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(POV: )


Every weekend with your friends
Every weekday when it ends
Damn it's all good, I guess
This is what it feels like when you become one of the drunks



Tá onde, sua piranha? É melhor estar a caminho.
Suspirei para o telefone, afrouxando o nó do lenço e apertando a nuca. Depois de doze horas de voo, até a echarpe azul-marinho pesava no meu pescoço rígido e meus pobres pés queimavam como fogo dentro do scarpin, roçando pela meia-calça abrasiva e implorando pela libertação de um par de chinelos — coisa que aconteceria assim que eu pisasse novamente em terra firme, abrisse a bagagem de mão e desse aos meus sofridos dedinhos o merecido descanso de um slide fofinho e macio.
— Que linguajar é esse, hein, Diedra? — respondi minha amiga boca suja enquanto fechava os últimos compartimentos superiores.
Vai se ferrar, ! A gente passa o dia inteiro mostrando os dentes e fazendo pose de miss, eu preciso xingar em qualquer oportunidade que eu tenha.
— Eu ainda estou na aeronave. — atravessei o corredor até a estação da tripulação para pegar minha mala.
Então sai logo daí! — uma voz diferente e chorosa pediu. — Eu conheço você, vai inventar alguma checagem extra ou se oferecer para cobrir o turno de alguém. Vem logo, ! Eu estou com saudades!
— Harper? — reconheci. — Já está bêbada?
Já. E quase subiu no balcão pra fazer uma dança sensual. — Diedra voltou a falar do outro lado da linha. — Mas aí lembrou que tem um noivo, ainda bem. Por favor, vem logo e me ajuda a segurar essa vadia.
— Vou me trocar e chego em vinte minutos. Prometo.
E ? — Diedra chamou dramaticamente antes de desligar.
— Que foi?
Se você aparecer aqui de crocs eu arranco elas dos seus pés e faço você comer.
Eu estava pronta para listar todos os benefícios ergonômicos do controverso calçado e como ele era a melhor pedida para combinar com minha calça jeans e minha camiseta do Aerosmith (a guerreira que eu comprei num show há anos), mas minha amiga desligou antes e a ameaça dela ficou no ar. Um checklist mental rápido me lembrou que a outra opção que eu tinha comigo era um All Star, tão confortável quanto a crocs, mas significativamente mais seguro; assim, já que o repúdio da Diedra era apenas ao chinelo de borracha, eu não correria o risco de acabar jantando meus tênis à força.
Dei uma última olhada por cima das cadeiras antes de assinar o relatório e entregá-lo ao comandante. Foi uma viagem tranquila, sem ocorrências nem falhas técnicas dignas de nota, a não ser, é claro, por mais um caso de mãe sem noção com criança mimada exigindo a poltrona da janela. Infelizmente, essas situações se tornaram as mais comuns, perdendo apenas para os passageiros nervosos que vomitavam no assento ou para os fãs da franquia Premonição, que juravam que havia algo de errado com as turbinas.
— Comandante Garcia. — acenei com a cabeça e estendi o documento. — Tudo pronto. Gostaria de adicionar algo?
— O sinal do voltímetro está um pouco fraco. — ele avisou e eu imediatamente marquei a caixa correspondente no campo.
— Vou pedir que verifiquem.
— Perfeito. Tripulação dispensada.
— Até que enfim. — a copiloto saiu da cabine, batendo nos ombros de Garcia. — Não aguentava mais esse cara aqui. — ela fez uma careta.
— Senhora Jones, boa noite.
— Samantha, . — ela corrigiu e começou a caminhar pelo acesso em direção ao tubo para, enfim, deixarmos o avião. — O Garcia já dispensou a tripulação, pode sair do modo comissária de bordo.
— Eu bem que gostaria, mas leva um tempo. — confessei, sendo encoberta pelo som das rodinhas das nossas malas contra o ferro da estrutura. — Eu devo continuar sorrindo no automático até entrar no táxi daqui até o bar.
— Bar, é? As meninas estão de folga?
Sorri em confirmação, achando graça de como “as meninas” tinha assumido um significado comum para todos que me conheciam no trabalho. Entre pilotos, operadores de máquinas, agentes, controladores de tráfego e dezenas de outras comissárias de bordo que faziam parte da minha rotina intensa, “as meninas” foram as únicas pessoas que eu quis trazer para a minha vida particular (ou o que quer que seja que restou dela). Harper e Diedra tornaram-se minhas melhores amigas, aliás, minhas únicas amigas, uma vez que o plano de carreira que eu estabeleci para mim mesma tomava 60% do meu tempo, 30% da minha energia e 5% da minha vontade de viver. Nos 5% restantes, eu me recuperava para fazer tudo de novo. Ou saía para tomar todas as margaritas de 8 dólares que colocassem na minha frente, como era o caso daquela noite.
— Vamos tomar uns drinks no Barneys. — atravessamos a seção do duty free do aeroporto, fazendo o caminho conhecido até a área dos comissários. — Quer vir com a gente?
— Fica pra próxima. Ainda preciso escrever um discurso para a homenagem ao Miles e eu não tenho nada de bom pra dizer sobre essa pessoa.
Samantha foi se arrependendo da frase à medida que ela foi saindo e eu fui perdendo a cor.
Discurso de homenagem ao Miles?
Edward Miles?

— Desculpa. — Samantha pediu quando chegamos ao vestiário. — É pro jantar de centenário da companhia, eu não tive escolha.
— Eu sei. — cortei com uma amargura inesperada. — Eu também fui intimada a participar da cerimônia e ler a abertura do evento, faz parte. — caminhei até o meu armário, abrindo e fechando a porta com força na tentativa de descontar minha frustração na pancada. Sem sucesso. Eu ainda me sentia consumida por um vulcão e as palavras seguintes foram cuspidas como uma erupção de lava. — É sério? Homenagem ao porco do Miles?
— Condecorado. — Samantha deu de ombros. — Mas, ei. Otários são condecorados toda hora na aviação. Não deixa isso estragar sua noite, ok?
— Não estragou. — descalcei o primeiro salto e apertei ele na mão feito uma arma, de modo que se o Miles se materializasse ali na minha frente, seria acertado em cheio no olho esquerdo. — Essa informação colocou o ódio necessário no meu coração para trocar as margaritas por doses de tequila.
— Desde que você esteja viva amanhã de manhã, eu dou o maior apoio.
— Não se preocupe, senhora copiloto. — tirei o outro sapato, extasiada pela sensação de alívio que a manobra causou. — Eu sou extremamente resistente ao álcool.

✈️

O terceiro shot de tequila provou que eu não era tão resistente assim. Uma vertigem escureceu minha visão e o bar inteiro rodou quando eu cheguei de volta ao meu lugar.
— Vocês sabiam que o banheiro daqui gira? — enfim acertei a cadeira. — Sério mesmo, assim que eu sentei no vaso sanitário, o negócio todo rodopiou que nem um carrossel.
— Provavelmente foi só a sua cabeça, . — Diedra riu dos meus olhos pesando e dos meus movimentos levemente descoordenados. — Que tal uma pina colada sem rum? É doce, vai cortar o efeito do álcool… A não ser que você queira mesmo ficar embriagada.
— Na verdade, eu queria a minha cama. — falei, arrastado. — E um banho bem quentinho, mas meu chuveiro está quebrado.
— É, há uns dois meses. — Harper disse num tom embolado, segundo sinal de que estava ficando bêbada (o primeiro era querer rebolar em cima do balcão). — Eu já te disse que meu vizinho faz-tudo pode dar uma olhada nisso pra você, é só me dizer quando vai ter um dia livre e eu marco.
— A última vez que eu tive um dia livre foi em 2019. — estalei os dedos, chamando a atenção do garçom, que prontamente apareceu. — Uma cina polada. — ri. — Desculpa. Uma pina colada.
— Sem álcool, por favor! — Diedra completou.
— 2019? — Harper ainda processava a minha última fala em atraso. — Em 2019 houve a porra de uma pandemia, ! Todo mundo foi obrigado a ficar em casa!
— E ainda assim ela deu um jeito de inventar trabalho marcando aqueles treinamentos remotos… — Diedra entornou a cerveja.
— Mas foi por causa disso que a nossa equipe se destacou e todo mundo ganhou um belo bônus. — rebati e o garçom chegou com a minha bebida. — De nada.
— Ok, ok, você foi o orgulho da OMS nos passando as novas normas sanitárias para viagens internacionais, mas aquela loucura pandemia acabou faz tempo, . — Diedra disse, séria, ou tão séria quanto o barulho do meu canudinho sugando um pedaço de abacaxi da pina colada permitia que ela fosse. — Você pode relaxar um pouco agora.
— Relaxar? — quase gritei, desbloqueando meu celular que estava esquecido ao lado do porta-guardanapos. — Olha a minha agenda. — mostrei a tela. — Amanhã eu tenho que dar uma palestra sobre primeiros socorros para os novatos, participar de uma simulação de voo, estudar aquele artigo que saiu sobre turismo sustentável, fazer minhas lições de alemão e... — uma notificação surgiu enquanto eu lia. — Ih, olha só, aula de italiano cancelada! Parece que eu tenho uma brecha. Quer avisar o faz-tudo?
— Amanhã? Mas é sábado, . — Harper arregalou os olhos, como se tivesse acabado de perceber algo ainda mais ultrajante que agendar um conserto num sábado à noite. — E é dia dos namorados! Você não tem planos?
— Claro que tenho. Esses aí que você acabou de ouvir.
— Tá, eu vou ver se ele pode. — ela encheu a boca com um punhado de batatas fritas. — Mas você precisa fazer sexo. Urgentemente.
— Bom, o Miles já realizou meu fetiche de transar na cabine do piloto. — o nome infame ressurgiu, junto com uma memória dolorosa em processo de cicatrização e um gosto de fel nos meus lábios. — Ele só esqueceu de fazer isso comigo.
— Ah, não! — Diedra protestou. — Não tínhamos concordado que o embuste do seu ex tinha morrido?
— Infelizmente eu ainda tenho que aturá-lo no trabalho. E sabem o que mais eu tenho que aturar? O fato de que ele vai ser condecorado no jantar de centenário da companhia. — revelei, enjoada pela notícia e pelo leite condensado do drink. — Acreditam nisso? Condecorado! Agora eu pergunto: condecorado por qual feito? Me trair com uma passageira aleatória e gozar em dois minutos a 30 mil pés de altura?
— Dois minutos é um tempo impressionante. De tão ridículo, mas impressionante.
— O Miles é um cretino. — Harper sentenciou. — Não acredito que você não denunciou ele pro conselho.
— Eu sou comissária de bordo com três anos de experiência e ele é um piloto com quinze. — olhei para o copinho com sal na borda que descansava na mesa, decidida a voltar para a tequila. — Quem você acha que a empresa ia mandar embora se eu fizesse um escândalo?
— Ah, foda-se o Miles! — Diedra praguejou. — Você é gostosa demais pra ele.
— Era exatamente a desculpa que ele dava para a ejaculação precoce! — peguei o shot e o ergui, orgulhosa da minha piada hilária.
— Um brinde! — Harper espelhou meu movimento e levantou a margarita. — Aos pênis que nos fazem gozar!
— Brinda você que tem um em casa! — bati meu copinho em protesto e virei a tequila. — Faz muito tempo que eu não sei o que é isso…
— Se tá ruim assim, eu posso te ajudar… — Diedra piscou.
— Tá querendo tirar a minha calcinha, é? — bradei. — Você não vai me deixar tão bêbada assim, Di. — sacudi o copo para aproveitar até a última gota. — Eu gosto de homem! Homem com H maiúsculo! — a essa altura, até o garçom já estava olhando.
E parecia interessado!?
— É disso que eu tô falando! A gente podia contratar um cara pra dormir com você. É totalmente legal, sabia?
Diedra e eu trocamos um olhar de pânico porque a sugestão partiu da Harper. Sim. A Harper-futura-senhora-Quinn, aquela adorável mocinha loira de anel de diamante no dedo que, quando sóbria, só falava de enxoval e preparativos para o casamento.
— E como é que você sabe disso, hein, dona noiva? — arqueei uma sobrancelha.
— Digamos apenas que o stripper que esteve na minha despedida de solteira trabalha numa agência. — ela escondeu o rosto atrás da margarita. — E que a agência tem rapazes que fazem trabalhos extras…
— Harper!
— Não foi pra mim! Foi pra uma amiga! — ela se indignou por uma fração de segundo e repensou. — Se bem que, se todos forem como o stripper da minha festa, eu não recusaria...
Outro olhar trocado com Diedra, mas sem pânico dessa vez. Era um olhar nostálgico que dizia: “Ela tem razão. Eu cometeria qualquer crime só para ser presa por aquele policial falso”.
— Ele estava demais naquela fantasia… — Diedra assobiou com a lembrança.
— Que fantasia? Só tinha uma calça embalada a vácuo, um quepe e um monte de peito pra fora. — suspirei. — Saudades, aliás.
— Minha amiga ainda tem o contato dele! — Harper cantarolou como se fosse uma ópera. — Você bem que podia contratar o vendedor de amor pra dar um jeito nesse seu estresse.
— Isso! — Diedra bateu palmas. — E pede pra ele ir fantasiado! De bombeiro dessa vez!
— Vocês estão malucas? — girei o dedo na cabeça. — Eu não vou ligar pra uma agência e dizer “oi, eu queria um homem gostoso, de preferência um moreno, sexualizando uma profissão honrada e digna com uma tanguinha apertada. Pra viagem, por favor!”
Foi a vez de Harper e Diedra se entreolharem. E quase deu pra ver o diabinho no ombro delas.
— E se a gente mandar um pra você? Como presente de dia dos namorados?
Meu estômago deu uma pirueta e minhas paredes internas vibraram, animadas com a possibilidade. As meninas tinham um ponto: eu estava num ritmo tão frenético de trabalho que vinha negligenciando meu sono, meu lazer e até minha saúde sexual. Esse súbito diagnóstico se agravou quando eu o aliei ao fato de que Miles-goza-rápido tinha sido minha última aventura no quarto, o que fez eu me sentir ridícula e totalmente em falta. Meu time estava perdendo, não dava pra negar. Fazia seis meses que ninguém marcava um gol de placa por aqui.
Uau.
Seis meses.
Tudo isso?
Tinha seis meses inteirinhos que eu não via o pipi de um homem?
Era a acidez da tequila ou a história do bombeiro estava começando a soar como uma ótima ideia?
— Que tal, ? — as duas riram o riso das vilãs de novela. — Um cara bem quente para uma moça incendiária?
Seis meses…
Harper e Diedra continuaram gargalhando e tagarelando, mas o meu celibato semestral era tudo o que eu conseguia assimilar. A demarcação de tempo ecoava na minha mente embriagada como uma buzina de avião — e qualquer pessoa que já tenha ouvido uma sabe que é um barulho em alta frequência ensurdecedor e desesperador na mesma medida.
Seis fodidos meses, !
Você tem que sair dessa!
— Quer saber? — espalmei as duas mãos na mesa. — Eu aceito. Mas me manda mensagem 1 hora antes pra eu poder me preparar…


(POV: )


Is it still me that makes you sweat?
Am I who you think about in bed?
When the lights are dim and your hands are shaking
As you're sliding off your dress?


O YouTube carregava mais um vídeo de gramática alemã enquanto eu lutava para manter os olhos abertos. As horas de procura por uma boa videoaula sobre conjugações foram mais exaustivas do que passar a noite inteira com a sensação de que meu crânio estava rachado ao meio, cortesia de toda a tequilada que ainda causava seus efeitos e me presenteava com uma ressaca mal curada. Ao menos a moça da aula gravada parecia simpática e não tinha uma voz irritante que poderia piorar a minha enxaqueca.
Oi! Eu sou Karen Müller, professora de alemão, e hoje você vai aprender tudo sobre verbos modais.
— Duvido. — falei para o notebook como se ele pudesse me responder e abri meu caderno numa folha em branco. — Mas você parece bem confiante, então vamos lá.
Os verbos modais podem expressar necessidade, vontade, permissão ou habilidade de realizar alguma ação. Vamos ver alguns exemplos?
— Manda a ver, Karen. — escrevi um título para as anotações, mesmo sabendo que eu não entenderia muita coisa.
Tente repetir depois de mim: könen…
— Não, valeu. Te assistir vai ser o máximo de esforço que eu vou conseguir fazer hoje. — preenchi a data no canto superior esquerdo da página e ela me levou a uma epifania.
Dürfen… — a professora seguia como se eu estivesse prestando atenção.
— Hoje é dia dos namorados. Dia dos namorados e eu tô aqui com você, Karen.
Wollen…
— E fica pior. Faz seis meses que eu não transo, sabia?
Mögen...
— Como se diz “perdedora” em alemão?
E, por último, müssen…
Suspirei, desistindo da aula e de conversar com o computador. Sozinha e contemplativa como eu estava, não demoraria muito até eu começar a discorrer sobre meus dilemas pessoais com o ChatGPT, então, antes que eu fosse chorar as minhas pitangas para uma inteligência artificial, peguei o celular para pedir uma pizza, um pote enorme de Ben&Jerry’s de caramelo triplo e encerrar meu sábado do jeito oficial dos solteiros amargurados: largada no sofá com a boca doce de sorvete.
— Não me olha assim, Karen. — pedi para a tela pausada na cara dela. — Eu sei, uma comissária de bordo precisa manter o peso e essa lambança toda vai acabar indo direto para os meus quadris, blá blá blá. — sacudi o aparelho. — Mas eu tô de jejum sexual, garota. Eu tenho que ter alguma fonte de prazer ou eu vou ficar maluca.
O celular apitou e, por um momento, eu achei que fosse a Karen me mandando mensagem diretamente da Alemanha para incutir algum senso na minha cabeça oca, mas era apenas a Harper checando como estava a amiga encalhada, solitária e triste:

Harpie 🩷:
já está livre?
Eu:
sim. e prestes a fazer amor com uma pizza de pepperoni.
Harpie 🩷:
então espera eu mandar o bombeiro resolver aquele problema. ele pode ir?

Oi? O bombeiro sensual/stripper/garoto de programa? Ela e a Diedra estavam mesmo falando sério ontem no bar? Tudo bem que de manhã eu tinha me depilado toda no banho, mas não foi nada intencional, e definitivamente não foi com esse objetivo. Receber aquele tipo de visita não estava nos meus planos, porém, considerando a natureza dos planos que eu tinha…
Não era de todo ruim?
— Que é isso, ? Você tá mesmo cogitando sexo pago? — balancei a cabeça, me repreendendo. — Na frente da Karen, ainda por cima!
Meu monólogo existencial foi interrompido quando o telefone bipou descontroladamente, acusando uma série de mensagens e denunciando a impaciência do outro lado.

Harpie 🩷:
oi!
Harpie 🩷:
responde
Harpie 🩷:
rápido
Harpie 🩷:
ele tá aqui
Harpie 🩷:
esperando você confirmar

Mas já?!
Tinha um homem seminu na casa da Harper esperando minha resposta?
Um bombeiro sem camisa? Esperando… por mim?
Minha mente hiperativa começou a elencar um milhão de perguntas e em menos de meio segundo eu fui de “eu realmente vou entregar minha flor para um profissional do sexo?” para “eu acho que vou sim, mas será eu deveria deixar a polícia avisada ou algo do tipo?”.
Ok, a polícia era exagero, afinal de contas, o cara estava vindo fazer um trabalho, pelo qual ele deveria ganhar muito bem, a propósito. Quem sabe até estivesse cobrando um adicional por ser dia dos namorados. Se eu pensasse bem, nós dois estaríamos nos ajudando. Além disso, não era um homem aleatório que foi achado na rua, ele fazia parte de uma agência, Harper estava ciente da situação, era a mandante da operação toda junto com a Diedra, e ter as duas avisadas sobre o estranho na minha casa me deixava um tanto mais segura. Então… Por que não?
Encarei meu celular e fui tomada por um surto de coragem súbita.

Eu:
harp…
como é que ele é? 👀

Harpie 🩷:
ele é ótimo, não se preocupa
Harpie 🩷:
super caprichoso, trabalha bem e chega rápido quando precisa

Se eu estivesse em perfeito juízo, eu questionaria como Harper sabia das habilidades do rapaz, mas meu juízo não estava ali. Pelo contrário, meu juízo já estava calculando se eu tinha lençóis limpos na cama e se era a época do meu período fértil, o que, a propósito, explicaria perfeitamente a loucura que eu estava prestes a cometer. Felizmente, um temperamento ansioso como o meu não me deixaria perder o controle do meu ciclo menstrual, assim, meu anticoncepcional estava sempre em dia. E nem era preciso dizer que não engravidar do bombeiro sexy era uma coisa a menos com o que se preocupar.
Olhei em volta sem focar em nada para organizar minha linha de raciocínio. As possíveis catástrofes foram listadas com sucesso, e uma solução alternativa para cada uma delas também. Era o que eu fazia de melhor: pensar, antecipar eventos, criar cenários nos quais cada coisinha passível de dar errado tivesse uma saída de emergência (eu fazia isso o tempo todo no trabalho!). Muita gente costumava se equivocar e achar que estar sempre preparada era a parte difícil, mas não era. A parte difícil não era a iminência, era a que vinha a seguir. Era quando estava, de fato, acontecendo algo, como uma turbulência mais forte e um apagão temporário na cabine, por exemplo.
Ou um garoto de programa batendo na sua porta a qualquer momento.
A familiar sensação de gravidade zero pré-decolagem se apossou do meu corpo, no entanto, apesar dela e da voz da minha consciência gritando “doida, doida!”, meus dedos gelados de nervosismo digitaram uma resposta antes que houvesse tempo de me arrepender.

Eu:
ok, ele pode vir.
me liga em uma hora pra saber se deu tudo certo?


Reconsiderei por um breve instante.

Eu:
quer saber? duas horas. tem muito serviço.

Recebi dois emojis de joinha e um de beijinho, confirmando meus pedidos.
— Bom, já que é tanto serviço assim, é melhor eu passar meu hidratante de morango da Victoria’s Secret. — olhei para baixo, encontrando uma camiseta larga e velha no corpo. — E trocar de roupa. Qual a sua opinião sobre a lingerie, Karen? Vermelho? Oncinha? Pretinho básico?
Obviamente a Karen congelada não respondeu.
— Tem razão. A ocasião pede um vermelho escândalo. Você sabe das coisas, viu, Karen? — fechei o notebook e fui me preparar.
Psicologicamente, sobretudo.

✈️

Olhei no espelho com o robe aberto, satisfeita com o que estava vendo. Até arrisquei umas poses, mas rapidamente refiz o laço em volta da minha cintura, fechando-o.
— Assim também é exposição demais. — apertei o nó, escondendo meu conjunto de calcinha e sutiã de renda. — Não vai entregando o ouro logo de cara, .
Não havia um manual de etiqueta em pdf para situações como aquela (nem em qualquer outro formato, eu pesquisei), mas algo me dizia que me vestir para ir direto ao ponto era a escolha mais adequada, assim como algo me dizia que era cortês e educado ter uma garrafa de vinho separada, afinal de contas, oferecer uma bebida era um ótimo protocolo a seguir em qualquer ocasião social, mesmo as inusitadas. Uma boa bebida servia como um catalisador de conversas, um gerador natural de assuntos, quebrava o gelo e aquecia o clima, e era exatamente isso que eu queria, certo?
A não ser que as preliminares não fizessem parte do pacote…
De repente, um arrepio na espinha. Regar meu primeiríssimo desfrute carnal insólito com o suco da felicidade de Dionísio soou um tanto perigoso e arriscado.
— Eu tô fazendo um grande caso disso, né? — argumentei para o espelho. — É só um sexo. Normal. Eu tenho que parar de pensar tanto em tudo. Se a Karen estivesse aqui agora, ela ia concordar comigo.
A Karen, coitada, sem a menor ideia da proporção que seu papel de conselheira silenciosa tinha tomado em um intervalo tão diminuto, deveria estar lá do outro lado do mundo fazendo qualquer coisa muito mais inteligente do que a coisa que eu estava por fazer: abrir a garrafa de vinho antes que o rapaz chegasse com a desculpa de me desinibir. Caminhei até a cozinha, incerta até dos meus próprios passos, e peguei o saca-rolhas deixado propositalmente em cima da ilha junto com duas taças e um vinho tinto, abrindo a garrafa no automático. Estudei o vidro, tentando tirar dali alguma média que fosse proporcional ao meu nervosismo e à minha ansiedade, e o cálculo da dose necessária levou a um único resultado.
— Não sei se isso é coragem líquida ou burrice fermentada, mas saúde! — virei a garrafa e bebi direto do gargalo, três goles bem generosos de uma vez.
O vinho ainda descia queimando a minha garganta quando a campainha tocou e levou meu espírito para fora da carcaça por uns dois segundos, até eu finalmente atender e dar de cara com…
Puta que pariu, o homem mais lindo que eu já vi na minha vida?!
Um moço alto e bem-feito escorava o braço na soleira da porta, e uma única mecha de cabelo caía por entre olhos rasgados, que se harmonizavam com um nariz afilado e uma boca rosada, carnuda na medida certa. Tinha um sorriso bonito estampado no rosto, aliás, mais, muito mais que bonito, era um sorriso fácil. Largadão mesmo. Como se o mundo inteiro não pesasse um grama pra ele.
Bom, o trabalho do cara era literalmente transar em troca de dinheiro. Era de se esperar que ele andasse rindo para as paredes se fosse gozar toda vez que batesse o ponto.
Ele acenou timidamente, sem nunca deixar de exibir os dentes perfeitos, e eu pude reparar que as mãos eram bem delicadas, o que era óbvio, já que ele não era um bombeiro de verdade; embora o fato de ele carregar uma caixa de ferramentas e estar vestido com uma regata branca e uma calça cargo conferissem uma credibilidade impressionante ao papel — que, a essa altura, eu já nem sabia mais qual era. O figurino estava um pouco confuso, mas a verdade era que eu aceitaria aquele espetáculo de homem até se ele estivesse fantasiado de palhaço.
— Er, oi. Pode entrar. — pigarreei e ele me obedeceu. — Você é tipo o quê? Um bombeiro?
— Na maioria das vezes, sim, bombeiro hidráulico. — mais um sorriso. — Mas eu também posso ser eletricista, marceneiro, mecânico, o que precisar.
Ouvir a voz dele pela primeira vez já era o suficiente para fazer meu útero se contorcer, porém, como se não bastasse o timbre doce e sensual ao mesmo tempo, ele continuava segurando a caixa de ferramentas que parecia bem real e bem pesada, porque o esforço que ele usava para levá-la evidenciava todas as veias e músculos do braço nu.
Acho até que eu salivei um pouco.
— Você quer… beber alguma coisa?
— Não, obrigado, eu não quero incomodar, só fazer o que tem que ser feito e ir embora. — ele deu uma piscadinha adorável e descontraída. — Eu deixo tudo limpinho depois, tá?
Deixar tudo limpinho? O que ele queria dizer com isso? Será que ele ia fazer um número antes? De repente jogar um balde de água nele mesmo, tipo Flashdance? Eu particularmente preferia algo mais na pegada Magic Mike, mas não estava em condições de exigir nada, então só concordei com a cabeça e fui mostrando o caminho.
— Ok, é a primeira vez que eu faço isso. — confessei. — Eu pago você agora ou só no final?
— Ah, não se preocupe, a Harper já cuidou de tudo. Se houver algum valor extra vai ser pouca coisa, uma peça ou duas, é baratinho.
Peças? Ele ia usar, sei lá, brinquedos?
— Tá. — meu estômago já estava dando piruetas em antecipação quando meu cérebro cortou a onda ao me lembrar de um detalhe importante. — E você tem proteção, certo?
— Claro, eu sempre tenho. Segurança é tudo na minha profissão. Mesmo com a mangueira pronta, sempre há risco de incêndio.
Queria dizer “por favor, eu estou contando com isso”, mas eu já estava com um robe mínimo, a um lacinho imoral de cair. Não queria dar o atestado de desesperada, então o melhor que eu consegui esboçar foi uma reiteração evasiva:
— Sério? Um incêndio?
— Bom, começa com uma faísca, mas logo logo pega fogo, pode ter certeza.
Ah, obrigada por tudo, Harper!
— Então, por onde você quer começar? — perguntei, animada.
— Ahn… Pelo chuveiro? — ele soltou uma risada fofa e coçou a pontinha da orelha. — A não ser que tenha serviço em outros lugares da casa.
“Tem, mas vai com calma, bonitão. Eu estou meio enferrujada, ainda preciso pegar no tranco”, pensei.
— O chuveiro parece bom. — concordei e avançamos pelo corredor em direção ao banheiro do meu quarto.
Entramos no cômodo sem trocar nenhum tipo de contato físico, o que já estava me deixando apreensiva e impaciente, especialmente porque ele guardava uma distância quase segura de mim. Apesar de meio frustrante, gostei da ideia de ele esperar consentimento claro antes de fazer qualquer coisa (imagina se ele já chegasse dançando com o bilau pra fora?), porém, quando ele entrou no banheiro eu percebi que haveria uma esquete de cena, porque ele se agachou embaixo do chuveiro e começou a mexer na caixa de ferramentas.
Todos os utensílios eram reais, para a minha surpresa. Ele levava o roleplay a sério mesmo: além dos adereços, ele tinha aquele ar másculo de quem sabia bem o que estava fazendo, de quem era capaz de acender uma lareira ou trocar um pneu sem pesquisar no Google, coisa muito rara entre os homens, criaturas que, em geral, eram bem limitadas. Havia uma virilidade nos ombros largos e definidos, quebrada por sinaizinhos espalhados que lembravam uma constelação. Uma gracinha, robusto no corpo e esguio nas extremidades, tudo nele era afiado, desde os traços do rosto até o perfume sutil que impregnou o box, e a linha fina de uma corrente de prata perdida no peitoral imenso distraía tanto quanto encantava.
Ele era todo feito de uma agudeza hipnotizante.
E o conjunto da obra estava fazendo o vinho me subir à cabeça numa velocidade vertiginosa.
— Pode me mostrar onde é o problema? — ele pediu gentilmente, me encarando.
— Problema? — acordei do transe. — Ah, claro, entendi. Tenho que fazer o teatrinho, né? Hã… Senhor bombeiro, por favor, dê um jeito no meu encanamento interno…
— Ah, é isso? Isso é muito simples de resolver. Vai ficar novinho em folha, eu só preciso pegar aqui a…
Ele voltou-se novamente para as chaves de fenda e eu aproveitei a ocasião para rapidamente abrir e me livrar do robe.
— Uou! — ele derrubou um monte de parafusos e se pôs de pé num pulo quando me viu de lingerie. — O que é isso, moça?
— Tô facilitando pra você, baby. — embolei o tecido numa mão e atirei no rosto alheio.
— Facilitando o quê, exatamente? — ele apanhou o pedaço de seda como se estivesse se livrando de um bicho peçonhento, bancando o assustado. Bancando muito bem, por sinal. Era um excelente ator.
— Como o quê? Você não é o bombeiro gostoso? — desenhei a figura dele no ar.
— Sou. — ele sacudiu a cabeça. — Quer dizer, o que eu ser gostoso tem a ver com-
— Não está aqui para um servicinho?
— Estou, mas-
— Então não precisa bancar o tímido, gato. — avancei um passo, encurralando-o contra a parede.
Ele, por sua vez, fechou os olhos com força e quase se fundiu aos azulejos de tanto se encolher.
— Moça, moça, pelo amor de Deus! Eu só vim trocar a resistência.
Ok. Ele estava atordoado demais para estar fingindo, e estava cerrando os dentes e os punhos num claro sinal de tensão. Eu com certeza estava entendendo alguma coisa errada.
— Olha, você pode pular essa parte, essa conversa toda de caixa de ferramentas e de resistência é muito… — eu ia falar “chata”, mas, como de costume, minhas sinapses atropelaram umas às outras e chegaram a uma conclusão totalmente diferente. — …muito específica. Desculpa, você pode me esclarecer aqui? — me afastei, esquecida da minha nudez parcial. — O que exatamente você veio fazer na minha casa hoje?
— Consertar seu chuveiro. — ele abriu um dos olhos apenas para fechá-lo novamente. — Minha vizinha me pediu, ela disse que uma amiga estava com problemas com a água quente e precisava de um bombeiro.
Puxei o ar bem fundo, atordoada. Agora tinha uma vizinha na história? O enredo estava ficando complicado demais para mim, que me importava saber quem era a vizinha do-
Oh.
Meu.
Deus.
Harper.
O vizinho faz-tudo da Harper!

Tudo se encaixou violentamente e quase me derrubou no chão.
— Você é o vizinho? — perguntei, processando a informação.
— Sim. — ele arriscou abrir os olhos outra vez, e eles se encontraram com os meus brevemente.
— O vizinho da Harper? — repeti, ainda sem acreditar.
— Sim.
— O faz-tudo?
— Sim.
— A Harper que te mandou aqui…
— Sim.
— …pra consertar o meu chuveiro?
— Sim. — ele encerrou a sequência de emendar um sim no outro, cansado.
— Então você é um bombeiro? Um bombeiro de verdade?
— Eu já disse, eu sou de tudo um pouco, até bombeiro hidráulico. — ele baixou a vista, me medindo e percebendo que estava se dedicando um pouco demais à análise dos meus trajes. — Que outro tipo de bombeiro você achou que eu fosse?
As palavras dele foram seguidas do maior silêncio da minha vida. Logo depois, veio a febre ardente da mais pura vergonha e constrangimento. Esse tempo todo, desde o início, a Harper estava falando do vizinho! Ela certamente nem se lembrava da proposta indecente que surgiu ontem na mesa do bar, foi tudo mais uma épica façanha dos meus neurônios agitados e da amnésia pós-bebedeira, a receita perfeita para o desastre que se desenrolava ao vivo ali, na minha frente. O olhar atordoado do pobre rapaz fez o calor intenso irradiar pelo meu colo e pescoço, parecido com uma amostra grátis da menopausa ou do aquecimento global, e meu rosto esquentou de tal modo que eu achei que o alarme de incêndio ia acabar disparando.
Não ironicamente, o motivo seria um bombeiro.
— Bom, claramente houve um mal-entendido, tudo bem. — ele procurou se refazer, e procurou também o meu robe espalhado num canto do chão. — Eu deveria ter me apresentado direito. Lee Seokmin, aliás. — ele me devolveu a peça, evitando o contato visual. — O bombeiro hidráulico, faz-tudo, vizinho da Harper. — e enunciou cada palavra pausadamente, como se eu tivesse 5 anos de idade. — Você é a , certo?
Eu realmente cogitei negar e dizer um nome falso. Assim, eu não seria a louca tarada da história quando ele fosse contar o episódio na rodinha de amigos, pois, sim, ele com certeza iria contar pra todo mundo que ele conhecia. O riso preso nos lábios que eu achei tão desejáveis era o maior indicador de que ele estava se divertindo às custas do equívoco mortificante que eu havia causado. Foi ao notar isso que meus pensamentos comprometidos fervilharam feito os Divertida Mente perdendo o controle da sala de comando e eu disparei uma desculpa esfarrapada que, no momento de agonia, pareceu perfeitamente plausível.
— Olha, sobre o que acabou de acontecer, você não deve estar entendendo nada, né? — mexi no cabelo, trêmula. — Mas é que eu sou comissária de bordo, parte do meu trabalho é saber os costumes de diferentes países. — falei com uma convicção ridícula e vesti o robe em desespero, dando um nó por cima do outro. — Então, é isso, eu estava apenas praticando com você uma recepção tradicional lá de… De…
Meu cérebro ficou em branco, em parte pelo engano trágico e em parte pelo fato de Seokmin ter cruzado os braços na frente do corpo, colocando novamente os belos músculos em foco.
— De? — ele incentivou, e eu fiquei na dúvida se o sorriso que carimbou o rosto dele dessa vez era de educação ou de pena mesmo. — Não me leve a mal, eu estou curioso. Em que lugar do mundo é tradição receber as pessoas de calcinha e sutiã?
— Novosibirsk. — chutei. — Na Rússia.
Seokmin não pareceu nada convencido, mordendo a parte interna das bochechas para segurar a risada.
— Você acabou de inventar esse lugar, não foi?
— Não, ele existe mesmo, e é cheio dessas manias diferentonas. — balancei as pernas, agitada. E um pouco propensa a criar mais fake news sobre cultura internacional para sustentar a minha farsa. — As pessoas até se cumprimentam e se despedem com um beijo de língua, sabia? É o costume.
— Você vai me dar um beijo de língua quando for se despedir de mim, então?
Não, eu vou me trancar dentro da geladeira e sair de lá no próximo milênio, quando todos da face da Terra tiverem virado poeirinha cósmica e não restar mais nenhum resquício de vida humana capaz de me lembrar desse mico.
A expressão facial que ele fez junto com a pergunta foi totalmente indecifrável. Ele estava tirando uma com a minha cara ou fazendo um pedido sincero? Ele não parava de sorrir mesmo ou só estava me achando a maior piada que ele já viu? De qualquer forma, eu não queria ficar ali para descobrir a resposta.
— Eu… Eu vou deixar você trabalhar, ok?
Saí do banheiro e do quarto fugida, como se estivesse escapando de Alcatraz, sentei no sofá da sala e abafei um grito na minha almofada decorativa.
Parabéns, Dawson. Você acabou de tirar a roupa na frente do vizinho da Harper e praticamente implorou pra ele te comer. Simplesmente a gafe do século.
Feliz dia dos namorados pra mim!


(POV: )


An angel’s smile is what you sell
You promise me heaven then put me through hell
Chains of love got a hold on me
When passion is a prison you can’t break free


— Que tal esse? — puxei uma das cruzetas do armário da Diedra e com ela um vestido midi. — É preto, é chique, é profissional…
— É. — ela analisou a peça, coçando o nariz. — Mas também está guardado há tanto tempo que tá com cheiro de mofo.
— Eu posso lavar no fim de semana. Acho que vai servir.
— Mais um sábado de diversão para Dawson. — Harper pulou na cama. — O que você vai fazer depois? Dobrar roupas?
Era exatamente o que eu faria, seguido de organizar meus sapatos, separar as meia-calças velhas, comprar novas, passar as echarpes do uniforme a ferro e me enfiar de cabeça em qualquer tarefa que me distraísse da ocasião que me levou à casa da Diedra em busca do vestido perfeito: o jantar de condecoração do Miles dali a uma semana.
— Bom, vocês me conhecem. — tirei a peça do cabide e dobrei, guardando-a dentro de uma sacola. — Se me virem arrumando o armário, me deixem lá. Não é o armário que eu tô arrumando.
Ocupar as mãos era um bom jeito de tentar silenciar o resto. Quando algo me incomodava, quer fosse uma lembrança embaraçosa, uma conversa mal resolvida ou um nome que ainda doía, eu dobrava, lavava, organizava, até mesmo conversava com a Karen, só pra ter outra voz para ouvir que não fosse a minha. Minha mente era muito barulhenta, e por isso eu precisava acumular qualquer coisa para não acumular pensamentos. Não funcionava, pelo contrário, eu acabava com mais abas abertas no meu computador interno, porque meu cérebro hiperativo estava dependente de cortisol e se recusando a cumprir apenas suas funções básicas, como enviar respostas de sobrevivência e, sei lá, evitar que eu cedesse ao impulso de apertar todos os botões da cabine do piloto. Eu já era viciada em pensar, em repensar, em esmiuçar todos os aspectos da minha vida e constantemente recalcular e corrigir rotas. E Diedra e Harper sabiam disso melhor do que ninguém, aliás, tinham uma solução muito radical para a minha personalidade tumultuada:
— Eu já disse, você precisa transar.
— Depois do fiasco com o seu vizinho? — me joguei também na cama alheia. — Desculpa, eu vou virar freira.
A lembrança me causou um calafrio de vergonha recém-passada. Depois de reviver o episódio mentalmente umas 47 vezes ( Dawson fazendo o que faz de melhor!), eu decidi focar no único ponto certeiro da noite, que foi basicamente eu ter dito “tchau, obrigada” e ter batido a porta no nariz do Seokmin.
No nariz muito lindinho do Seokmin.
Três dias se foram desde o meu espetacular engano com o bombeiro, mas eu ainda sentia o peso do constrangimento me atingindo em ondas durante qualquer atividade que envolvesse água, banheiro, roupas íntimas ou interagir com outro ser humano. A pior parte de ter passado aquele perrengue era o fato de Seokmin ser um cara bonito, jovem e educado, por quem eu facilmente me interessaria em outros contextos.
A melhor parte era que, graças a Deus, eu nunca mais precisaria vê-lo na minha vida.
— Você tem que superar isso. — Diedra encontrou um espaço no próprio colchão, de bruços entre nós duas. — Se não, como vai ser na festa de aniversário da Harper amanhã?
— Harper! — levantei o tronco de uma vez e quase caí por conta da superlotação. — Você convidou ele? Eu não posso ver ele de novo, eu vou derreter feito um sorvete!
— Ah, não exagera. — Harper continuou deitada, indiferente ao meu drama. — O Seokmin é um cara legal, aposto que ele nem lembra mais do que aconteceu.
— Ei! Meus peitos são bem memoráveis, ok? E eu nem tava com o meu sutiã branco e broxante, eu tava com o de renda e bonito.
— O vermelho, né? Ele me contou.
Minhas amigas compartilharam uma risada cúmplice da minha desgraça.
— Me diz que ele é gay. — voltei a afundar no travesseiro. — Por favor.
— Se ele for gay, então as mulheres gostam muito de concordar com ele. É cada grito de “oh, sim, Seokmin!” que dá pra ouvir lá do nosso quarto.
Torci o nariz por pura hipocrisia. Com base no que eu tinha visto, quem em sã consciência não concordaria com aquele homem? Seokmin era uma mistura perigosa de jeitinho solto e galanteador com um sorriso de comercial de pasta de dente, uma combinação sedutora que fazia mulheres inteligentes ficarem burras. Molinhas. Suscetíveis. Malucas das ideias, como eu fiquei. Pra completar, ele tinha um perfume amadeirado que impregnava em lugares onde não deveria, como nos azulejos do meu banheiro, na minha lingerie para ocasiões especiais e na minha cabeça. Era um aroma sorrateiro, do tipo que deixava uma marca inesquecível sem imposição, que inebriava os sentidos com uma sutileza quase letal.
Prova disso era que eu ainda estava pensando nele.
Mas eu estava me esforçando para não pensar.
— Ótimo, eu fui rejeitada por um cafajeste. — suspirei. — Agora, será que eu fico ofendida ou me sinto especial?
— Também não precisa ser tão taxativa, , ele é só um homem bonito que tem seus casinhos pontuais. — Harper saiu em defesa do vizinho. — O problema é que as nossas casas são muito próximas e aí eu sei quando acontece…
— Então nós acertamos o cara, só erramos o plano. — Diedra concluiu. — , você precisa ficar com ele. A festa da Harp é um ótimo pretexto, vai ter banda ao vivo, piscina, um monte de oportunidades pra você esbarrar nele sem querer…
— Ele me viu de calcinha e sutiã e não se interessou, não acho que me ver de biquíni vai mudar alguma coisa. — cruzei os braços. — Até porque um biquíni é uma calcinha e um sutiã socialmente aceitos.
— Depende do biquíni…
— Vocês são minhas amigas ou minhas cafetinas, hein? — joguei uma almofada que não acertou ninguém.
— Daqui do grupo, você é a que mais tem potencial pra um OnlyFans…
— Se você fizer um, me dá uma parte dos lucros? — Diedra pediu.
— Até parece que você precisa. Com os voos particulares que você anda fazendo pra aquele rapper bonitão, tá ganhando uma nota. — dei um tapinha na bunda dela. — Como é mesmo o nome dele?
— SCoups! — Harper respondeu. — A Diedra é do fã-clube!
— Cala a boca! É mentira!
— Então por que você tem uma carteirinha escrito Couprang Oficial? Eu vi na sua bolsa!
Diedra rosnou, como de costume quando era contrariada, mas não demorou muito a se deixar vencer. A graça toda era que o temperamento ácido dela não combinava com o perfil de fangirl, que dava beijinhos nas fotos e guardava as toalhas quentes que o ídolo usava em seu jatinho fretado, porém, no final do dia, ela não passava de uma fã apaixonada e isso era hilariamente fofo.
— Tá, eu admito, eu acho ele o máximo. Mas só porque quando ele sobe no palco, parece que vai matar alguém. — ela puxou o ar bem fundo, abobalhada. — Ele tem aquela energia alfa de quem resolve tudo com uma arqueada de sobrancelha, sabe? Aí quando me chama pra pedir serviço de bordo, ele fala tudo com um bico enorme e bonitinho. Eu gosto que ele seja secretamente fofo.
— Pelo jeito, é recíproco, já que ele quis você em todos os voos da tour dele.
— É, mas eu sou perfeitamente profissional. — Diedra ponderou. — Eu acho. E quando foi que eu virei o assunto?
— Quando você escreveu seu nome e o do SCoups com vários corações ao redor no seu caderninho. — Harper zombou.
— Engraçadinha. Vou me empenhar bastante no seu presente amanhã…
Foi minha vez de suspirar, mas por um motivo totalmente diferente. Harper era bastante supersticiosa quanto ao seu aniversário e nunca o comemorava fora da data — não importava o quão ocupadas estivéssemos. Claro, eu queria estar com minha amiga para celebrar a vida dela no dia e da forma como ela escolheu, no entanto, em plena quarta-feira, quando eu estaria chegando de um voo super longo para o Havaí, eu também queria dormir por onze horas seguidas. Além disso, a possibilidade de encontrar Seokmin me gerava um sentimento dúbio: parte de mim queria evitá-lo a qualquer custo, e a outra parte, pequenininha, insistente, queria esbarrar nele sem querer como Diedra sugeriu.
E só imaginar algum tipo de contato acelerava o meu pulso.
, você vem, né? — Harper me fez aterrissar.
— Direto do trabalho, mas vou. Vai ter Bon Jovi no setlist? — foi minha única exigência.
— Ok, eu esqueci de avisar que a festa vai ser nessa década, então não. Nada das suas músicas bregas.
— Bregas não, clássicas. — rebati, ultrajada.
— É uma pool party, os únicos clássicos que você vai ter são Miley Cyrus e Dua Lipa.
— Qual é! Todo mundo ama Jon Bon Jovi! É impossível ficar parado!
— Mais um motivo pra não incluir o roqueiro beijoqueiro na lista! Ninguém é obrigado a ver você tentando dançar.
— Di… — busquei defesa.
— Eu tô com a Harper. Você dançando vai espantar todos os convidados.
Fiz uma careta em resposta. Era verdade que dançar não era meu forte, e justamente por isso eu evitava fazer isso em público, guardando apenas para rituais específicos como a faxina da casa ou a hora do banho, por exemplo. Mas algo acontecia dentro de mim quando ouvia uma guitarra distorcida e uma voz melódica cantando uma balada de metal, algo que me induzia a solar instrumentos imaginários e a balançar meu corpo no que, palavras de Diedra, mais parecia um ataque epilético. Era bem provável que eu não conseguisse segurar o choro (e a coreografia) se a banda cantasse Always, mas, naquele momento, eu precisava provar meu ponto.
Todo mundo ama Jon Bon Jovi!
— Eu só tenho mais uma coisa a dizer…
— Lá vem. — Diedra bufou quando eu levantei e fiz uma pose simulando um microfone.
I’m a cowboy, on a steel horse I ride, I’m wanted… — parei por um segundo, incentivando as duas a me acompanhar.
Wanteeeeeeed!
— Dead or alive!


✈️

O quintal da Harper parecia ter saído direto de um painel do Pinterest: a piscina brilhava sob o sol das três da tarde, adornada com bóias em formato de flamingo, donuts e até uma taça gigante de espumante. Alguns convidados curtiam embaixo de um varal de luzes amarelas que cruzava o céu de um lado ao outro, ainda apagadas, mas prometendo um charme extra assim que o sol começasse a se despedir. Balões em tons quentes balançavam com a brisa, e um minibar caprichado exibia garrafas cintilantes, frutas frescas e muito gelo, cortesia da aniversariante. A única que parecia ignorar a vibe relaxada da festa era Diedra, posicionada feito guarda-costas ao lado da mesa do bolo.
Sem bolo. Porque o bolo era responsabilidade minha.
E pra variar, eu estava terrivelmente atrasada.
— Cheguei! — anunciei, tentando ajeitar a alça caída do vestido sem usar as mãos.
— Mais importante ainda, o bolo chegou. E inteiro. Um milagre. — Diedra respondeu sem tirar os olhos da confeitaria ameaçada.
— Nossa. — coloquei a caixa na mesa. — Você podia pelo menos fingir que confia em mim.
— Eu confio em você para evacuar uma aeronave em caso de emergência, mas carregar alguma coisa sem derrubar? — Diedra abriu as laterais da caixa e verificou o bolo com seu rigor militar antes de posicioná-lo no prato decorativo. — Não achei que você fosse conseguir.
— Então engula suas palavras com esse naked recheado com camadas de morango em perfeito estado. — dei o toque final com a vela no topo. — Tcharam!
Diedra analisou o cenário mais uma vez e concluiu que estava tudo bem — não perfeito, como a virginiana detalhista nela gostaria, mas bem. A banda começou a tocar Let’s Get It Started do Black Eyed Peas e Phill, o noivo da Harper, foi o primeiro a me ver e a acenar para mim, cutucando a amada logo em seguida. Ela, por sua vez, nem parecia se lembrar do bolo, porque já tinha feito as honras de abrir o minibar com uma rodada de mimosas e apressou-se em pegar duas taças e trazê-las até nós.
, você chegou! E o bolo está inteiro! — Harper nos entregou os coquetéis.
— Eu deveria ter enfiado o dedo na cobertura como eu queria. — aceitei a bebida e novamente pus a alça escorregadia no lugar. — Vocês não imaginam a luta interna.
— Não sei se eu devo começar a beber. — Diedra examinou o copo. — Alguém tem que ficar de olho naquela sua tia, Harper. Ela já “errou” o caminho do banheiro umas seis vezes, mas essa velha safada não me engana, está louca para afanar uns macarons da decoração. — ela precisou de um gole. — E eu não vou nem falar sobre o Phill e os três docinhos que ele engoliu de uma vez quando eu peguei ele no flagra.
— Relaxa, policial do açúcar. — Harper provou um dos chocolates da própria mesa na frente da Diedra, desafiando a vigilância e a paciência dela. — Você não tem aqueles aparelhinhos de choque aí com você, né?
— O nome é taser, e mesmo que eu tivesse um, eu não usaria em você. — ela rearrumou os doces para tapar o buraco do chocolate roubado. — Não no seu dia…
— Exatamente! É meu dia! Eu quero todo mundo se divertindo! — ela ergueu a taça e propôs um brinde.
Levantei o braço e a vista junto, captando uma visão panorâmica da festa enquanto nossos copos tilintavam, sem focar em absolutamente nada. Eu tinha vindo direto do trabalho, tinha ganhado a prévia de uma parada cardíaca quando a moça da confeitaria disse que não estava achando a encomenda da Harper e o taxista quase tinha colocado o bolo a perder quando freou em cima de um cachorro. Felizmente, nada aconteceu com o cachorro. Ou com o bolo. Ou comigo. Contrariando todas as expectativas, apesar de exausta, eu estava impecável no meu vestidinho de verão (e de alças frouxas) aberto nas costas. Nada mais poderia me abalar naquele dia.
Pelo menos era o que eu achava até ouvir Phill gritar do outro lado do quintal:
— Seok! — os dois se cumprimentaram com o típico aperto de mão dos caras héteros, cujo barulho deu pra ouvir de onde estávamos. — O Seokmin chegou, galera! Agora a festa vai começar!
Houve uma pequena comoção com a chegada do vizinho e eu, a princípio, não entendi o alvoroço. Seokmin estava trazendo um embrulho bonito que prometia ser um presente dos bons? Sim. O sorriso incansável chegou primeiro que ele e a sua presença vibrante iluminou o lugar? Sim. A mimosa quase escapou das minhas mãos e meu ventre formigou quando a risada dele atravessou a piscina, a distância, as pessoas e derramou feito mel nos meus ouvidos? Sim. Mas isso significava que o simples fato de ele estar ali havia melhorado a minha tarde?
Sim. Definitivamente, sim.
As horas de cansaço acumulado sumiram quando fixei os olhos na camisa de linho entreaberta, que marcava o torso definido e exibia pele o suficiente para fazer cócegas na imaginação e dar um susto nas minhas pernas. Havia muitas camisas de linho leve ali, o clima não permitia outra escolha, acontece que Lee Seokmin era o único homem daquela festa que conseguia sustentar essa combinação com uma bermuda preta sem perder o charme, sem parecer óbvio, sem ser… mais do mesmo.
Talvez porque todos os clichês do mundo funcionavam nele.
A aura que ele trouxe consigo contagiou o quintal, espalhando-se como uma onda de calor. Ele tinha a risada mais gostosa do mundo, musicada, crescente, quase com ação medicinal intravenosa, especialmente quando ele bateu palmas para acompanhar a gargalhada provocada por alguma coisa que Phill disse. Eu tive vontade de rir junto (apesar de conhecer o Phill e saber que as piadas dele não eram tão engraçadas assim) porque existia alguma mágica naquele som que conseguia destravar inibições e liberar hormônios de felicidade. Ao que tudo indicava, Seokmin era mais estimulante que o bolo de três camadas de recheio da Harper.
Mas como tudo que é doce, poderia causar dependência e um dano irreversível no meu psicológico. Estava na cara que um beijo dele implicaria seis meses de terapia intensiva.
— Parece que o arroz de festa do seu vizinho chegou, Harper. — avisei, embora não fosse preciso. — E olha lá a sua tia ladra de doces atacando novamente. A Di tem razão, alguém tem que fazer alguma coisa.
— Na-na-não. — Harper me segurou pelo braço quando ensaiei sair. — Você vem comigo falar com ele. Quanto mais você fugir, mais estranho vai ficar.
— Não se eu fugir pra sempre. — tentei resistir, mas Harper já estava me puxando e me fazendo andar junto com ela. — Já fiz o percurso para o Havaí várias vezes, é só me dar um avião no piloto automático que eu consigo.
— Você pretende voar 11 horas até uma ilha só pra não ter que encontrar o Seokmin?
— Sim. A propósito, eu não vou poder ir no seu casamento. — minha alça caiu outra vez. — Vou me mudar para uma praia paradisíaca.
— Se a praia for de nudismo e você levar ele junto, eu juro que nem vou me importar. — Harper segurou meu rosto. — Você precisa de um pouquinho de Seok na sua vida, . Abra o seu coração.
— Eu preferia abrir só as pernas-
— Oi! — Seokmin nos encontrou no meio do caminho. — Harper, feliz aniversário! — ele entregou o presente e a abraçou amigavelmente, pensando se deveria fazer o mesmo comigo.
— Deixa eu adivinhar… — Harper testou o peso do objeto. — Foi você que fez?
— É. Tô com hiperfoco em vasos de cerâmica ultimamente. Eu moldei e pintei esse, você pode usar pra colocar uma suculenta... — ele respondeu à pergunta dela, mas os olhos estavam em mim. — Ou uma planta trepadeira. Aquelas que gostam de agarrar, sabe?
Ótimo. Uma clara referência ao nosso encontro desastroso e agora lá estava eu, engasgando com o suco de laranja do drink.
— Você lembra da , certo? — a aniversariante me cutucou.
— Claro. — Seokmin foi separando os lábios num movimento lento, anunciando mais um sorriso matador. — A moça que pratica costumes exóticos de outros países.
— Tradicionais. — corrigi e estendi a mão.
— Oh. — ele aceitou o gesto e arrematou com uma piscadinha. — Não estamos em Novosibirsk hoje?
A mão de veludo segurava a minha sem pressa alguma e me fez pensar em como alguém que tinha um trabalho tão bruto conseguia ter a pele tão macia. Deveria ser um dos benefícios da cerâmica (ou alguma loção super hidratante), mas a rotina de skincare dele não era o que eu queria saber no momento. O que eu queria saber era que horas ele planejava me soltar, porque depois daquele primeiro toque, proposital, demorado e gostoso, eu estava certa de que eu não soltaria.
— Olha só pra vocês, de mãos dadas e cheios de piadinhas internas. — Harper comemorou e ele cessou o contato com educação. — Vocês me dão licença? Esse vaso aqui tá meio pesado e eu sou a estrela desse evento, tenho dezenas de pessoas para receber. Vejo vocês por aí. E é melhor estarem bêbados!
Harper tomou seu rumo, não sem antes simular uma posição sexual quando Seokmin ficou de costas para ela… e que costas! A distância de um ombro ao outro era tanta que dava para morar ali tranquilamente por uns bons anos, sobrevivendo apenas do roçar da correntinha prateada e da nuca exposta pelo corte de cabelo recém-feito, perfeitamente traçado — ao contrário da alça do meu vestido, que insistia em cair como se tivesse vontade própria e péssima noção de timing.
— Opa. É melhor isso ficar aqui. — ele arrumou com naturalidade, resvalando pelo meu braço.
— Obrigada. — contive um arrepio. — E não se preocupe, eu não pretendo tirar a roupa hoje.
— Por que não?
Juntei as sobrancelhas e ele rapidamente apontou para a piscina.
— A água parece ótima e você tá com um belo biquíni por baixo. — ele explicou antes que outro mal-entendido se formasse. — O dia pede um mergulho.
— Talvez mais tarde, quando o Phill não estiver atirando os convidados à força.
Seokmin virou-se para conferir a algazarra e disse qualquer coisa que eu estava distraída demais para entender, algo bem humorado, enviesado nos lábios sorridentes e no modo como o sol acentuava cada detalhe do seu rosto, inclusive os sinaizinhos de galã de novela. Na piscina, Phill era o responsável por uma confusão digna de programa de auditório, puxando os amigos pela mão (ou pelo pé) e arremessando os sorteados direto na água. Mesmo vestidos, eles pulavam, gritavam e carregavam uns aos outros, os mais desavisados eram empurrados e os mais exibidos tentavam fazer saltos ornamentais. Um deles foi jogado com tanta maestria na bóia de flamingo que caiu certinho no buraco da ave de borracha, e a façanha, é claro, arrancou aplausos da plateia masculina e ensopada.
Criaturas extremamente simples…
— Pelo menos estão hidratados. — murmurei, observando a cena.
— E alegres. — ele acrescentou, me olhando com uma expressão leve. — Ordens da aniversariante: todo mundo se divertindo. — A Harper é mesmo uma mandona. Não quero nem ver na semana do casamento…
— Ela fala muito de você, . — algo mudou dentro de mim ao ouvir meu nome da boca dele. — Vocês se conhecem há muito tempo?
— Desde que a gente quase se atropelou com o carrinho do serviço de bordo. — lembrei. — Mas aposto que essa parte ela não disse.
— Ela só fala as coisas boas. — ele começou uma risada tímida e enfiou as mãos nos bolsos.
— Que tipo de coisa?
— Você sabe, que você é uma mulher inteligente, dedicada, uma boa amiga… — Seokmin fez uma breve pausa, me medindo. — E além de tudo, muito bonita.
— Aquela Harper ali? — apontei minha amiga. — Disse que eu sou bonita?
Essa parte sou eu quem está dizendo.
Bati os cílios e meu sistema nervoso deu tela azul. O elogio repentino me deixou com 12 anos de novo, radiante como no glorioso recreio em que eu consegui sentar perto do garoto que eu gostava e dividir meu bolinho com ele. Infelizmente, eu não pude fazer muito mais do que isso porque todas as palavras evaporaram do meu vocabulário.
Um pouco parecido com o que estava acontecendo agora. Algum assunto precisava aparecer para quebrar o gelo.
— E como vai o seu chuveiro?
Qualquer assunto menos esse…
— Ficou ótimo, valeu. — formulei a frase básica com alguma dificuldade. — Nada melhor que um banho quentinho depois de um dia de trabalho, né?
Seokmin fez uma cara que disse “tem muitas coisas bem melhores que um banho quentinho depois de um dia de trabalho”, e eu me empenhei ao máximo para não pensar em nenhuma delas. Era muito tentador flertar com essa fantasia, ainda mais quando ele parecia ser o tipo de namorado que faria uma massagem nos meus pés, beijaria o meu pescoço e reiniciaria meu corpo inteiro com uma noite de amor que quebraria a minha cama.
Até porque, se quebrasse, ele saberia como consertar e isso era 70% do tesão de um homem.
— Fico feliz de ter ajudado. Se você precisar de mim de novo, é só me chamar.
— Bom, a torneira da minha área de serviço é bem temperamental, apita feito uma chaleira. Ela faz o maior escândalo, promete um aguaceiro, mas na hora h não sai nada. — despejei de uma vez.
— É só me chamar, . — ele repetiu e um lampejo me atravessou. — Eu vou correndo.
— Não vai correr pra lugar nenhum, Seok!
O aviso veio do Phill encharcado que abraçou o amigo por trás, deixando a marca dos braços no peito dele e me dando uma prévia da transparência que viria a seguir. Outro membro da gangue vasculhou pela bermuda da vítima, tirando do bolso lateral o celular e a carteira, e Seokmin aceitou sua sentença sem demonstrar resistência, mas também sem deixar de fazer uma piadinha.
— Rápido, comissária! — ele gritou, sendo levantado no ar. — O que fazer em caso de pouso forçado na água?
— Assentos flutuantes e coletes salva-vidas. — rebati enquanto a galera o levava. — Lembre-se de colocar primeiro em você antes de ajudar os outros!
A resposta dele foi encoberta pelo barulho do mergulho não intencional e pelos berros de vitória quando o corpo robusto caiu na piscina e espirrou água para todos os lados. Seokmin emergiu sorrindo, como sempre, balançando os cabelos e uivando de volta para a alcateia (ou seja lá como o bando de machos não adestrados se chamava), com a camisa toda grudada no peito e no abdômen. Normalmente, eu reviraria os olhos para aquela conduta infantil, até daria um sermão sobre acidentes perto de superfícies úmidas, mas em vez disso, a visão reveladora dele deixou outras áreas úmidas e meu útero começou a gritar: “deixa ele colocar um bebê na gente, deixa ele colocar um bebê na gente!”
No entanto, o anticoncepcional natural veio alguns minutos depois, quando ele reapareceu com um par de óculos escuros gigantes e todas as bóias de flamingo, donut e unicórnio enfiadas no corpo como se estivesse pronto para um desfile de moda aquática. Tinha uma no pescoço, duas na cintura, uma no braço e até uma minúscula presa no tornozelo. Dizia que estava “testando os equipamentos de segurança da festa”, fazia piadas internas com Phill sobre “missões de resgate marinho” e encenava esquetes em que ninguém podia nadar sem a autorização do “corpo de bombeiros”.
Bombeiros. Uma palavra gatilho pra mim.
Mas todo o embaraço da minha gafe ficou para trás ao ver Seokmin se prestar, voluntariamente, ao papel de bobo da corte. Ele circulava pelo quintal como um menino grande e livre, com energia de sobra e zero vergonha. Jogava água nos amigos com uma pistola de brinquedo, dava “aulas de hidroginástica” ao som de Britney Spears, fazia flexões fingidas na borda da piscina e seguia incansável na sua tarefa de coletar todos os espaguetes para construir um cavalinho; coisa que acabou com ele sendo derrotado pela água e derrubado em posições constrangedoras várias vezes.
Seokmin era um vírus da alegria. Era difícil não sorrir perto dele. Difícil demais.
— Uma coisa é certa, ele não tem medo de ser ridículo. — Diedra enfim saiu do seu posto e surgiu ao meu lado. — E ele é um gato.
— Tanto que a gente quase esquece que ele tem um palhaço enfiado na bunda. — disse, vendo ele usar uma touca florida e um bocal de mergulhador. Enquanto imitava uma foca. — Olha isso.
— Eu sei. Finalmente alguém que dança pior que você!
— Ha-ha.
— Anda, a Harper quer fazer umas fotos com os convidados que ainda estão enxutos.
Deixei a turma do Baby Shark e acompanhei Diedra antes que Seokmin cumprisse a promessa de abrir uma long neck usando as nádegas. Por mais que eu imaginasse que ele tinha belos glúteos, eu preferia vê-los em outro contexto. Além disso, nem mesmo um truque idiota bastaria para quebrar meu encanto sobre ele. Assistir à pataquada que ele estava orquestrando me fez relaxar e isso era algo inédito: ele tinha mesmo um efeito revigorante. Lee Seokmin era como tomar um suco doce e gelado e colocar os pés para cima num fim de tarde.
O fim de tarde, a propósito, chegou bem rápido para todos ali. Num piscar de olhos, entre as fotos que Harper queria e as rodadas de mimosas intercaladas com fatias de pizza, a hora de partir o bolo veio, acendendo as luzes de quermesse e deixando o ambiente ainda mais lindo. Na hora de soprar as velas, Seokmin, já sem camisa, fez jus à sua fama e foi o mestre de cerimônias do mais longo Parabéns pra Você da história dos parabéns, rodopiando a blusa de linho acima da cabeça e rebolando no ritmo da música. Nem mesmo a banda conseguiu resistir ao nível de empolgação dele e emendou Please Don’t Stop The Music logo na sequência, levando os corpos molhados e embriagados para a pista de dança.
Menos o meu, que em vez disso, escorei no balcão do minibar e me sentei numa das banquetas para lamentar as músicas que me prometeram e não tinham tocado ainda. A camisa de Seokmin agora estava estendida e esquecida no banco ao meu lado, numa tentativa de deixar a pobre coitada secar ou desamassar milagrosamente, e eu tive dois impulsos incontroláveis: o primeiro, de passar todos aqueles abarrotados com um ferro a vapor, e o segundo, muito mais grave, de cheirar o tecido.
Para a minha sorte, o vexame foi evitado por um lapso de autocontrole e pelo dono da camisa aparecendo no meu campo de visão, chamando o vocalista da banda no cantinho e cochichando algo no ouvido dele. Qualquer que fosse o pedido, seria impossível de negar porque o sorriso derretedor veio embutido, gratuito e irrecusável feito um brinde, fazendo todas as vontades do mundo se curvarem àquele gesto que, para ele, era simples como respirar.
Ou a mãe dele passou a gravidez inteira rindo para as paredes ou ele tinha feito um curso profissionalizante de sorrisos. Não havia outra explicação.
— Oi.
Era o senhor dentes alvíssimos em pessoa. O susto foi tão grande que minha mão deu um solavanco traiçoeiro, fazendo a mimosa esbarrar e derramar na minha coxa.
— Ah, ótimo! — ofeguei, tentando absorver o líquido com a barra da saia.
Seokmin se aproximou um passo, exibindo o peito cheio de gotinhas e aquela cara gentil que só piorava tudo, porque agora eu tinha que lidar com a mancha de suco, o meu nervosismo e a preocupação real de que ele, molhado daquele jeito, pegasse uma pneumonia.
— Desculpa, não queria te assustar. — ele viu a bagunça e me estendeu um guardanapo. — Mas no que você tava pensando com tanta força, hein?
“Em coisas que não podem ser ditas em voz alta…”
— Trabalho. — respondi no lugar.
— Então pode parar, isso é uma festa. — ele ajeitou minha alça como se aquilo fizesse parte da vida dele. — Dança uma comigo?
Uma vez mais, o sorriso brilhante passou por mim tal qual uma estrela cadente rasgando o céu.
— Ah, é que eu não sou muito boa nisso, sabe? Sou bem desengonçada.
“E você com esse peito todo de fora tá me fazendo esquecer até como andar”, minha cabeça seguia falando.
— Acho que já sei qual o problema aqui. — Seokmin torceu os lábios. — Você só vai dançar comigo se eu me vestir de bombeiro sensual, né?
— A gente pode esquecer que isso aconteceu? — fechei os olhos. — Tipo, pra sempre?
— Não sei se consigo esquecer nada que tenha a ver com você, .
Tremi em partes que eu nem sabia que tremiam.
— Uau. — endireitei a postura. — Eu deveria achar isso legal ou ficar assustada?
— Você deveria parar de pensar e vir dançar comigo. — ele olhou a banda de relance e eu reconheci a introdução da música que começou. — Meu pedido pra você chegou.
O vocalista tocou o primeiro acorde na guitarra e a nota reverberou por mim, produzindo uma sensação de alteração de química cerebral que só a música favorita de uma pessoa conseguia causar. A letra parecia estar me lendo:

Should I? Could I?
Have said the wrong things right a thousand times

— Sério? Misunderstood? — quase pulei do banco. — Como sabia que eu gostava?
— Tá brincando? — ele arregalou os olhos. — Todo mundo gosta de Bon Jovi, é impossível ficar parado!
— Ei! Essa fala é minha!
— Eu não tô te ouvindo! — ele brincou e se afastou do balcão, me estendendo a mão livre e indicando a orelha com a outra. — A música tá muito alta, o espírito do rock tá tomando conta de mim! — e se sacudiu inteiro, fingindo um choque elétrico.
Eu odiei admitir, mas me arrancou uma gargalhada sincera.
— Olha, eu adoraria, mas…
— Você tá doida pra dançar. — ele notou meus dedos batucando pelas minhas coxas. — Vem.

If I could just rewind, I see it in my mind
If I could turn back time, you'd still be mine

Fiquei sem desculpas e Seokmin me puxou para a pista, apoiando a mão na base das minhas costas e colando meu tronco ao dele quando chegamos. Meu corpo inteiro se reprogramou para as configurações de fábrica, ou de uma passageira em pânico correndo pelo corredor de uma aeronave. O cloro da piscina se misturou ao cheiro dele, mas o perfume do qual eu me lembrava tão bem venceu, resistindo na curva do pescoço e atrás da nuca, escondido na pele morna e suave.
Eu estava oficialmente em turbulência.

As the words slipped off my tongue, they sounded dumb
If this old heart could talk, it'd say you're the one

Seokmin tentou me balançar timidamente, acompanhando a baladinha pop que ele escolheu para dançar comigo, detalhe que mudava tudo. Misunderstood era a pedida perfeita, falava sobre alguém que estava se sentindo injustiçado, algo do tipo: pisei na bola, fiz besteira, mas ainda acho que mereço perdão porque tive um bom motivo, ou pelo menos uma ótima desculpa. Era praticamente a trilha sonora dos arrependidos com carisma, feita de tudo que eu amava: guitarrinha esperta, refrão grudento, aquele tom de “eu sei que fui babaca, mas olha como eu canto bonito!”... Não era uma simples música, era uma confissão envolvida em couro e atitude.
Por que então eu não conseguia me mover?
— Parece que você tá calculando uma equação. — ele leu minha mente.
— Eu tô. As variáveis são o seu pé e eu pisando nele.
— Só dança, . — ele ordenou baixinho. Eu quebrava toda vez que ele mencionava meu nome. — Eu conduzo.

I'm wasting time
When I think about it

Cedi. Era bom ter alguém no controle, pra variar.
Nossos dedos se entrelaçaram e uma espécie de dois-pra-lá-e-dois-pra-cá começou aos poucos, conforme ele tentava me desinibir. Seokmin brincou com o meu cabelo, me rodopiou e me incentivou como pôde a simplesmente dançar sem usar nenhum neurônio sequer. O mesmo cara que passou a tarde toda bancando o Bob Esponja agora tinha os braços em volta dos meus quadris e da minha cintura, além do alcance vocal mais limpo e afinado que o próprio músico da banda, me embalando com a voz e com o corpo. O refrão logo chegou, e ele era irresistível.
Mas Seokmin era muito mais.
I should have drove all night, would have run all the lights, I was misunderstood… — ele cantou.
— Ah, aaaaaa! — fiz a segunda voz.
I stumbled like my words, did the best I could…
— Damn!
— cantamos juntos.
— Agora sim! — o rosto dele se iluminou e a cara inteira se converteu na sua marca registrada.
— Na boa, você nasceu sorrindo? — perguntei, sem parar nosso balanceio. — Quando o médico te tirou de lá e deu umas palmadas no seu bumbum, sabe? Você chorou como uma pessoa normal ou deu uma piscadinha pra ele?
Ele riu. Era meio satisfatório fazer o próprio vírus da alegria se divertir.

It's you and I
Just think about it…

— Não me leve a mal. — insisti. — É que o seu sorriso parece tão…
— Bonito?
— Fácil.
— Auch. — Seokmin fez um biquinho. — Pra você é difícil sorrir?
— Ficou um pouco forçado por causa do trabalho.
— Ok, eu vou te dar um shot pra cada vez que você pensar em trabalho. — ele me girou.
— Como você vai saber no que eu estou pensando? — cerrei os olhos.
— É meu superpoder. — ele entregou outra piscadinha galante. — Mas eu só uso para o bem.
— Tá tentando me embebedar pra dançar com você? — me permiti pôr as mãos sobre o peitoral dele. — Por que eu já tô bem aqui, sem pensar em nadinha, eu juro.
O semblante dele mudou por um instante. Continuava leve (e lindíssima), mas assumiu um quê de seriedade, como se ele quisesse deixar claro que o que vinha a seguir não era só mais uma das suas gracinhas.
— Eu gostei de ter você só pra mim, Dawson.

Misunderstood, intentions good…



(POV: Seokmin)


You put a sour little flavor in my mouth now
You move in circles hoping no one's gonna find out
But we're so lucky, kiss the ring and let them bow down
Looking for the time of your life

— Calma, Seokmin. — falei para mim mesmo em meio ao caos da minha sala. — Aposto que o Michelangelo também fez uma bagunça antes de pintar a Capela Sistina.
Longe de mim me comparar ao Michelangelo. Quer dizer, dividíamos a mesma data de aniversário, e só. Minha inclinação para atividades manuais como a pintura não chegava a assumir o status de uma obra de arte. Chegava?
— Ah, quem eu quero enganar? — respondi minha própria indagação, admirando a parede perfeitamente branca, sem uma ruga sequer na lixa e no boleado. — Isso ficou muito bom. Olha esse acabamento!
Passei a palma da mão sobre o arco decorativo recém-finalizado, uma sanca suave com detalhes discretos, curvada quase com a perfeição de uma mulher (a coisa mais bonita que existia no mundo). Nenhuma rebarba, nenhuma mancha de massa mal espalhada, apenas o contorno limpo e contínuo que eu tinha imaginado quando comprei o gesso na semana passada. No cenário ao redor, porém, a desordem reinava: espátulas com crostas secas encostadas num balde meio endurecido de massa corrida, um pedaço de canaleta abandonado num saco plástico e um pacote de cal esquecido no sofá. A proteção de papel-jornal sob meus pés estava manchada de respingos brancos, e mesmo assim, de alguma forma, eu também consegui pintar a lateral do meu cotovelo.
Fazia parte, eu sempre disse. Aprender não vinha dos manuais nem dos tutoriais com apresentadores engravatados, pelo menos não pra mim. Nunca fui fã de instruções longas ou teorias detalhadas. Meu negócio era meter a mão, testar, errar, quebrar, refazer, colar de novo. Se envolvesse transformar alguma coisa ou me sujar, eu estava dentro — o que era ótimo agora que eu era um adulto e vivia disso. Já quando eu era mais novo, essa coisa de “fazer em vez de ler” rendeu muita dor de cabeça aos meus pais (o nosso aspirador de pó não tinha sossego, eu vivia desmontando as peças para entender o sistema elétrico da poeirinha sendo sugada) e também vários chamados na diretoria, porque eu matava as aulas de Literatura para me enfiar na oficina de carpintaria e mecânica perto da escola.
É verdade, eu nunca aprendi a fazer metáforas. Mas adivinha pra quem o Sr. e a Sra. Lee ligam quando quebra alguma coisa na casa?
A imagem dos meus pais me fez sorrir e lembrar de separar as ferramentas para levar no almoço de domingo. Meu pai com certeza teria alguma reclamação sobre um chiado estranho no radiador do carro, ou sobre como a churrasqueira não estava esquentando direito. Minha mãe, por sua vez, faria o velho interrogatório, cada vez mais frequente e em tom de ameaça: “por que você só vem sozinho? Quando você vai trazer uma garota para nos conhecer? Eu sei que as taxas de natalidade estão baixas na Coreia, mas aqui, eu quero ter netinhos”.
Eu sabia consertar motores e cortar lenha para acender um fogareiro, mas eu não sabia responder àquilo. Relacionamento sério sempre pareceu um campo minado com placas escritas em código e eu era um cara prático, gostava de orientações claras, pregos visíveis, soluções diretas. Infelizmente, ninguém entregava um manual de “como saber o que ela quis dizer com aquele emoji?”, “por que ela disse que estava tudo bem, mas na verdade queria que eu adivinhasse o contrário?” ou “são os hormônios da TPM ou ela recebeu algum espírito obsessor?”.
Talvez por isso eu nunca tivesse ido muito longe com ninguém. Eu sabia ser legal, divertido, até cuidadoso, o tipo de cara que lembrava do sabor de sorvete favorito e passava na farmácia no meio da madrugada se precisasse. Mas quando a coisa começava a exigir leitura nas entrelinhas ou joguinhos emocionais, eu ficava igual a uma chave inglesa tamanho 6 tentando girar um parafuso de tamanho 10: fazendo força no lugar errado. Assim, quando minha mãe fechava o cerco na cobrança, eu me limitava a mudar o rumo da conversa e falar sobre futebol e a campanha do Inter Miami, apesar de ainda ficar secretamente pensando no assunto. O problema era que, quando o dito assunto não envolvia um alicate ou Lionel Messi, meu cérebro levava mais tempo para pegar no tranco.
Eu não me considerava um cara que gastava muito tempo dentro da própria cabeça.
Só que eu tinha acabado de reformar um drywall inteiro e Dawson continuava lá.
Desde que nos conhecemos, alugou um quartinho na minha mente, tirou as teias de aranha e pendurou uma placa com o nome dela na porta. A mudança permanente veio quando dançamos Misunderstood na festa da Harper, há dois dias. Vê-la toda atrapalhada, toda fofa, fechando os punhos como se segurasse as baquetas da bateria e balançando os bracinhos ligou alguma coisa aqui que há muito tempo não ligava. Ela imitava a guitarra encolhendo os ombros, batia a cabeça e soltava gritinhos empolgados no refrão, dando o seu jeito de fazer tudo ao mesmo tempo, tal qual uma furadeira angular 3 em 1… E tal qual a mim mesmo com os seis miniprojetos que eu tinha começado para me distrair: o verniz da moldura da janela, a gaveta quebrada do aparador, a luminária sem soquete, a cadeira que estava rangendo, o suporte de parede da televisão e o mais atual, o arco ainda sem tinta.
No meio daquela baderna, só um projeto continuava firme: o de ver de novo a mulher que fez meu coração soar como um martelo batendo em um tubo de cobre.
É. Eu disse que nunca aprendi a fazer metáforas.
Usar cantadas com referências de construção civil e afins não era o suficiente para fazer as moças perderem a cabeça por aí, mas, para a minha sorte, eu era simpático e bom de conversa. Além disso, se a senhorinha de 72 anos que morava no final da rua estava certa, eu era bonito como um cobertor de retalhos bem costurado: quentinho, confortável e todo mundo queria um. Ah, e vinha com 50% de desconto porque, segundo ela, eu era fácil de levar.
Ela disse isso tudo com um sorriso de dentadura enquanto eu desentupia uma privada e, sinceramente, foi o elogio mais específico, talvez até o melhor, que eu recebi na vida. Acontece que, com a , eu não sabia se apenas um cobertor legal e eficiente seria o bastante. Ela era inteligente, vivida, falava não sei quantas línguas, conhecia meio mundo, enquanto eu sabia umas piadas, levava meses pra ler um livro e me perdia no metrô. Meu maior charme era bancar o engraçadinho, e as palhaçadas que eu fiz na piscina foram, de certa forma, para chamar a atenção dela pra mim, para descontrair e limpar o ar daquela confusão toda com o bombeiro. Mas a parte da música, da dança, o jeito como eu a toquei… eu estava colocando meu time em campo e não marquei nenhum gol. Sequer bati na trave. No final das contas, acho que o circo aquático funcionou tão bem que me lançou na friendzone.
Ou ela só me achou um pateta mesmo. Qualquer pessoa que já viu um homem tentar impressionar uma mulher sabe o quanto é ridículo.
E eu não facilitei nada quando dancei a macarena com uma toalha de banho na cabeça…
Falando em banho, eu estava precisando de um. Não havia uma parte sequer do meu corpo que não estivesse pintada ou suada e a minha calça jeans de trabalhar não aguentava mais ser alvejada: outra mancha de cal hidratada e ela se desfaria na minha pele. Me livrei da peça ali mesmo (as vantagens de morar sozinho), ficando só de boxer no meio da sala de jantar, quando um som ecoou pelo vão, indicando que eu estava recebendo uma chamada. Procurei o celular pelo tecido enrijecido, nos bolsos traseiros, depois nos laterais, aí no traseiro de novo, até perceber que o toque vinha debaixo de uma lixa amassada, em cima de um pano mais sofrido do que eu. Peguei o aparelho com os dedos brancos, tentando não sujar mais ainda a tela, mas o botão de atender acabou recebendo uma lambuzada generosa de gesso antes que eu colocasse o telefone no ouvido.
Seo?
O calor que eu senti ficou entre o de uma soldagem por chama e o de um curto-circuito. Eu era chamado carinhosamente de “Seok”, erroneamente de “Seoquimin” e ocasionalmente de “Soquemin”. Enfim, ninguém acertava. E ninguém me chamava de Seo.
Agora, eu queria que ninguém mais chamasse.
ela.
— Oi, . — sorri inevitavelmente ao reconhecer a voz.
Ah, é, é a . Oi! — ela deu uma risadinha. — Então, eu sei que é sexta-feira e você deve ter muito mais o que fazer…
— Não, imagina! Na verdade, eu tô bem tranquilo.
Tropecei numa lata de tinta que me desmentiu, mas não escutou o barulho da lambança que ela fez.
Ah, que bom. Porque eu queria lavar roupa e preciso de um tanquinho. — ela respirou mais fundo do outro lado da linha. — Quer dizer, não do seu tanquinho, mas da sua torneira, er… A minha torneira. A temperamental da área de serviço que eu te falei, lembra?
Ali estava ela, confusa e adorável como a furadeira angular 3 em 1.
— A que não funciona, lembro sim. — prendi o celular entre o ombro e a orelha e destaquei algumas toalhas de papel para minimizar o acidente no chão. — Se você quiser, eu dou uma passada aí.
Você pode hoje ainda?
— Claro. Eu tô com tempo agora.
Eu não estava. Eu estava de cueca no meio de um campo de guerra. Mas eu toparia até se ela me chamasse pra matar uma barata.

🔧


Só depois de bater na porta da eu percebi que ainda tinha gesso nas minhas unhas. Pelo menos o banho serviu para limpar bem a cara e o peito; não que eu planejasse tirar a camisa no apartamento dela, mas como eu não sabia a dimensão do conserto nem quantas horas eu ia passar apertado no microespaço quente da área de serviço, era uma possibilidade.
— Meio não profissional, né? — falei com a minha caixa de ferramentas enquanto esperava.
Dei de ombros. Até onde eu me lembrava, eu não tinha feito nenhum juramento de conduta, e se eu tivesse, eu já estava violando. Meu intuito ali não era só arrumar uma torneira, era ver a . Eu só não sabia exatamente o que fazer com isso, com essa inquietação, essa vontade que me fez largar minha casa no auge da obra e vir bater aqui, na porta dela, que por sinal, precisava de um pouquinho de óleo na dobradiça. Antes que eu pudesse pegar o desengripante e borrifar como quem não quer nada, a dona da casa abriu e me recebeu com um sorriso relaxado, devidamente vestida dessa vez. Uma tiara simples segurava os cabelos dela pra trás, e a camiseta larguinha com uma estampa das Meninas Superpoderosas deixava claro que a vibe do dia era conforto.
— Foi daqui que pediram um bombeiro sensual?
— Eu vou jogar água em você. — ela prometeu, apoiando-se no batente com os braços cruzados.
— Tudo bem, eu já ganhei alguns concursos de camiseta molhada por aí.
— Tipo o que teve na festa da Harper? — fez um sinal para que eu entrasse. — Aquele não conta, você comprou os votos das juradas.
— A culpa não é minha se o júri era composto pelas tias dela. — fingi ofensa, empinando o queixo. — Eu sou um sucesso natural com a terceira idade, elas me acham o genro dos sonhos.
— E o galã aí vai aceitar um café antes de fazer sucesso lá na minha área de serviço?
— Parece ótimo, obrigado.
Atravessamos a sala de estar em direção à cozinha interligada, que cheirava ao café que sugeriu. Em cima do balcão, duas xícaras descansavam nos respectivos pires, alguns biscoitinhos amanteigados estavam num pote e o açúcar, separado numa bandeja junto com um adoçante como segunda opção. O que me chamou atenção, no entanto, foi o que havia do lado: uma pilha de colheres alinhadas sobre uma pequena toalhinha bordada. Umas doze? Quinze? Vinte e sete?! Todas idênticas, prateadas, discretas, mas com um detalhe curioso no cabo: o emblema da companhia aérea onde ela trabalhava.
Franzi a testa, confuso.
— Eu sei que isso não é da minha conta, mas a quantidade de colheres não está um tanto desproporcional ao número de moradores?
Ela me lançou um olhar de canto, meio envergonhado, meio desafiador.
— É uma longa história. E você vai me achar maluca.
— Eu tenho tempo. — sentei na banqueta e indiquei a xícara, pedindo para ser abastecida. — E eu já te acho um pouquinho maluca, não vai fazer diferença.
deu uma risada curta e apoiou as mãos no balcão depois de me servir, com uma cara dissimulada de quem ia confessar um crime ou, no caso, um manifesto.
— Tá bom, lá vai. — ela pegou uma das colheres de ilustração, exibindo-a. — Quando eu era criança, meus pais e eu viajamos uma vez, só uma. Era uma daquelas promoções que parcelava em doze vezes no boleto, sabe? Classe econômica, assento apertado, comida esquisita. Mas eu adorava a ideia de voar. Acontece que, durante o voo, eu dei um jeito de escapar dos meus pais e fui parar na primeira classe. Lá tinha tudo diferente: toalhinha quente, suco em taça de vidro e… talheres de verdade. — ela balançou o objeto. — As colheres eram lindas, brilhantes, e pareciam feitas para adultos importantes. Eu fiquei olhando uma delas por um tempão. Dava pra ver meu reflexo direitinho.
— Você se viu na colher? — dei o primeiro gole.
— Literalmente. — piscou devagar. — Por algum motivo, aquilo me marcou. A diferença de tratamento, a ideia de que umas pessoas mereciam colher de metal e outras, de plástico, sabe? Desde então, eu decidi que um dia ia trabalhar num avião e fazer de tudo pra tratar todo mundo igual, pelo menos no que dependesse de mim. Se tem colher de verdade na primeira classe, tem que ter na econômica também.
Eu continuei em silêncio por alguns segundos, não só porque estava processando, mas porque… bom, a confissão dela me pegou. Pela delicadeza, pela lógica meio torta mas cheia de propósito, e pela forma como ela tinha transformado uma memória boba num princípio de vida.
— Uau. — assobiei, apoiando a xícara de novo no pires. — Você é o Robin Hood da aviação.
— Tiro dos ricos e dou para os que viajam na fileira do meio. — ela enfim usou sua arma de reivindicação para adoçar o próprio café.
Voltei a encarar a bebida, absolutamente encantado. As colherinhas da tinham mais história do que muita gente por aí. E por falar em histórias, o semblante dela, mais leve agora do que na minha primeira visita, estava curioso pelas minhas.
— E você? Como decidiu se tornar um faz-tudo?
— Ah, foi numa viagem que eu fiz pra uma fazenda quando eu era criança…
Cruzei as duas mãos atrás da nuca, como se a memória fosse me escapar se eu não segurasse a cabeça. Fazia tempo que eu não acessava aquela lembrança.
— Tá, eu te dei um episódio com desfecho filosófico aqui, eu vou precisar de mais detalhes do que isso. — ela me encarou, cética.
— Ok, Dawson. Vamos aos detalhes. — levei a banqueta para a frente, colocando os dois cotovelos no balcão. espalhou o movimento, aproximando-se.
Eu quase esqueci o que eu ia dizer ao vê-la tão de pertinho, mas limpei a garganta e comecei, agravando o tom de voz.
— Era verão. A fazenda ficava numa colina, onde quebrava um belo córrego, com pedras lisas de um lado, tipo mármore, e do outro, um pequeno barranco coberto por capim verde-limão. Não era verde-folha, não era verde-água, muito menos verde-musgo, era aquele verde que parecia até que alguém passou marca-texto, um verde intenso e-
— Tá, tá, eu entendi. — ela bateu no meu braço, impaciente, ao perceber minha descrição exagerada de propósito. — Você estava na fazenda mágica onde o Sol nascia com cara de bebê feliz igual nos Teletubbies. E aí?
— E aí que o córrego transbordava toda vez que chovia e causava o maior transtorno. — abreviei os fatos. — Então decidiram construir um dique pra barrar a água.
— Hm, você ajudou na construção.
— Eu queria, mas eu era muito novo, fiquei só olhando. Eu fui até a barragem todos os dias, de carona na caminhonete do velho Owen, um homem extremamente gentil, sem vaidade alguma, e também sem nenhum dente da frente…
por pouco não engasgou quando deu risada.
— Teve um dia, antes de começarem a obra, que chegou um engenheiro civil meio metido, cheio de termos difíceis e equipamentos caros, sabe? — fiz uma careta e ela balançou a cabeça, me incentivando a continuar. — Enfim, ele estava lá pra fazer uma vistoria, medir a correnteza da água, essas coisas. O cara sofreu a tarde toda, ligou um monte de parafernália, tentou vários cálculos que nem ele entendia e nada. Sabe quem resolveu?
— O velho Owen?
— Ele mesmo. Entrou na água, levantou os braços e esperou. Depois de 30 segundos, ele gritou: “4,5 quilômetros por hora, doutor!”. — imitei, rindo. — Tem coisas que só a experiência pode dizer. Foi ali que eu entendi que eu queria estar perto de pessoas assim, que pulam num córrego, que sabem das coisas porque sentem e… vivem.
— Nossa. Muito poético pra um faz-tudo.
— Não é só o córrego e você que são profundos, eu também sou.
— Você é mesmo mais que uma camiseta molhada e uma chave de fenda, né?
Ela quis soar descontraída, mas a fala saiu como uma constatação séria. Eu me senti lido, interpretado, entendido de verdade, tudo isso no intervalo despretensioso de um café com biscoitinhos. De qualquer forma, foi bom saber que eu tinha passado no controle de qualidade de Dawson.
Agora eu só precisava passar no controle de qualidade da pia dela.
— E a torneira temperamental? — esfreguei as mãos, levantando. — Pode nos apresentar?
soltou um urro baixo e contornou o balcão, me dando espaço para entrar e apontando para o lado da cozinha. A área de serviço cheirava a sabão de lavanda e outros produtos de limpeza, e um par de pantufas de coelho estava estendido no varal pelas orelhas do bichinho. O defeito estava na minha cara, gritando antes mesmo que eu precisasse chegar perto, de tão simples de resolver. Ainda assim, eu fiz meu melhor olhar de gravidade, coloquei as ferramentas no chão e iniciei minha análise com um rigor científico.
A torneira chiou quando eu liguei. Um apito agudo, dramático, exagerado. Quase uma atuação digna de Oscar.
— Isso aqui tá um pouco mais complicado do que eu pensei. — anunciei, fingindo que aquele era um mistério de nível avançado. Não era. O problema tinha nome, sobrenome e endereço fixo: o anel de vedação estava gasto. Nada que exigisse mais do que cinco minutos, um alicate e boa vontade.
Só que cinco minutos com a era pouco.
— Jura? — ela falou da porta, com uma expressão de cansaço.
— É que... tem um respiro duplo. Interno. Pode causar estrangulamento hidráulico. — falei antes que o filtro do bom senso conseguisse me impedir.
Fiquei quieto e ela também, decidindo se acreditava naquela lorota. A verdade era mais alta que a torneira escandalosa: eu só queria estender o tempo.
— Vai ter que quebrar alguma coisa? — ela aceitou meu diagnóstico.
Ufa.
— É difícil dizer. — cocei a nuca.
— Bom, eu vou deixar vocês discutindo a relação. — ela apontou para mim e para a torneira num gesto inconclusivo. — Enquanto isso, eu e minha pilha de roupas recém-chegadas da lavanderia vamos discutir a nossa.
— Divirta-se.
saiu e eu me ajoelhei diante da torneira, tentando parecer tão compenetrado quanto um cirurgião antes de abrir o paciente. Peguei o alicate só para girá-lo nas mãos e não fazer absolutamente nada com ele por um tempo. Depois, conferi a válvula, testei a pressão e até tirei uma foto do mecanismo interno, como se fosse algo que eu precisasse consultar com um especialista.
Me arrastei mais para perto da parede, soltei um suspiro técnico e fui mudando as peças de lugar, sem propósito algum. Troquei o anel de vedação com uma destreza silenciosa, o que me deixou com muito tempo livre, então aproveitei para desentupir o bico da torneira (que estava perfeitamente limpo), lubrificar uma rosca que não precisava e até ajeitar o suporte do rodo na parede. Cada um desses mini consertos me dava uma desculpa nova para permanecer ali.
Foi quando ouvi passos. Leves, hesitantes, ponderando a decisão passada por passada. A porta se entreabriu devagar e, num ângulo bem calculado, surgiu. Primeiro, só o rosto curioso e, em seguida, o vestido preto moldado ao corpo, preso num ponto estratégico das costas, exatamente onde o zíper parecia ter desistido da missão. A peça marcava sua cintura e quadris com a precisão de um molde de gesso, o que, ironicamente, era a minha especialidade, e eu demorei um pouco para processar que ela estava prestes a pedir ajuda. E que eu provavelmente precisaria tocar nela de novo.
— Eu preciso te pedir uma coisa, mas você não pode me achar ainda mais maluca.
— Você quer que eu ajude a fechar o seu vestido? — me levantei, limpando as mãos no pano de algodão que estava pendurado no bolso traseiro da calça.
— Não, eu quero que você me ajude a tirar ele.
Hein?
A mente masculina podia ser muito simples, mas não era burra. Meu cérebro abriu uma aba chamada “se comporte” e ajustou um alarme de autocontrole no volume máximo.
— Isso é mais um daqueles costumes bizarros de países estranhos que você inventa?
— Isso é um pedido de socorro. — inspirou com dificuldade. — Eu lavei o vestido, ele encolheu e o zíper emperrou. Eu tô vendo a luz branca.
— Ok, fica calma. Eu tô indo.
Pulei o campo minado de ferramentas que eu espalhei pelo chão para mostrar que eu estava fazendo alguma coisa e me aproximei com cuidado. virou-se de costas e eu murmurei um “posso?” baixinho, ao qual ela assentiu. O tecido estava esticado. A pele dela, macia e quente. Meus dedos, frios e meio trêmulos. Segurei o zíper.
— Respira fundo.
— Já tô respirando fundo desde que eu saí do quarto.
— Respira mais ainda. Nível yoga. — forcei o fecho, atento para não machucá-la, mas nada de ceder. — Céus. Você costurou essa coisa em você mesma?
Precisei apoiar as mãos na base da cintura dela, pequenininha, tamanho padrão de comissária de bordo ou modelo de biquíni. Ela soltou um suspiro e eu continuei puxando devagar, concentrado no zíper, porque se olhasse mais do que devia, eu perdia o foco.
— Tá quase... — resmunguei.
— Essa frase nunca termina bem...
Acho que foi aí que sorri sem querer. Quando o zíper chegou ao fim com um barulho seco de tecido rasgando, me afastei rápido, como se fugisse de uma granada prestes a explodir.
— Pronto. Nenhum ferimento. Só no seu vestido.
— O vestido era da Diedra. — se recuperou, apertando os braços para manter a peça cobrindo o que deveria cobrir. — Ela vai me matar. Você sabe esculpir lápides?
— Posso tentar. O que você quer que eu escreva?
— Que eu sou uma tragédia. — ela saiu andando em direção à cozinha e eu a segui.
— Você não é uma tragédia. — escorei no balcão.
— Eu sou. — lamentou. — Olha pra mim, preciso de um vestido para usar num evento que vai homenagear meu ex-namorado babaca. E pra completar, eu encontrei com ele na lavanderia hoje. Tem ideia de como isso é humilhante?
— Aposto que não foi tão ruim quanto na sua cabeça.
Ela deu o tiro de misericórdia ao erguer uma sobrancelha e arrematar:
— Eu estava segurando uma cesta com as minhas calcinhas.
— Oh. — quis dar risada. — Elas eram legais?
— Quê?
— Se elas forem legais como aquela que você usou na última vez que eu estive aqui, ótimo. — expliquei. — Ele vai achar que você está dormindo com alguém, porque você vai estar usando sua lingerie especial. Agora, se forem aquelas calcinhas enormes de vovó… — fiz o gesto imitando o tamanho do elástico.
me lançou aquele olhar que já estava me acostumando a gostar: o que vinha antes de uma piada sarcástica ou uma tirada bem colocada.
— Eu não tenho mais nenhuma dessas, levei lá pra empresa. Usamos para cobrir os aviões.
— Pensei que fosse como paraquedas…
Então, ela riu. E eu me senti nas nuvens por ser o motivo. Era um riso ainda tímido, mas suficiente para aliviar o peso que ela carregava nos ombros, além dos pedaços do vestido aberto à força nas costas, e pra me inflar por dentro. Ser o cara que resolvia as coisas, mas que também arrancava dela aquele sorrisinho cansado, do tipo que escapa quando o mundo pesa e alguém segura o outro lado, foi a melhor parte do meu dia.
— Sabe o que me deixou mais arrasada? — amoleceu o timbre.
Neguei com a cabeça e voltei a me sentar, demonstrando minha disposição em ouvi-la. Aquela era uma brecha para uma conversa mais íntima, o que era engraçado, considerando que ela estava, novamente, em uma situação de nudez parcial.
— Ele disse que eu nunca ia arrumar alguém se eu continuasse sendo a maníaca da carreira. — ela mordeu a parte interna das bochechas, sentida. — Agora vou ter que ir no jantar de condecoração dele sozinha e provar que ele tinha razão.
— Fala sério. — desdenhei. — A coisa mais fácil do mundo é encontrar um cara pra acompanhar você.
— Ah, é? É sexta-feira e eu tô com um vestido em trapos e um marido de aluguel na minha área de serviço. — ela soprou, divertida. — Acho que não é assim que se arruma um namorado, mesmo que seja só por uma noite.
— E se eu fosse com você?
A proposta saiu com uma rapidez tão grande que soou inédita, como se eu estivesse ouvindo pela primeira vez junto com a e não fosse a pessoa que pensou nela. Fiquei alguns segundos encarando o chão e entrelacei os dedos sobre os joelhos, sentindo o peso do que eu tinha dito… e o quanto fazia sentido. Mesmo que não fizesse, a ideia estava tida, era tarde para “dester”, e eu interpretei o fato de ter piscado duas vezes bem devagar como um “que interessante, quero ouvir mais”.
— Você mesmo disse que eu sou um marido de aluguel, certo? — completei. — Posso ser seu marido de aluguel nesse jantar.
— Que tipo de marido? — ela perguntou, cruzando os braços, mas considerando a opção.
— O que você quiser pra irritar o…
— Edward Miles. — ela revelou o nome com uma espécie de refluxo emocional.
— Uh. — arfei. — Nome de velho chato. Tipo “vou reclamar da taxa do banco” chato.
— Cala a boca! — ela pegou um biscoitinho e jogou em mim. Errou feio, mas o protesto foi válido.
— Ele é velho, né?
— Isso importa?
— Claro que importa. Se a gente caprichar muito no teatro, pode matar o vovô do coração.
— Você pensaria muito mal de mim se eu confessasse que já imaginei isso algumas vezes? — ela confessou com um sussurro.
— Não. — respondi, me aproximando para apoiá-la naquela pequena delinquência. — Na verdade, eu tô mais assustado com a sua coleção de colheres roubadas.
Recuperadas.
— Acho que a polícia vai discordar disso. — fiz um som de sirene muito mal imitado.
deu outra risada, mas de um jeito que eu não tinha visto ainda: com as mãos apertando a barriga e o olhar relaxado. E ali estava a minha maior vitória, fazê-la esquecer, por alguns minutos, do jantar que homenagearia o idiota que duvidou dela.
— Tá, se a gente vai fazer isso, nada de relacionamento fake de filme da Netflix, ok? — ela ditou as regras, retomando a postura de comandante de voo. — Quando o Miles passar por nós, eu quero que você amasse meu peito e aperte a minha bunda, entendeu?
Solucei. O papo foi de zero a cem muito rápido.
— Er… Esse evento não é uma parada de trabalho? — lembrei, sem acreditar que estava questionando uma autorização consentida de pegar uma mulher absolutamente linda.
— Eu vi ele fazendo coisa muito pior na cabine quando flagrei ele me traindo, queria devolver em grande estilo.
A intenção era fazer uma piada, mas ainda havia algum ressentimento ali. Só não precisava ser nenhum gênio ou psicanalista para perceber que a mágoa que guardava pelo ex vinha somente das palavras amargas que ele lançou sobre ela, um caso clássico de orgulho ferido e desejo de vingança juvenil, algo compreensível para uma pessoa que foi traída.
Um joguinho que eu era perfeitamente capaz de fazer.
— Fica tranquila, eu sei fazer o papel de namorado. — arrumei o cabelo dela atrás da orelha e aproveitei para descer o dedo pelo maxilar, segurando a ponta do queixo alheio.
A reação da , contudo, foi ficar com as bochechas rosadas e começar a tagarelar sobre o horário do jantar, os nomes dos convidados e a posição hierárquica de cada um na companhia, numa mistura entre plano estratégico e desabafo. Mas minha atenção já não estava mais nas palavras. Enquanto falava, soltou os braços sem perceber que o vestido (que mal sobreviveu ao incidente do zíper) tinha cedido um pouco. A alça escorregou, o decote cedeu e, de repente, duas aeronaves de luxo estavam prestes a decolar sem permissão da torre.
— Ahn,
— Que foi?
— Você esqueceu de… — desenhei o decote dela. — Guardar os aviões de volta no hangar.
olhou para baixo, vermelha.
— Palhaço.





Continua...


Nota da autora: Obrigada por acompanhar mais uma história! Essa deliciosa confusão está ganhando seus contornos enquanto você lê. Espero que você fique até o final para descobrir onde isso vai dar!


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