganta se contraiu na ameaça de vomitar, mas o Soldado não havia comido nada naquela manhã. Nem abrir sua boca poderia o fazer, a mordaça que envolvia a parte de baixo de seu rosto, ocultando o queixo, lábios e nariz de olhares alheios, o impedia sequer de respirar corretamente, as laterais fincando-se em sua pele, a marcando com severidade, cortando superficialmente. Obrigou-se a engolir em seco, sua respiração, pesada e irregular, escapou ruidosa pelo filtro da mordaça, até que ele focasse outra vez sua visão no rosto da criatura acovardada no canto da jaula. Os olhos azuis esverdeados dilataram-se por uma fração de segundos, registrando as íris prateadas arregaladas antes de voltar a contrair-se. O semblante, desprovido de quaisquer emoções, se atentou ao prático em questão. Músculos atrofiados, magreza exacerbada, se tensionavam por baixo da pele delicada e frágil da jovem. As mãos espasmódicas se contorciam em um reflexo impossível, tentando agarrar-se às paredes. Os dedos fincavam-se contra a superfície com tamanha força que deixava para trás marcas de sangue de onde as unhas rompiam-se. Veias projetavam-se, evidenciando a desidratação. Os lábios ressecados exibiam ferimentos discretos, o sangue não mais escorria, mas pareciam infeccionados. Ele deu mais um passo na direção dela, então mais um, até agarrá-la pelo braço. Seus dedos fincaram-se na pele delicada com mais força do que o necessário, mas algo pareceu cintilar por trás do silêncio que pairava em seus olhos.
Por uma breve e efêmera fração de segundos, o Soldado hesitou, a encarando com piedade. Algo humano e intrínseco pulsou pelas íris azuis esverdeadas, transformando seu rosto de uma máscara fria para uma súplica — se por ajuda ou perdão, pouco poderia saber o que se passara. Mas então, tão rápido quanto viera, desapareceu, como uma névoa em plena matina. Uma lufada de ar escapou de onde sua mordaça constringia seu rosto, e então, de supetão, com mais força do que o necessário, ele a forçou a ficar de pé. Ela tentou gritar, se debatendo contra ele, tentando empurrar seu toque para longe, mas o Soldado atentou-se apenas às ordens que havia recebido. Os frágeis pareceram protestar abaixo de seu toque de ferro, e ele sentiu quando as pernas dela fraquejaram, quando o peso pareceu ser maior do que as forças que ainda lhe restavam e a criatura miserável envergou-se para frente, desabando com um eco molhado pelo corredor silencioso.
O Soldado não parou. Seguindo ordens, apenas a arrastou em direção à grande área reservada especificamente para o descarte de criaturas como ela. Podia ouvi-la chorar, baixinho, lágrimas grossas escorrendo pela pele manchada, os olhos fechados, aterrorizada. Sabia que aquela imagem estaria gravada em sua mente por um bom tempo, mas não poderia dizer ao certo por que a visão de seu sofrimento o incomodava tanto assim. Ela era apenas um subjeto. Um subjeto falho, e agora seria descartada. Essas foram ordens diretas dos responsáveis pelo projeto. Depois daquela noite, as demais celas seriam esvaziadas, os corpos seriam queimados e descartados, parte iria para o forno, onde de lá sairiam como cinzas mais simples de serem descartadas, outros seriam enviados para poços abaixo do solo, onde camadas de concreto impediriam que fossem localizados outra vez. Os arquivos e vídeos das pesquisas seriam eliminados, destruídos permanentemente — incluindo cientistas que estiveram envolvidos no projeto. A falha era uma marca amarga para o Comando, e recaía sobre os ombros do Soldado o trabalho de limpar o desastre que haviam causado.
Mas, ainda assim, não pesou menos do que um montante de titanium sobre sua mente a visão da criatura debatendo-se, implorando para que ele parasse. A mandíbula quebrada a impedia de falar, deveria tê-la silenciado, mas ela ainda estava tentando. Escapava de maneira esquisita, um gorgolejo sem fôlego, mais grito desesperado do que pedido permeado por desalento, mas não eram menos verdadeiros: “por favor, não!” repetia, desolada. Mesmo através de uma mandíbula que deveria tê-la silenciado, mesmo através da dor que deveria tê-la imobilizado e destruído quaisquer resquícios de sua própria alma. Ela deveria ser agora nada mais do que apenas um fragmento, um receptáculo vazio, mas, ainda assim, ainda assim, parecia estar determinada a lutar por uma última vez. Então o Soldado a ouviu implorar, os ecos em russo de sua voz reverberavam pelos corredores como uma acusação incriminatória. De alguma forma, haviam conseguido atravessar a armadura de ferro que revestia sua mente e algo dentro dos fragmentos de seu peito se agitou com o peso insuportável de algo puxando-o para baixo. Culpa, percebeu, mas pelo o quê? Sequer lembrava-se de quem ela havia sido, como poderia sentir-se culpado por algo…?
Movida pela própria urgência de seu desalento, a criatura debateu-se, usando os resquícios de sua própria força para forçar uma resistência que sequer poderia salvá-la. O crack sonoro revirou o estômago do Soldado que arregalou os olhos ao vê-la quebrar, propositalmente, o próprio braço. Não gritou, ensandecida pela dor, como ele havia esperado, pelo contrário, movida pelo puro instinto e o desespero por sua própria sobrevivência, o Soldado assistiu-a disparar pelo corredor. Passos cambaleantes, desesperados, solas descalças de seus pés chocando-se contra o chão com um barulho molhado, desastrosos, deixando para trás as marcas de seus pés imprimidas contra a alvura do piso, em um vermelho profundo de seu próprio sangue. Por uma fração de segundos, uma onda gélida de medo espalhou-se pelas veias do Soldado que congelou no lugar, os olhos arregalaram-se, se movendo para acompanhar a disparada dela. Cabelos escalartes chicoteavam o espaço atrás de si, o corpo raquítico chocava-se violentamente contra as paredes, e algo estranho a acompanhava como um fantasma.
Uma pulsação. A princípio, meramente um pequeno espasmo, quase imperceptível, mas então pareceu crescer, até que a figura dela se tornasse um borrão. Pulsava de duas em duas vezes, com espaçamentos que se assimilavam com um coração. Antes que ela conseguisse alcançar a porta dupla para fora do corredor, os olhos dela voltaram-se em sua direção e se prenderam com os seus. Por uma fração de segundos, o Soldado a reconheceu.
Um rosto gentil em meio à lama fria, escorada contra o front austríaco. Um amontoado de cabelos flutuando sob a superfície do lago congelado, agarrando a frente de seu uniforme, tentando mantê-lo sob a superfície. O cheiro de pólvora queimada e algo floral, dela. Olhos cintilando com uma mistura de medo e firmeza que o fizera ter certeza que poderia confiar nela. Que ela não o deixaria para trás, que os dois poderiam sobreviver ao inferno…, mas então os segundos passaram, e antes que pudesse impedir-se ou sequer questionar a motivação por tal atitude, o Soldado puxou a arma que repousava presa em suas costas. Agarrou-a com força, empunhando a arma pesada, a mantendo na mira. Os olhos arregalaram-se ainda mais ao perceber o que aconteceria. O Soldado viu os lábios feridos e ressecados se partirem com uma força que só poderia ser descrita como doloroso, ao passo que sua garganta se contraiu com um grito que nunca escapou.
O disparo a atingiu primeiro do que seu grito. O repuxo da arma foi amortecido pelo ombro normal do Soldado, que estabilizou o peso do objeto com o seu biônico, estalidos responsivos ecoaram por seus ouvidos quando ele abaixou o braço, inspirando pesado ao vê-la desabar no chão, inerte. Seu coração martelou contra sua caixa torácica, a estranha percepção nauseante de que ele havia acabado de cometer um erro cruel e irreversível. Por um longo momento, apenas conseguiu encarar o corpo da criatura. Projetava-se desengonçado para frente. No chão, uma mancha grotesca de sangue começava a formar uma poça espalhando-se pelos entremeios e vincos dos pisos, mas ela não se moveu. Os olhos pareceram vidrados, fixos em um ponto para além de sua compreensão; os lábios entreabertos foram tomados pelo sangue que escorria pela lateral de seu rosto, as mãos espasmódicas agora estavam imóveis e, bem ao centro de sua testa, um buraco profundo de onde a bala havia atravessado. O gosto de sangue pareceu permear por sua língua, o cheiro profuso e nauseante invandindo-lhe tal qual um golpe as narinas, as queimando, enquanto a adrenalina enviava um estranho tremor por seu corpo.
Ele não poderia dizer exatamente o porquê, mas podia sentir que havia algo errado. Profundamente errado. Tentou recordar-se por que tal reação ao disparo lhe causaria tamanho desconforto, mas sua mente estava vazia, completamente em branco. Seus olhos azuis esverdeados dispararam ao redor, como se buscasse por alguma coisa que pudesse servir de ajuda. Não havia desespero, havia uma nota de frustração; ele sabia quais eram suas ordens, era projetado para compelir e as executar com perfeição, mas algo dentro do emaranhados estranhos de nós e fragmentos, algo que parecia enterrado para além de sua própria percepção pareceu partir-se ainda mais. O Soldado não era ninguém; não possuía alma, sequer desejos, era o que era, uma ferramenta de seus superiores e não deveria desejar nada. O lembrete de suas transgressões era os pequenos choques de advertência que recebia, choques estes que tendiam a amortecer e afugentar as névoas de seus próprios questionamentos e incertezas para que apenas o foco de executar suas ordens permanecesse. Mas encarando-a ali, tão pequena, frágil e quebrada, algo pareceu sufocá-lo.
Espalhou-se de dentro para fora em seu peito, como vinhas permeadas por espinhos, se enredando por seu corpo, se fincando por sua pele e dilacerando até que apenas carne e sangue estivessem expostos. Sentiu o peso que se projetava em seus ombros triplicar, e, por um longo momento, sequer tivera certeza que poderia se mover. Sua própria pulsação martelava, selvagem e errática por seus ouvidos, amortecendo e abafando a voz de seus superiores. Obrigando-se a mover, o Soldado caminhou, um passo à frente do outro, em direção à pobre criatura abatida. De sangue desfazia-se, tão pequena e raquítica que parecia impossível que ainda tivessem tanto para ser desperdiçado, e, todavia, ali estava ela. Uma dor desconhecida pesou ao centro de seu peito e o Soldado quase ofegou. Não esperava encontrar algo assim, não com uma missão para finalizar. Mas então, mais uma vez, o momento passou.
Um estalo escapou de seu braço biônico quando ele voltou a arma para as costas, se agachando apenas para agarrá-la pelos cabelos e então arrastá-la caminho de volta em direção ao poço que se abria dentro da sala de descarte.
O cheiro pungente de cobre e ferrugem espalhava-se como um peso pelo ar, o aroma misturava-se à desgostosa fumaça e carne queimada. Outros soldados ficaram imóveis quando o Soldado Invernal atravessou a sala em direção ao buraco ao centro do lugar. Olhos prenderam-se em seu rosto com temorosidade, acompanhando cada mínimo gesto, cada neutralidade de sua expressão gélida, tentando decodificar suas próprias ações. Alguns até mesmo pararam seus trabalhos para assistir a cena perturbadora. O Soldado arrastando pelos cabelos a figura inerte do que havia sido um dos espécimes mais problemáticos que já havia lidado ali. Ninguém ousou dizer nada, sequer expelir uma palavra.
Abaixo do buraco que se abria no chão, uma remessa de corpos descartados aguardava-os. Pelo menos cinquenta e sete fora casualidades, alguns desmembrados, amontoados em uma gosma avermelhada que poderia ser descrita apenas como carne triturada, outros intactos, mas igualmente inertes. Poucos pareciam ainda conscientes, implorando por misericórdia, mas não iriam demorar muito para que a morte os alcançasse. Por um longo momento, o Soldado apenas encarou o fundo daquele poço sem expressão alguma. A imagem que tinha do fundo era o de um pesadelo vivo, difícil de compreender, sequer decodificar o que havia sido um corpo ali, e o que não era se não apenas carne e ossos desmembrados, mas então o comando ecoou pelo comunicador preso em sua orelha direita, e o Soldado agiu. Com um movimento rápido e preciso, econômico, ele arremessou a criatura para dentro do poço, a observando cair quase em câmera lenta, se destacando como um dedão podre entre a massa de sangue e ossos. O baque molhado ecoou pelo espaço de forma nauseante, mas eram seus olhos que o perturbaram.
Vidrados, inertes, mas estranhamente vivos.
Fechou os olhos, tentando eliminar a imagem de sua mente sem obter sucesso algum. Uma descarga elétrica, violenta e dolorosa percorreu sua coluna, acertando de supetão seu cérebro que pareceu queimar. O arfar que escapou por seus lábios silenciados pela mordaça metálica de sua máscara tornou-se uma vibração potente por seu corpo. O tremor espalhou-se como uma avalanche encobrindo seus sentidos por um momento, e a sensação claustrofóbica de estar sendo amordaçado pela máscara quase o fez tentar arrancá-la. Outro disparo elétrico percorreu seu corpo, e ele não tivera outra escolha senão apenas aceitá-la. Os olhos azuis esverdeados focaram-se uma última vez no corpo da criatura, antes de virar-se para os soldados em silêncio, o observando temerosos.
— Queimem — ordenou, baixo, controlado e frio como o inverno que envolvia aquelas terras. Não havia espaço para negociações, não havia outra alternativa senão a obediência imediata. Mesmo que estivesse dizendo isso para si mesmo.
Os outros soldados agitaram-se em seus uniformes esverdeados escuros, com o símbolo da caveira com tentáculos impresso nos ombros e em seus próprios cintos, discretos demais para serem perceptíveis, uma lembrança vívida, todavia, para que não fosse esquecida. O Soldado marchou em direção à porta, pronto para repassar o relatório, a mão biônica pairou pela maçaneta quando algo aconteceu. Sua mão feita de carne tremeu. Não um tremor vindo de seu próprio corpo, mas involuntário, como uma pulsação de um coração. Um, dois, um, dois, um, dois… gritos assustados ecoaram pelo espaço inteiro, enquanto os soldados o chamavam, comandando sua presença de volta para verificar alguma coisa dentro do poço, mas os olhos azuis esverdeados do Soldado estavam fixos em outra coisa.
Gotas de sangue pairavam pelo ar, girando como flocos de neve, pulsando com o mesmo padrão que tomara conta de sua mão humana. Formavam pequenas pontas afiadas no dois, antes de espiralar, maleáveis e com vida própria, no um. Os olhos do Soldado se arregalaram, analisando de onde aquele fenômeno esquisito partia, apenas para perceber que vinha do trilho de sangue que a criatura havia deixado para trás. Imediatamente, agindo por impulso, puxou sua arma de volta, pronto para empunhá-la ao voltar-se na direção do poço em que havia a jogado. Mas já era tarde demais.
Quando a criatura se projetou para fora do poço, coberta por sangue, os olhos outrora se encontraram-se com os dele, vivos, aterrorizantes. As órbitas estavam completamente pretas, como se piche tivesse se espalhado pelo tecido interno, e as íris, outrora prateadas, agora tornavam-se vermelhas como o sangue que a cobria. Sangue este que não lhe pertencia. Alguns soldados, aterrorizados, dispararam na direção da criatura que se arrastou para fora do poço, desabando no chão com um baque molhado nojento. Os disparos alvejaram-na com precisão. Deveriam tê-la matado, e, por um longo momento, pareceu que haviam o feito, mas o Soldado não acreditava na segurança do silêncio o suficiente para ter certeza de que haviam apenas arranhado a superfície. Não demorou muito para que a criatura voltasse à vida, um ofego desesperado por ar, antes de um grito furioso, uma mistura profunda de ódio e dor que percorreu pela pele do Soldado como correntes elétricas gélidas. Ele travou a mira, mas, desta vez, não conseguiu mover-se. Tudo pareceu ficar estático, enquanto uma mancha de sangue pulsando em ritmo com ela se ergueu ao seu redor, espiralou pelo ar como flocos de neve e enroscou-se nos primeiros homens mais próximos. Gritos contidos escaparam de suas gargantas antes de algo parecer clicar ao redor da criatura. Os soldados tocados pelo sangue que pairava no ar se silenciaram, apenas encarando-se com olhos vidrados, a mancha de sangue aumentando ao tocar-lhe as peles, até que seus olhos estivessem completamente vermelhos.
Então, de dentro para fora, um por um, os soldados explodiram.


