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Revisada: Lightyear 💫

Finalizada em: 20/04/2025

— Gosto dos seus olhos.
— Pensei que aceitou ser minha namorada por gostar de mim, não pelos meus olhos.

O dia se arrastava, como esperado nas férias de verão; o ar condicionado ligado deixava o quarto numa temperatura ideal. No canto, a camisa do time de vôlei estava pendurada cuidadosamente junto ao uniforme — que não seria usado por mais algumas semanas. Havia uma bola de vôlei no canto e uma mesa pequena.

— Gosto de você por inteiro — segurei seu rosto entre minhas mãos, inclinando-me em direção aos seus lábios. — Mas, se tivesse que escolher uma parte favorita, seriam seus olhos.

Foi depois da derrota da Inarizaki para os Corvos no último torneio de primavera. Suna Rintarou parecia não ter levado a perda tão a sério — ao contrário um dos gêmeos, que dizia em alto e bom som sobre massacrar a Karasuno no ano seguinte —, mas fui a única a perceber sua mudança. Já éramos colegas de classe desde o primeiro ano, quando o meio de rede fora convidado a se juntar à escola por suas habilidades esportivas. O jovem se mudou da prefeitura de Aichi para Hyogo no início do ensino médio.
Por o observar por tanto tempo, sabia que tinha a mania de procurar lugares tranquilos; não era incomum encontrá-lo no terraço do prédio estudantil. Ocasionalmente, subia até o local na esperança de conseguir um meio sorriso ou um aceno; contudo, daquela vez Suna estava tão frustrado que até mesmo pareceu um estranho. Não soube o que dizer; nunca havíamos conversado o suficiente para me dar o direito de perguntar se estava tudo bem, e ainda assim, num gesto inconsequente e impensado, abracei-o.
Foi estranho, mas no absurdo da situação, consegui tirá-lo dos pensamentos turbulentos, um gesto que foi o primeiro passo em direção de uma amizade inocente.
Começou com convites para assistir ao treino — não eram permitidas garotas, mas para mim ele dizia ser uma exceção —, depois as tardes longas caminhando em direção à minha casa — mesmo que fosse de um lado completamente diferente do seu — até chegar uma pergunta inesperada.
, quer ser minha namorada?”, a mensagem de texto estava guardada em algum arquivo. A princípio, achei ser uma brincadeira, até mesmo um desafio de mau gosto; acabou que foi um pedido genuíno, repetido pessoalmente dias depois, quando finalmente parei de o ignorar por acreditar estar caçoando de mim.
Foi a primeira vez que Rintarou me segurou em seus braços.
Não foi uma paixão avassaladora, mas, sim, aprendi a gostar do meio de rede conforme o tempo passava. A entender suas manias, gostos, rir daquilo que achava engraçado e completar o espaço entre seus dedos com os meus próprios; aproveitar o gosto de sua boca contra a minha.
Seu telefone tocou. O rapaz grunhiu quando afastei o rosto do seu para ver quem era. Suas mãos estavam em minha cintura enquanto me mantinha encostada em sua mesa.

— É seu capitão.
— Deixe ele — ele beijou minha bochecha, descansando a cabeça na base do meu pescoço, enquanto isso a ligação continuava. Atsumu Miya, pareceu desistir, mas, na verdade, apenas mudou o alvo, já que meu aparelho começou a tocar.

Sua mão escorregou para o bolso na parte de trás do meu short, Suna atendeu: — Pare de ligar para a minha namorada, vou te bloquear.
Balancei a cabeça beijando seu rosto antes de andar por seu quarto, sabia exatamente sobre o que era a ligação.

— Você sabe o que “férias escolares” significa? O clube de vôlei fica na escola, não tem porque treinar.

Abaixei para pegar minha bolsa no chão, vendo que aquela com suas vestes de treino estavam arrumadas e prontas para sair. Faltavam somente seus tênis; peguei-os no armário próximo à porta e os guardei antes de puxar o zíper. Por ser convidado a se juntar à Inarizaki, Rintarou não morava com a família, mas, sim, num alojamento com outros atletas da escola.
Para ser sincera, eu nem deveria estar aqui, mas durante as férias o monitoramento fica mais fraco. Coloquei meus sapatos e esperei que terminasse a ligação; Suna era dedicado, quando ele queria.
O garoto me jogou o celular antes de entrar no lavabo para tocar as próprias vestes; não demorou muito para que estivéssemos andando em direção à escola.

— Não faça essa cara, é bom que ele esteja empolgado. O próximo campeonato é o torneio de primavera, não é? Ele está falando de um novo jogo com a Karasuno desde o ano passado.
— Mas não precisa ser nas férias de verão.
— Sempre acontece algo no treino, com Kita longe ao menos é divertido. Sei que você alimenta constantemente sua galeria com conteúdos. Se faltar, pode perder uma fofoca das grandes.
— Isso é verdade.
— Falando nisso, você parou de vender material dos gêmeos Miya para os fã-clubes?
Rintarou desviou o rosto — Não.
— Mentiroso! — apertei sua costela.
— Elas que me procuram; não posso fazer nada.
— Pode recusar, para começo de conversa.
— Trabalho demais. — Ele jogou o braço por cima dos meus ombros e me puxou para perto.

Continuamos andando lado a lado, em silêncio. Chegamos à escola e antes de entrar no ginásio Suna disse.

— Seu sorriso.
— O quê? — Não entendi sua frase aleatória.
— Se eu tivesse que escolher minha parte favorita em você — explicou —, seria seu sorriso.
— Por quê?
— Foi a coisa mais bonita que vi quando cheguei em Hyogo.




Até Rintarou se tornar meu namorado, não era comum que eu acompanhasse os jogos do time; agora, parecia ser parte de uma rotina. Mesmo a fita carmesim adornava meu cabelo, da mesma cor de seu uniforme, parecia ser uma parte essencial para ficar no meio da torcida barulhenta.
Foi na terceira rodada do torneio de primavera que a Inarizaki teve a sua revanche contra a Karasuno e avançou no torneio quando os derrotou. No fim, todo o trabalho duro deu resultados.
Aran e Kita assistiram da arquibancada e me acompanharam na descida até a área por onde o time sairia. As meninas dos fã-clubes já estavam por ali também; com a vitória, elas pareciam ainda mais eufóricas.
Já havia percebido, mas até mesmo Rin passou a ter algumas fãs. Elas iam e vinham, deixavam presentes, confissões em seu armário e, mesmo que nos vissem andando de mãos dadas durante o intervalo, pareciam deliberadamente ignorar. Esse foi o motivo de ter parado um pouco longe dos jogadores após a vitória, esperando todas as pessoas se dispersarem.
Não é algo que pense falar em voz alta, mas sempre há um medo em meu coração: que chegaria o dia em que não seria suficiente. Medo de que Rintarou achasse um sorriso mais bonito que o meu para admirar ou que o levassem para longe, assim como saiu de Aichi não havia nenhuma garantia de quanto tempo ele ficaria em Hyogo.
Sabia ter muitas faculdades o seguindo e oferecendo vagas, em Tóquio principalmente.
Atsumu viu os dois veteranos e avisou o grupo, andando em passos largos para comemorar a recente vitória com os mais velhos. Gritando qualquer coisa sobre tê-los vingado em relação ao ano passado.

— Não diga isso! Não como se estivéssemos mortos — Aran reclamou.
— Vocês fizeram um bom jogo, parabéns.

Kita é sempre calmo, tinha um sorriso gentil no rosto, e apenas ficar ao seu lado traz uma sensação tranquilizadora — embora Rin dissesse o contrário —, raramente ele relaxava quando o ex-capitão estava por perto. Talvez fosse por isso que sua opinião era diferente da minha.
De braços cruzados, esperei e, quando me viu, o rapaz veio direto para mim. Seu rosto estava sério, mas havia alegria em sua feição. No ano passado, eu o abracei para aliviar suas frustrações; naquele dia, seria para compartilhar suas alegrias, ainda que essas estivessem veladas e escondidas atrás de seus olhos, apenas para que eu as pudesse ver.
Antes que Atsumu pudesse falar algo, escapamos do time para o lado de fora do ginásio, longe de olhos curiosos. Osamu nos viu, então não seria um grande problema; eles teriam mais um jogo hoje, mas seria no período da tarde. Havia tempo o suficiente entre os jogos para matar a saudade.
Quando chegamos do lado de fora, ele segurou meu rosto perto do seu.

— Você está feliz! No fim, todos aqueles treinos nas férias serviram de algo — encostei a testa na sua. — Além de ter um vídeo incrível dos gêmeos brigando.
— Sobre o primeiro, não diga para Atsumu; sobre o segundo, é um tesouro nacional.

Rintarou eliminou a distância entre nós, colando os lábios nos meus, passando o calor de seu corpo para o meu devido à proximidade. Sob a palma de minha mão, pousada em seu peito, sentia seu coração bater rapidamente.

— Você está sorrindo, mas não é o meu sorriso o que aconteceu? — Abraçou-me pelo pescoço, mantendo o rosto apoiado em minha cabeça. — Não adianta mentir para mim, sabe que sou observador.
— Às vezes odeio o fato de você ser central tão habilidoso. Não é nada, só estou pensando, foi o último campeonato e a escola vai acabar logo.
— E o que tem?
— Vou sentir falta disso.
Suna se afastou para me olhar nos olhos, — Hã? Como assim vai sentir falta? Vai terminar comigo por acaso?
— Rintarou, você tem inúmeras propostas de faculdade. Só… estou tentando ser realista, está bem?

Ele franziu a testa — Por algum motivo estou mais irritado do que quando aquele loiro da Karasuno parava meus ataques. — Com um único dedo, ele empurrou minha testa para trás. — Sabe quantas fotos tenho com você estudando? Ou quantas vezes fiquei observando enquanto sua atenção estava completamente focada nos livros? Tenho certeza de que consegue passar na faculdade que quiser.

— Mas-

Não consegui falar porque ele tampou a minha boca com a mão — Coloque alguma confiança nos seus ossos. Vamos escolher uma faculdade juntos; após vencer o nacional, será difícil qualquer lugar me recusar.

— Comemorar antes de ganhar dá azar, sabia? — Puxei sua mão da minha boca.
— Não é nada disso, é uma promessa. Não posso e não quero ficar longe do meu sorriso favorito; além disso, você não aguentaria ficar longe de mim.
— Toda a confiança de Atsumu parece estar passando para você por osmose; por favor, se afaste.
— Estou mentindo, minha querida ? — As mãos do jogador se moveram para minha cintura, puxando-me de leve em sua direção.
— Não sou um dos seus bloqueadores adversários para ficar usando sua manipulação, sabia?
— Sei disso, mas você é mais perigosa que todos eles juntos; não posso te enfrentar sem ter todas as minhas defesas bem definidas. — Rin deixou um beijo casto na minha testa, segurando-me com força. Como se a qualquer momento minha existência fosse simplesmente desaparecer. — Quando aceitou ser minha, não havia prazo de validade; não vou deixar se afastar de mim tão fácil.
— Você é bem astuto, até mesmo fora da quadra.
— O que posso fazer? Afinal, também sou uma raposa.



Em certo momento, desisti de contar a quantas partidas de Rintarou já fui. Depois de anos juntos, imaginava que o número já estava na casa de centenas. Dessa vez, tive que me deslocar até Nagano, mais precisamente para o ginásio da cidade de Matsumoto.
Rin é um dos centrais titulares que joga pelo time EJP, Eastern Japan Paper Mills, da primeira divisão da V.League. Naquele dia, enfrentavam Raijin por pontos no campeonato. Ainda das arquibancadas conseguia vê-lo se alongando com os outros jogadores, é incrível pensar que todos eles estavam se enfrentando em torneios colegiais poucos anos atrás.
Motoya Komori, o líbero, se formou pela Academia Itachiyama e chegou a ganhar da Inarizaki — time da escola pela qual nos formamos —, mesmo enquanto estudantes. Tatsuki Washio, foi estudante da renomada Academia Fukurodani e dividia posição de meio de rede com Rin.
Sabia que na cidade de Sendai, também estava acontecendo um jogo grande. MSBY Black Jackals e Schweiden Adlers, com direito a rivais se encontrando pela primeira vez após anos distantes. Era fácil acompanhar as fofocas do meio profissional tendo um namorado como Suna; ele conhecia pessoas em praticamente todos os times, então ficava sabendo das notícias antes mesmo da mídia.
Sendo um jogo oficial, era óbvio de se esperar jogadas de alto nível, mas nunca falhava em me surpreender o quão longe aquele garoto meio de rede do colegial chegou. Conforme os anos passaram, ele deixou de relaxar quando as partidas já pareciam ganhas e sempre se dedicava ao máximo. Porém, voltava a ser um grande preguiçoso nos dias de folga.
Não que reclamasse de tê-lo em minha cama enquanto vemos um filme ou qualquer outra coisa não tão interessante quanto a companhia um do outro.
A jogada foi simples: voltando de um corte, o líbero do EJP passou a bola para o levantador que se encontrava no meio da rede. Rintarou, que estava na esquerda, avançou rapidamente e cortou usando o ângulo de seu corte para pontuar. A bola bateu com força na quadra do adversário, que não teve chances contra o ataque.
O saque seria deles. O capitão que joga na posição de oposto do time se preparou para o salto e atacou com força, os adversários não tiveram outra chance senão devolver a bola de graça. Washio fez a recepção pelo meio e, novamente, o levantador se preparou acompanhando o movimento. O levantamento aconteceu, deixando a bola na altura certa para que o meio de rede, de olhos afiados, pudesse marcar mais um ponto.
Nenhum dos lados estava disposto a perder, é claro, então progressivamente os pontos ficaram mais difíceis de serem conquistados. Eles iam e vinham; o deuce levou os dois primeiros sets até os trinta pontos, o terceiro acabou com 28, e agora o quarto era o decisivo para a EJP: se ganhassem, a partida terminaria ali.
Quando a Raijin atacou, veio com força. Eles receberam e Rin, mais uma vez, numa jogada combinada, avançou pelo meio. Só que não foi o suficiente para marcar; a bola desviou no bloqueio, mas eles conseguiram fazer o contra-ataque. Suna havia marcado bastante durante a partida, em cortadas, mas fez valer sua posição de meio de rede com um bloqueio preciso que marcou o fim.
3 sets a 1, e vitória da EJP.
Aplaudi da arquibancada quando eles comemoravam a vitória. Suna mexeu nos cabelos quando estava saindo da quadra, um sinal combinado para eu o esperasse próximo à saída do time.
Esperei um pouco o ginásio esvaziar para fazer o meu caminho calmamente até o lugar combinado, ajustei a bolsa no ombro e aguardei. Quando os jogadores começaram a sair dos vestiários, busquei os olhos que tanto amava entre eles.


Fim.


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: Obrigada por ler até aqui!
Até mais, Xx!


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