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Revisada por: Sagitário♐

Última Atualização: 15/8/25
(POV: )
O som do despertador não foi apenas um toque — foi uma facada sonora. O tipo de som que te faz questionar todas as suas decisões de vida. Estiquei a mão às cegas, batendo em qualquer coisa até acertar o botão de desligar. Silêncio. Respirei fundo, tentando me lembrar em qual fuso horário eu estava.
Nova York. Certo. Ou quase.
Ainda com os olhos fechados, afundei o rosto no travesseiro, sentindo o cheiro misturado de perfume caro, spray de cabelo e um leve toque metálico vindo das cordas da minha guitarra, encostada na parede. Aquela mistura era meu perfume diário.
Levantei devagar, os pés tocando o carpete macio, e caminhei até a janela do quarto. As cortinas pesadas de hotel ainda estavam fechadas, mas a claridade vazava pelas frestas como quem cutuca dizendo “acorda, garota, o dia tá esperando”.
Suspirei. Não estava pronta para o dia. Mas o dia não dava a mínima.
Puxei as cortinas com um gesto rápido. A cidade pulsava lá embaixo. Táxis amarelos cortando as avenidas, buzinas, gente apressada com copos de café na mão. Era caos puro — e eu, no fundo, amava isso. Nova York tinha cheiro de pressa, de oportunidades, de café queimado e sonhos amassados. Perfeito para começar mais uma maratona.
Joguei água no rosto no banheiro e encarei meu reflexo no espelho. Olheiras gritando, cabelo emaranhado. Rainha do Caos, prazer. Uma risada amarga escapou. Peguei a escova, ajeitei o cabelo do jeito mais decente possível, passei um delineador rápido e um batom cor terracota. Nada que dissesse “tô perfeita”, mas algo como “tô tentando”.
O celular vibrou na mesa de cabeceira. Sophie. Claro.
— Você já desceu? — A voz dela estava tão animada que me deu vontade de desligar.
— Acabei de acordar — resmunguei, pegando uma camiseta larga e calça de couro preta. Nada grita mais “ ” do que esse combo básico.
— Você tem reunião com o Victor em vinte minutos.
Revirei os olhos. — Bom dia pra você também, Sophie.
— Anda logo, ou eu vou subir aí e te arrastar pelos cabelos.
Sorri de leve. Sophie sempre tinha esse tom maternal misturado com sarcasmo que eu adorava. Melhor amiga, assistente e às vezes terapeuta não oficial.
Me vesti rápido, calcei as botas pretas de salto médio — as que me davam um pouco de poder e alguns centímetros extras — e peguei meus óculos escuros. O tipo de armadura necessária para enfrentar o mundo lá fora.
Antes de sair, olhei para o baixo encostado na parede. Meu refúgio, minha arma secreta contra o caos. Passei a mão pelas cordas, só por hábito, e prometi que mais tarde arrumaria um tempo para ele. Não sabia quando, mas... mais tarde. Sempre era mais tarde.
Abri a porta do quarto e fui engolida pelo som do hotel — passos apressados no corredor, vozes abafadas, o chiado distante do elevador. Meu dia estava oficialmente começando. E, por alguma razão, uma voz interna sussurrou que ele não seria nada comum.
O elevador desceu devagar, e eu aproveitei os segundos de silêncio para respirar fundo. Minha mente já rodava como playlist bagunçada: nova equipe, ensaio, reuniões, entrevistas. Victor me mataria se eu atrasasse outra vez.
Quando as portas abriram, um grupo de fãs estava no lobby. Pequeno, mas intenso. Eles seguravam álbuns, celulares e um entusiasmo que quase me derrubou. Eu amava aquilo, mas precisava de cinco minutos sem pressão.
! Meu Deus, ! — Uma garota com cabelo rosa avançou primeiro. Seus olhos brilhavam como se eu fosse uma estrela cadente.
Sorri, mesmo com o coração implorando por café. Tirei os óculos escuros, assinei um caderno, tirei algumas fotos, escutei um “sua música salvou minha vida” que quase me fez chorar — mas engoli o nó na garganta e segui. Era meu papel. Minha arte valia aquilo.
Atravessei o saguão com passos firmes. Cada clique de câmera parecia ecoar. Cada flash, um lembrete: não há descanso para quem vive no caos.
E lá estava Sophie, no canto, com os braços cruzados e expressão que gritava “você está atrasada”. Levantei as mãos em sinal de rendição, e ela revirou os olhos.
— Vamos, estrela do rock. Victor já tá fervendo lá em cima.
Revirei os olhos também. Meu dia mal tinha começado e já parecia um show sem ensaio.
E, honestamente? Uma parte de mim amava isso.
Atravessei o corredor como quem pisa em ovos — ou melhor, como quem pisa no palco lotado sem saber se as luzes vão funcionar. Sophie caminhava ao meu lado, o salto dela marcando um compasso irritante no piso de mármore.
— Você parece um furacão que esqueceu o roteiro. — Ela me olhou de cima a baixo, analisando minha calça de couro e a camiseta larga com estampa de banda. — Isso é sua roupa para uma reunião importante?
— Importante pra quem? — Ajustei os óculos escuros no rosto e disparei um sorriso falso. — Victor já me viu de pijama no FaceTime, Sophie. Acho que ele vai sobreviver.
Ela bufou, mas não respondeu. Sabia que não adiantava. Eu era um caso perdido quando se tratava de formalidade.
Quando chegamos à sala reservada no segundo andar, Victor já estava lá. Terno impecável, cabelo milimetricamente penteado para trás, expressão que gritava “problema à vista”.
. — Ele não sorriu. Victor nunca sorria de verdade. Apenas esticou os lábios, como quem pratica a empatia em frente ao espelho.
— Victor. — Tirei os óculos, joguei sobre a mesa e puxei a cadeira sem pedir licença. — Adoro começar o dia com um encontro casual entre amigos.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Amigos? Essa é nova.
— Tô tentando melhorar meu marketing pessoal. Vai que cola.
Sophie mordeu os lábios para não rir, enquanto Victor ajeitava a gravata com um suspiro que parecia pesar toneladas.
— Vamos direto ao ponto. — Ele abriu a pasta, espalhando papéis sobre a mesa. — Amanhã começa a turnê. Show de estreia aqui, em Nova York. Lotação máxima, cobertura da imprensa, tudo transmitido em tempo real. Não podemos ter erros, .
— Ah, claro. Porque todo mundo sabe que eu amo erros — falei, apoiando o queixo na palma da mão. — É meu hobby favorito, depois de irritar você.
Victor me lançou aquele olhar que, se fosse arma, já teria me derrubado. Mas eu estava acostumada.
— Estou falando sério. — A voz dele ficou ainda mais tensa. — Precisamos alinhar horários, entrevistas, protocolos. Nada de sumir, nada de improvisos desnecessários. Você vai seguir o roteiro.
Inclinei-me para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Victor, querido… — Sorri, azeda. — Quando foi a última vez que eu segui um roteiro?
— Esse é o problema! — Ele bateu a palma da mão na mesa, fazendo as folhas voarem. — Você acha que pode fazer tudo no improviso, mas estamos lidando com patrocinadores, contratos e uma equipe que precisa de previsibilidade!
Cruzei os braços, fingindo refletir.
— Previsibilidade é para gente chata. Eu sou arte. Arte não segue manual de instruções.
Sophie interveio antes que ele tivesse um infarto:
— Ok, ok. Respirem. Vamos tentar encontrar um meio-termo, certo?
Victor ignorou a tentativa de mediação e apontou para mim.
— Você tem noção do que está em jogo? Amanhã tem cento e vinte mil pessoas esperando ver você no palco, sem falar na transmissão ao vivo para milhões!
— Cento e vinte mil? — Sorri, inclinando a cabeça. — Achei que fossem cento e cinquenta. Você tá me subestimando, Victor. Isso é quase ofensivo.
Ele massageou a têmpora, murmurando algo como “por que eu aceitei esse trabalho?”. Eu poderia responder, mas preferi poupá-lo. Por enquanto.
— Então é isso? — perguntei, levantando-me e pegando os óculos da mesa. — Você me trouxe aqui pra me dizer que eu não posso ser eu? Que fofo.
! — Ele se levantou também, frustrado. — Não é sobre você, é sobre a turnê! É sobre manter tudo sob controle!
Me virei na porta e lancei um sorriso carregado de ironia. — Controle é superestimado, Victor. Às vezes, o caos é o que vende.
E saí, deixando-o afogado na própria raiva. Sophie correu atrás de mim, segurando o riso.
— Você é impossível. — Ela quase tropeçou no salto.
— Não. — Ajustei os óculos e segui pelo corredor como quem tem o mundo aos pés. — Eu sou .
E amanhã, eu provaria isso para todo mundo.
Horas depois, no ensaio, o som das baquetas batendo na caixa ecoava pelo estúdio como tiros cronometrados. Um, dois, três, quatro. Ritmo perfeito. Não para mim. Não hoje.
Meu corpo estava no ensaio, mas minha mente rodava como uma fita arranhada: quem na equipe seria o próximo a me trair?
Três semanas desde o vazamento. Três semanas que viraram um reality show na minha vida, com fotos pessoais minhas circulando na internet como se fossem souvenirs. Victor quase teve um colapso, Sophie quase bateu em alguém, e eu… eu aprendi que confiança é artigo de luxo.
E, naquele momento, o Alex era um lembrete ambulante disso.
, testa esse refrão de novo? A luz precisa sincronizar com a entrada da guitarra — gritou ele, mexendo nos ajustes do painel como se estivesse regendo uma orquestra imaginária.
— Não vou testar nada enquanto essa luz continuar parecendo farol de carro desgovernado — retruquei, sem olhar pra ele.
— Tá no nível certo, é só você entrar no tempo.
— Ah, claro — falei, virando para encará-lo com um sorriso venenoso. — Porque se algo dá errado, obviamente é culpa da vocalista, não do técnico de som que se acha gênio da iluminação e tá mais perdido que GPS sem sinal.
Sophie respirou fundo do lado do palco, provavelmente fazendo um mantra mental pra não matar ninguém.
Alex jogou a cabeça pra trás e soltou uma risada curta, debochada.
— Não sei se você percebeu, mas eu tô aqui pra ajudar, não pra virar seu saco de pancadas.
— Engraçado. — Cruzei os braços. — Porque da última vez que alguém da equipe decidiu “ajudar”, minhas fotos estavam estampadas em sites de fofoca. Quer que eu te mostre as manchetes? Tenho prints.
Silêncio. O tipo de silêncio que corta mais que qualquer grito. A banda trocou olhares desconfortáveis. O som das baquetas cessou. Até a guitarra pareceu se calar por solidariedade.
Alex pigarreou, voltando ao painel.
— Eu não tenho nada a ver com isso, .
— Ótimo. Então não me dá motivo pra duvidar. — Peguei o microfone e dei um passo à frente. — Porque, se der, vai sair daqui antes da luz apagar.
Minha voz soou firme, fria, sem espaço para interpretação. Não era ameaça. Era promessa.
Victor entrou no estúdio nesse exato momento, como se sentisse cheiro de pólvora. Olhou para mim, depois para Alex, depois para Sophie. O clima era tão denso que dava pra cortar com uma palheta.
— Tá tudo certo aqui? — perguntou, com aquele tom forçado de quem já sabe que não tá.
— Perfeitamente — falei, sem hesitar. — Desde que ninguém faça besteira.
Sophie fechou os olhos por um segundo, como quem pede paciência aos deuses da música e Victor suspirou, ajustando o relógio no pulso com aquele ar de executivo em crise existencial. Depois puxou uma cadeira e se sentou como quem se prepara para um interrogatório.
— Ok. Vamos aproveitar que tô aqui. Temos algumas coisas pra alinhar. — Ele abriu a pasta e começou a folhear papéis. — Primeira regra: horários. Não quero atraso, não quero improviso, não quero drama.
— Nossa, três desejos de uma vez. Vai pedir uma estrela cadente também? — Cruzei os braços e joguei um sorriso azedo.
Ele ignorou a piada.
— Segunda regra: nada de sumir entre entrevistas. A agenda tá fechada, não tem espaço pra... crises existenciais no meio do caminho.
— Victor, relaxa. — Peguei a garrafa de água e dei um gole longo, deixando a provocação escorrer junto com a água. — Se eu tiver uma crise, eu te mando um convite no Google Agenda.
Sophie tossiu pra disfarçar a risada, mas Victor não achou graça nenhuma. Ele bateu a pasta na mesa com força.
, isso é sério. A imagem da turnê depende de você manter a linha. Nada de surpresas.
— Ah, claro — respondi, com ironia. — Porque o público ama um show previsível. Vou entrar no palco, cantar no tom certo, sorrir pras câmeras e... puff, todo mundo vai embora feliz. Uau. Que emocionante.
Ele me lançou aquele olhar de quem gostaria de me amarrar numa cadeira. Eu sorri.
— Última regra — continuou, respirando fundo. — Nada de polêmicas. Nem com fãs, nem com a equipe, nem com a imprensa. Um deslize e isso pode custar patrocínio.
Abaixei o microfone devagar e me aproximei dele com passos lentos, deliberados. — Victor... — Minha voz soou doce como veneno. — Eu sou uma artista, não uma planilha do Excel. Se você quiser previsibilidade, contrata um software.
Ele fechou os olhos por um segundo, provavelmente rezando pra não me estrangular.
Antes que pudesse responder, o estúdio mergulhou no caos.
Um estalo seco, seguido de um clarão. A luz de um dos refletores piscou forte e caiu com um estrondo a centímetros de Sophie. Ela gritou e pulou pro lado, derrubando a prancheta no chão. O cabo enrolado se soltou, quase arrastando um dos pedestais.
— MAS QUE INFERNO É ISSO?! — Minha voz ecoou, alta o suficiente pra fazer o técnico gelar.
Alex correu até o painel, mexendo nos botões como um louco. — Foi um curto! Eu... eu resolvo isso agora!
— Resolve rápido, porque se esse negócio tivesse caído na Sophie, você já tava procurando emprego em outra galáxia! — gritei, sentindo a raiva pulsar nas veias.
Sophie ainda estava recuperando o fôlego, os olhos arregalados. Victor levantou, furioso, apontando para Alex.
— Isso é inadmissível! Amanhã temos um show! Se essa porcaria acontece no palco, é manchete no mundo inteiro!
Alex ergueu as mãos.
— Eu disse que resolvo! Foi só um cabo mal encaixado!
Revirei os olhos, sentindo o calor subir pelo pescoço.
— Cabo mal encaixado? Que desculpa criativa. Quer tentar culpar o clima agora?
Ele me olhou com raiva, mas não respondeu. Melhor assim.
Respirei fundo, apertando o microfone com força. Minha cabeça latejava. A adrenalina, a raiva, a sensação de que tudo estava por um fio — literal e metaforicamente.
Se amanhã tudo desse errado, não seria por minha culpa. Eu faria esse show acontecer, mesmo que tivesse que engolir cada centímetro desse caos.
E, se alguém ousasse atrapalhar, eu derrubaria antes da luz cair.
Voltei para o centro do palco, ajustei o microfone e respirei fundo. Precisava cantar, mesmo com a raiva queimando por dentro. Porque amanhã eu teria dez mil pessoas me esperando, e a última coisa que eu ia permitir era alguém arruinar isso.
Se queriam ver caos? Eu podia entregar. Mas do meu jeito.
O camarim parecia um bunker depois de uma guerra. Garrafas d’água abertas, cabos jogados no chão, minha jaqueta de couro amassada em cima de uma poltrona. O cheiro de maquiagem, suor e luz quente grudava na pele.
Eu sentei na cadeira diante do espelho iluminado, encarei meu reflexo e desejei, por um segundo, ser só uma garota normal. Não funcionou.
Sophie entrou logo atrás de mim, carregando uma expressão de alerta e duas garrafas de água.
— Aqui — ela colocou uma delas na minha frente. — Bebe. Você tá branca como papel.
— Eu tô ótima. — Joguei os óculos escuros sobre a bancada e comecei a soltar os cabelos, ignorando as mãos trêmulas.
Ela riu sem humor.
— Ótima? Você quase matou o Alex com o olhar.
— Pena que olhar não mata. — Girei a cadeira, cruzando as pernas. — Seria útil.
... — Sophie se abaixou para ficar na minha altura. A voz dela ficou suave, quase maternal. — Eu sei que você tá no limite. Mas amanhã é o show. Não dá pra explodir agora.
Olhei para ela por um instante, e algo em mim quase cedeu. Mas então a porta se abriu com força.
Victor entrou como uma tempestade, terno amarrotado e celular na mão.
— Dá pra me explicar que circo foi aquele? — Ele largou o celular sobre a mesa e apontou pra mim. — Um equipamento cai no ensaio e você transforma isso num espetáculo de hostilidade?
Revirei os olhos.
— Quer que eu sorria e agradeça quando alguém quase mata minha melhor amiga com um refletor? Que legal, Victor. Vou colocar isso na música nova.
— Isso é sério! — Ele bateu na mesa, as garrafas balançaram. — Eu cansei, . Amanhã temos um show lotado, imprensa, transmissão mundial. Você precisa entrar no palco como a artista que todo mundo ama, não como um desastre ambulante!
— Então fala isso pra equipe! — Levantei da cadeira tão rápido que ela girou. — Porque eu tô pronta, Victor! Pronta pra entregar o melhor show da minha vida! Mas como é que eu confio em gente que nem sabe prender um cabo?!
A voz ecoou pelo camarim, densa, pesada. Sophie abriu a boca pra falar, mas foi interrompida por uma risada baixa vinda da porta.
Alex.
Ele estava encostado no batente, braços cruzados, sorriso irritante.
— Uau. Que discurso. — Ele deu um passo pra dentro, devagar, provocando. — Você devia escrever isso. Vai ficar ótimo numa legenda no Instagram.
— Quer um conselho, Alex? — Dei um passo na direção dele, sentindo o sangue ferver. — Some da minha frente antes que eu esqueça que não posso te enfiar esse microfone na garganta.
O sorriso dele vacilou, mas não desapareceu.
— Não precisa surtar. Só faz o seu trabalho amanhã e tenta não culpar o mundo se algo der errado.
O ar ficou tão pesado que parecia chumbo.
Victor se meteu entre nós antes que a coisa saísse do controle.
— Chega! , vai pro hotel e descansa. Alex, se eu ouvir mais uma gracinha, você tá fora.
Alex deu de ombros, mas os olhos me lançaram um desafio silencioso. Ele saiu, e a porta bateu atrás dele.
Eu respirei fundo, tentando conter a raiva que ardia como ácido. Sophie colocou a mão no meu braço.
— Ei... ignora ele. Foca no que importa, ok?
Balancei a cabeça, sem conseguir falar. Porque, no fundo, eu sabia que ela estava certa.
O que importava agora era amanhã.
Fechei os olhos por um segundo, tentando encontrar calma. Não encontrei. Tudo o que vi foram flashes: luzes, gritos, pressão, câmeras. A contagem regressiva para o caos.
Quando abri os olhos, Victor já estava na porta, encarando-me com uma expressão que misturava cansaço e súplica.
... não me dá um motivo pra duvidar de você amanhã. Por favor.
Não respondi. Só peguei a jaqueta, coloquei os óculos e saí.
Enquanto caminhava pelo corredor, senti as paredes se fechando, como se cada passo me empurrasse para algo maior que eu.





(POV: )
O palco estava a quinze minutos de ser meu — e eu estava a três de um colapso nervoso.
— Cadê a saia preta? — gritei do camarim, com a cabeça enfiada numa mala que claramente não me pertencia. Havia uma escova de dentes que não era minha, uma calcinha de renda que definitivamente não era minha, e uma camiseta com a frase “ABRAÇO GRÁTIS” estampada. Sério?
, a gente precisa subir o som da guitarra pra teste final — gritou Leo, meu técnico de som, do lado de fora.
— E eu preciso de uma saia que não me faça parecer uma líder de torcida dos anos 80 — resmunguei.
Era o primeiro dia da turnê e já parecia um reality show: “Sobrevivendo ao Caos com ”. Só que, ao contrário dos realities, aqui não havia corte para o comercial.
Respirei fundo, me olhando no espelho: Vesti a saia preta como quem veste uma armadura. Justa, curta, com aquela barra levemente torta que faz parecer que cada passo é ensaiado para chamar atenção — mesmo que eu jure que não é. O cropped preto acompanhava a mesma energia minimalista, deixando minha barriga de fora e me lembrando que respirar fundo, às vezes, é também sobre parecer no controle.
A jaqueta foi escolha automática. Aquela college preta com faixas vermelhas e patches esportivos que gritam rebeldia. Usei aberta, como se dissesse “não estou nem tentando”, mesmo que tenha pensado uns bons minutos antes de pegá-la.
Nos pés, as botas pretas de cano alto subiam até os joelhos, sólidas, com salto grosso. Tinham peso. Tinha algo nelas que sempre me fazia sentir invencível, como se cada clique no chão fosse um aviso.
Pendurei a bolsa no ombro e finalizei com um colar de pérolas. Pérolas, sim. Como se eu não tivesse decidido se queria ir quebrar corações numa rua deserta ou tomar chá com a realeza.
Quando me olhei no espelho, dei um meio sorriso. Não era uma roupa. Era quase uma declaração silenciosa: “Não mexe comigo. Ou mexe, mas aguenta as consequências.”
— Você tá linda — disse Sophie, minha backing vocal, entrando no camarim com um energético na mão e um ar de quem já tinha feito yoga, lido um livro e meditado antes do café da manhã.
— Tô um caos.
— Um caos fotogênico.
Revirei os olhos.
A verdade é que ninguém vê o bastidor da música. Todo mundo enxerga o palco, as luzes, a plateia gritando seu nome. Ninguém vê o desespero de procurar uma calça, o microfone que falha no ensaio, o figurino que encolheu na secadora do hotel.
— O segurança novo achou que eu era fã e tentou me barrar na entrada do camarim — ela comentou, como se dissesse que estava chovendo.
— Sério?
— Eu disse “irmão, eu canto com ela há cinco anos”, e ele: “Todo mundo diz isso, moça.”
— Bom, pelo menos você tá convincente — falei, pegando o microfone com glitter na ponta.
Sophie me olhou com carinho, mas com aquele ar sério que só aparece quando ela está prestes a dizer alguma verdade inconveniente.
— Você precisa de uma pausa. Nem que seja de cinco minutos. Um respiro. Um café. Um date.
— Um date? — gargalhei. — A única coisa que me encara nos olhos hoje em dia é a minha agenda.
Ela sorriu, mas não respondeu. E naquele silêncio confortável, por dois segundos, parecia que tudo estava em paz.
Até a luz do camarim piscar.
— Eu vou matar alguém — murmurei. E não era metáfora.
O corredor que levava ao palco era um túnel de vozes e barulhos. O som dos roadies gritando códigos, passos correndo, cabos arrastando no chão. O cheiro era uma mistura de fumaça artificial com desinfetante barato e café requentado.
— Dez minutos! — alguém gritou, enquanto um assistente corria ao meu lado tentando ajustar meu in-ear.
Meu coração batia no mesmo ritmo da bateria que vazava das caixas. Bum. Bum. Bum. Cada pulsar era um lembrete: você não pode errar.
As luzes atrás do palco piscavam em cores que me cegavam por um segundo. Fotógrafos surgiam do nada, flashes invadindo o corredor como tiros de luz. Victor apareceu no meio da correria, com a expressão típica dele: o “se der errado, eu morro” estampado na cara.
— Lembrando: nada de discurso polêmico, nada de improviso, entra, canta e sai. — Ele me apontou o dedo como se eu fosse uma bomba relógio prestes a explodir.
— Relaxa, Victor. — Sorri com a serenidade falsa que só um caos interno consegue produzir. — Se eu improvisar, vai ser brilhante.
Ele fechou os olhos, provavelmente rezando. Sophie segurou minha mão, deu um aperto forte.
— Respira. Você nasceu pra isso.
Eu quis acreditar.
Então as luzes do corredor se apagaram por um segundo. Silêncio. Depois, o rugido da plateia atravessou tudo como uma onda gigante quebrando na minha pele. Um grito coletivo que fez o chão tremer sob meus pés.
— Cinco minutos! — outra voz ecoou.
Cinco minutos? Eu já estava pronta para pular dali direto pro abismo.
O assistente ajustou o último botão do meu in-ear. Meu microfone reluzia sob a luz vermelha do backstage. Respirei fundo, fechei os olhos e pensei: Vamos lá, . É agora ou nunca.
A cortina se abriu devagar, revelando um mar de luzes brancas piscando como estrelas nervosas. O rugido virou trovão. Cada rosto na multidão parecia gritar meu nome, mas eu só ouvia o som do meu coração e a primeira batida do baixo.
Fumaça invadiu o palco, contornando as luzes douradas que dançavam nas laterais. O ar cheirava a eletricidade, suor e adrenalina.
Dei o primeiro passo para a passarela central. O salto bateu na madeira, ecoando como um tiro seco nos meus ouvidos. Depois outro passo. E outro. As luzes me cegaram, mas a sensação era quase divina. Eu não era só naquele momento. Eu era som, era luz, era caos organizado.
Levantei o microfone devagar, sentindo a vibração da multidão atravessar minha pele como corrente elétrica. Um acorde soou atrás de mim — grave, rasgado, poderoso.
E então, no meio daquele clarão, abri a boca. A cortina abriu de vez e, por um segundo, a claridade foi tanta que doeu. Uma parede de luz branca se espalhou sobre mim, transformando cada poro em palco.
O som da plateia bateu como uma onda, forte e quente, invadindo cada canto do meu corpo. Eram gritos, risadas, vozes misturadas, câmeras piscando como um céu descontrolado.
E então veio o primeiro acorde.
Grave, sujo, arranhado. A guitarra explodiu pelos alto-falantes e atravessou minha espinha como eletricidade. Em seguida, a bateria entrou — seca, cortante, certeira — e meu coração começou a bater no mesmo compasso.
A fumaça envolvia meus pés como nuvens presas ao chão. As luzes giravam sobre minha cabeça em flashes de vermelho e dourado, projetando minha sombra gigante nos telões. Eu levantei o microfone devagar, como quem ergue uma arma carregada, e quando meus lábios tocaram a espuma fria, o caos encontrou sua melodia.
— Nova York... estão prontos pra isso? — Minha voz ecoou pelos alto-falantes, grave e carregada de adrenalina.
O rugido da multidão foi a resposta. Eu sorri. Aquele sorriso que não era planejado, não era posado — era selvagem. Era meu.
A batida começou a acelerar, e eu cantei o primeiro verso com um peso que arrancou gritos de cada canto do estádio. Cada palavra era um soco no vazio que eu tinha sentido no camarim. Cada nota era uma lâmina abrindo espaço no caos.
“I’m on the edge, and I’m loving the view...”
Minha voz reverberou tão alto que vibrou dentro da minha caixa torácica. As luzes me cegavam, mas eu sentia cada par de olhos grudados em mim. Câmeras giravam, drones cortavam o ar, e a fumaça explodia em labaredas de cores no refrão.
No meio da música, algo chamou minha atenção: uma fã na grade segurava um cartaz enorme que dizia , casa comigo?” com um desenho horrível de um anel. Ri no microfone — aquele riso rouco que sai quando você não planeja — e apontei pra ela.
— Só se você trouxer café no camarim! — gritei, arrancando uma onda de risadas e gritos que provavelmente iam virar trend no TikTok em três minutos.
Câmeras captaram o momento. O estádio inteiro cantou o refrão comigo depois disso. Era como se milhares de vozes formassem um único corpo, pulsando junto com o som.
No final da música, abaixei o microfone devagar, respirando fundo. Minhas mãos tremiam, mas não de medo — de pura descarga elétrica. Olhei para cima. Luzes. Olhei para frente. Mar de gente. Olhei para dentro. Paz.
Por dois minutos e cinquenta e nove segundos, eu fui só música. Nada mais.
As luzes se acenderam de novo, desta vez em vermelho sangue, banhando o palco como se eu estivesse em um universo paralelo feito de fogo e fumaça. As primeiras notas de “Fireproof Lies” rasgaram os alto-falantes, a bateria pulsando como um coração descontrolado.
Corri até a passarela central, senti o vento do ventilador industrial bagunçar meu cabelo e gritei:
— Essa é pra quem já queimou por amor e sobreviveu!
A multidão respondeu com um rugido que quase arrancou o teto. Eu saltei no refrão, o microfone erguido, e vi do alto a plateia inteira se mover como um só corpo. Braços erguidos. Celulares piscando como constelações modernas. Era hipnótico.
A energia crescia a cada música. “Neon Breakdown” trouxe um clima mais sombrio, com luzes azuis cortando a fumaça como lâminas frias. Em seguida, jogamos o estádio na loucura com “Heart on Overdrive”, e eu me ajoelhei no chão no último verso, gritando como se minhas cordas vocais fossem de aço.
O calor era sufocante. Minha pele grudava na roupa, o delineador escorria pelos cantos dos olhos, mas eu não sentia nada além da vibração do chão e o gosto metálico da adrenalina na boca.
Entre uma música e outra, falei com eles. Com eles. Olhando nos olhos, escolhendo pessoas aleatórias na multidão.
— Essa é pra você aí com a plaquinha rosa... eu vi você chorando, não mente pra mim!
O telão deu zoom na garota, que explodiu em lágrimas e risadas ao mesmo tempo. O estádio gritou por ela. Eu joguei um beijo no ar e a banda atacou os primeiros acordes da próxima música, fazendo aquele momento virar um clipe ao vivo.
E então veio o ápice.
As luzes se apagaram. Silêncio absoluto. O mundo inteiro pareceu prender a respiração.
Sentei no banquinho no centro do palco, só com um violão e uma luz branca me iluminando. Cada grito morreu, cada celular abaixou. Eu toquei os primeiros acordes de “Still Breathing”, uma balada que parecia ter sido feita com pedaços da minha alma.
— Essa é pra quem já pensou em desistir... e não desistiu.
Minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Cada palavra vibrava como um segredo contado no ouvido do universo. E quando cheguei no refrão, não precisei cantar sozinha.
Milhares de vozes me acompanharam, tão altas, tão cruas, que por um segundo eu quase chorei ali, no meio da fumaça, com aquele mar humano gritando a minha letra como se fosse deles.
Na última nota, fechei os olhos. Silêncio. Depois, a explosão: fogos no alto, luzes douradas varrendo o estádio, o rugido ensurdecedor da plateia. Era o som da vida pulsando.
Me levantei devagar, fiz uma reverência teatral, e disse a frase que sempre fecha meus shows:
— Obrigada por me lembrarem porque eu respiro.
O caos explodiu de novo — mas agora era bonito.
As luzes caíram num blackout dramático, e o barulho ensurdecedor tomou conta. Saí do palco correndo, ainda sentindo as pernas bambas. Entrei no backstage com os pulmões queimando e joguei o microfone numa mesa. Me apoiei na parede, respirei fundo e, pela primeira vez em dias, um sorriso verdadeiro escapou sem esforço.
Encostei na parede fria, puxei o ar e pensei: Se isso é sobreviver, eu quero morrer no palco todos os dias.
O corredor de volta parecia infinito, cheio de mãos batendo no meu ombro, vozes gritando “você arrasou!” e flashes que vinham de todos os lados.
Victor apareceu, com um misto de alívio e pânico no rosto. Sophie me abraçou tão forte que quase me derrubou.
— Viu só? Você nasceu pra isso.
Eu ri, encostando a cabeça contra a parede fria, sentindo o suor escorrer pela nuca. E, naquele instante, percebi que tinha razão.
Porque, mesmo que tudo fosse um caos... no palco, o caos era poesia.
Meu joelho esquerdo doía. O direito formigava. A blusa estava grudada nas costas. E, ainda assim, tudo o que consegui dizer ao sair do palco foi:
— Quero um cheeseburger e uma massagem em formato de travesseiro.
A equipe riu. Não sei se da frase ou da minha cara de pós-guerra. Provavelmente dos dois.
— Show impecável, — disse Leo, me entregando uma toalha. — Só dois errinhos técnicos, ninguém percebeu.
— Eu percebi.
— Você sempre percebe.
Ele tinha razão. Desde que comecei, ser perfeccionista era o meu mecanismo de defesa. Se eu focasse nos detalhes, não precisava pensar nos buracos maiores.
Me joguei no sofá do camarim como quem se atira de um penhasco. Ao meu lado, Sophie mascava chiclete de menta como se estivesse em um spa, e Caio, o assistente de produção, discutia com alguém no telefone sobre os quartos do hotel estarem trocados.
De repente, uma fã invadiu o camarim. Literalmente.
— LUUUUUUUNA!!! — ela gritou, olhos arregalados e uma flor artificial no cabelo. Três seguranças surgiram atrás dela, claramente sem saber se seguravam ou se pediam autógrafo.
— Calma, calma! — disse, rindo e erguendo as mãos. — Tá tudo bem.
— Eu só queria dizer que… que sua música “Quebra-mar” salvou a minha vida. Eu escuto ela todo dia no caminho da quimioterapia.
Silêncio.
Sophie colocou a mão no peito. Um dos seguranças pareceu engolir em seco.
— Qual seu nome? — perguntei.
— É Mila. Com M de… Milagre. Foi assim que minha mãe me registrou.
E naquele instante, todo o caos, a falta de calça, os microfones ruins e o café que nunca vinha fizeram sentido. Abracei Mila por tempo demais. Ela chorava. Eu chorei também. Sophie tirou uma foto nossa com um Polaroid antigo que eu sempre deixava por perto. Dei a foto pra ela.
Depois que Mila saiu, com os seguranças mais emocionados do que ela, voltei a sentar no sofá. Respirei fundo.
— Isso. Isso é o que importa — murmurei.
E, por um instante, me permiti fechar os olhos.
*******

No ônibus da turnê, três horas mais tarde, o mundo era só sacolejo, barulhos abafados e cheiro de salgadinho de queijo.
Caio roncava em algum lugar perto da porta. Sophie ouvia algo com fones de ouvido enquanto pintava as unhas. E eu… eu encarava o Word aberto no notebook, o cursor piscando na tela vazia como um lembrete de que eu não conseguia escrever uma linha sequer.
A composição vinha assim, em ondas. Às vezes, tudo fluía. Outras, como agora, eu era só uma artista com um bloqueio criativo e saudade de casa — mesmo que nem soubesse onde era “casa” exatamente.
Fechei o notebook. Peguei meu caderno de anotações. Rabisquei uma frase aleatória:
"Não sei se era amor ou carência de mim mesma."
E abaixo dela:
"Talvez você não tenha ido embora. Talvez só tenha se escondido em alguém que eu ainda não sou."
Suspirei. Sorri. Apaguei as duas.
O ônibus freou com força.
— CHICAGO, BEBÊ! — gritou o motorista, e Sophie ergueu os braços como quem acabava de vencer uma maratona.
Chegamos.




(POV: )
A pizzaria tinha cheiro de forno a lenha, música italiana dos anos 50 tocando ao fundo e uma garçonete que insistia em me chamar de "moça da televisão".
— Eu nem apareço na TV — falei, sorrindo.
— Mas apareceu no TikTok do meu sobrinho. Quase a mesma coisa. — Ela piscou, simpática, colocando uma fatia de pepperoni com borda de catupiry na minha frente.
Sophie ria do outro lado da mesa, mastigando sem nenhuma vergonha estética.
— Você não devia comer queijo antes de cantar — eu disse.
— Você não devia comer pizza às duas da manhã.
— Toque de recolher agora, é?
— Só acho curioso que você ensaia por três horas, revisa o setlist sete vezes, mas se rende por pizza.
— Porque pizza é amor. E o resto é sobrecarga.
Ela ergueu a taça de vinho.
— Um brinde à pizza. E à nossa nova fase.
Fizemos um tin-tin improvisado. Estávamos exaustas, sim. Mas, naquela noite, algo parecia mais leve. Ou talvez fosse só a digestão tentando trabalhar entre os surtos.
No hotel, horas depois, deitei na cama com os cabelos ainda úmidos e o rosto colado num caderno de composição. Nada saía.
A cabeça fervilhava, mas o papel continuava branco.
Peguei o celular e abri as fotos do dia. Algumas com fãs, outras da pizzaria, e uma… que me fez suspirar. Era da turnê passada. Eu no backstage, usando uma calça jeans clara, sutiã rendado preto e rindo com os olhos fechados com um headphone. Tão natural que quase parecia montagem.
Aquela imagem tinha rodado o Twitter inteiro no mês passado. Sem minha autorização. Sem saber quem tinha tirado.
Mas eu sabia.
— Filho da mãe… — murmurei.
Ele havia sido demitido uma semana depois, mas o estrago estava feito. Desde então, minha confiança era um campo minado.
Fechei o celular. Voltei pro caderno.
Rabisquei uma frase:
"Às vezes o barulho vem de dentro."
Suspirei. Dormi antes de conseguir apagar.
Na manhã seguinte, a reunião começou cedo demais pra alguém que tinha dormido menos de quatro horas.
— A nova proposta do festival em Nova Orleans chegou — disse Victor, meu empresário, empurrando o tablet em minha direção.
— Não aceito sem saber como será a logística. A última vez quase perdi meu voo por causa da bagunça da equipe.
— Eu sei, . Estamos trabalhando nisso.
Do outro lado da sala, Alex — a atual pessoa favorita a irritar minha alma — revirou os olhos de forma nada discreta.
— Pode revirar mais que eu vou fingir que é coreografia — disparei, sem tirar os olhos da tela.
— Eu só acho que você tá sendo… exagerada — ele retrucou, com aquele sorrisinho de quem acha que sabe tudo.
— E eu acho que você é ótimo pra ser ex da minha paciência.
Victor pigarreou. Sophie fingia estar vidrada no mural da parede.
— Vamos manter a energia, pessoal? Temos uma artista com shows esgotados e uma agenda de entrevistas que começa amanhã.
— Desde que ninguém vaze meus batons preferidos ou o nome da minha terapeuta pra imprensa, tô tranquila — retruquei, sarcástica.
Silêncio. Curto. Cortante.
Victor respirou fundo e puxou outro assunto.
Mas ali, no fundo da minha mente, eu sabia: mais um vacilo daquela equipe, e não ia sobrar ninguém.
Próxima parada: um dia livre em Chicago. Um café despretensioso. Um encontro com fãs. Um esboço de letra em guardanapo.
Tudo o que eu sabia era que no meu mundo seria só eu, meu café amargo e a promessa de que nunca mais deixaria ninguém atravessar meus limites sem convite.
O café se chamava Amélie’s Garden, mas não tinha jardim nenhum. Só vasos com suculentas, estantes com livros de capa dura e uma playlist que ia de Norah Jones a Fleetwood Mac em looping gentil.
Perfeito.
Sentei no canto mais escondido, com o boné enfiado até as sobrancelhas e um moletom que dizia “sou comum demais pra ser famosa”.
— Um expresso com borda de nutella, por favor — disse à atendente, entregando um sorriso que dizia “por favor, não me reconheça”.
— Nome pra colocar no pedido?
— Cléo.
Cléo era meu alter ego social. Cléo era livre. Ela não tinha agendas a cumprir, entrevistas, shows, absolutamente nada. Era apenas uma mulher de vinte e dois anos que amava tocar baixo, jogar vôlei e passar horas comendo pizza tomando vinho tinto.
Enquanto esperava, abri meu caderno. Página em branco. Como sempre.
Tentei pensar numa melodia. Nada. Peguei o celular e digitei: “como compor sem sentir absolutamente nada por ninguém”. O Google respondeu com: “Você quis dizer: como superar o bloqueio criativo?”.
Obrigada por nada, Google.
Suspirei e comecei a rabiscar qualquer coisa:
Tô cansada de letras que rimam com dor. Quero uma que rime com riso, ou pizza. Ou qualquer coisa que me salve de mim
Poético e faminto.
— Desculpa perguntar, mas… você é a ?
Levantei os olhos e vi uma menina de uns quinze anos, cacheada, olhos arregalados e mãos trêmulas segurando um copo de chocolate quente.
— Depende. Ela tá devendo alguém? — brinquei.
Ela riu. Alívio.
— Minha mãe diz que você canta como se tivesse vivido duas vidas e quebrado o coração nas duas.
— Sua mãe tem bom gosto — respondi, sorrindo.
Ela pediu um autógrafo. Escrevi no guardanapo: Continue escrevendo a sua própria canção. — H. Ela saiu saltitando como se tivesse ganhado na loteria.
Do lado oposto da cafeteria, duas mulheres cochichavam e apontavam discretamente. Estava na hora de sair.
No caminho de volta ao hotel, recebi uma notificação no grupo da equipe:
ALEX: Mudança na coletiva de imprensa. Adiantaram pra hoje às 17h. E , tenta chegar antes dessa vez?
Parei na calçada. Respirei fundo. Contando até três.
A coletiva correu bem. Pelo menos até a quarta pergunta da imprensa, quando um jornalista perguntou sobre meu “relacionamento escondido com um produtor casado”.
Eu congelei.
Alex ficou vermelho, mas não disse nada. Victor pigarreou. Sophie cruzou os braços. E eu… sorri como uma vencedora do Oscar e disse:
— Próxima pergunta.
Quando tudo acabou, chamei Alex num canto.
— Essa informação? Veio de dentro. E se você acha que isso não me afeta, parabéns: você entendeu nada do meu trabalho.
— Eu não vazei nada — ele respondeu, firme. — Mas se você quer continuar tratando a equipe como inimiga, vai acabar sozinha.
Engoli seco.
— Eu já estou.
Silêncio.
— Olha, … — ele começou, mas Victor apareceu com um aviso.
— Lu, vem cá um instante. — Eu o segui para uma parte mais afastada.
— Por que raios você o colocou como coordenador de agenda? A Sophie estava cuidando muito bem disso. — Cruzei os braços, extremamente brava e batendo os pés.
— Sabe que não é verdade, ela já estava muito sobrecarregada com todas as funções e precisava de alguém. Tenta dar uma chance, está bem?
— Apenas uma, Victor. Só uma.
E saí andando antes que quebrasse alguma coisa naquele lugar. Sério, como vou conseguir aturar aquele ser insuportável?
Mais tarde, Victor me encontrou na sala do meu quarto, jogada no sofá com o caderno no colo e um café pela metade. Ele parou diante de mim como quem estava prestes a anunciar um desastre natural.
— Precisamos de um novo fotógrafo.
Não levantei os olhos. Rabisquei mais uma frase no caderno, só por teimosia.
— Não.
, não dá pra continuar sem.
— Eu disse não.
Victor suspirou, passando a mão pelos cabelos, aquele gesto clássico de “vou perder a paciência, mas ainda tenho uma gota de controle”.
— Lu, a turnê continua. A gravadora quer conteúdo, as redes querem imagens, e a gente não pode viver de vídeos tremidos feitos no celular da Sophie.
— E por que não? — murmurei, ainda encarando a folha em branco. — Melhor do que trazer outro estranho pra apontar uma câmera na minha cara.
Outro estranho? — Ele se sentou na poltrona em frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — O que aconteceu com o antigo fotógrafo foi uma tragédia. Eu sei. Mas não é assim que a gente resolve as coisas.
O caderno escapou das minhas mãos.
— Você não entende.
— Então me explica.
Respirei fundo, sentindo aquela pressão subir no peito.
— Ele vazou fotos, Victor. Fotos que não eram pra ninguém ver. Coisas minhas. Pedaços meus que eu nunca quis expor. — A voz saiu firme, mas baixa. — E agora todo mundo acha que tem o direito de me analisar como se eu fosse vitrine.
Ele ficou em silêncio. E, pela primeira vez, não vi o empresário pragmático, e sim meu amigo.
— Eu sei que doeu, Lu. Eu sei que você se sente… traída.
— Traída? — Ri, amarga. — Isso é pouco. É como se alguém tivesse arrancado minha pele e mostrado pro mundo.
Victor respirou fundo, escolhendo as palavras.
— Você não pode deixar que isso defina tudo.
— Mas já definiu. — Levantei, andando até a janela. Nova York brilhava lá fora, indiferente. — Eu não quero outra câmera apontada pra mim. Eu não confio em ninguém.
— E vai viver como? Cantando pra paredes? — A voz dele saiu firme, mas não dura. — A sua música merece ser vista. Você merece ser vista — do jeito certo, por quem sabe respeitar isso.
Cruzei os braços, encarando o reflexo da cidade no vidro.
— E quem garante que não vai acontecer de novo?
— Eu. — A resposta dele veio rápida, certeira. — Porque, dessa vez, eu vou escolher alguém que não é só bom no que faz, mas que respeite você como artista e como pessoa.
Me virei para ele.
— E se eu disser que não quero?
— A gravadora não vai aceitar um “não” dessa vez. E, sinceramente? — Ele sorriu de canto, aquele sorriso que é meio desafio — …você também não. Porque lá no fundo você sabe que precisa de alguém.
Suspirei, largando o peso no peito.
— Victor, eu não tô pronta.
— Ninguém tá. — Ele deu um passo na minha direção, suave. — Mas, às vezes, é nos momentos em que a gente mais acha que não dá conta que a vida joga a pessoa certa na nossa frente.
Revirei os olhos.
— Você tá ficando meio coach, sabia?
— Tô tentando salvar sua turnê, queridinha. — Ele pegou o caderno da mesa e devolveu no meu colo. — Amanhã tem uma reunião marcada com três candidatos.
Três? — Fiz uma careta. — Um circo de novo?
— Mais ou menos. — Victor deu um sorrisinho de canto. — Mas, dessa vez, quem escolhe… é você.
Suspirei, derrotada.
— Isso não significa que eu vou ser simpática.
Por favor, não seja. — Ele riu, já indo em direção à porta. — Quero ver os três suando de medo.
Quando a porta fechou, fiquei ali, encarando o caderno aberto. A letra mal escrita de uma música inacabada me olhava de volta, quase como um lembrete.
Talvez Victor estivesse certo. Talvez.
Mas, naquele momento, tudo o que eu conseguia pensar era: eu não quero outra câmera… outra invasão.
Eu só não sabia que, na manhã seguinte, a tal reunião mudaria tudo.





(POV: )
Sete da manhã. Céu cinza. Café frio. Olheiras nível “vou matar ou morrer”.
Olhei para o espelho do banheiro do hotel e fiz o que toda artista faz antes de um dia difícil: fingi que estava tudo bem.
— Você consegue, . Você é profissional. Você só vai lidar com a equipe como uma adulta funcional. E não vai enfiar a escova de cabelo na cara do Alex. Respira. Inspira. Não pira.
Saí do quarto com meu caderno de composições debaixo do braço e um moletom de capuz cobrindo metade do rosto. No elevador, dei de cara com uma senhora segurando três sacolas de donuts.
— Você é famosa? — ela perguntou, simpática.
— Hoje não — respondi.
Ela riu. E por um segundo, eu também.
O dia estava insuportavelmente quente, desses que grudam no humor e fazem o cabelo criar vida própria.
E, claro, era hoje que Victor decidiu marcar a reunião para escolher o novo fotógrafo da turnê. A reunião estava marcada para 9h. Cheguei às 8h47. Anotem isso. Pro Guinness.
O corredor da gravadora tinha aquele cheiro de café velho misturado com perfurme caro e ansiedade.
Sophie estava ao meu lado, tentando, em vão, me acalmar.
— Você não pode expulsar o cara sem nem olhar pra cara dele, Lu. — disse, ajustando seus óculos de sol enquanto folheava a lista de candidatos.
— Eu posso. E vou. — retruquei. — Não quero mais nenhum infiltrado na minha vida.
Ela suspirou, já prevendo minha teimosia.
— Victor disse que eles são bons.
— Victor também disse que aquela última foto minha comendo pastel era “espontânea e carismática”. Parecia que eu tava brigando com o recheio.
Entramos na sala de reuniões. Ar-condicionado no máximo.
Victor, claro, estava impecável: blazer cinza, sorriso diplomático e aquela cara de “não me faça passar vergonha”.
— Bom dia, estrela — ele disse sem ironia.
— Bom dia, caos com wi-fi.
— Hoje, você precisa pelo menos fingir ser simpática — ele sussurrou no meu ouvido quando entramos.
— Fingir é o que você faz, Victor. Eu sou só honesta.
Sophie riu baixo atrás de mim, carregando dois copos de café como se fossem escudos.
— Não me mete nessa guerra — disse, entregando um copo pra cada um. — Mas tô apostando dez dólares que você vai detestar o primeiro candidato em menos de dois minutos.
— Dez? — provoquei. — Vai ser menos de um.
Victor suspirou, ignorando nosso show particular.
— Só se concentra em achar alguém que não te irrite.
— Boa sorte com isso — murmurei, sentando na ponta da mesa.
Sentei na cadeira da ponta. Sophie sentou ao meu lado, como sempre. E Alex… atrasado. De novo.
— Ele devia dar nome à própria incompetência e lançar um perfume — murmurei. — “Essência de erro.”
… — Victor começou, mas se conteve.
Eu sabia. Estava sendo dura. Mas estava cansada de precisar ser leve quando o peso dos outros caía sempre sobre mim.
Alex entrou cinco minutos depois, com o celular na mão e uma cara de “minha vida é mais difícil que a sua”. Sentou sem olhar pra ninguém.
— Bom — começou Victor —, precisamos conversar sobre a estrutura da equipe daqui pra frente. Já temos um novo stylist sendo entrevistado, e o cargo de fotógrafo será o próximo.
— Já não temos um fotógrafo? — Alex soltou, inocente ou provocativo, difícil saber.
Olhei pra ele. Firme.
— Tínhamos. Ele vendia mais cliques do que a lente dele aguentava.
Victor pigarreou.
— A nova pessoa será escolhida com critério. Só entra se a aprovar.
— Ótimo — disse. — Porque confiança, depois que quebra, não vem com garantia.
Os dois primeiros candidatos foram exatamente o que eu esperava: um cheio de frases feitas do tipo “vou captar a essência da sua alma através da lente”, e outro que falava mais sobre si mesmo do que sobre o trabalho. Victor fingiu sorrisos, Sophie me cutucou pra eu não ser tão óbvia.
— Próximo — falei, com o tom de quem pede outra rodada de café, não outro fotógrafo.
E então, a porta abriu.
Ele entrou.
dore , segundo o crachá improvisado que Victor havia colocado nele — usava uma jaqueta de couro preta surrada, camiseta branca, jeans escuro e um par de tênis que pareciam ter rodado meio mundo. Tinha aquele cabelo bagunçado de propósito e um olhar que... bom, não era tímido. Nem um pouco.
levantou o olhar do celular e sorriu. Não um sorriso aberto, mas um de canto, como quem tem segredos demais.
Eu revirei os olhos na mesma hora.
, esse é o , nosso candidato favorito. — Victor disse com aquela voz de “não faça escândalo”.
Nosso? — arqueei a sobrancelha. — Não lembro de ter visto nada aprovando isso.
inclinou a cabeça, ainda sorrindo como se estivesse se divertindo.
— Que bom saber que a recepção é calorosa.
— Calorosa? — dei uma risadinha sarcástica. — Se quer calor, pega um táxi e vai pro deserto, porque aqui é profissionalismo, não clubinho.
Sophie pigarreou, tentando salvar a reunião.
— Talvez vocês possam… sei lá, começar se apresentando?
— Tá bom. — largou o celular e se apoiou na mesa, cruzando os braços. — Eu sou , fotógrafo há oito anos, especialista em turnês e… aparentemente, especialista em lidar com estrelas mal-humoradas.
Estrelas mal-humoradas? — perguntei, sorrindo falso. — Olha, querido, a última pessoa que me chamou de mal-humorada acabou demitida.
— Vou tentar a sorte. — respondeu, sem perder o ritmo.
Victor respirou fundo, massageando a têmpora.
, precisamos de alguém com o olho dele. E, , por favor, menos ironia.
Mas era tarde demais. Já estávamos num jogo que nenhum dos dois queria parar.
— Escuta aqui, . — disse, cruzando os braços também. — Eu não preciso de um fotógrafo que ache que é o centro do universo.
— E eu não preciso de uma cantora que acha que o mundo gira ao redor do humor dela.
A sala ficou em silêncio.
Até Sophie rir.
— Ok, ok, isso tá melhor do que um reality show.
— Você é sempre assim ou só tá fingindo pose de capa de revista? — interrompi, sem levantar da cadeira.
arqueou uma sobrancelha, sem perder o ritmo.
— E você é sempre tão… receptiva com gente nova?
— Só com gente que me convence.
Ele se aproximou da mesa, apoiando o portfólio.
— Então acho que temos um problema. Não sou muito de convencer com palavras. Prefiro com fotos.
— Hum. — Folheei o portfólio sem olhar direito. — A última pessoa que apontou uma câmera pra mim também dizia isso. E olha no que deu.
— Não sou “a última pessoa”. — Ele disse isso num tom tão calmo que me irritou ainda mais. — E, sinceramente, não tô aqui pra invadir sua vida. Só pra registrar o que você escolhe mostrar.
Silêncio.
Eu apertei a mão dele.
— Eu não tiro fotos falsas. Só o que é real. Se você quiser encenação, pode me dispensar agora.
— Ótimo. Porque a última coisa que quero é mais alguém fingindo saber quem eu sou.
Ele não sorriu. E eu também não.
Sophie tentou intervir, mas eu levantei a mão, sem tirar os olhos dele.
— Sabe qual é o problema com fotógrafos, ? Eles sempre acham que sabem o que é verdadeiro.
— E você acha que sabe esconder? — Ele deu um meio sorriso, sacana.
O ar ficou pesado. Victor pigarreou.
— Talvez vocês possam… sei lá… conversar sobre os ângulos?
— Não gosto de ângulos — respondi. — Gosto de controle.
inclinou a cabeça, como quem me analisa.
— Controle é legal. Mas fotos boas são sempre um pouco fora de controle.
Sophie quase deixou o café cair de tanto segurar a risada.
A reunião seguiu como um cabo de guerra.
Ele sugeria ângulos para as fotos. Eu refutava.
Eu falava de privacidade. Ele fazia piadas.
— Eu trabalho capturando verdade, . — disse, num tom quase sério.
— Verdade? Ou invasão? — rebati. — Porque já tive minha cota de paparazzi tentando fazer dinheiro às minhas custas.
Ele me olhou de um jeito diferente então. Como se estivesse me estudando.
— Eu não sou paparazzi. E, se quiser saber, eu não vendo nada que não seja a minha visão.
Sua visão? — ironizei. — E o que exatamente você vê, ?
Ele deu um meio sorriso, quase desafiador.
— Alguém que finge que não sente nada, mas sente tudo.
Por um segundo, fiquei muda. Só um segundo. Mas Sophie percebeu.
Victor pigarreou.
— Tá contratado. — Victor falou, levantando as mãos.
— O quê?! — Eu e dissemos ao mesmo tempo.
— Pelo amor de Deus, é disso que a turnê precisa: um pouco de tensão criativa.
Criativa? — Eu levantei uma sobrancelha. — Isso parece mais um reality show.
— Relaxa. — enfiou as mãos nos bolsos, sorrindo de canto. — Eu prometo não fotografar seu lado ruim.
— Boa sorte encontrando um lado bom.
Ele piscou.
— Acho que já encontrei.
Engoli seco. Victor sorriu como se tivesse ganho na loteria.
— Você sabe que ele vai ter que me convencer, certo? - Falei com os braços cruzados, encarando Victor.
— Não vim pra te convencer, . Vim pra trabalhar.
. Ele me chamou de .
Como se fosse um código. Um desafio.
Eu sorri. Fria.
— Então vamos ver se você aguenta o palco.
Victor disfarçou a tensão com um gole de café.
Sophie surgiu com o tablet.
, você já recebeu as imagens de referência?
— Não uso referências. Eu crio as minhas.
Arrogante. Ótimo. Mais um artista com ego inflado. Justo o que eu precisava.
— Ótimo. Então estamos combinados. começa amanhã.
O quê? — eu e falamos ao mesmo tempo, em coro indignado.
— É isso. — Victor disse, pegando a pasta. — Vocês vão aprender a conviver. Ou vão me enlouquecer juntos, mas ele começa amanhã.
se levantou, ajeitou a jaqueta e me lançou um olhar carregado de sarcasmo.
— Ansioso pelo nosso primeiro dia, estrela.
— Estrela mal-humorada — corrigi, com um sorriso falso.
Ele piscou.
— Melhor ainda.
Quando saímos da sala, Sophie segurou o riso até o corredor.
— Isso foi incrível — disse. — Eu acho que odeio ele tanto quanto gosto.
— Eu não gosto — declarei.
— Claro que não. — Ela riu. — Só falou com ele como se estivesse num episódio piloto de comédia romântica.
Revirei os olhos. Mas, por dentro, algo me dizia que Sophie não estava tão errada assim.




(POV: )
O estúdio de ensaio cheirava a café velho, couro de cadeira e esperança. Pelo menos era isso que eu queria acreditar.
Atravessei o corredor apertado, cumprimentando os músicos com um sorriso que escondia o cansaço que me agarrava feito sombra.
, pronta para detonar? — brincou o baixista, fazendo uma careta exagerada.
— Mais ou menos — respondi, fingindo confiança.
Peguei o violão, sentei no banquinho e respirei fundo.
O som do primeiro acorde encheu a sala, e por alguns segundos, o mundo parou.
Mas, claro, o universo adora jogar uma pedra no meio da calmaria.
— Alguém pode revisar o som do microfone? Está dando um chiado insuportável — reclamei.
— Já pedi, calma — respondeu o técnico, distraído no celular.
Sophie sorriu, tentando aliviar o clima tenso.
— Vai dar tudo certo. Sempre dá.
Eu queria acreditar.
O palco do estúdio ecoava em vazio. Nada de plateia. Nada de palmas. Só a minha voz tentando se encaixar em frases que ainda não faziam sentido.
Cantei o refrão pela terceira vez. Parei na metade. Tirei o fone. Soltei um palavrão que ecoou bonito entre as caixas de som.
— Algum problema? — perguntou Alex, lá de baixo, com aquela voz passiva-agressiva de quem finge que está ajudando, mas claramente torce contra.
— Não. Tô só treinando minha audição pro inferno. Quase lá.
Ele cruzou os braços.
— Talvez se você deixasse de corrigir cada sílaba…
— Talvez se você entendesse que isso aqui é mais do que sílabas, Alex. É a minha carreira. A minha pele. O meu nome.
Silêncio desconfortável. Sophie, do canto, apenas tocava levemente o teclado, tentando ignorar o duelo com uma trilha sonora zen.
Eu desci do palco. Reta. Rígida. Feita de vidro prestes a trincar.
— Dá cinco minutos. — Minha voz saiu baixa, mas firme.
Do lado de fora do estúdio, o vento cortava. As árvores se balançavam como se tivessem pressa e eu… eu só queria que o mundo parasse um pouco.
Victor apareceu do nada, como sempre. Impecável e pronto pra desmontar bombas com frases curtas.
— Tive uma conversa com a agência hoje — ele disse, colocando as mãos nos bolsos. — Se a coisa continuar assim com o Alex, a decisão será tomada por mim. Mas eu preferia que viesse de você.
Olhei pra ele. Direto.
— Você acha que tô exagerando?
— Eu acho que você está cansada de pessoas que fingem estar do seu lado. E cansada de fingir que tá tudo bem.
Aquilo doeu mais do que eu queria admitir.
— Eu não quero parecer uma diva incontrolável.
— Você não é. Você só cansou de engolir sapo com glitter.
Suspirei. Encarei o céu nublado.
— E o novo fotógrafo?
— Chega em dez minutos.
Assenti.
— O antigo me fez desconfiar até de mim mesma. Vazar aquelas fotos foi…
— Inaceitável. Eu sei.
Silêncio.
Victor me olhou por um instante mais longo do que o normal.
— Posso te dizer uma coisa? Como amigo, não como assessor?
— Diz.
— Você ainda canta como quem quer ser ouvida. Mas tem dias em que parece que você só quer desaparecer.
Eu pisquei. Três vezes. Rápido.
— É que… às vezes ser invisível parece mais seguro.
O ensaio tinha terminado, mas minha cabeça continuava girando. A melodia nova estava ali, martelando nos meus ouvidos, implorando por espaço. Só que o caos ao redor não deixava.
, só confirmando: o stylist da campanha quer três ideias de figurino até sexta. E o jornalista do “SoundWeekly” quer quinze minutos contigo amanhã, na coletiva — disse Alex, me seguindo pelo corredor como uma nuvem irritante de notificações humanas.
— E você quer paz de espírito? Porque vai ter que escolher um de nós dois — disparei, sem virar o rosto.
— Eu tô tentando manter tudo em ordem. Mas parece que você gosta do caos — ele rebateu, sem perder o tom.
— E você parece que nasceu pra ser um alarme de incêndio sem função. Só apita e incomoda.
Sophie tossiu atrás de nós. Um som sutil, mas com uma energia de “vocês vão mesmo começar agora?”.
Continuei andando. A guitarra pendurada no meu ombro doía. Os pés latejavam. A alma também, mas isso era de praxe.
Duas horas depois, sentada numa hamburgueria minúscula e barulhenta no West Loop, finalmente consegui respirar.
— Você precisa de férias, terapia, um date casual e uma playlist nova — disse Sophie, lambendo o ketchup do polegar como se nada fosse mais importante naquele momento.
— Nessa ordem?
— Na ordem que você quiser, mas urgentemente.
A garçonete chegou com nossos pedidos: milkshake de morango com chantilly e um smash burger pra ela, cheddar duplo e coca pra mim. Um clássico.
— Você já pensou em fazer as pazes com o Alex? — ela soltou.
Ergui a sobrancelha.
— Pensei em fazer as pazes com a ideia de paz. Isso já é muito.
Ela riu, e eu tentei não sorrir, mas falhei. Sophie era dessas: a âncora em meio às tempestades, com humor ácido e coração de marshmallow.
Uma menina de uns doze anos se aproximou da nossa mesa, tímida, segurando o celular como se fosse uma relíquia sagrada.
— Desculpa incomodar… você é a ?
— Não. Eu só interpreto ela quando tô com fome — respondi, e a menina riu, nervosa.
Tirei uma foto com ela. Fiz um coração com os dedos. Autografei o guardanapo do restaurante. Quando ela saiu, Sophie me olhou com carinho.
— Sabe, é bizarro como você consegue ser tão doce com os fãs e tão afiada com a equipe.
— A diferença é que os fãs não traem minha confiança. Os fãs não vazam minha vida. Os fãs não tratam minha privacidade como um passatempo.
Sophie não respondeu. Nem precisava.
De volta ao hotel, joguei o casaco na poltrona e caí na cama com força suficiente pra deslocar minha co emocional.
Toquei o celular por reflexo. Notificações. Vídeos. Mentiras. Uma menção a uma ex-“amizade” com um produtor que nunca foi mais que um almoço de trabalho.
A matéria dizia: estaria envolvida com alguém da equipe? Fontes anônimas apontam…”
Revirei os olhos.
— Fontes anônimas são ótimas pra criar fake news e acabar com reputações. Devem se alimentar de biscoito e energia negativa.
Abri o caderno. A melodia voltou à cabeça, flutuando entre frustração e saudade. Rabisquei uma frase sem pensar:
“Entre o que esperam de mim e o que sou, há um abismo. E um palco no meio.”
Abri o bloco de notas no celular e digitei:
“Me disseram que confiar é como cair de olhos fechados. Mas e se você for o chão onde eu caí da última vez?”
Apaguei. Reescrevi. Apaguei de novo.
À noite, pedi comida no quarto. Macarrão, vinho barato, e o velho caderno de letras na mesa. E antes de dormir, sozinha no quarto escuro, me olhei no espelho.
Não pra arrumar o cabelo. Não pra me ver como artista.
Me olhei tentando lembrar quem eu era… antes do medo, da exposição, do mundo todo achar que podia opinar sobre mim.
Em breve, tudo poderia mudar. Ou tudo continuaria igual.
Mas alguma coisa me dizia: a próxima pessoa que cruzasse a minha porta não seria só mais um rosto na equipe.
Seria o começo de um novo tom.
E eu só esperava estar pronta para tocar.




(POV: )
O dia começou estranho. E não era o clima — embora o céu estivesse cinza como se quisesse combinar com meu humor. Era algo no ar, uma tensão elétrica que fazia até o café parecer mais amargo.
Alex chegou atrasado. De novo. Até aí, sem novidades. Mas o problema real veio no meio da entrevista ao vivo com uma rádio de Chicago.
, você tá linda hoje — disse o radialista, animado. — Quem te veste?
— Meu stylist. — Sorri profissionalmente. — Mas o mérito é da equipe.
Tudo certo… até a próxima pergunta.
— E o seu ex? O produtor da Gravity Records…? Foi ele mesmo quem te inspirou a compor “Descompasso”?
Pisquei. Lenta.
— Desculpa, o quê?
— Foi informação da assessoria da sua turnê — ele respondeu, confuso. — Veio no material de apoio. Tá aqui, ó.
Alex. Eu sabia. Era coisa dele.
Na volta pro hotel, a briga não coube dentro do elevador.
— Qual parte de "NÃO USEM MINHA VIDA PESSOAL COMO MATERIAL DE DIVULGAÇÃO" você não entendeu? — gritei, sem me importar com quem ouvia.
— Eu achei que ajudaria na conexão com o público!
— Você achou. Esse é o problema. Você não pensa. Você "acha". E sempre em cima do MEU nome.
Victor precisou intervir. Sophie me puxou pro quarto como quem salva um vaso prestes a despencar. Eu estava chegando no meu limite com Alex e isso não era um bom sinal.
O primeiro ensaio com começou às 14h. Eu já estava de mau humor às 13h47.
Ele chegou pontualmente. E, claro, com cara de quem já sabia que ia me irritar.
Se eu tivesse que escolher entre esse ensaio e uma sessão de terapia em grupo com a imprensa inteira — eu escolheria a terapia.
De olhos fechados.
Mas lá estava eu, parada no meio de um estúdio branco demais, luzes apontadas pra mim como holofotes de interrogatório, e … sorrindo.
Não um sorriso simpático. Mas aquele de canto, irritante, como se ele soubesse algo que eu não sabia.
— Só um lembrete — disse enquanto montava o equipamento. — Eu não faço mil fotos pra depois você escolher a mais filtrada. Faço fotos que contam a verdade.
— Ótimo. Porque eu também não faço poses falsas.
— Isso vai ser divertido — murmurou. Sophie tossiu.
— Ele quer dizer "desafiador".
— Eu sei o que ele quis dizer. O problema é exatamente esse.
— Pode relaxar os ombros, estrela. — disse, enquanto ajustava a lente da câmera.
— Se você me chamar de “estrela” mais uma vez, eu juro que atiro esse baixo em você.
— Ameaça documentada. — ele riu, levando a câmera ao rosto.
O clique soou alto.
Clique.
Clique.
Clique.
— Tá fingindo que tá confortável, mas sua testa tá denunciando. — comentou, como se estivesse narrando o meu desconforto.
— Você sempre fala tanto? — perguntei. — Ou isso faz parte do pacote “fotógrafo irritante e metido a sábio”?
— Só com gente difícil — disse, dando um passo à frente. — E você é difícil pra caramba.
O pior? Ele falava olhando direto nos meus olhos, como se me atravessasse.
E eu odeio quando alguém faz isso.
Sophie estava encostada numa parede, segurando uma garrafinha de água, se divertindo.
— Ele tem razão, Lu. Relaxa os ombros. Você tá parecendo que tá carregando o peso do mundo.
— Talvez eu esteja, Sophie — murmurei, ajeitando o cabelo.
, sem pedir permissão (porque claro que ele não pediria), veio até mim, parou a menos de meio metro de distância e ajeitou uma mecha solta atrás da minha orelha.
O toque foi rápido. Mas suficiente pra eu me arrepiar.
— Agora tá melhor — disse, como se não tivesse feito nada demais.
— Não encosta em mim sem aviso — falei, cruzando os braços.
— Aviso? Quer que eu mande um e-mail antes?
— Seria ótimo.
— Quer em formato PDF ou PowerPoint?
Sophie riu.
— Ok, essa química de ódio tá quase romântica demais, gente.
Química de ódio? — repeti.
Romântica? — ecoou ao mesmo tempo.
Nos olhamos, incrédulos.
— Relaxa, vocês parecem dois adolescentes brigando por um pedaço de pizza. — Sophie completou, revirando os olhos.
O ensaio seguiu, e aos poucos, algo estranho aconteceu.
começou a me provocar menos.
E a falar menos também.
Cada clique parecia… focado. Quase pessoal.
— Para de olhar assim — falei, quando percebi que ele não tirava os olhos de mim entre uma foto e outra.
— Assim como?
— Como se tivesse tentando decifrar o código secreto da minha vida.
Ele sorriu de novo, aquele maldito sorriso.
— Talvez eu esteja.
Durante o ensaio, era… preciso. Calado. Atento. Mas insolente. Quando pedi para apagar uma foto, ele respondeu com:
— Se você quer controle total da narrativa, escreve um livro. Eu só documento o que acontece.
— Você só trabalha com fotos ou com arrogância também?
— Um alimenta o outro.
Ele me fotografou como se me conhecesse. Como se enxergasse coisas que nem eu via. E isso me dava ódio.
Mas as fotos?
As malditas fotos eram boas.
Boas demais.
Quando acabou, ele apenas guardou tudo, sem perguntar se eu tinha gostado.
— As imagens estarão com Victor até amanhã.
— E se eu não gostar de nenhuma?
— Então eu fotografo de novo. Ou você contrata outro. Mas vai ter que achar alguém que banque te olhar de verdade.
Silêncio. Mais um.
Sophie me olhou como quem queria rir, mas sabia que morreria se fizesse isso.
No final da sessão, Victor apareceu, olhando as fotos no visor da câmera.
— Caramba, essas ficaram ótimas — disse. — Até você sorrindo de verdade, .
— Eu sempre sorrio de verdade — rebati, com ironia.
— Hm… — murmurou, ajeitando a câmera no ombro. — Se esse é o seu “sorriso de verdade”, quero ver o falso.
— Você não vai ver — retruquei.
— Aposta? — ele disse, com aquele olhar que misturava provocação e desafio.
— Eu não aposto com gente que eu conheci ontem.
— Então me dá uma semana.
Antes que eu pudesse responder, Sophie nos empurrou em direção à porta.
— Chega, vocês dois. Isso já tá parecendo cena cortada de 10 Coisas Que Eu Odeio em Você.
No elevador, ficamos só nós dois. Silêncio por alguns segundos. Eu com os braços cruzados. Ele, encostado na parede, girando a câmera na mão.
— Você realmente não confia em ninguém, né? — perguntou de repente.
— Não — respondi, seca.
— Bom saber. Vou anotar na minha lista de como te deixar maluca.
— E se eu pedir pra sair da equipe? — perguntei.
— Não vai.
— E por que não?
— Porque lá no fundo, você quer ver até onde isso vai dar.
Eu o encarei.
Ele sorriu.
O elevador apitou.
Fim da linha. Ou talvez, só o começo.
Mais tarde, Victor entrou no meu quarto com o tablet e um sorriso sacana no rosto.
— Quer ver?
— Não.
— Tem certeza?
— Claro que não. Mostra.
As fotos.
Sem filtros. Sem poses. Só eu.
Entre uma risada e um suspiro. Um olhar perdido. Uma mão no cabelo. Um meio sorriso depois de olhar pra Sophie.
Pausa.
— Essa… — sussurrei, tocando a tela.
— Ele tirou quando você achou que ninguém estava vendo — Victor disse. — E é a melhor imagem sua que eu já vi.
Fechei os olhos.
era um problema.
Do tipo que vinha com perfume de cafajeste, correntinha de prata, lente e caos.
E, por algum motivo, eu estava prestes a deixá-lo ficar.

Quando voltei para o hotel, me permiti relaxar depois de tanto estresse. Acendi uma vela com um aroma suave de baunilha, desliguei as luzes, deixando apenas uma amarela indireta, me despi e entrei na banheira.
No fundo, tocava uma playlist de Jazz dos anos 40, meu estilo de música favorito para ouvir em momentos onde eu só precisava esquecer de tudo.
Às vezes eu só queria ser uma jovem normal de 22 anos. Sem fãs, sem pressão, sem caos, sem ter que lançar músicas ou estar em turnês. Era cansativo ter que ser sempre a e ser alvo de haters, fofocas, fake news e tudo o que essa carreira trás pra gente.
Peguei o celular no criado-mudo. Cem notificações. Quase todas de redes sociais — vídeos do show, fãs surtando, hashtags com meu nome. Suspirei. Bloqueei a tela. Não queria ver isso agora.
Então vi: 1 e-mail novo de dois dias atrás. Assunto: Portfólio do Fotógrafo - .
Victor. É claro.
Abri com um toque de curiosidade. O corpo do e-mail era direto:
", segue portfólio do . Ele tem experiência com grandes turnês, cantores como Sabrina Carpenter, Lana Del Rey, Giveon, Shawn Mendes e Kali Uchis. Além de ter um estilo que pode te agradar. Acho que ele pode ser de fato o que a gente precisa.”
Rolei os olhos. Como se eu tivesse cabeça pra isso agora. Mas o link estava lá, gritando pra mim como uma placa neon. E eu nunca consegui ignorar um neon.
Cliquei.
A galeria abriu com um fundo preto minimalista e o nome dele no topo, em letras brancas simples.
As primeiras fotos me pegaram desprevenida. Não pelo óbvio — luz perfeita, ângulos precisos — mas pela sensação. Ele tinha um olhar que transformava caos em poesia. Palcos iluminados como altares, artistas suando emoção pura, mãos segurando cordas de guitarra como se fossem linhas da própria vida. Era cru e, ao mesmo tempo, cinematográfico.
Cliquei em outra. Close de um vocalista ajoelhado no meio do palco, olhos fechados, microfone apertado como se segurasse a própria salvação. A legenda dizia: “The moment music stops being sound and becomes a confession.”
Senti um arrepio idiota subir pelo braço. Droga.
Continuei rolando. Rostos, luzes, instantes roubados. Ele não fotografava só imagens — capturava respirações, silêncios, vulnerabilidades. Esse cara tinha faro pra verdade.
Fechei a aba de repente, como quem apaga uma mensagem proibida. Apoiei o celular na testa e murmurei pro teto:
— Ótimo, agora além de cantar, preciso impressionar o poeta da fotografia.
Revirei os olhos sozinha e joguei o celular longe, caindo de costas na cama. Mas por algum motivo, quando fechei os olhos, a imagem que ficou foi a daquele close de palco. Não sei por quê.
Ou talvez eu soubesse.

No dia seguinte, estávamos em uma sala que alugamos para uma sessão de fotos. De acordo com Victor, precisávamos atualizar alguns materiais de divulgação, e não queriam fotos dos shows. Precisavam de fotos mais “naturais”.
— Hoje a ideia é algo mais cru — disse Victor, entregando um papel com três palavras:
Íntima. Real. Inesperada.
Tradução: vulnerável.
Ou seja, exatamente o que eu não estava disposta a ser.
— Quero ver você de jeans e camiseta, sem maquiagem. Só você — completou , já ajustando a lente.
— Então tira a luz também. Vamos direto pra depressão.
— Não. Só tira a pose.
Ele estava cada vez mais confortável em me provocar. E pior: conseguia fazer isso sem parecer que tentava. Era como se ele enxergasse a versão de mim que nem eu gostava de encarar — e ainda tivesse a audácia de fotografá-la.
Entrei no estúdio improvisado, vestida do jeito que ele pediu. Quando sentei no banco, ele ajustou a lente devagar. Sem pressa. Como se tivesse o tempo do mundo.
— Você não vai dizer como quer que eu fique? — perguntei.
— Só fica. Já é mais do que muita gente consegue.
Click.
O primeiro disparo me pegou desprevenida. O segundo, também.
Eu tentei não demonstrar, mas estava desconfortável. Pelada sem estar nua.
— Você gosta de incomodar, né?
— Não. Eu gosto de tirar a parte que você esconde.
— E se eu não quiser mostrar?
— A câmera não mente, . Só revela.
As fotos duraram 23 minutos. Mas pareceram uma eternidade. Quando terminou, ele me olhou diferente. Não com arrogância. Com… algo mais calmo. Mais perigoso.
— Obrigada por não fugir.
— Não me agradece. Eu ainda tô decidindo se te odeio ou se só quero gritar com você.
— Pode fazer os dois. Mas olha as fotos antes.
E saiu.
Deixando o estúdio com o cheiro da minha insegurança no ar.
À noite, vi as imagens.
Era eu. Mas como eu nunca tinha me visto.
Frágil, cansada… real.
E aquilo, por algum motivo, me fez chorar.

O evento beneficente era mais socialite do que música. Gente rica fingindo empatia, câmeras por todos os lados, e eu ali, sorrindo como quem queria fugir por dentro.
, claro, estava presente. Disfarçado num look todo preto, com a câmera pendurada no peito como se fosse um colar de guerra.
Ele me observava como quem já tinha visto o suficiente — mas queria mais.
Victor se aproximou.
— As fotos vão sair em todas as revistas. É importante parecer acessível.
— “Parecer” é a palavra-chave, né?
— Bem-vinda ao show business.
tirava fotos discretas. Mas em determinado momento, ele ergueu a lente, esperou que eu o encarasse — e clicou. Sem sorrir. Sem pedir.
— Você podia avisar antes de me encarar assim — falei, depois, num canto.
— E perder a expressão real?
— E invadir minha alma no meio de um evento público?
— Você não quer que ninguém veja quem você é. Mas a sua música mostra. Eu só tô seguindo o som.
Eu o encarei.
— Você sempre foi assim?
— Assim como?
— Intolerável.
Ele sorriu. Pela primeira vez, de verdade.
— Não. Isso eu reservo só pra você.
Na saída, ele estava encostado na van de equipamentos. Cruzou os braços.
— Amanhã, tenho uma ideia nova. Um ensaio externo. Só você, céu nublado e silêncio.
— Isso é uma ameaça?
— É um convite. Mas posso transformar numa provocação se você quiser.
Droga. Ele era insolente. Mas… irresistivelmente bom no que fazia.
Quando a produção avisou que a van principal tinha quebrado e que eu teria que ir com a equipe técnica, pensei: qualquer lugar, menos com ele.
Mas o universo, claro, escolheu .
— Tem certeza que não prefere ir a pé? — ele perguntou, já dentro da van.
— Só se eu puder te jogar no meio dos carros no caminho.
— Que romântico.
Sentei no banco do fundo. Ele no oposto. Vinte minutos de estrada. Nenhum som além do motor.
Então ele puxou o celular. Mostrou uma foto.
Era minha. Rindo, olhando pro céu, durante o ensaio há dois dias atrás.
— Eu não te autorizei a guardar isso.
— Não guardei. Só queria te mostrar. Achei que você devia ver como fica quando esquece que tá sendo observada.
Fiquei em silêncio.
Ele baixou o celular.
— Você não é o que as pessoas acham.
— Ah não? E o que você acha que eu sou?
— Um desastre emocional com talento de sobra. Que usa o sarcasmo como escudo e a música como tentativa de se manter inteira.
Doeu. Porque era verdade.
— E você? É o quê?
— Um cara que parou de fingir que quer ser amado. Só quero ser lembrado.
O silêncio voltou. Mas dessa vez… não era desconfortável.
Era denso. Quente. Vivo.
Quando a van parou, desci antes dele. Mas não sem ouvir:
?
Virei o rosto, só um pouco.
— Eu gosto quando você me odeia. Me dá mais vontade de te fotografar.
Sorri. Sem querer. E odiei isso.
— Cuidado, . Vai acabar virando música.
Ele arqueou a sobrancelha e deu um sorriso travesso.
— Já virei. Você só ainda não percebeu.
Maldito fotógrafo.


Continua...


Nota da autora: -

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