Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 22/05/2026. “Meu reflexo estava na janela do trem,
Enquanto eu embarcava numa nova cidade.”
— All My Love Is For You / Girls Generation
— Ah… — Dei um suspiro cansado assim que desembarcamos no Aeroporto Internacional de Incheon. Era visível minha insatisfação naquele momento.
— Pandinha, pare com essa cara. — Minha mãe se aproximou de mim e segurou em minha mão, me dando o braço para me apoiar nela. — Pense que será o ano mais divertido em sua vida.
— A senhora sabe que meu currículo acadêmico não fica nada divertido com essas mudanças. — A olhei contrariada.
— Aish, que menina mais nerd. — Ela riu de leve. — Eu deveria ser grata por isso, mas você está se sobrecarregando antecipadamente por causa dos seus estudos.
— Mesmo assim…
— Além do mais… — ela me interrompeu. — Olhe pelo lado bom, agora você vai estudar em um país onde alunos passam até dezesseis horas por dia com a cara nos livros, até sete dias por semana. — Mamãe me lançou um olhar de: te peguei. — Não deveria estar animada e contente por isso?!
— Omma?! — Suspirei novamente. — Eu sou nerd, não masoquista.
Ela soltou uma gargalhada alta, fazendo as pessoas que passavam perto olharem para nós.
— Agora te peguei, panda nerd. — Ela riu mais um pouco. — Tenho certeza de que minha filha querida vai sobreviver a isso, você tem um ponto positivo.
— Qual? — Agora estava curiosa.
— Seus pais não irão te crucificar se você não entrar no top10 dos melhores alunos. — Ela riu mais um pouco, parecia estar zoando com a minha cara, era típico da minha mãe.
Porém amava esse seu lado descontraído, já que meu pai era um pouco mais sério e fechado, isso era mais visível do que suas diferenças culturais.
— Está tudo bem? — perguntou papai, ao se aproximar de nós, empurrando o carrinho de bagagens.
— Sim. — Assentiu mamãe ao sorrir para ele, voltando sua face para meu irmão. — Jinho, largue esse game portátil. Acabamos de chegar e só pensa em jogos.
— Omma, estava entediado — resmungou ele, mantendo seu olhar para o jogo. — Passamos mais de doze horas em um avião.
— Por isso mesmo. Este primeiro momento é crucial para respirar ar puro e ver paisagens novas — retrucou ela.
— O que sua mãe disse?! — Meu pai, em seu tom reconhecível de autoridade, o olhou sério. — Precisarei guardar eu mesmo?
— Aniyo — disse ele, desligando o aparelho e guardando na mochila. Claro que sua cara estava emburrada.
Omma segurou o riso e deu uma piscada disfarçada para papai, que sorriu de canto. Meu pai era muito rigoroso quanto ao respeito que deveríamos ter com nossa mãe, isso me fazia admirá-lo ainda mais, o carinho que ele demonstrava de forma discreta por ela era fofo e, em alguns momentos, engraçado, o que me fazia ficar curiosa se todos os outros homens coreanos eram assim.
— Então, vamos? — disse minha mãe, continuando de braços dado comigo.
— Sim, vamos. — Meu pai ajeitou a bolsa transversal que estava em seu ombro e seguiu na frente.
— Vamos de táxi? — perguntei a minha mãe, enquanto seguíamos ele.
— Não, seu pai reservou um carro para irmos mais confortáveis.
— Quando foi isso? — indaguei, meu pai era sempre precavido.
— Pouco antes de embarcarmos de Lisboa — respondeu ela. — Ele ligou para a companhia e reservou um.
— Faz sentido. — Desviei meu olhar para as pessoas que passavam por nós, todas pareciam apressadas com sua vida.
Assim era a rotina coreana, as pessoas sempre estavam com pressa para fazer algo.
— Omma, estou com fome — reclamou Jinho, com uma voz desanimada.
— Você comeu no avião — disse minha mãe de forma despreocupada.
— Mas ainda estou com fome — reclamou ele novamente.
— Assim que entrarmos no carro, te dou algo. — Ela deu um suspiro fraco. — Esse menino só come e joga.
— Agradeça por ele ter o metabolismo acelerado — brinquei, rindo.
— Yah, isso é coisa que se brinca?! — Ela me olhou como se tivesse matado minha indireta. — Este ano, Jinho não me escapa. Colocarei ele em uma aula de natação, não o deixarei nessa vida sedentária. — Seu tom estava confiante.
— Está falando como uma mãe coreana. — Eu ri de leve.
— Sua boba. — Ela riu também. — Morreu aí, Jinho?
— Não, omma. — Ele se aproximou mais de nós. — Mas se não comer…
— Yah, deixe de ser manhoso, little Jini — disse, o chamando pelo apelido que minha mãe sempre lhe dava, assim como o meu era pandinha.
— Ahhh… Só a omma pode me chamar de little Jini — reclamou ele, assim que eu esfreguei minha mão em sua cabeça, bagunçando seu cabelo.
— Sou sua irmã mais velha, por isso vou te chamar assim, sim — retruquei.
— Jini e Pandinha… — Minha mãe nos olhou, como se dissesse que se aquela brincadeira rendesse, sairia briga.
— Omma, não nos olhe assim, não está vendo o amor exalando de nossos corações — brinquei, fazendo ela rir.
— Chegamos — disse papai, parando pouco mais à frente, diante de um carro que parecia ser da empresa. — Todos entrando, temos mais duas horas até Daejon.
Duas horas a mais…
Pelo menos teríamos paisagens pelo caminho.
Appa é um coreano que passou parte da sua juventude estudando nos Estados Unidos, já minha mãe, uma brasileira que, após lutar muito para conquistar seu sonho, conseguiu se graduar em gastronomia, tendo a chance de fazer MBA na França, o país onde se conheceram. E 18 anos após o casamento mais rápido do mundo, eles ainda são muito apaixonados um pelo outro, mesmo depois de tantos anos, muitas dificuldades e preconceitos de diversas pessoas. Algumas dessas pessoas eram meus avós, que não aceitaram muito essa mistura cultural, porém, mesmo assim, eles se casaram e, graças a isso, estou completando 16 anos nesta data.
Eu sou a mistura dos dois que nasceu quando eles tiveram que morar em Sydney, na Austrália, e meu irmão Jinho, de 10 anos, é a mistura que nasceu em Tóquio, no Japão. Deveria ser uma data alegre, já que era meu aniversário, mas, depois de 3 meses tentando me adaptar à nova rotina que tínhamos em Lisboa, mudar novamente fez meu dia ser esquecido por todos. Nossa nova localização seria Daejon, há 150km da capital Seoul.
— Estão muito calados, dormiram aí atrás? — perguntou minha mãe, rindo.
— Estou comendo — respondeu Jinho, após terminar de engolir. — Não posso jogar.
— Não mesmo. Aproveite a paisagem, tenho certeza de que sua imaginação te ajudará a não se entediar — sugeriu meu pai, que mantinha sua atenção na estrada.
— Appa deu uma boa sugestão. — Desviei meu olhar novamente para a janela do carro, ajeitando o fone direito que estava no ouvido. — Mas eu prefiro fazer isso com um fundo musical.
— O que está ouvindo? — perguntou minha mãe. — Música clássica?!
— Não. — Eu ri. — Estou ouvindo a ost de Boys Over Flowers.
— O primeiro dorama a gente nunca esquece — comentou ela, num tom saudoso. — Sempre me pego ouvindo a ost de Hana Kimi.
— Clássicos da vida. — Eu ri.
Tinha mesmo que distrair a minha mente, pois a cada vez que me lembrava da minha nova vida escolar, nesta altura do ano letivo europeu, eu teria que sobreviver o dobro e não me deixar ser prejudicada. Toda essa mudança veio através da multi-concessionária onde papai trabalhava. Sendo um membro da diretoria muito competente, o fazia ter que mudar com frequência. Sempre que surgia um problema em alguma filial era ele quem resolvia.
Enquanto meu irmão estudaria na Song Elementary School, que ficava perto de onde moraríamos, eu iria estudar na Daejon Cho High School, um colégio particular, onde o dono era amigo de infância do papai. Nem quero imaginar como será meu primeiro dia de aula. Quando appa estacionou o carro e nós descemos, não resisti em soltar um suspiro desmotivado. Depois de tantas casas lindas e espaçosas, moraríamos em um apartamento. Entramos no edifício, um rapaz que ficava na recepção nos cumprimentou e ajudou a carregar as bagagens, como sempre nos mudávamos, então não acumulávamos muita coisa além das roupas do corpo.
Sétimo andar, apartamento 702. Mantive meu olhar desinteressado no celular ao sair do elevador, aquela distração me fez derrubar minha pasta de desenhos, que estava carregando comigo.
— Eu te ajudo — disse um homem, ao se aproximar. Ele pegou a pasta e me entregou. — Aqui.
— Oh, obrigada. — Eu me curvei em agradecimento, meio sem graça, ainda não tinha me acostumado com o lado mais formal dos coreanos, pois sempre era tão informal com meus pais.
— Espero que se acomodem bem. — Ele deu um sorriso de boas-vindas que me fez ficar encantada.
— Obrigada — disse minha mãe, ao se posicionar ao meu lado. — O senhor mora aqui também?!
— Sim, sou o professor Han. — Ele abanou a cabeça. — Se precisarem de ajuda.
— Agradecemos, mas está tudo sob controle. — Minha mãe se curvou de leve. — Vamos, querida.
Nos despedimos dele e fomos até nossa porta.
Demorou em pouco para appa configurar o sistema de segurança e escolher a senha da fechadura. Quando entramos, me deparei com um apartamento todo decorado e mobiliado num estilo simples, porém a sofisticação básica da minha mãe exalava em cada um dos móveis. Me perguntava como aquele lugar tinha sido decorado e se ela realmente tinha parte nisso. Por mais que sua profissão fosse da gastronomia, mamãe amava assuntos referentes a decoração, era uma fã de Irmãos a Obra e jogava mais The Sims que eu se duvidar. Me pergunto o motivo dela não ter feito faculdade de arquitetura ou design de interiores.
Uma notícia boa?!
Três quartos, ou seja, eu teria minha privacidade.
Isso me deixou mais animada. Quando entrei no meu quarto, reconheci rapidamente a colcha de patchwork que a vovó Margarida tinha me dado de presente de aniversário. Senti que podia fazer daquele pequeno espaço o meu novo refúgio do mundo. Abri as malas e comecei a organizar minhas roupas no armário, ao final, olhei para meu amigo de infância, meu gato de pelúcia que eu chamava de Heebum, retirei da mala e o coloquei em cima da cama.
Abri as cortinas e deixei o vento entrar, ainda era dia, acho que estava quase na hora do almoço. Terminei minha arrumação e fui para cozinha. Omma estava preparando um lanche rápido para o nosso almoço.
— Veio me ajudar, pandinha? — perguntou ela, quando entrei.
— Sim, por onde começo? — Eu sorri.
— Pegue os pratos e os copos naquele armário. — Ela apontou para a minha esquerda. — Coloque na mesa de jantar para mim.
— Tudo bem! — Caminhei até o armário e abri a porta. — A senhora parece muito familiarizada com esse apartamento, além da decoração ser do seu gosto.
— Está se perguntando como fui capaz de fazer isso antes de nos mudarmos para Daejon? — Ela riu de leve.
— Basicamente. — Retirei primeiro os pratos para colocar na mesa.
— Estava fazendo isso desde as férias do Natal passado — explicou.
— Hum, por isso ficamos na casa da vovó Margarida.
— Exatamente — confirmou.
— O que estão fazendo? — perguntou Jinho, ao entrar na cozinha.
— O que mais gosta? — respondeu omma, com outra pergunta.
— Vocês não sabem fazer jogos — brincou ele, rindo. — Omma, o que vamos comer?
Não demorou muito e finalmente fizemos nossa primeira refeição na nova casa, e como não tínhamos muita coisa para fazer nesse primeiro dia, minha mãe nos fez ir às compras com ela no mercadinho que havia perto de casa. Logo à noite, me confinei em meu quarto para trocar algumas mensagens com minha única amiga real, Lira. Nos conhecemos de uma temporada que morei em Belo Horizonte, no Brasil, e continuamos a ser amigas, sempre mantendo contato através do whatsapp.
Quando o sol saiu, senti que meu corpo não queria se desfazer do conforto da nova cama, ainda estava com sono, tinha ido dormir tarde, após passar horas conversando com a Lira. Me levantei assim que o despertador tocou pela terceira vez. Me alonguei, espreguicei e até pensei em me deitar novamente, mas um toque na porta me alertava que era minha mãe garantindo que eu havia acordado.
— Estou me arrumando — eu disse.
Me arrumando?!
Nem consegui me arrumar direito, pois a troca de olhares que eu tinha com minha cama era tão intensa. Quando cheguei à cozinha, segurando a mochila, minha mãe me convenceu a acordar, me dando uma xícara de chocolate quente.
— Aqui, querida. — Ela esticou o copo e sorriu.
— Komaweyo, omma. — Eu peguei, estava meio quente.
— Hum, se quiser, posso levar você e seu irmão de carro — se ofereceu.
— Não! — Eu a olhei, tomei todo o chocolate e coloquei o copo em cima da mesa. — Prefiro ir sozinha.
— Como assim sozinha? É seu primeiro dia. — Ela me olhou espantada. — E se você se perder?
— Omma, passei a noite pesquisando no google maps. Eu ficarei bem — respondi, confiante em meu senso de direção.
— Então, vá em segurança. — Ela sorriu de leve. — E fighting!
— Fighting!
Não queria passar por algum constrangimento por causa da minha mãe.
Alunos coreanos não tinham boa fama.
Eu saí primeiro após mais algumas observações dela sobre a estação que deveria parar e como eu deveria me comportar no meu primeiro dia. Uma curiosidade: o sistema educacional coreano é um pouco diferente, as aulas começam em março e finalizam em fevereiro, tendo recesso em meados de julho e agosto por causa das férias de verão, e finais de dezembro para as férias de inverno, por causa do Natal e ano novo. Eu finalmente iria conhecer a linda rotina dos alunos asiáticos, que estudavam as vezes até quase 18 horas por dia. Minha aula seria das 7:30 da manhã até às 17hrs da tarde, seria um desafio passar mais de 9 horas estudando. Como não fazia amigos nos lugares que morava, meu passatempo era livros e estudo. No geral, não seria tão ruim assim!
Legal começar a estudar em plena segunda-feira.
Foi neste mesmo dia que minha vida entrou em um ritmo de adrenalina. Quando cheguei à escola, fui diretamente para secretaria, precisava assinar alguns documentos e pegar minha folha de horários. Foi um leve momento de distração, procurando meus documentos na mochila, que me fez trombar em uma pessoa, derrubando minhas coisas no chão.
— Yah! — disse o garoto, num tom alto e rude.
— Ah, me desculpa. — Eu olhei, me curvando, e logo abaixei para pegar tudo que tinha caído.
— Olha por onde anda, novata. — Ele se abaixou e pegou justo meu passaporte, já abrindo para ler meu nome. — .
Uma risada discreta e ele esticou a mão, me entregando com um sorriso prepotente.
— Obrigada. — Me curvei de novo e quando fui pegar, ele deixou cair de propósito.
— Ops. — Seu olhar continuou sério. — Acho que deixei cair.
— … Yah, vamos — gritou um menino que estava perto da escadaria.
— Vou me lembrar disso, novata estrangeira. — Ele saiu tranquilamente. Reparei na sua mão direita, estava enfaixada e balançava uma corrente de prata.
— Belo primeiro dia — sussurrei para mim, enquanto pegava meu passaporte.
Após preencher o resto dos papéis que faltava, uma senhora muito simpática meu deu minha folha de horários e me disse onde era minha sala, a prestigiada 2-2. Ao chegar à porta, outra surpresa, mas esta era boa, o professor responsável era o senhor super legal que havia oferecido ajuda na noite anterior, professor Han.
— Miayeonghaseyo! — Eu sorri e entreguei o papel da minha transferência.
Ao ler o que estava escrito, ele caminhou até a frente da classe e anunciou a minha presenta. Segundo constrangimento:
Me apresentar para todos.
— Miayeonghaseyo, imnida. — Sorri de leve. — Cuidem bem de mim.
— Seja bem-vinda. — O professor Han sorriu com gentileza. — Novamente.
— Obrigada. — Me curvei em respeito novamente e caminhei até uma carteira ao lado da janela que estava vazia.
Aquela providencial janela dava vista para o pátio central e a quadra de esportes. Bem debaixo de uma árvore, deitado em um banco, estava o pesadelo de nome , com mais quatro garotos, incluindo o da escadaria.
— Aqueles são o Prince Line, se acham os donos da escola — disse o menino que estava sentado na minha frente.
Percebi seu tom amargo.
— Imagino. — Respirei fundo, desviando meu olhar para ele.
— Prazer, sou ! — Ele sorriu gentilmente. Seu olhar era sereno e ao mesmo tempo profundo.
— Prazer, pode me chamar de se quiser. — Sorri de volta.
Ele se virou para frente, o professor Han iria começar a falar sobre a importância da Literatura nos dias atuais, além de nos passar o primeiro trabalho do semestre. Mesmo tendo um professor tão lindo e gentil, eu não conseguia me concentrar, acho que meu cérebro estava meio travado por causa da recepção na secretaria. Sorte que percebeu e se ofereceu para me passar suas anotações.
No intervalo, eu e nos sentamos em uma mesinha perto do refeitório. Ele era realmente gentil e super educado, me contou um pouco como era a rotina de estudos no país e me deu algumas dicas para que eu pudesse me adaptar com facilidade. Nossa conversa estava interessante, até o grupinho se aproximar. Comecei a me controlar internamente, vendo aquele presunçoso vir em nossa direção.
— Novata estrangeira — disse , ao se aproximar, se sentando ao meu lado, ficando de costas para a mesa e se encostando à ela.
— O meu nome é… — Eu olhei, tentando manter minha educação.
— . — Ele me interrompeu. — Eu sei.
Os amigos dele se encostaram na parede que tinha perto e ficaram nos olhando.
— Desculpe, mas está nos atrapalhando — disse , com uma voz séria.
— Ha...ha...ha… — deu uma gargalhada e se virou para ele. — Quem é você? Namorado dela?
— O quê? — Eu me levantei. — Ele é meu amigo e você está realmente nos atrapalhando.
— Não vou demorar. — Ele se levantou e me encarou. — Graças a você, me atrasei para aula e isso me custou uma punição.
— Eu já pedi desculpas. — Olhei, não demonstrando fraqueza.
— Suas desculpas não são suficientes. — Ele pegou a maçã que estava na minha bandeja. — Nos vemos na saída.
Ele deu uma leve piscada para mim antes de se afastar, me deixando paralisada por um momento.
— O que você fez? — perguntou .
— Eu trombei nele quando fui à secretaria, mas pedi desculpas. — Eu o olhei meio sem entender.
— Bem, ele não é muito de aceitar desculpas. — Ele suspirou fraco. — Como eu disse, Prince Line se acham os reis da escola.
Bufei de leve, tentando não ficar revoltada. Não podia criar problemas, não no primeiro dia, o que meus pais pensariam? Eu era o orgulho acadêmico deles. Voltamos para sala para mais uma jornada e exercícios. pediu dispensa mais cedo, ele tinha que ir ao médico pegar uns exames para sua mãe. Passei o resto da aula tentando me concentrar nas tarefas de geometria e como iria preencher os relatórios de literatura, porém a gentileza do professor Han me fazia perder um pouco a noção do tempo e espaço. Assim como todo o restante das meninas da sala!
Quando me dei conta, já era 17:15. Todos da sala já haviam ido, quando o professor veio me chamar para a realidade.
— Ah! — disse, ao acordar do transe.
— Estava me ouvindo? — perguntou ele.
— Oh, desculpa, o que disse?
— Está na hora de ir. — Ele deu um sorriso.
— Ah, sim. — Eu curvei a cabeça. — Obrigada!
— Até amanhã. — Ele se afastou, pegou sua pasta e saiu.
Eu me espreguicei e comecei a guardar minhas coisas, quando meu estojo de lápis caiu. Senti que alguém havia pegado e esticado para mim. Eu peguei, agradecendo de forma despreocupada, e o guardei.
Quando olhei de volta...
— Você?
— Eu disse que voltaria. — estava sentado na mesa da frente, me olhando.
— Veio sozinho? — Eu olhei para porta e um dos seus amigos estava lá. — Ah, claro que não. O que você quer?
— Cobrar sua dívida. — Seu olhar era sereno.
— Dívida? — Eu o olhei indignada. — Te conheci hoje de manhã e já tenho uma dívida?
— Como eu disse, levei punição por sua causa. Você tem uma dívida comigo. — Seu tom sereno me deixava perplexa.
— Foi um acidente. — Eu me levantei e o olhei sério. — Não pode me culpar.
— Posso, a culpa foi sua. — Ele se levantou, se mantendo parado em minha frente, seu olhar tranquilo já estava me irritando.
— Não mesmo. — Eu peguei minha mochila e coloquei nas costas. — Se continuar me perseguindo, eu delato ao diretor.
— Eu sou o melhor aluno desta escola, meu pai é o dono e o diretor é meu tio, em quem acha que vão acreditar? E pior, poderão te expulsar por tentar espalhar conflito e difamar um aluno que só foi prejudicado desde o primeiro momento que você chegou aqui.
— Não acredito. — Eu respirei fundo, queria poder jogar ele pela janela.
— Te vejo amanhã então. — Ele caminhou até a porta. — Ah, diga ao seu namorado para não interferir.
— Ele não é meu namorado — disse num tom mais alterado.
— Que seja. — Ele piscou de leve novamente e saiu rindo.
Eu engoli seco aquelas palavras, não iria me curvar a ele, jamais.
“Você está em perigo
Você mexeu com a pessoa errada, saia daqui
Porque eu, porque eu sou perigoso.”
— Badman / B.A.P
“Apareço como o vento, desapareço como fumaça,
Enganando seus olhos
Me aproximo como uma pétala,
E desapareço como um espinho em direção ao seu coração.”
— Danger / Taemin
Como uma pessoa que eu conhecia a menos de um dia podia me deixar tão irritada com facilidade?
— Preciso ir para casa — disse, fechando minha mochila e ajeitando nas costas.
Peguei o celular e olhei novamente no aplicativo coreano de rotas e transportes que havia me passado, foi uma boa dica dele para que não me perdesse com tanta facilidade. A distância entre a escola e a estação não era tão grande assim, mas, para quem havia passado algumas horas sentada, seria uma bela caminhada.
— Boa noite, querida — disse mamãe da cozinha, ao ouvir o barulho da porta.
— Boa noite, omma! — Passei por Jini, que já estava com seus olhos pregados na televisão, jogando. — Você não cansa, garoto?!
— Não. — Ele riu.
Segui direto para o quarto, continuaria meus estudos por mais algum tempo revisando minhas anotações da aula e analisando as que havia me emprestado. Minha mãe veio até meu quarto com uma bandeja de lanche, estava tão concentrada em minha revisão que pensei em fugir das perguntas dela sobre o 1º dia de aula. E, como esperado, sua curiosidade sobre as novidades foram mais fortes.
— Trouxe seu lanche — disse, me fazendo parar de escrever, colocando a bandeja em cima de alguns papeis ao lado.
— Obrigada, omma. — Sorri de leve e olhei para o bolo de chocolate que me aguardava. — Foi ao mercado novamente?!
— Sim. — Deu alguns passos até a cama e se sentou. — Senti que faltava algumas coisas para comprar. Sabe como sou, não consigo me acostumar a comer fora.
— Mas aqui na Coreia é normal — comentei.
— Ahhh… E eu não sei?! — Me olhou com desapontamento. — Os preços são tão altos no mercado, mas eu gosto tanto de cozinhar.
— Então continue cozinhando. — Ri dela.
— Vamos mudar de assunto. — Sorriu com sutileza. — Estou curiosa sobre seu primeiro dia.
— Ai, mãe, não podemos deixar para depois? — indaguei. — Estava estudando.
— Pandinha. — Me olhou com carinho. — Me conte só as partes boas, então?!
Fiz alguns rodeios e tentei mudar de assunto novamente, porém acabei contando a parte sobre e o professor Han, que era o nosso vizinho. Assim que vi uma certa satisfação em sua face, pedi a ela para ficar sozinha, pois ainda tinha matérias para estudar. Consequentemente, passei o resto da noite colocando toda minha vida escolar no lugar. Percebi que nunca havia feito tanta anotação em um único dia de aula. A parte boa? O professor fofo e gentil. A parte má? Me peguei distraída com seu sorriso a aula toda.
Eu e todas as outras meninas da sala.
— , se concentre — me repreendi, ao desviar meu foco das anotações para meus pensamentos sobre a vida do professor Han. — Onde parei mesmo?! Hum...
Tentei me concentrar em absorver tudo o que tinha aprendido, contudo, a imagem de invadiu minha mente de forma inesperada.
— Garoto pabo… — sussurrei, me lembrando das suas provocações. — Acha que sou culpada, eu me recuso a aceitar ter uma dívida com ele.
Mantive meu olhar para o livro por um tempo.
Relutante em pensar sobre isso. Quando terminei meus estudos, já era alta madrugada, completaria mais uma noite de 4 horas de sono. E foram as melhores quatro horas que eu poderia ter. Revigorante e confortável aquela cama. Acordei bem quando o celular tocou e, mesmo não dormindo muito tempo, senti meu corpo leve e descansado. Me levantei, troquei de roupa, colocando meu uniforme, e fui para a cozinha tomar café.
— Que milagre não estar atrasada — comentou minha mãe, ao servir Jini. — Vi quando apagou a luz do seu quarto.
— A senhora estava acordada àquela hora?! — perguntei, permanecendo de pé e pegando um biscoito para comer.
— Acha mesmo que conseguiria dormir sabendo que estava acordada estudando?! — Me olhou como se tivesse demonstrando que sempre estaria preocupada comigo em qualquer situação. — E você, Jinho, também vi quando desligou o tablet e foi para a cama.
— Eu estava sem sono, omma — explicou nosso caçula.
— Sem sono. E criança nessa idade não tem sono? — retrucou, colocando a mão na cintura. — Ainda chegará o dia em que ficará sem toda essa tecnologia.
— Eita. — Ri da cara dele. — Já até te vejo nesse jejum, farei questão de jogar na sua frente.
— Yah. — Ele me olhou emburrado. — Sua chata.
Ri um pouco mais e terminei meu café, era divertido nossos momentos no café da manhã. Já que appa havia saído primeiro para um brunch de negócios, minha omma levaria Jinho para a escola e passaria na casa de um amigo da empresa do papai. A esposa do senhor Ong iria apresentá-la a algumas amigas. Já eu, saí tranquilamente para ir ao colégio. De acordo com meu cronograma, chegaria na hora exata, porém, quando você pensa que seu dia não vai te surpreender…
Me perdi na estação e peguei o metrô na direção errada.
Tinha que acontecer isso justo hoje, teríamos teste de aptidão na aula de educação física logo no 1º horário.
— Oh, não! — disse para mim mesma, tentando não chorar.
Peguei o metrô na direção certa, depois de esperar por quase 30 minutos. Fui correndo até chegar ao portão da escola, que já estava fechado.
— Senhor, por favor, me deixe entrar — gritei em desespero.
— Me desculpe. — O homem com cabelos grisalhos se aproximou. — Mas não poderá entrar.
— Senhor, esse é meu segundo dia, não posso ficar fora da escola. — Quase em súplica.
— Não posso fazer nada, criança, esse portão não abrirá. Da próxima vez, chegue mais cedo — aconselhou.
Esse era o propósito quando saí mais cedo! — pensei comigo.
— Por favor. — Segurei na grade, estava mesmo desesperada. — Peguei o metrô errado.
— Senhor Kim — disse alguém se aproximando. — O que está acontecendo?!
— Ah, jovem príncipe. — O senhor se virou e eu pude ver o rosto da pessoa. — É uma aluna que chegou atrasada.
— Interessante — disse , ao se aproximar mais. — Novata estrangeira.
— Oh não, você não. — Suspirei fraco, era o que eu menos queria naquele momento.
— Senhor Kim, esta aluna deveria estar em um lugar muito importante — comentou, de forma sugestiva.
— Jovem príncipe?! — Seu olhar confuso, não entendendo.
— Pode abrir o portão para ela, por favor?! — pediu, desviando o olhar para mim, com um sorriso presunçoso de canto.
— Não — gritei no impulso. — Eu prefiro a suspensão.
— Acho que não tem escolha, sua turma já está na quadra, e se não chegar, terá um castigo e tanto. Quer mesmo isso? Logo no segundo dia?!
— Droga — sussurrei. — Não. — Concordei com ele. — Não quero.
O senhor Kim abriu o portão e eu entrei. Parei frente a , que mantinha o sorriso debochado no canto do rosto. Ficamos nos encarando por alguns instantes até que.
— Acho que ainda está atrasada — disse, apontando para a quadra.
— Por que fez isso? — perguntei.
— Te vejo na biblioteca no primeiro intervalo. — Ignorou a pergunta e saiu andando em direção ao prédio das salas. — Ah, agora você me deve duas vezes.
— Yah! — Um grito preso soltou da garganta.
Gostaria de ter dado uma boa resposta a ele, mas estava mesmo atrasada.
Saí correndo em direção à quadra, aquela aula era importante para mim. Quando cheguei, levei uma bronca do treinador Lee, que me mandou ir correndo trocar de roupa. Assim, me troquei o mais rápido que pude no vestiário e saí correndo de novo para a quadra.
— Como conseguiu entrar? — perguntou , ao chegar perto de mim.
— Se eu contar, não vai acreditar. — O olhei.
— Me surpreenda.
— Uma palavra, mil sentimentos raivosos. — Respirei fundo. — .
— Como?
— Digamos que ele tem influências pela escola.
— Típico, só porque é filho do dono. — bufou, deu pra perceber sua frustração.
— Mais uma coisa para ele dizer que eu devo. — Suspirei fraco.
— Idiota — sussurrou, parecia mais revoltado do que eu.
Acho que não vou aguentar isso...
O professor nos mandou formar duas filas, uma de meninas e uma de meninos. Ele iria testar nossas habilidades para separar os alunos por esportes. Eu fiquei na modalidade do basquete. Na teoria, eu realmente era boa isso, ainda mais porque tinha assistido muitos jogos com meu pai na temporada que morei em Chicago, nos Estados Unidos. Já na prática… Era outra história.
— Mal começamos e já está cansada? — comentou , ao se aproximar de mim, rindo.
— Meu forte nunca foi educação física — expliquei, permanecendo sentada no chão da quadra. — Não consigo mais sentir minhas pernas.
— Não acha exagero? — Ele sentou ao meu lado.
— O professor Lee nos colocou para dar cinquenta voltas pela quadra. Não que eu seja uma sedentária, mas… — Suspirei fraco. — Já tive que correr para chegar a tempo.
— Você é mesmo fraca. — Continuou rindo, o que me fez empurrá-lo de leve.
— E você um bobo — reclamei, virando meu rosto para a direção de onde estava um grupo de meninas. — O que tem de errado comigo?
— O quê? — Me olhou confuso.
— Me pergunto o que tem de errado comigo — repeti.
— Por que teria algo de errado com você?! — indagou.
— Todos os meninos me trataram super bem desde que cheguei, mas só agora percebi que ainda não sou bem vinda pelas meninas — disse, mantendo meu olhar na direção delas. — Por isso me pergunto se tenho algo de errado.
— Deixe elas. Garotas são mesmo estranhas. — Riu do próprio comentário. — Uma hora elas se cansam e te aceitam.
— Não sabia que existia tanta rejeição… Só porque sou estrangeira. — Cruzei os braços. — Nem sou tanto assim, meu pai é coreano.
Ele riu de novo.
— Não se sinta chateada. — Deu uma breve pausa e se levantou, esticando a mão para mim. — Você tem a mim.
— O quê?! — O olhei.
— Disse que você tem a mim. — repetiu, continuando com a mão esticada. — Podemos ser amigos?!
— Claro. — Segurei em sua mão e, apoiada nele, me levantei com facilidade — Só espero que ninguém fique com ciúmes disso, já percebi que você também é popular.
— Onde que sou?! — Fez uma careta.
— Existem meninas que gostam de nerds. Além do mais, você é o presidente da turma. — Ri e brinquei. — Poderia até se candidatar para ser um Prince Line.
— Yah, Deus me livre, não quero ser arrogante como eles — reclamou, fazendo outra careta engraçada — Prefiro permanecer como estou, no anonimato.
Ri um pouco mais dele.
— Posso tirar uma dúvida?!
— Claro. — Assentiu ele.
— Se você é o presidente, quem é o vice?! — perguntei.
— Kim Yuri — respondeu ele. — Nossa medalhista em redação.
— Uau. — Me impressionou.
— É aquela com o livro na mão e cabelo amarrado com uma presilha verde. — mostrou, discretamente.
Ah! Justo a garota que não olhava na minha cara sempre que eu estava perto de . Bem… Quando eu estava longe, também agia assim.
— E vocês dois são namorados? — perguntei curiosa.
Para agir assim comigo.
— Não, somos amigos de infância apenas. — Segurou o riso de nervoso. — Por que a pergunta?
— Nada, é que vocês parecem ser muito próximos. — Disfarcei, já entendendo qual era a da Yuri. — Como um casal.
— Ah, não… — Pareceu sem graça. — O que você vê é somente a nossa amizade e nossos pais, são amigos também.
— Ela parece ser um pouco tímida, mas se dá muito bem com as outras meninas — observei.
— Ela é um pouco silenciosa, realmente. Sempre que estudamos juntos, não perde o foco com facilidade. — Seu olhar voltou para mim. — Você já tem um clube?!
— O quê?! Clube?!
— É! Na escola tem muitos clubes. Eu participo de dois, o de estudos e o de xadrez. — Pareceu reflexivo. — Você pode se juntar a nós no grupo de estudos. Vai te ajudar muito agora. Estamos eu, a Yuri, o Chang e a Holly, eles participam do grupo de leitura também, ajudam na biblioteca.
— Grupo de estudos… Hum, geralmente gosto de estudar sozinha, de preferência com fones no ouvido.
— Sério?! — O espanto estava em seu olhar. — Como consegue estudar ouvindo música?
— Não sei, acho que é costume, faço tudo ouvindo músicas. — Ri de leve. — Desde bebê, minha mãe me colocava para dormir ouvindo música e cantava para mim o dia todo, cresci com a música.
— Que loucura. — impressionado — Eu preciso de silêncio para conseguir estudar, sem isso não dá.
— Cada um com sua loucura. — Desviei meu olhar para as meninas se alongando. — Sinto que devo disfarçar estar participando, se não ficarei sem nota.
— Concordo. — Segurou em minha mão com respeito e me puxou até o colchão que estava estendido. — Vamos alongar, enquanto o professor Lee não volta.
Passaram-se algumas horas e finalmente havia chegado a hora do intervalo, eu fiquei em dúvida se iria ou não me encontrar com . Decidi não ir para mostrá-lo que não cederia às suas chantagens e loucuras sobre dívidas. Me sentei no pátio embaixo de uma árvore, estava com meu sketchbook desenhando um pouco.
— Quem você pensa que é? — Soou uma voz conhecida, parando em minha frente.
— Quem eu penso que sou? — Me levantei e o olhei firme. — Quem você pensa que é? Não cederei às suas vontades.
— Ah!? — Ele se aproximou mais de mim, eu recuei um pouco até encostar na árvore, seu olhar era um parcialmente intimidador, pude ver que não estava satisfeito com que eu tinha feito. — Corajosa. — Se aproximou ainda mais de mim, e podia sentir sua respiração. Nossos olhos encontrados. Possuía um olhar profundo que me fazia perder o foco. — Mas eu não aceito não como resposta. — Ergueu sua mão direita e tocou de leve em meus cabelos. Lentamente foi percorrendo sua mão pelo meu ombro, braço, até que chegou até meu sketchbook. — Da próxima vez, não se faça de difícil.
Foi em um piscar de olhos que ele pegou meu sketchbook e se afastou.
— Te devolvo no final da aula — anunciou, me deixando perplexa.
— O quê?! — sussurrei, tentando raciocinar o que tinha acontecido.
Estava paralisada com aquilo tudo.
Respirei fundo e senti um cheiro suave e doce, era seu perfume que ainda havia permanecido no ar. De repente voltei à realidade. Aquele garoto sabia como me deixar revoltada, e pior, me fazia querer devolver na mesma moeda suas chantagens. Assim que o sinal tocou, voltei para a sala e me sentei ainda querendo arrancar o pescoço dele. , que estava na porta de trás da sala, conversando com uma menina, veio até mim e se sentou na sua habitual carteira que ficava na minha frente, virando para trás em seguida.
— Está tudo bem? — perguntou, com um olhar preocupado.
— Não. — Resposta curta e direta, ainda estava irritada.
— Até imagino o por quê. — Seu olhar para janela.
Segui seus movimentos e vi em sua aula de esportes na pista de corrida, com seus amigos.
— Não quero falar sobre isso. — Virei minha face para o quadro, nem percebi que o professor Han já estava na sala.
— Então respire fundo, teremos mais longas horas de estudo — sugeriu, se virando para frente.
— Farei isso — concordei exatamente, ao respirar fundo.
A aula seguiu com explicações sobre capitalismo e a economia atual coreana. Enquanto apontava para as anotações que fazia no quadro, eu escrevia e fazia minhas anotações como de costume. Seria mais uma aula em que teria que escolher entre estudar ou tentar me acalmar. O professor Han era tão simpático e atencioso com todos, eleito o melhor professor de história de Daejeon pela secretaria de educação e pelos pais. Aparentava seus 30 ou 35 anos. Quem me dera se eu tivesse pelo menos uns 23 ou 25, não teria dúvidas em demonstrar minha admiração por ele. Será que tinha namorada? Ou esposa? Não deveria pensar nisso, não deveria nem mesmo me deixar viajar naquele olhar gentil que ele tinha, era uma aluna que deveria me focar nos estudos, afinal, teríamos uma importante prova na próxima semana e muitas matérias para absorver.
No meio da aula, senti como se estivesse injetando o Google Academics no meu cérebro, e uma leve dor de cabeça começou a me atrapalhar. As horas se passaram e, ao final da aula, após todos se despedirem e irem, novamente ao recolher minhas coisas e ajeitar a mochila nas costas, percebi que fui a última a deixar a sala. Passei pelo corredor tranquilamente, porém, quando cheguei às escadas, estava lá me esperando.
Encostado na parede, de braços cruzados.
— Novata estrangeira. — Deu um sorriso de canto.
— Meu nome é….
— — confirmou, me interrompendo. — Eu sei.
— Então por que insiste em me chamar assim? — O olhei meio furiosa. Detestava quando me chamavam de novata ou estrangeira.
— Porque gosto de ver você assim. Fica muito mais bonita quando está brava. — Deu um riso baixo. — Não diga isso ao seu namorado, ele pode ficar com ciúmes.
— não é meu namorado. — Mantive minha voz nivelada.
— Que seja. — Deu de ombros e olhou para trás. Era seu amigo dando sinal para irem. — Bem, eu não posso demorar agora, toma isso.
Esticou um papel.
— O que é? — Peguei o papel e li. — Trabalho de francês? — Eu o olhei. — Você não quer que eu faça, né?!
— Que bom que entendeu sem que tivesse que explicar. — Sorriso de canto.
— O quô?! — Tom indignado. — Eu não vou fazer.
— Vai, sim. — Ele tocou em meus cabelos novamente e retirei sua mão. — Soube que é boa em francês e preciso de pontos extras em línguas estrangeiras para acrescentar no meu currículo acadêmico. Além do mais, você ainda me deve duas vezes.
— Ok. — Queria acabar com aquilo. Duas dívidas significava que eu teria que fazer duas coisas. Não queria fazer, mas queria me livrar rápido dele.
— Sério?! — Me olhou surpreso. — Concordando assim tão rápido?!
— Quero me livrar logo de você. — Fui sincera e direta.
— Se você diz. — Piscando de leve para mim, desceu as escadas na minha frente.
— Yah!? — gritei.
— O quê? — Se virou.
— Meu sketchbook!
— Eu o perdi. — Seu olhar estava tranquilo.
— O quê? — Fiquei em choque, meus desenhos perdidos.
— Até amanhã, e não se esqueça do meu trabalho.
Ele saiu rindo.
Tudo que mais queria era rasgar aquela folha, porém isso seria mais uma desculpa para me perseguir. Não acreditava que tinha perdido meu sketchbook, meus desenhos. Desejava matar ele. Como uma pessoa que conheci há dois dias podia me deixar com tanta irritação?
— Calma, . — Respirei fundo. — Yahhh… — Comecei a raciocinar. — Se ele realmente perdeu, alguém achará e levará para o achados e perdidos, é uma regra da escola.
Havia decorado todas as regras da escola.
Cheguei em casa transpirando revolta, até minha omma percebeu que meu bom humor estava inativo. Me tranquei no quarto, não estava para mais ninguém, tinha tanto o que estudar, o professor Han queria dar um teste antecipado para testar nossos conhecimentos antes da prova mensal. Além do trabalho daquele tirano, filho da mãe, que eu teria que fazer. Como será que tinha descoberto que eu sabia francês? Isso não importava naquele momento. A cada tópico do trabalho dele, minha raiva aumentava, ainda mais quando me lembrava da forma que se aproximou de mim na árvore.
Pior. Daquele perfume que tinha bambeado meus sentidos.
— Vou me livrar de você, — sussurrei, enquanto traduzia o segundo texto do trabalho dele.
No relógio bateu meia noite e eu estava quase caindo da cadeira, acho que tinha cochilado sentada. Foi neste momento que minha mãe bateu na porta. Eu levei um susto tão grande que realmente caí.
— ?! Está tudo bem? — perguntou, demonstrando preocupação.
— Estou! — gritei, me levantando. — Estou indo.
Caminhei com dificuldade até a porta, minha bunda estava doendo.
— Ah, querida — disse omma, quando abri. — Trouxe um lanche, você ficou trancada aqui desde que chegou.
— Muitos deveres. — Peguei a bandeja que estava na sua mão. — Mas komaweyo omma.
Dei um beijo em seu rosto e fechei a porta em seguida.
Com certeza minha omma não entendeu nada, mas eu tinha muitos problemas que não queria falar com ela. Comi aquele lanche gostoso, acho que a melhor hora do meu dia estava sendo aquela, o que a comida não faz com meu humor. E, com isso, concluí a terceira noite em claro, e eu tinha certeza de que isso iria me deixar de mau-humor e louca o dia todo.
Amanheceu e tomei um banho relaxante, coloquei meu uniforme e fui para a escola, minha sorte era que finalmente tinha decorado o caminho e as estações que desceria.
“Me apaixonei por você,
Mas gostaria de ter pelo menos metade da sua personalidade
Em outras palavras, você é uma menina má,
Mas eu me sinto atraído por você.”
— Yeowooya / Lunafly
“Você é a garota que me deixa inquieto
sempre que te vejo.”
— Bad / Infinite
Desci as escadas correndo, juntamente com Junhae, que não parava de me perguntar o que eu queria com a novata estrangeira. Assim que chegamos ao portão, os outros já haviam ido embora, cada um tinha seu compromisso naquela noite, e Junhae havia me convidado para jogar um pouco na casa dele, já que sua mãe estaria de plantão no hospital.
— Chegamos — disse ele, assim que entramos no pequeno apartamento onde moravam, e jogou a mochila no sofá. — Acho que a omma deixou alguma coisa pra comermos.
— Ajumma Nya é daebak.
Riu, caminhando até a cozinha para vasculhar a geladeira. Se deparou com um enorme bilhete na porta dizendo que o jantar estava no forno, era só esquentar. Enquanto Junhae preparava nossa refeição, me joguei no sofá e abri minha mochila. Meu olhos foram imediatamente ao sketchbook dela, que falsamente tinha desaparecido.
— Vejamos o que tem aqui dentro — sussurrei, o retirando da mochila e abrindo. — Interessante.
Havia vários desenhos espalhados em páginas alternadas. A novata estrangeira tinha muito talento para artes, conseguia notar isso só de olhar para seus traços, ora delicados e bem contornados, ora rabiscados, porém extremamente detalhados. Senti meus olhos encherem de fascínio por cada página que olhava, sua beleza não estava somente nela, mas também em seus desenhos escondidos naquele sketchbook.
— Vem comer — disse Junhae, em voz alta, da cozinha.
— Estou indo. — Fechei-o e guardei novamente na mochila, estava curioso para folhear mais quando chegasse em casa.
— Uahhhh… Que fome — disse, já sentado na banqueta em frente à bancada de refeição. — Nem parece que almocei.
— Confesso que também estou sentindo um fundo no estômago. — Me sentei de frente para ele. — Yah… Ela fez sopa de algas com broto de feijão e pasta de peixe, minha preferida.
— Disse a omma que viria para o jantar — comentou. — Ela disse que fez com muito carinho, mas recebeu a ligação para voltar ao hospital.
— Aish… — resmunguei. — Vida de médico é complicado.
— Ela não é médica — corrigiu. — É enfermeira.
— Dá no mesmo, ambos não têm vida depois do diploma. — Meu argumento era válido.
— Verdade. — Concordou.
Comemos com todo prazer e fome que tínhamos, a sopa estava mesmo muito boa, fazer minhas refeições na casa dos meus amigos era a melhor parte do meu dia, após o final das aulas. Era a volta para casa que se tornava a parte mais difícil e desprezível.
— Você vai se inscrever no concurso de artes?! — perguntou.
— Por que faria isso?! — Nunca tive muita aptidão.
— Mais prêmios, mais méritos para o currículo acadêmico — explicou.
— Como se ganhar um concurso de artes fosse influenciar no meu currículo. — Ri de forma descontraída. — Sabe que meu curso é de exatas, nada de humanas e nada de ciências sociais aplicadas.
— Verdade. — Respirou profundo. — Seu pai quer mesmo você fazendo administração?!
— Sim. — Dei um suspiro cansado. — Tenho que aprender a administrar os negócios da família.
— Ah… Família… Me pergunto se as aulas extras que Mijun está fazendo darão resultados — comentou Junhae. — Ele não para de falar da noona, que parece k-idol.
— Acho que não. — Ri de leve. — Será dinheiro jogado fora se ele continuar atento somente às curvas da Nara sunbae.
— Aquela criança travessa. — Junhae riu também. — Se não tirar boas notas na próxima prova de destaque, seus pais vão linchá-lo.
— Vamos torcer que não, o ajuhssi é militar, certamente tem muita força para bater — comentei, imaginando a cena.
— Verdade. — Concordou.
Estava um pouco preocupado com meu amigo. Além de ser o maknae do Prince Line, seus pais eram militares e sua vida era ainda mais disciplinada que a minha em casa. O que me levava a pensar que com certeza serviria as Forças Especiais, assim como o ajuhssi, ou seria oficial médico do exército, como sua mãe.
— Cada um com seus problemas paternos — sussurrei.
— Falando em problemas paternos… Por que não dorme aqui hoje? — sugeriu ele.
— Não dá — respondi. — Já dormi ontem na casa do Hwang, preciso voltar hoje.
— Aigoo. — Suspirou fraco. — E como estão indo as coisas com seu pai? Ele já se acalmou?
— Eu bati a moto há duas semanas, escondi dele sobre isso, acha mesmo que passaria assim tão rápido? — O olhei. — Isso foi mais uma coisa para aumentar o peso sobre mim.
— Yah!!! A culpa também foi sua — reclamou com razão. — Não deveria dirigir enquanto está com raiva, você sempre fica cego quando briga com ele.
— Não pensei nisso, só queria me distanciar o máximo que conseguiria — expliquei, em minha defesa.
— E acabou fazendo idiotices. — Bufou. — Não quero perder meu amigo tão jovem. Além do mais, você será meu padrinho de casamento.
— Hum.
— Não quero ficar sem aquele presente caro que você prometeu me dar — brincou, rindo.
— Yah, seu interesseiro. — Fiz um gesto rápido de que iria bater nele com o hashi que segurava. — Estou melhor agora, ficarei sem dirigir por um tempo.
— Isso porque ele confiscou sua carteira de habilitação — observou.
— Não precisava me lembrar deste detalhe. — Mantive meu olhar na tigela de sopa. — Mas fiz uma promessa à minha mãe.
Deixei o tempo passar e aproveitei meu momento de tranquilidade, jogando algumas partidas de Warcraft com ele. Próximo de dar meia noite, recebi uma mensagem me lembrando que havia ordenado que chegasse em casa antes do dia terminar. Me despedi do meu amigo e fui para onde morava com meu pai. O pior lugar do mundo para se estar.
— Eu disse para voltar antes do dia terminar. — Seu tom era o mesmo de sempre, rude e frio.
— São exatamente onze e cinquenta e oito. — O olhei, deixando minha face fria também. — O dia não terminou ainda.
— Criança arrogante. — Se levantou da sua poltrona de estimação. — Acha que pode falar comigo nesse tom?
— E como quer que eu fale?! — Juro que tentei, mas meu olhar de ironia foi mais forte.
— Continue agindo assim que outras pessoas sofrerão as consequências — ameaçou.
Respirei fundo e engoli seco. Simplesmente odiava quando ele achava que me ameaçando conseguiria respeito de mim. Ajeitei a mochila em minhas costas e me virei para a escada que dava para os quartos. O prédio onde morávamos era luxuoso, dois apartamentos por andar, e, como o nosso ficava na cobertura, tínhamos o privilégio de ter dois pavimentos no apartamento. Ao passar pelo corredor da área íntima, percebi que a porta do quarto dele estava entreaberta, ouvi o barulho do chuveiro ao longe, certamente uma de “suas amigas” estava aqui, só não imaginava qual delas. Respirei fundo e continuei seguindo até entrar em meu quarto. Joguei a mochila no chão e já entrei no banheiro, retirando a camisa da escola. Após um banho quente que serviu para mudar o rumo de meus pensamentos, me deitei na cama. Fiquei olhando o teto por um longo tempo. Pensava em minha vida acadêmica e tudo que havia acontecido nos últimos dois dias, a escola este ano aparentemente seria tão chata, até que ela apareceu. Confesso que foi proposital ter trombado nela na secretaria. Estava tão distraída mexendo na mochila que nem me viu me aproximar.
Aquela novata estrangeira.
— Meu nome é — disse, a imitando enquanto ria baixo. — Como uma garota pode ficar tão linda quando está brava?! Mas ela já é linda!
Era engraçado perturbá-la.
Seu rosto ficava mais iluminado quando deixava transparecer a raiva, e como ela ficava com raiva tão fácil perto de mim! Me espreguicei e levantei lentamente, pensando em seu rosto quando disse que tinha perdido seu objeto, então fui até minha mochila, abri e retirei o sketchbook dela.
— Então agora vamos ver o que mais tem aqui — disse, indo até minha cama novamente.
Me deitei meio inclinado, encostando minhas costas na almofada, comecei a folhear de onde parei. Nem mesmo senti sono olhando cada página desenhada, o que resultou em um longo tempo apreciando cada desenho dela. Ela tinha talento para desenho artístico. Fechei o sketchbook e o coloquei na mesa de cabeceira do lado. Peguei meu celular e abri o kakaotalk. Tinha algumas mensagens no grupo de conversa Prince Line. Ignorei um pouco os comentários do Junhae, contando aos outros sobre eu ter pedido a ela para fazer meu trabalho de francês.
Bem, eu já tinha feito aquele trabalho, porém fiquei curioso para saber como ela reagiria se eu pedisse, só não imaginava que ela faria, e isso me deixou impressionado, o que me levou a pensar no meu próximo pedido. Queria algo que me fizesse ficar mais tempo perto dela. Felizmente, essa ideia de dívidas foi genial da minha parte. Voltei para a página inicial do kakaotalk e fiquei olhando para o nome dela.
Será que eu deveria mandar uma mensagem de boa noite?
— Hum. — Me espreguicei um pouco. — Acho que vou dormir.
Coloquei o celular ao lado do meu travesseiro e me deitei direito, me cobrindo com o lençol. Fechei meus olhos, sorrindo um pouco, estava curioso pelo dia seguinte.
• : off
“Meus pensamentos são muito para você, eu não sei o que fazer
O que eu vou fazer comigo mesmo?
Você tem que algo que eu preciso.”
— Seeing You Or Missing You / Lunafly
Consegui chegar cedo à escola!
Primeira má notícia do dia?
Quando cheguei à porta da sala, já estava me esperando.
Respirei fundo ao vê-lo, acho que em minha mente eu conseguia ver sua morte em 100 maneiras diferentes. Ele estava encostado na parede, de braços cruzados, me olhando.
— Aqui está, formatado e impresso. — Estiquei uma pasta para ele.
— Nossa. — Pegou, admirado. — Além das minhas expectativas.
— , que bom que já chegou — disse , se aproximando com algumas folhas na mão. — Você me ajuda a colocá-las em cima das mesas?
— Claro. — O olhei, pegando as folhas. — Claro que ajudo, .
— Bom dia, — disse , com um tom irônico.
— Bom dia, . — A voz de se manteve firme, porém no seu tom baixo e habitual.
— Se nos dá licença, temos algo a fazer — disse ao indesejado.
— Hum... — deu uma risada debochada. — Vou deixar o casal a sós.
— Idiota — resmunguei meio estressada com ele. — Não somos um casal.
— Se você diz. — Ele se afastou da parede. — Te vejo na quadra no intervalo.
Saiu andando com tranquilidade. Respirei fundo, controlando minha raiva.
— Qual é a dele?! Idiota — murmurou .
— Ai, que raiva. — Eu bufei. — Me desculpe, .
— Não precisa se desculpar. — Segurou de leve em minha mão e sorriu. — Fique calma, ele não merece isso.
— Obrigada. — Dei um sorriso fraco. era tão gentil comigo, ao contrário do , me sentia bem ao lado dele.
— Então, me ajuda?! — Ergueu as folhas.
— Claro. — Assim que entramos, o ajudei a distribuir as folhas em cada carteira.
— O que está acontecendo? — perguntou Yuri, ao entrar na sala com mais uma menina, certamente do clube de estudos.
— Ah, Yuri, já chegou. — a olhou surpreso. — Disse que chegaria atrasada por causa da sua mãe.
— Consegui chegar na hora. — Pela primeira vez, ela desviou o olhar para mim. — O que ela está fazendo?
— Ah, pedi a para me ajudar a distribuir essas folhas antes de todos chegarem — explicou .
— Este é o meu dever. — Yuri veio até mim e pegou as folhas. — Agradeço, mas eu sou a vice da sala.
— Tudo bem, só estava ajudando um amigo — disse, recuando um pouco.
Aquilo confirmava minhas suspeitas.
Yuri gostava de e certamente tinha ciúmes de mim. Preferi não criar mais desconforto para mim, já estava cansada demais por causa da minha noite mal dormida. Assim que sentamos, o professor Han entrou na sala, juntamente aos outros alunos, nossa aula de história seria sobre a guerra do Vietnã. Após algum tempo, percebeu que eu estava passando mal e pediu ao professor para me levar à enfermaria. Andamos lentamente pelos corredores até chegar, realmente estava com a pressão baixa e meio zonza. Será que era estresse demais? Quando cheguei, só consegui ver a luz da enfermaria e logo tudo se apagou. Ao abrir meus olhos novamente, já estava deitada na maca que tinha lá, tomando soro na veia.
As coisas pareciam mesmo preocupantes.
— Você está melhor agora? — perguntou , sentando ao meu lado.
— Oh! — Eu o olhei. — Acho que sim, ainda estamos na escola?
— Sim, a enfermeira foi reportar ao diretor. — Estava segurando em minha mão, como era doce e gentil.
— Obrigada por ter ficado comigo. — Demonstrei gratidão.
— Eu até gostei de ficar aqui. — Manteve a ternura no olhar. — Você sorri enquanto dorme.
Senti minhas bochechas corarem de vergonha.
— Por quanto tempo fiquei apagada?
— Umas duas horas. — Levantou minha mochila. — Enquanto a enfermeira estava cuidando de você, peguei nossas coisas na sala.
— O que a enfermeira disse?
— Que talvez deva ser estresse ou exaustão por causa da sua nova rotina. Como é seu terceiro dia aqui, seu corpo ainda não se acostumou — explicou.
— Hum, pode ser mesmo. — Desviei meu olhar para a porta e lá estava ele, encostado na parede, de braços cruzados: a causa dos meus problemas. — !?
— Você está bem? — Entrou sem ser convidado, vindo em nossa direção. — A escola inteira está comentando.
— O que está fazendo aqui? — perguntei.
— Vim ver se estava bem. — Seu olhar estava mesmo de alguém preocupado.
Me impressionou.
— , eu vou buscar algo para você comer. A enfermeira disse que precisaria se alimentar ao acordar. — soltou minha mão lentamente, era como se ele não quisesse se afastar. — Eu já volto.
— Espero que não fique com ciúmes se eu ficar aqui até voltar — disse , num tom de provocação.
— Nós somos amigos, mas isso não é da sua conta. — se afastou e saiu. Era impressionante, até mesmo uma resposta rude parecia tão sutil ao sair dele.
— Já disse, ele não é meu namorado. — O olhei séria.
— Se você diz. — permaneceu parado em minha frente. — O que aconteceu com você?
— Você aconteceu — sussurrei, olhando para a janela. Respirei fundo. — Estresse, meu corpo reagiu assim.
— Parece que não dorme há dias — comentou.
— Está tão visível? — O olhei.
— Sim — respondeu, e sorriu de canto. — Mas até que, mesmo com olheira, você continua bonita.
— Hum. — Tentei ignorar aquilo que parecia um elogio. — Acho que ainda não me adaptei ao ritmo escolar coreano.
— Tenho certeza de que seu namorado irá te ajudar.
— Já disse que ele não é meu namorado. — Elevei a voz involuntariamente.
— Não é o que parece, não da parte dele... Mas enfim, espero que melhore. — Um passo se afastando, caminhou até a porta. — Logo teremos um baile de primavera.
Baile de primavera? O que ele queria dizer com isso?
Assim que saiu, voltou com uma bandeja nas mãos, havia levado um sanduíche, suco de laranja e maçã. Eu comi meio que sendo incentivada por ele. Logo na hora de ir para casa, meus pais foram me buscar. Antes conversaram com o diretor, o professor Han e a enfermeira. Acho que tinha ganhado o direito de ficar em casa por dois dias. O lado bom era que o professor Han iria me explicar as matérias na minha casa à noite, e eu ficaria dois dias sem na minha vida. Me despedi de antes de entrar no carro do appa, minha omma o convidou para jantar em nossa casa no sábado e, mesmo ele ficando com vergonha pelo convite, percebi seus olhos brilharem um pouco. Comecei a me perguntar se estaria certo e estaria interessado em mim.
, por que, a cada 10 pensamentos, 9 envolviam ele?
“Agora na minha frente existem duas pessoas brilhantes
E eu que estou agindo pobremente
Embora eu tente me repreender por ser um idiota
Meu coração continua se curvando na sua direção.”
— Aside / SHINee
“Eu preciso de você, garota
Por que eu me apaixono e
digo adeus sozinho?
Eu preciso de você, garota
Por que eu preciso de você mesmo sabendo que vou me machucar?”
— I Need U / BTS
Estava feliz por ter sido convidado pela mãe dela.
Nos conhecemos há três dias e não conseguia deixar de me sentir atraído pela sua simpatia e amizade. era uma garota que despertava muita curiosidade em mim e queria realmente conhecê-la mais, passar mais tempo mergulhado em nossas conversas descontraídas. Os intervalos no pátio eram tão cheios de assunto, ela falava sobre tudo, até mesmo a Champions League da UEFA, algo novo para mim, uma menina saber tanto sobre futebol. Confesso que me sentia irritado toda vez que se aproximava, ele e sua arrogância de sempre, principalmente hoje na enfermaria foi ainda pior.
Será que estaria interessado em ?
Não, ela era muito boa para ele!
— Espero que não fique com ciúmes se eu ficar aqui até voltar — disse, imitando a voz dele, fazendo uma careta. — Idiota.
— Falando sozinho, querido?! — perguntou minha mãe, ao adentrar a sala.
— Não, só estava pensando alto.
— Quer parar os estudos e ir comer alguma coisa? — sugeriu. — Com a barriga vazia a mente não funciona.
— Vou daqui a pouco, sem falta. — Assenti, abrindo mais uma vez o livro de física. — Só preciso terminar uma conta que comecei.
— Estou indo dormir primeiro. — Se aproximou e deu um beijo de leve em meu cabelo, de forma carinhosa. — Não faça muito barulho quando for comer e ir dormir, seu pai já está dormindo também.
— Sim, senhora. — Fiz um gesto de continência e sorri. — Serei silencioso.
Ela sorriu de forma gentil e seguiu pelo corredor dos quartos.
Voltei para a folha do caderno e logo me vieram algumas reflexões sobre falar que namorávamos desde o primeiro dia dela na escola. Isso me irritava um pouco, mas, olhando agora, não era um comentário ruim. era de uma beleza simples, mas um sorriso de gravar na memória, seu olhar profundo tinha uma ponta de brilho, sua voz doce, porém firme. Inacreditável uma garota gostar de games e mangás como gostava.
Única e especial.
• : off
Quando chegamos em casa, seguimos para a cozinha.
Estava com muita sede. Foi neste momento que o sistema de interrogações da minha mãe ativou, parecia muito animada com a ideia de jantar em nossa casa. Mais ainda por sua filha ter encontrado um amigo legal que pudesse cuidar dela, o que a motivou a querer saber sobre tudo, como começamos a conversar, como ele era comigo, se ficávamos perto no intervalo...
— , deixe se ser discreta e vai falando mais sobre seu amigo. — Insistiu novamente.
— Já disse, mãe, ele só é um garoto legal que está me ajudando nos estudos, um bom amigo — expliquei. — Além de ser o presidente da turma.
— Só amigo?
— Só amigo! — Ri, ajeitando minha mochila nas costas. — Vou descansar um pouco.
— Vá, sim, já que não quer me contar mais, ficarei aqui sozinha, sem assunto, preparando o nosso jantar. — Naquele tom dramático.
— Quanto drama. — Saí rindo em direção ao meu quarto.
— Não é drama, são sentimentos de uma mãe — retrucou, gritando da cozinha.
Curiosidade era o sobrenome da minha mãe.
O que me deixava impressionada com ela, mas eu havia dito realmente a verdade e o que importava, era sim um bom amigo para mim. Logo que entrei no quarto, coloquei a mochila nos pés da cama e me espreguicei, estava mesmo cansada. Após um banho quente, só conseguia pensar em me jogar na cama e dormir, mas a fome estava lá para me lembrar que deveria comer algo antes. O lado bom da minha família, eles respeitavam nosso espaço e silêncio. Mesmo com suas curiosidades, minha mãe nunca avançava o sinal e sempre me dava liberdade para falar com ela quando quisesse. Me respeitando, nem tocou mais no assunto do e nossa amizade. O jantar foi tranquilo e cheio de informações sobre o rendimento escolar de Jinho e sua futura excursão ao zoológico.
No dia seguinte, acordei na metade do dia.
Fazia tempos que isso não acontecia. Me levantei, espreguiçando. Uma esplêndida noite de sono, desfrutada com sucesso. Ao chegar à sala, vi um bilhete da omma deixado na mesa de centro, meu almoço se encontrava no microondas. Comi com deleite e voltei para o quarto. Peguei meu celular e notei uma mensagem de no kakaotalk, nós tínhamos trocado os contatos para nos comunicar melhor. Nossa sorte era que estava no horário do intervalo, trocamos algumas mensagens.
“como está tudo aí?” — perguntou ele.
“bem, acabei de acordar e fui comer.”
“sortuda.”
“e você?”
“aqui, eu estou fazendo cálculos de matemática.”
“que tristeza”
“o professor perguntou se estava melhor”
“que fofo da parte dele”
“ele ficou preocupado, todo mundo ficou”
“diga a todos que estou bem agora.”
“vou dizer, sim, estou fazendo muitas anotações para te emprestar”
“komawo *-*!”
“tenho que ir agora, se recupere bem!”
“vou, sim, só preciso dormir mais! kkkkkkkkk”
Ri de leve da última parte.
Deixei meu celular em cima da cama e liguei o meu notebook. Coloquei minha playlist do EXO para tocar enquanto desenhava um pouco em algumas folhas brancas soltas. Quando a noite chegou, appa e omma chegaram juntos com Jinho, não demorou muito e o professor Han tocou em nossa porta. Ele estava com sua maleta, sentamos na mesa do jantar, e ele começou a me passar toda a matéria dos dois dias, me explicando de forma rápida e superficial os pontos mais importantes. Como sempre, eu passei 50% do tempo admirando aquele sorriso tímido que ele tinha. Passou um tempo até que ele recebeu uma mensagem, tivemos que acelerar as últimas tarefas, e ele se foi. Após o jantar, ajudei omma com a louça suja, nós conversamos mais um pouco sobre minha saúde. Quando terminamos, voltei para meu quarto e fui dormir.
Amanheceu o dia, uma linda sexta-feira de chuva. Felizmente, eu amava o clima chuvoso e não iria à aula também. Isso, sim, era boa notícia. Ajudei omma a organizar a casa, meu appa traria um amigo de infância para o jantar de hoje. Já não bastava ela estar ansiosa pelo jantar com o , mais do que eu por sinal, graças ao appa, hoje também teríamos visitas. As horas se passaram, e à noite os convidados do appa chegaram com ele. Eu ainda estava no meu quarto me arrumando. Coloquei uma regata branca com uma camisa xadrez vermelha e um jeans surrado, aquele era meio que um estilo que eu vestia muito em Londres. Saí do quarto e, quando entrei na sala, meu corpo congelou na hora, havia um rosto conhecido sentado entre as almofadas com meu irmão, jogando Xbox.
Um rosto que não esperava ver tão cedo.
— Ah, aqui está minha princesa — disse meu pai, dando um largo sorriso. — DongHo, esta é minha filha, .
— Prazer, senhor. — Sorri de leve e me curvei em cumprimento.
— Que jovem simpática. — O homem me olhou com gentileza. — E bonita.
— E aquele é , seu filho. — Appa apontou para ele.
— Annyeonghaseyo. — Me curvei formalmente novamente, ainda não acreditando no que presenciava, mas iria agir como se nada tivesse acontecido entre nós.
— Boa noite. — Em cumprimento, se levantou e caminhou até nós. — Já nos vimos na escola uma vez.
Uma vez?!
Ok, segue o fluxo! Também iria ignorar brevemente o que estava rolando nos bastidores.
— Ah, então já se conhecem. — Minha omma me olhou sorrindo, seus olhos estavam felizes.
— , vamos terminar nossa partida — protestou meu irmão, vendo que toda a atenção estava sendo voltada para mim.
— Claro. — sorriu de canto e voltou para onde estava sentado.
— Fiquem à vontade. — Minha omma pegou em minha mão. — Vem, querida, me ajude a colocar a mesa.
Eu segui minha omma até a cozinha, demoramos um pouco para colocar os pratos e as travessas com comidas, omma chamou eles e nos sentamos todos à mesa. Nossa mesa era redonda de vidro, sentou justamente de frente para mim.
Aquele idiota de sorriso nebuloso, notei que não parava de me olhar.
“Quanto mais você me perturba
Mais eu gosto de você
E eu não sei porquê.”
— Yeowooya / Lunafly
— Bonita a decoração — disse , ao chegar à porta.
— Minha mãe tem bom gosto. — Mantive minha atenção nos prédios iluminados.
— Conseguiu voltar ao normal? — Caminhou até mim e debruçou um pouco no guarda-corpo que era de vidro.
— Longe de você — o olhei — tudo fica perfeito.
— Yah… Quanta sinceridade. — Seu olhar tinha traços de alguém meio ofendido. — E só temos três dias.
— Irônico, não é?
Ficamos parados nos olhando por um tempo, até que seu pai o chamou para ir.
— Nos vemos na segunda — disse, com um sorriso de canto. — Te desejo boa prova.
— Cínico — sussurrei.
— Ah! — Se virou. — Você ainda tem uma dívida.
Eu desviei meu olhar, engolindo seco.
Não queria mais olhar aquele sorriso pretensioso dele. Fui para meu quarto, troquei de roupa e me joguei na cama. O sono veio com a mesma rapidez que as horas se passaram. Eu mal comecei a sonhar e já estava na hora de levantar. Bem, aquilo não era um sonho, estava mais para pesadelo. Sonhei que estava fazendo uma prova para aquele idiota do , ainda não acreditava como uma pessoa conseguia me irritar tanto como ele.
Sábado à tarde, levei meu irmão ao parque, nunca o vi tão sociável quanto aquele dia com as crianças que estavam lá. Nos divertimos bastante, até que recebi uma mensagem da omma, nos mandando retornar. Quando chegamos em casa, Jinho foi correndo para o banho, e eu enviei o endereço do apartamento para , havia esquecido. Ele chegou sozinho, seus pais tinham viajado. estava tão diferente, bonito e descontraído sem o uniforme da escola. Vestia uma camisa do Hillsong United, uma calça jeans meio rasgada na região da coxa e all star preto.
O sorriso gentil e carismático era o mesmo.
— Que bom que não se perdeu. — Sorri para ele. — Fiquei preocupada, não sabia explicar direito o caminho.
— Não se preocupe, nada como o google maps para ajudar. — Riu e entrou.
— Omma! — Fechei a porta. — chegou.
— Oh! Que bom, bem na hora. — Minha omma o abraçou de leve. — Que bom que veio, fico feliz que tenha arrumado um amigo.
— Bem, é um pouco difícil não ser amigo da sua filha. — Ele me olhou, senti um certo carinho naquele olhar.
— Você que é muito gentil. — Sorri, devolvendo o elogio dele.
— Hum. — Meu pai tossiu de leve, se levantando do sofá. — Estamos mesmo felizes por ter vindo.
se curvou em agradecimento, sua educação era admirável.
O jantar foi tranquilo, appa sempre perguntando como eu me comportava em sala de aula, e me elogiando com um disfarçado sorriso. Omma tinha preparado um jantar meio italiano e muito saboroso. Depois que comemos, eu e juntamos os pratos e levamos para cozinha, ele se ofereceu para ajudar a lavar a louça. Fiquei admirada com isso. Conversamos sobre os acontecimentos na escola durante os dias que eu estive fora.
— Vou ser sincero, está meio chato sem você. — Sorriu timidamente. — Ainda mais as aulas de literatura.
— Sério? — O olhei chocada. — Agora me deixou surpresa.
— Claro, você disse que citaria alguns poemas para mim, fiquei cheio de expectativas para isso. — Fez cara de chateado.
— Que dó, me desculpe, , mas eu realmente precisava ficar em casa. Foram férias forçadas, porém merecidas.
— Te dou um desconto só se entrar no clube de leitura. — Em sua barganha.
— Ah, ainda estou pensando sobre os clubes. Eu vi que tem um de arte e desenho, me interessei um pouco — expliquei minha demora em decidir.
— Se é o que gosta, acho que deveria entrar nos dois. — Riu.
— Vamos ver, vou pensar direito. Não tem nem uma semana direito que cheguei, ainda me sinto meio perdida em tudo isso. — Suspirei fraco.
— Se precisar de um guia, estou aqui. — Se prontificou. — Amigos são para isso.
— Você é um amigo muito fofo! — Sorri com gentileza. — Obrigada pela ajuda, vou mesmo precisar!!!
Ele também me contou sobre os boatos que foi visto aos beijos atrás da quadra com uma menina do segundo ano, aposto que se eu tivesse lá, ele ficaria me perseguindo com a desculpa da dívida. retirou seu caderno na mochila e me emprestou para que eu pudesse colocar em dia tudo que tinha perdido. Antes de ele ir embora, minha omma entregou uma pequena vasilha com a sobremesa para que ele levasse para seus pais.
--
• : on
Foi pura sorte tê-la visto naquele parque pela manhã.
Mesmo não a deixando me ver, fiquei de longe observando-a brincar com seu irmão. Aquele foi um momento raro em que pude vê-la sorrindo espontaneamente, e seu sorriso me encantava de uma forma inexplicável. Meu coração acelerou ainda mais. Naquela noite de sábado, me reuni com a Prince Line na casa de Junhae, estávamos fazendo nosso mensal campeonato de Starcraft. Mesmo sendo meu jogo favorito, havia algo me incomodando, eu estava sentindo falta de alguma coisa.
— Parece que alguém aqui não está entre nós de fato — comentou Hwang, jogando a almofada em mim.
— Está pensando na notava estrangeira?! — sugeriu MiJun.
— Yah!! — Peguei a almofada e joguei nele. — O nome dela é , e só eu posso chamá-la de novata estrangeira.
— Hummmm…. Estava pensando nela — constatou Junhae.
— YAHHHHH… Pare você também, não estava…
— Estava, sim, seus olhos estavam brilhando, mais ainda que no dia que comprou sua moto. — MinSoo riu de mim. — Confesse logo.
— Confessar o quê?! — O olhei confuso.
— Que foi amor à primeira vista e está apaixonado — explicou ele.
— Claro que não, não estou apaixonado por ela. Por que estaria?
— Negou demais. — Junhae soltou uma gargalhada estranha, fazendo os outros rirem.
— Não estou negando, só estou…
— Hyung, você está apaixonado, só não percebeu ainda. — MiJun me olhou, suas palavras pareciam sinceras.
— Desde quando você sabe sobre o amor?
— Desde que conheci a Nara noona, porém sei que nunca serei correspondido, então prefiro esquecê-la — respondeu.
— Aish, sua criança. — Joguei a outra almofada nele.
Voltei meu pensamento novamente para .
Logo me senti desanimado e sem vontade de fazer nada. Mesmo gostando de estar entre meus amigos, que considerava irmãos, não estava feliz naquele lugar. Certamente aquele sentimento era o fato de não vê-la na escola, um pouco de culpa interna por irritá-la demais. Pensar que teria ficado mal por minha causa me deixava ainda mais agoniado.
“Por que as pessoas que gosto se machucam comigo?!”
Pensei comigo mesmo. Talvez fosse aquilo que me impedia de querer assumir algum sentimento por ela, não queria machucá-la.
— Estou indo primeiro — disse, me levantando do sofá e pegando minha mochila.
— A omma está fazendo o jantar, não vai esperar? — perguntou MinSoo.
— Não, preciso chegar mais cedo hoje. Se divirtam por mim. — Me dirigi para a porta.
Meus amigos entendiam que quando eu precisava chegar mais cedo, realmente não podia me atrasar ou levantar a fúria do meu pai, tínhamos nos dado uma trégua por causa do jantar na casa de . Tive que dar meu braço a torcer só para poder ir lá. Que coisa mais boba da minha parte, mas vê-la naquele dia foi como recarregar minhas energias.
— Yahhh… Não posso me apaixonar por você — sussurrei, enquanto caminhava pela rua. — Você é boa demais para mim!
Sim, ela era!
Assim que cheguei ao apartamento na cobertura do meu pai, o encontrei conversando com uma “amiga” na sala. Virei meu rosto, não demonstrando interesse, subi as escadas e me tranquei em meu quarto. Definitivamente não queria sermões naquela hora, já estava antes das dez da noite em casa, então não haveria reclamações quanto a isso. Fiquei alguns minutos jogado na cama, olhando para o teto, pensando qual poderia ser minha próxima forma de cobrar a suposta dívida.
— Desta vez tem que ser alguma coisa mais demorada — sussurrei, ao olhar para o relógio na escrivaninha.
Havia passado mesmo muito tempo afogado em meus pensamentos, todos se resumindo a uma única pessoa. Era divertido fazer tudo aquilo.
• : off
“Meu dia está cheio de você depois de conhecer você
Vendo você ou sentindo sua falta
Meus pensamentos são muito para você, eu não sei o que fazer.”
— Seeing You Or Missing You / Lunafly
“O curso de tudo se interrompe apenas com o tocar de seus dedos
Parece que eu vejo você por onde quer que eu passe
Você é a resposta,
E eu não consigo voltar atrás agora
Eu não consigo me parar,
Eu apostarei em você.”
— Bad / Infinite
Visitamos a igreja J-US Ministry, onde um outro amigo do appa era pastor. O lugar era bonito e muito bem decorado, havia um jardim na lateral do templo que tinha alguns desenhos grafitados pelos jovens da igreja no muro, desenhos representando algumas histórias da Bíblia. Fiquei impressionada com a riqueza de detalhes nos desenhos. Na hora do almoço, fomos convidados por esse amigo para participar da refeição em sua casa. Ele tinha uma esposa super simpática e um filho de 9 anos. Passamos a tarde em sua casa. Como sempre, enquanto todos os adultos conversavam na sala, eu fiquei com meu irmão e o pequeno MiNam na sala de tv, jogando PS3. Voltamos ao final da tarde, afinal, a vida acadêmica não tirava férias e ainda tinha que estudar para a prova de segunda, e foi o que fiz, até que minha mãe me mandou ir dormir, ameaçando cortar a energia do meu quarto.
Assim terminou meu final de semana, mais ou menos divertido.
— 6 horas da manhã / segunda-feira
Acordei assustada com o despertador do celular tocando. Me veio um alívio por não estar atrasada, deu tempo até para o café da manhã. Quando cheguei à escola, fui direto para a sala. já estava na porta me esperando.— Meus pais pediram para agradecer pela sobremesa.
— Ah, não foi nada. — Entramos e me sentei no meu lugar. — Minha omma adora sair distribuindo doces para os amigos.
— E como foi o domingo? — Ele se sentou de lado e ficou me olhando.
— Almoçamos na casa de um amigo do meu appa. Foi legal, estudei um pouco à noite.
Não demorou muito e o professor Siwon entrou na sala e com uma boa notícia, nossa prova de destaque havia sido adiada para terça-feira da próxima semana. Fiquei feliz, pois teria mais tempo para absorver aquela triste matéria de logaritmo, que estava me dando preocupações. Desta vez, a aula foi produtiva, acho que dois dias a mais em casa me descansaram muito e, mesmo que me distraísse imaginando como seria um encontro impossível com o professor Siwon, consegui entender tudo que ele havia anotado no quadro. E quanta matéria, cheguei até cogitar a ideia de fotografar em vez de escrever no caderno.
Finalmente o sinal tocou e fomos liberados para o intervalo.
— Vamos sentar no pátio hoje? — perguntou , colocando sua mochila nas costas.
— Ah, não. — Eu o olhei. — Eu vou à biblioteca primeiro, se não se importa, mas pode me esperar em alguma mesa.
— Se quiser, posso ir com você.
— Não precisa, sério. — Eu segurei firme os livros que estavam em minha mão e me aproximei dele, dando um beijo de leve em sua bochecha. — Te vejo daqui a pouco.
Eu o deixei sem reação, isso era um fato, mas tinha que passar na biblioteca sozinha, já que o idiota do tinha me mandando uma mensagem que estaria me esperando lá. Como será que ele descobriu meu id no kakaotalk? Até aquele momento, eu não tinha entrado na biblioteca. Fiquei surpresa com tamanha organização, meus olhos brilharam, até que uma certa pessoa se aproximou.
— Pensei que não viria — disse , parando ao meu lado.
— Se eu não viesse, me buscaria. — Eu o olhei. — Então, como vou quitar a última dívida?
— Hum. — Ele me olhou tranquilamente, aquele olhar era profundo e tinha um charme que me dava raiva. — Eu tenho um teste de francês e…
— Quer que eu faça pra você?
— Bem. — Ele sorriu de canto. — Eu não tinha pensado nisso. — E rindo. — Queria que me ajudasse a estudar.
Hum?! Fiquei sem reação em todos os sentidos. Achei mesmo que fosse uma pessoa que levasse vantagem sobre os outros, mas, olhando assim, ele parecia uma pessoa diferente do que aparentava, como se escondesse algo por trás do status de filho do dono da escola.
— Minha ajuda? — Ainda não conseguia digerir aquilo.
— Está surpresa? — Riu mais um pouco. — Não sou tão mercenário assim.
— Ha...ha...ha… — Eu caminhei até uma estante e fiquei olhando entre os livros.
— Então podemos começar no final da aula. — Ele se aproximou de mim. — Prometo te levar para casa.
— Abusado — eu sussurrei. — Tenho outra escolha?
— Bem, se você quer saldar sua dívida! — reforçou ele.
— Tudo bem, no final da aula começamos. — Voltei minha atenção aos livros, guardando minha indignação para mim.
Não acreditava que iria passar alguns dias ensinando o básico de francês a ele. Durante aquela semana, todos os dias, no final da aula, eu e nos encontrávamos na biblioteca para estudar francês. Eu ainda achava aquilo tudo uma loucura, contudo, ele se mostrava atento a cada ensinamento e dica que eu dava.
“Quando eu me ver durante estes tempos
Eu sinto que eu realmente sou jovem
Mesmo com você na minha frente
Eu não sei o que fazer
Pessoas apaixonadas me digam por favor.”
— Hello / SHINee
Quando cheguei à frente de sua casa, toquei a campainha e fiquei esperando no portão, que era de grade. Do lado de fora, dava para ver o pequeno jardim estilo oriental do lado de fora da casa. Havia um caminho de madeira no estilo de um deck até a porta da casa, eu reconheci algumas plantas e fiquei encantada com outras. Havia uma árvore bonsai dentro de um vaso de porcelana ao lado da porta e uma fileira de bambus plantados nas duas paredes laterais da casa, era um jardim muito harmônico, que me despertou um forte desejo de desenhá-lo. Não demorou muito e abriu a porta com um sorriso de canto no rosto. Vindo em minha direção, abriu o portão, me deixando entrar. Assim que eu entrei, me curvei um pouco, em cumprimento. Logo olhei disfarçadamente para uma das janelas do segundo andar, então vi uma mulher que aparentava ter seus quarenta anos.
Entramos em silêncio, e logo uma mulher desceu as escadas.
— Oh! Aqui está ela — disse a senhora, razoavelmente empolgada. — Que bom que pôde vir.
— Hum?! — Olhei para sem entender.
— , esta é minha omma, Kim Seohyun — explicou ele, segurando o riso.
— É um prazer conhecer a senhora — disse, meio sem jeito, a olhando.
— Eu fico feliz em ter aceitado almoçar conosco hoje, eu estava mesmo muito curiosa para conhecer a garota que ajuda nosso nos estudos.
— Almoçar?! — Olhei para novamente, depois para ela, tentando disfarçar minha surpresa. — Ah, sim, eu que agradeço o convite.
— Vou deixar vocês estudando um pouco, preciso buscar sua irmã na casa do seu pai e voltar para preparar nosso almoço. — Ela saiu com um sorriso largo em seu rosto, demonstrando animação.
— Almoço? Irmã? — Olhei para ele. — Você poderia me explicar agora?
— Se eu te dissesse que minha omma estava te convidando, não viria, então.
— Então achou que deveria me forçar a vir sem saber o que estava acontecendo de fato? — Analisei os fatos.
— Nossa, você realmente acha que tenho uma mente tão calculista assim?!
— Não acho, tenho certeza. — Eu cruzei os braços, permanecendo séria. — E, por acaso, onde está meu sketchbook?
— Eu o perdi, já disse.
— Mas e a foto?
— Ah, eu tirei antes de perder. Agora venha, temos que estudar. — Ele pegou em meu braço de leve e me puxou para a sala de estudos, me explicando que aquele lugar era o antigo escritório do pai dele, antes dos seus pais se divorciarem.
O lugar era descontraído e muito confortável, deveria ser interessante estudar em um lugar tão legal como aquele. Minha concentração seria mais produtiva ali do que na escrivaninha do meu quarto. Nos sentamos no chão, em cima do carpete, e colocamos os livros e cadernos sob a mesa de centro. Apoiamos nossas costas no sofá e passamos os primeiros trinta minutos concentrados, até que sua omma e irmã chegaram.
— Oppa!!! — disse a garotinha, que aparentava ter seus 7 anos, ao entrar correndo na direção dele. — Senti sua falta.
Eu ainda tentava me acostumar com essas formas de tratamento. Era interessante e divertido aprender todas e conviver com elas no dia a dia, apesar dos meus pais sempre me ensinarem. Oppa era usado pelas garotas para chamar irmãos, namorados e amigos íntimos, e unnie para chamar as garotas mais velhas. Já os meninos, usavam hyung e noona.
— Eu também, princesinha! — Ele a abraçou e me olhou. — , esta é minha irmãzinha, Sunny. Ela tem oito anos.
— Annyeonghaseyo, unnie. — Ela me olhou e sorriu de leve. — Ela que é sua namorada, oppa?
— Não! — eu gritei. — Apenas… estudamos juntos.
— Ela já tem um namorado e não é o oppa — explicou do seu jeito, voltando o olhar para mim.
— Eu não tenho namorado. — Respirei fundo, tentando não ficar irritada. Ele virou o rosto, segurando o riso.
— Princesa, o oppa está estudando. Por que você não vai ficar com a omma? Prometo que depois do almoço te levo para comprar sorvete.
— Oba! — Ela se afastou dele com seus olhos brilhando e saiu da sala correndo.
— Muito fofa a sua irmã — comentei.
— Sim. — Ele me olhou. — Vocês não estão mesmo namorando?
— O quê?
— É que estão sempre juntos. — Ele desviou seu olhar para o livro tranquilamente.
— Não, não estamos. é meu amigo e, mesmo que fosse, minha vida pessoal não interessa a você.
— Hum. — Uma risada boba surgiu. — Você fica mais linda quando está assim.
— O quê? — O olhei confusa. — Assim como?
— Irritada. — Em seu rosto se formou um sorriso leve.
Impressionante.
Paralisei por segundos com aquele sorriso, mas logo voltei ao meu normal. Realmente ficava irritada com muita facilidade quando ele estava perto de mim. Sua omma terminou o almoço pontualmente ao meio-dia. Antes de me sentar à mesa, liguei para minha mãe, avisando que ficaria para o almoço e voltaria mais tarde para casa. A senhora Seohyun cozinhava muito bem, a comida estava muito deliciosa. Como prometido, foi com Sunny até a sorveteria, e eu fiquei ajudando a ajumma Seo a arrumar a cozinha. Ela me contou algumas histórias da infância de e de como ele era um menino muito agitado e comunicativo.
Após o retorno de , passamos a tarde estudando. Enquanto isso, a ajumma e Sunny ficaram brincando no jardim.
— Acho que com isso encerramos. Já te ensinei tudo que podia, você fará uma boa prova na segunda — disse, fechando um dos livros.
— Com certeza, tive uma boa professora. — Ele olhou para a janela meio desanimado.
— Bem, então encerramos minha dívida. — O olhei de forma séria.
— Sim, encerramos. Você está livre de mim agora. — Sua voz estava um pouco estranha.
— Hum, onde tem um banheiro aqui? — perguntei, me levantando.
— Ah. — Ele se levantou também. — Você pode subir as escadas, primeira porta à esquerda.
— Obrigada. — Me afastei dele, saindo da sala.
Subi as escadas. Ao entrar no segundo andar, tinha um hall um pouco amplo, com uma estante e duas poltronas na parede que ficava a janela. Percebi que aquela era a mesma janela que eu tinha visto a ajumma. Cada uma das paredes laterais tinha duas portas, com certeza três eram os quartos. Eu segui até a primeira porta à esquerda, como dito, e abri.
Era o banheiro.
Entrei, me trancando, e utilizei de acordo com minha necessidade. Quando saí, olhei rapidamente para a porta ao lado e vi que estava entreaberta. Tentei segurar minha curiosidade, mas não resisti à tentação e entrei. Era o quarto de . Na parede da porta, tinha algumas prateleiras com vários dvd’s de games e alguns carros clássicos em miniatura. Sua cama ficava do lado direito do quarto e o guarda-roupas do lado esquerdo. Eu olhei para a mesinha ao lado da cama, onde reconheci um objeto que me pertencia. Caminhei até lá e peguei meu sketchbook. O abracei automaticamente, dando um longo suspiro.
— Por que será que eu sabia que você não iria resistir? — disse, rindo, encostado na porta do quarto.
— . — O olhei. — Você deixou a porta aberta de propósito, não foi?
— Talvez. — Riu mais um pouco.
— Por que mentiu? — Mostrei meu sketchbook.
— Queria ver sua reação. — Ele caminhou um pouco, adentrando o quarto. — Foi engraçado.
— Não vou nem comentar isso. — O olhei atravessado. — Felizmente, não teremos mais nenhum contato a partir de agora.
— Minha omma está chamando para o lanche. — Seu rosto ficou sério. — E acho melhor não recusar.
Eu assenti com a face.
Notória sua forma de reagir às minhas palavras. Descemos para a cozinha e nos sentamos à mesa, que estava convidativa. Ajumma tinha feito um bolo de cenoura com calda de chocolate e chá de camomila. Naquele momento, eu estava mesmo aceitando ficar mais calma, ainda mais depois dos olhares de ironia de para mim.
Depois do lanche, me levou para casa no carro da omma dele. Nem acreditava que ele já tinha carteira de motorista. Quando cheguei em casa, no relógio já marcava sete da noite. Minha omma não estava muito preocupada, pois eu havia mantido ela informada de todos os meus passos naquele dia, e meu pai estava tranquilo, porque eu estava na casa da mãe do filho do melhor amigo dele, ou seja, eu estava quase em família. Ficamos um bom tempo reunidos na sala, vendo alguns programas de entretenimento que estava passando na televisão, até que omma foi para cozinha preparar o jantar. Eu a acompanhei e fiquei ajudando. Após o jantar, brinquei um pouco com Jinho no seu xbox.
Fui vencida pelo cansaço assim que meu corpo se jogou na cama.
• : on
Foi divertida aquela tarde, e ter ela em minha casa… Surpreendente.
Não imaginava que viria mesmo com a foto do seu desenho, mas descobri algo hoje, era muito curiosa e isso seria divertido no futuro.
— Ah…. Acho que desta vez acabou — sussurrei para mim, enquanto guardava os livros na estante. — Foi divertida essa tarde.
— Oppa!!! — disse Sunny, se aproximando.
— Sim, princesinha! — Eu a olhei. — O que deseja?
— Oppa gosta da unnie que veio aqui hoje? — Seu olhar curioso me cativava.
— Por que a pergunta?
— Porque você nunca trouxe uma unnie aqui — respondeu.
— A unnie que veio aqui hoje faz seu oppa se divertir bastante, por isso ela veio — expliquei.
— Eu gostei dela, vocês vão namorar?
— O oppa não sabe ainda.
Eu a abracei de leve, a pegando no colo, e a levei para o quarto. A coloquei na cama e cantei um pouco a música do pequeno urso para ela. Quando adormeceu, deixei seu abajur ligado e saí, fechando a porta do quarto. Me sentei na poltrona do hall e fiquei pensando em tudo que havia acontecido naquela tarde e como me diverti muito mais com ela naquele dia do que no sábado passado que estava na casa de Junhae.
— Ela é só uma garota, — disse para mim mesmo, mas era nítido que ela estava marcando presença na minha rotina.
Eu não imaginava que uma garota como ela iria despertar algum interesse em mim, principalmente sem querer. Mas, analisando meus pensamentos, eu sempre me pegava pensando nela e em seu sorriso, e como ela ficava mesmo muito mais linda quando estava irritada comigo.
— Aish, , como você conseguiu fazer isso? — Eu ri de leve. — Não acredito que estou mesmo interessado nela. Novata estrangeira, não quero te machucar.
Eu estava convencido de que não queria ficar afastado dela, mesmo meu lado racional não querendo, deixaria meu coração comandar isso, então definitivamente deveria fazer alguma coisa para que ela permanecesse em dívida comigo novamente.
Mas o que eu poderia fazer para trazê-la de volta?
• :off
Acordei um pouco antes do despertador do celular tocar. Me espreguicei um pouco e me levantei, tomei um banho gelado para acordar mais rápido e coloquei o uniforme. Quando entrei na sala, meu pai já estava se despedindo da omma com um beijo para ir para o seu trabalho. Ele acenou rapidamente e saiu apressado. Saí um pouco mais adiantada que de costume. Após tomar meu café tranquilamente, segui para o metrô, o meio de transporte mais rápido para a escola. Quando cheguei à escola, o portão não tinha nem aberto ainda. Alguns alunos já estavam esperando na entrada também.
— ?! — disse , ao se aproximar de mim.
— . — Eu o olhei e sorri.
— Não costuma chegar tão cedo assim! — disse ele, admirado.
— Tive uma boa noite de sono. — Eu me espreguicei de leve novamente.
— Estou vendo. Ao que se deve isso?
— Não tenho mais dívidas!!! — Eu sorri novamente. — Estou livre dele!!!
— E por falar nele. — virou sua face para o portão, evitando olhar para a direção onde o Prince Line estava.
— Que bom que logo iremos entrar.
Assim que o portão se abriu, fomos os primeiros a entrar.
Queria o máximo de distância de e seu grupo de amigos. Quando entrei na sala, uma garota que sentava no fundo caminhou em minha direção, com a cara séria e fechada. Ela esbarrou em mim como se não tivesse me visto no caminho. A reconheci como uma das poucas amigas de Yuri.
— Bom dia, alunos — disse o professor, ao entrar na sala.
— Bom dia, senhor Choi — dissemos todos em coral.
— Vamos continuar de onde paramos na revisão de ontem. Como amanhã teremos nossa prova de destaque, hoje vamos revisar algumas matérias mais complexas — disse ele, olhando para mim. Acho que ainda estava preocupado por eu ter passado dois dias em casa.
— E vamos para mais uma aula cheia de cálculos — brincou , ao olhar para mim.
— Good Luck! — Eu sorri de leve para ele.
As horas se passaram e meu caderno já estava transbordando de anotações. O sinal tocou para o intervalo, eu e juntamos nossas coisas e saímos da sala. Caminhamos um pouco pelo corredor. Estava feliz que finalmente a prova seria na quarta. De repente, senti alguém pegar em minha mão e me puxar para longe de , era , não entendia por que ele estava fazendo aquilo.
— Ei, me solta. — Eu tentei fazer com que ele me largasse, sem sucesso.
— Você reclama demais. — Ele riu de canto e me virou, fazendo com que eu encostasse na parede. — Está com medo?
— Não. — Eu o olhei séria. Não sabia se prendia minha respiração para não sentir aquele perfume maravilhoso que ele tinha passado, ou se respirava fundo, tentando não deixar me levar com aquele momento. — O que você quer agora?
— Agradecer. — Um olhar de gentileza. Aquilo me fez paralisar por uns instantes.
— Agradecer? — Estava surpresa com aquilo. No choque, deixei minha mochila cair. — Não podia fazer isso na frente do ?!
— Sim e não. — Riu ao se abaixar e pegar minha mochila. — Por que está surpresa? — Seu olhar fixou no meu, prendendo minha atenção. — Você estudou comigo. Graças a você, consegui fazer uma boa entrevista hoje mais cedo. Meu professor ficou admirado.
— Ah, isso. — Tentei manter minha respiração natural e controlada, mas olhar para aqueles olhos dele estava me deixando desnorteada. Ele tinha algo que me hipnotizava. — Que bom… que… conseguiu.
— Sim. — Ele se aproximou mais de mim e apoiou sua mão direita na parede, na altura do meu rosto.
— Se isso for tudo, eu… — Parei por um momento, sentindo meu coração acelerar. — , você está...
— Só queria que soubesse que minha irmãzinha quer te ver de novo. — Ele sorriu de canto, me entregando minha mochila, e se afastou de mim. — Até mais.
Uma piscada de leve e risadas de sua parte soaram enquanto se afastava.
“Eu não sei, meus amigos me dizem que eu sou louco
É a minha primeira vez se sentindo assim desde que nasci
Você não é completamente meu tipo ideal, nem o corpo
O que você fez para mim.”
— Seeing You Or Missing You / Lunafly
“Quero ser como seu diário, para saber os segredos do seu coração,
Quero ser como seu gato por apenas um dia,
Você me alimenta com leite quente e o abraça ternamente.”
— Hug / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)
— . — Ele me olhou — O que aconteceu?
— Nada.
— Tem certeza? O que ele queria? — esticou o pacote. — Trouxe para você.
— Obrigada. — Eu peguei o pacote e sorri de leve. — Ele só queria me agradecer por ter estudado com ele.
— Hum. — disfarçou um pouco. — Pelo menos isso vindo dele.
— Sim. — Eu olhei para a escada. — Vamos, antes que o intervalo termine.
— O que tem nesse pacote? — perguntei curiosa.
— Aqueles mangás que fiquei de te emprestar — respondeu.
— Hum… Então é melhor eu guardar eles no armário antes de voltar para a sala.
— Se quiser, eu te acompanho — se ofereceu.
— Oh não, a última vez você chegou atrasado por minha causa. Deve dar exemplo, senhor presidente da classe. — Eu ri de leve e saí correndo na sua frente. Subi alguns lances de escadas até chegar ao corredor onde ficava meu armário.
Deixei minha mochila no chão e abri o armário tranquilamente. Enquanto estava ajeitando o pacote dentro, percebi que havia duas cartas que pareciam de declaração ali dentro, algo que não imaginava receber tão cedo. Do lado externo, nenhuma das duas tinha remetente, me deixando ainda mais intrigada para saber de quem era. A única coisa escrita era a data, uma escrita hoje e a outra escrita há três dias.
— Olha só quem está aqui… — disse uma voz feminina bem próxima.
— O quê?! — Eu fechei o armário e, me afastando, vi uma menina escorada nele. Parecia estar mascando chiclete.
— Eu te conheço?! — Não reconhecia seu rosto.
— Não, mas logo vai. — Ela endireitou seu corpo e chutou minha mochila para trás. — Novata estrangeira.
— Ah, não, mais uma com isso. — Eu me movi para cima dela, vendo que tinha mais duas garotas atrás acompanhando. — Me devolve a mochila.
— Acho que não. — A primeira garota se colocou na minha frente e me empurrou com força, me fazendo cair.
— Você é louca, o que acha que está fazendo?! — disse assustada.
Eu já havia pesquisado sobre bullyings nas escolas coreanas, não eram somente exageros o que tinha visto em alguns doramas colegiais, como The Heirs ou School 2013, era real que às vezes chegavam ao extremo da maldade de alguns alunos, mas nunca imaginaria que fosse sofrer isso, já que, aparentemente, gostavam de estudantes de outros países.
— Achou mesmo que seria amiga do Prince e sairia ilesa?! — perguntou ela.
— Eu não sei do que está falando. — Me levantei, sentindo uma leve dor em meu joelho, havia ralado quando caí. — Quem é prince?
— Não deveria estar em outro lugar? — Aquela, sim, era a voz que certamente não imaginava ouvir. — Você ainda está suspensa.
— Oppa. — A garota se virou, e lá estava ele.
— … — sussurrei, me encolhendo um pouco. Ele as conhecia.
— Acho que isso não é seu. — Ele pegou minha mochila da mão da menina que tinha algumas fitas no cabelo e veio em minha direção. — Não posso te liberar nem um pouquinho que já arruma confusão. — Sorriu de canto. — Você está bem?!
— Acho que sim — disse, pegando a mochila de sua mão, ao mesmo tempo tentando esconder meu joelho machucado.
— Mente muito mal. — Seu olhar sério me estremeceu por dentro, então o desviou para as garotas. — Eu só vou dizer uma vez, então prestem atenção. Fiquem longe dela.
segurou em minha mão e me guiou até as escadas. Seguimos em silêncio até chegar à enfermaria. A porta estava trancada e, ao olhar pelo vidro da janela, constatou que estava vazia.
— Eu vou ficar bem, não se preocupe — disse, me afastando dele.
— Pare de dizer besteiras. — Ele pegou seu celular do bolso da calça e mandou mensagens para alguém. Se manteve sério o tempo todo, nem parecia aquele pesadelo que me irritava.
Eu tentei, mais uma vez, ir embora, sem sucesso.
me fez ficar sentada no banco ao lado da porta enquanto esperávamos. Foi quando uma garota veio correndo em nossa direção com uma caixinha nas mãos. Consegui reconhecê-la, era uma das líderes de torcida.
— Aqui está, Prince, oppa — disse, ao parar, esticando a mão com a caixinha para ele, tentando recuperar o fôlego. — Vim o mais rápido que pude.
— Komawo, Hari. — Ele sorriu, pegando a caixinha. — Pode ir agora.
Ela sorriu e, brincando, bateu continência, então se virou e saiu correndo de novo.
— Hari… — sussurrei.
— Vai perguntar se ela é minha namorada? — Ele riu baixo, se ajoelhando na minha frente. Colocou a caixinha ao lado, era branca e estava escrito primeiros socorros de rosa. — Não, ela já tem um namorado e não sou eu.
— Não era isso que ia perguntar. — Cruzei os braços.
— Tem certeza? — Me olhou confiante e sorriu de canto, então voltou a atenção para a caixinha e abriu.
— O que vai fazer?
— Não é óbvio?! — Ele riu, pegando um pedaço de algodão.
— Por que está fazendo isso?!
— Também não é óbvio?! — me olhou novamente. — Se quiser, pode segurar em minha camisa, vai arder um pouco.
Ele começou a limpar o arranhão no meu joelho. Me retraía a cada vez que sentia dor. Não me segurei e em um momento acabei segurando mesmo em sua camisa. Após limpar e desinfectar, colocou o band-aid de forma cautelosa, me deixando ainda mais impressionada.
— Pronto, pode ir agora — disse, fechando a caixinha e se levantando.
— Obrigada, doutor. — Eu ri de leve pela brincadeira. — Alguma recomendação médica?!
— Não arrume mais confusões — disse, com um tom de irritação.
— Como se fosse eu a culpada. — Peguei minha mochila que tinha deixado no banco e me levantei/ — Foram elas que começaram. Chegaram de repente, dizendo…
— Termine. — Ele se levantou também.
— Não importa agora. Tenho que ir para sala, o sinal já bateu. — Me afastei dele e segui para a direção do prédio da minha sala.
Me esforcei muito para não ficar mancando. Apesar de não doer mais, ainda sentia um formigamento e desconfortos no local. Assim que cheguei em frente à porta da frente da sala, o professor Siwon já estava à frente, com sua face séria e apreensiva, acompanhado do senhor Song, o supervisor e a pedagoga da escola.
O assunto parecia sério.
— Senhorita Kim. — O professor me olhou parada na porta. — Entre, por favor. Depois falaremos sobre seu atraso.
Eu assenti em silêncio e, entrando, corri para meu lugar. Olhei de relance para , ele parecia preocupado com minha demora.
— Alunos, serei direto — se pronunciou ao se levantar da cadeira e olhou para todos. — O gabarito das provas de amanhã foi roubado. — Respirou fundo. — E recebemos uma denúncia de que foi por um aluno do segundo ano.
Os alunos começaram a conversar entre si, perguntando quem poderia ter feito aquilo.
— Quem será que pode ter feito isso? — me olhou espantado.
— Não imagino. — Olhei para ele.
— Silêncio, juseyo — disse o professor Siwon. — O senhor Song está aqui para fazer uma revista geral nos pertences de todos os alunos.
Primeiro, o senhor Song fez um discurso longo sobre como era errado o que a pessoa tinha feito e que seria punida severamente. Assim, ele passou de carteira em carteira olhando todas as mochilas. Mesmo achando aquilo errado, não podíamos reclamar, era o supervisor e devíamos respeito.
— Nós iremos passar em todas as salas e iremos revistar a mochila de todos os alunos, sem restrições — disse senhor Song com firmeza, segurando firme aquela varinha de madeira que o fazia se sentir o rei da escoda.
— Mas isso não é justo — gritou Donghwa, se levantando. — E nossa privacidade?!
— Por acaso você está com algo na sua mochila que seja indevido? — perguntou Song, fazendo todo mundo rir de Donghwa.
— Não, senhor. — Ele se sentou novamente. — Não tenho nada para esconder.
— Então será a primeira que eu irei checar — disse indo, até sua carteira.
Não demorou muito até que chegou a minha vez.
Coloquei minha mochila em cima da mesa, ele pegou e a abriu. Passou alguns instantes revirando meus cadernos, até que retirou um papel azul dobrado. Eu nunca havia visto aquele papel e não tinha ideia de como havia parado ali. Pior ainda, era justo o que ele estava procurando.
— Aqui está. — Ele desdobrou o papel e verificou. — Encontramos o ladrão. — A sala toda me olhou surpresa. — Ou melhor, a ladra.
— Não. — Eu me levantei. — Não fui eu.
— Supervisor Song. — se levantou também. — Isto é um engano, ela não faria isso. Estive com ela desde o início da aula até o intervalo, nem passamos perto da sala dos professores.
— Sim — concordei com ele.
— Então explique o que o gabarito da prova está fazendo na sua mochila, mocinha? — retrucou ele. — Além do mais, este gabarito não foi roubado hoje pela manhã. Ao que tudo indica, foi roubado ontem.
— Eu não sei como foi para aí. Minha mochila sempre fica comigo o tempo inteiro. — Tentei explicar.
— E você sempre fica com o aluno o tempo todo na escola? — perguntou a pedagoga.
— Bem, não. — Eu olhei para ela. — Não o tempo todo, mas não fui eu, eu juro.
— Vamos à sala do diretor, você terá que nos explicar isso direitinho — disse o supervisor Song.
"Fique, tudo está seguindo de acordo com seus planos
A verdade está em suas mãos."
— Danger / Taemin
— Muito bem, senhorita Kim — disse o diretor, me chamando pelo sobrenome também assim que entrei em sua sala. — Agora se explique.
— Eu não sei como isso aconteceu. Eu juro que não fui eu. — Segurei as lágrimas que se formavam no canto dos meus olhos.
— Estava em sua mochila — ele insistiu. — Vai negar os relatos do supervisor Song?!
— Não, senhor. — Estava mesmo em minha mochila, só não sabia como havia chegado lá.
— Terei que notificar isso aos seus pais. O que fez foi muito grave, a suspensão não será o bastante — disse ele, mantendo seu tom moderado. — Talvez a senhorita tenha que ser expulsa da escola.
— Não. — Eu o olhei, deixando a primeira lágrima cair. — Diretor Lee, não fui eu.
Limpei minhas lágrimas rapidamente, não sabia como argumentar para convencê-lo de minha inocência.
— Lamento, mas a gravidade do delito me obriga a seguir as regras da escola.
Bateram na porta de repente.
— Entre — disse o diretor.
— Diretor Lee. — abriu a porta e nos olhou. — Preciso conversar com o senhor.
Ele respirou fundo, parecia ter corrido para chegar ali.
— , o que faz aqui? Não posso ouvi-lo, estou ocupado.
— É sobre o roubo do gabarito. — Ele entrou na sala, fechando a porta. — Fui eu quem roubou.
— O quê? — Eu o olhei sem entender mais nada.
— Isso é muito grave. — O diretor se levantou de sua cadeira. — Está ciente de suas palavras?
— Sim. — Ele me olhou. — Eu roubei porque queria ajudar esta aluna, queria que ela tirasse uma boa nota. Assumo toda a responsabilidade. Ela não sabia de nada.
— — eu sussurrei seu nome, o olhando, estava indignada com aquilo tudo.
— , por que fez isso? Por que está ajudando esta aluna?
— Porque — ele me olhou — eu gosto dela.
O diretor suspirou fraco, parecia estar indignado como eu e ao mesmo tempo se controlando para não explodir de fúria.
— Muito bem, porque assumiu, irei ligar para seu pai. — Ele caminhou até sua mesa. — Não posso te expulsar, pois é o filho do dono da escola e meu sobrinho, mas não ficará impune o que fez.
— Tenho a plena consciência disso, diretor, e arcarei com as consequências dos meus atos. Só quero que o nome dessa garota continue limpo.
— Sim. — O diretor olhou para mim. — Senhorita Kim, pode retornar à sua sala. Se alguém perguntar, diga que está tudo resolvido e encontramos o verdadeiro culpado.
— Sim, senhor. — Caminhei até a porta e saí.
Ouvi alguns gritos do diretor até chegar ao corredor. Estava perplexa com aquilo tudo. havia roubado as provas, mas como tinha colocado na minha… Claro que ele havia me puxado para longe mais cedo para fazer isso, não acredito nisso. Quando cheguei à sala, disse exatamente o que o diretor havia mandado, o culpado havia confessado seu erro ao diretor e limpado meu nome.
— Obrigada por tentar me defender — disse ao , ao me sentar na minha carteira.
— Somos amigos, e amigos são para isso. — Ele sorriu de canto e virou para frente.
— Mas, me diga, quem foi? O verdadeiro culpado? — perguntou, curioso.
— Prefiro não comentar mais sobre isso. Daqui a pouco, todos saberão. — Me debrucei sobre a mesa e fechei os olhos, tentando descarregar toda a minha raiva de .
Minutos depois, o diretor começou a fazer um discurso pelo alto-falante, esclarecendo o aparecimento do culpado e informando que a prova seria dada no dia seguinte normalmente. Os suspiros de tristeza de alguns alunos puderam ser notados e o sorriso de alegria do professor Siwon também. Ao final da aula, fui a última a sair da sala, como sempre. tinha ido na frente, precisava ir à farmácia comprar algo para sua mãe. Saí da sala tranquilamente e, quando fui descer as escadas, dei de cara com . Ele estava encostado na parede, me esperando.
— Seu pabo. — O empurrei, estava com raiva. — Fez isso por quê? O que você tem contra mim? O que eu te fiz?
— Yah. — Ele segurou em meu braço, me fazendo parar de bater nele. — Eu te ajudo e é assim que retribui.
— Me ajuda?! Você colocou aquelas provas na minha mochila. — Tentei me soltar dele, sem sucesso. — Eu quase fui expulsa.
— Eu assumi no seu lugar e livrei seu pescoço. Deveria me agradecer. — Bufou, soltando meu braço, e se afastou. — Não fui eu que fiz aquilo. Jamais te prejudicaria assim.
— Eu me lembro do início da aula, você pegou minha mochila… Se não foi você, quem seria?! — Cruzei os braços, o olhando ainda com raiva.
— Essa é a questão… — Ele olhou para o teto, pensando. — Apesar da ideia ser boa, eu não sou tão mercenário assim… Mas…
— Mas o quê?
— Ah, não. — Ele se virou para parede e a socou. Parecia ter resolvido o mistério. — Droga.
— O que foi?! Dá pra me dizer? — Elevei meu tom para que sua atenção se voltasse para mim.
— Já sei quem foi, mas não podemos provar — disse, com uma pitada de frustração.
— Como assim, não podemos… — Minha mente já estava ficando ainda mais confusa. — , você pode, por favor, falar direito? Quem foi?
— Suas novas fãs. — Ele voltou seu olhar para mim de forma tranquila.
— Ah, não…
Logo me lembrei da pequena desavença que tive quando fui até meu armário. Aquelas três garotas tinham mexido com a minha mochila, claro que, enquanto a líder me distraía, as outras duas poderiam implantar o gabarito.
— Droga… — xingou ele, aumentando o tom. — Por que só agora eu pensei nisso?!
— Então a culpa é sua. — Eu o empurrei novamente.
— Yah, por quê?
— Porque elas vieram por sua causa — expliquei. — Nem as conheço e já estou sendo odiada, porque não me deixa em paz.
— Yoona me persegue há muito tempo, mas não imaginei que ela pudesse fazer isso com você. — Notei seu olhar descendo até meu joelho, sua voz estava amarga novamente.
— Mas… Não temos como provar?! A escola está cheia de câmeras de segurança — indaguei.
— Sim, exceto o corredor onde você escolheu ter um armário — retrucou, respirando fundo. — Com tantos armários, foi escolher justo aquele no corredor onde as câmeras não funcionam?
— Eu lá ia saber. — O olhei mais indignada ainda. — Está colocando a culpa em mim? A garota é uma sassaeng sua, não minha.
Ele encostou na parede e ficou me olhando com um sorriso malicioso no rosto.
— O que foi? Por que está me olhando assim?
— Já te falei que você fica mais linda ainda quando está com raiva? — Seu olhar era tão malicioso quanto o sorriso.
— Babaca. — Bufei de leve e ajeitei a mochila no ombro.
— Eu te levo.
— Não precisa — recusei, dando impulso para me retirar.
— Não me importo com a sua rejeição. Eu vou te levar — garantiu, ao retirar a chave do bolso. — Vamos chegar mais rápido.
— Pegou o carro da sua mãe de novo? — perguntei.
— Garota curiosa — comentou, ao rir. — Vamos logo.
“Fique, no momento a ponta dos meus dedos te seguem
Só você brilha no mundo todo.”
— Danger / Taemin
“Meu dia está cheio de você depois de conhecer você
Vendo você ou sentindo sua falta
Meus pensamentos são muito para você, eu não sei o que fazer
O que eu vou fazer comigo mesmo?
Você tem que algo que eu preciso.”
— Seeing You Or Missing You / Lunafly
Eu não conseguia parar de pensar naquele jeito fofo que ela tinha de me xingar, aquela garota estava mesmo monopolizando meus pensamentos para si. Permaneci por alguns minutos dentro do carro, olhando para a entrada do prédio onde morava, pensando se deveria ou não subir para fazer uma rápida visita aos seus pais. Seria engraçado se ela saísse do banho e me visse jogando com seu irmão, como da primeira vez.
Logo meu celular vibrou, era uma mensagem privada de Junhae.
“onde está?”
“o que foi agora?”
“estamos indo na casa do Hwang, vem também? ou vai pra casa ficar com seu pai?”
Fiquei pensando alguns instantes.
“????”
“Yah! Junhae, tenha paciência de me esperar responder”
“venha rápido, estamos curiosas para saber sobre o roubo do gabarito. tenho certeza de que não foi vocꔓaish… vocês estão sendo muito curiosos, assim não ajudo ninguém com suas namoradas”
“yah, hyung, deixa de moleza e vem logo kkkkkkkkkkk”Eu coloquei o celular dentro da mochila novamente e liguei o carro. O caminho foi curto até a casa de Hwang. Quando cheguei, sua mãe já estava preparando a mesa de centro da sala com alguns biscoitos que tinha feito e um bule de chá.
— Ajumma, não precisava — disse Junhae, largando sua mochila no chão, perto da porta, e se encostando na parede.
— Fale por você. — MinSoo caminhou até a mesa com seus olhos brilhando. — Precisava, sim.
— Yah, maknae. — Eu joguei minha mochila de leve nele. — Olha os modos na casa da ajumma.
— Oh!!! , não se preocupe. — Ela sorriu para mim, em seus olhos havia gentileza. — Se estão com fome, fiquem à vontade, mas antes lave as mãos. — Ela saiu sorrindo em direção à cozinha.
— Mais respeito em minha casa, MinSoo — disse Hwang, indo em direção ao banheiro.
Todos lavamos nossas mãos e voltamos para sala, nos sentamos no chão e começamos a devorar os biscoitos feitos pela ajumma.
— Pode ir desembuchando, hyung. Sabemos que não foi você o ladrão — disse MinSoo, com a boca cheia de biscoitos.
— Yah, já disse para ter modos aqui. — Hwang mandou a almofada nele.
— Vocês estão muito curiosos. — Tomei um gole de suco.
— Claro, se tem a envolvida, queremos saber — afirmou Junhae.
— Aish… — Eu o olhei, fazendo careta. — Foi a Yoona.
— O quê? — disseram em coral.
— Aquela louca não estava de suspensão? — perguntou MiJun.
— Ainda está, mas parece que teve tempo para fazer isso. — Bufei de novo, contrariado. — Tive que ficar no seu lugar, pois não tem como provar que foi a louca. — Me espreguicei um pouco. — Meu tio me deu algumas tarefas que vou adorar cumprir com meus fiéis amigos.
— A yahhhh… Você fica se fazendo de herói, e a gente tem que pagar junto.
— Claro. — Olhei sério para MinSoo por sua reclamação.
— Já entendi, hyung.
— Vamos mudar de assunto?! — sugeriu Junhae. — Depois descobrimos o que teremos de fazer.
— Que tal o baile de primavera? — disse MinJu, com animação. — Está se aproximando a data.
— Isso é bom. Este ano quem vocês levarão? — perguntou Junhae. — Lembrando que é o nosso último ano.
— Tem que ser a garota — enfatizou Hwang. — A minha já está escolhida.
— E quem pretende levar? — perguntou MinSoo.
— Vou levar a YeJin. — Ele tomou um pouco do chá que estava na sua xícara. — Ela me entregou uma carta de confissão na sexta, acho que devo dar uma chance.
— Ohhhhhh — dizemos todos juntos.
— Carta de confissão é legal. Ela já te chama de oppa? — perguntou MiJun.
— Sim. — Ele riu. — Ainda me sinto sem jeito quando ela diz.
— Está apaixonado — eu disse, fazendo todos rirem.
— Eu vou levar Hari. — Junhae me olhou. — Se o hyung me ajudar, ela ainda está brava comigo.
— É claro que vou. — Assenti, pegando mais um biscoito.
— Eu decidi levar Sooyong — disse MinSoo. — Ela é uma das garotas mais bonitas do segundo ano e entrou para o grupo das líderes de torcida.
— Não vai dar falsas esperanças para a garota — advertiu Junhae.
— É claro que não, hyung. — Ele fez cara de inocente, nos fazendo rir.
— A minha não é novidade — disse MiJun. — Vou levar minha namorada Chohee.
— E o pai dela vai deixar? — perguntou Hwang. — Sabemos que ele é muito bravo.
— Claro que vai, nada como uma garrafa de Soju para deixá-lo mais gentil. — Riu baixo, já pegando outro biscoito. — Estou descobrindo os pontos fracos dele aos poucos.
— Você é o único que não disse nada, hyung. — MinSoo me olhou curioso.
— Aposto que ele vai levar a estrangeira — comentou Junhae. — Com tantas garotas mais bonitas e que estão caindo por ele.
— Verdade. — MiJun pegou mais um biscoito.
— Yah, fique calado. — Eu olhei atravessado para Junhae. — Quem levarei não interessa. De qualquer forma, será a melhor garota da festa.
— É a estrangeira. — Concluiu MinSoo, fazendo todos rirem.
— Parem de falar dela — protestei. — Não sei se a levarei, e se for, quero que se comportem perto dela.
— Você que manda, hyung — brincou Junhae, batendo continência.
— Idiota. — Ri de leve, o olhando.
Passamos longas duas horas conversando e jogando um pouco no xbox de Hwang. Estávamos em uma competição de Mortal Kombat desta vez. Ao sairmos da casa de Hwang, eu convenci os outros a me acompanharem até a casa da minha mãe, eu tinha que devolver seu carro. Depois, fomos para o metrô. Entre risos e mais brincadeiras sobre o que faríamos no baile, tínhamos que deixar nossa marca do Prince Line. Aos poucos, cada um parou em sua estação. Quando cheguei em frente ao edifício do apartamento do meu pai, dei um suspiro cansado. A cada dia, estava ficando mais difícil morar com ele. Porém, não tinha escolha, só podia passar os finais de semana com minha linda omma.
Quando entrei no lugar, fui direto para meu quarto. Ouvi algumas vozes vindas do escritório do meu pai, com certeza ele estava com mais uma de suas “amigas”. Queria poder fugir dessa realidade.
— Que bom, pelo menos não terei que ouvir sermão hoje — sussurrei, ao chegar à porta do meu quarto.
Me tranquei, como de costume, joguei minha mochila no chão ao lado da cama e caminhei para o banheiro, já tirando minha camisa do uniforme. Tomei uma ducha quente e voltei para o quarto com a toalha enrolada em minha cintura. Caminhei até minha mochila e tirei meu celular dela. Fiquei olhando para a tela por um breve momento. Naquele instante, eu tinha reparado que havia colocado a foto de como protetor de tela, ainda não me lembrava em que momento e o motivo de ter feito isso.
Fiquei alguns minutos olhando aquela foto e resolvi mandar uma mensagem a ela pelo kakaotalk. Segurei o riso ao me lembrar dela gritando comigo no corredor, mas este pensamento me trouxe aquela afirmação da qual vinha fugindo, eu estava mesmo apaixonado por ela.
— Sim. — Caminhei até meu armário e abri a gaveta que ficava meus pijamas. — Agora irei te conquistar de verdade, novata estrangeira. — Eu ri de leve, pegando minha calça de um pijama que tinha ganhado de minha omma e imitando a voz dela. — Meu nome é !
• : off
Não consegui dormir direito aquela noite, o que havia feito por mim havia me deixado sem reação e sem palavras. Por duas vezes, havia sido defendida por ele. Estranhamente, meu coração acelerou ao me lembrar dele cuidando do meu joelho machucado, apesar da culpa ser dele, inicialmente. Ainda assim, foi um estranho fofo ele cuidar de mim, com tanta atenção.
“O mundo inteiro tenta me agitar
Até mesmo meus amigos tentam animar as coisas
Dizendo que você e eu
Ficamos bem juntos.”
— How Nice Would It Be / Lunafly
“Espero que seu joelho não esteja mais doendo, te espero no portão da escola.
— ”
Sorri de forma automática e meio boba. Era admirável ele ter me enviado uma mensagem àquela hora da noite. Guardei o celular na mochila, saí do quarto ainda meio sonolenta e fui para a cozinha.
— Querida, o que aconteceu? — Minha omma estava colocando a jarra de suco na mesa e me olhou preocupada. — Você nem quis jantar ontem.
— Desculpa, omma. — Me sentei na cadeira e coloquei uma fatia do bolo de chocolate no meu prato. — Estava sem fome, acho que é preocupação com a prova de hoje.
— Ah, sim, esta prova. — Ela sorriu para mim. — Espero que consiga fazê-la bem.
— Eu também, estudei muito. — Despejei um pouco de leite no meu copo e misturei açúcar mesmo. Comecei a comer, permanecendo em silêncio.
— E esse machucado aí? , o que aconteceu? — Ela veio toda preocupada olhar mais de perto.
— Eu caí, não prestei atenção. — Odiava mentir para a mamãe, mas não iria dizer que sofri uma tentativa de bullying na escola. — Não está mais doendo, está tudo bem.
— Tem certeza?! — Ela continuou me olhando desconfiada.
— Sim. — Assenti de imediato. Realmente não estava doendo mais.
— Bom dia, unnie. Bom dia, omma — disse Jinho, sorrindo.
— Nossa, que animação — disse minha mãe, servindo um chocolate quente para ele. — Bom dia para você, meu pequeno ninja.
— Omma, teremos uma excursão, eu poderei ir? — Ele pegou um pedaço do bolo e colocou no seu prato também e começou a comer.
— Claro, mas terei que saber mais sobre isto.
— Onde está o appa? — perguntou ele.
— Já saiu para o trabalho. — Ela se sentou na cadeira em frente a mim e me olhou. — Está muito calada hoje, . Isto é somente pela prova mesmo?
— Sim, omma, estou tentando me manter concentrada.
— Ah, então coma bem, assim sua mente funcionará direito. — Ela colocou alguns biscoitos no meu prato e no de Jinho. — E você também, pequeno ninja, comendo tudo para ir para a escola.
Eu sempre me sentia bem quando minha omma cuidava de mim daquela forma, ela me fazia sorrir mesmo quando queria chorar. Minutos depois de terminar meu café, voltei ao banheiro e escovei meus dentes, peguei minha mochila, me despedi dos dois e saí. Estações depois, cheguei à escola, e o portão já estava aberto. Poucos passos até o bloco onde ficava minha sala, me puxou pelo braço, me levando para trás da quadra de basquete. Tentei me soltar, mas era sempre sem sucesso. Ele estava com sua face séria, não me deixei intimidar, e ficamos nos olhando por alguns instantes.
— Seu joelho melhorou?! — perguntou, direto e sério.
— Sim, não está mais doendo.
— Te vejo depois da prova. — Ele se virou e seguiu em direção onde estavam seus amigos.
Eu fiquei paralisada com aquilo, ele havia me levado para longe só para perguntar como estava meu joelho, e foi assim, sem me irritar ou fazer onda com a minha cara? Nem de novata estrangeira me chamou.
— Aish, agora eu estou irritada. Não acredito que estou preocupada com a forma dele me tratar. — Respirei fundo e ouvi o sinal bater.
Tomei fôlego e corri até a sala. Quando entrei, felizmente o professor ainda não estava. Caminhei até minha carteira e me sentei, ficando em silêncio. se virou e ficou me olhando. Ele mexeu no meu cabelo, tentando chamar minha atenção para a realidade, mas eu não conseguia parar de pensar em tudo que tinha acontecido no dia anterior
.
— ? ? — disse ele.
— Hum?! — Eu o olhei.
— Está tudo bem? — Me olhou preocupado. — Eu vi quando te arrastou até os fundos da quadra de basquete.
— Sim, ele só queria saber como estava meu joelho.
— Verdade, você não me contou como se machucou. — Seu olhar curioso era engraçado.
— A história é longa e tem relação com o roubo de ontem.
— Sério?
— Sim.
Contei a em detalhes o que havia acontecido, desde a desavença no corredor dos armários, até quando eu e descobrimos quem de fato era o ladrão. Assim como nós, ele também ficou revoltado por não podermos provar, contudo ficou ainda mais surpreso por ter tomado a culpa para si para que eu não saísse prejudicada. Foram três horas de prova, 120 questões e muita concentração de minha parte. Quando terminei, já estava sentindo que minha coluna não existia mais de tanta dor e desconforto. Saí da sala pouco depois de . Ele estava no corredor, me esperando com sua mochila meio caída no ombro direito.
— Então, como foi? — perguntou.
— Acho que não passarei vergonha — eu brinquei um pouco, caminhando até a sacada, olhando o pátio. — Para a primeira vez, posso declarar que sobrevivi.
— Com certeza, todos somos sobreviventes. — Ele riu de mim, me seguindo. — Mas mesmo chegando depois, você estudou muito, trabalhou duro, então agora é esperar o resultado.
— Espero que seja um resultado positivo. — Eu ajeitei a mochila no meu ombro e o olhei de leve, sorrindo. — Conto com isso para pedir um tablet novo aos meus pais.
— Good luck. — Ele riu de leve, virando sua atenção para o corredor.
— Vou precisar. — Eu virei de costas para o pátio e encostei de leve na sacada.
— Hoje mais cedo ouvi alguns comentários sobre o baile de primavera.
— E pretende levar alguém? — Eu o olhei, ficando curiosa.
— Bem, eu estava pensando em convidar uma amiga, mas não sei se ela vai aceitar.
— Hum. — Eu imaginava que essa amiga fosse eu, mas não queria levantar falsas esperanças. era um amigo e nada mais que isso. — Mesmo não sabendo quem seja essa garota, eu te aconselho a convidar a Yuri. Eu vejo os olhares dela para você.
— Nunca percebi. — Ele desviou seu olhar para o chão.
— Mas deveria, acho que até sei por que ela não conversa comigo. Acho que Yuri gosta de você.
— E você? — Ele me olhou.
— Eu o quê? — Me senti um pouco intimidada com aquele olhar.
— Você vai ao baile? — ele reformulou a pergunta, acho que percebeu que eu havia entendido algo a mais.
— Não. — Eu desviei meu olhar para a escada. — Não gosto dessas coisas. Para dizer a verdade, nunca tive interesse em ir, nem quando eu morei na América.
— Que pena, seria legal se fosse — disse ele, num tom de frustração. — Geralmente os bailes promovidos pela escola são divertidos.
Meu celular tocou, era uma mensagem de . Olhei rapidamente e coloquei no bolso novamente.
— Preciso ir agora.
— Era o ? — Ele voltou sua atenção para o chão novamente, seu olhar estava triste.
— Sim. — Eu me afastei um pouco. — Mas pense no que te falei, Yuri gosta mesmo de você, deveria dar uma chance a ela.
Me virei e segui pelo corredor. Desci as escadas tranquilamente e caminhei em direção à quadra de basquete. Chegando à porta, abri um pouco e entrei. Os garotos do time estavam treinando, pois os jogos do campeonato intercolegial deste ano estavam próximos. Havia umas meninas sentadas na arquibancada, pareciam ser as líderes de torcida. Elas, além do professor de educação física/treinador Chang e sua auxiliar, eram as únicas que podiam ver o treino.
— Aluna Amélia, o que está fazendo aqui? — perguntou o treinador Chang. — Este treino é fechado.
— Ah, aqui está você — disse , se aproximando de nós. — Bem na hora.
— O que ela faz aqui? — O treinador o olhou sério.
— Então, treinador, o senhor disse que precisava de alguém para ser sua auxiliar nos treinos, aqui está ela. — me olhou com um sorriso nebuloso.
— O quê? — dissemos eu e o treinador juntos.
— Isso mesmo — confirmou, segurando o riso.
— Bem, contanto que esta aluna não atrapalhe. — O treinador se afastou, indo para o centro da quadra.
— Que história é essa de auxiliar? — Coloquei a mão na cintura, o olhando séria.
— Você novamente está se superando em ficar bonita. — Ele sorriu de canto.
— Não tem graça.
— Bem, eu te salvei, lembra? Voltou a ficar em dívida comigo.
— O quê? Preciso te lembrar que a culpa foi sua? Aquela louca fez isso por sua causa — argumentei.
— Não importa… — Ele continuou me olhando tranquilamente. — Você precisa participar de no mínimo dois clubes, até agora só entrou no grupo de estudos, que nem sei o motivo… E como só podia escolher o segundo até ontem, ou então levaria um demérito, achei que deveria te ajudar.
Oh, céus! Aconteceram tantas coisas na minha vida em pouco tempo que já estava me esquecendo dos pequenos detalhes daquela escola, além de suas chatas regras.
— Estou esperando.
— Esperando o quê? — perguntei confusa.
— Até se sentir confortável para me agradecer. — Ele piscou de leve. — Mais uma vez te salvei.
“Basta ficar como esta,
A medida que você só olha para mim,
Eu nunca vou deixar você ir,
Apenas observe.”
— Growl / EXO
“Eu quero dizer
Não sou um cara maneiro ou bonito
Eu sou apenas um honesto bad boy.”
— Ring Ding Dong / SHINee
— Aqui está. — Ele esticou a lista.
— O que é isso? — Peguei o papel, olhando assustada.
— Estes são os horários do treino e suas tarefas. No verso, tem um pedido meu para que você possa se ausentar das aulas que precisar, para acompanhar os treinos quando necessário.
— Ah. — Eu assenti meio sem reação novamente. Acho que não estava preparada psicologicamente para aquilo.
Eu olhei novamente para lista e comecei a ler:
“Horário:
9am — 10am — treino leve*
1pm — 1:30pm — prática de arremesso*
4pm — 6pm — treino intenso*
Tarefas:
— Manter toda a quadra limpa
— Manter as bolas guardadas
— Levar as toalhas para a lavanderia
— Auxiliar os jogadores com a hidratação, fazendo a manutenção das garrafas de água
— Manter sigilo quanto aos treinos
* indispensável a presença da assistente”
— Legal, por que o asterisco se já deu pra perceber que terei que estar aqui em todos os treinos? — sussurrei de leve, tentando absorver tudo aquilo.
Como aquele dia tinha sido reservado para a prova dos alunos do segundo ano, o time ficaria todo o horário dedicando-se aos treinos, e eu teria que ficar lá com eles. Dobrei o papel e guardei no bolso, coloquei minha mochila ao lado do armário das toalhas e fiquei olhando o treino mais um pouco. A cada cesta que eles faziam, as líderes de torcida gritavam um pouco mais alto.
— Ei, ajudante — disse Minsoo.
— Hum?! — Eu o olhei sem saber o que faria.
— Preciso de água. — Ele segurou o riso.
— Eu também — gritou Junhae, após dar uma enterrada na cesta.
— Ok. — Eu caminhei até a máquina de água, retirei duas garrafas e levei para eles. — Aqui está — disse, entregando.
— Preciso de outra toalha, ajudante — disse , ao chegar perto, dando um sorriso de canto.
— Mais alguém quer mais alguma coisa? — eu disse, segurando minha raiva.
— Precisamos comer alguma coisa, ajudante — disse Hwang, ao se aproximar. — Você terá que ir pegar comida para nós.
— O quê? — Eu o olhei.
— Não podemos parar o treino — explicou Hwang. — Se quiser, posso chamar o treinador.
— Não — eu disse, engolindo seco. — Eu vou.
Me afastei, indo em direção à porta.
— Minha toalha. — riu baixo.
Respirei fundo, indo até o armário. Peguei uma toalha, levei até ele e joguei em sua cara com toda raiva que consegui reunir. Fui até a cantina, estava tão afundada em minha revolta que me distraí e trombei em uma pessoa.
— Mianheyo — disse, quase em sussurro.
— Sem problema, — disse .
— Oh, você. — Eu sorri de leve.
— Sim. — Ele me olhou curioso. — O que estava fazendo na quadra?
— Hum. — Me encolhi um pouco. — Estou ajudando o time de basquete agora.
— Você gosta de basquete? — Estava surpreso.
— Digamos que sempre tive curiosidade — eu menti, mas por uma causa nobre, não queria dizer que era por causa de .
— Espero que consiga fazer um bom trabalho. — Ele sorriu de leve.
— Eu também! — O olhei curiosa. — E você? Não voltou para casa por quê?
— Me juntei ao clube de ciências — explicou ele. — Hoje foi nossa reunião sobre a feira de ciências que vamos organizar.
— Que legal. — O olhei admirada, até que me lembrei da minha missão. — , tenho que ir agora, nos vemos amanhã.
Me afastei dele e segui. Quando cheguei à cantina, pedi a ajumma super simpática que separasse o lanche do time de basquete. Ela havia preparado vários sanduíches para eles e me deu duas sacolas, uma com os sanduíches e a outra com as latas de suco.
— Aqui, querida, este é para você — disse ela, colocando um embrulho feito com papel de alumínio dentro da sacola dos sanduíches.
— O que é, ajumma? — perguntei a ela.
— Um bolo de cenoura, espero que goste.
— Oh, não precisava.
— Ah. — Ela sorriu para mim. — Você me parece ser uma menina muito especial, é para adoçar seu dia.
— Obrigada, ajumma, comerei feliz. — Eu sorri de volta e me afastei dela.
Retornando, andei um pouco devagar, olhando para o céu, estava um dia lindo e ensolarado. Ao chegar perto da quadra, ouvi alguns risos vindo de dentro e quando entrei, eles já estavam sentados no chão, no centro da quadra, com as líderes de torcida, comendo. Fiquei paralisada por um tempo. Meus olhos se encheram de lágrimas, deixei as sacolas caírem de repente, e eles olharam para mim.
Não consegui continuar ali, estava muito chateada com aquilo. Saí correndo da quadra antes mesmo que eles pudessem dizer alguma coisa.
• : on
No momento que vi as lágrimas se formarem em seus olhos, senti meu coração apertar um pouco. Acho que havia exagerado demais naquela brincadeira, não sabia o que havia dado em mim. Eu era mesmo um babaca, sempre errando ao invés de acertar. Me levantei automaticamente e saí correndo atrás dela. Não sabia onde procurá-la primeiro, corri por toda a escola meio desesperado. Parei no meio do pátio para recuperar meu fôlego, sem saber o que fazer. Eu tinha magoado ela mais uma vez, e desta vez…
Não estava feliz com o resultado final.
— , hyung — gritou Junhae, correndo até mim. — Encontrou ela?
— Não. — Eu desviei meus olhos para o chão.
— Não precisa se explicar, já entendemos o que sente por ela, hyung. — Ele colocou a mão direita no meu ombro. — Vamos procurar juntos de novo.
— Junhae?! — Eu o olhei surpreso.
— Prince Line toda. — Ele se afastou um pouco, e eu pude ver os outros de longe nos olhando. — A escola não é tão grande assim, vamos achá-la.
— Sim. — Eu assenti, agradecendo a ajuda.
Cada um correndo em uma direção, olhando de sala em sala. De repente eu me lembrei que não havia ido à biblioteca antes, estava tão desesperado que nem estava pensando direito. Quando entrei na biblioteca, a ajumma veio até mim em silêncio. Ela apontou para o fundo, e já estava entendendo o que ela queria me dizer. Aquela ajumma era muito gentil comigo e sempre me ajudava quando eu precisava. Pedi a ela para não deixar ninguém entrar e me afastei. Segui em silêncio até o fundo, ela estava sentada no chão, abraçada aos seus joelhos, chorando. Parei em sua frente e fiquei a olhando por um tempo. Estava pensando no que iria falar para ela, não sabia como me desculpar.
Nunca havia pedido desculpas a uma garota antes. Acho que este meu lado malvado estava entrando em conflito comigo, este era o lado do meu pai que eu odiava, mas havia herdado também.
— .
• : off
“Você é a garota que me deixa inquieto sempre que te vejo.”
— Bad / Infinite
— O que está fazendo aqui? — Eu fixei meus olhos nos dele. — Veio rir de mim de novo?
— Não. — Ele pegou em minha mão e me puxou de repente.
Meu corpo se levantou com seu impulso, indo em direção ao corpo dele. Ao ficarmos bem próximos, me abraçou imediatamente, de forma suave. Eu não deveria demonstrar fraqueza, mas seu abraço era tão acolhedor que desabei em lágrimas novamente. Não acreditava naquilo, como ele conseguia fazer eu me sentir tão mal e depois tão bem? Não conseguia entender como ele tinha esse controle sobre mim, e isso me deixava ainda mais irritada e intrigada com ele. Ficamos por um tempo abraçados, até que ele se afastou um pouco e secou minhas lágrimas com sua mão suavemente.
Seu olhar era tão encantador que me fazia esquecer de tudo.
— Vamos, o treino ainda não terminou.
— Ah?! — Eu o olhei de novo, sem reação. Isso já estava virando um costume, ele fazia isso comigo.
Ele sorriu de canto. Que sorriso, vontade de matar ele de tão lindo. Segurou em minha mão e me guiou em direção à saída. Quando entramos na quadra, as sacolas não estavam mais no chão e os amigos dele estavam treinando naturalmente, como se nada tivesse acontecido. O treinador estava monitorando os passes deles atentamente. soltou minha mão de forma discreta e correu para o centro da quadra. Eu fiquei no canto olhando, até que o treinador se aproximou de mim, ainda atento aos meninos.
— Espero que não esteja muito cansada.
— Não, não estou. — Eu desviei meu olhar, colocando a mão na barriga, estava sentindo fome.
— Não comeu ainda, não é? — perguntou ele.
— Não.
— Vá se alimentar na minha sala, os meninos deixaram seu lanche lá.
Eu assenti meio admirada e corri até a sala dele. Ao entrar, perto da mesa da porta, estava meu bolo de cenoura, um sanduíche e uma lata de suco me esperando. Meus olhos brilharam de imediato. Puxei a cadeira e me sentei, nada como a comida para me fazer esquecer . Quando estava terminando, me virei para a porta e lá estava ele, encostado na porta, meu pesadelo.
— Gostoso o bolo? — perguntou.
— Sim. — Desviei meu olhar para a lata de suco na minha frente, não dando importância para ele.
— Que bom, fui eu quem pediu para ajumma fazer para você.
— Hum?! — O olhei novamente, meio surpresa. — Você?!
— Sim. — Ele sorriu de canto. — Disse a ela que uma garota especial iria buscar.
— ?! — sussurrei.
— Agora que já terminou seu lanche, ainda tem tarefas a cumprir — anunciou, ao se afastar da porta. — O treino acabou, e a quadra deve ficar organizada.
Ele saiu, mantendo aquele sorriso em sua face, e eu fiquei novamente indignada com seus atos. Como uma mãe tão simpática e fofa como a ajumma Seohyun podia ter um filho como ele? E como eu, depois de tudo, poderia ficar encantada com aquele sorriso? Comecei a ficar indignada comigo mesma.
— Babaca — eu sussurrei.
Ele era mesmo um pabo, que me fazia ficar maluca e irritada a todo momento. Joguei as embalagens do lanche no lixo e saí da sala do treinador, todos os jogadores e as líderes de torcida estavam sentados, conversando na arquibancada. Exceto MinSoo, que estava em pé, no canto, com uma menina também do segundo ano, chamada Sooyong, ela tinha entrado recentemente para o grupo das líderes de torcida. Eles ficaram em silêncio quando me viram. Respirei fundo e comecei a juntar as toalhas primeiro, andando de uma ponta a outra da quadra. Parecia que eles tinham espalhado as toalhas de propósito, e isso não era surpresa para mim. Depois que coloquei todas as toalhas no cesto, passei para as bolas, que também estavam espalhadas.
Permaneci em silêncio todo o tempo, com eles olhando para mim entre risos e cochichos. Aquilo me dava uma raiva, mas preferi manter minha tranquilidade mínima e continuar minha tarefa. Felizmente, a única coisa que não precisava fazer era varrer, ou limpar a quadra, isso o zelador faria com uma máquina apropriada. Voltei para a sala do treinador e comecei a organizá-la, o que me levou a pensar como ele conseguia se localizar no meio de tantos papeis soltos pela mesa. Assim que terminei, percebi um silêncio estranho do lado de fora. Saindo da sala, vi que todos já haviam ido embora. Peguei minha mochila e dei alguns passos em direção à porta, até que me pegou pela mão, me virando.
— Aonde está indo? — perguntou ele.
— Para casa.
— Você ainda não terminou. — Me mostrou a bola em sua mão.
— É sério isso? — O olhei, respirando fundo para não bater nele.
— Você quer? — Ele sorriu, esticando a bola.
— Não vou jogar seu jogo infantil. — Tentei pegar, mas ele fez um movimento de jogo, se desviando de mim.
— Assim você me ofende. — Ele se posicionou e lançou a bola, que caiu perfeitamente dentro da cesta. — Se tivesse pedido, eu te daria a bola.
Uma piscada de leve para mim e saiu rindo.
— Aish, babaca — eu gritei, extravasando minha raiva acumulada durante o dia todo.
Caminhei bufando até a bola e a peguei, segurei algumas palavras de xingamento e soltei outras, coloquei a bola no lugar e saí da quadra, fechando a porta. Eu o avistei de longe saindo pelo portão com seus amigos e aquelas garotas que me enojavam, acho que agora eu entendia o porquê de nunca gostar de líderes de torcida. Demorei para chegar ao metrô, meus passos estavam bem lentos e minha atenção bem longe dali. Pela primeira vez, não estava pensando em nada relacionado ao pesadelo. Assim que me sentei na cadeira do vagão que entrei, uma pessoa se sentou ao meu lado, olhei automaticamente.
— Aish — sussurrei.
Por que eu olhei?!
permaneceu em silêncio, estava com fone no ouvido e fechou seus olhos tranquilamente, agindo com naturalidade. Como ele conseguia fazer aquilo mesmo? Me deixava irritada com tanta facilidade e, odeio admitir, fascinada ao mesmo tempo, intrigada a todo momento. Quando chegou à minha estação, eu me levantei e ele também. Fiquei calada para ver o que ele iria fazer e, como eu previ, ele saiu atrás de mim e ficou me seguindo. Eu parei e me virei, o olhando. Ele parou e ficou me encarando, ainda com seus fones no ouvido. Seu rosto suave, seu olhar envolvente, um sorriso se formando no canto da boca. Respirei fundo e me aproximei dele, retirei seus fones.
— Está me seguindo?
— Não. — Pegou os fones e guardou na mochila, uma serenidade incomum no olhar que me impressionava. — Estou te acompanhando.
— Como?!
— Acha mesmo que te deixaria ir para casa sozinha? — Me olhou sério e pegou em minha mão. — Vamos antes que seus pais fiquem preocupados. Vou te levar até a porta.
Por essa eu não esperava mesmo, inacreditável seria a palavra certa. E, como dito, ele me acompanhou até a porta do apartamento. Quando eu abri, fiquei meio sem graça de não convidar ele para entrar. Mesmo me fazendo raiva, eu queria agradecer por ter me acompanhado, e meus pais iriam gostar de vê-lo.
— Omma, appa!? — eu disse, ao entrar.
— Ah, querida, que bom que chegou — disse minha mãe, vindo da cozinha com uma forma com biscoitos. — Oh, .
— Ele me acompanhou hoje — eu expliquei, meio com vergonha.
— Fico feliz por ter vindo. — Ela me olhou. — Mas por que ele te acompanhou?
— Sua filha se inscreveu para ser auxiliar do treinador no clube de basquete — ele respondeu tranquilamente, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Cínico.
— É! — Eu concordei meio que automaticamente.
— Que legal, seu pai vai ficar feliz. Ele jogou basquete nos tempos de colegial. — Ela sorriu animada. — Eu vou colocar os biscoitos em uma bandeja melhor. Você vai ficar para o jantar, não é, ?
— Não, não quero incomodar.
— Incômodo nenhum, faço questão. — Ela se virou, indo para a cozinha.
— Hyung — gritou meu irmão, correndo em direção a ele.
— Nada de correr — repreendeu minha mãe, do corredor.
— Desculpa, Omma. — Jinho riu. — Hyung, veio jogar comigo?
— Não exatamente, mas podemos fazer isso agora.
— Legal. — Jinho ligou seu xbox animado, e se sentou no chão, pegando uma almofada para apoiar suas costas melhor, no sofá.
Naquele momento, eu percebi que já estava totalmente fora de foco, e me virei em direção ao corredor dos quartos.
— Não demora — disse , com sua atenção na televisão.
Eu ri alto enquanto caminhava. Entrei no meu quarto, colocando minha mochila em cima da cama, peguei uma roupa aleatória e fui em direção ao banheiro. Tomei uma ducha rápida e coloquei a roupa no banheiro mesmo. Quando saí, estava na porta, de braços cruzados, me olhando.
Por causa de você, meu coração é colorido
No mundo em preto e escuro, no momento que tento fechar meus olhos
Você faz minha vida colorida.
— Colorful / SHINee

