Tamanho da fonte: |

Revisada por: Hydra

Última Atualização: 30.03.2026
Os olhos de Laura ardiam, enquanto encaravam a barra vermelha se movendo de forma lenta na tela do computador à sua frente, alguns segundos e seriam pegos. Por mais que já estivesse acostumada, a sensação de adrenalina, aquilo era diferente, era mais do que apenas uma artimanha, era o golpe definitivo, capaz de lhe devolver de uma vez o futuro, que lhe havia sido roubado tão cedo.
Como se quisesse se defender, suas memórias a levaram para quando tinha apenas dez anos, a garota de cabelos castanhos e seu irmão mais velho, Thomás, foram deixados pelo pai no orfanato da cidade. Mesmo depois de adulta, a cena ainda assombrava seus pensamentos. A maneira como seu pai saiu com carro sem nem olhar para trás, enquanto ela gritava seu nome, entre lágrimas, sem entender direito o que estava acontecendo. Porém, de alguma forma sabia que seu pai não a amava mais. Sua cabeça indecente puxava na memória algo que poderia ter feito de tão grave para que isso acontecesse, mas nada aparece, até porque, sempre havia sido uma garotinha doce e comportada.
Em meio às lágrimas, a jovem menina se aconchegou nos braços do irmão, sem se importar se o sufocaria devido a força com que o apertava. Thomás por sua vez, compadecido pela situação e mais preocupado em consolar a irmã do que a si mesmo, a acolheu.
— Calma, Laura, está tudo bem. Ele passava os dedos pelo fio castanhos da caçula.
— Não, não está tudo bem, Thomás, o papai se foi, o que vai ser de nós dois aqui, sozinhos?
O garoto mais velho, também jovem no auge de seus treze anos, também estava apavorado, afinal não tinha a resposta, porém precisava ser forte, então, por instinto, virou a garotinha para se, antes de dizer:
— Me escuta, Laura, o papai pode ter ido embora, mas eu nunca vou te deixar, comando, a partir de agora seremos só nós dois e desde que fiquemos juntos e que você me escute nada irá acontecer!
A garotinha, ainda em choque, se limitou a dizer que sim com a cabeça.
A partir daquele momento ela levou a sério as palavras de Thomás, desde que estivesse ao lado, por esse motivo escutou quando, aos dezessete anos, influenciado por certas más companhias, ele chegou ao orfanato com o primeiro celular roubado, ela o encobriu, acreditando ser o melhor para o futuro dos dois. Também não deu um pio quando, na semana seguinte, ele apareceu com algumas carteiras. Certa vez ela tentou questioná-lo, afinal mesmo tendo sido abandonada, ela havia aprendido a diferença entre o certo e o errado.
— Thomás. — Ela se aproximou cabisbaixa.
O garoto deixou as carteiras roubadas de lado e a encarou com as sobrancelhas franzidas.
— Eu sei que você sempre fala que nós devemos sobreviver e que está fazendo isso pelo nosso futuro, mas não há outras maneiras, quer dizer, você poderia parar de matar aula, se dedicar mais à escola ao invés de passar seu tempo …
O mais velho desceu da cama como se tivesse sido ofendido de forma pessoal.
— Laura, irmãzinha, ele se aproximou de forma ao mesmo tempo aconchegante e ameaçadora. Por mais que confesse ao irmão de olhos fechados e até o momento, ele sempre a tivesse tratado com carinho, a jovem de agora, quatorze anos, sentiu uma pitada de medo crescer em seu peito.
— Nós já falamos sobre isso. Eu estou aqui arriscando meu pescoço, e você vem querer me falar que estou errado.
— Não é isso, Thomás, mas o que você está fazendo é errado e se a diretora descobrir.
A menção ao nome da coordenadora do local, onde moravam, fez o garoto cerrar os punhos de forma discreta, mas o suficiente para que Laura sentisse sua garganta secar.
— Ela não vai descobrir a menos que você me dedure e você não faria isso, não é irmãzinha?
Laura fitou os olhos do irmão por alguns instantes, seu coração doeu ao constatar que toda a ternura, todo o carinho, pareciam ter desaparecido, era como se ele estivesse se tornando uma nova pessoa que ela não reconhecia, porém ainda assim, era seu irmão.
— Claro que nunca faria isso, Thomás.
— Eu sei que não, Laura, você não quer me ver no reformatório no meio de delinquentes.
A visão de seu irmão atrás das grades e de cabeça raspada e num reformatório a causava pavor, afinal ele era a única família que a restava, a havia protegido e dado o amor paterno do qual tanto carecia, porém naquele instante ela não estava certa de que era esse tipo de amor que queria, entretanto, era melhor do que nenhum.
— E eu sei também, que você não duraria um dia aqui sem mim.
Claro que esse era o pensamento de Thomás, afinal ele sempre a enxergava como a irmã caçula boba, incapaz de lidar com as outras meninas que a perturbavam e faziam piadas. O que mais doía era a constatação de que ele não estava errado.
Laura sentiu sua mente ser invadida por imaginações do que poderia acontecer caso ela se afastasse de Thomás e de forma involuntária, as lágrimas começaram a escorrer por suas bochechas.
O irmão mais velho de forma protetora, mas, ao mesmo tempo, manipuladora, a envolveu em seus braços da mesma forma que naquele fatídico dia do abandono.
— Ah, minha doce, Laura, irmãzinha querida, não precisa se preocupar, eu não vou a lugar nenhum, quer dizer, isso só depende de você.
— Eu sei e já disse que nunca vou te dedurar.
— Essa é minha pequena Laura! Lembra do que eu te falei no dia em que chegamos aqui.
— Sim, você disse que se eu te escutasse tudo ficaria bem.
— Isso mesmo, menina esperta e agora eu estou te pedindo para me escutar!
E Laura continuou escutando, manteve o silêncio mesmo quando as armações do irmão pioraram, além de carteiras, haviam joias, passagens de aviões e identidades falsas. Porém, quando Thomás completou dezoito anos, foi obrigado a deixar o orfanato, Laura só pode segui-lo três anos depois quando completou a mesma idade.
O mais velho a recebeu em um apartamento grande localizado em uma área afastada da cidade, ela não pode deixar de perceber que a quantidade de carteiras, joias e artefatos havia triplicado, imediatamente seu coração teve um mal pressentimento.
Por não ter outra opção e por, apesar de tudo, ainda amar Thomás, Laura continuou morando com ele, por algum tempo ele a deixou de fora de seus esquemas, até que um dia chegou em casa segurando uma peruca ruiva, lentes de contato azuis e uma identidade falsa. Seus lábios formavam um sorriso malicioso.
O irmão mais velho afirmou que seria apenas uma “brincadeirinha” a fim de conseguir um dinheiro extra, porém quando Laura se deu conta, uma pilha de identidades falsas ocupava sua cabeceira. Para cada alvo era uma história triste diferente, uma mãe no hospital, aluguéis atrasados. Para sua sorte, homens ricos costumavam ser muito ingênuos, ainda mais quando estavam diante de uma beldade como ela. Era sempre o mesmo processo, Thomás escolhia o alvo, analisava sua preferência e com base nisso montava uma personagem para a irmã mais nova interpretar a fim de conquistá-lo. Depois de algumas semanas, ela preparava o bote e assim que tivesse com o bolo de dinheiro em suas mãos, indo embora. Não que ela sentisse pena dos homens ricos que enganava, afinal eles com certeza tinham uma vida de mordomias as quais ela sequer conseguia imaginar, porém estava cansada de interpretar sempre uma personagem diferente.
Por pelo menos uma vez, queria ser apenas a Laura, ou pelos menos ver o fruto de seu esforço, já que o bolo de dinheiro sempre ia para as mãos de Thomás. Quando a garota ousava questioná-lo, ele afirmava que iria repartir os lucros com ela quando estivesse pronta. Agora aos vinte e quatro anos ela duvidava que esse dia iria chegar, contudo ao mesmo tempo não tinha para onde ir, se pelo menos um desses homens ricos cometesse a loucura de a pedir em casamento, ela aceitaria sem pensar duas vezes. Então, teve uma ideia.
— Thomás, se eu me casar com um milionário, poderei me ajudar e você poderá largar essa vida! — argumentou na ocasião.
O primogênito por sua vez a fitou de cima abaixo antes de dizer:
— Você por acaso não está satisfeita com a vida que levamos? Preferia estar naquele orfanato xexelento?
— Não é isso, mas Thomás, eu estou cansada de enganar um homem a cada mês com uma peruca escura e cada dia uma lente de cores diferentes. Eu quero mais e se eu conseguir um marido rico, só tenho que aguentar dois anos, ou menos dependendo do contrato nupcial e nosso futuro estará garantido. Não é o que você sempre quis?
O golpista experiente cruzou os braços.
— Isso é verdade.
— E eu me preocupo com você irmão. Eu quero sair dessa vida de tramoias e te levar comigo, pensa só.
Ele suspirou, enquanto coçava o queixo em sinal de reflexão.
— Tudo bem, eu vou te dar uma chance, porém eu escolho o alvo!
— Fechado.
Alguns dias depois, Thomás apareceu com um arquivo de informações reunidas sobre Adailton Senna, um jovem piloto bicampeão mundial que, no auge da carreira na fórmula um já acumulava bilhões em patrimônio.
— Muito bem, aqui diz que o Adailton é festeiro e já esteve envolvido em alguns escândalos em Mônaco, nada com que não possamos lidar.
— Então, eu só tenho que agir como uma piriguete? — Indagou Laura folheando os papéis.
— Aí é que está irmãzinha, se o nosso plano fosse que você ficasse com ele por uma noite e engravidasse, porém somos mais ambiciosos do que isso. Quero ver um anel de noivado nesse seu dedo. Um piloto de corrida famoso como o Adailton nunca se casaria com uma garota que ele conheceu em uma festa, não, pois a mídia espera que ele arrume um par a sua altura, alguém de classe, mas é verdade que uma história de superação também vende. Por isso você se infiltrará no campeonato como parte da imprensa!
Laura esfregou os ouvidos para ter certeza de que não tinha escutado errado, nos últimos anos havia interpretado inúmeras personagens diferentes, a lutadora, a garota ingênua, a herdeira falida, mas uma jornalista, era novidade.
— Eu não entendi.
— Pensa comigo, o campeonato vai começar no próximo mês, vinte um países, você terá muitas oportunidades de seduzi-lo
— Certo, só tem um problema Thomás, eu não sou jornalista, como é que eu vou conseguir uma credencial de imprensa?
Você esqueceu que o seu irmão é um hacker experiente? A garota cruzou os braços entendendo onde o irmão estava querendo chegar, mais uma identidade falsa.
— Certo, mas se essa é a identidade que terei pelo resto da vida, quero usar pelo menos meu primeiro nome verdadeiro.
Thomás não criou problemas diante da condição imposta pela irmã caçula.
Assim, Thomás usou parte do dinheiro dos golpes para comprar as passagens de aviões e Laura passou as últimas semanas estudando o que podia sobre fórmula um, como funcionam as cabines, as corridas, as festas… Tudo para que o seu plano corresse da melhor forma possível e para que ela finalmente tivesse sua tão sonhada liberdade.
O bip do computador a trouxe de volta ao momento presente e ela suspirou aliviada ao a frase “download concluído com sucesso” piscando na tela.
Era a primeira vez que Laura ficava feliz de ver sua foto em uma credencial falsa.
— Muito bem, acabei de cadastrar a senhorita Laura Harrison, metade brasileira, metade inglesa. Treine seu sotaque! Agora você é oficialmente parte da imprensa que irá cobrir o campeonato mundial de fórmula um!
— Mal posso acreditar que isso pode mesmo dar certo! Quer dizer, falta apenas uma semana para o campeonato começar agora e…
Todavia, antes que ela pudesse terminar a frase, Thomás advertiu.
— Eu te dei o meu voto de confiança irmãzinha, você terá o tempo do campeonato para fazer o Adailton se apaixonar por você, mas se falhar, terá que voltar para casa e continuará dando golpes para compensar o investimento que fizemos. Entendido?
A garota engoliu seco.
— Como assim?
— As passagens de avião, suas roupas de jornalistas e a identidade falsa, tudo isso custou dinheiro, que será perdido se o plano não funcionar.
Laura tentou sem sucesso esconder o choque que invadiu seu peito, mesmo tendo convivido esses anos com irmão e sabendo o que ele havia se tornando, nunca imaginou que ele a cobraria daquela forma.
— Mas, eu sou sua irmã.
— Sim você é, mas família é família, negócios a parte, achei que já tinha aprendido.
A garota lutou para conter as lágrimas que se formavam em seus olhos, precisava ser forte, fantasma forma que havia sido quando o pai a abandonou precisava provar que ninguém nunca mais a abandonaria. Mesmo sendo arriscado, era sua chance de liberdade, de recuperar seu futuro e o de Thomás, não podia desistir. Dessa forma começou a arrumar as malas, pois estaria a caminho de Mônaco na semana seguinte.




O som da vida noturna de Mônaco se harmonizou com os passos silenciosos de Laura, enquanto ela tentava não perder seu alvo de vista. A jovem havia pousado no país há menos de duas horas, contudo Thomás a havia instruído a não perder tempo. Por isso, quando soube que Adailton estaria em um dos bares mais populares da cidade, não teve outra escolha a não ser colocar no banheiro do aeroporto mesmo seu vestido preto mais sexy, disfarçar as olheiras, resultado da noite mal dormida no avião e partir para o ataque. Embora nunca tenha ouvido falar do famoso piloto antes de ele se tornar um alvo, Laura passou as últimas semanas assistindo entrevistas e pesquisando fotos para reconhecê-lo de diferentes ângulos e não o perder de vista mesmo em meio as ruas lotadas do pequeno país europeu.
O astro da fórmula um não era de se jogar fora, e se tornar sua esposa não seria grande sacrifício. Porém, no fundo, a garota ainda sonhava com um amor verdadeiro, alguém por quem verdadeiramente fizesse se encantar por sua personalidade e não por suas posses. Apesar de carregar esse sonho bem escondido em seu peito, ela não podia deixar de pensar que o amor, havia sido a razão pelo qual ela e o irmão mais velho haviam sofrido tanto ao serem abandonados naquele orfanato sem nenhuma explicação. A única razão que vinha em sua mente para seu pai ter tomado tamanha atitude, era por não amá-los mais, ou seja, o amor era uma força traiçoeira que no fim sempre nos faz sair machucados. Mal sabia ela que o destino logo a faria mudar de ideia.
Os olhos de Laura levaram alguns segundos para se acostumarem à escuridão do bar. Quando finalmente foi capaz de reconhecer as silhuetas, procurou por Adailton. Seus lábios formaram um sorriso quando ela o avistou na bancada.
Após uma leve ajeitada no cabelo e retocada no batom, ela caminhou a passos lentos e se posicionou ao lado da celebridade que a havia feito viajar até o outro lado do mundo.
A fim de não parecer desesperada, fingiu encarar o celular, enquanto de forma discreta observava o garçom encher o copo de Adailton com o que parecia ser vinho. Perfeito, sua experiência a havia ensinado que uma mente cheia de álcool era sempre mais fácil de ser manipulada. Certa vez, ela foi atrás de um banqueiro e depois de dez garrafas de Vodka, ela conseguiu um carro novo, do qual não pode usufruir já que Tomás o confiscou, mas era uma grande vitória. Por já ter sido testemunha de como esse tipo de bebida pode apagar o juízo, nunca colocava um gole nos lábios, apenas fingia embriaguez. Dessa forma seus alvos pensavam estar no controle da situação, quando na verdade não passavam de peões em seu jogo.
Naquela noite, não seria diferente, ela esperou Adailton estar atento para que ele a escutasse pedindo um copo de champagne.
Como esperado, ele se aproximou.
— Alguma ocasião especial? A voz do piloto saiu sedutora, contudo, Laura já era treinada o bastante para se deixar distrair.
— Bom… — ela começou forçando um sotaque britânico se você considerar o início do campeonato de Fórmula Um um bom motivo…
Adailton exibiu um sorriso malicioso, pensando ter encontrado um alvo fácil. Homens eram mesmo todos iguais.
— Ah, então a senhorita é fã de fórmula um.
Ela enrolou seus fios castanhos nas pontas dos dedos a fim de parecer ingênua, algo que a vida já não permitia que fosse há muito tempo.
— Na verdade… Ela molhou os lábios com bebida à sua frente. Sou mais do que isso, Laura Harrison, jornalista… Ela estendeu as mãos, enquanto sentia as mentiras saírem de forma tão natural de seus lábios.
— Ah, então a senhorita…
— Sim, sei muito quem é o senhor, bi campeão desse torneio e novamente o favorito da temporada.
— Olha, parece que alguém fez seu dever de casa… — Provocou se aproximando ainda mais.
Laura por sua vez o afastou, enquanto as palavras de Tomás ecoavam em sua mente.
“Ele nunca se casará com uma qualquer.”
— Eu também sei, que o senhor é do tipo que adora vir em bares como esse em busca de um novo caso e lamento informar que não serei um deles. Se me der licença…
Ela tomou uma distância segura antes de se permitir sorrir de forma maliciosa, tudo estava indo de acordo com o plano. Sem dúvidas alguém como Adailton não estava acostumado a rejeições. Agora ela só esperava que ele a procurasse de novo, mas até lá, precisava sumir de sua vista. O banheiro feminino, sempre foi um ótimo refúgio.
— Muito bem senhorita Laura Harrison. — Ela encarou o próprio reflexo de forma carinhosa. Até o fim dessa noite aquele piloto milionário estará comendo na palma de suas mãos… e você irá ao rejeitar de novo até que ele fique maluco e no fim da temporada… esse dedo terá um anel de diamante!
Ela encarou a própria mão direita orgulhosa de si mesma. Não que gostasse de aplicar esses tipos de golpes, na verdade justamente por não gostar e querer sair daquela vida que estava ali. Já havia esquematizado tudo em sua mente. Ficaria casada com Adailton por dois anos até ter direito a metade do que é dele e durante esse meio tempo engravidaria a fim de também exigir uma pensão gorda o suficiente para dar a ela e a Tomás uma vida confortável e permitir que se aposentem dessa vida. Se seguisse o plano, tudo daria certo e ela nunca mais seria obrigada a sentir o toque de um estranho sob seu corpo. Nada poderia ficar em seu caminho, pelo menos era o que pensava.
As horas correram de forma rápida e logo ela estava pronta para voltar a circular “inocentemente” pelo salão e esbarrar “por acaso” em um certo piloto para depois insultá-lo e ir embora outra vez.
Contudo, depois de dez voltas pelo salão, ela ainda não havia encontrado Adailton. Será que ele havia desistido? Ido embora? Droga, mas com certeza não havia parado de pensar nela. Haviam outras chances, quando no dia seguinte eles se encontrassem no autódromo, e ela o desprezasse novamente. Pelo menos teria uma noite de folga a fim de bolar a próxima estratégia com detalhes.
O salto fino fazia seus pés queimarem, enquanto seus olhos ainda tentavam se acostumar à névoa da noite. Laura acelerou o passo, pois mesmo que estivesse acostumada a frequentar esses tipos de locais, sabia muito bem os perigos que podiam oferecer a uma mulher. Seu coração saltava pelo peito, enquanto seus dedos gritavam de dor? Aquele salto só podia estar estragado, ou talvez fossem às ruas diferentes de Mônaco aos quais não estavam acostumados, visto que a garota até aquele dia, nunca havia saído do Brasil.
Por não lembrar de cabeça o nome do hotel, precisou checar o celular, sem tirá-lo da bolsa, no entanto, ela forçou seus olhos a enxergarem as palavras iluminadas pela fraca luz branca. Seus pés doloridos clamavam por descanso, por isso insistiram em andar a fim de chegar mais depressa ao seu destino, porém ao pisarem de forma precipitada, encontraram uma pedra. Luara sentiu o desequilíbrio no mesmo instante, porém antes de chegar ao chão, foi segurada por um par de braços fortes.
A jovem olhou para cima e se deparou com um par de olhos castanhos penetrantes.
— A senhorita? — Indagou a voz máscula levemente rouca.
— Senhorita? Quanta formalidade. Zombou Laura, enquanto se soltava dos braços firmes e tentava controlar as pernas trêmulas.
— Só quis ser educado. Mas, então, você está perdida?
Por mais que o homem misterioso tivesse uma aparência extremamente atraente e seu sorriso pareceu sincero, na verdade o mais sincero que via em anos, a garota tinha experiência o bastante para não se deixar levar por falsos gestos de cavalheiros que no fim das contas só serviam para no fim da noite levá-la a um certo lugar… Não, ela estava no controle e ninguém mudaria isso.
— Não, eu sei muito bem para onde está indo! Pode seguir o seu caminho.
— Nossa, isso é o que ganho por tentar ser gentil com qualquer uma… — O jovem cujos fios pretos brilhavam sob a lua cruzou os braços
Laura sentiu a raiva queimar em sua garganta.
Qualquer uma? Como ele se atrevia?
De forma corajosa ela se aproximou até ficar a centímetros daqueles olhos capazes de iluminar uma cidade inteira.
— Escuta aqui, eu tenho nome!
— É mesmo? Então me diga!
Mesmo estando ciente de que se o plano desse certo, seu rosto estaria estampado em inúmeros jornais, a garota não podia se dar ao luxo de deixar um estranho a reconhecer e estragar tudo.
— Passar bem. Se limitou a responder antes de se virar e se pôr em direção ao hotel, seus pés, no entanto a traíram ao fazerem com que gemesse de dor.
– Droga!
— O seu pé está machucado, não é?
— Isso não te interessa.
— Tem certeza de que não quer ajuda?
—Não, eu sou perfeitamente capaz de caminhar sozinha obrigada!
Contudo a dor pareceu piorar em questão de segundos.
Sem esperar permissão, o estranho de olhos brilhantes segurou um de seus braços de forma gentil, a fim de ajudá-la a se apoiar.
— Se me permite uma sugestão, é melhor tirar esse sapato, se ele ficar se encontrando na ferida por mais tempo, ela só irá piorar.
— Você por acaso é médico? Zombou, enquanto obedecia — Não, e nem é preciso ser um para saber disso. Eu tive um machucado parecido há algum tempo atrás.
— Ah, então você também usa saltos?
A fala fez o estranho misterioso cair na risada.
— Não, mas no meu trabalho, às vezes isso acontece.
— É mesmo? E posso saber que trabalho seria esse?
— Bom, você não me disse seu nome, então eu também não tenho a obrigação de te falar sobre meu trabalho. Afirmou, enquanto caminhavam de forma lenta.
Como era atrevido, mas não de um jeito ruim. Laura estava acostumada a ter todos os homens na palma de sua mão e aquele estranho misterioso parecia entender o seu jogo, o que era muito atraente. Mas no que ela estava pensando?
— Tudo bem, é justo.
— É fã de corrida? — Indagou o estranho de olhos brilhantes provavelmente não querendo ficar o resto do caminho em silêncio.
Laura também não estava disposta a revelar sua identidade falsa.
— Mais ou menos E você? Veio do Brasil para o evento? Retrucou.
— Digamos que a fórmula um faz parte da minha vida…
— Entendi, um verdadeiro apreciador.
— É, por assim dizer.
— Amanhã já é o primeiro dia, mas eu não me animaria muito, visto que está prevista uma tempestade. Ninguém seria louco de correr nessas condições.
O estranho soltou uma leve risada.
— Bom, isso depende do piloto…
Ela o encarou de forma curiosa e por um instante se deixou hipnotizar por aqueles malditos olhos castanhos. Como era possível ela sentir mais conexão no olhar de alguém que havia conhecido a menos de cinco minutos do que durante qualquer intimidade que já tinha tido com vários outros? De toda forma não fazia diferença, afinal ela nunca saberia nem mesmo o nome daquele estranho misterioso, ele iria embora, ela nunca mais o veria, como deve ser. Afinal não estava ali para encontrar o amor verdadeiro e sim para ir atrás de sua liberdade.
Laura suspirou aliviada quando avistou o hotel à sua frente.
— É aqui que eu fico.
— Muito bem! Consegue entrar sozinha?
— Claro que sim, não está tão feio! Ela estendeu o pé, por pé, mas o estranho pareceu não concordar.
— Bom, mas é melhor limparmos para não infeccionar.
Laura caiu na risada.
— Com o que?
— No mesmo instante, o estranho misterioso retirou um lenço de seu bolso sujo de graxa.
Será que ele era um mecânico? Imagina só se Thomás ficasse sabendo desta situação.
Ela ergueu as sobrancelhas em desaprovação
— Não se preocupe. Minha calça está suja, mas o lenço é limpo. Explicou como se lesse seu pensamento
O estranho misterioso se ajoelhou e Luara sentiu suas bochechas queimarem. O que estava acontecendo afinal?
— Me permite?
Ela se limitou a fazer que sim com a cabeça antes de estender o pé ferido. Pela primeira vez, ela se sentiu como uma dama, sendo cuidada de verdade e não como um objeto a ser descartado e a sensação era boa.
O toque do estranho misterioso era cauteloso e suave, diferente dos que estava acostumada a sentir.
Ao terminar ele se levantou exibindo um sorriso tão chamativo quanto seus olhos.
— Bom, então quem sabe não nos encontremos por aí, garota que definitivamente não é qualquer uma. —
O elogio fez o coração da jovem saltar em seu peito.
— Sim, nos vemos. — Afirmou no fundo querendo acreditar nas próprias palavras. Assim que o estranho foi embora, a jovem golpista se deu conta de que havia esquecido do sotaque britânico. Ah, não fazia diferença, afinal nunca mais se encontrariam, pelo menos era o que ela pensava.



Continua...


Nota da autora: Sem nota.

Barra de Progresso de Leitura
0%


Se você encontrou algum erro de codificação, entre em contato por aqui.