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Revisada por: Sagitário♐

Última Atualização: 31/10/25
— Como você é o único herdeiro, todos os bens de seu avô ficarão para você — o advogado falava. — Então os imóveis, a fábrica, o dinheiro, tudo ficará em nome de Zeffiri.
O jovem de 20 anos nem ergueu os olhos. Havia acabado de perder o único ente vivo que tinha. Seus pais morreram quando tinha 12 anos em um acidente de carro, sua irmã faleceu aos 15 anos afogada na piscina de casa, sua avó materna de hipotermia, a paterna de atropelamento — não é todo dia que uma búfala ganha a briga contra um carro em chamas —, e seu avô paterno, ele nem a chegou conhecer.
O único membro que lhe restara era o avô Giuseppe, e agora ele também havia ido. Ao menos foi de um simples ataque cardíaco aos 87 anos, quase como um alento. O desastre acompanha sua família, parecia que ele estava sempre esperando o momento em que fosse sua vez de seguir para o plano de cima.
? — o advogado lhe chamou e o jovem se ajeitou na poltrona do escritório com decoração antiga de seu avô.
— Sim?
— Você entendeu o que eu lhe disse?
— Sim, entendi, tudo é meu. — Ele negou com a cabeça. — Não é o que estou preocupado agora, você sabe. — O advogado da família lhe deu um aceno. Já havia lido diversos testamentos para , mas a cada ano que passava, ele ficava cada vez mais apático, triste.
— Eu sei, mas eu mencionei Bagnoregio... — ele disse.
— O que tem? Não é aquela Villa abandonada? — perguntou, se mexendo na cadeira antiga.
— É, mas não exatamente. Existem alguns moradores lá, controle da região, mas a Villa é de sua família, e agora de sua propriedade.
— Ok, deixe-a lá. Não vou me preocupar em dar uma volta em Viterbo agora.
— O que eu quero dizer, é que a prefeitura abandonou a cidade — o advogado disse do outro lado da longa mesa de cerejeira. — Os poucos habitantes gostariam de uma posição de como a cidade ficará agora. Se eles devem buscar outro lugar para morar...
— Creio que sim, não?
— Alguns acham que ela pode servir de turismo — o advogado o interrompeu. — O mistério em volta da cidade é grande.
— Que mistério? — disse rindo. — O tal “sussurro” que muitos ouvem? — Ele abanou a mão. — Isso é o vento, é só mais uma história de pescador. — O vento lá fora se intensificou, como se risse dele. O advogado suspirou, fechando sua maleta com o mesmo baque que gotas de chuva começavam a bater na janela.
— Bem, independente na sua crença e de outros, sugiro uma visita a Civita di Bagnoregio, para entender os interesses dos moradores e o que pode ser feito agora.
— Mas eu...
— Ou venda! — o advogado disse sério. — Isso foi um pedido em especial do seu avô.
— Ele vai tirar a herança de mim se eu não honrar? — perguntou cansado.
— Não, mas você sabe o quanto ele gostava de lá e das histórias... e o quanto ele gostava de você.
suspirou, sentindo a dor da perda forçar novamente em seu coração e suspirou, passando a mão na testa.
— Ok, eu vou dar atenção a isso.
percebeu que estava sozinho na sala e deixou o corpo escorregar na cadeira. Raios e trovões criavam imagens estranhas nas tapeçarias antigas. Ele encarou o quadro enorme do avô e puxou o ar fundo, como se pudesse responder ao olhar severo que o retrato lhe lançava.
O lugar precisava urgentemente de uma reforma. Ou de um exorcismo. Talvez os dois.




Conforme o carro se aproximava de Bagnoregio, parecia que a bonita paisagem da região de Viterbo ficava mais amarelada com a quantidade de montanhas e a pouca vegetação seca que a acompanhava.
Até o carro — alugado para não precisar viajar horas e horas direto de Como — parecia estar começando a desistir da vinda. Os pequenos barulhos e os casuais superaquecimento do motor não me pareciam coincidência.
Tudo parecia conspirar contra minha ida à Villa Ventura ou Civita di Bagnoregio, como o restante da Itália conhecia. A história vinha de muito antes de Cristo, e por algum motivo, há alguns 500 anos, essa Villa ou cidade de 13 moradores pertencia a mim agora.
Em meio a trancos e barrancos, consegui me aproximar da Villa. Uma longa ponte, que não permitia a passagem de carros, levava a ela. Estacionei o carro fora da via e saí, observando a cidade em cima de uma única montanha.
Parecia que a sombra pairava apenas sobre ela, mesmo sendo a mais alta entre tantas. O sol alaranjado cobria o restante da paisagem, mas ali… o céu parecia cinzento.
Um nublado que não fazia sentido.
Chequei o horário, conferindo que era quase cinco horas, mas era verão, o sol demoraria a se pôr ainda.
Me aproximei da passarela, abrindo um lado e segui por ela. Um vento forte me atingiu, bagunçando meus cabelos, e me obrigou a segurar as mãos nas laterais da fina passarela com medo de sair voando. O vento frio arrepiava minha pele e os pelos de minha nuca.


“Ma...tteo.”

O vento parecia soar meu nome, fazendo com que eriçassem os pelos de minha espinha. Meus olhos atingiram o desfiladeiro lá embaixo e foi como se meu estômago parasse por alguns segundos, me obrigando a engolir em seco.
— Não agora, Senhor!
A força do vento era tanta que realmente parecia querer me derrubar, mas coloquei minhas pernas em movimento, chegando do outro lado quase correndo, sentindo a velocidade do vento reduzir um pouco em meio a um corredor, e somente o barulho atingia meus ouvidos.
...
Ma...tteo.

— Eu hein?! Não sei como as pessoas fazem turismo aqui.
— Turista?
— AH! — Dei um pulo ao ver uma velha senhora aparecer por uma janela gradeada. — Me desculpe, me desculpe! — Passei as mãos em meus cabelos, suspirando.
— Estamos fechados, visitas só de fim de semana. — Sua voz era seca, como se o fumo tivesse desgastado cada sílaba.
— Não, senhora... — Eu a impedi de fechar a janela, sentindo minha mão arder no impulso. — Eu sou Zeffiri... — Suspirei. — Eu herdei essa Villa.
— Ah, o neto de Giuseppe — ela disse com desdém, revirando os olhos... o olho, na verdade. Um deles era costurado.
— Sim! Me disseram para vir aqui, para entender as necessidades dos moradores e... bem, talvez ajudar. — Me embaralhei nas palavras. — Com quem posso falar?
— Você precisa falar com a zeladora.
— E quem é...
— Mas ela não deve querer falar com você essa noite, é lua nova. — Sua voz era seca e olhei para seu olho novamente, me fazendo desviar no impulso.
— E como posso encontrá —la? — perguntei.
— Ela vai te encontrar quando for a hora. — Franzi a testa, segurando a janela novamente.
— Hora? — Balancei a cabeça. — Me desculpe, senhora, eu não quero ser rude, mas gostaria de resolver isso o mais breve possível.
— Se for passar a noite aqui, a casa do senhor Giuseppe fica na praça central. Vai se sentir confortável lá. — Ela me ignorou totalmente.
— Mas eu...
— Boa noite! — ela disse, e puxei a mão rapidamente antes de ouvir a janela fechar em um baque.
— Mas que mer...
Miau.
Virei o rosto para o lado, vendo um gato preto me encarando.
— Eu não tenho comida! — falei.
Miau, ele repetiu.
— Sai daqui! Chispa! — Bati o pé em sua direção e ele se manteve imóvel. — Eu não vou te adotar. — Revirei os olhos, virando para a passarela novamente.
Cogitei voltar até o carro e pegar minha mochila, mas não estava disposto a sofrer outra rajada de ventos, muito menos um encontro antecipado com meu Senhor Jesus Cristo.
— Espero que meu avô tenha algo que sirva... — Senti o vento arrepiar minha espinha novamente. — E algo quente.
Suspirei, virando pelo corredor e adentrei Bagnoregio.
A senhora disse sobre a casa na praça central. Não devia ser tão difícil, afinal, parecia que a cidade seguia um longo corredor, com pequenas bifurcações que terminavam em grades de casas particulares.
Quando cheguei na praça central, não era exatamente o que eu estava pensando, era um largo, talvez com 10 por 10 metros e uma fonte seca no meio. Uma grande igreja, algumas pequenas casas e uma maior, a única com flores vivas. Achei óbvio! Me aproximei da mesma e uma placa me recebia “Casa dei ”.
— Se for sempre assim, vai ser fácil. — Dei de ombros, rindo comigo mesmo.
Miau.
Virei para o gato novamente, vendo que ele tinha me seguido até ali.
— Sai daqui! Xô! — Ameacei jogar algo nele, mas ele novamente não se mexeu. — Pelo menos você não conheceu violência. — Suspirei.
Ignorei o gato e bati na porta, dando dois toques, mas a porta se abriu sozinha no segundo toque. Empurrei a mesma, sentindo um gostoso cheiro de camomila no ar.
— Com licença? — Me aproximei devagar.
O local estava limpo e renovado. O chão e móveis brilhavam, não tinha teia de aranha e parecia que nenhum bicho estranho apareceria para me dar um susto. A decoração antiga, similar à mansão em Como, se mesclava com o cuidado do atual morador.
— Com licença? — falei novamente.
O local era pequeno, parecia um largo quarto de hotel com antessala, um escritório, pequena cozinha, banheiro e um largo quarto, mas todos os cômodos pareciam recém —limpos.
Como se eu fosse esperado.
— Com licença —a —a —a? — Falei novamente, procurando alguma pessoa para me recepcionar.
Entrei na cozinha e o cheiro de camomila foi denunciado pelo bule de chá ainda em cima do forno ligado, com um pouco de fumaça saindo dele e uma xícara pronta para recebê —lo ao seu lado.
Parecia um convite.
— Tem alguém aqui? — falei um pouco mais alto, mas o silêncio prevaleceu.
Caminhei pela casa novamente, à procura de algum, de algo, ou até de um bilhete, mas não tinha nada. E eu não tinha nenhuma escolha, achava que tudo bem eu passar a noite. E se a pessoa aparecesse depois... Bem, aí conversaríamos!
Mexi nos armários e tinha algumas peças de roupas masculinas, mas, em sua maioria, eram femininas. Será que minha avó visitava aqui com frequência? As roupas estavam limpas e passadas, e ainda com um cheiro gostoso de amaciante no tecido.
Não me preocupei com isso naquele momento, só queria um longo banho e descansar. Será que tinha água quente?
O bule de chá apitou, me assustando.
— Ah, mais essa agora.

Encontrei um pijama com aparência antiga, mas ele estava limpo e com um delicioso cheiro de amaciante.
O banheiro também estava limpo. A larga banheira era convidativa, então me obriguei a abrir as torneiras. O barulho dos canos rangendo fez minha espinha arrepiar, lembrando um animal preso arranhando por dentro, mas logo a água começou a cair quente. Fumegante.
Me permiti cheirar alguns frascos de vidro que estavam na prateleira e coloquei algumas gotas de um, algumas de outro, até me ver em um verdadeiro banho de espumas.
Relaxei o corpo na água, sentindo a tensão das horas de viagem se desfazer pouco a pouco. Sempre tive quem dirigisse para mim; estar sozinho até aqui me deixava mais vulnerável do que eu admitiria.
Tomei o banho em silêncio, permitindo ouvir o ranger dos canos misturado ao vento lá fora.
...

Podia jurar que me acostumaria com esse som, mas a impressão de ouvir meu nome fazia minha espinha se eriçar toda vez. Não sei como existiam pessoas que queriam visitar, ou pior, morar aqui.
O banho terminou quando o rangido dos canos ficou mais alto, quase constante, como se algo subisse lentamente por eles. Não estava disposto a descobrir. Vesti o pijama e segui para a cozinha. O chá já estava pronto, então me sentei à beira da janela com a xícara, observando a tempestade que ameaçava cair.
A cada gole, raios iluminavam a paisagem lá fora. Ao fundo, ainda havia alguma claridade, mas dentro da cidade parecia ser facilmente meia—noite, embora soubesse que estava longe disso.
Tentei ligar o celular, mas estava sem bateria. O relógio havia ficado no banheiro.
Enquanto encarava os fachos de luz lá fora, misturando —se ao vento que sacudia as árvores e às gotas grossas que escorriam no vidro, senti algo estranho se formar dentro de mim. Algo inexplicável.
Ao som de um forte trovão, a paisagem se iluminou, revelando o gato preto espreitando a janela.
— A —A —A —AH! — Caí no chão, deixando a xícara para um lado e o pires se espatifar do outro. — Ah, gato maldito!
Respirei fundo, me levantando, mas me assustei ao ver algo no canto da parede. Meus olhos seguiram rápido para lá, só para encontrar a porta do armário aberta e meu reflexo no espelho.
Cazzo… — murmurei. — Vai ser difícil.
Puxei as cortinas, deixando o quarto iluminado apenas por algumas lamparinas amarelas. Estava escuro, mas pelo menos não havia chances de ninguém me assustar.
Eu achava.
Tive a impressão de estar sendo observado. Os sons lá fora pareciam ter silenciado. Nem a chuva caindo era mais audível.
A única coisa que persistia era o vento. E seu chamado macabro.
...

Eu só precisava descobrir o que ele queria.
Ou se era coisa da minha cabeça.
Antes que eu terminasse esse pensamento, ouvi um arranhar suave na porta do quarto.




Acordei com a sensação de que um caminhão tinha passado por cima de mim.
Perdi as contas de quantas vezes despertei durante a noite. Sempre com a impressão de que alguém me observava — primeiro, uma silhueta de cabelos longos no canto do quarto; depois, o maldito gato que rondou a casa na noite anterior.
Mas toda vez que eu abria os olhos… o quarto estava vazio.
A luz que entrava pelas janelas era amarelada, pesada. Nenhum sinal da tempestade que eu jurava ter visto.
O silêncio era tão denso que parecia ocupar o ar, como se até o vento prendesse a respiração.
Caminhei até o banheiro, ainda atordoado, e parei de repente.
A xícara e o pires estavam sobre a mesinha de apoio — inteiros, limpos, como se nunca tivessem se espatifado no chão.
O vapor subia da borda da xícara, como se alguém tivesse acabado de deixá-la ali.
Dei dois passos para trás.
— Mas... isso não estava aqui... — murmurei, o coração disparando.
Olhei para o chão: sem cacos, sem manchas, sem nada.
— Eu estou sonhando. Eu só posso estar sonhando! — resmunguei, antes de correr para o banheiro e jogar água fria no rosto.
— Eu estou louco, eu estou louco... — repetia para o espelho embaçado.
Mas e se não fosse sonho?
E se a tal zeladora tivesse aparecido durante a noite?
Ela poderia ter limpo, preparado o chá, ajeitado tudo…
Balancei a cabeça. Impossível. Eu vi o pires quebrar. Eu ouvi o som.
— Isso é loucura — murmurei, pegando a roupa do dia anterior.
Precisava encontrá-la. Antes que a cidade inteira me enlouquecesse.
O cheiro me atingiu assim que entrei na cozinha.
Fermento. Pão fresco.
Um pão italiano enorme estava sobre a bancada, cortado, ainda quente.
— Pão... — sussurrei, aproximando—me. — Tem alguém aí?
Nada. Nenhum som, além do vento lá fora.
Por um instante, tive certeza de ouvir passos do telhado — mas o som cessou antes que eu olhasse.
A fome venceu o medo. Peguei uma fatia, mastigando devagar. O gosto era bom demais para ser envenenado — pelo menos era o que eu queria acreditar.
— Não precisa ser louco também... — murmurei para mim mesmo.
Seja quem fosse essa zeladora, ela cozinhava melhor do que eu.
Mas eu precisava vê-la. Entender o que estava acontecendo.

Saí da casa. A praça central estava quase deserta, envolta numa luz esbranquiçada.
O ar parecia imóvel — como se o tempo tivesse parado ali.
O chão de pedra ainda úmido refletia o sol fraco.
O ar estava frio, mas o suor escorria pela minha nuca.
O miado ecoou.
Miau.
O gato preto estava sentado na beira da fonte seca, como se me esperasse.
— Ah, você de novo! — resmunguei. — Você deve ter um dono, né? Ninguém mora aqui...
— Turista?
— A —A —AH! — Dei um salto e virei para o lado. Um senhor franzino me observava, segurando uma pequena sacola.
— Me desculpe, senhor, eu...
— Turismo só aos fins de semana — disse ele, com a voz rouca e sem pressa.
— Eu sei... Eu sou .
— Neto de Giuseppe e Alana. — Ele me encarou com olhos pequenos, mas atentos.
— Sim... — respondi, surpreso.
— Seu avô dizia que você viria. Ninguém acreditou.
— Ele sempre falava dessa cidade... — murmurei.
— Algumas coisas marcam. — O sorriso do velho tinha um semblante de dor e angústia.
— Me disseram que há uma zeladora cuidando da Villa, mas eu ainda não a encontrei.
— Ah, ela. — Ele fez uma pausa. — Ela não aparece muito.
— É... ruim?
— Não. — Ele abanou a mão. — Só... aparece quando quer.
— Foi ela que limpou a casa?
— Pode ser. — Ele deu de ombros. — Ela estava por aqui ontem à noite.
— E como eu faço para encontrá-la?
— Ninguém encontra a zeladora, rapaz — disse o velho, virando —se. — Ela é quem encontra você.
Ele olhou por cima do ombro, com um brilho estranho nos olhos.
— Quando ela quiser que você a veja, você vai ver. E vai entender.
Antes que eu pudesse insistir, ele já se afastava lentamente.
O gato, claro, continuava me observando.
Agora, parecia que sorria em deboche.
— O que você quer, hein?!

A igreja era o único prédio que parecia vivo.
O interior cheirava a cera e limpeza — tão limpo que parecia novo.
Os vitrais deixavam a luz entrar em tons vermelhos e dourados, como se o sangue e o ouro disputassem espaço nas paredes.
— Com licença? — chamei, caminhando até o altar. — Alô?
— Sim... — respondeu uma voz rouca, surgindo da sacristia. Um padre idoso, curvado, apoiado numa bengala.
— Olá, senhor. Eu sou , neto de Giuseppe. Vim cuidar da Villa.
— O neto... — repetiu ele, pensativo. — Faz tempo que a família não volta.
— Meu avô morreu. — Ele ergueu o olhar para mim.
— Sinto muito. — Ele inclinou a cabeça em compreensão.
— Preciso falar com a zeladora.
O padre franziu o rosto.
— Quem?
— A zeladora! — falei mais alto, com a impressão de que fosse problema de surdez pela feição velha dele.
Ele piscou algumas vezes, como se buscasse a lembrança.
— Ah... ela. — A palavra saiu quase num sussurro.
— Sabe onde posso encontrá-la?
Ele demorou a responder.
— Meu jovem... — disse por fim. — Ela aparece quando a casa chama. Não antes.
— E quando a casa chama? — insisti.
O padre se inclinou um pouco mais, a sombra da vela oscilando no rosto enrugado.
— Quando o vento muda de direção. — Ele se virou devagar para a sacristia. — Se eu fosse você, voltava de onde veio.
— Por quê?
O padre parou, e sua voz quase sumiu:
— Porque... quem fica aqui... faz parte da maldição — E entrou de volta, sumindo na penumbra.
Fiquei ali, parado, ouvindo o eco dos passos dele se apagarem.
— Que maldição? — Perguntei mais alto, mas a porta se fechou num baque.
Antes que eu saísse, ouvi um sussurro fraco vindo do castiçal:

O som parecia vir de dentro das paredes.

Meu sangue gelou.
Corri para fora e o gato estava lá — claro que estava — sentado no primeiro degrau da igreja.
Dessa vez, ele não miou. Só me olhava, imóvel.
Eu respirei fundo.
— Certo... vamos fazer do seu jeito, então.

Segui o caminho oposto à praça, decidido a entender o que havia naquela cidade.
As casas estavam vazias. As poucas pessoas que cruzavam meu caminho diziam sempre a mesma palavra:
“Turista?”
E, quando eu mencionava a zeladora, vinham olhares de medo ou desprezo.
Eu estava começando a ficar com medo dessa zeladora, mas o mistério e as coincidências me chamavam à buscar cada vez mais.
O vento começou a soprar forte, levantando poeira e folhas secas.
E foi então que ouvi, misturado ao som do ar:

Olhei em volta. Nada.
Mas, por um instante, juro que senti o cheiro do mesmo amaciante do pijama.
E tive certeza: alguém — ou algo — estava me observando.
De novo.



Continua...


Nota da autora: Oi, gente! Bem-vindos à Il Sussurro della Villa, minha primeira fic com vibe mais mistério e suspense! Esse enredo é antigo e fico feliz que posso usá-lo aqui! Espero que gostem e não se esqueçam de comentar! <3

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