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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 31/10/2025

1995, 3:14 am, Rhode Island
Casa dos Warren


Em meio ao silêncio, alguém se move. Passos, se é que podem ser chamados assim, são dados de uma maneira que beira o experimental, de joelhos, como um ser que está acordando depois de anos, aprendendo como existir em um mundo já desconhecido.

Palmas encontraram o piso de madeira, implorando por um apoio singelo; não há dor, apesar do assoalho frio contra sua pele. Nenhuma farpa morde a isca, então, ela continua, como as traças determinadas a roer cada pedaço que mantém a casa em pé.

A persistência é admirável. Ela empurra o chão, buscando algum apoio para se erguer, caí sozinha e é reconfortada pelo estrondo da própria queda. Isso não a para, não a faz chorar: ela vai conseguir sair daquele lugar, ela tem que conseguir.

A quietude do lugar está emaranhada nas paredes como tranças. Se você fechar os olhos, a sensação se assemelha a estar em um cemitério — com o museu que reside no porão da casa, é até pior que isso. Um purgatório sem os gritos.

A calmaria é cortada pelo som há um cômodo de distância: dentro da casa, o sino dos mensageiros toca, o metal do objeto que só se move com vento batendo um contra o outro, apesar de todas as janelas estarem trancadas.

Ela senta no chão, erguendo o rosto com curiosidade. Não pode ver o enfeite, muito mas sente a brisa em seu pequeno corpo. A interrupção, entretanto, não passa se um remanso; tão sútil e afável que nem sequer é registrado.

Assim, a criatura volta ao seu entretenimento. Empurrando o chão com as palmas, sem qualquer apoio. Não há maneira de se levantar assim, quando seus membros ainda são moles e desastrados, mas ela é teimosa. Tenta um pouco mais e, dessa vez, uma mão gelada surge em seu antebraço, servindo de apoio para ela ficar de pé.

A confusão perde o lugar para o excitamento em finalmente conseguir se levantar. Ela dá um sorriso, soltando um riso infantil travesso enquanto tenta andar seu cair. A sensação de alguém segurando-a não vai embora.

Então, o silêncio quebradiço se estilhaça.

— Eren! Ah, meu Deus! — Judy, a primogênita dos Warren, escancara os olhos ao encontrar sua filha dando os primeiros passos na sala da casa dos pais. — MÃE, PAI!

Não demora muito para que Lorraine e Ed Warren apareçam em cena, afobados pelos gritos da filha, apesar da voz faltar a qualquer tipo de horror.

Depois dos acontecimentos de 86 na casa dos Smurl, eles haviam se tornado ainda mais protetores com ela. E, honestamente, quem poderia julgá-los?

— Judy, o que aconteceu? — Ed pergunta ao entrar no cômodo, seguido pela esposa. Mesmo após décadas juntos, eles eram uma constante imparável: onde ela estava, ele estaria. Seja no inferno, nas mãos de um demônio ou na sala-de-estar no meio de um domingo monótono.

— Está tudo bem? — É a vez de Lorraine perguntando, escaneando o rosto da filha em busca de algo fora do comum.

Absorto em sua própria preocupação, eles nem haviam notado o que estava acontecendo.

— Ela está andando! — Judy exclama e aponta para a Eden, que ainda está de pé e exibe um sorriso infantil, alheia ao desespero singelo dos avós. Os dois soltam um suspiro aliviado, e logo esse sentimento é substituído por pura euforia.

— Meu Deus! — A médium exclama, seu peito repleto de amor e carinho. Estava tudo bem, ela repete para si mesma, tentando sair do sentimento de angústia. É difícil balancear as próprias emoções com seu dom às vezes, mesmo depois de tantos anos. Mas, agora, ela não pode dizer que tem arrependimentos. Não quando o seu sonho virou realidade, gastando o resto da sua vida com a sua família, enquanto tantas outras têm essa oportunidade por causa do trabalho deles.

Isso a acalma, traz um sorriso para o seu rosto e tranquilidade para o seu espírito sensível. A matriarca só desejava que sua caçula pudesse estar lá para presenciar isso também.

— Ela está.. Ela está de pé! — Ed diz, maravilhado com a cena. — Você pode vir para o vovô? Vamos lá, vem para o vovô!

— Eu tenho que pegar a câmera! Onde eu deixei ela ontem?

O som das conversas em família começam a ficar abafados, como se Lorraine tivesse entrado em um quarto e trancado a porta; ou alguém tivesse a empurrado para fora daquela realidade. Ela consegue ouvir eles falando, distinguir as vozes do marido, os passos apressados da filha buscando pelo aparelho fotográfico, os risos altos da neta. Mas tudo parece estar em segundo plano, parece que algo está tapando seus ouvidos de propósito e sussurrando algo.

A visão clara da sua Eden arriscando andar até Ed se torna turva, o tempo para apenas para a sensitiva. Lorraine engole em seco ao sentir a brisa gélida em seu corpo, tinha algo errado. No fundo da sua mente, uma imagem começa a se formar, os murmurinhos desconexos ficam mais altos. Ela não desvia, não manda embora. Alguma coisa está acontecendo e parece diferente, seu peito dói de um jeito que só machucou quando Judy caiu da bicicleta, ou escorregou na escada, ou Ed teve o primeiro ataque cardíaco. É pessoal.

O gosto de sangue em sua boca não deixa dúvidas.

A visão se torna clara como um filme em suas pálpebras. gritando, sangue, fogo. Um homem. O cheiro de pólvora. O toque dele na mão da sua filha mais nova, tentando puxá-la. O baque de uma porta. O desespero palpável que cheirava como um banquete para o que quer que fosse aquilo. O jeito que ele parecia feliz em devorar a alma dela enquanto a sua pobre bebê agonizava e clamava por uma coisa como se fosse uma reza:

— Mãe?

A voz de Judy, seguida pelo toque gentil em seu ombro, puxa Lorraine de volta para o momento. Seus ossos doem como se ela tivesse corrido uma maratona, sua respiração entrecortada. Seus olhos azuis encontram o da mãe, que pisca algumas vezes para se ajustar à realidade.

— Tudo bem, querida?

Ed pergunta, claramente preocupado. Não a empurra, não a força a nada. Ela sempre amou isso nele, parece se apaixonar cada vez mais por aquele homem.

Antes que sua esposa respondesse, o barulho do telefone tocando reverbera pela casa. Parece tão alto que faz as paredes vibrarem e Lorraine sente vontade de vomitar, seu coração pesando no peito.

Ela sabe.

Ergue o olhar para o marido, a voz frágil, mas seu tom não deixa espaço para dúvidas:

— É a . Alguma coisa aconteceu.


Continua...


Nota da autora: Sem nota.

🪐

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