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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 18/05/2026.

A história que vou contar agora pode parecer triste para umas pessoas e surreal para outras, mas, independente de tudo o que achar, irá te fazer pensar em muitas coisas. Tudo começa com duas vidas vazias, que se cruzam às margens de uma praia na ilha de Jeju. Se foi amor à primeira vista, eu não sei, mas tudo que parece ser perfeito tem seu defeito, e aquele casal tinha um obstáculo. A garota era deficiente visual, e, mesmo tendo ao seu lado alguém tão apaixonado e disposto a enfrentar os preconceitos, ela ainda era infeliz e se odiava pelo fato de ser cega.

Isso fazia com que seu ódio espalhasse para as pessoas em sua volta, porém o único sentimento bom que a mantinha com esperança era seu amor por seu namorado. Em um dia, com lágrimas escorrendo em sua face e o coração doendo por não poder ver a face da pessoa que mais amava na vida, ela disse a ele.

— Se eu pudesse ver o que mais amo no mundo, eu me casaria logo com você.

Para aqueles que não acreditam em milagres, devo contar que aconteceu na vida dela. Em um dia de benção, ela recebeu a notícia de que alguém havia doado um par de córneas a ela. Sem pensar em mais nada e se preocupar em saber quem era o doador, a família da garota assentiu e ajudou com os custos do hospital. Fizeram imediatamente a operação, tudo ocorreu bem e sua reabilitação pós-operatória foi um sucesso na opinião dos médicos. Foi então, na alta do hospital, que o seu namorado chegou com flores e uma esperançosa pergunta:

— Agora que pode ver, você se casa comigo?

A garota estava chocada quando ela viu que seu namorado era cego. Aquele momento era importante para o namorado, afinal, ele havia esperado tanto para que ela finalmente pudesse vê-lo. Entretanto, nem tudo são sorrisos e comemorações. A garota devolveu as flores para ele, juntamente à resposta que ninguém imaginaria sair de sua boca.

— Eu sinto muito, mas não posso me casar com você! Porque você é cego.

O namorado, se afastou dela lentamente, com os olhos lacrimejando pela dor de suas palavras, em um desabafo:

— Por favor, apenas cuide bem dos meus olhos... Eles eram muito importantes para mim.

--

Como eu disse, é algo difícil de imaginar. Poderia ser até uma história de reflexão sobre a vida, se esta história não fosse minha.

Sim, sou eu, o namorado que doou as córneas e perdeu o coração.



“As palavras que estou dizendo agora,
Não sei se irão te machucar,
Elas provavelmente farão você me odiar para sempre.”

— Lonely / 2NE1




Manhattan, outono de 2022

Foi doloroso nos primeiros anos.

Não somente por ter que me adaptar à nova situação física que me encontrava, mas a parte de ter que aceitar que a garota que pensava que me amava havia me deixado. Admitir que aquelas palavras tão duras saíram de sua boca fazia meu coração se rasgar em mil pedaços. Me sentia envergonhado perante minha família, afinal, eles eram contra o que eu tinha feito, mas não estava arrependido.

Era uma prova de amor para a garota que eu amava.

Infelizmente, percebi tarde demais que ela não me amava na mesma proporção, e toda essa reviravolta me fez ser expulso de casa e ir morar do outro lado do mundo, com a única pessoa da família que me estendeu a mão: meu primo, . Morar em Manhattan seria minha salvação e, ao mesmo tempo, consolo, de favor no apartamento do meu primo e sua noiva. E mesmo que esse não fosse o único lugar que eu pudesse ficar, tenho certeza de que não conseguiria continuar em Seoul. Agora, completando 7 anos na escuridão, confesso que tenho passado a maior parte dos meus dias no quarto. Mantendo minha mesa de trabalho ao lado da janela, ouvir os pássaros cantando, enquanto os carros passavam na rua, era minha distração favorita. Como também uma forma de elevar ainda mais meus outros sentidos, para compensar aquele que perdi. Minha rotina diária se fazia apenas pelas longas horas comigo e o notebook, tendo um relacionamento sério com os códigos de programação.

Uma parte relativamente positiva?

Mesmo com minha deficiência, não havia perdido a oportunidade de conquistar meu diploma da universidade, com o curso de Engenharia da Computação. O constante silêncio estabelecido em meu quarto sempre se quebrava quando e seus surtos de primo preocupado me arrastavam para os lugares como se eu fosse uma criança carente de atenção. E, naquele dia, ele me arrastaria para uma cafeteria recém-inaugurada bem em frente ao prédio onde morávamos.

— Posso dizer o quanto não estou com a mínima vontade de sair? — disse, pegando minha carteira em cima da mesa de canto ao lado da cama.
— Não. — Ele riu, com ar meio sarcástico. — Já faz quinze dias que você não sai de casa… E fico chocado por sair do quarto apenas para tomar banho, porque até as refeições têm sido feitas aqui.
— Você sabe o motivo de eu não querer as refeições coletivas. — O lembrei, colocando meus óculos escuros. — Além do mais, seria uma pena não me deixar bater meu recorde. Não quero esbarrar em pessoas, não quero sentir perfumes fortes, não quero que o mundo me veja.

Não queria mesmo.

Yah, pare de reclamar. Você é o cego mais normal que eu conheço. As pessoas nem percebem se eu não falo — retrucou, como se fosse algo positivo em minha vida.
— Isso é porque sei disfarçar muito bem. — Dei de ombros, encostando minha mão direita na porta. — E onde está sua noiva? Deveria levar ela.

Admito que sabia muito bem resmungar e tentava escapar até o último instante.

— Ah, nem chegou aos setenta e já parece um velho ranzinza. — Sua risada soou, e notei que seguia pelo corredor atrás de mim. — Hoje é o dia dos homens. Além do mais, a Taylor está numa viagem a trabalho.
— Hum — murmurei, seguindo em direção à porta, porém, ao passar pelo sofá, esbarrei na mesa de centro, batendo minha perna nela. — Yah!

Meu tom soou com irritação.

— Oh! — Ele pareceu assustado. — Aish, eu esqueci de falar que a Taylor trocou os móveis de lugar hoje cedo, antes de sair.
— Não diga. — Respirei fundo, prendendo outro grito de raiva. — Ela adora fazer isso quando vai viajar.

E certamente é proposital.

— Tenho certeza de que logo você se adapta novamente. — Senti ele prendendo um riso.
— Vamos, antes que mude de ideia. — Reprimi a opinião que tinha a respeito do noivado deles e dela morar com a gente.

Afinal, o apartamento não era meu…

E eu é que estava incomodando eles e tirando a privacidade do casal.

Chegamos à rua.

Para minha surpresa, a cafeteria tinha um clima agradável e incomum, nada comparado às outras cafeterias que me levava. Assim que nos sentamos, comecei a perceber e distinguir toda a movimentação do lugar através da minha audição. Era um fato, para conseguir sobreviver, tive que evoluir todos os meus outros sentidos, os fazendo ficarem mais aguçados, principalmente audição e olfato. E, mesmo com óculos escuros e agindo o mais normal possível, sempre deixava escapar minha situação. Sabia que não era má intenção de sua parte, contudo, sentia uma ponta de amargura sempre que a realidade batia à porta.

— Bom dia. Desejam fazer o pedido agora? — perguntou a atendente, tinha uma voz fina e um pouco aguda, e aquilo machucava significativamente meus ouvidos.
— Claro — respondi mais que depressa, não queria que demorasse.

Principalmente por me sentir um pouco zonzo pelo forte aroma do perfume dela.

— Então vou escolher por nós dois — disse . Senti a movimentação do seu braço, deveria estar pegando o cardápio.

Em segundos de atendimento, o perfume forte e a voz aguda começaram a me deixar discretamente nervoso, e meu primo, como sempre, não percebeu o quanto sua demora em se afastar da mesa era uma agonia para mim. Comecei a bater com meus dedos na mesa em uma sincronia, aquilo era um sinal para ser mais rápido. Felizmente, após sete anos de convivência, ele sabia bem todos os sinais de alerta que eu dava. Assim, com o pedido feito mais rapidamente, suspirei fundo ao sentir o afastamento da atendente.

— O que houve? — perguntou ele, num tom preocupado.
— O perfume dela estava me incomodando — expliquei. Respirei com mais leveza e logo senti um aroma mais agradável vindo da mesa ao lado.

Até mesmo a energia que exalava da pessoa era diferente.

— Bom dia. Desejam mais alguma coisa? — perguntou uma voz diferente, vindo da mesa em questão.

Nítido que não era a mesma atendente.

Seu perfume parecia ser feito de essência de jasmim — não aquele jasmim adocicado de vitrines caras, mas o que floresce ao entardecer em jardins esquecidos. Suave e profundo, como se cada partícula dançasse no ar para lembrar que ainda existe paz no mundo. O que me fazia lembrar os canteiros de jasmim que visitei no Brooklyn Botanic Garden, com , na primavera deste ano. Um momento em que até eu admiti ser importante celebrar um passeio, após o terror dos dias de incerteza da Pandemia.

— Ah, não, obrigado. Estamos satisfeitos — respondeu uma voz rouca, ao tossir um pouco.

Pelo som forte e áspero, poderia dizer que seu pulmão estava carregado de nicotina.

— Se precisarem de algo, só chamar. — Aquela voz, sim, era suave e angelical, como uma perfeita sinfonia para meus ouvidos.
— Quem era? — perguntei ao meu primo.
— O quê? — indagou de volta, como se não estivesse prestando atenção em mim, certamente mexendo no celular.
— Perguntei quem era falando ao lado — repeti, com impaciência.
— Uma outra atendente, eu acho. — Pelo soar, parecia agora estar se espreguiçando na cadeira. — Viva, nosso café chegou.
— Aqui está, senhores. Mais alguma coisa, é só chamar — disse a atendente de voz aguda, demorando alguns segundos desnecessários para se retirar.

Seria demais querer que a outra moça atendesse nossa mesa também?

Comecei a memorizar aquele perfume suave que havia sentido, pensando se realmente era dela ou da senhora que estava acompanhando o homem da mesa ao lado.

? — disse . — Está me ouvindo?
— O quê? — Movimentei minha face para a direção da voz dele. — O que foi?
— Estou te perguntando se você vai aceitar a proposta de trabalho da Nexus Technology e trabalhar presencial — explicou de forma clara.
— Ainda não sei. — Virei minha face, não queria tocar nesse assunto.

Estava muito bem em home-office, e o salário não era tão ruim.

— Eu acho que deveria, você está parado nessa mesma empresa há sete anos, do estágio já foi efetivado e nem tiveram a decência de te aumentar o salário, ou lhe dar uma promoção — reclamou, de forma argumentativa. — Você praticamente faz o trabalho do engenheiro chefe lá.
— Estou avaliando a contraproposta da Global Maximus. — Me referi à empresa que trabalho atualmente.

Fiquei em silêncio, enquanto meu primo continuava a falar.

Não conseguia mais pensar em nada além da dona daquele perfume suave e voz angelical. Tinha roubado minha total atenção, e meu foco era tanto, que assim que ela se aproximou da mesa ao lado novamente, consegui acompanhar seus passos retornando ao balcão. No final do discurso de , que eu nem tinha ouvido, eu só concordei novamente, dizendo que daria a resposta no dia seguinte. Ficamos mais alguns minutos após o café, até que ele pagou a conta. Nunca fui tão lento em me levantar e sair de um lugar, mas minha demora até chegar à porta tinha um motivo.

Aproveitei o “longo” caminho para rastrear a dona do perfume de jasmim.

Foi um tanto inútil, não senti aquele aroma agradável novamente. me deixou na portaria do nosso prédio e seguiu para a redação do jornal onde trabalhava. Mesmo com minha deficiência visual, ao longo desses anos, tinha me acostumado com tudo, a distância dos lugares, o tempo que o elevador levava para subir até o meu andar, a disposição dos móveis no apartamento. Demorava cerca de três dias para me adaptar a uma coisa nova em minha rotina, principalmente quando Taylor trocava os móveis de lugar, como nesta manhã. Não gostava de usar aquela bengala para deficientes visuais, já era triste e vergonhoso demais depender do meu primo para certas coisas, então me esforçava o dobro. Por isso, na maior parte do tempo, andava normalmente e torcia para não esquecer a trajetória do caminho, sempre confiando em minha audição.

Assim que fechei a porta, caminhei até meu quarto, tocando de leve na parede em alguns pontos para me certificar de que Taylor não tinha trocado os quadros de lugar também.

— Mais um dia monótono. — Suspirei fraco.

Meus dias eram todos assim, monótonos e solitários. O horário comercial em silêncio, apenas com o soar do trânsito na rua e o canto dos pássaros que habitavam nas árvores próximas. À noite, lia alguma coisa para tentar dormir. Como? Felizmente existem muitos livros em braile, que me permitem desfrutar da literatura mundial. E nos raros momentos, ouvia do quarto o áudio dos filmes que e Taylor assistiam na sala. Até poderia me juntar a eles, porém me sentia desconfortável em atrapalhar seu momento juntos.

Sentei na poltrona que tinha ao lado da janela, o sol ainda entrava pela janela naquela hora do dia, não deveria ser nem perto da hora do almoço. Com uma semana de férias premium, não tinha que me preocupar com o trabalho, deixando assim meu tempo mais regado à solidão. Sem me dar conta, comecei a pensar na dona da voz suave, analisando todas as possibilidades do perfume de jasmim ser dela. Consegui ouvir todos que estavam naquela cafeteria, até mesmo o cozinheiro da voz fanha. Uma frustração para mim, que queria ouvir uma única voz, que permaneceu em silêncio a maior parte do tempo que estive lá. Me fez cogitar a ideia de aparecer na cafeteria à tarde, quem sabe não a encontraria novamente.

O que estou pensando…

Por que eu deveria fazer isso?

Em minha teimosia, esperei as horas passarem, até que o despertador tocou. havia programado para que não me esquecesse as horas da refeição. Era inútil, já que, na maioria das vezes, estava sem fome e sem vontade de viver. Os códigos de programação eram meu refúgio na maior parte do dia. Assim que troquei de roupa, respirei fundo, certamente poderia considerar uma loucura o que estava fazendo. Voltaria à cafeteria para encontrar uma pessoa que eu nem poderia ver.

Fiquei na frente do elevador por alguns minutos, refletindo se deveria ou não mudar minha rotina de solidão por causa de uma voz que poderia nem voltar a ouvir. Contudo, aquela voz havia despertado algo dentro de mim, um desejo forte por ouvir novamente. A pouca coragem que me restava me fez apertar o botão e entrar no elevador. Talvez minhas expectativas estavam altas demais, porém minhas esperanças caíram após três horas sentado em uma mesa ao lado da vidraça lateral, esperando ouvir aquela voz novamente. Ingênuo da minha parte jogar toda minha atenção em uma voz que nem sabia de quem era.

Contudo, para a escuridão em que vivia diariamente, essa voz simbolizava uma luz no fim do túnel.

Minha vontade de esperar já estava perdida, assim que a atendente do perfume forte veio me perguntar se eu queria mais alguma coisa. Paguei a conta com o cartão que tinha me dado para despesas gerais e emergência. Demorei um pouco para sair, com uma ponta de esperança de perceber sua presença ali. Os passos até a porta se tornaram pesados e solitários por não ouvir aquela voz. Respirei fundo após sair da cafeteria. O clima parecia um pouco mais pesado e úmido do que o natural, e se fosse um meteorologista, daria uma concreta afirmação de chuva certa naquela tarde. Dando alguns passos até a faixa para atravessar a rua, esperei um pouco. Conseguia ouvir os carros passando por mim. De repente, meu corpo congelou.

Resultado do que eu estava procurando durante aquelas horas todas.

Senti, exalando do meu lado direito, aquele perfume de jasmim que me fez sair de casa pela segunda vez no mesmo dia. Me peguei parcialmente paralisado. Como iria falar com uma pessoa que eu estava procurando por ela por causa do seu perfume? Devagar, virei minha face para o lado em que estava, e quando tomei coragem para falar, ela deu um impulso e começou a atravessar a rua. Era frustrante aquele momento. Poderia não ser ela, mas e se fosse? Seria uma chance em um milhão. Foi em um piscar de olhos que ouvi, bem ao longe, um crescente barulho estranho, semelhante a um carro desgovernado. De imediato, uma descarga de adrenalina passou pelo meu corpo, ao pensar que ela poderia ser atropelada.

Mas como um cego poderia salvar alguém?

Controlei a raiva imensa de mim naquele momento. Se eu enxergasse, poderia salvá-la. Assim que o barulho do carro ficou ainda mais perto, não me importei mais com minhas condições, corri em sua direção. E, como disse no início, milagres acontecem. De alguma forma louca e estranha, consegui e a segurei, envolvendo meus braços ao seu redor como proteção, e lancei nossos corpos em direção à calçada.

— Obrigada — disse a voz que tanto ansiava por ouvir novamente. Mesmo ofegante e com vestígios de medo, era ela.

Naquele momento…

Não sabia se meu coração estava acelerado por causa da adrenalina, ou por ouvir sua voz. E, para selar aquele momento, ainda sentados no chão, a primeira gota de chuva caiu em minha face.

Estava começando a gostar da chuva.

“Eu quero saber mais sobre você
Como explorador que se aventura
através de sua floresta profunda do mistério.”
— Just One Day / BangTan Boys (BTS)




As gotas frias continuaram sobre nós…

Mesmo debaixo da chuva, muitas pessoas se aproximaram para nos ajudar a levantar e, curiosamente, estavam mais preocupados com ela do que comigo. Uma senhora me entregou meus óculos escuros, que haviam caído no chão. Coloquei rapidamente assim que peguei da mão dela, não queria que a senhorita jasmim descobrisse que eu era deficiente visual. Apesar das muitas pessoas ao nosso redor, conseguia sentir sua respiração ainda ofegante. Certamente, continuava assustada pelo ocorrido.

— Obrigada — agradeceu novamente, com mais controle de voz. — Muito obrigada por me salvar.
— Ah, que bom que você está bem. — Reconheci aquela voz, era a mulher do perfume forte e foz fina. — Quando vi o carro vindo de dentro da cafeteria, senti um aperto.
— Não se preocupe, Grace, estou bem. — Num tom mais calmo e contido agora, regado a sutilezas. — Graças a Deus, e a ele.
— Oh, o cliente estranho — sussurrou a tal Grace, parecendo em choque.

Por mais baixo que tenha sido, consegui ouvir — o que não era novidade.

— Ah, bem, agradecemos. — Continuou Grace, parecendo disfarçar algo.
— Fiz o que qualquer pessoa poderia fazer — respondi normalmente, mantendo minha face voltada para a rua.
— Mesmo assim, estou grata por isso. — Aquela voz suave e doce, parecendo estar sorrindo.

Marcando o início do meu desejo em ver seu sorriso.

— Venha, . Seu joelho está ralado, temos que fazer um curativo antes que infeccione — se pronunciou Grace.
— Tudo bem. — Assentiu sem relutar.

Mas…

As senti se afastando de mim. Em segundos, até mesmo as pessoas curiosas foram se dispersando. Continuei parado por mais alguns minutos, numa reflexão profunda.

Seu nome era .

Estava aliviado por tê-la salvado, um momento de angústia que me rendeu algo valioso. Agora sabia o seu nome, uma confirmação de que a dona daquela voz era real. Meu coração acelerou um pouco, certamente sabendo que deixar de pensar nela agora seria praticamente impossível. O que me levou a cogitar a ideia de tomar café todas as manhãs na cafeteria nova.

Será que deveria mesmo?

? — A voz repentina de despertou-me de meus devaneios.
? — Me virei para a sua direção.
— O que faz aqui? Por que está debaixo da chuva? — indagou, num misto de curiosidade e preocupação. — O que aconteceu com suas roupas? Você está todo bagunçado.
— Bem, a história é meio louca e longa. — Ri de leve. — Vamos entrar que eu te conto.

Eu mesmo não acreditava no que tinha feito.

Meu primo me acompanhou até o apartamento. Assim que entramos, ele foi até a cozinha preparar um chá quente para tomarmos e espantar o resfriado. Aproveitei para ir ao banheiro, tomei uma ducha quente e coloquei roupas confortáveis. Quando voltei para a cozinha, com uma boa xícara na mão, comecei a contar minha história desde o início, quando fomos à cafeteria tomar café da manhã. Enquanto ele preparava um sanduíche, continuei contando sobre meu súbito interesse na garota do perfume de jasmim, falando sobre ter pensado nela durante o resto da manhã e minha aventura ao voltar à cafeteria.

Até chegar à parte mais louca.

— Espera, você a salvou de ser atropelada? — A voz de parecia surpresa.
— Sim. — Assenti com serenidade.
— Você tem noção do que fez? Se jogou na frente de um veículo em movimento para salvar alguém que nem conhece. — Soou com repreensão. — Não poderia ter deixado outra pessoa fazer isso?
— Eu a salvei, é o que importa. Além do mais, meus reflexos e percepção são melhores que os de uma pessoa comum. Até o momento em que eu cheguei perto dela, ninguém havia percebido o veículo desgovernado — retruquei, de forma coerente.
— Isso é verdade. — Um suspiro fraco. — Fico me perguntando se você realmente está cego. — Riu com ironia. — Às vezes faz coisas como se enxergasse ainda.
— Devo levar isso como um elogio? — Olhei para a direção da voz dele.
— Viu. É disso que estou falando. — pareceu pegar alguma coisa. — Você olha para minha direção como se conseguisse me ver.
— Acredite, são sete anos de prática constante. Odeio quando as pessoas me tratam como um cego deficiente. — Bufei um pouco, o sentindo encostar na xícara em minha mão para enchê-la novamente.
— Aqui está. — Sua voz estava mais branda. — Mais um pouco de chá para alegrar seu dia, só não é de jasmim. — Ele se afastou, rindo.

Tinha mesmo que tirar proveito da situação para me zoar.

— Se vai começar com suas piadas, vou me confinar no quarto — o alertei, indo até o sofá.
— Prometo não abusar. — Continuou, rindo, enquanto se sentava ao meu lado. — Então, depois de sete anos fechado para balanço, está mesmo interessado em uma garota?
— Não é isso. — Ainda não tinha definido meus sentimentos por ela. Inicialmente, poderia dizer que era apenas curiosidade. — Eu… Só me senti bem quando ouvi a voz dela, foi como ver uma luz no fim do túnel, em meio à escuridão.
— Sei. — Aquilo era deboche.
— Estou sendo sincero — retruquei. — Nem a conheço, como posso estar interessado?
— Como? — Uma gargalhada maldosa. — Querido primo, é simples, estando interessado. Quando um homem se interessa por uma mulher, ele precisa ver ela, anseia por isso… Bem, no seu caso, foi ouvir.
— Não estou interessado, mas gostaria, sim, de conhecê-la — admiti, relutante.
— E já sabe o nome dela, pelo menos? — Ele se remexeu ao meu lado.
— Sim. — Suspirei um pouco. — Ouvi a outra atendente falando. É .
— Nome bonito.
— Sim. — Uma ponta de sorriso apareceu espontaneamente em minha face.
— Acho que você ainda se prende muito ao que aconteceu no passado, me desculpe a sinceridade. — Respirou fundo. — As pessoas não são iguais, e já percebi que a voz dela te atrai. Você inconscientemente está interessado, então admita isso de uma vez e se dê uma chance.
— Você está de brincadeira, né?
— Não. — Ele se levantou. — O máximo que pode acontecer é ela já ter um namorado, ou te achar feio.

Ao terminar, saiu aos risos, me deixando perplexo por sua sinceridade em forma de incentivo.

— Ha... ha... ha... — Tomei um gole do chá.

estava relativamente certo.

De fato, estava interessado nela, mas ainda tinha impregnado em mim as frustrações do passado. Ser deixado após dar uma demonstração de amor foi a pior coisa que me aconteceu. E não queria passar por aquilo novamente, não queria ter meu coração estilhaçado como tive, e, se já estava no fundo do poço, não tinha mais nada para ser tirado de mim.

O pior que poderia acontecer era ter pena de mim.

Senti seu afastamento da sala, provavelmente em direção ao quarto. Permaneci mais alguns minutos sentado no sofá enquanto terminava de tomar meu chá. Era difícil não pensar nas palavras dele, afinal, tinha passado os últimos sete anos criando muralhas para afastar as pessoas e agora queria me aproximar de uma. Quanto mais pensava nisso, mais receio tinha em continuar. Não queria me machucar novamente. Contudo, desejava poder ouvir aquela voz novamente. Terminei o chá e levantei do sofá, caminhei até a cozinha e coloquei a xícara na bancada. Fiquei ouvindo o barulho da chuva do lado de fora por um tempo. Mais devaneios, até que me virei no automático com a movimentação de , seguido do barulho dele sentando no sofá novamente e ligando a tv.

— Vou assistir um filme, me acompanha? — perguntou. — Adoro seus comentários e observações sobre o que vai acontecer nas cenas.
— Muito engraçado. — Bufei um pouco. — Para mim, não é nada divertido isso, ter que adivinhar o que está acontecendo quando tudo está calado.
— Ah, deixa de ser mal-humorado. É divertido, você sempre acerta nas teorias — argumentou.
— Porque você sempre vê os mesmos filmes. — Era uma realidade, eu já tinha até decorado as falas de Os Piratas do Caribe.
— Quer algo novo? — Um tom surpreso. — Sempre achei que você tinha o mesmo gosto que eu para filmes.
— Pelo menos são melhores que os romances que a Taylor vê. Consigo sentir ela chorando do meu quarto. — Caminhei de volta para o sofá.
— O que me diz de um pouco de zumbi? — Parecia segurar o riso.
— Depende do filme e do zumbi — retruquei, me sentando ao seu lado. — Nada de The Walking Dead novamente, não aguento mais suas maratonas desse seriado.
— Nossa, você é mesmo um chato, nada está bom — reclamou, enquanto trocava de canal.
— Desculpa se não tenho mais perspectiva de vida. — Respirando fundo.
— Você já foi mais divertido. Acho que precisa mesmo conhecer aquela moça, quem sabe assim fica menos amargurado. — O comentário soou com leveza.
— Por que será que eu já imaginava que você tocaria nesse assunto? — Bufei novamente. — Já me decidi, prefiro continuar como estou.
— O quê? — Aquilo era tom de indignação. — Você sai de casa sozinho, passa a tarde esperando a sorte, arrisca sua vida, salva a garota e agora vai desistir?!

Inacreditável, mas real.

— Você fala como se eu a conhecesse há tempos. — Não contive um riso irônico. — Quero te lembrar de que a ouvi pela primeira vez hoje pela manhã e, na minha falta de sorte, ela atendeu à mesa ao lado.
— Hum. — Demonstrou-se pensativo. — Então, agora que estou me ligando. A atendente da mesa ao lado, aish. Queria ser um bom fisionomista, não me lembro do rosto dela.
— E isso tem alguma relevância? — Virei minha face para ele.
— Pare de fazer isso como se estivesse me olhando de verdade, seus reflexos me assustam às vezes. — Aquela era a milionésima vez que reclamava da forma como eu agia como uma pessoa normal.
— Você não respondeu — retruquei, voltando ao assunto.
— Respondendo... — Deu uma risada rápida. — É claro que tem relevância. Vai que a moça não é bonita?
— Sério isso? — Não conseguia mais associar os padrões de beleza do mundo. — Olha só quem fala.
— O que está insinuando?
— Taylor é bonita? — perguntei ironicamente. — Porque eu não consigo achar isso.
— Porque não pode ver o quão linda ela é, corpo de modelo — retrucou , com satisfação.
— Desculpa, a voz dela não me transmite nada de belo. — Fui mais sincero que o normal.
— O que a voz de uma pessoa tem para definir a beleza dela? — retrucou , como se estivesse ofendido.
— E o que o corpo de uma pessoa tem para definir sua beleza? — Ri um pouco, me espreguiçando. — O que é belo para um, pode não ser para outro.
— E a voz da a faz se tornar bela para você? — gostava mesmo de voltar a assuntos que eu queria distância.

Permaneci em silêncio.

Não queria responder. Ele riu um pouco da minha cara. Não que eu não quisesse me lembrar dela, mas... Mesmo que explicasse os motivos para me afastar de todos, meu primo nunca entenderia a complexidade de voltar a confiar nas pessoas, principalmente em quem você nunca viu na vida. Com sua insistência em me fazer ficar longe do quarto, o acompanhei em mais uma maratona vendo Resident Evil, em sua franquia de cinco filmes com o mesmo elenco morrendo e voltando várias vezes. Aproveitei o término do quarto filme para fugir da sala, uma escapada estratégica para ir ao banheiro e me trancar no quarto depois. ficou me gritando da sala algumas vezes, mas acabou desistindo quando parei de responder seus gritos. Aproveitei aquilo para trocar de roupa, colocar o pijama e dormir.

As horas de sono passaram rápido, até que o sol entrou pela janela, e me gritou da porta. Seria mesmo necessário acordar tão cedo em minha folga?

?! — Bateu à porta. — Estou indo à cafeteria da sua garota, quer ir também?
— Garota? — sussurrei. — Que garota?
?! Está me ouvindo?
— Estou, me deixa dormir — resmunguei.
— E perder a oportunidade de ver você encontrando sua garota? — falou, num tom debochado.
— Que garota? — gritei irritado, erguendo meu corpo na cama.
— Então já superou ela? — Riu descontraidamente. — Você se esquece muito rápido das garotas agora.
— Deixe de ironia. — Me levantei da cama, espreguiçando. — Se está falando da , ela não é minha garota.
— Nunca se sabe, ela pode vir a ser. — Um soar malicioso.

Fácil de notar nas entrelinhas.

— Me dê cinco minutos — retruquei, vencido pelo cansaço.

Em casos assim, era melhor não retrucar. Há meses que tinha traçado seu objetivo de vida de me arrumar uma garota. Contudo, eu não queria garota nenhuma, não até aquele momento. Troquei de roupa, coloquei meus óculos e saí do quarto. Passei no banheiro antes de chegar à sala. comentou com sarcasmo minha rapidez para me arrumar. Seguimos para a cafeteria com algumas brincadeiras da parte dele. Confesso que fiquei um pouco nervoso assim que nos aproximamos da porta. Senti um frio na barriga quando entrarmos.

— Coragem, homem — disse, rindo de mim. Já era normal.
— Não sei do que está falando — neguei até a morte.
— Sei. — Continuou rindo.

Eu o segui até a mesa onde nos sentamos. Demorou alguns minutos até reconhecer o perfume de jasmim, ela estava na cafeteria e bem próxima. Coloquei a mão na altura do meu coração de forma discreta, sentindo a aceleração. Será que seria a atendente da nossa mesa desta vez?

— Bom dia, sejam bem-vindos — cumprimentou a voz que queria ouvir. — Vocês gostariam que eu recomendasse algum café? Temos ótimas variedades.
— Oh, bom dia, — cumprimentou , dando ênfase ao seu nome de propósito.
— Você está bem? — perguntei, ao me lembrar do quase acidente de ontem.
— Estou — ela respondeu, meio sem reação.
— Ah, que bom. Fiquei preocupado com você. — Continuei, forçando minha voz sair.
— Hum, me desculpe, senhor, mas não o conheço. Como pode estar preocupado comigo? E saberem o meu nome? — Soou com traços de estar confusa. — Nem estou usando o crachá hoje.

Será que não se lembrava que eu a tinha salvado?

— Tem certeza de que não o conhece, moça? — reforçou , achando estranho.
— Sim — respondeu, com suavidade. Ainda era a mesma voz doce de sempre. — Me desculpem.
— Talvez não esteja me reconhecendo. Quando você foi atravessar na rua ontem, eu te salvei, nós dois caímos e você ralou o joelho — expliquei, ponderando o desespero interno que brotou do nada.
— Certamente o senhor está me confundindo com outra pessoa. Isso nunca aconteceu comigo. — Seu tom tinha traços de verdade e sinceridade, mas não fazia sentido.

Eu não estava ficando louco.

— Bem, e como seu joelho está machucado? — perguntou , com sua voz de desconfiança.
— Eu, não sei. — Senti que deu alguns passos para trás, esbarrando na outra mesa. Ouvi algumas coisas caindo. — Me desculpe, eu... Você está me confundindo com outra pessoa.

Pude perceber seu afastamento a passos largos.

?! — A outra atendente se aproximou da nossa mesa. — Oh, me desculpem o mal-entendido.
— Por que ela não se lembra de mim? — me perguntei, num sussurro meio alto.
— O que aconteceu com ela? — indagou meu primo. — Houve ou não um quase acidente?
— É claro que houve. — Minha voz tinha uma visível irritação, e estava nervoso com aquela situação.
— Me desculpem. É um pouco complicado de se explicar — disse a atendente.
— Você é a Grace, não é?! — perguntei de imediato, mantendo minha face voltada para ela. — Me lembro de você.

Daquele perfume estranho.

— Sim, eu também me lembro de você. — Assentiu. — Agradeço mais uma vez por tê-la salvo, e sinto muito pelo mal-entendido.
— Poderia nos dizer o problema dela? — insistiu .
— Por que é complicado? — reforcei.

Merecia uma explicação.

— Me desculpem, não posso... — Se afastou antes mesmo de terminar a frase.
— Senhores. — A voz de um senhor soou em seguida, possivelmente o dono do lugar. — Me desculpem o transtorno, é a primeira vez que isso acontece.
— Não quero desculpas, só quero entender o que está acontecendo. — Mantive o tom de chateação.
— Senhor, nos perdoe a intromissão, mas meu primo só estava preocupado com a moça e resolveu perguntar se ela estava bem. — Meu primo continuou com o tom brando e sereno, porém sério. — Não imaginávamos que aconteceria isso.
— Ninguém imagina. — O senhor puxou uma cadeira e se sentou. — Não costumamos contar isso a nenhum cliente, entretanto, como seu primo se envolveu um pouco, acho que preciso esclarecer tudo… Em gratidão por tê-la salvo ontem.
— Estamos ouvindo. — Minha voz estava mais fria que o normal.

Com o coração aflito.

é minha sobrinha. Eu a crio desde os sete anos, mas às vezes me culpo por não tê-la protegido como deveria. — O senhor respirou fundo. — Três anos atrás, ela sofreu um acidente que a fez bater a cabeça gravemente. Depois de um ano em coma, ela acordou, mas percebemos que não era a mesma. — Pareceu reprimir um pouco seus sentimentos. — Descobrimos que havia adquirido a Síndrome de Goldfield. Toda sua memória contraída até o dia do acidente permaneceu intacta, mas sua mente não consegue mais guardar memórias recentes. Tudo que ela vive em um dia, se apaga à noite quando ela dorme.


“Caindo (tudo está)
Caindo (tudo está)
Caindo (tudo está) desabando.”
— I Need U / BangTan Boys (BTS)

*Síndrome de Golfield: doença fictícia do filme "Como se fosse a primeira vez".



Estava desnorteado com aquela notícia.

Não sabia o que pensar, nem como reagir. Poderia considerar muita falta de sorte a minha me interessar por uma garota que jamais se lembraria de mim no dia seguinte. Me levantei da mesa, mais uma vez desnorteado com o choque de realidade. Me afastei deles, precisava de ar puro, estava me sentindo sufocado naquele lugar. se levantou e me ajudou a sair da cafeteria. Quando chegamos à rua, respirei fundo, permanecendo com minha cabeça abaixada. Ele permaneceu do meu lado, acho que, assim como eu, estava tentando digerir toda aquela história louca.

— Você vai ficar bem? — perguntou preocupado.
— Vou. — Assenti, levantando minha face. — Só quero ir para casa agora. Pode tomar seu café, quero ficar sozinho.
— Tem certeza? — insistiu.
— Tenho, sim, não há nada que fazer. — Suspirei fraco. — Ela nem me conhecia mesmo, amanhã nem vai se lembrar do cliente inoportuno.

Antes que pudesse retrucar, me afastei dele, indo em direção ao meio fio. Atravessei a rua e entrei no prédio. De forma automática, passei pelo elevador e entrei pela porta de acesso às escadas. Subi alguns lances de escada e depois parei no meu andar. Em vez de entrar novamente para o prédio, me sentei em um degrau e permaneci no modo estático.

Acho que só naquele momento que minha ficha tinha realmente caído.

Minutos de um amargo silêncio profundo…

— Era de se esperar que tivesse mesmo essa falta de sorte. — Ri de leve comigo mesmo, segurando minha frustração.
— Me desculpe, mas está tudo bem? — perguntou uma voz feminina, a voz suave que tinha transformado minha manhã em um tsunami. — Moço?
— O quê? — Me levantei de imediato e olhei para sua direção. — O que está fazendo aqui?
— Me desculpe, mas eu é que deveria perguntar isso. — Riu de leve, parecia achar algo engraçado. — É você que estava sentado na escada falando sozinho.
— Estava filosofando. — Agi naturalmente, pedindo a Deus para ela me reconhecer desta vez. — Mas o que você faz aqui?
— Eu vi quando saiu da cafeteria e veio para o prédio, precisava saber quem era você — respondeu prontamente. — Acho que te devo desculpas por hoje cedo.

Sua entonação tinha traços de descoberta.

— Não, não me deve nada. — Desci alguns degraus até chegar ao patamar, onde estava. — Está tudo bem.
— Comigo, não. Grace me disse que não é a primeira vez que acontece isso. — Tinha traços de tristeza. — Eu realmente sinto muito pelo constrangimento.
— Tudo bem, consigo sobreviver com isso. — Sorri de leve, assim ficaria mais tranquila.
— Bem, se você está dizendo, ficarei mais aliviada. — Um suspiro profundo. — Quero te agradecer formalmente por ter me salvado ontem.
— Só agi por instinto. Fiz o que qualquer pessoa poderia ter feito — respondi tranquilamente.
— Não exatamente. Nem todo mundo se arrisca por um desconhecido. — Estava parcialmente certa, porém eu fazia parte daquela pequena porcentagem de loucos. — Por isso, muito obrigada.
— Disponha. — Sorri de leve, colocando as mãos no bolso. Precisava esconder meu nervosismo pelo momento, ainda mais que ela não tinha reparado na minha cegueira ainda. — Mas está tudo bem para você agora? Também te devo desculpas por ter te deixado meio desnorteada hoje mais cedo.
— Estou, sim. Eu meio que esqueci de detalhar o acidente de ontem. — Riu de leve, com uma naturalidade fora do comum. — Acabei só colocando que me machuquei.
— Colocando onde?! — indaguei curioso.
— No meu diário pessoal. Sempre escrevo coisas importantes que me acontecem para relembrar no dia seguinte — explicou.
— Hum… O que importa é que você está bem — afirmei, dando alguns passos até a porta. — Posso te convidar para tomar um chá? Se não for muito atrevimento da minha parte.
— Oh, claro. — Deu uma pausa, e imaginei que estivesse sorrindo, ou algo do tipo. — Eu adoro chá. A propósito, meu nome é , mas pode me chamar de .
— Eu sou o , e também adoro chá. — Concordei, com um sorriso leve, abrindo a porta. — Vamos então?!

Se meu coração já estava acelerado antes…

Ela me seguiu tranquilamente. Notei que estava cantarolando alguma coisa, exalando bom humor. Seria complicado acalmar meu coração, principalmente pelo aroma do seu perfume, combinado ao som da sua voz. Abri a porta do apartamento e a convidei para entrar. Agradecendo, entrou com leveza. Estava atento a cada passo dela. Naquele momento, me esforçava para ser ainda mais preciso em agir normalmente e não deixar que ela descobrisse que eu era um deficiente visual. Não tinha vergonha, mas, para um possível “primeiro encontro”, não queria que ela sentisse pena de mim. Segui até a cozinha e abri um dos armários. Respirei fundo, porque a vida sempre reservava um pingo de má sorte para mim, um passo para frente e quatro para trás.

Por um curto espaço de tempo.

Tinha esquecido que Taylor tinha trocado as coisas dos armários de lugar também.

— Está tudo bem aí? — perguntou, e ouvi seus passos em minha direção.
— Sim, está. — Me controlei para não ficar mais nervoso e ansioso que já estava. Remexi em um dos armários, tentando encontrar o bule que tanto procurava.
— Se quiser, posso te ajudar. — Se ofereceu, de forma inocente.
— Não, eu consigo, não se preocupe — assegurei, dando alguns passos para trás.
— Mas eu posso... — Sem perceber, acabamos nos trombando. Com o impacto, caímos no chão. — Oh, Deus.

Meus óculos tinham saído do meu rosto. O que menos queria estava acontecendo, e conseguia ouvir sua respiração meio descoordenada, como se estivesse impressionada com meus olhos brancos sem vida. Caídos estávamos e ficamos por instantes, até que me levantei primeiro e a ajudei a se levantar também. Contive internamente minha frustração com aquilo.

Quando pensei que pudesse recomeçar de uma forma legal…

— Eu... Não imaginava que você... — Era como se relutasse em falar o óbvio. Acho que estava impressionada pela forma como eu agia naturalmente.
— Era cego?! — Deixei um pouco de frustração sair em minha voz. — Você poderia ir embora, por favor? E esquecer o que viu.

Estava controlando também minhas lágrimas, mas a rispidez foi natural.

— Esquecer não é o problema. — Sua voz também tinha frustração, senti um certo movimento vindo dela. — Me desculpe, eu não pretendia te deixar constrangido, mais uma vez.

Suavemente, tocou em minha mão direita e colocou meus óculos por cima.

Senti se afastando, e, após alguns passos, o barulho da porta abrindo e fechado soou pelo apartamento. Um gosto amargo de desapontamento, mas o que mais me deixava com raiva não era por ter descoberto minha condição, mas pela forma como reagiu. Consegui sentir na respiração e seu tom de voz os pequenos detalhes de mudança. Era sempre a mesma coisa quando descobriam que eu era deficiente visual, o mesmo choque inicial, a mesma mudança na forma de tratamento… Em todos que me conheciam. E não queria que acontecesse com ela. Caminhei lentamente até a sala, acabei tropeçando na mesa de centro e me joguei no chão ali mesmo. Seria fraco demais da minha parte se chorasse? Não sei, já estava tão chateado com tudo que vinha acontecendo em minha vida que, sem pedir permissão, algumas lágrimas escorreram pelo rosto. Logo a lembrança da minha ex-namorada, Yoona, invadiu minha mente, como se me empurrasse para o abismo.

A primeira pessoa a mudar comigo, uma mudança que ainda se mantinha viva, como uma ferida sem cicatrização.

— Hoje é o dia — disse , ao entrar cantarolando. O senti parando repentinamente, certamente pela visão da personificação da derrota em forma de primo. — O que houve?
— Não se preocupe, eu ainda estou vivo. — Me levantei, colocando meus óculos. — Vou para meu quarto.
— Não. — Segurou em meu braço. — O que aconteceu? , você está acabado, como se tivesse passado um trator em cima de você.
— Conta uma novidade? Estou assim há sete anos. — Me soltei dele, não dando importância. — Acho que só percebi que não vale a pena esperar hoje. A vida acabou de desistir de mim.
— Por que essas palavras tão duras consigo mesmo? — Soou preocupado.

Já não importava com isso.

O brilho de esperança tinha se apagado, ou melhor, seria esquecido após uma noite de sono. Me desviei dele e segui para o corredor. Entrei no quarto, me trancando. Sem me importar com a fome, e se ela também pudesse me deixar sozinho, seria uma grande ajuda. As horas se passaram comigo ao lado da janela, olhando para a direção da claridade do céu, e me permiti acompanhar a mudança do tempo. Pela previsão, segundo meus sentidos, era certo que iria chover àquela noite também.

O que se mostrou bom.

A chuva poderia lavar todas as minhas angústias e frustrações também, ou só me levar com a enxurrada. Na metade da noite, saí do quarto e ataquei a primeira coisa que peguei dentro da geladeira. Para minha não surpresa, era um sanduíche que tinha deixado especialmente para mim, junto a uma garrafinha de suco. Dei um sorriso fechado e fechei a porta da geladeira. Me virei em direção ao corredor e, por um momento, ouvi um barulho estranho vindo da minha barriga. Para conseguir ficar sozinho, precisava me livrar da companhia da fome, que permaneceu todo aquele tempo. Me renderia a comida.

— Eu sabia que sairia do quarto em qualquer momento — disse , se remexendo no sofá.
— Sabia que estava ouvindo uma respiração meio silenciosa — disse, não dando importância ao comentário dele.
— Ainda não entendo como consegue perceber os mínimos detalhes. — Um tom meio revoltado.
— São os detalhes que salvam meus dias, acredite. — Segui pelo corredor e entrei no meu quarto novamente.

Fechando a porta, me sentei na cama e comecei a saborear o lanche.

Assim que terminei de comer, saí novamente do quarto e coloquei as coisas em cima da bancada da cozinha. A televisão ligada, denunciando que estava vendo um jogo de basquete, um jogo da liga da NBA, Chicago Bulls contra os Lakers, se não me engano. E o time de LeBron James estava ganhando por 79 a 75 até o momento. Retornei ao corredor, seguindo até o banheiro. Demorei um pouco para voltar ao quarto, desta vez eu iria me render ao sono e me deitar, não tinha mesmo nada de interessante para fazer. Cogitei a ideia de ficar vendo o final do jogo com narrando todos os lances importantes para mim, mas aquilo não iria mudar meu humor.

Não iria melhorar minha noite.

Troquei de roupa e deitei na cama, mantive meus olhos abertos como se estivesse olhando para o teto. Dei um sorriso de leve, até eu estranhava um pouco como agia natural, como uma pessoa normal. Um dia eu fui assim. Respirei fundo, fechando os olhos. Foi difícil conseguir dormir, por mais que eu não conhecesse o rosto de , sua voz ecoava em minha mente e me fazia imaginar como seriam os traços de sua face. Ao clarear o dia, acordei com o barulho da porta, e a campainha estava tocando repetidas vezes. Não gostava de ser acordado, e com barulhos era ainda pior. Meu dia tinha tudo para ser estressante, mal-humorado em menos de um minuto acordado. Me levantei, ainda um pouco zonzo, e, com alguns xingos pelo caminho, segui em direção à porta.

Tinha certeza de que era e sua falta de atenção em não sair com a chave.

— O que foi?! — disse de forma rude ao abrir a porta. Senti a pessoa respirando meio sem reação, o que me deixava ainda mais nervoso. — Não vai dizer nada?
— Bem... — Era ela, a voz era dela. — Acho que posso começar com um... Bom dia?!
?! — Tentei sussurrar, mas saiu muito alto. Meu coração acelerou novamente e abaixei minha face, não a deixando ver meus olhos. — O que deseja?
— Bem... — Respirou fundo, talvez se encorajando a falar. — Primeiro, eu desejo que retribua o bom dia que eu te dei.

Como uma garota de atitude naquele momento. Um delicado soar repreensivo.

— Nossa... — Fiquei envergonhado por minha reação ao abrir a porta. — Bom dia.
— Agora está melhor. — Sua voz voltou a ser mais suave como sempre. — Eu... Li sobre você, então pensei que pudesse agradecer de forma mais adequada.
— Leu sobre mim? — Estava em choque. Eu pedi para que ela me “esquecesse”, e ela escreveu sobre mim.
— Sim, esta manhã, havia uma página sobre você no meu álbum de informações. — Assentiu de forma gentil. — O que fez por mim foi... Você me salvou, não tenho palavras pra expressar como estou grata.

Parei no: uma página sobre você.

— Nem sei o que dizer, achei que fosse esquecer de mim. — Fui sincero e claro com meus pensamentos sobre isso.
— Eu também. — Riu de leve. — Está sendo um pouco estranho para mim. Por mais que todo dia seja sempre uma novidade, eu sempre deixo passar muita coisa que não vai fazer diferença na minha vida, mas… Acho que o meu eu de ontem não queria te esquecer.


“Eu tenho medo de que você vá embora.
Eu não deixaria você ir,
Como eu posso manter-te aqui?”
— All My heart / Super Junior




Aquilo caiu como um meteoro no meu coração.

O seu “eu” de ontem não queria me esquecer. Respirei fundo, tentando controlar meus batimentos e não criar nenhuma expectativa ou esperança, não queria sair frustrado de novo. Ficamos parados por instantes na porta, até que voltei a mim e a convidei para entrar.

— Bem, eu li que você me convidou para um chá. — Continuou ela, ao entrar e passar por mim. Senti que ela tinha algo nas mãos. — Não sei se tomamos esse chá ontem, mas trouxe uma torta que fiz agora pela manhã, assim poderemos tomar aquele chá novamente.
— Chá?!

Minha mente estava um pouco paralisada com aquilo. Ela estava agindo como se eu fosse normal, agindo como antes de saber sobre minha cegueira, o que me deixava ainda mais confuso e desnorteado. Fechei a porta e tentei me concentrar um pouco e pensar no que iria fazer. A deixei na sala e fui até o quarto. Fiquei alguns segundos respirando fundo e tomando coragem para voltar. Coloquei meus óculos, troquei de roupa rapidamente e voltei. Tentei me acalmar um pouco, tinha que me concentrar para saber onde ela estava, mas, assim que cheguei à sala, ouvi um barulho vindo da cozinha.

O que será que ela estava aprontando?

?! — disse, dando alguns passos na direção do barulho. — O que está aprontando na minha cozinha?
— Bem... — Ela parecia prender o riso. — Me desculpa invadir sua casa assim, mas estava procurando uma faca para cortar os pedaços, aí acabei encontrando a chaleira.
— A chaleira?! — Só de falar daquele objeto eu já me lembrava do dia anterior.
— Sim, então tomei a liberdade de colocar água para esquentar. — Ela caminhou até mim e ficou parada ao meu lado. — Mas ainda preciso encontrar a faca.
— Pode deixar que eu assumo daqui. — Eu ri um pouco, indo em direção à bancada da pia. Abri a segunda gaveta, onde ficavam as facas, e estiquei a mão para ela.
— Agora, sim. — Ela riu. — Obrigada pela faca.
— Só tenha cuidado, não quero que se machuque.
— Não se preocupe, não está muito afiada — retrucou ela, e ouvi o barulho de alguma coisa sendo arrastada.

Cruzei os braços, mantendo minha face na direção do barulho, e fiquei em silêncio. Ela começou a cantarolar alguma coisa que eu não entendia bem, segurei o riso várias vezes. Assim que terminou, ela me pediu dois pratos. Peguei para ela sem a menor dificuldade e terminei de preparar o chá, ainda não conseguia acreditar que estava mesmo acontecendo isso.

— E o que está achando do meu chá? — perguntei, ao tomar um gole.
— Nem forte, nem fraco. Está na medida — respondeu, se sentando na banqueta ao meu lado. — E você? O que achou da minha torta?
— Maravilhosa. Nem sem doce e nem com exagero. Está na medida certa. — Eu sorri espontaneamente, meio bobo.
— Que bom. Eu mesma inventei depois do meu acidente. Faço ela todos os dias para não me esquecer — disse ela. — Mas essa foi a primeira vez que fiz sem olhar a receita.
— Uau, que progresso — elogiei subjetivamente.
— Acho que foi por sua causa — explicou, tranquilamente.
— Minha causa? — Desviei minha face para a direção da sua voz. — Por que seria por minha causa?
— Não sei, eu estava animada demais para te agradecer. Só agora reparei que não li a receita.
— Isso me deixa mesmo surpreso. Estou comendo uma unidade única da sua torta — brinquei um pouco, a fazendo rir e rindo junto.
— Bem, acho que sim. — Ela suspirou um pouco. Comecei a pensar se ela estava me olhando.

Eu desviei minha face para frente. Complicado não imaginar coisas negativas, principalmente quando o silêncio tomava conta. A maioria eram perguntas simples e idiotas para muitos, mas que representavam aqueles detalhes que salvavam meu dia. Tentar imaginar como ela me olhava, a cor dos seus olhos, como era seu sorriso, se ela tinha alguma mania, como mexer no cabelo, ou coçar a nuca quando estava com vergonha.

— O que foi? — perguntou ela. — Ficou calado de repente.
— Nada, só me perdi nos meus pensamentos. — Disfarcei minha voz melancólica e comi outro pedaço da torta.
— Se eu estiver atrapalhando, posso ir se quiser — disse ela.
— Não. — Peguei automaticamente em sua mão, nem imaginava que conseguiria ser tão preciso assim. — Não vai.
— Tudo bem. — Assentiu ela, mantendo sua voz serena. — Eu não queria mesmo ir.
— Fico aliviado em ouvir isso — disse, respirando fundo.
— Você parece estar meio tenso — comentou. — Tem algo te incomodando?
— Não, é que não estou acostumado a ter companhias. — Direto e sincero. — Isso me deixa meio desnorteado.
— Mas você vive aqui sozinho? — perguntou, num tom confuso.
— Ah, não. — Eu ri de nervoso. — Eu moro com meu primo e a namorada, noiva dele.
— Hum, seu primo. — Ela suspirou um pouco, parecia tentar lembrar de algo. — Ele é cliente da cafeteria?
— Sim, certamente ele passou lá antes de ir para o trabalho. — Assenti.
— E você trabalha com o quê? — perguntou ela.
— Hum. — Comecei a cogitar a ideia de mentir para ela, mas não seria um bom jeito de iniciar nossa, quem sabe, futura amizade. — No momento não há nada que eu queira fazer da minha vida.
— Nada?! — Sua voz de surpresa ecoou. — Nossa, que estranho. É a primeira pessoa que me diz isso de forma tão frustrada.
— Me desculpa se te choquei, mas é a realidade — respondi.
— Não há nada que te chame a atenção e te faça querer investir seu tempo?
— Não. — Agora sim senti aquela frustração na voz. — Por que não paramos de falar sobre mim e falamos de você?
— O que quer saber sobre mim? — ela perguntou curiosa. — O mais importante você já sabe. Só corro o risco de te esquecer amanhã.
— Não corre, não — retruquei tranquilamente. — Você já disse que não quer me esquecer. Tenho certeza de que vai escrever sobre mim.
— Ah, eu não deveria ter contado sobre isso. — Ela riu de leve. — Você gosta de chuva?
— Que pergunta mais aleatória. — Eu ri, desviando minha face para sua direção. — De onde veio essa curiosidade?
— Grace me contou que choveu no dia que você me salvou. Eu ouvi o barulho da chuva nesta madrugada, me lembrei de você e fiquei curiosa em saber se gosta de chuva.
— Uau, que explicação mais detalhada. — Sorri para ela. Eu gostava disso, detalhes.
— Desculpe.
— Não. — Senti meu coração pulsar mais forte. — Eu adoro quando as pessoas detalham seus pensamentos para mim.
— Você é um psicólogo? — perguntou ela, num tom confuso.
— Não. — Eu ri. — Não. Só gosto quando as pessoas se expressam sem esconder nada de mim.
— Hum. — Ela ficou um tempo em silêncio, senti que estava balançando a perna. — Você não me respondeu.
— Não, mas sim.
— O quê? — Ela riu. — Não entendi.
— Não gosto de chuva, mas sempre que chove eu me sinto bem e renovado.
— Hum. — Ela pareceu gostar. — Eu gosto de chuva, mas gosto mais da neve no inverno, guerras de bolas de neve, me faz lembrar da infância.
— Estou sentindo pela empolgação na sua voz. — Eu ri um pouco — Também gosto do inverno, é um período de calmaria e ao mesmo tempo celebração.

Ficamos conversando por mais algum tempo, tanto que nem senti as horas passarem. Foi estranho quando eu a levei até a porta e nos despedimos. Uma parte de mim, ou melhor, eu por inteiro, não queria que ela fosse embora. Ela tinha transformado meu dia de uma forma inexplicável. Fiquei me perguntando se aquela garota do perfume de jasmim, voz doce e suave, chamada , realmente existia.

A cada passo que ela dava para perto do elevador, sentia meu coração acelerar. Me veio um sentimento de perda que não conseguia entender, uma junção de insegurança e angústia. Pensamentos sobre eu não a ver no dia seguinte, ou ela me apagar do seu álbum e nunca mais saber sobre mim, a parte negativa dos meus sentimentos, tinham retornado para mim.

Difícil ser otimista com um histórico de decepções como o meu.

— Finalmente cheguei — disse , ao entrar pela porta. Ele parecia estar carregando algumas caixas, pelo barulho que estava fazendo.
— Quer uma ajuda? — perguntei, desviando minha face para ele.
— Não, não precisa, são só duas caixas — disse ele tranquilamente, então parou de repente. — Como sabia que eu estava carregando algo?
— Com esse barulho todo. — Suspirei, voltando meu olhar para a televisão. — Não tinha como eu não imaginar isso.
— Você bem que poderia agir como cego pelo menos por um dia, ainda me assusto com sua precisão sobre as coisas — reclamou ele, indo em direção à cozinha.
— Me desculpe, querido primo. Mas agora, mais do que nunca, vou ser a pessoa mais normal do mundo — retruquei.
— E ao que se deve essa mudança toda? — Ele parecia admirado.
— A veio aqui hoje de manhã. Ficamos um bom tempo conversando — expliquei, mantendo minha empolgação para mim mesmo. — Eu até descobri que ela é alérgica a bichos de pelúcia.
— Uau, e como isso tudo aconteceu enquanto eu estava trabalhando? — perguntou ele, voltando para a sala. — Ela se lembrou de você?
— Bem, ela disse que leu sobre mim no seu álbum de fotos, que talvez o eu dela de ontem não queria me esquecer.
— Uau, que profundo — brincou ele. — E você disse para ela que está interessado?
— O quê? — Desviei minha face para a direção dele. — Não.
— Olha, friendzone não combina muito com você.
— Yah, fique calado, . Não vou me declarar para ela. Eu nem sei definir meus sentimentos por ela ainda — reclamei. — A única coisa que consigo admitir é que essa tarde eu me senti vivo de novo, como se pudesse ver mesmo no escuro.
— Essa garota realmente tem algo especial para te fazer sentir isso — concluiu ele.
— Sim, eu me senti livre com ela aqui. — Assenti, me levantando do sofá. — Depois de todo esse tempo, pela primeira vez, eu agradeci pela hora não ter passado de forma rápida.

Passei por ele e fui até meu quarto.

Uma guerra interna estava começando dentro de mim. Surpreendente que, ao mesmo tempo que eu queria nutrir a esperança de repetir aquele dia com , eu queria apagar esse dia, com medo de nunca mais viver algo parecido com ela. Deitei na cama pensando sobre isso. Quanto mais a voz dela ecoava em minha mente, mais eu sentia vontade de vê-la, ver seu sorriso, ou a forma como olhava para mim.

A noite passou, e, logo pela manhã, bateu na porta do meu quarto. Demorei um pouco para assimilar que era mesmo ele e não um sonho. Ergui meu corpo, me espreguiçando.

— O que você quer? — gritei.
— Eu nada, mas você tem uma visita inesperada — disse ele, rindo. — E acho que deveria se levantar de bom humor.
— Visita?! — Meu coração acelerou novamente. Será que era ela?

Me levantei e troquei de roupa rapidamente, coloquei os óculos e segui em direção à sala, com meu coração acelerado e a ansiedade momentânea se mostrando incontrolável. Logo que entrei, consegui sentir o perfume de jasmim. Mantive minha respiração tranquila e minha face baixa, estava tentando localizar sua posição na sala.

— Bom dia — disse ela, estava perto da porta.
— Bom dia — respondi, me lembrando do dia anterior. — Você veio, de novo.
— É, acho que sim. — Ela riu de leve. — Eu li sobre você, não sabia se tinha agradecido, então...
— Veio agradecer — completei e desviei minha face para o lado da cozinha. — Você não tem que ir trabalhar, ?
— Ah, yah, eu estava terminando meu café — reclamou ele, com uma voz de chateação. Certamente queria ficar vendo minha conversa com . — Vejo você mais tarde, e foi um prazer te conhecer, .
— Igualmente — respondeu ela, de forma simpática.

Segundos de silêncio, e, assim que eu ouvi a porta se fechar, voltei minha face para onde sentia a respiração dela. Estava escolhendo as palavras certas.

— Você veio mesmo para agradecer de novo? — perguntei, de forma séria, porém serena.
— Sim. — Assentiu ela convicta. — Por mais que eu possa pensar que já te agradeci, ou que leia sobre isso, está sendo mais forte que eu ler sobre você e querer te agradecer.
— Bem, você já agradeceu. — Tentei não ser áspero, mas comecei a imaginar que aquilo não se tornaria real, ela sempre iria somente para me agradecer, porque eu a salvei, nunca seria mais que isso. — E sei o quanto sempre será grata por isso. Acho que se você escrever assim, vai conseguir imaginar que já me agradeceu o suficiente.
— Se é isso que deseja. — Seu tom parecia de decepção, talvez por eu ter agido meio friamente.

Ela me agradeceu mais uma vez por eu tê-la salvo.

Não era sua culpa, era minha. Eu estava tão preso ao meu sofrimento de anos que era difícil não imaginar que poderia sair magoado novamente. Às vezes pensar negativamente era mais atraente e menos doloroso do que pensar positivo. Criar expectativas me fazia ficar frustrado quando não eram realizadas. Era isso que eu estava sentindo com , e imaginar que ela pudesse bater na minha porta todas as manhãs, só para agradecer, não conseguia ver algo positivo nisso, nem mesmo para me beneficiar e não passar algum tempo sozinho. Eu queria ter a companhia dela por mim e não porque a salvei.

Esse desejo era egoísta de minha parte?

Enfim, após ela sair e fechar a porta, senti que minha vida tinha voltado à escuridão de antes. Melhor assim, me sinto tão acostumado com a escuridão que tenho medo de me render à luz. As semanas foram se passando, Sulli tinha retornado da sua viagem, e o apartamento voltou a ser barulhento com ela. Pense numa pessoa que não conhece a palavra privacidade, ou o termo respeitar o espaço alheio. Infelizmente, eu estava ali de favor, mas ainda queria um pouco de respeito à minha solidão, o que me levou a ter uma percepção bem maior do tempo, afinal, Sulli agora trabalhava aos finais de semana, e era uma manhã ensolarada de sábado.

Acordei tão bem disposto que até fiquei assustado, acho que era o silêncio que reinava naquele apartamento. tinha saído para jogar basquete com uns amigos, e eu estava solitário mais uma vez. Me espreguicei um pouco e fui para a cozinha. Assim que coloquei a mão na geladeira para abrir, a campainha tocou. Senti um frio na barriga e, ainda intrigado, fui atender.

?! — disse, ao abrir a porta.
— Bom dia. — Ela suspirou um pouco. — ?!
— Sim. — Assenti, mantendo meu olhar abaixado.
— Acho que já deve ter ouvido isso, mas ver você é meio novo para mim — disse ela, meio sem jeito. — Mas queria que soubesse que já tem uma semana que quero te ver.
— O quê? — Eu não estava entendendo mais nada.
— Eu li sobre você, li que me salvou, sobre meus agradecimentos, sobre você não querer que eu agradeça mais. — Sua voz continha traços de tristeza. — Eu não sei o que houve, mas estava escrito que eu não podia te ver, e isso me fez querer te ver ainda mais.

Coloquei a mão na altura do meu coração. Era para ele estar acelerado, mas, naquele momento, não estava sentindo nada, nenhuma pulsação. Meu corpo todo estava estático e paralisado…

Contudo, de alguma forma aquecido por dentro.

“Ouça meu coração,
Ele está chamando você com vontade própria,
Porque você é luz dentro,
Dessa imensa escuridão.”

— Save Me / BangTan Boys (BTS)




Eu respirei fundo e a convidei para entrar.

Escondi minhas mãos levemente trêmulas, estava tentando pensar no que iria dizer, como iria reagir. Ter ela ali era como a vida me dando uma terceira chance, ou algo do tipo. Pelo menos era isso que eu estava pensando na hora. A convidei para se sentar e me sentei na poltrona ao lado. Tentei me acalmar internamente e fiquei em silêncio, me concentrando na respiração dela, que parecia mais serena que a minha. Entretanto, percebi que balançava a perna direita.

Posso entender como nervosismo ou ansiedade?

— Está tudo bem? — perguntei.
— Sim — respondeu ela. — É que estava com medo de você me mandar ir embora.
— Bem, eu… Me desculpe, não queria passar essa impressão — disse, meio sem graça.
— Não se preocupe, está tudo bem. — Ela riu de leve. — Se você me xingar hoje, provavelmente não vou me lembrar amanhã.
— Verdade, mas jamais xingaria você. — Concordei, segurando o riso.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro.
— Por que usa óculos escuros dentro de casa?
— Hum. — Era de se esperar que ela me perguntaria aquilo, mas não queria que fosse tão rápido. — Bem, eu tenho… Meus olhos são um pouco sensíveis à luz.
— Ah, você é um vampiro? — Seu tom era sério e um pouco inocente.
— Não. — Eu ri baixo, mas logo minha face ficou séria e automaticamente sussurrei. — Apesar de viver no escuro.
— O que disse? — perguntou ela.
— Nada. — Eu respirei fundo e me levantei do sofá. — Você aceita um chá? Ou água?
— Não. — Senti a movimentação dela se levantando também. — Eu queria te convidar para tomar café da manhã comigo.
— Hum?! — Acho que já estava se tornando comum minha falta de reação perto dela.
— Você aceita? — insistiu ela.
— Eu...
— Não aceito uma resposta negativa, e, por mais que o sol esteja bonito, acho que somente seus olhos são sensíveis a ele. — Ela sabia como me deixar sem resposta.
— Já que insiste. — Eu sorri para ela. — Só preciso pegar minha carteira.
— Tudo bem, eu espero.

Eu caminhei até o quarto, ainda não acreditando no convite dela, troquei minha roupa de forma rápida e peguei minha carteira, que estava na cômoda ao lado da porta, coloquei no bolso e voltei para a sala. estava cantarolando algo que não identifiquei, perto da porta de saída.

— Estou pronto — disse, ao me aproximar dela.
— Ah, quando disse que iria buscar sua carteira, fiquei preocupada — disse ela, segurando o riso.
— Por quê?
— Pensei que não trocaria de roupa. — Ela deu um riso rápido. — Fiquei imaginando como seria nós dois andando na rua e você com o pijama.
— Por um momento, eu realmente esqueci que estava de pijama. — Eu ri junto. — Mas acho que agora estou com roupas mais apropriadas para um passeio.
— Eu não me sentiria nem um pouco incomodada se você estivesse de pijama. Quando eu era mais nova, um dia fui para a escola de pijama.
— Nossa. — Eu virei minha face para sua direção. — Uau.
— É uma roupa qualquer como todas, a única coisa que muda é que usamos à noite e dormimos com ela.
— Pela lógica, está certa. — Eu ri. — Mas vai explicar isso para a sociedade.
— Verdade. — Seu riso era espontâneo. — Um dia te faço sair de casa de pijama junto comigo.
— Um dia? — Aquelas palavras me assustaram um pouco.
— Sim, por quê?
— É que, quer dizer que você não quer se esquecer de mim?!
— Por que eu iria querer me esquecer de alguém como você?! — A pergunta era séria, mas sua voz sempre permanecia suave.
— Diz isso somente porque te salvei. — A amargura estava novamente em minha voz.
— E se não for somente por isso? — retrucou ela. — Se quiser, posso apagar essa parte.
— O quê? — Ela apagaria que eu a salvei?
— Não pense que estou aqui só porque me salvou — disse ela. — Você não é a primeira pessoa que me salva de um atropelamento, e acho que não será a última.
— Então, você já...
— Sim, não é a primeira vez. — Ela respirou fundo. — Além do mais, se fosse para me interessar por alguém só porque essa pessoa já me salvou, eu ficaria com o paramédico que me socorreu da primeira vez.

Ela abriu a porta e saiu rindo.

— Vamos, antes que o café esfrie — disse, num tom um pouco mais alto, do lado de fora.

Aquela garota estava se tornando ainda mais maravilhosa e incrível a cada instante que eu a conhecia. Seria isso algo para eu me agarrar e jogar minha parte negativa no lixo? Eu sorri de canto e saí do apartamento. Caminhamos lado a lado por todo o caminho, e sempre que parávamos de falar, ela começava a cantarolar. me guiou até sua casa, que ficava atrás da cafeteria do tio dela. Era um pequeno loft, e eu fiquei um pouco com receio ao entrar. Era um lugar novo para mim e não sabia nada sobre a quantidade de móveis e onde estavam todos, decoração e o layout, eu estava desesperado por dentro.

— Está tudo bem? — perguntou ela, ao perceber que eu estava paralisado na porta de entrada.
— Sim. — Eu ainda não conseguia me mover por medo dela perceber que eu era cego. Acho que não suportaria ver a reação de espanto dela novamente.
— Oh, me desculpe. Que péssima anfitriã eu sou. — Ela se aproximou de mim e pegou no meu braço. — Tenho que fazer direito, já que é sua primeira vez aqui. Seja bem-vindo à minha casa. — Ela impulsionou meu corpo, me fazendo entrar.
— Obrigado.
— Me desculpe pelo corredor ser pequeno, mas o loft é bem amplo, ainda mais depois que coloquei o mezanino, assim consegui mais espaço para montar um quarto decente.
— Ah, que bom. — Concordei, sem saber como reagir.
— Venha, vou te mostrar minha pequena grande casa. — Ela riu de leve, me puxando, mas, após três passos, paramos. — O corredor nem é tão grande assim, mas pelo menos ao lado dele coube o banheiro. Pensei que não daria certo, mas, no final, as dicas de arquitetura da Grace funcionaram.
— É sempre bom ter amigos que dão dicas boas — assegurei, gravando em minha mente que o banheiro ficava no corredor da porta de entrada.
— Grace é ótima com dicas de decoração. — Ela respirou fundo. — Mas ainda acho que a cozinha poderia ter ficado maior. Ela me puxou para o lado e senti a bancada na minha frente. — Olha só esse espaço, é tão pequeno. Logo para mim, que sou uma patissier.

Aquele “Olha só” foi uma facada no meu coração.

— Tenho certeza de que, mesmo com esse tamanho, você consegue fazer coisas maravilhosas — disse, tentando me concentrar em memorizar o layout do loft.
— Mas pelo menos minha sala é ampla e espaçosa. — Ela me puxou até a sala, parecia mesmo ser espaçosa.
— Você gosta de...
— Poucos móveis? — perguntou ela. — Sim, eu sempre gostei de coisas mais simples. Como diz a Grace, às vezes menos é mais. Entretanto, eu não consegui convencê-la com a escolha das cores.
— Hum. — E agora, cores. Estava me remoendo de vontade de saber pelo menos que cores tinha nas paredes.
— Ela achava que eu não conseguiria combinar laranja, marrom e bege, mas o resultado final ficou melhor do que o esperado — disse ela, com ar de satisfação.
— Acho que, neste caso, se você está feliz, ela deve aceitar. É você que mora aqui.
— Concordo plenamente. E, no final, eu ainda surpreendi a todos. Ela achava que eu pintaria todas as paredes de laranja, eu jamais faria isso. É claro que todas as paredes bege e uma em destaque de marrom ficaram mais harmônicos e elegantes com alguns pontos de alaranjado.
— Tem certeza de que é a Grace que entende de decoração? — Eu virei minha face para a direção da sua voz. Não sei se estava aliviado, ou apreensivo com tudo aquilo.
— Acredite, isso é efeito de Irmãos à Obra e The Sims. — Ela riu, me fazendo rir também. — Mas vamos à última parte, meu quarto.

Subimos a escada até o mezanino. Todo o corrimão era de metal e tinha um guarda-corpo de vidro que cercava a parte que dava vista para a parte de baixo do loft. Eu tentei ao máximo não me locomover muito e deixar ela falando sobre como decorou seu quarto. À primeira vista, para muitos, aquilo era desnecessário e tedioso, mas, para mim, era incrível ouvir todos aqueles detalhes, e, a cada palavra que saía, eu sentia ainda mais a sua empolgação. Até que, em um breve momento, pegou em minha mão e me puxou para sentar na cama ao seu lado. Paralisei de imediato, tentando entender o que ela estava tramando.

— E este aqui é meu álbum — disse ela, colocando em meu colo.
— Uau, está meio pesado — disse, controlando o desespero interno. Ela me mostraria seu álbum, e eu não iria ver.
— Sim, tem muitas fotos aí. — Ela suspirou fraco. — Só não tenho uma sua.
— Minha? — Elevei minha face, direcionando para ela.
— Bem, eu só tenho coisas escritas sobre você, mas não tenho como te ver, acho que isso me fez querer ver você ainda mais.

Suas palavras definiam o que eu estava sentindo. Eu só tinha a voz e seu perfume para me dizer quem era ela, e isso me fazia querer vê-la ainda mais.

— Eu entendo — disse, dando um sorriso disfarçado.
— Então, posso tirar uma foto com você? — perguntou ela.
— Hum, você tem foto daquele paramédico que te salvou? — perguntei, meio curioso.
— Não. — Ela riu. — Eu acho que tive por um tempo, pelo menos o que estava escrito é que ele não era interessante, mas por que a pergunta?
— Curiosidade. — Eu ri um pouco.
— Hum.

Ela riu um pouco mais e se levantou. Eu me levantei também, não sabia o que fazer, mas permaneci parado. Após alguns minutos, eu a senti encostando seu corpo no meu de leve e batendo a foto. O barulho e a luz do flash estavam acionados. Ela tirou mais duas fotos e se afastou novamente. Eu acho que aquela câmera era uma polaroide, porque, a cada foto que tiramos, ela me entregava o papel da polaroid para que eu “olhasse”, como se fosse realmente possível.

— Nossa, estou aqui só falando e ainda não tomamos café da manhã. — Ela riu, pegando minha mão, e me puxou para a escada de novo.

se dirigiu para o pequeno espaço da cozinha. Enquanto isso, eu encontrei umas banquetas que ficavam do outro lado da bancada, bem próximo aos puffs da sala. Fiquei sentado, me atentando aos movimentos dela naquele lugar apertado. Seus passos eram poucos, porém suas mãos se moviam bastante. Às vezes, tinha a impressão de que fazia barulho de propósito, além de sempre cantarolar quando eu ficava em silêncio. Ela não demorou muito para preparar tudo, e, logo depois de colocar tudo na bancada, ela se sentou ao meu lado e me serviu um cappuccino e torta de morango.

O cheiro estava muito bom.

— Espero que goste — disse ela. — É uma receita nova que estava testando ontem à noite.
— Bem, o cheiro está bom — disse, sentindo o aroma do morango como se fosse fresco. — Tenho certeza de que o gosto também.
— Tomara. Eu finalmente consegui acertar o ponto da calda de morango, nunca fiquei tão feliz na vida.
— Pela sua empolgação, imagino que sim. — Eu sorri automaticamente e me virei para o prato. — Eu gosto de morango.
— Sério? Eu também. — Ela parecia estar feliz com meu comentário. — O que mais você gosta?
— Bem, maracujá também. Acho que uma sobremesa com as duas frutas ficaria muito bom — respondi.
— Interessante, nunca pensei em fazer nada além de vitamina com essas duas frutas, mas acho que posso tentar inventar algo.
— Sério? — Eu ri de leve. — Eu estava brincando.
— Mas não seria divertido juntar duas coisas que gosta em uma só? — ela me perguntou, num tom sério, porém descontraído.
— Sim, seria. — E, mais uma vez, ela estava me deixando sem argumentos. — Não é estranho para você uma pessoa desconhecida na sua casa?
— Não — respondeu ela.
— Não?!
— Não é qualquer pessoa que eu trago aqui, e você não é uma pessoa desconhecida para mim, tenho páginas sobre você no meu álbum. — Sua explicação era tão espontânea e convincente.
— Devo ficar feliz por isso? Estar em algumas páginas de um álbum? — Acho que tinha saído como algo inconformado, e eu estava, acho que não queria ser somente páginas de um álbum pra ela.
— Acredite, antes de estar nas páginas do meu álbum, precisa me convencer que pode estar no meu coração também. — Ela respirou fundo. — Meu álbum são meus pensamentos.

estava realmente se tornando mestre em me deixar sem palavras. Suspirei um pouco fraco, enquanto pensava nas suas palavras. Aquilo me fazia ficar esperançoso e, ao mesmo tempo, inseguro. Ela era incrível, mas e eu? Eu era um homem que vivia preso em sua escuridão e que tinha medo da luz, mas estava gostando dela, estava gostando de ficar perto dela. Tomamos nosso café tranquilamente. Ao longo daquela degustação, me contava como tinha feito a torta de morango, e minha mente imaginava a cena a cada palavra. Mais uma vez, os seus detalhes estavam se tornando um brilho para me guiar, o que me deixava ainda mais admirado com ela.

— Me parece que você gostou mesmo da torta — comentou ela, recolhendo os pratos.
— Você é muito boa na confeitaria — a elogiei, sorrindo um pouco. — Sua especialidade se espalha para outros lados da gastronomia?
— Obrigada. Bem, eu cozinho desde muito nova. — Ouvi os pratos sendo colocados na cuba da bancada da pia. — Minha mãe era chefe profissional, tenho ela como uma referência.
— Hum, mas vejo que sua especialidade é doce.
— Digamos que o doce consegue despertar mais sorrisos, e é um desafio maior para os profissionais.
— E você gosta de desafios? — perguntei.
— Adoro. — Ela riu de leve. — Eu estava no terceiro ano da universidade, mas, depois do acidente, tive que sair, não dava para memorizar todo um semestre em algumas horas de leitura.
— Entendo. Lamento por não poder continuar — disse, tentando dosar meu tom por estar frustrado por ela.
— Agora eu estou um pouco menos chateada e mais conformada. Não cursar gastronomia não quer dizer que não vou mais cozinhar, eu somente não terei um diploma para provar que sei fazer algo que já faço.
— Você é incrível — disse, num quase sussurro. — O modo como vê as coisas torna positivo o que é negativo.
— Eu só acho que, mesmo no escuro, ainda existe um interruptor que possa fazer uma luz se acender. — Ela se aproximou de mim e pegou em minha mão. — Assim como não haveria a noite sem o dia, não existe algo negativo sem o positivo. — Ela entrelaçou nossos dedos enquanto explicava. — Só é preciso achar o equilíbrio e não deixar que as coisas ruins se tornem maiores que as boas.
— Não consigo achar coisas boas há muito tempo. — Senti meus olhos encherem de lágrimas. Felizmente tinha meus óculos para disfarçar. — Eu acho que preciso ir.
— Já?!
— Sim. — Soltei minha mão da dela com suavidade e me afastei, me virando para a porta. — Obrigado pelo café.
— Eu fiz alguma coisa de errado? — ela perguntou, num tom meio apreensivo.
— Não. — Eu me virei para ela. — Você é maravilhosa. O problema sou eu, me desculpe.

Eu dei alguns passos até chegar à porta.

— Espera — disse ela, correndo até mim e colocando a mão dela em cima da minha na maçaneta da porta. — Me deixe abrir, para você voltar.

Eu senti que, naquele pequeno corredor, nossos corpos estavam de frente um para o outro. A proximidade era tanta que conseguia sentir o vapor da sua respiração. Respirei fundo, sentindo meu coração um pouco acelerado. Era a primeira vez depois que fui dispensado pela minha ex que eu estava com um enorme desejo de beijar uma garota. Eu queria, mas deveria? Tomei impulso para beijá-la, porém parei no meio do caminho, estava pensando que se fizesse isso, poderia me machucar de novo e me arrepender.

Na minha mente, o lado negativo estava vencendo. Foi quando senti os lábios dela tocarem os meus, um beijo doce e ao mesmo tempo molhado pelas minhas lágrimas.


"Não vamos nos apaixonar, ainda não nos conhecemos muito bem,
Na verdade, estou um pouco assustado, me desculpe,
Não vamos fazer promessas, você nunca sabe o que te espera amanhã,
Mas estou sendo sincero quando digo que gosto de você."

— Let's Not Fall In Love / Big Bang



Continua...


Nota da autora: Pode ser lido com qualquer coreano.

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