Revisada por: Sagitário♐
Última Atualização: 12/7/25Mais uma vez eu estava sentado na mesa da cozinha, com o jantar diante de mim totalmente frio, esperando-a chegar. Eu não queria admitir, mas esta cena vinha se repetindo em minha vida há dois anos. Gostaria de entender onde nós erramos, onde o amor começou a acabar. Onde se encontrava a paixão que nos fez morar juntos, mesmo sendo de pensamentos tão diferentes? Eu a amava e sentia que era a mulher da minha vida, mas agora, a única coisa que sentia era que a mulher com quem me deitava todas as noites era uma estranha para mim.
Seu mundo seleto de modelo em ascensão lhe tomava bastante tempo.
Eu a apoiava em tudo, e cheguei até a acompanhar em alguns trabalhos. Meus dias frios no escritório de direito, sufocado com toda aquela papelada de processos e mais processos, eram sempre preenchidos pelo calor do seu corpo no final da noite. Nosso refúgio era um nos braços do outro. E agora? Agora, somente ficava a minha espera noturna pela mulher que não tinha hora para chegar, somente para sair. Olhei mais uma vez para o relógio, trinta minutos depois e ela ainda não tinha chegado.
— Onde você está, ? — sussurrei para mim já sabendo a resposta.
Claro que ela deveria estar em algum coquetel mega importante da sua agência, ou uma sessão de fotos que atrasou por causa do anunciante de alguma revista, ou somente sentiu vontade de sair com as amigas modelos e se divertir. Eu não me opunha, nosso relacionamento jamais foi uma prisão e ela tinha sua liberdade, mas ao menos uma ligação eu esperava. Era o nosso aniversário de namoro, eu só queria tê-la aqui, desfrutando do jantar que eu mesmo fiz para ela.
— Acho que terei que jogar isso fora — disse num tom mais alto ao levantar da cadeira e pegar um dos pratos.
Eu poderia guardar na geladeira, mas estava tão magoado que apenas joguei toda aquela comida no lixo. Segui para o banheiro, tirei a roupa e me enfiei debaixo do chuveiro. Quem sabe uma ducha fria para esfriar minha cabeça me ajudaria a pensar. Não. Não precisava mais pensar. Já tinha minha decisão tomada e não voltaria atrás. Aquele jantar era o divisor de águas em minha vida. Desliguei o chuveiro e enrolei a toalha na cintura. Voltei para o quarto e revirei minhas roupas até achar algo adequado para vestir.
O início do inverno conseguia ser mais quente que nosso relacionamento neste momento. E pensar isso me faz rir de forma debochada, levanto em conta todas as juras de amor que fizemos ao longo desses cinco anos juntos. Ao terminar de me vestir, arrastei minha mala que estava debaixo da cama e abri. Queria ser tão organizado a ponto de pelo menos dobrar minhas roupas, mas as joguei de qualquer jeito dentro da mala juntamente com outras coisas e apenas fechei. Segurei a alça e levei para sala, deixando ao lado da porta. Me sentei no sofá e respirando fundo, esperei mais um pouco.
Eu poderia apenas ir embora e deixá-la sem “explicação”, mas resolvi ficar para ver seu olhar enquanto eu partia.
— That's what you get when you let your heart win... whoa… — Ela entrou empolgada cantando uma música do Paramore.
Nem ao menos percebeu as malas ao lado da entrada.
— Joshua?! — Só então ao acender a luz e se deparar comigo sentado no sofá que ela se assustou.
Mantive o olhar sereno para ela, não demonstrando a tristeza de sua chegada tão tarde. Em seu corpo um vestido bonito que valorizava o pouco de curvas que tinha, mesmo sendo magra e fazendo suas dietas loucas de modelo, eu ainda surtava quando a via nua. Mas até mesmo esta atração já havia se perdido, tocá-la agora não era como antes, e o sexo passou a ser somente um cumprimento de rotina para saciar a vontade. Não queria mais isso, eu não tinha tempo para sentir pena de mim mesmo ou do que nos tornamos, estranhos um para o outro.
— Ai. — Ela se aproximou de mim, e já notava no seu olhar que finalmente havia se lembrado que dia era hoje.
Eu me levantei e permaneci em silêncio, apenas esperando pela desculpa do dia.
— Me desculpa, eu realmente não consegui chegar mais cedo. — Ela tocou de leve em minha nuca e me beijou.
Tinha gosto de mentira aquele beijo, e não me transmitia mais nenhum outro sentimento. Meus pelos não arrepiavam, meu coração não acelerava, meu corpo não se aquecia e nem ficava em alerta com sua aproximação. Minhas mãos mal conseguiram segurar em seus braços, mantendo um certo afastamento sutil entre nós. Eu apenas retribuí com leveza, considerando aquele como um beijo de despedida. O último.
— O que foi? — Ela me olhou confusa.
Então percebeu minha reação fria ao seu beijo. Até a noite passada eu continuava insistindo que estava tudo bem, e lhe retribuía com a intensidade de sempre. Ou pelo menos me esforçava para isso. Para não deixar morrer o pouco de sentimento que ainda tinha dentro de mim.
— Você está estranho — continuou ela.
Eu apenas olhei para mala, fazendo-a acompanhar meu olhar.
— O que são essas malas?
— Não estamos ficando mais jovens, , e eu realmente não tenho mais forças para te esperar todas as noites — confessei a ela, sendo sincero em minhas palavras. — E tenho certeza que você também não está confortável em ter que inventar desculpas para mim todos os dias… Por isso, estou indo embora.
— Joshua… — Ela se calou por um momento, desviando seu olhar para o chão. — Me desculpe, mas você tem razão… Não somos mais o mesmo casal de antes, algo se perdeu pelo caminho.
— Não vamos mais entediar um ao outro — disse com firmeza. — Boa sorte em sua carreira, tenha uma boa vida.
Eu me aproximei dela e lhe dei um beijo na testa, então me afastei seguindo para porta. Ela se manteve em silêncio. Era o certo a se fazer e eu precisava voltar a viver novamente, e não continuar todas as noites esperando uma mulher que não desejava voltar para mim.
Não voltaria a passar por isso…
Pois hoje…
Hoje era um outro dia…
O dia de seguir em frente.
E estou ficando entediada esperando por você,
Não estamos ficando mais jovens e eu,
Não vou olhar para trás, porque não adianta,
É hora de seguir em frente.
- Feeling Sorry / Paramore
