Conforme o carro se aproximava de Bagnoregio, parecia que a bonita paisagem da região de Viterbo ficava mais amarelada com a quantidade de montanhas e a pouca vegetação seca que a acompanhava.
Até o carro — alugado para não precisar viajar horas e horas direto de Como — parecia estar começando a desistir da vinda. Os pequenos barulhos e os casuais superaquecimento do motor não me pareciam coincidência.
Tudo parecia conspirar contra minha ida à Villa Ventura ou Civita di Bagnoregio, como o restante da Itália conhecia. A história vinha de muito antes de Cristo, e por algum motivo, há alguns 500 anos, essa Villa ou cidade de 13 moradores pertencia a mim agora.
Em meio a trancos e barrancos, consegui me aproximar da Villa. Uma longa ponte, que não permitia a passagem de carros, levava a ela. Estacionei o carro fora da via e saí, observando a cidade em cima de uma única montanha.
Parecia que a sombra pairava apenas sobre ela, mesmo sendo a mais alta entre tantas. O sol alaranjado cobria o restante da paisagem, mas ali… o céu parecia cinzento.
Um nublado que não fazia sentido.
Chequei o horário, conferindo que era quase cinco horas, mas era verão, o sol demoraria a se pôr ainda.
Me aproximei da passarela, abrindo um lado e segui por ela. Um vento forte me atingiu, bagunçando meus cabelos, e me obrigou a segurar as mãos nas laterais da fina passarela com medo de sair voando. O vento frio arrepiava minha pele e os pelos de minha nuca.
…
…
“Ma...tteo.”
O vento parecia soar meu nome, fazendo com que eriçassem os pelos de minha espinha. Meus olhos atingiram o desfiladeiro lá embaixo e foi como se meu estômago parasse por alguns segundos, me obrigando a engolir em seco.
— Não agora, Senhor!
A força do vento era tanta que realmente parecia querer me derrubar, mas coloquei minhas pernas em movimento, chegando do outro lado quase correndo, sentindo a velocidade do vento reduzir um pouco em meio a um corredor, e somente o barulho atingia meus ouvidos.
...
Ma...tteo.
— Eu hein?! Não sei como as pessoas fazem turismo aqui.
— Turista?
— AH! — Dei um pulo ao ver uma velha senhora aparecer por uma janela gradeada. — Me desculpe, me desculpe! — Passei as mãos em meus cabelos, suspirando.
— Estamos fechados, visitas só de fim de semana. — Sua voz era seca, como se o fumo tivesse desgastado cada sílaba.
— Não, senhora... — Eu a impedi de fechar a janela, sentindo minha mão arder no impulso. — Eu sou Zeffiri... — Suspirei. — Eu herdei essa Villa.
— Ah, o neto de Giuseppe — ela disse com desdém, revirando os olhos... o olho, na verdade. Um deles era costurado.
— Sim! Me disseram para vir aqui, para entender as necessidades dos moradores e... bem, talvez ajudar. — Me embaralhei nas palavras. — Com quem posso falar?
— Você precisa falar com a zeladora.
— E quem é...
— Mas ela não deve querer falar com você essa noite, é lua nova. — Sua voz era seca e olhei para seu olho novamente, me fazendo desviar no impulso.
— E como posso encontrá —la? — perguntei.
— Ela vai te encontrar quando for a hora. — Franzi a testa, segurando a janela novamente.
— Hora? — Balancei a cabeça. — Me desculpe, senhora, eu não quero ser rude, mas gostaria de resolver isso o mais breve possível.
— Se for passar a noite aqui, a casa do senhor Giuseppe fica na praça central. Vai se sentir confortável lá. — Ela me ignorou totalmente.
— Mas eu...
— Boa noite! — ela disse, e puxei a mão rapidamente antes de ouvir a janela fechar em um baque.
— Mas que mer...
Miau.
Virei o rosto para o lado, vendo um gato preto me encarando.
— Eu não tenho comida! — falei.
Miau, ele repetiu.
— Sai daqui! Chispa! — Bati o pé em sua direção e ele se manteve imóvel. — Eu não vou te adotar. — Revirei os olhos, virando para a passarela novamente.
Cogitei voltar até o carro e pegar minha mochila, mas não estava disposto a sofrer outra rajada de ventos, muito menos um encontro antecipado com meu Senhor Jesus Cristo.
— Espero que meu avô tenha algo que sirva... — Senti o vento arrepiar minha espinha novamente. — E algo quente.
Suspirei, virando pelo corredor e adentrei Bagnoregio.
A senhora disse sobre a casa na praça central. Não devia ser tão difícil, afinal, parecia que a cidade seguia um longo corredor, com pequenas bifurcações que terminavam em grades de casas particulares.
Quando cheguei na praça central, não era exatamente o que eu estava pensando, era um largo, talvez com 10 por 10 metros e uma fonte seca no meio. Uma grande igreja, algumas pequenas casas e uma maior, a única com flores vivas. Achei óbvio! Me aproximei da mesma e uma placa me recebia “Casa dei ”.
— Se for sempre assim, vai ser fácil. — Dei de ombros, rindo comigo mesmo.
Miau.
Virei para o gato novamente, vendo que ele tinha me seguido até ali.
— Sai daqui! Xô! — Ameacei jogar algo nele, mas ele novamente não se mexeu. — Pelo menos você não conheceu violência. — Suspirei.
Ignorei o gato e bati na porta, dando dois toques, mas a porta se abriu sozinha no segundo toque. Empurrei a mesma, sentindo um gostoso cheiro de camomila no ar.
— Com licença? — Me aproximei devagar.
O local estava limpo e renovado. O chão e móveis brilhavam, não tinha teia de aranha e parecia que nenhum bicho estranho apareceria para me dar um susto. A decoração antiga, similar à mansão em Como, se mesclava com o cuidado do atual morador.
— Com licença? — falei novamente.
O local era pequeno, parecia um largo quarto de hotel com antessala, um escritório, pequena cozinha, banheiro e um largo quarto, mas todos os cômodos pareciam recém —limpos.
Como se eu fosse esperado.
— Com licença —a —a —a? — Falei novamente, procurando alguma pessoa para me recepcionar.
Entrei na cozinha e o cheiro de camomila foi denunciado pelo bule de chá ainda em cima do forno ligado, com um pouco de fumaça saindo dele e uma xícara pronta para recebê —lo ao seu lado.
Parecia um convite.
— Tem alguém aqui? — falei um pouco mais alto, mas o silêncio prevaleceu.
Caminhei pela casa novamente, à procura de algum, de algo, ou até de um bilhete, mas não tinha nada. E eu não tinha nenhuma escolha, achava que tudo bem eu passar a noite. E se a pessoa aparecesse depois... Bem, aí conversaríamos!
Mexi nos armários e tinha algumas peças de roupas masculinas, mas, em sua maioria, eram femininas. Será que minha avó visitava aqui com frequência? As roupas estavam limpas e passadas, e ainda com um cheiro gostoso de amaciante no tecido.
Não me preocupei com isso naquele momento, só queria um longo banho e descansar. Será que tinha água quente?
O bule de chá apitou, me assustando.
— Ah, mais essa agora.
Encontrei um pijama com aparência antiga, mas ele estava limpo e com um delicioso cheiro de amaciante.
O banheiro também estava limpo. A larga banheira era convidativa, então me obriguei a abrir as torneiras. O barulho dos canos rangendo fez minha espinha arrepiar, lembrando um animal preso arranhando por dentro, mas logo a água começou a cair quente. Fumegante.
Me permiti cheirar alguns frascos de vidro que estavam na prateleira e coloquei algumas gotas de um, algumas de outro, até me ver em um verdadeiro banho de espumas.
Relaxei o corpo na água, sentindo a tensão das horas de viagem se desfazer pouco a pouco. Sempre tive quem dirigisse para mim; estar sozinho até aqui me deixava mais vulnerável do que eu admitiria.
Tomei o banho em silêncio, permitindo ouvir o ranger dos canos misturado ao vento lá fora.
...
…
Podia jurar que me acostumaria com esse som, mas a impressão de ouvir meu nome fazia minha espinha se eriçar toda vez. Não sei como existiam pessoas que queriam visitar, ou pior, morar aqui.
O banho terminou quando o rangido dos canos ficou mais alto, quase constante, como se algo subisse lentamente por eles. Não estava disposto a descobrir. Vesti o pijama e segui para a cozinha. O chá já estava pronto, então me sentei à beira da janela com a xícara, observando a tempestade que ameaçava cair.
A cada gole, raios iluminavam a paisagem lá fora. Ao fundo, ainda havia alguma claridade, mas dentro da cidade parecia ser facilmente meia—noite, embora soubesse que estava longe disso.
Tentei ligar o celular, mas estava sem bateria. O relógio havia ficado no banheiro.
Enquanto encarava os fachos de luz lá fora, misturando —se ao vento que sacudia as árvores e às gotas grossas que escorriam no vidro, senti algo estranho se formar dentro de mim. Algo inexplicável.
Ao som de um forte trovão, a paisagem se iluminou, revelando o gato preto espreitando a janela.
— A —A —A —AH! — Caí no chão, deixando a xícara para um lado e o pires se espatifar do outro. — Ah, gato maldito!
Respirei fundo, me levantando, mas me assustei ao ver algo no canto da parede. Meus olhos seguiram rápido para lá, só para encontrar a porta do armário aberta e meu reflexo no espelho.
— Cazzo… — murmurei. — Vai ser difícil.
Puxei as cortinas, deixando o quarto iluminado apenas por algumas lamparinas amarelas. Estava escuro, mas pelo menos não havia chances de ninguém me assustar.
Eu achava.
Tive a impressão de estar sendo observado. Os sons lá fora pareciam ter silenciado. Nem a chuva caindo era mais audível.
A única coisa que persistia era o vento. E seu chamado macabro.
...
…
Eu só precisava descobrir o que ele queria.
Ou se era coisa da minha cabeça.
Antes que eu terminasse esse pensamento, ouvi um arranhar suave na porta do quarto.