11.
Aterrorizado com o que há por dentro
Para salvar sua vida
Ele rasteja como uma minhoca
fugindo de um pássaro
“The Bird and the Worm”
The Used
Duas noites depois, eu ainda não conseguia tirar da minha cabeça o modo como . havia me recebido depois da minha vingança contra Lucerys Velaryon. Mesmo que não tivesse amenizado o fato, ela havia me abraçado e me consolado — me acolhido — mesmo sabendo o tempo todo que eu tinha matado o bastardinho. Como ela podia ser real e tão verdadeira? Como fora capaz de me puxar para perto quando deveria, na verdade, ter fugido correndo? Apenas a imagem e a sensação daquele momento na minha mente já eram como uma centena de fantasmas sufocantes me assombrando.
Eu só queria ir até ela e perguntar o porquê. Por que tinha feito aquilo? Por que me abraçara daquele jeito? Por que não virara as costas? Mas, no fim das contas, já sabia a resposta; sempre soube. Era porque eu era dela, e ela era minha. Porque . me enxergava desde os primeiros dias após nos conhecermos. Ainda assim, queria muito questioná-la em voz alta. Fosse para ver o que ela dizia ou para ouvir as palavras direto de seus lábios. Mas dois dias haviam se passado e eu mantivera a minha boca fechada.
Inspirei profunda e lentamente, entretanto até isso parecia superficial, insatisfatório. Era como se o próprio ar estivesse denso, carregado com a presença dela, agarrando-se a mim de maneiras que não conseguia dissipar, por mais que tentasse me recompor e recuperar o controle. E agora eu jazia ali, rígido na poltrona dos meus aposentos — nossos aposentos—, uma das mãos em volta de uma taça de vinho que mal saboreara.
Sor Criston Cole, por outro lado, bebia um gole ou outro enquanto falávamos sobre guerra. Era um dos poucos que ouvia os meus planos sobre como deveríamos estar agindo. Minha voz era firme e medida, mas meus pensamentos não eram. Não mais. Eles vagavam para além do biombo de madeira entalhada. Lá estava . Hightower, sozinha na nossa cama. Se dormia ou não, eu não saberia dizer. Não havia perguntado nem verificado.
Houvera um momento antes — breve, inconsequente para qualquer homem que não fosse Sor Criston — em que o cavaleiro hesitara, lançando para a divisória de madeira um olhar que expunha dúvida misturada com contenção. Ali, descobrira que não me importava se ela, minha esposa, ouvisse cada palavra do que falaríamos naquela noite.
— . é leal a mim — havia declarado, dispensando o mero pensamento do Senhor Comandante com um aceno de mão. Simples, carregado de certeza, definitivo.
Apertei a taça entre a mão. Leal. Não era mentira, mas tinha um gosto estranho, agridoce, quase amargo demais. Porque o que . me dera duas noites atrás não fora dever, nem obediência, nem bondade. Havia sido algo muito pior. Algo do qual eu não podia escapar, independente do quão longe fosse ou o que fizesse.
Finalmente tomei mais um gole de vinho e concentrei-me na política. Fazia um bom tempo que estávamos ali. A pequena chama tremulava na lareira, mantendo o ar dos aposentos quente o suficiente contra a minha pele enquanto debatíamos. Coloquei a taça de lado e tracei planos na superfície do mapa entre nós, com dragões de ouro sobre as Terras da Coroa, reduzindo o território a movimento e consequências. A ideia era avançar, consolidar e nos fortalecer a cada passo.
Havíamos falado sobre inevitabilidade, dragões e guerra; sobre aqueles que ainda se agarravam à ilusão de que ela poderia ser evitada. Alicent, em especial, que estava irritada. Brava comigo. Como se ela mesma não tivesse ajudado a preparar o terreno. Sor Criston a defendeu, suavizou a situação. Acusou Rhaenyra — minha meia-irmã usurpadora — de envenenar minha mãe.
— Não é culpa da Alicent — terminou.
— Ela nutre sentimentos por nossa inimiga. Isso a torna uma tola — falei sem nem sequer piscar.
Eu tinha mais argumentos, mas os guardei. Palavras eram vento, no fim das contas. Apenas esperei para ver a reação de Sor Criston e quais palavras usaria. Mas então meu avô Otto Hightower entrou nos aposentos sem se anunciar.
— Retorne ao seu posto, Senhor Comandante — ordenou Sor Otto, sem levantar a voz. Não era necessário. — Preciso falar com o príncipe.
Sor Criston pegou suas coisas e saiu imediatamente. O ambiente mudou em sua ausência; tornou-se mais silencioso, pesado. Não me levantei nem me movi conforme Sor Otto falava. Ele mostrou-se preocupado com planos feitos longe dos olhos da Mão do Rei — como aquele sobre a mesa —, e comigo sendo um garoto inexperiente, apressado em provar meu valor, ansioso para agir.
— Busco apenas servir ao meu rei e à minha Casa — comentei, embora as palavras soassem vazias até para mim.
Otto sentou-se no sofá, exatamente onde Sor Criston estava há alguns momentos. Ele pegou o jarro de vinho e serviu-se de uma taça. Então falou sobre poder, sobre como Vhagar e eu juntos éramos o maior poder individual do reino, quer reconheçam isso ou não. Sua voz era pausada e segura, como se falasse com alguma coisa que precisava ser moldada, não compreendida.
Fez um comentário, em seguida, sobre peças ainda não visíveis.
— Eu prometo a você, Aemond, que terá toda a vingança que busca, mas deve conter seus impulsos — disse ele. — Ambos sabemos que seu irmão não consegue.
Sustentei seu olhar apenas por um mísero instante antes de olhar para baixo. Para a mesa e o mapa. Para as moedas espalhadas, marcando lugares já condenados. O último comentário me atingiu em cheio. A intenção era mais do que óbvia: me comparar com Aegon. E isso era injusto. Terrível. Eu sempre tive controle. Ou não tive? Contraí o maxilar e meus pensamentos nadaram até a outra parte dos aposentos, como se estivessem em busca de uma tábua de salvação. Atrás do biombo esculpido, . jazia. Sem julgar nem ordenar. Sem me pressionar. Apenas esperando. E algo ainda se retraía dentro de mim.
Levantei-me com um movimento abrupto que fez a cadeira raspar no chão de pedra com um som incômodo.
— Minha esposa me espera — anunciei em tom definitivo. Era uma dispensa, um motivo inventado, o uso de . como refúgio.
Depois de alguns momentos, voltei a olhar para Otto, que me observava com atenção. Parecia ponderar sobre quanto daquelas palavras era desculpa e o quanto era verdade.
— Então não será eu que lhe manterei longe de nossa querida .. — Pousou a taça sobre a mesa e se ergueu. — Tenha um bom descanso, meu príncipe.
Mal assenti. Apenas mantive a postura rígida até que os passos de Otto se dissiparam para além da porta, agora fechada. Só então relaxei um pouquinho os ombros e me virei para a divisória que me separava da cama… e de ..
Fui engolido pelo vasto silêncio dos aposentos e parei a um passo do biombo, como se algo na própria madeira entalhada me mantivesse à distância. Respirei devagar, mas a pressão no peito ainda estava ali.
Controle. Falavam disso com tanta facilidade, como se fosse de fato algo simples. Como se não fosse uma coisa que eu havia passado anos afiando e aperfeiçoando. Como se eu não me agarrasse a isso como a uma lâmina pressionada contra a minha própria garganta. E, no entanto…
Detive meu olhar na borda da divisória e no que havia além dela. Em quem estava lá. Minha esposa, minha ābrazȳrys. . não exigia controle de minha parte. Nem isso, nem nada. Ela não me puxava de um lado para o outro, não me pressionava. Ela simplesmente existia. E, de alguma forma, isso era pior. Não deveria ser, mas era.
Eu não sabia como lidar. Havia coisas que podia comandar — o maior dragão vivo, o medo —, mas não isso. Não da maneira como meu corpo havia cedido ao abraço dela duas noites atrás. Não o modo como minha mente se desfizera sob a voz e as palavras dela. Não do jeito como eu havia falado com ela.
Engoli em seco, o movimento doloroso, como se quase tivesse me engasgado. Odiava me ver ali, preso entre imobilidade e ação. Entre recuar, como raramente acontecia, e avançar para mais uma noite normal e estranha ao lado daquela mulher… da minha mulher.
Dei um passo à frente e passei pela abertura em formato de porta no biombo fixo. Parei um pouco antes da beirada da nossa cama, capturado pela forma dela. A curva de seu corpo sob as peles, as mechas de cabelos espalhadas pelo travesseiro. Uma visão familiar. Confortante. Eu odiava isso. E não conseguia parar de olhar.
. permanecia deitada de lado, imóvel e silenciosa, tomada pelo sono. E não só isso. Ela estava virada para o meu lado da cama — para o lugar onde eu deveria estar —, seu braço estendido sobre o espaço vazio, solto e desprotegido. Esperando. Nem consciente nem deliberadamente. Mas, mesmo assim, esperando.
Meu olhar se demorou ali, naquele convite silencioso, no suave subir e descer de sua respiração. Algo em meu peito se contraiu. Queria tocá-la. E detestava o modo como o pensamento me vinha à mente sem ser convidado — aguçado, imediato, perigoso. Abri e fechei as mãos ao lado do corpo antes de apertá-las em volta do tecido que vestia com força suficiente para me ancorar em qualquer coisa que não fosse . e seu braço estendido.
Em um movimento brusco, comecei a tirar as camadas de roupa. Então contive a velocidade e passei a despir uma a uma, devagar, controlado. Desejava que o ato metódico me confortasse. Couro, lã e peso se foram, até que restou apenas a última peça. Parei, a respiração lenta, porém irregular.
. não havia feito o mesmo que nas outras noites. Sua túnica de dormir ainda se agarrava ao seu corpo, ao menos nas partes que as peles não a cobriam, aquele linho macio que sempre escondia mais do que revelava. Tinha mantido parte da roupa porque Sor Criston havia se juntado a mim ali, porque seria um pouco menos inapropriado. E eu…? Bem, não seria eu quem a acordaria para apontar como estava quebrando a regra que ela mesma estabelecera em nossa noite de núpcias. Até porque ela jamais me deixaria esquecer caso tocasse no assunto.
Deixei a última barreira no lugar. Uma mísera peça de tecido que cobria meus quadris e parte das pernas. Era uma concessão insignificante, sim, entretanto era a única distância que me restava para manter.
Permaneci ao lado da cama, observando-a. Tão calma, quieta, suave. Tão linda… E com a guarda baixa, o que era raro. . ficava tão vulnerável assim. Eu odiava a facilidade com que me sentia bem por simplesmente olhá-la enquanto, ao mesmo tempo, desmoronava. E detestava o quanto queria estender a mão e tocá-la, nem que fosse só para sentir seu pulso contra a minha pele. E, no fim das contas, não era como se eu tivesse alguma escolha. Teria que tocá-la ao menos para tirar o braço dela do meu lugar; de outro modo, não teria como me deitar.
Com a respiração presa entre as costelas, me movi. Meus dedos roçaram nos dela com zelo e cautela — como se ela pudesse se dissolver sob meu toque. Para a minha sorte, seu sono prosseguiu. Envolvi seu pulso devagar e ergui-o apenas o suficiente para que pudesse me enfiar entre seu braço e o colchão.
Meus músculos se retesaram instantaneamente ao repousar o braço dela contra mim. . contraiu os dedos levemente na pele nua de meu peito, ainda dormindo. Continuei ali, rigidamente imóvel, como se me preparasse para algo que nunca veio. Meu olhar vagou para o seu rosto, meio escondido na sombra, suavizado pelo sono de um jeito que nunca pude observar por muito tempo. Não havia arestas afiadas, nem fogo, nem desafio. Apenas ela, a minha .. Viva e inabalável, sem ser perturbada pelas coisas que me assombravam.
O incômodo na boca do estômago tornou mais difícil respirar calmamente e apertei a mão dela. Não o suficiente para acordá-la, é claro. Mas precisava me lembrar de que ela era real, e de que eu estava mesmo ali — ainda que não soubesse bem o que fazer com isso.
Não, eu sabia o que fazer, e sabia bem; só era incapaz disso. Não fazia nenhum sentido sentir o que sentia e não conseguir agir nem sequer minimamente. O beijo no dia da coroação já havia sido demais. Tinha feito aquilo no meio do desespero e, mesmo assim, fora difícil. E o jeito como ela havia me correspondido… Deuses, foi terrível e incrível, doce e doloroso.
Era ridículo. Que tipo de homem isso fazia de mim? Um tolo, com certeza. Estava sendo sentimental. A própria . Hightower teria zombado se me visse agora… Um garotinho estúpido, perdido em algo que não merecia. Soltei a mão dela devagar, com medo de que acordasse e me visse segurando-a. No entanto, não a afastei. Deixei-a repousada sobre mim e tentei fingir — ao menos por um instante — que aquilo não era tão complicado.
Observei-a por mais tempo do que o suficiente para memorizar as linhas suaves e adormecidas do seu rosto, os sedosos fios de seus cabelos. Então notei os cílios tremularem uma única vez. Em seguida, de novo e mais devagar — como se o esforço para acordar lhe custasse mais do que deveria. A mudança no peso de sua mão contra o meu peito nu e a leve alteração em sua respiração foram sutis, mas todo o meu corpo parou mesmo assim. E ela abriu os olhos, pesados de sono, desfocados até me encontrarem.
— Valzȳrys… — a palavra foi quase um sopro, e . sorriu. Pelos deuses! Não era um sorriso nítido, acusatório. Não era nem mesmo curioso. Apenas estava lá, ainda meio perdido no sono com ela. Seus dedos se pressionaram na minha pele, como se segurassem em algo familiar. — Sor Criston se foi, então?
Engoli em seco, sentindo-me exposto. Não, pior: sentia-me visto. . tinha aquele dom.
— Foi — respondi, enfim.
Minha voz havia soado rouca demais, como se não tivesse falado por horas. Mas . não notou, ou apenas ignorou. Ela murmurou um som ininteligível em resposta — nem satisfeito nem o contrário — enquanto seus dedos traçavam distraidamente minha clavícula. Ela se aproximou mais, um movimento tão natural quanto sua beleza. Meus músculos se enrijeceram e forcei-me a relaxar o mais rápido possível. Eu odiava isso. Odiava mais ainda desejar isso.
— Você está pensando alto demais — sussurrou ela.
Prendi a respiração por um instante, como se tivesse sido pego no flagra.
— Volte a dormir, ābrazȳrys — murmurei de volta, a voz suave demais para ser uma repreensão.
— Não. Eu não me importo com seus pensamentos altos. — Sua voz ainda estava pesada de sono. — Só fiz um apontamento.
Ela continuou seu carinho distraído em minha pele — um movimento sem pressa, quase automático — e acomodou seu corpo ao lado do meu. Perto. Perto demais. Mas não havia tensão nem hesitação nela, apenas calor e presença. Minha respiração falhou quando sua bochecha roçou em meu ombro.
— Sabe que sua mãe está dormindo com ele, não sabe? — voltou a falar de repente. — É por isso que o maldito homem a defendeu mais cedo.
Claro que . tinha ouvido o início da nossa conversa. Não era surpresa, afinal, estava pronta para ir dormir quando Sor Criston tinha chegado. E eu sabia bem como ela demorava um pouco para cair no sono — costumava ficar me enchendo para conversar quando nos deitávamos. Sem contar que . raramente deixava de ouvir quando política e guerra preenchiam o ar ao nosso redor como fumaça.
— Ouviu tudo? — perguntei. — Cole, Otto?
— Sor Otto também apareceu? Você estava requisitado, hein. Aposto que foi só para te encher o saco. — Estalou a língua, ou ao menos tentou, pois o som saiu estranho. — Não, eu não ouvi tudo. Estava entediada sozinha e pensei que seria melhor dormir e fazer você me contar tudo amanhã. — Soltou um risinho contra o meu ombro. — Mas você não me respondeu: sabe sobre os dois?
Expirei lentamente, tratando a informação “Criston e Alicent” como se não fosse algo perigoso para a estabilidade da Casa Targaryen.
— Sim — admiti. Meu olhar vagou para o dossel acima de nós; era sempre mais seguro do que olhar diretamente para ela. — Eu sei.
. manteve-se em silêncio por um longo período. Não fosse seu carinho mais lento e suave, teria pensado que voltaria a dormir. Mas eu conhecia aquela mudança; estava pensando, vagando para longe enquanto seu corpo e ela permaneciam exatamente onde estavam. Ainda perto. Ainda quentes. Ainda meus.
— Realmente não te incomoda ela estar fodendo ele? — A palavra viera sem hesitação nem aspereza. Ela ainda estava embebida em sono, mas não parecia nada disposta a deixar a conversa de lado. — E isso vem desde antes do seu pai morrer — acrescentou. — Não sente nada a respeito?
Suspirei devagar. A resposta era complexa; muito mais do que um dia conseguiria expressar em voz alta — fosse para . ou qualquer outra pessoa. Porque a verdade era que: sim, me incomodava. Muito. Não por causa de Criston Cole especificamente, mas pelo que isso significava para a lealdade da minha mãe, para o reinado de Aegon, para tudo o que estávamos tentando construir sobre uma base já rachada. Só que eu não podia simplesmente dizer isso em voz alta. Nem sabia como.
— Não é da minha conta — disse, por fim. — Ela fará o que bem entender.
Coloquei a mão sobre a de . e apertei meus dedos contra os dela, que repousavam sobre meu peito. E quando me dei conta do que havia feito, já era tarde demais para desfazer.
— Isso não torna a situação menos real, certo? Não ser da sua conta não significa que não te incomode. — Mesmo que sonolenta, sua voz era firme, daquele jeitinho tranquilo e descontraído que era só dela. Seus lábios se curvaram contra o meu ombro. — Enquanto se recusar a admitir, suponho que terei de me incomodar no seu lugar, então. Oh… “terei”, não. Pelos deuses, Aemond! — Deixou escapar uma risada baixa e ofegante. — Acho que já fazia isso por você antes mesmo de nos casarmos. Sabia disso?
Minha respiração falhou. Eu sabia? Não. Ao menos não conscientemente. . Hightower nunca fora do tipo que demonstrava preocupação comigo a partir do momento em que começamos a nos afastar e tornar tudo uma briguinha sem fim. E, no entanto, ali estava ela admitindo que fizera isso o tempo todo.
— Não — admiti baixinho, sem sarcasmo nem frieza.
Minha garganta apertou. Os dedos dela deslizaram suavemente pela minha pele outra e outra vez. E de repente pareceu atenção demais em um só lugar. Calor demais. Intimidade demais sem nenhum propósito claro por trás disso além do próprio afeto.
— Pois agora sabe — sua voz flutuou na escuridão, suave e com algo muito mais perigoso do que intenção. — Eu discuto com a Alicent de vez em quando. Sei que não deveria, sei muito bem, mas não consigo evitar. E geralmente tem a ver com você.
Senti o maxilar se tensionar pela milésima vez desde que me deitei em nossa cama. “Alicent”, não “sua mãe” ou “Sua Graça”. Apenas o primeiro nome, fácil e sem cerimônia.
— Lembra daquela noite no pátio, dois dias antes do nosso casamento, em que lutamos com espadas? Quando você disse que não me deixaria fugir e eu falei… — Seu tom mudou levemente e ela imitou a si mesma: — “Por que não mata o Aegon e fica com a coroa”? — Ela deu uma risadinha sonolenta. — Alicent veio até mim na manhã seguinte.
Fiquei imóvel sob seu toque e meu estômago se revirou. Aquela noite… Suas palavras afiadas e imprudentes sobre coroas e assassinatos. Teria sido uma piada, uma provocação ou apenas a verdade? Talvez tudo misturado. Eu nunca soube, mas tinha ficado desnorteado por um momento. E então Sor Criston e Sor Olyvar Ashford estavam lá, e eu pus um fim a tudo aquilo.
De qualquer modo, por que minha mãe iria até ela? Alicent não tinha esse direito. Não tinha. Apertei a mão de . com mais força, não o suficiente para machucar, é claro, mas apenas para que ela pudesse sentir que eu estava ali, que a escutava, como sempre.
— Ela falou de família. Não só por ambas sermos Hightower, mas porque eu me casaria com você — contou-me. — Como se isso por si só devesse significar alguma coisa para mim. — Voltou a acariciar meu peito, quase sem mover a mão embaixo da minha. — A princípio, pensei que você tivesse a enviado, que temesse que eu pudesse realmente fugir, mesmo depois da nossa conversa na noite anterior. Mas, no fim, não foi você quem teve medo disso, foi ela.
— Ela? — não consegui me conter.
— Ela. A maldita mulher tentou me convencer de que você era… como foi que ela disse? Ah, sim, “complicado”. — Havia algo de diferente em sua voz, assim como na sutil tensão em seus dedos. Desconforto, irritação. Não por ela, mas por mim. — E que você talvez até poderia acabar se tornando um marido aceitável. — . bufou. — Ela parecia acreditar, como disse literalmente, que eu poderia ser a única coisa capaz de… “abrandar” o seu coração.
As palavras pairaram entre nós. Pesadas, silenciosas, imutáveis.
— Mas esse não é o ponto. Ela admitiu que sabia sobre o nosso momento no pátio na noite anterior. E quem acha que contou a ela? — Soltou um pequeno suspiro. — Não foi Sor Olyvar, você o escolheu bem. Ele passou a noite guardando a minha porta. E, caso sua memória esteja boa, vai se recordar que o único outro homem lá era Sor Criston.
Sor Criston, claro que sim… Mas não era aí que minha atenção tinha se fixado. Não de verdade. As palavras anteriores de . flutuavam, rápidas demais, pela minha mente, e queimavam meu peito como brasa. “Complicado”, “abrandar” meu coração. Minha mãe havia dito aquilo. Para .. Era um pensamento ridiculamente ingênuo da parte de Alicent sequer considerar possível que eu pudesse ser amaciado, amolecido por alguém… ainda mais por minha então prometida, que sempre brigava comigo, pela mulher que eu mal conseguia tocar agora.
A vontade de rir e de me enfurecer batalhavam dentro de mim. Deuses, era tão complicado. Expirei pelo nariz, um suspiro agudo e silencioso. E então notei outra coisa. . não disse ter negado quando Alicent dissera aquelas coisas. E também não comentou se havia zombado. Poderia ter acreditado naquelas palavras? Acreditava que ela poderia mesmo fazer isso?
— Você respondeu a ela? — perguntei, por fim. Algo quente e desconfortável se acendeu sob minhas costelas.
— Bem, não exatamente. Pensei sobre o que ela tinha acabado de falar por mais tempo que deveria. Confesso que foi difícil não respondê-la. O modo como falou de você me irritou muito mais do que gostaria de admitir. — Soltou um leve suspiro. — Então escolhi outra coisa para me concentrar e apontei, muito delicadamente, que os informantes dela eram muito rápidos. — Deixou escapar um riso abafado contra o meu ombro. — E a acusei, da maneira mais doce possível, de dormir com Sor Criston Cole.
— Você é terrível — comentei.
— Sou — confirmou, divertida, então moveu sua mão, guiando a minha até o lado esquerdo do meu peito. — Mas uma coisa é certa, Aemond: você tem algo batendo aqui dentro. E só isso já é muito mais do que aquela maldita mulher parece disposta a acreditar. Só não acho que caiba a mim mudá-lo ou dizer que está errado. O coração é seu, afinal de contas. Sem contar que já é difícil controlar o meu coração… — Seu suspiro tornou-se um traço de sorriso quando voltou a falar. — E você e eu não somos curandeiros. Então, por que deveríamos nos preocupar tanto com isso?
Assenti, mas tudo estava confuso na minha cabeça, mais do que nunca. Sua mão abaixo da minha, sobre o meu coração, era demais e de menos ao mesmo tempo. E ela não estava errada no que dissera, porém suas palavras sobre seu próprio coração ficaram gravadas na minha mente. A parte mais triste, no entanto, foi não conseguir evitar pensar que ela talvez já tivesse aceitado que o que quer que vivesse ali dentro — a frieza, a raiva — permaneceria intocado por ela… o que não era verdade.
Algo afiado se contorceu dentro de mim. Sem pensar demais para que não me parasse, entrelacei nossas mãos e as trouxe até a minha boca, pressionando os lábios contra os nós de seus dedos. O beijo demorou-se, desajeitado em sua sinceridade. Eu não sabia o que estava fazendo. Nunca soube bem o que fazer com ternura — jamais fora ensinado. Então esse pequeno e estranho gesto parecia certo.
Como que para confirmar, . fechou os olhos e sorriu, embriagada de sono. Malditos deuses, aquele sorrisinho… Era suave e genuíno — nada zombeteiro, sarcástico e nem provocador como de costume — e me atingiu em cheio, doendo mais do que qualquer provocação ou rejeição que já recebera dela.
Encarei a garota ao meu lado — minha esposa — por um tempo longo demais antes de abaixar nossas mãos unidas, colocando-as entre nós dessa vez. Acariciei seus dedos com o polegar, hesitante e incerto sobre o próximo passo. E, ainda que quisesse continuar tocando-a, soltei a mão dela. Como eu podia ser tão defeituoso? Como podia simplesmente não… existir na frente de ., mesmo quando parecia ser tudo o que eu mais queria?
Não a toquei novamente. Apenas mantive a mão onde estava, agora vazia. E, de algum modo, a ausência do toque persistia com muito mais força do que o contato havia conseguido. Ainda assim, mover a mão para longe parecia significar escolher algo ao qual não aprendera como sobreviver.
. havia ficado imóvel outra vez, a respiração regular e baixa, suave, tranquila. Adormecida de novo, com certeza. Até fazia parecer fácil. Virei a cabeça um pouco mais e pousei meu olhar em seu rosto — nas mechas soltas de seu cabelo que repousavam sobre sua bochecha, na curva delicada de sua boca, que ainda carregava o fantasma de seu último sorriso antes de adormecer por completo.
Era impossível negar o quanto aquilo me afetava. Meus dedos se contraíram e eu os levei em direção ao rosto dela, à suavidade que nunca conseguia tocar sem me desfazer no processo. Quase a toquei novamente. Quase. Mas, no fim, a respiração se prendeu no meu peito e deixei a mão cair sobre as peles.
Teria que me contentar com o quase enquanto . dormia ao meu lado, como se eu não fosse defeituoso. Como se nada no mundo estivesse quebrado. Como se eu não tivesse voltado de Ponta Tempestade com sangue nas mãos duas noites atrás. Como se ela não tivesse me visto — me enxergado de verdade — e mesmo assim permanecido.
Ela não deveria ter ficado. Constatar aquilo doía mais do que um corte inesperado. Mas era verdade, não? . jamais deveria ter me recebido para deitar-me ao lado dela naquela noite. Não deveria ter me abraçado. Não deveria ter me olhado daquele jeito — como se existisse algo em mim que ainda valia a pena preservar.
E teria sido mais fácil se ela tivesse recuado e escolhido a distância em vez daquela proximidade silenciosa e insuportável. Teria sido doloroso — muito doloroso —, mas bem mais fácil, mais limpo, seguro… suportável. Em vez disso, dormiu ao meu lado, tocou-me quando permiti, ofereceu-me abrigo e confiou-me seu apoio. Tudo isso alheia à guerra que ainda era travada sob minha pele cada vez que a olhava ou pensava a seu respeito.
A noite vasta e silenciosa parecia zombar do quanto eu simplesmente não sabia como não observar .. Não quando ela parecia tão serena, com as linhas de seu rosto suavizadas pelo sono em vez de compreensão ou tensão. Não quando meu peito apertava com o mero subir e descer de sua respiração. Deuses, eu odiava isso também. Detestava o quanto isso me afetava — o simples fato de ela permanecer depois de tudo o que havíamos passado antes do casamento, depois de toda a frieza e, mais ainda, depois de tudo o que acontecera desde que meu pai morreu.
. deveria ter se afastado antes, na noite de núpcias, quando não a toquei. E os deuses sabem como ela gostava disso. Não tinha me esquecido da noite em que a peguei bebendo chá da lua. E opções ela tinha, por mais que me doesse admitir. Mas não, ela ficou e ficou e ficou. Comigo. Mesmo que eu não merecesse. Pior ainda, respeitou-me o suficiente para não me obrigar a cumprir meu dever de marido naquela noite. E ali permanecia, quente contra a minha pele de uma maneira que ainda não havia me permitido me acostumar — um toque sem violência nem expectativa. Minha esposa era a prova viva do quão incapaz eu era.
Curvei os dedos contra o colchão de penas, ansiando por algo que não conseguia nomear nem pedir. Porque eu era Aemond da Casa Targaryen, e Aemond Targaryen não implorava. Nem mesmo por amor. Eu sequer sabia como fazer isso. E agora, a noite tinha se tornado sufocante demais para suportar. O formigamento em minha pele não aliviaria enquanto me mantivesse ali, ao lado dela, sendo forçado a conviver com tudo aquilo que era tão difícil de reconhecer.
Afastei-me, por fim, centímetro por centímetro, como se o menor dos movimentos pudesse acordá-la ou, pior ainda, me fazer voltar. Sentei na beira da cama e fiquei ouvindo. Sua respiração parecia constante, inalterada. Continuava adormecida.
Levantei-me, então, e fui recebido pelo ar frio que parecia quase rarefeito. Virei-me e meu olhar recaiu sobre ela. Mesmo fora de seu alcance, sentia-me atraído por ela, para ela. De qualquer modo, era incapaz de voltar atrás. Porque ficar significaria ter de encarar aquilo, encarar a maneira como algo dentro de mim se inclinava para ela com tanta facilidade e, ao mesmo tempo, recusava-se a se entregar. Que a amava e não conseguia lhe dar o mínimo. Era insuportável.
Passei a mão pelo rosto, tentando acalmar algo que não se aquietava. Havia um maldito lugar onde esse tipo de coisa não acontecia. Onde nada precisava ser nomeado e o silêncio ou palavras sem significado eram esperados. Lá, perguntas não existiam a menos que as permitisse, e tudo seguia um padrão conhecido. Era tudo controlado, previsível, mecânico… Seguro de um jeito que jamais seria com ..
Curvei os dedos ao lado do corpo, ainda olhando para a mulher deitada em nossa cama. Havia uma verdade implacável ali: já falara mais dela para a Madame — nos quartos silenciosos e pouco iluminados do bordel na Rua da Seda — do que jamais tinha falado com a própria ..
Desviei o olhar em um ato desesperado e agarrei as roupas, o frio do tecido era um contraste gritante com o calor da cama compartilhada. Saí da parte privada dos aposentos sem olhar para trás, afinal, se me virasse antes de atravessar a divisória fixa de madeira, talvez não fosse capaz de sair.
Essa noite pedia uma fuga mais do que qualquer coisa. Não da mulher que eu deixava para trás. Nunca dela. . não tinha feito nada de errado. A culpa era minha, como de costume. Precisava escapar daquilo; de qualquer ternura perigosa que me ameaçava cada vez que ela me olhava, me tocava ou respirava próxima a mim com muita tranquilidade enquanto dormia. Eu não sabia como agir, e parecia simplesmente impossível aprender.
Era de distância que precisava.
Na câmara externa dos aposentos compartilhados, o ar estava pesado com o silêncio solitário. No entanto, era quase distante o suficiente para conseguir fingir que ela não estava a poucos passos de distância, com o coração levemente aberto e muita compreensão para oferecer. Quase.
— Malditos deuses — murmurei, revirando o olho.
A ausência dela me envolvia como algo frágil e falso, pois era isso o que de fato era. Virei-me, então. Através dos pequenos buracos na madeira entalhada do biombo, assim como por uma parte da pequena abertura que servia de porta, eu ainda podia vê-la. Uma forma que já conhecia bem demais para confundir, mesmo em fragmentos.
Por fim, comecei a me vestir, com movimentos rápidos, desejando que a velocidade acalmasse a inquietação que corroía minhas costelas. Na Rua da Seda, ninguém esperava e não havia compreensão verdadeira de que eu não tivesse pedido; era tudo em um sentido superficial, quase seguro. Lá, podia falar sem ser realmente visto. E isso era mais fácil, porém não era melhor. Nunca melhor. Mas “mais fácil” era algo administrável, ao menos por enquanto.
Ainda assim, a vergonha me inundava com águas geladas e cortantes. O silêncio se tornara sufocante, e cada farfalhar de tecido parecia gritar acusações; cada respiração ecoava em meus ouvidos como reprimendas. Estava indo embora, fugindo… de novo. E . sabia para onde. Sabia antes mesmo do casamento e continuava a saber. Mas não era como se ela mesma não tivesse estado com outros homens, não é? Eu sabia bem disso, assim como tinha certeza de que a noite em que conversamos sobre aquele maldito escudeiro que a engravidara não fora a única noite em que ela tomara chá da lua.
Não. Eu estava sendo injusto com ela. . não tinha estado com mais ninguém desde que nos casamos. E mesmo assim, nunca havia questionado minhas idas ao bordel; até tinha esperado que fosse para lá quando retornasse de Ponta Tempestade. Talvez fosse por isso mesmo que a vergonha se enroscava como uma serpente em meu estômago.
Fechei o manto e andei até a porta, mas parei antes de abri-la. A voz de . ecoou em minha mente, suave e sonolenta do momento em que me contara que costumava discutir com Alicent: “E geralmente tem a ver com você”. A lembrança pesou em meu peito. Aquela confissão silenciosa e descuidada, dita sem orgulho nem expectativa, como se não significasse nada quando, na verdade, significava tudo.
E, de repente, fugir já não parecia tão fácil. Afinal, ela me defendia até contra a minha mãe. Não me movi, apenas por um instante. Porque voltar ainda era possível. A cama permanecia lá, minha ābrazȳrys ainda estava lá, esperando sem saber que esperava.
Mas esse era justamente o problema.
Não, não podia voltar. Não agora. Não assim. Não quando estar ao lado dela exigia algo completo — algo real —, algo que eu não sabia como conceder, como ser. Não quando ela me olhava e via, sem esforço algum, tudo o que eu mantinha enterrado e, mesmo assim, permanecia e me escolhia. Ela era quem deveria estar fugindo.
Fechei o olho, algo sufocante prendendo minha garganta. Vergonha, é claro. Por ela. Pelo que me dera. Pelo que eu não era capaz de retribuir. E pior… Vergonha por mim. Porque, mesmo agora — sabendo de tudo, sentindo tudo —, ainda estava escolhendo isso. O mesmo caminho, o mesmo lugar, o mesmo alívio vazio. Previsível. Patético demais. Uma falsa segurança fácil.
— Maldito seja — o xingamento escapou.
E então abri a porta e fugi, porque essa era a única coisa que ainda sabia fazer. O corredor estava tão frio quanto eu tentava ser, e cada passo me levava para mais longe de nossos aposentos, de .. Mas não se parecia com liberdade. De jeito nenhum. Parecia retrocesso. Uma fuga covarde… como todas as outras vezes.