Geralmente o meu relógio biológico é bem pontual, mas desta vez ele foi um pouco preguiçoso, haja visto o horário que eu havia ido dormir. Na verdade, mal consegui manter os olhos fechados por muito tempo por ter ficado preocupada demais com os croquis que eu teria que refazer. Se eu dormi mais de quatro horas foi muito — e devo me lembrar que já era mais de três da manhã quando, por fim, decidimos quem ficaria com qual andar.
Abençoado era Woosung — para não dizer outra coisa.
Levantei meia hora atrasada do meu horário comum, mas acabei conseguindo dar conta e faltava cinco minutos para às sete quando eu terminei de colocar meu top e a camiseta de proteção UV por cima, animada em ir caminhando para o mercado. No meio do caminho, na estrada, havia uma trilha rápida para uma cachoeira bem escondida e eu aproveitaria também, claro.
Não demorei a descer, contudo, quando cheguei do lado de fora e vi o sol que estava aquecendo o couro cabeludo de qualquer um, desisti de caminhar. Seria um percurso de cinquenta minutos nos dois trajetos e na volta eu estaria com sacolas, então seria melhor ir de carro mesmo. Peguei a chave do meu Audi e um café da máquina, logo indo para onde os veículos estavam estacionados.
A princípio achei que não iria conseguir sair, só que a preguiça de envolver qualquer um que fosse do outro The Rose me fez ser menos manhosa e entrar logo no carro. Engatei a ré, mas me dei o luxo de bocejar uma última vez e foi um bocejo tão profundo que meus olhos lacrimejaram como se eu estivesse em um choro compulsivo. No exato instante que minha boca se fechou e eu fui pisar no acelerador, a porta do carro abriu e eu me assustei, berrando no ouvido de quem é que fosse.
— Shhhh! — Woosung resmungou, sentando-se folgado no banco, com um indicador em frente aos lábios. Junto com ele veio um cheiro forte de banho e loção pós barba, misturados com o perfume cítrico que ele usava. — Por que sempre tão escandalosa?
— Por que sempre tão invasor? É uma especialidade de vocês? — me indignei e ele virou o rosto para mim. Os olhos inchados de quem mal tinha acordado.
Às sete da manhã não era de se esperar que ele, justamente ele, estivesse totalmente desperto.
— Já não foi resolvido esse problema? — disse, arqueando uma sobrancelha.
Respirei fundo, relaxando o corpo.
— O que você quer? É sonâmbulo por acaso? — encarei ele incisiva. — O que faz invadindo meu carro às sete da manhã?
— Vou no mercado também. Ouvi você falando para alguém que estava indo.
— Você? — soprei um riso. — Você é do tipo que faz mercado? — ele ficou me encarando sério e eu me senti incomodada, como vinha sendo. — Você não deveria sair assim sozinho, não? Pessoas famosas precisam de segurança... Você não precisa de uma babá para andar junto para cima e para baixo?
— Por um acaso você está me enxergando grudado com alguém, ? — ele bocejou impaciente. — Só, por favor, vamos ao mercado.
Desta vez eu arqueei a sobrancelha.
— Acabou o cigarro? — Woosung assentiu. Decidi ser um pouco "malvada". — Se está tão mal humorado assim, por que não manda alguém ir para você? Você pode simplesmente mandar qualquer um fazer isso. Mas prefere me tirar a paz logo cedo.
Ainda me encarando totalmente impassível, Woosung tirou um cartão da traseira de seu celular e me estendeu.
— Eu quero um Parliament. E um Iced Americano seria bom também.
Ri em ultraje.
— O quê? — puxei o freio de mão, soltando o freio com o pé, para evitar qualquer problema com o barranco.
— Ué, você falou que eu podia mandar qualquer um.
— Sim! Qualquer um que trabalhe pra você! Não eu. — minha voz aumentou e muito de volume. — Sério, desce. Pegue um carro e vá sozinho.
— Por favor, . Minha cabeça está explodindo, eu até aturo você e sua voz de cantora de ópera falando aos berros. Mas me deixa ir junto. Ninguém acordou ainda e eu não preciso de babá. Posso comprar meu próprio cigarro.
Apesar do tamanho e a provável idade na casa dos trinta anos, Woosung uniu as sobrancelhas com uma chantagem emocional de quem estava realmente implorando. Até as mãos ele uniu em direção ao peito. Isso me fez "amolecer".
— Prefiro você sem cigarro. — murmurei, me virando para frente e derrotada, voltando a engatar a ré novamente. — Sem o cheiro de nicotina consigo sentir seu cheiro de banho.
— Posso resolver esse problema pra você de outra forma e continuar fumando, .
Eu poderia explicar o que estava querendo dizer, que meu comentário tinha a ver com o fato de que: sem cheiro de cigarro, sem aparência de quem não tomava banho, porém, preferi me abster. Notei como me expressei errado.
Ou nem tão errado também, até porque realmente o cheiro de banho dele estava muito bom.
O caminho até o mercado foi tranquilo e totalmente em silêncio; Woosung me surpreendeu quando sequer abriu a boca para falar um A, tanto é que houve um momento no qual eu pensei que ele estava dormindo ou morto. Entretanto, na volta, ele parecia outra pessoa. Afinal, havia comprado seu cigarro.
A noiva tinha escolhido a casa numa zona mais afastada do grande centro da cidade, então tudo o que precisávamos teria de ser comprado direto no meio de Palm Springs, mas não era de difícil acesso. Quando eu já estava no retorno, voltando tranquila pela estrada vazia, deixei que minha playlist tocasse mais alto para funcionar como uma parede entre eu e ele. A implicância era real, palpável demais.
Até Taylor Swift tocar.
Até Taylor Swift tocar Enchanted.
Até Taylor Swift tocar Enchanted e ele cantar.
A voz de Woosung imediatamente mexeu dentro de mim em um lugar que não podia. Que não era de fácil acesso. Contudo, todavia, entretanto, o tom ríspido, a voz rouca afinada saindo fácil enquanto ele estava com a cabeça encostada no vidro… Não teve como eu escapar.
Não sei se houve algum momento na vida que isso já foi mencionado, mas acho que é seguro dizer que isso me afetou tão intimamente que a vontade gerada dentro de mim foi de fazer sexo com a voz dele.
Ou fosse só a culpa da ovulação. Eu sempre poderia colocar a culpa nos hormônios.
Levei um susto quando o painel do carro começou a apitar ao mostrar uma luz que eu não sabia qual era. O carro era novo, ainda estava aprendendo sobre ele. E com o susto, eu me desconcentrei, pois fiquei com medo dos meus pensamentos terem saído altos demais e ele ter escutado.
— Ei! Cuidado! — ele ralhou no instante que eu fiz um leve zig-zag na pista.
— Desculpa. O painel acendeu uma luz e eu me assustei. — pigarreei, indo para o acostamento. — Melhor parar.
Sim, era melhor. Eu precisava tirar essa ideia maluca da cabeça.
— Já estávamos chegando, maluca. — ele tentou ver o painel, se esticando e trazendo perto de mim o cheiro de mais cedo, agora misturado com um aroma bem leve do único cigarro que fumou enquanto me esperava comprar o que eu precisava. Diferente de antes, isso teve um efeito contrário em mim.
— Sai de perto. Você está cheirando a cigarro! — tossi, empurrando ele pelo ombro.
Desliguei o carro e esperei três segundos antes de girar a chave outra vez, ficando desesperada por nada funcionar, nem mesmo a luz do painel.
— Ah, merda! — reclamei.
— Eu disse que deveria ter seguido. — ele respirou fundo, esticando o pescoço. — Deve ser a bateria que precisa trocar. Ou você não carregou o suficiente. É uma SUV elétrica, você não sabe?
Me virei com o olhar semicerrado para ele.
— O carro é meu, é claro que eu sei disso!— revirei os olhos. — Ao invés de tentar tirar a minha paciência, liga para um dos seus amigos e pede ajuda.
— E você não tem telefone para isso? — ele arqueou as sobrancelhas. — Está pedindo a minha ajuda? Nossa, mas e se eu não estivesse aqui, ?
— Deixei meu telefone na casa. — assumi, respirando fundo. Ao ver que eu não estava sendo reativa, ele se encolheu no banco e eu estranhei. — Por que não está ligando?
— Eu também deixei o celular na casa. — a voz dele saiu baixinha e seus lábios se moveram em um bico.
Não respondi, não disse absolutamente nada, apenas o encarei esperando que me dissesse que era alguma pegadinha. Ao ver que isso não aconteceria, encostei a cabeça no volante, tendo uma crise histérica em silêncio.
Já estávamos chegando às nove da manhã, numa primavera em Palm Springs, a temperatura já deveria estar alta do lado de fora e dali a poucos minutos o carro não estaria mais tão refrescante por causa do ar condicionado. Dois seres humanos respirando no mesmo lugar acabaria com o frescor e em algum momento ia ser necessário abrir as janelas, até mesmo sair do carro.
Se eu não tivesse me distraído com Woosung e sua voz deliciosa cantando uma das minhas músicas favoritas da minha cantora predileta, eu teria chegado a tempo em casa, não teria diminuído a velocidade. Mas se ele não estivesse junto, talvez eu estaria em pânico agora.
Não que eu não esteja também, porque o calor já me atingiu antes mesmo de eu parar o carro.
Olhei ao meu redor e notei que estava bem diante de uma pequena trilha já conhecida por mim (lugar que eu e meu pai íamos muito quando eu era mais jovem) e tirei o cinto de segurança, pegando o controle do alarme do carro ao abrir a porta.
— O que você vai fazer? — Woosung me perguntou, mas eu continuei.
— Está muito quente e pelo jeito vamos ter que ir andando atrás de ajuda, então vou aproveitar a cachoeira.
— E me deixar sozinho aqui? E que cachoeira?
— Ué, nasceu grudado comigo? — devolvi, batendo a porta do carro ao sair.
Passei as mãos no rosto e respirei fundo, tentando controlar minha respiração. Maldita ovulação.
Me assustei com a porta batendo do outro lado, o cheiro de cigarro logo se fazendo presente. Virei e vi Woosung sem camiseta e com os braços apoiados no teto do carro, com um cigarro recém-aceso nos lábios.
— Achei que você fosse careta. — ele tragou me encarando. — Mas mesmo que não seja, não vou te deixar se enfiar sozinha no meio desse mato alto pra apagar esse calor todo aí. — gesticulou apontando meu corpo e tragou outra vez virando o rosto para não soltar a fumaça em mim.
— Que seja. Mas eu não sou sua babá. Não me responsabilizarei se te acontecer alguma coisa.
Não esperei por ele, aproveitei que a estrada estava vazia e cruzei para o outro lado, entrando no meio das árvores não totalmente secas. Não olharia para trás, até mesmo porque o cheiro denunciava que ele me seguia.
Era uma trilha um pouco longa, mas valia a pena pelo o que eu bem me lembrava, a cachoeira ficava muito bem escondida e, se nada havia mudado, dificilmente era frequentada porque os turistas só se importavam com os pontos mais famosos de Palm Springs. Considerando o final de semana de Coachella, ninguém estaria preocupado com o lugar.
A caminhada já tinha cerca de dez minutos e eu não aguentei, tirando minha camiseta, numa breve pausa que me permitiu ver Woosung já estar com o tronco nu. O suor deixando a pele bem refletida do sol e as tatuagens, que eu vi na noite anterior, agora me dando um novo ponto de vista.
E minha mente traiçoeira trabalhando na memória da voz dele nos meus ouvidos. Senti como se ele tivesse me tocado ao cantar Taylor Swift no meu carro sem ao menos que sua mão encontrasse o caminho entre minhas pernas.
Talvez eu não devesse me sentir envergonhada por isso, apenas orgulhosa por saber reconhecer homens gostosos.
No instante que eu vi a cachoeira, meu corpo relaxou. A água fria poderia me voltar com os pés no chão.
— Ah, que maravilha! — festejei ao ver a enorme pedra pouco antes da água, onde eu poderia colocar minha roupa.
— Uau. — escutei ele dizer mesmerizado. A respiração entrecortada. — Como você conhece esse lugar?
— Meu pai. Ele andou por muitos lugares nesse país. — respondi indo até a água e me abaixei para verificar a temperatura. Estava gelada como eu queria. — Ótimo.
— Você vai entrar? — ele questionou e eu me virei, vendo-o parado com uma mão na cintura e a outra segurando mais um cigarro aceso.
Se Woosung era ágil assim para acender seus cigarros sem eu sequer notar, quais outras habilidades ele poderia ter?
O encarei por inteiro sem qualquer discrição.
— Vou. — comecei a caminhar em sua direção. — Está muito calor.
Ele deu um passo para trás quando fiquei mais perto e eu dei um para frente.
— O que você está fazendo? Estou tentando ficar longe de você quando fumo. — disse em um tom de voz neutro.
— Não fique.
Quando pensei, já havia respondido e estava tirando o cigarro de sua mão, sentindo o choque que deu ao tocar em sua pele. Traguei sem desgrudar o meu olhar do dele.
— Mas você não tem asma? — ele arregalou os olhos.
Dei de ombros, soltando a fumaça no espaço entre nós e jogando o restante do cigarro no chão para pisotear nele.
— É uma história triste. — comecei casualmente, tirando a camiseta com mangas compridas. — Mãe fumante. Câncer. Morte. — encurtei, tirando o shorts em seguida. — Peguei aversão quando já estava nos meus dezoito anos, eu fumava também. Agora tenho asma.
— Como você espera que eu ache isso triste enquanto me conta tirando a roupa na minha frente? — Woosung colocou as mãos na cintura, indignado.
— Eu não espero. — ri, deixando minhas coisas para trás e correndo para a água gelada.
Mergulhei imediatamente, sentindo meu corpo todo entrar em combustão mesmo dentro de uma água tão gelada. Não soube me reconhecer nessa dualidade que me afetou em minutos; antes dos meus trinta e tantos anos eu flertei muito e vivi de vários casos, sendo uma alma livre a todo momento, mas já tinha tempos que não fazia isso, que não me entregava aos charmes de um estranho.
Mas a voz... A voz de Woosung cantando em meus ouvidos foi capaz de simular na minha imaginação um orgasmo que eu queria muito ter.
Ao voltar para a superfície, dei de frente com ele, vendo que sua calça e sapatos ficaram do lado de fora, junto com minhas roupas. Coloquei todo o meu cabelo para trás e passei as mãos no rosto para tirar a água. Ele estava muito perto de mim, também molhado, mas com os cabelos compridos quase intactos.
— O que foi isso, ? — disse baixo e se aproximando mais.
— Você quer que eu desenhe pra você? — sorri ladina.
— Não precisa. Mas seria bom dizer em voz alta. — ele devolveu o sorriso.
Em meu estômago se gerou a expectativa do toque físico. Como eu gostaria que ele me puxasse pela cintura…
Mas meu ser interior agiu primeiro.
Coloquei minhas pernas em volta de seu troco, estávamos perto demais e isso facilitou. Uma mão eu deixei em seu peito e a outra foi para sua nuca. Então o braço dele se apertou em minha cintura e eu já sentia os lábios dele esbarrando nos meus enquanto nossos olhares pareciam comer um ao outro. Apertei mais minhas pernas, grudando nossos corpos nessa mesma intensidade, e ele fechou a mão em minha nuca, puxando meu rosto para frente e finalmente me beijando.
Não foi um beijo tranquilo. Longe disso. Foi um beijo caloroso, fazendo parecer que eu estava embriagada do desejo que surgiu como um pop up de site duvidoso.
Mas eu me deliciei e quis mais.
Passei as mãos por seu peito, sentindo nossos quadris chocando-se embaixo d'água e me impedindo de afastar o mínimo que fosse as nossas bocas. Woosung entendeu o ritmo das minhas mãos e eu senti uma das suas apertar a minha bunda por baixo de toda a água que nos cobria até a cintura. Ofereci a ele meu pescoço quando faltou ar e ele aceitou, beijando dali para baixo e descobrindo o meu decote do top de ginástica.
No instante que ele colocou as mãos por dentro do tecido, um barulho estridente tocou do lado de fora.
Era o toque de um celular.
E só podia ser o celular dele.