Codificada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 26/02/2026Sabia muito bem o motivo de estar ali, sabia que precisava decidir, mas a decisão não dependia só dela. Jihoon.
Jihoon e ela estavam juntos há quase quatro anos, ela ansiava por um pedido de casamento para que finalmente pudesse se mudar para Incheon. E inclusive estava na cidade para contar á ele da possível vaga de emprego em um hospital de lá.
Aquela possível mudança era uma luz no fim do túnel, uma esperança que a fez respirar aliviada diante da quantidade de problemas que estava enfrentando em Jangheung. O vício do pai em jogos de azar estava acabando com o restante de paz que ela havia lutado tanto para conseguir após a faculdade. A violência na pacata cidade aumentava dia após dia, e ela temia pela vida do pai.
Quem sabe se mudando para Incheon e conseguindo o emprego no hospital, Jihoon poderia finalmente segurar as pontas enquanto ela pagava a dívida do pai?
Foi aí que seus olhos pularam para a porta do ônibus, parando em mais um ponto. Um homem, com alguns machucados, foi o primeiro a subir. reparou rapidamente nos arranhões dispersos pelo rosto do estranho, até que ele se sentou a seu lado no ônibus.
só percebeu que algo estava errado quando o corpo dele se inclinou minimamente em sua direção. Foi um movimento pequeno demais para chamar atenção, quase casual. Então veio o frio.
Não era o frio do ar-condicionado velho do ônibus, nem o arrepio comum de ansiedade — era um gelado preciso, firme, pressionando sua cintura por baixo do casaco. Um metal liso, impiedoso, que fez todo o seu corpo enrijecer no mesmo instante.
Ela prendeu a respiração.
O coração pareceu falhar uma batida antes de disparar de vez, martelando tão alto que teve certeza de que qualquer pessoa ao redor poderia ouvir. Seus dedos se fecharam com força contra a bolsa em seu colo, as unhas cravando no tecido, enquanto a mente corria em desespero, tentando entender se aquilo estava mesmo acontecendo.
O homem não a olhava. Mantinha o rosto virado para frente, como qualquer passageiro comum. Foi isso que mais a apavorou.
— Não grita — a voz dele veio baixa, quase um sopro, perto demais do seu ouvido.
O metal pressionou um pouco mais, o suficiente para lembrá-la de que não era imaginação.
engoliu em seco, sentindo o gosto amargo do medo se espalhar pela boca. Todos os planos, Incheon, Jihoon, o hospital — tudo pareceu distante demais naquele momento. Restava apenas o agora… e a lâmina fria prometendo silêncio.
O homem virou finalmente o rosto na direção dela, aproximando os lábios de seus ouvidos outra vez:
— Me abraça, ou eu vou ter que levar você comigo…
Os olhos de se arregalaram com o pedido totalmente inusitado para um momento como aquele, e num lapso de consciência ela pensou em gritar, ou dizer que não o faria.
Mas a entrada de mais alguns homens no ônibus fizeram o rapaz intensificar o toque da arma branca em sua cintura, e ela enfiou a mão na bolsa retirando o pózinho de canela em pó que carregava desde o café da manhã — um hábito antigo, quase esquecido. O papel amassou sob sua pressão nervosa.
Com o coração aos pulos, ela rasgou a ponta do envelope com o polegar, sentindo o pó fino se espalhar entre seus dedos. Bastaria um movimento errado para tudo acabar ali.
Quando ele a puxou mais perto, exigindo o abraço, obedeceu. Envolveu o braço em torno do tronco dele, como se estivesse rendida… e então deixou o pó escorrer discretamente entre o casaco e a pele do homem.
Em poucos segundos, a reação começou.
A pele exposta dele foi ficando vermelha, quente, irritada de forma súbita. O homem tensionou o corpo, confuso, respirando fundo, como se algo estivesse fora do lugar.
manteve o rosto enterrado no ombro dele, rezando para que aquele breve caos fosse suficiente para quebrar o controle que ele acreditava ter.
O cheiro de suor misturado a algo cítrico que vinha do pescoço dele invadiu as narinas dela, e por um instante ela se permitiu relaxar sob o toque dele, o corpo vacilando de forma automática.
Passou os braços em volta dele, aprofundando o abraço, enquanto ele afundava o rosto em seu pescoço, escondendo o rosto totalmente.
Os outros homens obviamente buscavam por alguém, que logo raciocinou ser o homem que estava agarrado à ela.
O coração dela batia descompassado, o medo tomando conta de tudo conforme eles se aproximavam deles, até que o confronto inevitável aconteceu.
— Peça ao seu namorado para erguer o rosto, rápido! — O homem tinha uma arma prateada apontada na direção deles.
Bum, bum, bum, bum.
O coração de deu mais alguns saltos dentro do peito, ela precisava pensar rápido.
— Meu namorado está com febre, adormecido. E pode ser contagioso… Está vendo o quanto ele está vermelho?
O homem passou o cano da arma sobre o pescoço dele, mirando por dentro do casaco, vendo a pele toda manchada de vermelho escarlate.
— Ew! Saiam logo daqui, vão! Rápido antes que eu perca a paciência.
O homem passou para o banco de trás, e , que já não sentia mais a faca encostada em sua cintura e sim caída no banco, pensou em como faria para sair dali com aquele homem tão pesado, já que ele havia adormecido de repente.
“Porque o efeito do pó de canela foi tão forte assim nele?”
O ônibus voltou a se mover, como se nada tivesse acontecido.
permaneceu imóvel por alguns segundos, o corpo ainda colado ao dele, esperando algum sinal de que tudo aquilo tinha sido apenas um blefe. Nada. O peso morto recostado em seu ombro era real demais.
A faca escorregara do colo dele e agora jazia no banco, esquecida. Com cuidado extremo, ela a empurrou para debaixo do assento com a ponta do pé, o coração disparando a cada pequeno movimento.
— Ei… — murmurou, quase sem voz.
Nenhuma reação.
O cheiro forte da canela misturado ao suor continuava ali, sufocante. O rosto dele estava anormalmente quente quando ela tocou de leve, a pele ainda vermelha, os lábios entreabertos. Não era um sono comum — o corpo estava pesado demais, solto demais.
“Talvez tenha inalado…”, pensou, tentando racionalizar enquanto o pânico ameaçava subir.
O ônibus reduziu a velocidade mais uma vez, aproximando-se de outro ponto. sentiu um impulso súbito, quase instintivo. Se ficasse ali, quando ele acordasse… não queria pensar nisso.
Ela se levantou com esforço, segurando-o por baixo do braço, o corpo dele pendendo contra o seu como um fardo impossível. Alguns passageiros olharam, curiosos, mas ninguém disse nada. Para todos, parecia apenas uma namorada ajudando o parceiro doente a descer.
— Com licença… ele não está bem — ela murmurou, a voz trêmula, enquanto o motorista abria a porta.
O ar frio da rua bateu em seu rosto assim que desceram. Foi só então que suas pernas ameaçaram falhar. O ônibus partiu, levando consigo o último vestígio de “segurança”.
Ela o apoiou contra o poste do ponto, respirando fundo, o corpo inteiro tremendo agora que a adrenalina começava a baixar. Precisava se afastar. Precisava de ajuda.
Foi quando seus olhos, ainda marejados, captaram a placa da rua à frente.
O nome fez algo se encaixar dentro dela.
Era perto. Perto demais.
O endereço que Jihoon havia mandado naquela manhã — o prédio em Incheon onde ele estava temporariamente hospedado — ficava a poucos quarteirões dali.
O coração de voltou a acelerar, mas agora por outro motivo. Uma esperança frágil, urgente.
Sem pensar duas vezes, ela passou o braço dele novamente por sobre seus ombros e começou a caminhar, arrastando-o pela calçada estreita, cada passo um esforço sobre-humano.
— Aguenta só mais um pouco… — sussurrou, sem saber se falava para ele ou para si mesma.
A cada esquina, ela reconhecia algo da foto que Jihoon havia enviado. O mercadinho, a farmácia, o prédio antigo com a fachada azul descascada.
Estava chegando.
E, pela primeira vez desde que o homem se sentara ao seu lado no ônibus, sentiu que talvez… só talvez… sobrevivesse àquela noite.
— O que eu estou fazendo carregando você comigo para a casa do meu namorado? — murmurou, mais para si mesma do que para ele.
parou a alguns metros do prédio de Jihoon. O coração apertou no peito ao reconhecer a fachada, as luzes acesas em algumas janelas, o lugar que deveria significar segurança — e que ela se recusava a manchar com aquilo.
Com cuidado, ela deslizou o braço dele para fora de seus ombros e o deixou escorregar até se sentar no chão, encostado no muro frio do beco lateral. O corpo caiu pesado, a cabeça tombando para o lado, ainda adormecido.
Ela deu um passo para trás. Depois outro.
Por um segundo, pensou em checar se ele respirava. Não o fez.
Afastou-se sem olhar novamente, os passos rápidos, o coração ainda disparado, levando consigo apenas o silêncio… e a certeza de que aquela história precisava terminar ali.
Com os dedos trêmulos ela se dirigiu até o interfone do prédio e digitou: 18. O interfone chamou.
Chamou de novo e nada.
Até que a chamada caiu. bufou, temendo que pelo horário ele já estivesse dormindo.
Digitou de novo o número 18.
E aí uma voz feminina atendeu:
“Quem está incomodando uma hora dessas da noite?” — foi o que ouviu do outro lado.
O sorriso que havia surgido morreu de repente. As mãos suaram.
— Desculpe, eu gostaria de falar com o meu namorado, o Jihoon.
A risada esganiçada do outro lado fez as mãos de suarem ainda mais.
— Como ele pode ser seu namorado se ele é meu marido, sua maluca?
Umedeceu os lábios numa tentativa falha de recuperar o controle sobre o próprio corpo e mente.
Do outro lado ela ouviu a mulher chamar com um ‘alô?’ e em seguida um ‘eu vou desligar, já é tarde da noite.’
— Meu nome é , e preciso urgente falar com o Jihoon.
— Tá, mas de onde você é? O que você quer com o meu marido à essa hora da noite? — Uma pausa e sussurros ao fundo — Essa tal de quer falar com você, conhece?
“Conhece?” soltou uma risada nervosa ao ouvir a sentença. Se eles se conheciam? Quase quatro anos de namoro será que eram o suficiente para a tal mulher?
— Jihoon, o que tá acontecendo? Quem é essa? — A voz desesperada de soou agora mais próxima ao interfone.
— O que você tá fazendo na minha casa ?
Uma faca, de novo, dessa vez uma faca emocional, e não o metal frio que havia sentido minutos antes dentro do ônibus ao ser ameaçada pelo desconhecido, que aliás ainda estava jogado ali perto do mesmo jeito que havia o deixado.
— Como o que eu to fazendo na sua casa Jihoon? Eu vim ver você, conversar, contar as novidades. Você é meu namorado caramba.
Ao fundo ela pode ouvir a mulher bufar.
— Mais uma que você engana dizendo ser solteiro, Jihoon? Achei que essa sua fase de flertes e conquistinhas baratas já tivesse passado.
— Então é verdade? Você é casado com essa mulher, Jihoon?
O silêncio do outro lado da linha foi longo demais.
sentiu algo se romper dentro do peito, como se o ar tivesse sido arrancado à força dos pulmões. A mão que segurava o interfone começou a tremer, os dedos dormentes, incapazes de soltar ou apertar qualquer coisa.
Casado.
A palavra se espalhou por ela devagar, venenosa, descendo pela garganta, queimando o estômago, deixando um gosto metálico na boca. Tudo fez sentido rápido demais — as viagens adiadas, as ligações curtas, as desculpas cansadas, o pedido de casamento que nunca vinha.
Ela riu. Um som baixo, quebrado, que não tinha nada de humor.
— Quase quatro anos… — murmurou, mais para si mesma do que para eles. — Quatro anos esperando um futuro que já tinha dono.
Os olhos arderam, mas nenhuma lágrima caiu. Não ainda. Era como se o choque tivesse congelado tudo por dentro, endurecido o coração por alguns segundos preciosos.
— Você deixou eu sonhar, Jihoon — a voz saiu rouca, controlada à força. — Me deixou planejar uma vida inteira… enquanto voltava pra casa de outra mulher todas as noites.
Do outro lado, ele tentou dizer algo, mas as palavras se atropelaram, inúteis.
se afastou um passo do interfone, sentindo as pernas fraquejarem de novo. Aquela dor não cortava como a faca do ônibus. Era pior.
Essa sangrava por dentro.
E não havia canela, mentira ou instinto que pudesse salvar ela dessa vez.
— , escuta… não é assim — a voz de Jihoon surgiu abafada, apressada, como se tropeçasse nas próprias mentiras. — Eu posso explicar.
— Explicar o quê? — ela perguntou, enfim. A calma na própria voz a assustou. — Em que ano você resolveu mentir pra mim? No primeiro ou no segundo?
A mulher ao fundo soltou uma risada curta, sem humor.
— Amor, não perde tempo. Já tá claro o tipo de pessoa que ela é… aparecendo aqui do nada, no meio da noite.
Aquilo foi o golpe final.
fechou os olhos por um instante. Não para se proteger — mas para guardar aquela versão de si mesma que ainda acreditava nele. Quando tornou a abri-los, algo tinha mudado.
— Não — disse, firme. — O tipo de pessoa que eu sou ficou claro agora.
Ela se inclinou levemente para o interfone, a testa encostando no metal frio.
— Eu atravessei cidades por você, Jihoon. Aguentei um pai se afundando em dívidas, medo todos os dias, uma vida inteira em suspenso… porque acreditava que você era meu futuro.
A voz falhou por um segundo. Só um.
— Mas futuro nenhum se constrói em cima de mentira.
Do outro lado, silêncio. Nem ele, nem a mulher.
deu um passo para trás, sentindo o peso da noite cair sobre seus ombros. Foi então que algo chamou sua atenção no canto da visão.
O beco lateral.
E ali, exatamente como ela havia deixado, o homem do ônibus continuava jogado contra o muro, imóvel demais para alguém que deveria apenas estar desacordado.
O estômago dela se revirou.
— Fica com ela, Jihoon — disse por fim, a voz baixa, definitiva. — Eu já perdi tempo demais com quem nunca esteve comigo de verdade.
Ela soltou o interfone. O clique seco ecoou como um ponto final.
se virou, o coração ainda despedaçado… mas os pés a levando de volta para a rua escura, onde uma ameaça diferente — e talvez ainda mais real — a aguardava.
Porque, naquela noite, as mentiras não tinham sido a única coisa deixada para trás.
O silêncio falava alto demais, continuou encarando o aparelho com os olhos cheios de água. Mas não choraria por Jihoon, ela não se permitiria derramar uma lágrima sequer por um crápula como aquele. Por mais que estivesse despedaçada por dentro.
Ao sair do prédio de Jihoon encarou os olhos, agora abertos, do homem que momentos antes havia pedido sua ajuda.
— Ah, você acordou. — Disse por fim, baixinho.
— Minha namorada foi enganada pelo namorado e acabou de ficar solteira, é isso mesmo?
A voz fraca dele ecoou pelos ouvidos de .
Ela engoliu em seco. O ar pareceu mais frio de repente.
— Ex — corrigiu, a voz firme demais para alguém que acabara de ter o chão arrancado sob os pés. — Ele sempre foi meu ex. Eu só demorei pra perceber.
O homem tentou se mexer, mas apenas gemeu baixo, voltando a apoiar a cabeça no muro. Os olhos escuros a observavam com uma atenção estranha, lúcida demais para alguém que deveria estar completamente bem… e cansada demais para alguém perigoso. Aquilo a deixou em alerta.
— Você podia ter me deixado no ônibus — ele murmurou. — Ou chamado aqueles caras. Teria sido mais fácil.
cruzou os braços contra o próprio corpo, como se finalmente sentisse o frio da noite — ou talvez fosse só o vazio.
— Eu não sou boa em abandonar pessoas — respondeu. — Mesmo quando elas colocam uma faca na minha cintura.
Um silêncio pesado caiu entre os dois. O tipo de silêncio que não pedia desculpas, mas reconhecia verdades incômodas.
Ele respirou fundo, fechando os olhos por um segundo.
— Eu não ia machucar você — disse, baixo. — Pelo menos… não como você tá pensando.
Ela soltou uma risada curta, sem humor algum.
— Engraçado — respondeu. — O homem que eu amei por quatro anos também nunca “ia me machucar”.
Os olhos dele se abriram novamente, fixos nela agora com algo que não era pena. Era atenção. Interesse cru.
— Parece que a noite não foi gentil com nenhum de nós — comentou.
desviou o olhar, encarando o prédio atrás de si. As luzes continuavam acesas. A vida de Jihoon seguia intacta lá dentro.
— A diferença — disse ela, por fim — é que você eu posso deixar aqui. Ele não.
O homem respirou fundo, reunindo forças para se levantar um pouco.
— Meu nome é — disse, depois de um instante. — Já que… aparentemente a gente sobreviveu juntos a alguma coisa hoje.
hesitou. O nome ficou suspenso no ar por um segundo antes de assentir.
— . — Fez uma pausa. — E isso não muda o fato de que você me deve respostas.
esboçou um sorriso torto, cansado, mas sincero o suficiente para incomodá-la.
— Justo — respondeu. — Mas acho que primeiro… você vai precisar decidir se vai embora sozinha essa noite.
Ela o encarou de volta, o coração ainda partido, mas agora alerta de outro jeito.
Ele tentou se apoiar melhor no muro, puxando o ar com cuidado demais. O movimento arrancou dele um gemido baixo, involuntário, que quebrou o silêncio da rua.
— Tá tudo bem — disse rápido demais, como se quisesse encerrar o assunto ali.
Mas não estava.
viu quando a mão dele escorregou para a lateral do corpo, os dedos pressionando o casaco com força. O tecido escuro começava a se manchar, encharcado de um vermelho que não deixava margem para dúvida.
Sangue.
— Você está ferido — disse ela, num tom que não era pergunta.
Ele tentou rir, um som fraco, falho.
— Não é nada… só um arranhão.
Mentira.
O instinto falou antes que o coração pudesse interferir. já estava ajoelhada à frente dele, afastando o casaco com cuidado, ignorando completamente o frio da calçada ou o turbilhão emocional que ainda a esmagava por dentro.
O ferimento na lateral do abdômen era feio demais para ser “nada”. O sangue escorria quente, lento, denunciando algo mais profundo do que ele queria admitir.
— Você foi esfaqueado — constatou, a voz agora firme, profissional. — E está perdendo sangue.
— Ei… — ele tentou segurá-la pelo pulso. — Não precisa disso. Eu me viro.
Ela afastou a mão dele sem delicadeza, os olhos focados, a mente funcionando num modo automático que ela conhecia bem demais.
— Cala a boca — disse, sem levantar a voz. — Se você continuar falando, vai gastar energia que não tem.
piscou, surpreso. Não pela dor — mas pela autoridade repentina.
pressionou o local com a própria mão, sentindo o calor do sangue atravessar o tecido.
— Respira devagar — orientou. — Olha pra mim. Não fecha os olhos.
Foi só então que ela percebeu: suas mãos não tremiam mais.
O coração ainda estava quebrado, sim. Mas o corpo dela lembrava exatamente quem ela era.
E naquele instante, nada importava mais do que manter aquele homem vivo.
— Você está foragido por acaso? — continuou analisando a ferida que parecia não ser grave o suficiente para matá-lo, mas também não era tão superficial assim.
— Não é exatamente isso, mas meus negócios não me permitem ir para um hospital público e ir para a cadeia logo em seguida.
subiu os olhos para encontrar os dele fechados. Ele tinha o rosto contraído, provavelmente pela dor do ferimento. bufou e então se levantou.
— Ok, grandão. Então se segura em mim e vamos procurar uma pensão qualquer. Tenho tudo que preciso aqui na bolsa pra te fazer os primeiros socorros.
— Você vai mesmo ajudar um criminoso a sobreviver? Uau, você é uma caixinha de surpresas.
revirou os olhos com o tom provocativo usado pelo tal .
— Minha profissão não faz distinção, querido. Eu não posso simplesmente te deixar aqui para morrer, acredite em mim que eu até gostaria.
— Você é enfermeira? — sentiu ela passar os braços em volta de seus quadris, e ele tentou não jogar muito de seu peso sobre ela.
Começaram a caminhar, bem devagar. não queria machucá-la, e ela não queria piorar a situação dele. — Sou médica. — respondeu a pergunta dele.
— Uau, a minha namorada tem uma profissão nobre! Médica. Uma caixinha de surpresas mesmo.
A voz dele saia ainda mais fraca a cada palavra, mas conseguia sentir que ele usava um tom entre irônico e admiração.
— Você precisa poupar energia, ainda mais que vamos caminhar sabe-se lá quantos quarteirões até uma pensão.
— Tem uma pensão, meio mequetrefe daqui há uma quadra. Acredito que eu consiga chegar até lá sem desmaiar.
As pernas de se moviam devagar, e ele cambaleava para lá e para cá, tornando difícil o trabalho de de não cambalear junto com ele.
— Você não consegue se manter estável até chegarmos à tal pensão? Eu não posso chegar com você nesse estado, vão querer chamar a polícia, achando que eu to carregando um cadáver…
deu um risada nasalada e tentou firmar o corpo, apertando a cintura dela com força.
sentiu as mãos firmes dele deslizarem rapidamente por seu corpo, enquanto ele tentava recuperar a postura.
— Prometo parecer vivo quando chegarmos.
— Preciso de um quarto, com urgência. Meu namorado bebeu demais, precisamos de um lugar para descansar.
ergueu colocou a mala no chão e com a mesma mão, estendeu o documento na direção do recepcionista que não tirou os olhos deles até pegar o documento das mãos dela. estava firme, firme até demais para alguém que carregava um homem daquele tamanho. A mente estava um turbilhão, se ele perdesse mais sangue poderia ser tarde demais, ela precisava estancar aquele sangramento para ontem.
tentava manter os olhos abertos, mas falhava miseravelmente quase todas as vezes.
— Você pode ser um pouco mais rápido? — umedeceu os lábios.
Logo o recepcionista começou a confirmar alguns dados, como telefone e endereço.
— Aqui, está, o quarto é aqui no térreo mesmo, número quatro.
pegou as chaves da mão dele com certa urgência e então se pôs a caminhar com em direção ao quarto de número quatro.
Quando abriu a porta, ela mal teve tempo de reparar em como o quarto era, aquilo não importava. Caminhou cambaleando com até a cama e o colocou com cuidado sobre os lençois.
Abriu a bolsa e retirou de lá a maletinha de primeiros socorros que carregava consigo para todo lado.
respirou fundo assim que a porta se fechou atrás deles. O silêncio do quarto foi quase ensurdecedor.
— Deita de lado — ordenou, já abrindo a maleta com movimentos rápidos e precisos. — Devagar.
obedeceu sem discutir, o corpo pesado afundando no colchão gasto. Um novo gemido escapou quando ele tentou se acomodar melhor, a mão indo instintivamente para a lateral do corpo.
— Não toca — ela disse de imediato, afastando os dedos dele com firmeza. — Confia em mim.
Ela calçou as luvas descartáveis, o olhar focado, distante de qualquer emoção que não fosse a urgência do agora. A médica havia assumido completamente o controle.
Com cuidado, ela abriu os botões da camisa que ele usava, afastou o tecido manchado do casaco e da camisa também, expondo o ferimento o suficiente para avaliá-lo. analisou a profundidade, a posição, o padrão da lesão. O sangue ainda escorria, mas não em jorro — um detalhe que fez seu peito aliviar apenas um pouco.
— Você teve sorte — murmurou. — Não atingiu nada vital. Mas isso não significa que está fora de perigo.
— Sorte é você aparecer no meu ônibus com canela em pó e diploma — ele respondeu fraco, tentando brincar.
Ela não sorriu.
— Fica acordado, . Olha pra mim.
Pegou a gaze e pressionou o local com firmeza calculada, sem crueldade, mas sem delicadeza excessiva. Ele arfou, os músculos se retesando.
— Respira — orientou. — Pelo nariz. Devagar.
O quarto parecia pequeno demais para a quantidade de tensão ali dentro. O cheiro de antisséptico logo se misturou ao ar abafado, e trabalhou em silêncio por alguns segundos, concentrada em estancar o sangramento antes que o cansaço dele virasse algo mais sério.
— Quem fez isso com você? — perguntou, sem levantar os olhos.
demorou a responder.
— Pessoas que não gostam quando você diz “não”.
Ela fez um som baixo, impaciente.
— Ótimo. Então tenta não desmaiar antes de me contar o resto da história.
Ele abriu os olhos com esforço, encarando o teto.
— Tá vendo? — murmurou. — Salvando criminosos… e ainda exigindo conversa.
terminou de reforçar o curativo, certificando-se de que estava firme o suficiente. Só então tirou as luvas e soltou o ar que parecia prender desde que entraram naquele quarto.
— Não confunde as coisas — disse, finalmente o encarando. — Eu não estou te salvando porque você merece. Estou te salvando porque eu sou assim.
virou o rosto lentamente na direção dela, a expressão cansada… mas lúcida.
— Então espero sobreviver — respondeu baixo. — Porque acho que acabei de conhecer a pessoa mais perigosa dessa noite.
fechou a maleta com um clique seco.
— Dorme — ordenou. — Se acordar pior, eu vou saber. E se tentar fugir… também.
Ela se afastou um passo, o coração ainda acelerado.
Porque agora, além de um coração partido, ela tinha um homem ferido, um segredo… e uma noite que definitivamente ainda não tinha acabado.
sentia o peito subir e descer com pressa, a respiração ofegante, o coração batendo rápido. A dor invadiu o ferimento e ele levou a mão até o local, pressionando o mesmo. Latejava. Queimava.
Só aí então ele reparou que dormia pesadamente no sofá em frente a cama. se levantou devagar, com certa dificuldade, já que o curativo puxava para cima e para baixo, fazendo tudo latejar ainda mais.
Caminhou em direção à médica e então olhou para ela, dormindo.
parou a poucos passos do sofá.
Por um instante, ficou apenas observando. O rosto de estava relaxado de um jeito que ele não tinha visto antes — sem tensão, sem vigilância, sem aquela postura firme de quem precisava manter tudo sob controle. O braço pendia para fora do sofá, os dedos ainda sujos de resquícios de antisséptico seco.
Ela tinha adormecido ali. Exausta. Depois de tudo.
Algo apertou no peito dele — não dor, não exatamente. Um incômodo estranho, profundo demais para ser ignorado.
Com cuidado, se agachou ao lado dela, apoiando o peso mais na perna boa. O movimento fez o ferimento protestar outra vez, e ele cerrou os dentes, respirando fundo para não acordá-la.
— Você não faz ideia do tipo de problema que acabou de salvar… — murmurou, quase sem som.
A luz fraca do abajur recortava o rosto dela em sombras suaves. Ele hesitou, a mão pairando no ar por um segundo antes de pegá-la no colo, mesmo que a dor triplicasse.
acordou no mesmo instante, as mãos indo parar nos ombros dele. A respiração ofegante pelo susto provavelmente, ou pelo menos ele quis pensar assim.
O rosto dos dois a centímetros de distância, ela sentia a respiração calma dele, e ele sentia a respiração agitada dela.
— Você tá maluco? Vai arrebentar o ferimento por dentro, me põe no chão.
não obedeceu, caminhou com ela até a cama, ajeitando-a por lá de qualquer jeito.
— Eu durmo no sofá, você parece exausta.
— , você está ferido. Eu já dormi em lugares muito piores que esse, não seja teimoso.
— Engraçado, eu ouço isso com certa frequência.
Não hesitou em se deitar no lugar dela no sofá, puxando a manta pequena para cobrar parte do corpo.
Ouviu bufar alto.
— Me obedeça e deita logo aqui, podemos dormir os dois na cama.
— É verdade. Somos namorados, podemos dormir os dois na cama. Mas prefiro deixar você à vontade o suficiente para dormir a noite toda.
— Médicos não dormem nunca. A gente cochila. Você deve estar morrendo de dor, amanhã você precisa passar em uma farmácia e comprar os remédios que prescrevi.
— Alguém certamente vai conseguir para mim amanhã.
umedeceu os lábios, enquanto olhava para ele, a pergunta vindo mais rápido do que a boca poderia segurar:
— Quem é você, afinal?
deixou um sorriso amargo escapar dos lábios.
— Alguém que você não deveria ter salvado. Tenho certeza que nossos mundos não deveriam ter colidido senhorita .
— Mas colidiram, e eu salvei você duas vezes. Acho que me contar quem você é, é o mínimo que mereço.
— Acredite, você não vai gostar de saber quem eu sou. Volte a dormir, amanhã quando você tiver acordado, eu já desapareci.
tentou encerrar o assunto, mas percebeu que ela havia se levantado.
— Sendo assim, eu mesma vou embora. Não vou ficar dividindo quarto com um completo desconhecido.
se levantou da cama num pulo, num sobressalto, sem aviso. Os dois estavam cara a cara, levou a mão até o ferimento, soltando um gemido baixo.
— Não pode ficar fazendo essas estripulias. O ferimento está em processo de cicatrização. — bufou.
As mãos dela logo estavam desabotoando a camisa dele outra vez, e se viu como nunca antes totalmente indefeso, vulnerável e hipnotizado por ela.
— Você precisa de repouso. — levou os olhos e a mão até o curativo.
respirou fundo quando ela se aproximou mais. Perto demais.
O rosto dela estava a centímetros do seu, perto o suficiente para ele sentir o calor da pele, perto o suficiente para perceber que a respiração dela já não estava tão controlada quanto tentava parecer. Os olhos se encontraram — longos demais para serem apenas clínicos, intensos demais para serem ignorados.
O mundo pareceu encolher.
Por um segundo, esqueceu a dor. Esqueceu o beco, a faca, a fuga, o motivo de estar ali. A mão dele subiu devagar, quase por reflexo, parando a poucos centímetros do braço dela, como se pedir permissão fosse a única coisa que ainda sabia fazer direito.
sentiu o impulso antes mesmo de entender. O corpo inclinou levemente, a respiração presa no meio do caminho. Era absurdo. Perigoso. Inadequado.
E ainda assim…
Ela fechou os olhos por um instante — curto demais para ser coragem, longo demais para ser descuido.
Então se afastou.
Deu um passo para trás, rápido, como quem acorda de um sonho ruim.
— Não — disse, firme, mais para si mesma do que para ele. — Isso não vai acontecer.
engoliu em seco, a mão caindo de volta ao lado do corpo.
— Eu não—
— Você está ferido — ela cortou, retomando a postura, a voz já protegida outra vez. — E eu estou emocionalmente exausta demais pra tomar decisões erradas.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas diferente. Não desconfortável. Necessário.
ajeitou o curativo com cuidado final e se afastou mais um pouco, cruzando os braços como se precisasse se ancorar em algo sólido.
— Dorme, — disse, mais baixa agora. — Amanhã… a gente lida com quem você é. E com quem eu vou ser depois dessa noite.
Ele assentiu devagar, sem provocação, sem ironia.
Porque naquele quase, ambos entenderam a mesma coisa:
Não era o momento. E talvez fosse exatamente por isso que tinha significado tanto.
Quando finalmente se sentou na cama, observou já acordado e sentado no sofá-cama. Os dois se olharam por alguns segundos, até que achou melhor olhar para outra direção. Os olhos dele eram intensos e bonitos demais.
Ele era um homem bonito.
Mas criminoso. E fez questão de lembrar seu cérebro disso.
— Bom dia princesa! Dormiu bem?
A voz ainda rouca de quem havia acabado de acordar invadiu os ouvidos de que apenas assentiu para ele.
— Não me lembro de ter te autorizado cortar as formalidades comigo. Não sou sua princesa .
se levantou e ao esticar os braços para se espreguiçar, acabou soltando um gemido alto, que fez com que se levantasse da cama num sobressalto e fosse até ele, inspecionar o ferimento.
Havia sangue cobrindo toda a gaze, bastante sangue e soltou um “droga” baixinho já se dirigindo a sua caixinha de primeiros socorros, remexendo a mesma para encontrar tudo que precisava para refazer o curativo e limpar o ferimento.
— Uma princesa que xinga? Uma princesa fajuta.
revirou os olhos com gosto e então se voltou para ele de novo.
— Se você começar, vou deixar você aqui sangrando para morrer.
soltou uma gargalhada gostosa, tombando a cabeça para trás. quase sorriu com o som.
Quase.
— Você não teria coragem, sua índole nunca te deixaria deixar alguém morrer. Mesmo que fosse alguém como eu.
— Tem razão senhor “criminoso que não sei nada a respeito.”
ficou em silêncio. percebeu a mudança no semblante dele. Como os olhos agora estivessem vazios, ocos.
Ela retirou então com cuidado a gaze suja de sangue e a colocou sobre o sofá-cama e então com uma gaze limpa embebida em antisséptico, ela começou a limpar o ferimento.
Ele fechou os olhos.
A mão que estava apoiada no sofá se fechou com força, os dedos pressionando o estofado gasto até os nós ficarem esbranquiçados. Respirava fundo, controlado, como alguém acostumado a suportar dor em silêncio — não apenas aquela.
— Tá doendo — murmurou, baixo demais para soar como reclamação. Era mais constatação do que pedido.
Mas não foi a limpeza do ferimento que o deixou assim.
Foi a frase dela.
“Criminoso que não sei nada a respeito.”
Algo ali tinha acertado fundo. Não por julgamento — ele estava acostumado a isso — mas porque vinha dela. Porque, por um breve momento naquela noite, ele tinha esquecido quem era… ou fingido que podia ser outra coisa.
abriu os olhos de novo, mas não a encarou. O olhar permaneceu distante, vazio como ela havia notado antes.
— É melhor você continuar sem saber — disse enfim, a voz baixa, sem ironia alguma. — Algumas coisas só complicam quando ganham nome.
O corpo relaxou minimamente quando ela terminou de limpar a área, mas a expressão dele continuou fechada, inacessível.
Como se, junto com o sangue seco, ela tivesse tocado em algo que ele mantinha cuidadosamente coberto há muito tempo.
O ar gelado de Incheon cortou o rosto dos dois quando eles pisaram para fora da pousada.
— Vou acompanhar você até o hospital.
olhou para ela com os olhos castanhos brilhando de intensidade e soube que ela não tinha escolha, que ele a acompanharia ela querendo ou não.
— Tudo bem.
Enquanto eles caminhavam pelas ruas de Incheon, ele percebeu que o casaco que usava não conseguia tapar do frio intenso que fazia na cidade. não era muito de sentir frio, estava acostumado com as mudanças intensas de temperatura da cidade que o viu nascer.
Retirou sua jaqueta de couro sem pensar duas vezes e passou a mesma pelos ombros dela.
— Não precisa . Você vai sentir frio.
O cheiro de cigarro misturado com o perfume amadeirado que saia do casaco fez a voz dela sair trêmula.
— Você está com mais frio do que eu. Pode ficar tranquila e usar a jaqueta, pelo menos até chegarmos ao hospital. Não quero estragar seu look de “médica fashion”.
se permitiu sorrir para ele pela primeira vez desde o contato no ônibus.
— Sabe que olhando assim nem parece que você colocou uma faca na minha cintura?
congelou por dentro. O coração diminui o ritmo dos batimentos.
— Eu não ia machucar você, mas acho que você não acredita em mim. Eu estava desesperado, só isso! — balançou a cabeça em negativa. — Você era a única passageira sozinha naquele ônibus e eu precisava de alguém para me livrar daqueles caras.
Silêncio. Apenas o barulho dos sapatos deles batendo contra o piso e dos carros passando rapidamente na avenida.
— Você salvou a minha vida duas vezes, . Eu devo muito á você.
Silêncio outra vez. passou os braços para dentro da jaqueta de couro de , e a apertou contra seu corpo, sentindo o frio diminuir drasticamente.
Resolveu mudar de assunto.
— Se eu passar nessa entrevista vou ter que renovar meu guarda roupas para roupas de frio mais reforçadas. Eu não sabia que Incheon era tão fria.
— Muda muito a temperatura no decorrer do dia. E claro que você vai passar nessa entrevista, eu garanto.
— Você garante? — se permitiu gargalhar. — Você tem alguma coparticipação na direção do hospital por acaso, ?
— Não é exatamente isso, posso mexer meus pauzinhos se você preferir.
deu de ombros, despreocupado.
— Claro que não. Quero passar nessa entrevista por mérito meu, porque sou competente o suficiente para estar no hospital. Não porque é um mafioso ou sei lá o que mexeu os pauzinhos.
se deixou sorrir ao ouvir a palavra “mafioso”.
— Você vai passar. E não vai ser por minha causa, só estou dizendo que se mudar de ideia… posso dar um jeito. Só isso, se acalma.
diminuiu o passo e virou o rosto para encará-lo de verdade. O sorriso ainda estava ali, mas agora tinha algo mais sólido por trás.
— Eu não estou nervosa — disse, ajeitando a jaqueta nos ombros. — Só não quero começar uma vida nova já devendo favores a alguém que eu ainda não sei exatamente quem é.
Ela suspirou, o ar frio escapando em forma de névoa.
— Passei tempo demais dependendo das escolhas erradas de outras pessoas, . Do meu pai. Do homem que eu achava que ia casar comigo. — Fez uma pausa curta. — Eu preciso que essa conquista seja só minha.
Ele assentiu devagar, sem interrompê-la.
— Mas — continuou — agradeço a intenção. De verdade. Só… guarda seus pauzinhos pra quando eu realmente precisar.
voltou a caminhar, lado a lado com ele.
— E se eu passar nessa entrevista — completou, com um meio sorriso — vai ser porque eu mereci. Não porque um suposto mafioso decidiu bancar o anjo da guarda.
soltou uma risada baixa.
— Certo, doutora. — Olhou para ela de lado. — Mérito seu. Apoio moral meu.
Ela revirou os olhos, e não tirou a jaqueta.
E, por ora, aquilo era o suficiente.

