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Revisada por Hydra
Atualizada em: 07.07.2025

Tell you
A million tiny things that
You have never known
It all gets tangled up inside

Fecho meus olhos com força à medida que o fim da canção se aproximava, sentindo, mais uma vez, todas as emoções que senti pela primeira vez que compus aquela letra. Ali enquanto minha voz ecoa por aquela sala escura, é fácil pensar que o tempo realmente não havia passado.

Tell you
A million little reasons
I'm falling for your eyes
I just want to be where you are

Dedilho as cordas do violão por alguns segundos além da última estrofe, em uma pequena junção de notas, repetindo a frase final numa melodia sutil e alongada, por uma última vez, dando um final mais dramático para aquela melodia recém criada. Repouso meu vilão em meu colo, para enfim olhar para o rosto de meu anfitrião, que senta em uma poltrona bem a minha frente, sereno e com um grande sorriso nos lábios que já demonstra o quanto Taehyung está contente com o resultado de mais uma composição.
— E aí, o que você achou? — pergunto mesmo assim, porque uma parte de mim ainda precisa ouvir. Ele solta um suspiro longo e joga os cabelos para trás com uma das mãos, como se ainda estivesse digerindo cada verso.
— Nossa … uau! — diz por fim, com aquele tom rouco e baixo que só ele tem — É linda! Obrigado por isso, é… é incrível... Esse álbum vai ficar do jeito que eu quero, obrigado — ele abre ainda mais o sorriso, fazendo com que seus pequenos olhos se fechem em uma expressão de extrema felicidade. E é impossível não sorrir de volta. Primeiro, porque Taehyung possui, indiscutivelmente, um dos rostos mais bonitos do mundo, e eu, uma mera moral, não seria imune ao charme de Kim Taehyung. Segundo, porque ver alguém como ele, o qual poderia ter qualquer compositor do mundo inteiro consigo, satisfeito com minhas composições me fazia sentir plenamente feliz e segura de que eu estava no caminho certo pra realizar todos os meus sonhos. E era por isso que, mesmo cercada de gigantes, eu ainda mantinha os pés no chão e os olhos no horizonte.
Embora acreditasse que aos 25 anos eu já estaria em outra fase da minha vida, ser tradutora e compositora para Idols mundialmente famosos pagava muito bem e era o sonho da maioria das garotas, daquele e de muitos outros países. Ainda assim, meu sonho sempre foi muito maior do que isso; sempre foi tocar o mundo com minhas composições sendo interpretadas por mim mesma. Ter minha voz tocando nas rádios mundo a fora. Eu acredito ser boa o suficiente pra isso. Só preciso de uma oportunidade. E é isso que eu busco no meio de tantos grandes nomes e lendas do Kpop. Talvez a minha vida estivesse diferente se tivesse permanecido no Brasil, talvez eu já fosse uma celebridade lá, embora ser uma artista pop no meio do domínio absoluto do sertanejo, do pagode e do funk fosse um desafio em si.
Mas quando minha mãe anunciou que estava apaixonada e iria se mudar para o outro lado do continente para se casar com um homem que ela havia conhecido pela internet dois anos antes, eu não hesitei em acreditar que ela estava enlouquecendo. Largar tudo? Nossa casa, nossos amigos, nossa história? parecia irreal para mim naquela época; assistir minha mãe questionar seus sonhos foi o motivo que me trouxe até aqui. Apesar de completar 18 anos no mesmo ano em que nos mudados, eu sabia que minha mãe jamais se mudaria para o outro lado do mundo sem que eu estivesse ao seu lado, depois que minha avó morreu só tínhamos uma à outra. Ela já havia abdicado de muitos sonhos para me criar praticamente sozinha. E foi por isso que eu tomei a decisão que me tornou tão maluca quando minha matriarca.
Os primeiros anos em um país completamento novo e diferente foram muito difíceis, nenhuma de nós duas falávamos uma palavra da língua nativa e não eram todos os coreanos que dominavam o inglês. Eu levei dois anos para aprender a língua e mais dois para conseguir falar sem pausas e a entender o que as pessoas diziam sem ter que pedir para repetirem pausadamente. Sem falar na cultura completamente diferente da do país em que nasci. A Coreia, apesar de ser um país bem desenvolvido tecnologicamente falando, ainda era um país um pouco machista e um tanto quanto preconceituoso. Principalmente com estrangeiras. Eu não tinha a pele tão branca quanto a deles, ou cabelos lisos e escorridos. Eu era uma típica cidadã brasileira; pele bronzeada, e uma bunda que me fazia comprar jeans um número maior. Demorei a me acostumar com os olhares que recebia nos lugares que frequentava na pacata cidade em que meu padrasto Seung—Hyun morava. Foi apenas em Seul, 5 anos após eu me mudar para esse país, que eu finalmente comecei a me sentir em casa. Comecei uma faculdade de música, bicos aqui e acolá, percorri caminhos que me levaram onde eu me encontrava hoje, na sala de estar de um dos maiores Idols da Coreia do Sul, eleito um dos homens mais bonitos do mundo, e que tinha uma voz capaz de arrepiar qualquer epiderme, tal qual o sorriso que ele ainda lançava em minha direção.
Por um breve instante, sinto que estou no lugar certo. Talvez não ainda no destino final, mas em plena estrada.
—Fico muito feliz, Tae. Espero que esse álbum te leve ainda mais longe — respondo com um sorriso sincero. — Bom, acho que acabamos por hoje, né? — me levanto do sofá, já começando a guardar o violão na capa e recolher as partituras espalhadas pela mesa de centro. Taehyung acompanha meu movimento, levantando—se também. Ele esfrega a nuca com uma das mãos, puxando levemente os fios do cabelo curto.
—Já vai? Pensei que a gente podia pedir alguma coisa… tomar uma taça de vinho pra comemorar. — Ergo os olhos para ele, avaliando com atenção aquela proposta disfarçada de casualidade. Sei muito bem o que está por trás dela. Taehyung também sabe.
—Se a gente beber a cada composição finalizada, vai acabar precisando de reabilitação — brinco, tentando manter o tom leve enquanto ainda seguro a capa do violão com uma mão. Penso em recusar. Estou cansada, e conheço bem onde a combinação de vinho, Taehyung e a madrugada costuma dar. Mas ali está ele: olhos pequenos semicerrados, o sorriso enviesado que conhece exatamente o próprio poder. Ele sabe seduzir com gentileza. E usa isso com maestria.
Mas não havia nada de “errado” em dois amigos brindarem a mais uma composição. Certo?
Amigos.
Apesar de tudo, era isso que éramos. Ou ao menos, era isso que tentávamos ser por baixo de tudo que vinha junto; desejo, carência, e essa intimidade perigosa que só se constrói quando você passa tempo demais dividindo silêncios e emoções sinceras. Compor com alguém é se despir sem tirar a roupa. É abrir uma janela que quase ninguém vê. E, com o tempo, Taehyung se tornou esse alguém. Um lugar seguro onde eu podia derramar as palavras que me doíam. E, no processo, fui percebendo que ele fazia o mesmo. As letras, as melodias, a forma como canta quando acha que ninguém está ouvindo… tudo nele me diz mais do que qualquer conversa. Eu sentia que sabia exatamente o que se passava em sua mente, pelas letras de suas músicas e pela forma que já o assisti cantar diversas e diversas vezes, sozinhos em uma sala qualquer. Taehyung demonstra tanto sentimento em sua arte, que era impossível não se sentir próxima e íntima.
E no meio de tantos sentimentos e frustrações de ambas as partes encontramos um no outro um lugar de consolo. Nos tornamos próximos demais para que as linhas continuassem nítidas.
E aí, aconteceu.
Uma vez. Depois duas. Depois mais do que eu gostaria de admitir. E sempre com a promessa silenciosa de que seria a última. Nunca era.
Éramos amigos, sim. Mas com pausas perigosas entre refrões e corpos que se reconheciam sem pedir permissão. E o sexo nada tinha a ver com sentimento. E talvez essa fosse a armadilha. Talvez fosse ingênuo da minha parte achar que havia espaço para isso. Alguém como ele não pode ter amigos como eu. Não quando se vive dentro da máquina perfeita chamada BTS, onde tudo é contrato, imagem e controle. Onde o real precisa ser escondido. Onde sentir pode ser uma ameaça. Ainda lembro do choque cultural que levei nos primeiros anos aqui. Na Coreia, os idols não são apenas artistas. São entidades. Quase sagradas. São treinados para serem perfeitos em tudo: como se vestem, como falam, como sorriem… e principalmente, com quem se envolvem. A vida pessoal precisa ser escondida com tanto zelo que, por vezes, eles próprios se esquecem de que têm uma. E quando têm, é privada ao extremo. Tóxica de tão vigiada. Não existe espaço para deslizes.
E mesmo sabendo de tudo isso, aqui estou.
Aqui estou. Mais uma vez, diante dele.
E então ele sorri. Um sorriso doce, cúmplice e perigoso. O tipo de sorriso que derruba qualquer resistência.
Kim Taehyung é lindo, charmoso, mas o mais perigoso de tudo… é que ele sabe disso. E sabe como usar.
Por um instante, fico apenas encarando o sorriso dele. Não digo nada. Apenas o encaro. É curioso como o silêncio entre nós nunca parece vazio. Ele carrega um peso, uma expectativa não dita. Algo que dança no ar e quase toca minha pele.
Eu suspiro, fechando o zíper da capa do violão devagar, como se ainda estivesse decidindo.
— Tá. Uma taça só — digo, enfim— Mas você vai escolher o vinho. Se for aquele branco aguado da última vez, eu levanto e vou embora.
Taehyung ri, aquele riso grave e suave ao mesmo tempo
— Prometo caprichar. Hoje é dia de comemoração — diz enquanto se dirige até a pequena adega ao lado da bancada.
Enquanto ele se ocupa escolhendo a garrafa, eu me deixo cair de volta no sofá. Meus ombros relaxam. Meu corpo também. Talvez eu esteja me enganando. Talvez eu só queira prolongar esse momento de paz, esse lugar onde o tempo parece suspenso entre um acorde e outro.
Talvez.
Ele volta com duas taças e uma garrafa de vinho tinto, francês, é claro, ele tem bom gosto, e se senta ao meu lado. Tão perto que nossas pernas se tocam por um instante, antes que ele, sutilmente, afaste as dele. Sutis demais para parecer desvio. Sutil o bastante para parecer provocação.
Ele serve o vinho e me entrega a taça com aquele olhar calmo, quase preguiçoso, como se soubesse exatamente o efeito que tem.
— Às canções bonitas — ele diz.
—E às noites perigosas — completo, antes mesmo de pensar.
As taças se tocam com um som seco e suave.
Bebemos em silêncio. Ele me observa por cima da borda do copo, e eu finjo que não percebo.
Finjo que não sinto meu corpo reagindo ao dele. Que não reconheço cada passo dessa dança. Já estivemos aqui antes. Sentados lado à lado. Tão próximos, e ao mesmo tempo fingindo que existe distância.
Mas ela nunca existe por muito tempo.
Ele se inclina ligeiramente para frente, cotovelos sobre os joelhos, a taça agora esquecida na mão.
—A gente sempre fala que é a última vez — ele diz, quase como um sussurro.
—E nunca é.
Não é. Porque naquele momento, nenhuma lógica, nenhum contrato, nenhuma regra parecem mais real do que o desejo de ter a pele dele na minha. O calor. A presença. A vontade.
Mas essa onda se dissipa rápido demais, quando Taehyung se inclina em minha direção, um movimento que seria perfeito, se não tivesse sido rápido demais.
—Merda —Taehyung pragueja, rindo, quando o vinho respinga direto na barra da blusa de algodão clara que ele veste. Um borrão vermelho escuro começa a se espalhar pelo tecido, manchando como tinta. — Ah, ótimo — ele resmunga, afastando a taça e olhando para si mesmo com uma expressão de quem já perdeu a conta de quantas vezes fez isso.
—Parabéns, você acaba de arruinar uma peça da Celine — brinco, rindo enquanto pego alguns guardanapos da mesa de centro. Ele já está de pé, tentando secar o tecido com as mãos.
—Ainda bem que sou o embaixador da marca — ele pisca pra mim, e já começa a andar em direção ao corredor. — Vou tomar um banho rápido, já volto.
— Prometo não fugir. Mas não prometo não dar uma espiada no seu vinho — respondo de volta, já empilhando as folhas com as letras e recolhendo a taça vazia dele.
A risada dele ecoa antes da porta do banheiro se fechar com um clique abafado.
E assim que eu me vejo sozinha na sala de estar, com uma taça de vinho na mão, que eu caio na realidade. Aquela tinha sido uma péssima ideia. O que diabos eu estava fazendo na sala de Kim Taehyung, consumindo uma bebida que a cada gole deixa o meu senso de julgamento e tomada de boas decisões, cada vez mais fundo no meu subconsciente? Quando sei tudo o que aquele garoto gostaria de fazer comigo naquele momento, e em como o meu corpo pede para que eu permita que ele faça. Uma parte de mim, a mais desinibida, a mais livre, e carente, sussurra desesperadamente que é isso mesmo que eu preciso. Me divertir mais. Me importar menos. Aproveitar as oportunidades que a vida vinha jogando no meu colo, como se dissesse: “vai, respira, você merece.”
E, racionalmente, eu também sabia que entre nós não existia promessas. Nunca existiu. Só sexo bom, risadas espontâneas e uma intimidade entre duas pessoas que se entendem muito bem juntas. Eu repetia pra mim mesma que não tinha nada demais. Éramos apenas adultos, dois amigos, distraindo um ao outro da solidão que a vida às vezes traz.
Alheia a tudo ao meu redor, quase deixo a taça cair da mão com o estrondo agudo da campainha cortando o silêncio da sala. O som ecoa pelas paredes como se tivesse sido projetado para me lembrar que eu não deveria estar ali. Olho automaticamente para o relógio no meu pulso direito. 23:37. Quem, em sã consciência, bateria na porta de alguém a essa hora, sem avisar?
O pensamento de ser vista, ou pior, pega, na casa de um idol, tarde da noite, parcialmente alcoolizada, me causa um desconforto físico. Uma ânsia. Mesmo que qualquer propriedade onde um membro do BTS morasse fosse extremamente protegida, com seguranças constantes na entrada do prédio e vigilância suficiente para prevenir qualquer tipo de invasão, o medo de um deslize sempre existia. Tento me convencer de que é apenas o jantar sendo entregue. Ainda assim, permaneço imóvel, encarando a porta como se ela fosse explodir. Só me mexo quando, minutos depois, a campainha soa novamente, insistente. Do corredor, ouço a voz abafada de Taehyung pedindo que eu atenda. Caminho até a porta de entrada e a abro com hesitação.
Jeon Jungkook não consegue disfarçar a surpresa assim que seus olhos pousam sobre mim, talvez por não esperar que uma garota abrisse a porta da casa de seu companheiro de grupo, ou talvez por não esperar que a garota em questão seja eu. Ainda assim, o sorriso educado que sempre o acompanha estava lá quando dou espaço para que o mesmo entre no apartamento. Fecho a porta atrás dele, e me viro sem saber ao certo como agir na presença do homem que invade meus pensamentos com mais frequência do que eu gostaria de admitir. Desde o primeiro dia em que o vi na Hybe, soube que ele despertaria algo diferente em mim. Algo que não entendo, nem sei explicar. E todos os nossos encontros ao longo dos meses seguintes só serviram para confirmar esse fato.
O problema era aquele olhar.
Aquele maldito olhar de quem te enxerga por dentro. De quem lê pensamentos antes mesmo que você os forme.
Eu acreditava que com o tempo me acostumaria com a presença dele, que minha reação se tornaria menos visível, menos intensa. Mas ali estava a prova de que talvez isso jamais fosse acontecer.
Não quando ele usa camisas de manga curta que deixam à mostra seus braços largos, musculosos, e repletos de desenhos e traços que só o deixam ainda mais atrativo, traços que quero tocar com os dedos, um por um, perguntar a história por trás de cada inspiração, de cada linha. Não com o cabelo crescido, caindo em ondas suaves e uma franja que quase esconde seus olhos. Olhos esses que me atravessavam. Que me instigam. Que me atormentam. E definitivamente não com aqueles lábios. Tão absurdamente convidativos que me faz pensar, com mais frequência do que deveria, em como seria o gosto deles.
Talvez fosse correto admitir, de uma vez por todas, que a presença de Jeon Jungkook jamais se tornaria genuinamente natural pra mim.
—Oi, Jungkook — cumprimento um pouco sem jeito, tentando disfarçar a surpresa. Ele para por um segundo, talvez também sem saber muito bem o que responder. A verdade é que nossas interações anteriores mal passaram de um aceno cordial nos corredores da Hybe. E agora, ali estava ele, no apartamento do Taehyung, tarde da noite, com vinho sobre a mesa e eu... claramente fora do script profissional. — Taehyung já deve estar saindo do banho... — completo, quase engasgando com a última palavra. Sua expressão muda; confusão, surpresa...Um desconforto que ele tenta esconder passando a mão pela nuca, gesto que confessa sua timidez.
— Ah... — murmura, desviando o olhar. — Eu não quero atrapalhar...— Antes que eu possa explicar, ele já começava a dar passos em direção à porta. — Diz pro Taehyung que eu passo aqui uma outra hora...
—Não, por favor! — me apresso em tocá-lo levemente no ombro, tentando impedir sua saída. Ele parece ainda mais surpreso com meu gesto. — Droga... me desculpa — retiro a mão imediatamente. — Quase dez anos na Coreia e eu ainda me esqueço de como vocês não são habituados a toques.
—Tudo bem — responde —Você é brasileira, né? Aposto que um toque no ombro é o equivalente a um "bom dia". —Ri, aliviando a tensão, e reviro os olhos com bom humor.
—Posso garantir que a gente não sai agarrando as pessoas na rua, como vocês imaginam. O mundo tem uma imagem tão errado do Brasil — brinco cruzando os braços — O país não é só feito de mulheres gostosas e futebol.
Ele arqueou uma sobrancelha, me observando de cima a baixo. Um olhar rápido, mas carregado de subtons, que deixa claro que ele não concorda com a minha afirmação, mas nada diz, apenas deixa escapar um riso contido.
Ato que me pega de surpresa. Jeon Jungkook nunca foi o tipo de homem que saía por aí distribuindo olhares sugestivos. Na verdade, eu nunca o tinha visto sequer lançar um olhar demorado para mulher alguma, em nenhuma situação. Sempre tão educado, cortês e discreto, ele passava a impressão de que nenhuma mulher seria, de fato, digna de cruzar a soleira da sua intimidade. Havia até rumores sobre sua sexualidade circulando discretamente pelos corredores da empresa. Rumores esses que Taehyung fez questão de dissipar, certa noite, ao me garantir que Jungkook apenas era comprometido demais com a própria carreira para se distrair com algo tão trivial quanto transas casuais. Segundo ele, o Golden Maknae era tão habilidoso em manter sua cama bem frequentada com discrição quanto era impecável nos palcos.
Ainda assim, havia algo naquela encarada, contida, mas prolongada o suficiente para ser notada, que me causou um leve estremecimento. Talvez fosse só curiosidade. Talvez fosse só a surpresa de me ver ali, naquele contexto. Mas, confesso, uma parte de mim não deixou de se sentir ligeiramente lisonjeada. Mesmo que racionalmente eu soubesse que não havia ali nenhuma segunda intenção, o simples fato de chamar sua atenção, por um instante que fosse, já era suficiente para me fazer perder o eixo por um ou dois compassos.
Passos arrastados se aproximam de nós, anunciando a chegada de Taehyung. Olho por sobre os ombros de Jungkook no exato momento em que ele cruzava o corredor, ainda secando os cabelos com uma toalha.
— Jungkook? — Taehyung pergunta, surpreso, mesmo já tendo o mais novo em seu campo de visão. — E aí, cara! — completa, com aquele entusiasmo tranquilo que só ele tem. Os dois trocaram cumprimentos rápidos, abraços laterais, tapinhas nos ombros, a intimidade silenciosa de quem se conhece há uma década.
— Eu estava aqui por perto e resolvi passar pra dar um oi — Jungkook se explica, lançando um breve olhar em minha direção antes de voltar—se a Taehyung com um sorriso discreto, quase sem graça. — Não sabia que você ‘tava ocupado.
— Que isso — Taehyung responde, já fazendo sinal para que o seguíssemos de volta à sala. — e eu já tínhamos terminado o trabalho.
Ele se joga no sofá ao meu lado e indica a poltrona oposta para Jungkook, que se acomoda logo depois. Observo Jungkook recolher distraidamente algumas partituras e rascunhos ainda espalhados sobre a mesa de centro. Seus dedos deslizam por uma folha rabiscada antes de sua voz soar com natural interesse:
—Como vão os preparativos pro álbum? —Era curioso como sua postura mudava. Quando o assunto era música, parecia que ele acessava uma parte diferente de si, mais centrada, mais determinada, quase crua. Há uma solidez no seu olhar que eu só tinha visto em artistas que realmente respiram aquilo que fazem.
—Tudo caminhando como o planejado — responde Taehyung, servindo mais vinho para nós dois. Aceito a taça com um leve aceno de cabeça, enquanto ele continua: — Já começo a gravar algumas coisas na semana que vem.
—Ah, eu vi que você reservou o estúdio principal — comenta Jungkook, recusando com um gesto educado a taça que lhe foi oferecida. — Eu tô considerando gravar alguma coisa também. Andrew Watt talvez tenha algo pra mim.
Arregalo os olhos, com surpresa e animação que a simples menção do nome do produtor me faz sentir.
—Uau, Jungkook! Isso é incrível — me envolvo, sem conseguir conter a empolgação. — Eu sou muito fã do trabalho dele.
—É, me disseram que ele é um dos melhores — ele responde com um leve sorriso, modesto. — Mas... a ideia de um álbum solo ainda me deixa um pouco ansioso. — Desvia o olhar, mexendo no celular por alguns instantes. O gesto parece mais uma fuga involuntária do que simples distração.
—Eu também me sinto assim — pondera Taehyung, atraindo novamente a atenção do mais novo. — Mas já deixei claro que esse álbum só vai sair quando eu achar que tá perfeito. Nem que seja durante o nosso alistamento.
—Não sei se consigo fazer tudo sozinho — Jungkook admite, dando de ombros. — Mas me comprometi a tentar. Em duas semanas embarco pros Estados Unidos.
—Bom, você é Jeon Jungkook, o Golden Maknae do BTS. Qual a chance de não ser um sucesso? — comento, tentando passar alguma segurança.
Como alguém que sonha em viver de música, conheço bem aquele sentimento. A dúvida constante, a necessidade de se superar o tempo todo, o medo silencioso de ser esquecido. Claro, o sucesso deles estava em outra galáxia comparado ao meu, mas no fim, todo artista sente as mesmas inseguranças, mesmo com cifras milionárias e aplausos ensurdecedores. O palco pode ser uma armadilha. Você vira tudo... ou nada. E mesmo sendo Jeon Jungkook, Kim Taehyung, ou qualquer outro membro do BTS, era fácil perder—se no meio desse caminho.
Passamos a próxima hora sem grandes acontecimentos. É curioso estar ali, no meio daqueles dois, entre conversas triviais e histórias absurdas de bastidores. Se Taehyung é naturalmente engraçado, ao lado de Jungkook ele se transformava em uma criança de cinco anos. E Jungkook não fica atrás, juntos, parecem irmãos implicantes, cúmplices nas próprias travessuras. Nada ali lembrava os homens sedutores que já tinham estampado capas da Vogue com olhares intensos e poses milimetricamente calculadas.
Quando a comida chega, comemos em um ritmo quase tranquilo. Bom, eu como tranquilamente. Jungkook e Taehyung, por outro lado, devoraram os pratos como se fizessem parte de alguma competição invisível. Aquela era provavelmente a primeira refeição decente do dia.
Tomo o último gole de vinho da minha taça e recuso educadamente quando Taehyung fez menção de enchê-la novamente. Quatro taças já eram o suficiente para que eu me sentisse perigosamente à vontade. Jungkook recusa também — pela décima vez — murmurando um "eu vim dirigindo" que mal saiu audível. Depois de tanto líquido, minha bexiga protestava com veemência. Peço licença e sigo para o banheiro.
No caminho de volta a sala, interrompo os meus passos quando escuta a conversa se iniciar:
— Eu interrompi alguma coisa? — o tom baixo da voz de Jungkook me deixa curiosa.
— Não é o que você está pensando — Taehyung responde rápido demais.
— Eu não tô pensando nada — Jungkook se apressa em dizer, embora sua expressão denunciasse que sim, ele estava. — Mas sei lá. Vocês pareciam… à vontade.
Vejo Taehyung apoiar os cotovelos nos joelhos, entrelaçando os dedos à frente da boca como sempre faz quando está pensativo.
— A gente se dá bem — Taehyung responde, simples. — Trabalhamos juntos. Ela é talentosa, dedicada… e tem uma cabeça diferente das pessoas daqui. É fácil estar com ela.
Jungkook franze o cenho.
—Ela parece legal. Só... não imaginei vocês dois nessa frequência.
Taehyung dá de ombros com um leve sorriso, sem mostrar os dentes.
—Nem eu, no começo. Mas a é diferente. Não tem aquela urgência, sabe? A pressa de querer ser vista, de querer provar algo. Ela só… é. E às vezes isso basta.
Jungkook assente, mais calado do que antes. Se remexe na poltrona, estrala os dedos das mãos, e então volta o olhar para seu companheiro.
—É que… eu não esperava encontrar uma garota aqui — Jungkook volta a falar, em tom contido. — Não essa, pelo menos.
Houve uma pausa.
— O que você quer dizer com isso? — Taehyung soava genuinamente confuso.
— Bem… — Jungkook hesita. — Com a Jennie na cidade, eu achei que talvez…
— Jennie está em Seul? — Taehyung o interrompe — o tom grave. Murcho. Baixo. Denunciando a surpresa e a frustração da informação recém adquirida.
— Está, nos encontramos num evento da Calvin Klein ontem à noite. Pensei que você sabia…
— Não… —Taehyung pigarreia, e algo na voz dele parece quebrar sutilmente. — Ela… ela não respondeu mais às minhas mensagens.
Jungkook não responde de imediato. O silêncio se estende por alguns segundos. Apenas o leve som do vento contra as janelas preenche o ambiente.
—Vocês... tinham voltado? — ele perguntou, com cuidado, como quem pisa em solo instável.
Taehyung solta uma risada seca, sem humor.
— A gente nunca voltou de verdade. Mas também nunca terminou direito. A gente só… ia se esbarrando de novo. E de novo.
—Isso parece desgastante pra caralho.
—E é. — Ele passa a mão nos cabelos ainda úmidos. — Mas também é confortável, sabe? Quando ela aparece, tudo volta pro lugar. Só que dessa vez... eu não sei. Parece diferente.
Jungkook assente com a cabeça, embora estivesse visivelmente desconfortável com o rumo da conversa.
— Cara, desculpa por ter falado qualquer coisa. Eu realmente achei que…
—Tudo bem. — Taehyung o interrompeu, tentando soar casual. — Eu também teria pensado o mesmo. Faz parte. Ninguém entende o que a gente tem... nem a gente mesmo.
—Bom, com ela em Seul, provavelmente você vai esbarrar com ela mais cedo ou mais tarde.
— É isso que me preocupa — murmura Taehyung, mais para si do que para o amigo.
Decidida a ignorar a parte de mim que se sentia incomodada com o quanto Taehyung ainda parece vulnerável à simples menção de Jennie, volto alguns passos no corredor, deixando meus saltos baterem com um pouco mais de força contra o chão. Quando fecho a porta do banheiro, faço questão de deixa-la bater firme, não exatamente como um aviso, mas como um lembrete de que eu estou ali. De volta. Presente.
Quando chego à sala, Taehyung já está com a taça novamente cheia de vinho tinto. Ele a segura com descuido, como se seus dedos estivessem ali por reflexo, mas o olhar, esse estava longe. Tão fixo em Jungkook que ele nem notou quando me acomodei de novo ao seu lado no sofá, sentindo o calor da almofada ainda marcado por minha presença.
Jungkook tagarela com naturalidade, contando sobre uma receita nova de bibimbap que tinha testado na semana anterior. Descrevia os ingredientes com detalhes quase técnicos, misturando termos coreanos com uma pontinha de sotaque inglês. Mas algo na maneira como ele falava, como se estivesse preenchendo um silêncio que incomodava, denunciava que a leveza era só na superfície.
Taehyung assente de vez em quando, levando a taça aos lábios sem de fato beber, e a maneira como seu corpo se mantém imóvel, quase tenso, confirma o que eu já suspeitava: sua cabeça estava em algum lugar, não muito longe dali.

💜💜💜

, eu vou te levar — Taehyung fala pela quarta vez enquanto aguardamos os três a chegada do elevador no último andar do condomínio. Reviro meus olhos, já sem paciência por repetir a mesma resposta novamente —você está bêbada, é perigoso andar com esses aplicativos.
— Você tá bêbado também — retruco, apontando para a maneira nada sutil como ele balança levemente de um lado para o outro, cambaleando. — De jeito nenhum eu entro em um carro com você.
— Deixa que eu te levo — Jungkook propõe dando de ombros com aquele jeito prático e silencioso de quem observa mais do que fala. Olho pra ele de canto de olho, incrédula pela sugestão.
— De jeito nenhum eu entro em um carro com você também! — rebato e ele ergue as sobrancelhas surpreso.
— Eu não estou bêbado! — se defendeu — aliás, não coloquei uma gota de álcool na boca.
— O problema não é a bebida, meu bem, não posso ser vista em um carro com o queridinho da Coreia, no meio da madrugada, acabaria com a carreia que eu nem tenho ainda. — explico vergonhosamente lenta, o álcool dando sinais de que já se fazia presente em minha corrente sanguínea.
Jungkook bufa e revira os olhos.
— Alguma vez você já viu uma foto minha com alguma mulher por aí?
—Não, mas...
—E você acha que isso quer dizer que eu nunca levei uma mulher pra casa? — questiona. A porta do elevador finalmente se abre. Jungkook é o primeiro a entrar na caixa metálica e, como um cavalheiro moderno, mantém a mão à frente do sensor para impedir que a mesmas se feche. — Pode ficar tranquilo Taehyung, eu vou deixá-la em casa com segurança. — diz com um sorriso maroto e uma piscadela rápida.
Quatro taças de vinho atrás eu certamente teria algum argumento válido para rebater, ou simplesmente fingir indignação, faria alguma piada idiota e diria que de forma alguma eu entraria em um carro com um Idol às duas da manhã. Mas a bebida já deixava meu corpo pesado, a cabeça leve, e a ideia de enfrentar a noite sozinha num carro desconhecido não parecia nem um pouco atraente.
E, pra ser honesta, passar alguns minutos sozinha com Jeon Jungkook… Bem, aquilo não seria nem de longe a pior parte da noite. A sóbria provavelmente me daria uma bronca no dia seguinte. Mas a bêbada está cansada e achando a risada de Jungkook surpreendentemente recompensadora. Então me dou por vencida e entro no elevador, acenando de leve para Taehyung, que por sua vez olha de mim para seu companheiro de grupo, intercalando o olhar como se analisasse se aquela realmente era uma boa ideia.
— Na casa dela, JK, na casa dela... — e as portas se fecham antes que Taehyung termine a frase. Jungkook solta uma risada curta e divertida, do tipo que começava baixa e ia crescendo devagar, e não consigo deixar de acompanha—lo. Era fácil achar graça de qualquer coisa quando o som da risada dele era a recompensa. Leve, meio rouca, do tipo que aquece a alma.
A cidade parecia outra naquele horário. Mais escura, mais vazia, mais íntima. As luzes dos postes passam por nós como pequenos flashes amarelados, refletindo nos vidros do carro e dançando discretamente pelo painel.
Jungkook mantém o foco na direção, mas seu semblante é tranquilo, sereno. Uma ou duas vezes ele cantarola baixinho a melodia da música que toca, como se não houvesse ninguém ali além dele mesmo. Era uma cena estranhamente bonita. Ver um ídolo global completamente à vontade, como um garoto comum voltando pra casa depois de uma noite qualquer. Por alguns minutos, esqueço que estou usando um boné emprestado e óculos escuros no meio da madrugada, e que tudo aquilo faz parte de um esforço para que aquela noite passe despercebida aos olhos do mundo. Sorrio sozinha, achando graça do surrealismo sutil daquilo tudo.
A janela do lado dele totalmente aberta me fez pensar que, talvez, ele não estivesse preocupado com possíveis flagras. Fecho os olhos e encosto a testa no vidro da janela. A leve embriaguez me fazia sentir tudo de forma mais lenta, mais viva, como se eu estivesse dentro de um daqueles sonhos bons dos quais não queremos acordar. Eu gosto da sensação. Ainda mais quando ela me permite estar ali, ao lado dele, sem que meu coração ameaçasse sair pela boca. Ainda que, às vezes, ele batesse mais forte, como um lembrete gentil de que sim, eu estava no carro com Jeon Jungkook.
Reconheço os primeiros acordes de umas das minhas canções preferidas, o grave do baixo preenche o espaço pelo alto—falante da Mercedes, e um sorriso me escapa quando começo a acompanhar baixinho o Lany cantar pelo rádio o primeiro verso de Malibu Nights.

There's no reason, there's no rhyme
I found myself blindsided by
A feeling that I've never known
I'm dealing with it on my own
Phone is quiet, walls are bare
I drink myself to sleep, who cares?
No one even has to know
I'm dealing with it on my own

A voz de Jungkook se junta à minha, limpa, passiva e abro os olhos para encara—lo. Ele sorri, satisfeito. E eu... eu guardo o impacto dessa voz tão crua e tão próxima numa caixinha. Uma daquelas que só abrimos sozinhos, mais tarde, quando já estamos deitados, com o peito cheio demais para dormir.

I've got way too much time to be this hurt
Somebody help, it's getting worse
What do you do with a broken heart?
Once the light fades, everything is dark
Way too much whiskey in my blood
I feel my body giving up
Can I hold on for another night?
What do I do with all this time?

Seguimos cantando com entrega, tão intensamente que a voz do vocalista original já mal se ouve. Tampouco importa. Jungkook canta com o coração exposto, como quem se livra de um peso antigo, e eu tenho a impressão de que, naquele momento, ele não ouve mais nada além dos próprios sentimentos. Por alguns instantes, me pergunto quem seria capaz de partir o coração de alguém como ele.
A música termina no exato momento em que ele estaciona o carro em frente ao meu prédio. Um timing perfeito, como se o destino tivesse conduzido aquela trilha sonora com uma precisão cinematográfica. Solto o cinto e me viro em sua direção. Antes que eu possa falar qualquer coisa, Jungkook se adianta:
— Sua voz é linda, — diz, sorrindo enquanto retira os óculos e volta seu rosto para mim. — Taehyung já me mostrou algumas das suas músicas, você é muito, muito talentosa.
Sinto minhas bochechas queimarem. Apesar da pele bronzeada, sei que elas ganharam um tom rubro impossível de se esconder. Tanto pelo álcool, quanto pelo elogio contido.
— Obrigada… — Sorrio de volta. — Vindo de você, isso significa muito. Muito mesmo.
Jungkook mantém o olhar fixo por mais alguns segundos, e então assente. Seu olhar volta a se perder em algum ponto distante, ainda envolto pela melancolia da música anterior, como se a música ainda reverberasse em sua pele. Nada mais disse, e eu também não prolonguei a despedida. Inclino a cabeça numa leve reverência e abro a porta, salto do carro, e deixo os óculos e o boné sobre o assento, sentindo, ainda, seu olhar pesar sobre mim. Me viro para fechar a porta quando ouço sua voz novamente.
—Boa noite, . Quem sabe a gente também não possa trabalhar junto um dia? — e então pisca pra mim, com um sorriso enviesado, antes de por fim girar a chave no contato. Fecho a porta sem responder, porque tenho medo de que o sorriso, que luta pra se libertar em mim, revele demais.
Me viro rápido, caminhando para dentro do prédio como se o frio da madrugada me empurrasse. Só quando estou segura atrás dos portões é que ouço o potente rouco do motor se afastando. Não sei ao certo como subi até o quinto andar, mas assim que fecho a porta do meu apartamento atrás de mim, permito que a tal caixinha se abra.
E então tudo o que estava guardado dentro dela… transborda.
Foi impossível dormir naquela noite, assim como nas que se seguiram.
E mal sabia eu que o destino ainda estava só começando a escrever aquela história.



A semana daquela atípica segunda—feira se arrastou devagar, como se o tempo tivesse aderido ao mesmo compasso lento dos meus pensamentos, que insistiam em retornar àquela madrugada fria, dentro da Mercedes. Era quase impossível me concentrar em qualquer outra coisa quando a lembrança da voz de Jungkook; limpa, firme, tão próxima, ecoava na minha mente. Eu, ali, única e privilegiada espectadora de um momento íntimo e improvável. Sempre tive uma quedinha por ele, o que, sejamos honestos, é compreensível só de se olhar para ele. Mas o que florescia agora era diferente. Era algo que começava no estômago e se espalhava em ondas, como um arrepio que não passava. Pensar nele faz meu corpo todo entrar em alerta. Eu não sabia o que estava sentindo. Só sabia que não era nada que pudesse ignorar. “É tesão, . Seu corpo só tá querendo sentar num pau diferente” decretou Amanda, minha melhor amiga de infância, rindo alto durante nossa videochamada semanal.
Tesão.
A palavra caiu como um tapa engraçado na cara. É uma explicação aceitável, prática, crua. Mas não explica a insônia, nem a forma como meu coração reage ao lembrar da voz dele dizendo que eu tinha talento. Aquilo parecia maior do que desejo. Parecia… parecia perigoso.
Ainda assim, mesmo com Jungkook ocupando mais espaço na minha cabeça do que eu gosto de admitir, finalmente consegui me concentrar no que precisava. Iniciei, enfim, o meu projeto final da faculdade. Era o último do semestre, e eu já deveria estar na fase de finalização se não fosse pelos compromissos com Taehyung, que haviam me mantido ocupada demais para dar atenção aos meus deveres acadêmicos. Com a agenda da Hybe milagrosamente livre naquela semana, dediquei cada dia àquilo que por tanto tempo ficou em segundo plano: eu mesma. E, com isso, ao único obstáculo que ainda me separava do tão esperado diploma. Ver o fim de uma etapa tão longa e desgastante se aproximar era como retirar um peso que eu carregava nas costas sem perceber. Mesmo que meus planos profissionais fossem além da faculdade de música, concluir aquele ciclo era necessário. Era como fechar uma porta para poder, com consciência e leveza, abrir a próxima.
Durante esses dias, não recebi nenhuma notícia de Jungkook. Tampouco de Taehyung. O que, honestamente, já era esperado. Sempre que Jennie estava na cidade, Taehyung desaparecia. Evaporava. Nenhum sinal, nenhum rastro. Era como se eles compartilhassem um universo à parte, um mundo paralelo no qual a relação deles só parecia funcionar entre quatro paredes, ou em qualquer lugar em que pudessem se esconder do resto do mundo. Fora desse espaço íntimo, só havia brigas. Conflito. Caos.
Eu já havia desistido de tentar entender o tipo de relação que mantinham. É bem claro que Taehyung nutre sentimentos profundos por Jennie, isso se vê no olhar, nas ausências, nos silêncios. Mas sempre que ela se torna o assunto, ele desconversa com um simples “É complicado, .” E, com o tempo, eu passei a aceitar essa resposta como uma verdade incontestável.
Sim, é complicado. Muito.
Taehyung, apesar de atencioso, doce, quase hipnotizante às vezes, também é teimoso. Um tanto soberbo, inclusive. Há nele uma aura de alguém acostumado a ser desejado, atendido, venerado. E como culpá-lo? Desde a adolescência, ele tem pessoas ao seu redor para cuidar de tudo, da roupa ao cronograma, das palavras à imagem pública. É compreensível, embora não justificável, que lhe falte autonomia emocional. E ele não é o único. Aquela ausência de controle real sobre a própria vida se estendia a todos do grupo. Uma vida grandiosa, mas guiada por muitas mãos. Quase nunca pelas deles. Jennie, por sua vez, deve carregar seus próprios fardos. Ela também vive em meio ao espetáculo, aos flashes, à pressão. E ainda que entre os dois haja muito amor, eu me pergunto se ela é capaz de arriscar tudo que conquistou por ele. Mesmo sendo Jennie Kim, uma das maiores estrelas do Kpop da atualidade, seria ela capaz de enfrentar o ódio que viria?
Porque ele viria.
Eu sabia disso. Sentia isso na pele.
Trabalho com os meninos há apenas alguns meses, e mesmo assim já tinha experimentado o lado sombrio da devoção de algumas fãs. Eram obcecadas. Descobriam nomes, rostos, rotinas. Eu, teoricamente apenas mais uma funcionária da Hybe, já havia recebido dezenas de mensagens ofensivas, e até ameaças, apenas por estar “próxima” deles. Imagina o que aconteceria se descobrissem o quão bem familiarizada eu era com os lençóis de Kim Taehyung?
Para Jennie, a situação seria ainda mais intensa. Mais cruel. E ela sabe disso. Ambos sabem. Talvez essa fosse, de fato, a definição do “complicado” que ele tanto repete: uma história vivida nos bastidores, entre o desejo e o medo, entre o amor e o peso de ter tudo e, ainda assim, não poder ser livre.
A estrada que eles trilham é feita de sucesso, luxo e privilégios. Mas também é um caminho de abdicação. De silêncio. De solidão. E, bem lá no fundo, eu suspeito que fosse também, e inevitavelmente, um pouco triste.
Alguns dias após seus sumiços, Taehyung costumava dar sinais de vida, sempre da mesma forma: aparecia com o coração em frangalhos e uma pasta cheia de rabiscos melancólicos que poderiam, ou não, virar música. Por isso, não me surpreendo quando, no entardecer do domingo, meu celular apita com uma mensagem dele.

“Podemos compor hoje?”

Compor. Essa palavra carrega mais do que o seu significado literal. É um código velado, o pedido mudo para que eu ocupe, mais uma vez, o lugar vazio que ela deixou em sua cama. Entre uma nota e outra, é ali que ele encontra alívio, mesmo que tudo não passe de uma ilusão. Em dias comuns, eu teria tomado um banho, colocado uma roupa confortável e corrido para o seu apartamento sem pensar duas vezes. Mas algo naquela noite estava diferente. O simples fato de Jennie despertar em mim um incômodo, mesmo que involuntário, é um sinal de alerta. Talvez estivéssemos passando dos limites. Taehyung e eu tínhamos, ainda que silenciosamente, firmado um tratado: aquilo entre nós era trivial. Casual. Momentos de fuga. Nada que envolvesse apego — muito menos ciúmes. E se agora esses sentimentos começassem a surgir, talvez fosse a hora de tirar o pé do acelerador. De respirar.

“Estou cansada. Nos vemos na terça?”
Foi tudo o que respondi.
A resposta dele não tardou. Direta, até mesmo fria:
“Até lá.”

Essa era mais uma previsibilidade de Taehyung. Sempre que algo saía do roteiro que ele criava mentalmente, um traço de hostilidade surgia. Uma espécie de silêncio atravessado. Um ressentimento passageiro. Mas, horas depois, como se nada tivesse acontecido, ele voltava ao normal. E assim continuava sendo.
Cíclico. Intenso. E cada vez mais previsível.
Diferente da semana anterior, a segunda—feira passa como um jato, e em um piscar de olhos, eu já me encontro naquela terça—feira fria e chuvosa, caminhando apressadamente pelos corredores da Hybe, atrasada, em direção ao estúdio principal no quinto andar. Uma tarde inteira ao lado de Taehyung me espera, e por mais que eu tentasse me manter concentrada no trabalho, o turbilhão da última semana ainda reverberava sobre mim.
A porta do estúdio se abra repentinamente antes mesmo que eu tenha a oportunidade de abri-la.
— Sr. Bang! —exclamo, surpresa, ao dar de cara com o CEO. O homem baixinho e robusto me encara com simpatia por trás dos óculos de aro grosso.
— Srta. , boa tarde — diz, com um sorriso breve. — Como vai? Eu estava mesmo querendo falar com a senhorita.
— Vou bem, senhor — me apresso em fazer uma reverência respeitosa. — Em que posso ajudar?
Ele desvia o olhar para o celular em sua mão, franzi a testa diante de alguma notificação que aparece na tela. Seu semblante se crispa por um instante, mas logo ele digita algo com rapidez, como se resolvesse o assunto ali mesmo. Volta a me encarar com os olhos fundos e uma expressão que, embora cordial, parece carregada de cansaço.
—Seu passaporte está em dia?
Fico alguns segundos sem reação, surpresa com a pergunta repentina. E então assinto, mesmo sem esconder completamente a confusão no rosto. Claro que estava em dia, eu era estrangeira naquele país, afinal. Mas por que ele queria saber disso agora?
—Tive uma reunião com Jungkook ontem — continuou, como se aquilo explicasse tudo. — E decidimos que você vai acompanhá-lo na próxima viagem para os Estados Unidos. — Sua voz soou animada, como quem anuncia uma boa notícia, embora seu sorriso já denunciasse o peso de uma agenda apertada demais. Demoro alguns segundos para processar o que ele havia acabado de dizer. Penso que, talvez, meu cérebro ainda embaralhado pelas lembranças daquela noite, tivesse projetado o nome errado em seus lábios.
Taehyung, e não Jungkook.
Mas… Taehyung não tinha compromissos nos EUA.
Jungkook, sim.
E então lembro de suas palavras, frases soltas jogadas nas várias horas de conversas compartilhadas.
Em duas semanas embarco para os EUA”, ele havia dito.
“Quem sabe a gente também não possa trabalhar juntos?”
Um arrepio percorre meu corpo. Seria possível? Teria ele falado sério? Teria mesmo me incluído num projeto seu com Andrew Watt? A simples ideia era absurda, e ao mesmo tempo empolgante. Sr Bang retoma a palavra, me trazendo de volta da dimensão que ele próprio me fez se afundar. Como se me puxasse de volta ao chão.
— Minha assistente entrará em contato para os detalhes. — Volta os olhos à tela do celular. — Agora preciso ir, tenho uma reunião em alguns minutos. Tenha uma ótima tarde, Srta. .
E sem me dar tempo de formular qualquer pergunta, ele se despede com algumas batidinhas no meu ombro e desaparece pelos corredores, deixando atrás de si apenas o eco daquelas palavras e uma nova onda de ansiedade correndo por dentro de mim.
Conhecer Andrew Watt. Ver de perto os bastidores de uma grande produção internacional. Mesmo que meu papel seja apenas de intérprete, mesmo que eu seja apenas um apoio técnico, estar ali já seria uma grande chance, rara, de aprendizado. Fecho os olhos e levo as mãos ao rosto, batendo de leve nas bochechas, como se pudesse me trazer de volta à superfície.
Ainda há muito chão para percorrer até encontrar o meu lugar nessa indústria.
Não há espaço para devaneios.
Não agora.
Quando empurro a porta do estúdio, Taehyung já está ali, largado em uma das poltronas com as pernas jogadas sobre outra cadeira, rabiscando distraidamente em algumas folhas soltas. Ele levanta os olhos ao ouvir o clique da maçaneta e abre um sorriso tão largo que me fez esquecer — por dois segundos — que o mundo ao redor estava meio caótico. Percorro a sala ampla com o olhar e constato que estamos sozinhos.
— Está atrasada — ele levanta e caminha preguiçosamente em minha direção — já tava pensando que tivesse fugido com o Jungkook antes da hora — diz, com a voz arrastada e um olhar afiado.
—Boa tarde pra você também — resmungo, tirando o casaco encharcado e penduro na cadeira. — Achei que viemos aqui pra gravar, não fazer comédia stand-up.
—Ah, mas eu trabalho melhor quando estou inspirado — rebate, jogando as folhas em um banco qualquer ao nosso lado. —E você me inspira tanto quando tá nervosa.
—Eu não estou nervosa.
—Claro que não — ele diz com o tom mais cínico do planeta. — Só mordeu o lábio umas três vezes nos dois minutos em que está aqui, mas não é nada demais, é claro.
Faço uma careta, alcanço uma almofada qualquer e jogo contra ele. Taehyung ri e a segura com uma mão só, como se esperasse por aquilo.
—Então? — provoca. — Pronta pra cruzar fronteiras com o nosso querido maknae?

—É só uma viagem de trabalho — murmuro, já abrindo minha bolsa e puxando meu caderno.
—Quem sabe não é a sua chance? Ele pareceu bastante interessado.
— Do que você está falando? — ergo minhas sobrancelhas, confusa. E vejo o sorriso dele a minha frente aumentar ainda mais ao notar minha curiosidade.
— Ele me ligou semana passada, perguntou se eu me importaria caso ele “roubasse” você por alguns dias. Achei bem educado— Taehyung se afasta novamente, voltando a sentar na poltrona no canto do amplo estúdio. — Eu só queria estar por perto quando Si-hyuk te contou. Deve ter sido tipo uma cena de dorama: câmera lenta, olhos arregalados, trilha sonora dramática. Talvez uma lágrima.
—Só uma taquicardia mesmo — resmungo, sentando ao lado dele. — E você devia parar de me zoar. A gente vai trabalhar. Só isso.
—Trabalho e talvez um pouquinho de flerte cultural — responde casualmente, mexendo nos cabos do fone de ouvido como quem não dizia nada demais.
Aish, Taehyung!
Ele ri de novo, um riso cheio de diversão, jogando a cabeça pra trás.
— Ah, … Você sabe que eu só faço isso porque adoro te ver irritada.
— E você sabe que eu só não te dou um tapa porque ia ficar feio no relatório do RH.
Ficamos em silêncio por um instante, e quando eu acho que o assunto iria mudar, ele joga a bomba com a casualidade de quem fala sobre o clima:
— Jennie está em Seul. Parece que vai ficar por um tempo.
Levanto o olhar. O tom dele havia mudado, ainda leve, mas com uma pontinha de sarcasmo escondida por trás da máscara.
— Vocês se viram?
—Sim. — Ele dá de ombros, como se aquilo não importasse. — Mas não sei se tô a fim de ser personagem de drama de novo. — Taehyung desvia o olhar para o chão por um segundo. Só um segundo. Mas tempo suficiente pra notar a tensão que percorre seu maxilar.
—Ela não parece o tipo que aceita ser deixada pra trás tão facilmente — comento, não por ciúmes. Por curiosidade. Por querer entender onde ele se perde quando se afastava de mim.
—Talvez não aceite mesmo. — diz e se levanta abruptamente, depois caminha até o computador — Melhor a gente trabalhar né? — ele então mexe nos ajustes da mesa, encerrando o assunto sem cerimônia.

A última batida da mixagem ecoou pelos monitores e, enfim, a sessão terminou. Um a um, os membros da equipe deixam o estúdio entre acenos rápidos e comentários sobre o prazo da próxima entrega. Taehyung permanece no canto da sala, mexendo em algumas anotações, até que sobramos só nós dois ali dentro. Pego minha bolsa sobre a cadeira e ajeito o casaco nos ombros. Lá fora, a noite já caía sobre Seul, e a garoa que persistia desde o fim da tarde parecia ter se transformado numa chuva firme. Suspiro baixo.
—Vai pegar táxi com essa chuva? — a voz dele veio das minhas costas, como se tivesse lido meu pensamento. Me viro devagar.
— Aham. Tô acostumada.
Ele gira chave do estúdio nos dedos, como se ponderasse algo muito sério.
—Vamos dar uma volta. Te deixo em casa. Ou… onde quiser ir.
—Isso soa menos como carona e mais como convite pra confusão.
Ele sorriu, sem negar.
—Pode ser. Ou pode ser só carona mesmo. Depende de você.
O olhar dele era daquele tipo que não pede permissão, mas também não força a resposta. Apenas deixa a opção em aberto, como se já soubesse que o caminho até sua casa é mais curto que o da minha.
—Confusão é o que a gente mais sabe fazer — digo e caminho até ele, passando por sua lateral. Sinto quando sua mão roça discretamente em minhas costas, guiando meu passo para fora do estúdio. No elevador, o silêncio é denso, mas confortável. Nossas respirações o único som além do ruído mecânico descendo andar por andar. No carro, o vidro embaçado deixa a cidade com cara de filme antigo. Taehyung dirige com uma mão no volante e a outra solta no colo, o rosto levemente relaxado, a expressão concentrada nas ruas a sua frente. Ele não pergunta a onde deve me levar, mas sei, quando ele segue pelo lado oposto, que não é para o meu apartamento.

💜💜💜

Os dias que antecedem a viagem passam arrastados, como se o tempo tivesse entrado em câmera lenta só para me testar. A confirmação oficial chegou por Mirae na manhã de quinta—feira, a assistente entrou em contato para acertar os detalhes e me orientar sobre os trâmites burocráticos. Como estrangeira, meu passaporte já estava em dia, e o único ponto pendente era a emissão do visto para os Estados Unidos. Ela garantiu que tudo seria agilizado pelo departamento jurídico da empresa, e que eu não precisava me preocupar com nada. “Só separe as malas e prepare o coração”, disse, em tom leve. Ri, por educação. Mas o coração... esse já estava um caos.

A equipe que acompanharia Jungkook seria enxuta, para evitar alarde. Iríamos em um voo comercial, embarque discreto, e uma estadia de aproximadamente sete dias em Los Angeles, sem previsão exata de retorno. A justificativa oficial era um encontro com Andrew Watt para discussões e sessões em estúdio. O que já seria, por si só, o suficiente para me deixar em alerta máximo. Estar ali, ao lado de um produtor internacional, numa criação que talvez se tornasse parte de um futuro álbum, me parecia um salto enorme. Mas, mais do que o trabalho, e talvez eu devesse me envergonhar por admitir isso, o que mais me ocupava o pensamento é a presença dele.
Jungkook.
Eu tentava me convencer de que era só ansiedade profissional, que tudo isso era normal. Que estar perto de alguém como ele, depois daquela noite no carro e da conversa com Si-hyuk, era só um desafio a mais no meu caminho.
Mas não era só isso.
Na verdade, desde aquela madrugada, havia algo fora do eixo dentro de mim. Como se uma parte minha tivesse sido ativada e agora não soubesse mais como silenciar. Não era amor. Não era paixão. Era algo mais bruto, mais urgente. Uma mistura de curiosidade e excitação, que me faz pensar demais e dormir de menos. Como uma canção que você ouve pela primeira vez e que, mesmo sem entender direito, sabe que vai ouvir por dias seguidos.
Em uma das sessões com Soo-min, minha terapeuta, tentei colocar em palavras esse turbilhão, sem muito sucesso. Ela sugeriu que eu começasse observando o que exatamente me atraía nele.
Fiz anotações. Tentei ser racional.
A resposta que encontrei foi simples e devastadora: a entrega.
A forma como ele mergulha inteiro em tudo o que faz. Como seu corpo é extensão da música, da arte. Como seu olhar parece estar sempre em outro lugar. E, talvez mais que tudo, o modo como ele parece inalcançável. Intocável, me fazendo querer desvendar todos os seus mistérios.
Passei os dias seguintes entre reuniões internas, sessões de alinhamento com a equipe que ficaria em Seul, e pequenas listas mentais sobre o que levar na mala. Tentei me distrair com isso: mala de mão, adaptador universal, partituras impressas, uma playlist nova para o voo, e meus comprimidos ansiolíticos. Mas, mesmo com toda a logística, não consegui afastar a sensação de que, ao cruzar o oceano, eu também estaria cruzando uma linha invisível dentro de mim. Era trabalho. Eu repetia isso como um mantra. Mas uma parte de mim sabia que, naquelas sete noites longe de casa, qualquer coisa poderia acontecer.
Eram cinco da manhã quando o despertador toca naquele domingo gelado em Seul. Eu tinha dormido por, no máximo, duas horas, o que pretendia compensar durante as longas onze horas de voo até Los Angeles. Nosso embarque estava marcado para as oito, então me apresso em levantar e tomar um banho quente, tentando espantar o frio que insistia em grudar na pele. Com os cabelos limpos e secos, uma maquiagem leve no rosto e o corpo aquecido sob uma calça jeans preta, blusa básica e moletom da mesma cor, às seis em ponto eu já aguardava no hall do condomínio o carro que me levaria diretamente ao Aeroporto Internacional de Incheon. Quarenta minutos depois, adentrava o saguão lotado de jornalistas e fãs ansiosos pela chegada do Golden Maknae.
Mesmo de óculos escuros, algumas meninas me reconhecem e acenam com animação, como se eu fosse uma extensão, ainda que distante, daquele mundo que tanto amavam. Sorrio e retribuo os acenos enquanto caminho apressada para o ponto de encontro onde aguardaríamos o embarque. O Sr. Bang, que nos acompanharia na viagem, já havia feito nosso check-in, então apenas despacho minha mala e sego para a sala de espera.
Ainda me sinto tomada por uma ansiedade silenciosa. Não era apenas a viagem, nem a responsabilidade do trabalho: era o não saber. O não saber o que me espera naqueles dias em solo americano. O não saber como manter meu desempenho diante de uma distração tão viva, tão intensa, que era Jungkook.
Entre divagações e suspiros contidos, não percebo quando alguém se aproxima. Só me dou conta ao sentir um movimento ao meu lado. Viro o rosto com um sobressalto, e a surpresa foi inevitável ao dar de cara com o sorriso escancarado de Jungkook.
Ele havia prendido o cabelo, mas a franja ainda caía levemente sobre os olhos. As bochechas estavam coradas pelo frio e a máscara, antes posicionada sobre o rosto, agora repousava abaixo do queixo, revelando os lábios perfeitamente desenhados e aquele sorriso que parecia capaz de desarmar qualquer resistência. Vestindo uma camiseta branca da Calvin Klein e uma jaqueta jeans. Cada detalhe dele um lembrete do quanto ele me afetava.
Respiro fundo, tentando acalmar o coração. O que talvez tivesse funcionado, se o perfume fresco e amadeirado que vinha dele não tivesse invadido meus sentidos como uma onda brava e inesperada. E então nenhuma das estratégias, que passei a semana elaborando para lidar com a proximidade dele, parecia ter algum efeito. Diante de Jungkook, eu era vulnerável. Um campo aberto. Um mar sem contenção.
— E aí, ? Animada com a viagem? — ele pergunta, a voz macia, quase casual.
Olho para ele por um segundo longo demais. E naquele momento, diante daquele homem, daquele sorriso, daquele perfume, tinha uma certeza: não havia mais volta. Eu já tinha me afogado há muito tempo nesse oceano chamado Jeon Jungkook. E não havia ninguém no mundo que pudesse me salvar.


Diferente do vento frio e úmido e do cinza escuro que cobria o céu de Seul quando embarcamos na aeronave, Los Angeles nos recebeu como uma bela paisagem de um cartão—postal. Não havia uma única nuvem em seu céu azul límpido, apenas o sol, imponente, que nos saudou com sua luz vibrante e calor delicado, aquecendo minha pele como um toque gentil. A sensação era agradável, quase uma carícia, e parecia me dar as boas—vindas à Cidade dos Anjos.
Respiro fundo, sentindo o ar fresco de uma manhã ensolarada preencher meus pulmões, trazendo um alívio reconfortante depois de passar mais de onze horas dentro de um avião. Havia algo naquele momento que me transmitia uma paz que há muito eu não sentia. Talvez ainda fossem os efeitos dos comprimidos que tomei para garantir uma viagem tranquila, longe das crises de pânico que estar a 40 mil pés de altura poderia desencadear em uma pessoa com acrofobia. Ainda sentia a serotonina correndo pela minha corrente sanguínea, levando aquela sensação boa para todo o meu corpo, e queria aproveitar ao máximo cada segundo dela.
Ali, sentindo aquela brisa, pensei na de dez anos atrás, a garota que sonhava em se mudar para Los Angeles e se tornar uma artista de sucesso, como ela estaria se não tivesse entrado naquele avião em direção a Seul, quem seria sem as oportunidades que a Coréia havia lhe dado? Essas sempre seriam perguntas sem resposta. Mas eu não poderia negar que estava feliz com a vida que levava, com a rotina louca de trabalhar para Idols, em ter liberdade de criação com Taehyung. Naquele momento desejei intensamente que aquele sentimento de plenitude se perdurasse por um longo tempo. Ainda que eu almejasse mais, já estava feliz com tudo que havia conquistado, já era muito mais do que a vida que eu levava no Brasil.
Caminho calmamente pela saída do aeroporto, empurrando o carrinho com minha mala em direção ao SUV preto de vidros escurecidos que nos espera para levar ao hotel onde ficaremos hospedados durante a semana. Ao contrário da Coreia, não havia muitos fotógrafos aguardando a chegada de Jungkook. Ainda assim, era fácil identificar um ou outro paparazzi que fotografavam toda e qualquer pessoa que parecesse vagamente com uma celebridade. E, é claro, o garoto-propaganda da Calvin Klein que andava à minha frente — com uma mochila enorme nas costas e dois seguranças em seu encalço — não passaria despercebo por eles. Jungkook era, sem esforço, a própria definição de idol bonito, gostoso e carismático. A prova disso era a forma como Jungkook caminha despreocupadamente e acena —ainda que timidamente — em direção aos flashs que são disparados em sua direção, enquanto faz rápidas reverências em comprimento, sem deixar de seguir o fluxo em direção ao carro.
Fui a última a entrar no veículo, depois de colocar minha mala no porta-malas com a ajuda do Sr. Lee, chefe de segurança dos meninos. Sentei—me ao lado de Bang Si—hyuk, e encarei Jungkook, que estava à nossa frente. Já sem a máscara, seus olhos cansados e curiosos acompanhavam todas as paisagens que o carro em movimento começou a nos oferecer, observando a cidade pela janela, como se cada esquina fosse uma novidade. Ele parecia empolgado, muito embora não dissesse uma única palavra.

Tratei de abrir as janelas para que o ar fresco batesse contra meu rosto, não me importando que ele estivesse bagunçando meus cabelos, que já não deveriam estar em sua melhor condição devido ao longo voo, eu só queria aproveitar a vista e ver o máximo possível daquela cidade que eu sempre quisera conhecer. O caminho que percorremos até o hotel foi acompanhado quase que inteiramente de um silêncio absoluto, sendo apenas quebrado no momento em que Bang nos passou o cronograma do dia seguinte, que se iniciaria com a gravação da música nas primeiras horas da manhã. Por hoje, poderíamos apenas descansar e aproveitar os confortos que o hotel nos ofereceria. Desbloqueio o celular para verificar as horas, que automaticamente já se ajustaram ao fuso horário americano no momento em que entramos no país.
Já se passava das oito horas da manhã quando depois de muito trânsito e avenidas percorridas, finalmente o carro estaciona no estacionamento subsolo do hotel luxuoso.

— Vocês podem se acomodar em seus quartos e pedir o almoço por lá mesmo, tirem o restante do dia de livre e descansem, está bem? — Bang não tardou a dar o restante das instruções que prontamente foram concordados por Jungkook, por mim e o restante da equipe que nos acompanhavam. — Certo, o check-in já foi realizado, e o último andar foi fechado para nossa estadia, então já podem ir se acomodando e… JK? — o garoto ao meu lado ergueu os olhos para seu empresário. — Sem ficar circulando pelo hotel, por favor, temos poucos seguranças. — Jungkook assentiu.
— Si-Hyuk? — o Idol chamou quando o CEO fez menção de seguir o caminho oposto ao elevador que nos levaria aos quartos — Sobre aquilo que eu solicitei? — questiona com as sobrancelhas arqueadas, O Sr. Bang suspira, não um suspiro irritado, mas sim como quem já esperasse por aquela conversa, e passa as mãos pelo rosto com leve demostrando cansaço.
— Conversamos mais tarde Jungkook.
Embora pareça um pouco irritado, o Idol nada responde, apenas assente mais uma vez e caminha em direção ao elevador sendo seguido pelos seguranças e o restante da equipe.

💜💜💜

Desbloqueio o celular apenas para constatar que já passava das onze e meia da noite. Eu havia passado as últimas três horas assistindo a episódios aleatórios de How I Met Your Mother, tentando, inutilmente, vencer o sono na batalha contra o fuso horário de dezessete horas de diferença em que me encontrava. O dia havia passado num piscar de olhos e, apesar de toda a curiosidade e entusiasmo por estar na badalada Los Angeles, eu sequer havia cogitado sair do quarto. Não queria arranjar problemas com Bang Si—Hyuk.
O homem de meia idade, já visivelmente estressado com as questões de segurança, passara inúmeras vezes pelos corredores, sempre em sussurros com os seguranças, distribuindo ordens, conferindo detalhes. E mesmo já tendo acompanhado Taehyung em diversos compromissos e viagens internacionais, ainda que proporcionalmente rigoroso, havia algo inegavelmente diferente quando se tratava de Jungkook. Talvez fosse sua idade mais jovem comparada aos demais membros. Talvez fosse a pressão silenciosa de carregar o título de Golden Maknae — o queridinho da empresa, o rosto de mil campanhas, o ídolo que jamais podia falhar. Havia sempre uma câmera apontada para ele, e um staff pronto para ajeitar até o mais rebelde dos fios de cabelo.
Nas redes sociais já era possível ver diversas movimentações de fãs que já estavam cientes da nossa presença em solo americano e vez ou outra alguns gritos e coros eram possíveis de serem ouvidos do meu quarto, então a decisão mais racional foi passar o restante do dia rindo das desventuras e o sofrimento de Marshall quando sua amada Lilly decidiu se mudar para a Itália. Mesmo que eu já tivesse assistido aos mesmos episódios um milhão de vezes, não deixava de ser tão engraçado como na primeira vez.
Ainda assim, nenhuma piada do Barney seria capaz de me mandar acordada por mais dez minutos, minhas pálpebras já pesadas implorando por rendição. Na realidade eu acreditava que se não fosse pelas fortes batidas que foram desferidas contra a porta do meu quarto, eu já estaria no mundo dos sonhos. Me levanto da cama preguiçosamente, sentindo meus músculos estalarem pelas várias horas deitada na mesma posição, me pergunto quem poderia ser a uma hora dessas, e qual a minha surpresa quando encontro Jeon Jungkook do outro lado da porta, vestindo uma calça de moletom preta e blusa branca três tamanhos maior que ele, juntamente com um gorro escuro que escondiam seu cabelo comprimido. Seus olhos escuros, agora ainda mais expressivos sob a iluminação baixa do corredor, estavam completamente livres para mergulhar nos meus. Do jeito que só ele sabia fazer. Um sorriso tímido moldava seus lábios, e a expressão que carregava no rosto podia ser facilmente descrita como a de uma criança prestes a fazer alguma travessura.
Ele me analisa rapidamente, dos pés à cabeça, com um olhar tão natural que, pela primeira vez em muito tempo, não me sinto constrangida com sua presença. Apenas... curiosa.

— Oi? — é a única coisa que consigo dizer.
—Tá com fome? — Pergunta ele, tão natural como se tivesse me perguntado as horas.
—Oque?
—Perguntei se você tá com fome, se quer sair pra comer alguma coisa — explica erguendo uma de suas mãos a nuca, puxando suavemente os fios que escapam do gorro naquela região. Franzo o cenho naturalmente estranhando o convite inusitado, tanto quanto a visita a quem o pertencia.
—Sair? Com você?
— Sair... Comigo. — repete ele, em tom paciente, como quem explica algo óbvio a uma criança.
— Você tem permissão pra isso?
— Se alguém da equipe for comigo sim.
— Você deveria chamar o Sr. Lee, acredito que ele seja mais apropriado pra uma situação dessas. — O assisto revirar os olhos, impaciente, e um sopro de ar escapou por entre seus lábios numa bufada quase cômica de indignação. Tenho vontade de rir, porque aquela reação era idêntica à de uma criança que acabou de ouvir o mesmo sermão pela milésima vez. Mas proíbo que meu arco do cupido se mova um milímetro sequer.
—Eu só quero dar uma volta pela cidade, um segurança chamaria atenção demais.
— Eu não acho uma boa ideia Jungkook.
— Qual é, ! É só um hambúrguer — insisti ele, colando as palmas das mãos uma na outra e as erguendo na altura do queixo, enquanto inclina suavemente a cabeça para o lado, como um cachorrinho pidão. Mesmo tendo todos os motivos do mundo para negar veementemente seu pedido, se responsabilizar pela segurança de um Idol na Coreia já era algo fora de cogitação, fazer isso em outro continente com certeza era algo fora de todas as possibilidades, mesmo assim, bastou aquele olhar. Bastou o biquinho se formar nos lábios dele, o mesmo que o tornava perigosamente irresistível, ou talvez o que me convence é ter Jeon Jungkook ali, à minha porta, implorando pela minha companhia.
Suspiro, vencida, e aceno com a cabeça. Ele sorri largo, radiante e naquele instante eu sei: Qualquer que fosse a loucura, valeria a pena.
— Me espera no estacionamento— respondo rápido demais, antes que a razão volte a dominar meus pensamentos. Volto para o interior do quarto e sinto meu coração bater um pouco mais rápido do que deveria. Meus passos me levam direto ao banheiro, onde apoio as mãos na pia e encaro o espelho. A que me devolve o olhar tem olheiras suaves, algumas pintas teimosas espalhadas pelo rosto e um ar de cansaço que nem um dia inteiro na cama conseguiu apagar.
Respiro fundo. Lavo o rosto, escovo os dentes, passo os dedos pelos cabelos, desembaraçando os fios com a delicadeza de quem não tem tempo para se importar. Decido que maquiagem seria um esforço inútil — qualquer vestígio de vaidade estaria completamente fora de contexto. Era inaceitável que fôssemos vistos por fãs ou fotógrafos, e além disso… Jeon Jungkook já havia me visto com todas as minhas imperfeições, sob a luz nada generosa dos lustres do hotel, então apenas retorno para o quarto e visto um moletom preto por cima da blusa de alcinha de algodão e do short do mesmo tecido que já estava vestindo. Apanho um boné, óculos escuros e meu celular, então em menos de dez minutos, já estou saindo do elevador, andando em silêncio absoluto pelos corredores vazios e mal iluminados do estacionamento subterrâneo, à procura do garoto que me fez dizer "sim" quando em nome da minha consciência tudo em mim gritava "não".
— Sete minutos! — ele exclama ao me ver se aproximar, consulta o relógio e depois me lança um olhar surpreso e impressionado. — Eu jurei que você ia demorar pelo menos uns trinta. — Ele dá a volta no carro, abre a porta do motorista e entra. Faço o mesmo, me acomodando no banco ao seu lado e puxo o cinto de segurança.
— Preciso de cinco minutos pra escovar os dentes e vestir um moletom.
—E toda aquela coisa de "vou sair com um idol", maquiagem, salto alto e roupa provocante?
—Em primeiro lugar, nós não estamos saindo juntos. Eu só estou te acompanhando. — dou de ombros e explico como se realmente tivesse diferença entre as duas coisas, e o olhar que vejo em Jungkook me diz que ele pensa o mesmo, porém não o diz em palavras. —Em segundo lugar — continuo, aproveitando a deixa — Com que tipo de mulher você anda saindo? Aliás, nem precisa responder… Qual o problema dessas idols, afinal?
—Faz parte do trabalho. — ele também dá de ombros, com um desdém casual, e liga o motor do carro, para logo em seguida dar partida nos levando a onde quer que seja. — Eu também uso maquiagem.
— Pros shows, pra aparecer diante de câmeras em 8k e todas as mil resoluções, você é bonito, não precisa de maquiagem pra sair com uma garota.
—Obrigado pelo bonito, mas assim vou achar que você está flertando comigo. — diz ele, com um sorriso torto que faz meu estômago se contrair.
—Engraçado, porque quem bateu na minha porta às onze e meia da noite implorando pela minha companhia foi você. Eu é que deveria achar que você tá flertando comigo.
— Ponto pra ! — Ele ri, sincero, enquanto faz o retorno e entra numa avenida principal iluminada por letreiros coloridos e as luzes amarelas dos postes, que desenham sombras nos seus traços perfeitos.
A noite está especialmente bonita. Há milhares de estrelas pontilhando o céu escuro de Los Angeles como se alguém as tivesse jogado ali de propósito. As folhas dos coqueiros altos dançam de um lado para o outro, embaladas por uma brisa fresca que corta a secura do ar abafado da cidade. Pelas calçadas da avenida, vejo pessoas caminhando devagar, como se não tivessem pressa de chegar a lugar algum. Crianças com sorvetes nas mãos, cachorros brincam com seus tutores e ciclistas fazem suas atividades, desviando da movimentação com precisão.
E por um instante...
por um instante eu penso que poderia muito bem viver ali. Essa poderia ser a minha rotina. Essa poderia ser a minha vida. Se há dez anos eu não tivesse mudado completamente o rumo da história. Se eu não tivesse embarcado naquele voo. Se eu não tivesse apostado todas as fichas em um país que, a princípio, sequer sabia pronunciar meu nome. Solto um suspiro silencioso, tentando afastar pensamentos que não me levam a lugar nenhum. Jungkook ainda não disse uma palavra. O carro segue em velocidade tranquila pela avenida iluminada. Seu rosto, em meio às sombras e aos reflexos dos letreiros, parece sereno. Penso que talvez ele esteja pensando nas mesmas coisas que eu. Que também esteja se perguntando "e se". Mas então, como se tivesse lido meu silêncio, ele fala:
—Às vezes eu penso que minha vida não é realmente minha. — Sua voz é calma, mas há um cansaço escondido entre as palavras. —Que eu só estou vivendo o que esperam de mim. —Viro o rosto para ele, surpresa pela honestidade. Ele continua, com os olhos fixos na estrada à frente: —Não me entenda mal, eu sou grato por tudo. Por cada oportunidade, por toda dedicação, mas às vezes... só às vezes, eu queria ser só um cara qualquer, dirigindo por aí com uma amiga, sem medo de ser reconhecido, sem medo de ser seguido.
Sinto meu coração apertar. Porque eu entendo. Porque eu vejo. Porque talvez a gente seja mais parecido do que eu imaginava.
—Eu também me sinto perdida —digo, baixinho. — Às vezes me pergunto onde eu estaria, se tudo tivesse sido diferente.
Jungkook sorri de leve, sem tirar os olhos da rua.
— Acho que é por isso que eu queria sair hoje. Nem era tanto pela comida. Era mais por isso aqui... — Ele abre levemente a janela do carro. O vento entra, bagunça meu cabelo, e carrega consigo um pouco da noite lá fora. —Queria só... respirar um pouco. Sentir que ainda sou eu.
Ficamos em silêncio de novo, mas dessa vez é um silêncio confortável. Um silêncio cúmplice.
—Obrigado por ter vindo comigo — ele diz, depois de alguns minutos. —De verdade.
Sorrio, virando o rosto de volta para a janela, onde a cidade ainda pulsa do lado de fora, viva e imprevisível.
— Você me deve um hambúrguer, só isso.
Ele ri, e o som da sua risada preenche o carro como uma música boa tocando na estação certa.
—Podemos dizer que eu estou te levando para uma refeição — ele diz, com um tom brincalhão. —Você ganhou um prêmio como funcionária do mês. —Faz uma pausa curta e, com um sorriso enviesado, acrescenta: —Deixo a parte do encontro pro meu amigo Taehyung.
Me ajeito desconfortável no assento do carro e viro meu rosto para poder olhá-lo com mais atenção.
—O que você quer dizer com isso? — pergunto, tentando soar casual, mesmo que meu estômago tenha dado uma leve volta.
—Eu não sei —ele dá de ombros, com a naturalidade de quem joga uma bomba no meio da conversa e segue dirigindo como se nada tivesse acontecido. —Só estou curioso. O que rola entre vocês dois?
Engulo em seco. A mentira sai antes mesmo de eu conseguir pensar melhor.
—Trabalhamos juntos. E somos amigos também. — digo com um tom ensaiado demais até para os meus próprios ouvidos. E me surpreendo como soa tão natural.
Jungkook solta uma risadinha. Não é maldosa, mas tem um quê de ironia, como se tivesse esperado exatamente essa resposta. Viro o rosto para a janela, com medo que algo me denuncie.
— Vocês dois tem o discurso bem parecido — ele comenta.
—Você perguntou isso pra ele? —finjo surpresa, mesmo tendo escutado a conversa dos dois naquela noite, semanas atrás.
—Digamos que eu sou... curioso. — responde, lançando um olhar rápido na minha direção, antes de voltar os olhos à estrada. —E, sinceramente, eu queria saber a real antes de convidar a garota de um dos meus melhores amigos pra uma viagem pra fora do país.
O ar parece prender nos meus pulmões por meio segundo. Mas não deixo transparecer.
—Posso te garantir que não sou a garota de ninguém — respondo firme, clara.
—Então é casual? —ele pergunta com mais cuidado, e torna a desviar o olhar pra mim, mesmo que rapidamente, e consigo ver a sua tentativa de ler cada expressão em meu rosto, como se buscasse alguma rachadura na superfície da minha resposta. por isso pondero antes de responder. Demoro alguns segundos. Não porque não sei o que dizer, mas porque estou decidindo como dizer. O que esconder e o que deixar escapar.
— Taehyung e eu somos ótimos amigos — começo, com um sorriso sutil, quase contido — e funcionamos muito bem na hora de compor. Faço uma pausa, olho diretamente pra ele. —Por que minha vida sexual parece tão relevante agora?
Jungkook não responde de imediato. Apenas sorri, de um jeito que é difícil de decifrar. Um sorriso de canto, daqueles que carregam mais perguntas do que respostas.
— Você não respondeu à minha pergunta — ele diz, ainda com os olhos na estrada.
Dou uma risada seca.
— Você também não respondeu à minha.
— Dois pontos pra — ele diz me fazendo rir.
— Algo me diz que nesse jogo você vai sair perdendo JK.
—Ah, .. — ele franze os lábios levemente, embora contenha um brilho divertido no olhar —Você deveria saber que eu nunca perco em jogo nenhum.
— Eu não apostaria meus wones nisso.
O silêncio volta, mas não é desconfortável. A música ambiente do rádio — que nem havia percebido que tinha sido ligado— chega até nós em ecos abafados, e a luz da rua cria sombras suaves sobre seu rosto. Me pego observando as linhas do maxilar dele, os cílios escuros, o leve franzido das sobrancelhas quando ele pensa.
— Você gosta dele? — ele pergunta, de repente. Direto. Sem rodeios.
— Do Taehyung? — finjo surpresa. Mas sei que é disso que ele está falando.
— Aham.
— Por que essa pergunta voltou? — reviro os olhos, tentando fugir, mas meu tom continua leve.
— Porque você fugiu da resposta antes. E eu sou curioso do tipo que não gosta de pontas soltas. — ele sorri de lado, sem desviar o olhar.
Suspiro, cruzando as pernas no banco como quem precisa se concentrar.
—Eu gosto do Taehyung, claro. É impossível não gostar dele. Ele é gentil, talentoso, impulsivo de um jeito bonito... —falo devagar, medindo as palavras, mas por fim, decido ser sincera — Eu não tenho problemas com sexo casual, Jungkook. Nunca tive. Acho que é saudável, desde que seja honesto. E comigo, sempre é.
Ele assente, um pouco surpreso pela franqueza, mas interessado.
—E o que você quer dele? — Jungkook pergunta, sem hesitação.
— Com o Taehyung é diferente. — respondo, com um leve suspiro. — Porque nós realmente somos muito amigos, e porque ele ainda ama outra pessoa. E por mais que ele tente parecer resolvido, eu enxergo no jeito como ele evita certas músicas, ou como muda de assunto quando vê algo que remete a ela. Às vezes, ele só precisa de companhia. E eu gosto dele o suficiente pra oferecer isso sem cobrar nada em troca. Mas não tenho o menor interesse em ser o curativo de ninguém.
— Caramba. — ele murmura, e então sorri. — Isso foi... impressionante.
Dou de ombros com um meio sorriso.
— Não tem nada de impressionante em saber o que se quer.
— Tem sim. Principalmente quando se é mulher, num meio onde todo mundo espera que você se molde ao que os outros querem.
— Pois é. Já fui assim um dia. Uma versão insegura, mais delicada, mais quieta, mais submissa. Não funcionou.
Ele abaixa os olhos e sorri de leve, quase como se se sentisse desarmado. Jungkook nada mais diz, e assim seguimos o resto do caminho em silêncio. Alguns minutos mais tarde O carro desacelera até parar em frente a uma placa antiga de luz neon azul piscante. Um restaurante 24h com cara de segredo bem guardado.
— Aqui? — pergunto, olhando a fachada pequena, mas charmosa.
— Ninguém famoso vem aqui, então é perfeito. — ele responde, desligando o motor e se inclina levemente para meu lado.
—Você se importa de fazer o pedido? Meu inglês é uma droga — resmunga ele. Apenas afirmo com um manear de cabeça. Me inclino sobre ele, na direção da janela do motorista, giro o botão do vidro e aceno com a mão para o atendente do drive-thru.
—Dois hambúrgueres com picles e queijo duplo, dois milk-shakes de morango e... você quer batata? —pergunto, lançando a ele um olhar rápido.
—Óbvio que sim. Quem recusa batata frita?
— Psicopatas. — balbucio, antes de completar o pedido. Quando termino, me recosto de novo no banco, e observo Jungkook cruzar os braços sobre o peito com um suspiro satisfeito, como se aquele simples ritual fosse o ápice da rebeldia. Nossos pedidos logo são entregues e Jungkook estaciona o carro no amplo estacionamento ao lado do restaurante, o local vazio e pouco iluminado parece perfeito para que possamos fazer uma refeição sem sermos incomodados.
—Só pra constar, eu não estou flertando. — ele diz momentos depois de retirar o seu cinto de segurança.
— Eu sei. — respondo, sem conter o sorriso que cresce em meus lábios. — Só tô deixando você achar que tá no controle.
Depois de algumas batatas roubadas do combo dele, me recosto no banco e deixo a cabeça cair levemente pro lado, observando a janela embaçada pelo contraste do ar-condicionado e o calor do lado de fora.
— Então você quer saber sobre minha vida sexual com Taehyung, é isso? — digo sem rodeios, ainda olhando pra rua, mas sentindo o olhar dele pesar sobre mim.
— Eu... não exatamente. — ele hesita, mas depois confessa com um sorriso torto. — Tá, talvez um pouco.
Viro o rosto lentamente em direção a ele, e cruzo as pernas com calma
— Essa batata é boa demais pra esse tipo de conversa — digo e levo meu milk-shake à boca.
— Concordo. Vamos fazer de conta que somos só dois amigos jantando escondidos em Los Angeles?
— Combinado. — eu sorrio. — Mas se isso for um encontro disfarçado, eu espero no mínimo um brinde.
— Só se for com o canudo do milk-shake.
— Fechado.
E nós brindamos, dois canudos se chocando no ar, em um gesto bobo que parece fazer todo o resto do mundo parar por um segundo. O silêncio volta, mais denso agora, mas confortável. Ele pega a última batata e estende pra mim, como um gesto simbólico.
— Paz selada? — ele pergunta.
— Você está dramatizando uma batata frita. — dou risada, mas aceito.
— Sempre fui o mais sentimental do grupo, sabia?
— Não duvido. Você tem cara de quem chora vendo filme de cachorro.
Ele sorri, rendido.
— Não é mentira.
Ficamos ali, só mais alguns minutos, comendo devagar. A cidade segue seu movimento do lado de fora. Mas dentro do carro, é como se estivéssemos em outro ritmo, um onde não há plateia, nem fama, nem julgamentos. Só duas pessoas se reconhecendo. E naquele momento, em meio ao ronco leve do motor, à cumplicidade compartilhada no escuro do carro e à certeza absurda de estar fazendo algo completamente insensato... eu me permiti sentir paz.
O caminho de volta ao hotel é rápido e cheio de conversas aleatórias, nunca pensei que fosse tão fácil conversar com Jungkook, e que, além de todas as qualidades físicas e vocais que pertencem a ele, ainda se podia encontrar um rapaz doce, engraçado e muito divertido. Por isso não pensei muito ao sugerir um banho de piscina quando o ouvi reclamar do calor da noite de Los Angeles pela décima vez. Olhos do idol brilham assim que eu termino de falar, e no momento seguinte em pisamos no hotel, Jungkook nos direciona diretamente para a área fechada de uma piscina coberta, que segundo ele estava reservada a Jeon Jungkook durante a nossa estadia no hotel.
Caminhamos em direção as cadeiras que rodeavam a piscina, e não demorei um segundo a mais se quer para erguer os braços e retirar o moletom do meu corpo, um breve pensamento se passa pela minha cabeça, em outra ocasião, com outras pessoas eu não me importaria de nadar apenas de roupas íntimas. Se fosse Taehyung ali eu provavelmente pularia pelada. Mas não queria assustar Jungkook com minha falta de pudor. Não ainda, por esse motivo ainda vestia meu short e blusa quando mergulhei na piscina. A água estava deliciosa. Refrescante do jeito certo, aliviando o calor abafado da noite enquanto escorria pelo meu rosto e acalmava qualquer tensão que ainda resistisse no meu corpo. Jungkook mergulhava de um lado a outro, completamente entregue ao momento, sem câmeras, sem flashes, sem vozes gritando seu nome. Era apenas ele; rindo, girando debaixo d’água, tentando me assustar com bolhas, fingindo que sabia fazer acrobacias.
— Tá querendo me impressionar? — pergunto quando ele emerge de um mergulho mais longo, o cabelo grudado na testa e o sorriso ainda mais largo.
— Consegui? — ele arqueia uma sobrancelha, nadando até mim com os braços abertos, como se estivesse prestes a me abraçar ou me cercar.
— Ainda tô decidindo.
Ele dá um giro de costas e flutua com os braços abertos, os olhos fechados. Por um segundo, ele parece tão em paz que me dá vontade de ficar só observando.
— Não sabia que você era assim — comento, quebrando o silêncio enquanto ele ainda flutua. — Leve.
— A maioria das pessoas não sabe — responde ele, com os olhos ainda fechados. — Passo tanto tempo tentando agradar, que às vezes nem eu lembro quem sou de verdade.
— E agora lembra?
Ele abre os olhos devagar e se vira na minha direção, nadando até se apoiar na borda da piscina, bem perto de onde eu estava.
— Agora tô mais perto disso, talvez. — ele sorri de lado. — Hoje foi um dia bom.
Concordo com um aceno de cabeça. Estava sendo mesmo um dia bom. Inesperado, espontâneo.
— Sabe — continuo, passando a mão pelos ombros pra ajeitar a alça da blusa que escorregava com a água — tem algo de muito sexy em alguém que sabe se divertir sem precisar de plateia.
— Você me acha sexy? — ele pergunta de forma brincalhona, mas os olhos fixos nos meus dizem que ele está ouvindo com atenção, atento aos subtons.
Sorrio. Lenta, propositalmente.
— Eu não disse isso.
— Mas não negou.
A água entre nós parece ganhar uma carga elétrica leve, quase imperceptível, mas real. O tipo de tensão que não se impõe, mas se constrói em cada olhar demorado.
— A maioria das pessoas ao meu redor tá sempre querendo algo — ele diz, mais baixo agora. —Imprensa, fãs, gente da equipe… Até nas festas, é difícil saber quem tá ali por mim ou por tudo que me cerca.
— E o que você acha que eu quero? —pergunto, encarando-o firme.
Ele dá um meio sorriso, pensativo.
— Ainda tô tentando descobrir. Mas você tem sido… surpreendente.
— Isso é bom?
— Isso é raro.
Ficamos assim por alguns segundos. Só trocando olhares, quase desafiando um ao outro a dar o próximo passo. Mas em vez disso, ele mergulha de novo, quebrando a tensão com mais um daqueles sorrisos que fazem tudo parecer fácil.
— Quer apostar quem segura mais tempo debaixo d’água?
Reviro os olhos, rindo.
— Você é competitivo até na piscina?
— Não sei perder. — Ele pisca.
Mergulho também, sem responder, aceitando o desafio, me perdendo na água, e talvez um pouco nele também. Voltamos à superfície quase ao mesmo tempo, ambos ofegantes, rindo, com os cabelos colados à testa e as respirações descompassadas. A água escorria pelo rosto de Jungkook, pingando da ponta do seu nariz, e por algum motivo eu me peguei observando isso com atenção demais.
Ele se apoia na borda da piscina novamente, recosta a cabeça no azulejo, de olhos fechados, e próximo a mim, tão próximo que a distância entre nossos corpos já não faz mais sentido.
— Seus pensamentos devem valer tipo uns cem bilhões de wons — Falo e ele ri, abrindo seus olhos e me encarando com profundidade.
— Não fala muito alto, vai que algum CEO escuta e dá um jeito de vender isso também.
— Como se vocês precisassem ficar mais ricos
— Eu certamente não preciso — dá de ombros — mas aprendi a entender esse mercado e a tocar conforme a banda toca.
— Será que um dia eu vou ser tão famosa ao ponto de não me importar mais em querer ganhar dinheiro?
— Talento você tem, beleza nem se fala.
— Você está fazendo de novo — digo, sem conseguir desviar meus olhos dos dele, só percebo que me aproximei quando sinto sua respiração bater contra o meu rosto, tão próximos que nossos narizes quase podiam se tocar.
— Fazendo o que, exatamente? — seu olhar desvia dos meus olhos para minha boca me fazendo engolir a própria saliva. Me aproximo mais, a ponto de sentir o calor do seu corpo, mesmo com a água fria entre nós. Minha mão toca seu ombro, desliza até a nuca, os dedos perdidos entre os fios molhados sob o gorro encharcado que ele já havia tirado. Meu olhar segue para a sua boca, os lábios entreabertos, ainda sorrindo. Não penso muito. Não racionalizo. Só deixo meu corpo se inclinar, devagar, me guiando pela vontade que vinha crescendo desde a primeira vez que o vi...
— Flertando. — digo em um sopro. Ele não responde. Só me observa. Por um momento inteiro. Longo, carregado, silencioso. Penso que ele vai me beijar, quase sinto seus lábios sobre os meus, mas algo no olhar de Jungkook muda e ele os desvia com sutileza, algo que o faz soltar uma risada sem graça e me olha, de novo, como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse acabado de recuar no último segundo.
‘Tá frio, né? — diz, fingindo arrepiar os braços.
Dou um passo atrás, não sei se com vergonha, confusão ou simplesmente tentando processar. Sorrio de volta, mesmo que o gesto pese.
— Bastante. — murmuro, puxando meu cabelo pra trás da orelha e desviando o olhar.
Jungkook mergulha novamente, quebrando o clima com a mesma facilidade com que havia permitido que ele se criasse. Quando volta à superfície, está leve, sorridente, como se a tensão de segundos atrás nunca tivesse existido.
— Vai querer pedir aquele sorvete na recepção depois? — pergunta, empurrando a água em minha direção com as mãos, em um gesto brincalhão.
— Acho melhor irmos dormir. Amanhã vai ser um dia cheio — respondo, ainda com um resquício de algo na voz que nem eu sei nomear. Ele concorda com um aceno de cabeça e nada até as escadas. Eu o sigo em silêncio, os passos lentos e a cabeça cheia demais pra conseguir olhar diretamente pra ele.
O caminho até os elevadores é silencioso. Jungkook caminha ao meu lado, com os ombros levemente encolhidos. Meus pés descalços fazem barulho contra o piso frio da área da piscina, e só consigo pensar no toque da pele dele, na distância milimétrica entre nossos rostos, no jeito como ele desviou, como se quisesse, mas não pudesse. Ou talvez quisesse menos do que eu imaginei. Entramos no elevador ainda em silêncio. Ele aperta o botão do nosso andar e encosta as costas na parede de aço escovado. Eu o imito. Nossos reflexos aparecem nas laterais metálicas, mas nenhum de nós se encara de verdade.
— Obrigado por sair comigo — ele agradece novamente, sem tirar os olhos da porta fechada à frente. A voz baixa, tranquila demais para a confusão que lateja dentro de mim.
— Foi divertido — respondo, tentando parecer tão casual quanto ele.
O elevador apita quando chega ao nosso andar. As portas se abrem com aquele som automático e impessoal, e nós dois saímos quase ao mesmo tempo, lado a lado outra vez. O corredor está deserto, iluminado apenas pela luz quente dos abajures embutidos.
Ele para em frente à porta do quarto dele. Eu paro dois passos depois, em frente à minha. Ele coça a nuca, olha para a maçaneta como se ela fosse a coisa mais interessante do mundo.
— Boa noite, . — diz enfim.
— Boa noite, Jungkook — murmuro de volta, já girando a chave magnética na maçaneta.
Entro no quarto e fecho a porta devagar, encostando as costas nela assim que ouço o clique suave da tranca. O quarto está silencioso, como se o mundo tivesse prendido a respiração junto comigo. Apesar de ser tão tarde e saber dos compromissos que temos em poucas horas, só adormeço tempos depois, sendo traída pela minha consciência, que, no mundo dos sonhos, me leva de volta a aquela piscina, em uma realidade paralela em que aqueles lábios tocam os meus.


A manhã seguinte chega sem qualquer consideração. Dessas que a gente implora no travesseiro depois de uma noite estranha. O sol invade o quarto pelas frestas da cortina com uma ousadia que me irrita, como se soubesse exatamente o que eu queria esconder de mim mesma.
E lá está de novo. A cena. Aquela maldita cena. A distância mínima entre os nossos rostos, a respiração entrecortada, a forma como meu corpo se inclinou, como meus dedos chegaram a tocar a água ao lado do ombro dele, como ele desviou o olhar como quem foge de um abismo.
Quase. Quase beijo. Quase loucura. Quase idiota, eu.
Sinto o rubor subir pelas minhas bochechas mais uma vez e, por Deus, não há maquiagem que esconda isso. Onde está , a mulher fatal? A mulher que olhava nos olhos de um homem e fazia ele esquecer o próprio nome? Onde foi parar essa mulher quando eu mais preciso dela? Será que ela também ficou paralisada naquele segundo estranho, imersa naquela piscina, se perguntando se tinha lido os sinais errados?
Suspiro fundo e deixo o corpo se arrastar até o espelho. O cabelo ainda úmido da noite passada, o moletom amarrotado, as olheiras entregando a noite maldormida. Encosto a testa no vidro frio e fecho os olhos, buscando dentro de mim qualquer vestígio da mulher que eu costumava ser.
Lembro quando costumava ser insegura assim. Eu tinha 17 anos e um primeiro namorado, o nome dele era Guilherme. Moreno, alto, com aquele tipo de corpo que deixava o uniforme da escola parecer propaganda de academia. O tipo de cara que todas as garotas desejavam... e alguns garotos também. E, por algum motivo que até hoje me escapa, ele gostava de mim. Fui o primeiro amor de Guilherme, e ele foi o meu. Meu primeiro namorado. Meu primeiro homem. No começo, eu olhava no espelho e me perguntava o que ele via em mim; uma garota comum, com sardas no nariz e joelhos machucados de tanto cair nas aulas de educação física. Mas Amanda, minha melhor amiga, enxergava diferente. “Você é o combo completo, . Bonita, inteligente e muito gostosa.” Palavras dela.
E, em algum ponto da vida adulta, entre um coração partido e outro, entre amores de verão e desejos rápidos de madrugada, eu comecei a acreditar nela. A fatal nasceu ali. Linda. Confiante. Foda pra caralho. Era assim que ela se sentia. Era assim que eu me sentia.
Mas hoje? Hoje eu só a queria de volta. Queria a mulher que não se envergonhava do desejo, que não interpretava silêncios como recusas pessoais, que não se punia por ter sentido algo.
Hoje, eu estou com saudades de mim.
Decido, por fim, entrar em piloto automático. Seria a única forma de sobreviver a um dia inteiro trancada em um estúdio com Jeon Jungkook. A interação entre nós dois não era, e nem podia ser, uma opção, não quando eu estava ali justamente para ajudá-lo a entender o que o produtor esperava de seu primeiro single solo.
Já passou da hora daquela voltar à ativa. A mulher que sabia exatamente quem era e o que estava fazendo. A mulher que não perdia o controle por causa de um olhar ou de um quase—beijo. Aquela que entrava numa sala e tomava as rédeas da situação, inclusive da própria cabeça.
Um banho rápido, dentes escovados, uma maquiagem leve para disfarçar o cansaço e, por dentro, uma música qualquer repetida sem parar como uma trilha sonora interna. A distração era estratégica. Nenhum pensamento solto. Nenhuma memória da noite passada. Nenhum devaneio com olhos escuros ou sorrisos enviesados.
O repertório não muda durante o café da manhã. Mesmo quando os staffs puxam papo, sorrio apenas o necessário, educada e contida. O foco precisa ser absoluto: trabalho. Cada palavra que não envolva microfone, melodia ou cronograma é evitada com maestria.
Mas, por mais que eu tente me blindar, a ausência dele na mesa não passa despercebida. A cadeira vazia logo à minha frente funciona como um lembrete incômodo da noite anterior, ou da manhã que ela arrastou consigo. Meus ouvidos, contra a minha vontade, se aguçam quando ouço alguém comentar que Jungkook está gravando conteúdos na área externa do hotel.
E então, como num roteiro cruelmente pontual, ele aparece.
Senta—se na cadeira à minha frente alguns minutos depois, e só Deus sabe o esforço que faço para não o encarar por tempo demais. Mas é inútil fingir que não vi. Ele está lá, bonito como sempre. Os cabelos compridos soltos e um pouco desarrumados, a franja caindo preguiçosamente sobre os olhos, o rosto iluminado por um sorriso leve. Leve demais pra alguém que escapou de um quase—beijo com tanta destreza. Ele veste a mesma jaqueta jeans do dia anterior, mas agora a calça de moletom dá a ele um ar confortável e casual. Pronto para longas horas dentro de um estúdio. E ainda assim... completamente encantador.
Jungkook me olha e sorri. Um sorriso tímido, quase envergonhado. Me dirige um aceno de cabeça discreto, como quem respeita a distância pré imposta silenciosamente a nós depois daquela situação constrangedora. Retribuo o gesto com a mesma medida, e imediatamente me volto para o colega ao meu lado, um dos staffs. Não sei nem o nome dele, mas naquele instante, qualquer rosto desconhecido parece mais seguro do que os olhos escuros que continuam me observando, atentos, do outro lado da mesa.
O estúdio de gravação em Los Angeles ficava num prédio discreto de fachada industrial, camuflado entre cafés modernos e lojas de streetwear em West Hollywood. Por fora, ninguém jamais imaginaria que ali dentro artistas do mundo inteiro gravavam músicas que, semanas depois, estariam dominando as paradas musicais. Ao passar pela porta pesada de vidro fosco, éramos recebidos por um aroma suave de madeira e eletrônicos, e um ambiente climatizado que cortava o calor californiano. O estúdio principal era amplo, porém acolhedor; com paredes revestidas de painéis acústicos de madeira clara e espumas pretas que absorviam qualquer ruído indesejado. Três sofás de couro preto formavam um L contra a parede, acompanhados de uma mesa baixa recheada de garrafas de água, snacks saudáveis e uma máquina de café pequena rodeada de xícaras meio esquecidas; testemunhas silenciosas de longas horas de trabalho criativo.
No centro da sala, duas mesas de som enormes estavam repletas de equipamentos: monitores de áudio de alta definição, compressores analógicos, pads, interfaces digitais e telas divididas entre plugins e formas de onda que pareciam batimentos cardíacos. A cabine de gravação era de vidro grosso, completamente isolada, com um microfone vintage suspenso no centro e uma luz de sinalização vermelha..
E então, havia Andrew Watt.
O produtor era uma figura impossível de ignorar. Alto, magro, vestia jeans rasgados e uma camiseta preta com a gola levemente esgarçada, que deixava a mostra seus braços repletos de tatuagens. Descolado, seus cabelos agora tingidos de branco estavam despretensiosamente penteados de forma bagunçada. Suas mãos estavam sempre em movimento, ajustando níveis, tamborilando nos braços da cadeira giratória ou segurando uma xícara de café. Apesar do ar despojado, Andrew carregava um magnetismo intenso. Era difícil definir se vinha do olhar analítico com que observava os artistas, da fala calma e pausada, ou da energia criativa que parecia irradiar dele. Falava com segurança, mas sem pressa, e conseguia transformar qualquer comentário técnico numa frase quase poética.
Jungkook entra na cabine de gravação com os ombros rígidos e a respiração levemente acelerada. Do lado de fora, a equipe aguarda em silêncio, olhos atentos à tela que mostra os níveis de captação de áudio, fones nos ouvidos e as expectativas tão grandes quanto o potencial de golden maknae.
— “Okay, from the top, with a bit more feeling this time. Let’s try to relax the phrasing on the chorus.” — o produtor diz, olhando para mim ao final da frase, já ciente do meu papel.
— Ele pediu pra você tentar mais uma vez, com um pouco mais de sentimento. Relaxa na parte do refrão. — Jungkook apenas assente, com a expressão séria e concertada. Claramente não muito satisfeito com o próprio desempenho. E naquele momento eu sei que vai ser um longo, longo dia.

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O estúdio de Los Angeles era tão diferente de Seul quanto a voz de Jungkook em “Seven” era da que ele usava em qualquer outra música. Mais grave. Mais sussurrada. Mais... perigosa.
Ajusto os fones enquanto o som do instrumental rola pela centésima vez. Ouço com atenção as instruções dadas por Andrew, com seu inglês enrolado e a energia de quem tomou mais de quatro xícaras de cafés e ainda achou pouco.
Me aproximo do vidro pela milésima vez.
— Ele quer que comece pelo segundo verso de novo — traduzo, e ergo meu olhar do tablet onde acompanho a letra, Jungkook ajeita alguns fios rebeldes do próprio cabelo atrás da orelha e me olha como quem espera por um sinal, que prontamente é atendido quando ergo meu polegar em sua direção.
— “You wrap around me and you give me life...— Jungkook cantou. Parou. Suspirou.
— A palavra “wrap”, tá saindo estranha? — ele pergunta, tirando um dos fones.
Aperto o botão do intercomunicador.
— Não é a palavra. É o jeito que você tá respirando antes dela. Tá quebrando a fluidez. Respira depois do “around me”, não antes.
Ele assente, focado.
— Mostra.
Eu engulo em seco antes de pigarrear e canto. Sinto as cordas vocais arranharem minha garganta, eu devia ter aquecido a voz.
— “You wrap around me and you give me life…”
Ele repetiu, mais suave agora. Melhor.
— Assim?
— Quase. Fala olhando pra mim.
Ele pisca, mas obedece prontamente.
— “You wrap around me and you give me life…”
— Melhor — digo, desviando os olhos. — Vai de novo.
Jungkook sorri devagar.
— Você devia colocar o seu nome nos créditos dessa faixa.
— Eu só tô te dizendo onde respirar.
— Às vezes... é isso que faz a música funcionar, sabe?
Ele me encara por um segundo a mais do que o necessário antes de voltar os olhos para o microfone à sua frente. Respira fundo. Fecha os olhos. E canta.
E canta bem.
Canta bem pra caralho.
É uma daquelas interpretações que carregam sentimento mesmo quando a letra está em outro idioma. Quando ele termina, o produtor ergue o polegar e diz algo embolado em um inglês empolgado, e rápido demais. Jungkook sorri de canto, mas seu olhar volta para mim, claramente esperando a versão traduzida.
— “Foi ótimo. Ele quer só mais uma pra segurança, mas disse que está perfeito.” — traduzo.
— Perfeito? — ele pergunta, sem esconder o sorriso orgulhoso.
— Perfeito — confirmo.
E naquele momento, por mais que meu papel ali fosse técnico, profissional, quase clínico… eu me sinto completamente tocada por ele. Pela forma como ele tenta. Como quer dar o melhor. Como mesmo sem dominar o idioma, enfrenta cada desafio sem perder a energia e o sorriso largo, tenho a certeza que se Andrews o pedisse para cantar o mesmo verso mais mil vezes, ele cantaria mais mil e um.
— Você está indo muito bem — digo suavemente, quando ele sai da cabine para beber água. — Muito mesmo.
Jungkook respira fundo, coloca a garrafinha de lado e me encara com aquele mesmo olhar de ontem à noite, aquele que quase me beijou.
— Não conseguiria sem você. Eu não entendo quase nada do que eles dizem. Mas quando você fala, eu entendo tudo.
Fico sem resposta por um momento. Tento sorrir e manter a compostura, como uma boa profissional faria. Mas algo dentro de mim se derrete.
— É porque eu falo devagar — brinco, tentando quebrar o clima.
Ele sorri de volta, mas seus olhos dizem que ele sabe que, de algum modo, esse “entender tudo” vai além da língua.

A tarde já havia começado a cair quando Andrew retornou à sala de controle com um laptop em mãos, os cabelos levemente desalinhados e uma energia diferente no olhar. Ele apoia o notebook na bancada principal, conectando—o rapidamente aos monitores de áudio do estúdio. Jungkook, ao meu lado, ergue os olhos com curiosidade.
— Tenho uma coisa pra te mostrar — anuncia Andrew, abrindo uma pasta intitulada Demo Drops / AW Exclusive. O clique do play veio seguido de alguns segundos de silêncio, e então a batida; baixo pulsante, percussão rica, arranjos modernos com alma retrô. A música era como uma explosão de groove em câmera lenta, sensual e sofisticada, com camadas que pareciam convidar para um mergulho. Assim que a voz—guia entrou, Jungkook inclinou o corpo para trás repousando a cabeça no encosto do sofá e fechou os olhos. Ele estava sentindo a música. O rosto iluminado de surpresa.
—Se chama Standing Next To You — disse Andrew, com um meio sorriso. — Eu escrevi com o Cirkut e o Ali Tamposi. Mas guardei pra você.
Jungkook se remexe no sofá assim que eu traduzo, o rosto iluminado de surpresa, os olhos levemente arregalados processando a oferta
— Pra mim? — ele perguntou com um sotaque leve, em inglês, virando—se instintivamente para mim.
— Ele escreveu pra você, Jungkook. É uma oferta — confirmo com um sorriso encorajador e, sinto o entusiasmo silencioso crescer ao meu lado. Andrew continuou falando, intercalando seu olhar entre mim e Jungkook. Escuto atentamente e traduzo palavra por palavra.
— Ele disse que não é uma música fácil. É intensa, dramática... cheia de curvas. Mas que ouviu sua voz na cabeça dele enquanto finalizava. Disse que a música precisa de alguém com alcance e entrega. Que precisa de alma. E que você tem tudo isso.
Jungkook passa uma das mãos pelos cabelos, ainda digerindo o momento. Ele volta o olhar para mim, com os olhos cintilando um brilho que só vi algumas poucas vezes antes, o brilho de alguém prestes a fazer algo grande.
— I want it. —Ele diz com firmeza. E depois repetiu, com mais convicção, agora em coreano para si mesmo. — Eu quero essa música.
Andrew sorriu largo, satisfeito.
— Você acha que ele consegue aprender a letra? — Andrew pergunta diretamente pra mim.
—Claro! Nem que a gente precise virar a noite.
— Então vamos trabalhar nela amanhã — ele sorri e então se volta mais uma vez para Jungkook — Quero você no estúdio às dez. Aquecemos a voz, passamos letra por letra se for preciso. Você vai arrasar.
Traduzo mais uma vez e observo tudo com uma mistura de encantamento e admiração. Jungkook estava claramente ansioso, talvez até um pouco inseguro com a pronúncia e a responsabilidade. Mas era tão talentoso e determinado que eu não tinha dúvidas que amanhã ele estaria mais que pronto pra interpretar aquela nova música com a perfeição que já se fazia presente em tudo que ele se propunha a fazer. Havia algo quase hipnotizante em vê—lo assim em entre a vulnerabilidade e o talento bruto, entre o medo e a fome de provação.
— Eu te ajudo com cada linha. Cada sílaba, se for preciso. — murmuro ao me aproximar sutilmente.
Jungkook assenti e também sorri agradecido, e nesse momento sei que ele sabe que apesar de não ter seus membros consigo, ele não esta sozinho nesse processo. E que isso faz toda a diferença.

💜💜💜

Lovin. Não, lobin Jungkook. Lovin.
— Isso que eu tô falando! — ele responde, rindo, frustrado. — Lobinnnn.
Fecho meu laptop e cruzo os braços, olhando para ele como uma professora paciente, daquelas que quase reviram os olhos, mas não porque secretamente gostam da bagunça.
— Ok, última vez — digo, e me aproximo do sofá onde ele está sentado. — Relaxa a boca. Lovin. Como se estivesse soprando uma vela, mas com os lábios levemente entreabertos.
Ele imitou, meio cético, soprando de leve.
— Agora diz. Lovin.
Lovin.
— Melhor. Agora com a frase inteira: “Screaming, I testify this Lovin...”
Jungkook respira fundo, encarando a tela do celular onde a letra pisca em azul. Ele leu devagar:
— “Screaming, I…”
— Sem pausas.
— Tá, tá. “Screaming, I testify this Lovin...”
— Quase. Mas parece que você quer tomar o ar com violência. Relaxa.
Ele ri, e joga a cabeça para trás. Por um segundo percebo como é fácil esquecer quem ele é o vendo assim tão… tão cru, vulnerável, arrisco dizer. Ali, sem maquiagem, com moletom cinza e cabelo preso num coque malfeito, ele parece só... um cara tentando cantar direito.
— Pode rir, mas você é tipo, péssimo com o “v”.
— E você é tipo, ótima em me humilhar com elegância. Eu não tenho culpa se esse som não existe na minha língua.
— Eu sei! Mas faz parte do trabalho — digo sorrindo pela primeira vez naquela noite.
Um silêncio confortável se instala.
— Eu fico nervoso, às vezes — ele diz, baixinho, olhando para a letra. — Quando é em inglês, parece que não é minha voz de verdade. Parece que tô tentando ser alguém.
Eu o observo atentamente.
— A voz é sua. Só tá aprendendo um novo sotaque, não uma nova identidade.
Jungkook levanta os olhos devagar, e por um momento, sinto o ar diferente. Mais denso. Mais íntimo.
— Pode repetir mais uma vez? — ele pergunta.
— A frase?
— Não. A coisa da vela. A parte que você sorriu.
—Porque você faz isso? — pergunto com olhos semiserrados e voz baixa, e tento ignorar o calor que começa a subir pelo meu pescoço.
— Isso? — pergunta com o cenho franzido.
Me inclino um pouco pra frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, a voz mais baixa ainda.
— É.. isso.. — aponto pra nós dois — você flerta e depois finge que nada tá acontecendo.
— Eu não tô flertando.
— Qual é, JK, você acha que eu não vi a forma como você me olhou ontem naquela piscina? — dou-lhe um sorriso enviesado — Ou como você tá me olhando agora.
Ele desvia o olhar por um segundo, a mandíbula tensa. Parece estar escolhendo as palavras como quem anda sobre vidro quebrado.
— Eu não sei o que você acha viu — ele passa as mãos sobre o rosto, demostrando cansaço — Você é linda, sabe que é, mas isso... — aponta pra nós dois — Isso não vai acontecer..
Fico em silêncio por um segundo, observando como ele tenta manter o controle. Como se estivesse segurando uma represa com as próprias mãos.
— Sua boca diz uma coisa, mas seus olhos… suas atitudes dizem outra completamente diferente — Ele não responde. E o silêncio dele é uma confirmação covarde. Fico observando seus olhos, procurando por qualquer rachadura nessa armadura que ele insiste em vestir. Nada. — Isso é frustrante pra caralho!
— Não tem nada mais importe que minha carreira pra mim, que minhas fãs... e sempre vai ser assim, eu não me envolvo com colegas de trabalho, ou com qualquer pessoa que possa estragar isso.
A frustração se espalha pelo meu peito como uma brasa acesa. Arde. E o pior é que por baixo da irritação, existe outra coisa ainda mais cruel: desejo. Um desejo cru, quente, acumulado. O tipo que não nasce de um flerte qualquer, mas da convivência íntima, das pequenas concessões, dos olhares demorados e das palavras não ditas. Tudo em mim queria ele. O cheiro, o som da voz, a maneira como ele se move, até quando está desconfortável. Meu corpo já sabia. Era minha mente que tentava impedir o estrago.
— Tudo bem. — digo, finalmente. Minha voz sai baixa, firme, mas não menos rejeitada. O orgulho e a frustração colidindo dentro de mim como dois carros em alta velocidade. Por fim pego o laptop com a letra da música aberta e o apoio sobre as coxas — Vamos trabalhar então Jeon — digo cética e fixo meu olhar no seu — Só não me olha mais desse jeito, porque da próxima vez que me olhar assim, eu não vou mais recuar e você vai ter que lidar com o que vier depois.
Vejo ele mastigar as palavras que não tem coragem de soltar. Passa as mãos pelo rosto, e eu reconheço o gesto: Cansaço. Medo.
Confusão.




Continua...


Nota da autora: Oiii!!! Tudo bem com vcs? Depois de meses, cá estou, com a maior cara de pau do universo 😂😂😂 Mas trouxe 4 capítulos fresquinhos pra vocês.. Então pra quem leu somente o 3 e 4, sugiro voltar lá pra cima e reler tudo porque embora a base dos capítulos seja quase a mesma, fiz muita mudanças, principalmente na personalidade da nossa PP. Revisando os capítulos anteriores eu acabei não gostando de como as coisas estavam se desenvolvendo, e, ainda muito apega a essa ideia, eu resolvi reescrever os dois primeiros capítulos. Então espero que vocês tenham gostado.
Eu criei também um perfil no Instagram, então se vocês quiserem saber sobre atualizados, outras fics e afins é só seguirem o perfil: @giuniversefic
E é isso, não vou promoter não demorar nas próximas atualizações porque minha vida é bem corrida (Trabalho, filha e as demandas do cotidiano) mas prometo não abandonar essa história que já é muito especial pra mim.
Beijão, Gi 💜


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