Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 27/07/2025Isso fazia com que seu ódio espalhasse para as pessoas em sua volta, porém o único sentimento bom que a mantinha com esperança era seu amor por seu namorado. Em um dia, com lágrimas escorrendo em sua face e o coração doendo por não poder ver a face da pessoa que mais amava na vida, ela disse a ele.
— Se eu pudesse ver o que mais amo no mundo, eu me casaria logo com você.
Para aqueles que não acreditam em milagres, devo contar que aconteceu na vida dela. Em um dia de benção, ela recebeu a notícia de que alguém havia doado um par de córneas a ela. Sem pensar em mais nada e se preocupar em saber quem era o doador, a família da garota assentiu e ajudou com os custos do hospital. Fizeram imediatamente a operação, tudo ocorreu bem e sua reabilitação pós-operatória foi um sucesso na opinião dos médicos. Foi então, na alta do hospital, que o seu namorado chegou com flores e uma esperançosa pergunta:
— Agora que pode ver, você se casa comigo?
A garota estava chocada quando ela viu que seu namorado era cego. Aquele momento era importante para o namorado, afinal, ele havia esperado tanto para que ela finalmente pudesse vê-lo. Entretanto, nem tudo são sorrisos e comemorações. A garota devolveu as flores para ele, juntamente à resposta que ninguém imaginaria sair de sua boca.
— Eu sinto muito, mas não posso me casar com você! Porque você é cego.
O namorado, se afastou dela lentamente, com os olhos lacrimejando pela dor de suas palavras, em um desabafo:
— Por favor, apenas cuide bem dos meus olhos... Eles eram muito importantes para mim.
--
Como eu disse, é algo difícil de imaginar. Poderia ser até uma história de reflexão sobre a vida, se esta história não fosse minha.
Sim, sou eu, o namorado que doou as córneas e perdeu o coração.
“As palavras que estou dizendo agora,
Não sei se irão te machucar,
Elas provavelmente farão você me odiar para sempre.”
— Lonely / 2NE1
Manhattan, outono de 2022
Foi doloroso nos primeiros anos.Não somente por ter que me adaptar à nova situação física que me encontrava, mas a parte de ter que aceitar que a garota que pensava que me amava, havia me deixado. Admitir que aquelas palavras tão duras saíram de sua boca, fazia meu coração se rasgar em mil pedaços. Me sentia envergonhado perante minha família, afinal, eles eram contra o que eu tinha feito, mas não estava arrependido.
Era uma prova de amor para a garota que eu amava.
Infelizmente, percebi tarde demais que ela não me amava na mesma proporção, e toda essa reviravolta me fez ser expulso de casa e ir morar do outro lado do mundo, com a única pessoa da família que me estendeu a mão: meu primo, . Morar em Manhattan seria minha salvação e ao mesmo tempo consolo, de favor no apartamento do meu primo e sua noiva. E mesmo que esse não fosse o único lugar que eu pudesse ficar, tenho certeza que não conseguiria continuar em Seoul. Agora, completando 7 anos na escuridão, confesso que tenho passado a maior parte dos meus dias no quarto. Mantendo minha mesa de trabalho ao lado da janela, ouvir os pássaros cantando, enquanto os carros passavam na rua, era minha distração favorita. Como também, uma forma de elevar ainda mais meus outros sentidos, para compensar aquele que perdi. Minha rotina diária se fazia apenas pelas longas horas comigo e o notebook, tendo um relacionamento sério com os códigos de programação.
Uma parte relativamente positiva?
Mesmo com minha deficiência, não havia perdido a oportunidade de conquistar meu diploma da universidade, com o curso de Engenharia da Computação. O constante silêncio estabelecido em meu quarto, sempre se quebrava quando e seus surtos de primo preocupado, me arrastava para os lugares como se eu fosse uma criança carente de atenção. E naquele dia, ele me arrastaria para uma cafeteria recém-inaugurada bem em frente ao prédio onde morávamos.
— Posso dizer o quanto não estou com a mínima vontade de sair? — disse, pegando minha carteira em cima da mesa de canto ao lado da cama.
— Não. — ele riu, com ar meio sarcástico — Já faz quinze dias que você não sai de casa… E fico chocado por sair do quarto apenas para tomar banho, porque até as refeições têm sido feitas aqui.
— Você sabe o motivo de eu não querer as refeições coletivas. — o lembrei, colocando meus óculos escuros — Além do mais, seria uma pena não me deixar bater meu recorde. Não quero esbarrar em pessoas, não quero sentir perfumes fortes, não quero que o mundo me veja.
Não queria mesmo.
— Yah, pare de reclamar, você é o cego mais normal que eu conheço, as pessoas nem percebem se eu não falo. — retrucou, como se fosse algo positivo em minha vida.
— Isso é porque sei disfarçar muito bem. — dei de ombros, encostando minha mão direita na porta — E onde está sua noiva? Deveria levar ela.
Admito que sabia muito bem resmungar, e tentava escapar até o último instante.
— Ah, nem chegou aos setenta e já parece um velho ranzinza. — sua risada soou, notei que seguia pelo corredor atrás de mim — Hoje é o dia dos homens, além do mais a Taylor está numa viagem a trabalho.
— Hum. — murmurei, seguindo em direção a porta, porém, ao passar pelo sofá esbarrei na mesa de centro, batendo minha perna nela. — Yah!
Meu tom soou com irritação.
— Oh! — ele pareceu assustado — Aish, eu esqueci de falar que a Taylor trocou os móveis de lugar hoje cedo, antes de sair.
— Não diga. — respirei fundo, prendendo outro grito de raiva — Ela adora fazer isso quando vai viajar.
E certamente é proposital.
— Tenho certeza que logo você se adapta novamente. — senti ele prendendo um riso.
— Vamos, antes que mude de ideia. — reprimi a opinião que tinha a respeito do noivado deles, e dela morar com a gente.
Afinal, o apartamento não era meu…
E eu é que estava incomodando eles e tirando a privacidade do casal.
Chegamos à rua.
Para minha surpresa a cafeteria tinha um clima agradável e incomum, nada comparado as outras cafeterias que me levava. Assim que nos sentamos, comecei a perceber e distinguir toda a movimentação do lugar através da minha audição. Era um fato, para conseguir sobreviver, tive que evoluir todos os meus outros sentidos, fazendo-os ficarem mais aguçados, principalmente audição e olfato. E, mesmo com óculos escuros e agindo o mais normal possível, sempre deixava escapar minha situação. Sabia que não era má intenção de sua parte, contudo, sentia uma ponta de amargura sempre que a realidade batia a porta.
— Bom dia, desejam fazer o pedido agora? — perguntou a atendente, tinha uma voz fina e um pouco aguda, aquilo machucava significativamente meus ouvidos.
— Claro. — respondi mais que depressa, não queria que demorasse.
Principalmente por me sentir um pouco zonzo pelo forte aroma do perfume dela.
— Então, vou escolher por nós dois. — disse , senti a movimentação do seu braço, deveria estar pegando o cardápio.
Em segundos de atendimento, o perfume forte e a voz aguda, começaram a me deixar discretamente nervoso, e meu primo, como sempre, não percebeu o quanto sua demora em se afastar da mesa, era uma agonia para mim. Comecei a bater com meus dedos na mesa em uma sincronia, aquilo era um sinal para ser mais rápido. Felizmente, após sete anos de convivência, ele sabia bem todos os sinais de alerta que eu dava. Assim, com o pedido feito mais rapidamente, suspirei fundo ao sentir o afastamento da atendente.
— O que houve? — perguntou ele, num tom preocupado.
— O perfume dela estava me incomodando. — expliquei, respirei com mais leveza e logo senti um aroma mais agradável vindo da mesa ao lado.
Até mesmo a energia que exalava da pessoa era diferente.
— Bom dia, desejam mais alguma coisa? — perguntou uma voz diferente, vindo da mesa em questão.
Nítido que não era a mesma atendente.
Seu perfume parecia ser feito de essência de jasmim — não aquele jasmim adocicado de vitrines caras, mas o que floresce ao entardecer em jardins esquecidos. Suave e profundo, como se cada partícula dançasse no ar para lembrar que ainda existe paz no mundo. O que me fazia lembrar os canteiros de jasmim que visitei no Brooklyn Botanic Garden, com na primavera deste ano. Um momento que até eu admiti ser importante celebrar um passeio, após o terror dos dias de incerteza da Pandemia.
— Ah, não, obrigado, estamos satisfeitos. — respondeu uma voz rouca, ao tossir um pouco.
Pelo som forte e áspero, poderia dizer que seu pulmão estava carregado de nicotina.
— Se precisarem de algo, só chamar. — aquela voz sim, era suave e angelical, como uma perfeita sinfonia para meus ouvidos.
— Quem era? — perguntei ao meu primo.
— O que? — indagou de volta, como se não estivesse prestando atenção em mim, certamente mexendo no celular.
— Perguntei quem era, falando ao lado. — repeti, com impaciência.
— Uma outra atendente, eu acho. — pelo soar, parecia agora, estar se espreguiçando na cadeira — Viva, nosso café chegou.
— Aqui está senhores, mais alguma coisa é só chamar. — disse a atendente de voz aguda, demorando alguns segundos desnecessários, para se retirar.
Seria demais querer que a outra moça atendesse nossa mesa também?
Comecei a memorizar aquele perfume suave que havia sentido, pensando se realmente era dela, ou da senhora que estava acompanhando o homem da mesa ao lado.
— ? — disse — Está me ouvindo?
— O que? — movimentei minha face para a direção da voz dele — O que foi?
— Estou te perguntando se você vai aceitar a proposta de trabalho da Nexus Technology e trabalhar presencial. — explicou de forma clara.
— Ainda não sei. — virei minha face, não queria tocar nesse assunto.
Estava muito bem em home-office, e o salário não era tão ruim.
— Eu acho que deveria, você está parado nessa mesma empresa há sete anos, do estágio já foi efetivado e nem tiveram a decência de te aumentar o salário ou lhe dar uma promoção. — reclamou de forma argumentativa — Você praticamente faz o trabalho do engenheiro chefe lá.
— Estou avaliando a contraproposta da Global Maximus. — me referi a empresa que trabalho atualmente.
Fiquei em silêncio, enquanto meu primo continuava a falar.
Não conseguia mais pensar em nada, além da dona daquele perfume suave e voz angelical. Tinha roubado minha total atenção, e meu foco era tanto, que assim que ela se aproximou da mesa ao lado novamente, consegui acompanhar seus passos retornando ao balcão. No final do discurso de , que eu nem tinha ouvido, eu só concordei novamente dizendo que daria a resposta no dia seguinte, ficamos mais alguns minutos após o café, até que ele pagou a conta. Nunca fui tão lento em me levantar e sair de um lugar, mas minha demora até chegar na porta tinha um motivo.
Aproveitei o “longo” caminho para rastrear a dona do perfume de jasmim.
Foi um tanto inútil, não senti aquele aroma agradável novamente. me deixou na portaria do nosso prédio e seguiu para a redação do jornal onde trabalhava. Mesmo com minha deficiência visual, ao longo desses anos, tinha me acostumado com tudo, a distância dos lugares, o tempo que o elevador levava para subir até o meu andar, a disposição dos móveis no apartamento. Demorava cerca de três dias para me adaptar a uma coisa nova em minha rotina, principalmente quando Taylor trocava os móveis de lugar, como nesta manhã. Não gostava de usar aquela bengala para deficientes visuais, já era triste e vergonhoso demais depender do meu primo para certas coisas, então, me esforçava o dobro. Por isso, na maior parte do tempo, andava normalmente e torcia para não esquecer a trajetória do caminho, sempre confiando em minha audição.
Assim que fechei a porta, caminhei até meu quarto, tocando de leve na parede em alguns pontos para me certificar que Taylor, não tinha trocado os quadros de lugar também.
— Mais um dia monótono. — suspirei fraco.
Meus dias eram todos assim, monótonos e solitários. O horário comercial, em silêncio apenas com o soar do trânsito na rua e o canto dos pássaros que habitavam nas árvores próximas. À noite, lia alguma coisa para tentar dormir. Como? Felizmente existem muitos livros em braile que me permitem desfrutar da literatura mundial. E nos raros momentos, ouvia do quarto o áudio dos filmes que e Taylor assistiam na sala. Até poderia me juntar a eles, porém, me sentia desconfortável em atrapalhar seu momento juntos.
Sentei na poltrona que tinha ao lado da janela, o sol ainda entrava pela janela naquela hora do dia, não deveria ser nem perto da hora do almoço. Com uma semana de férias premium, não tinha que me preocupar com o trabalho, deixando assim meu tempo mais regado à solidão. Sem me dar conta, comecei a pensar na dona da voz suave, analisando todas as possibilidades do perfume de jasmim ser dela, consegui ouvir todos que estavam naquela cafeteria, até mesmo o cozinheiro da voz fanha. Uma frustração para mim, que queria ouvir uma única voz, que permaneceu em silêncio a maior parte do tempo que estive lá. Me fez cogitar a ideia de aparecer na cafeteria à tarde, quem sabe não a encontraria novamente.
O que estou pensando…
Por que eu deveria fazer isso?
Em minha teimosia, esperei as horas passarem, até que o despertador tocou. havia programado para que não me esquecesse as horas da refeição, era inútil, já que na maioria das vezes estava sem fome e sem vontade de viver. Os códigos de programação eram meu refúgio na maior parte do dia. Assim que troquei de roupa, respirei fundo, certamente poderia considerar uma loucura o que estava fazendo, voltaria à cafeteria para encontrar uma pessoa que eu nem poderia ver.
Fiquei na frente do elevador por alguns minutos, refletindo se deveria ou não mudar minha rotina de solidão por causa de uma voz que poderia nem voltar a ouvir. Contudo, aquela voz havia despertado algo dentro de mim, um desejo forte por ouvir novamente, a pouca coragem que me restava, me fez apertar o botão e entrar no elevador. Talvez minhas expectativas estavam altas demais, porém, minhas esperanças caíram após três horas sentado em uma mesa ao lado da vidraça lateral, esperando ouvir aquela voz novamente. Ingênuo da minha parte, jogar toda minha atenção em uma voz que nem sei de quem é.
Contudo, para a escuridão em que vivia diariamente, essa voz simbolizava uma luz no fim do túnel.
Minha vontade de esperar já estava perdida, assim que a atendente do perfume forte, veio me perguntar se eu queria mais alguma coisa. Paguei a conta com o cartão que tinha me dado para despesas gerais e emergência, demorei um pouco para sair, com uma ponta de esperança de perceber sua presença ali, os passos até a porta se tornaram pesados e solitários por não ouvir aquela voz. Respirei fundo, após sair da cafeteria, o clima parecia um pouco mais pesado e úmido do que o natural, e se fosse um meteorologista, daria uma concreta afirmação de chuva certa naquela tarde. Dando alguns passos até a faixa para atravessar a rua, esperei um pouco, conseguia ouvir os carros passando por mim, de repente meu corpo congelou.
Resultado do que eu estava procurando durante aquelas horas todas.
Senti exalando do meu lado direito, aquele perfume de jasmim que me fez sair de casa pela segunda vez no mesmo dia. Me peguei parcialmente paralisado. Como iria falar com uma pessoa, que eu estava procurando por ela, por causa do seu perfume? Devagar, virei minha face para o lado em que estava, e quando tomei coragem para falar, ela deu um impulso e começou a atravessar a rua. Era frustrante aquele momento, poderia não ser ela, mas e se fosse? Seria uma chance em um milhão. Foi em um piscar de olhos, que ouvi bem ao longe um crescente barulho estranho, semelhante a um carro desgovernado. De imediato, uma descarga de adrenalina passou pelo meu corpo, ao pensar que ela poderia ser atropelada.
Mas como um cego poderia salvar alguém?
Controlei a raiva imensa de mim naquele momento, se eu enxergasse, poderia salvá-la. Assim que o barulho do carro ficou ainda mais perto, não me importei mais com minhas condições, corri em sua direção. E como disse no início, milagres acontecem. De alguma forma louca e estranha, consegui, a segurei envolvendo meus braços ao seu redor como proteção e lancei nossos corpos em direção a calçada.
— Obrigada. — disse a voz que tanto ansiava por ouvir novamente, mesmo ofegante e com vestígios de medo, era ela.
Naquele momento…
Não sabia se meu coração estava acelerado por causa da adrenalina, ou por ouvir sua voz, e para selar aquele momento, ainda sentados no chão, a primeira gota de chuva caiu em minha face.
Estava começando a gostar da chuva.
“Eu quero saber mais sobre você
Como explorador que se aventura
através de sua floresta profunda do mistério.”
— Just One Day / BangTan Boys (BTS)
Mesmo debaixo da chuva, muitas pessoas se aproximaram para nos ajudar a levantar, e curiosamente, estavam mais preocupados com ela do que comigo. Uma senhora me entregou meu óculos escuro, que havia caído no chão. Coloquei rapidamente assim que peguei da mão dela, não queria que a senhorita jasmim descobrisse que eu era deficiente visual. Apesar das muitas pessoas ao nosso redor, conseguia sentir sua respiração ainda ofegante. Certamente, continuava assustada pelo ocorrido.
— Obrigada. — agradeceu novamente, com mais controle de voz — Muito obrigada, por me salvar.
— Ah, que bom que você está bem. — reconheci aquela voz, era a mulher do perfume forte e foz fina — Quando vi o carro vindo de dentro da cafeteria, senti um aperto.
— Não se preocupe, Grace, estou bem. — num tom mais calmo contido agora, regado a sutilezas — Graças a Deus, e a ele.
— Oh, o cliente estranho. — sussurrou a tal Grace, parecendo em choque.
Por mais baixo que tenha sido, consegui ouvi — o que não era novidade.
— Ah, bem, agradecemos. — continuou a Grace, parecendo disfarçar algo.
— Fiz o que qualquer pessoa poderia fazer. — respondi normalmente, mantendo minha face voltada para a rua.
— Mesmo assim, estou grata por isso. — aquela voz suave e doce, parecendo estar sorrindo.
Marcando o início do meu desejo em ver seu sorriso.
— Venha Emilly, seu joelho está ralado, temos que fazer um curativo antes que infeccione. — se pronunciou, Grace.
— Tudo bem. — assentiu sem relutar.
Mas…
As senti se afastando de mim. Em segundos, até mesmo as pessoas curiosas foram se dispersando, continuei parado por mais alguns minutos, numa reflexão profunda.
Seu nome era Emilly.
Estava aliviado por tê-la salvado, um momento de angústia que me rendeu algo valioso. Agora sei o seu nome, uma confirmação de que a dona daquela voz era real. Meu coração acelerou um pouco, certamente sabendo que deixar de pensar nela agora, seria praticamente impossível. O que me levou a cogitar a ideia de tomar café todas as manhãs na cafeteria nova.
Será que deveria mesmo?
— ? — a voz repentina de , despertou-me de meus devaneios.
— ? — me virei para sua direção.
— O que faz aqui? Por que está debaixo da chuva? — indagou num misto de curiosidade e preocupação — O que aconteceu com suas roupas? Você está todo bagunçado.
— Bem, a história é meio louca e longa. — ri de leve — Vamos entrar que eu te conto.
Eu mesmo não acreditava no que tinha feito.
Meu primo me acompanhou até o apartamento, assim que entramos, ele foi até a cozinha preparar um chá quente para tomarmos e espantar o resfriado. Aproveitei para ir ao banheiro, tomei uma ducha quente e coloquei roupas confortáveis. Quando voltei para a cozinha, com uma boa xícara na mão, comecei a contar minha história desde o início, quando fomos à cafeteria tomar café da manhã. Enquanto ele preparava um sanduíche, continuei contando sobre meu súbito interesse na garota do perfume de jasmim, falando sobre ter pensado nela durante o resto da manhã e minha aventura ao voltar na cafeteria.
Até chegar na parte mais louca.
— Espera, você a salvou de ser atropelada? — a voz de parecia surpresa.
— Sim. — assenti com serenidade.
— Você tem noção do que fez? Se jogou na frente de um veículo em movimento, para salvar alguém que nem conhece. — soou com repreensão — Não poderia ter deixado outra pessoa fazer isso?
— Eu a salvei, é o que importa, além do mais, meus reflexos e percepção são melhores que de uma pessoa comum, até o momento em que eu cheguei perto dela, ninguém havia percebido o veículo desgovernado. — retruquei de forma coerente.
— Isso é verdade. — um suspiro fraco — Fico me perguntando se você realmente está cego. — riu com ironia — Às vezes faz coisas como se enxergasse ainda.
— Devo levar isso como um elogio? — olhei para a direção da voz dele.
— Viu. É disso que estou falando. — pareceu pegar alguma coisa — Você olha para minha direção como se conseguisse me ver.
— Acredite, são sete anos de prática constante, odeio quando as pessoas me tratam como um cego deficiente. — bufei um pouco, sentindo-o encostar na xícara em minha mão, para enchê-la novamente.
— Aqui está. — sua voz estava mais branda — Mais um pouco de chá para alegrar seu dia, só não é de jasmim. — ele se afastou rindo.
Tinha mesmo que tirar proveito da situação para me zoar.
— Se vai começar com suas piadas, vou me confinar no quarto. — o alertei indo até o sofá.
— Prometo não abusar. — continuou, rindo enquanto se sentava ao meu lado — Então, depois de sete anos fechado para balanço, está mesmo interessado em uma garota?
— Não é isso. — ainda não tinha definido meus sentimentos por ela, inicialmente poderia dizer que era apenas curiosidade — Eu… Só me senti bem quando ouvi a voz dela, foi como ver uma luz no fim do túnel, em meio a escuridão.
— Sei. — aquilo era deboche.
— Estou sendo sincero. — retruquei — Nem a conheço, como posso estar interessado.
— Como? — uma gargalhada maldosa — Querido primo, é simples, estando interessado. Quando um homem se interessa por uma mulher, ele precisa ver ela, anseia por isso… Bem, no seu caso foi ouvir.
— Não estou interessado, mas gostaria sim de conhecer ela. — admiti, relutante.
— E já sabe o nome dela, pelo menos? — ele se remexeu ao meu lado.
— Sim. — suspirei um pouco — Ouvi a outra atendente falando, é Emilly.
— Nome bonito.
— Sim. — uma ponta de sorriso apareceu espontaneamente em minha face.
— Acho que você ainda se prende muito ao que aconteceu no passado, me desculpe a sinceridade. — respirou fundo — As pessoas não são iguais, e já percebi que a voz dela te atrai, você inconscientemente está interessado, então admita isso de uma vez e se dê uma chance.
— Você está de brincadeira né?
— Não. — ele se levantou — O máximo que pode acontecer é ela já ter um namorado, ou te achar feio.
Ao terminar saiu aos risos, me deixando perplexo por sua sinceridade em forma de incentivo.
— Ha... ha... ha... — tomei um gole do chá.
estava relativamente certo.
De fato, estava interessado nela, mas ainda tinha impregnado em mim as frustrações do passado, ser deixado após dar uma demonstração de amor, foi a pior coisa que me aconteceu. E não queria passar por aquilo novamente, não queria ter meu coração estilhaçado como tive, e se já estava no fundo do poço, não tinha mais nada para ser tirado de mim.
O pior que poderia acontecer, era Emilly ter pena de mim.
Senti seu afastamento da sala, provavelmente em direção ao quarto. Permaneci mais alguns minutos sentado no sofá enquanto terminava de tomar meu chá. Era difícil não pensar nas palavras dele, afinal, tinha passado os últimos sete anos criando muralhas para afastar as pessoas e agora, queria me aproximar de uma. Quanto mais pensava nisso, mais receio tinha em continuar, não queria me machucar novamente. Contudo, desejava poder ouvir aquela voz novamente. Terminei o chá e levantei do sofá, caminhei até a cozinha e coloquei a xícara na bancada, fiquei ouvindo o barulho da chuva do lado de fora por um tempo. Mais devaneios até que me virei no automático com a movimentação de , seguido do barulho dele sentando no sofá novamente e ligando a tv.
— Vou assistir um filme, me acompanha? — perguntou — Adoro seus comentários e observações sobre o que vai acontecer nas cenas.
— Muito engraçado. — bufei um pouco — Para mim não é nada divertido isso, ter que adivinhar o que está acontecendo quando tudo está calado.
— Ah, deixa de ser mal-humorado, é divertido, você sempre acerta nas teorias. — argumentou.
— Porque você sempre vê os mesmos filmes. — era uma realidade, eu já tinha até decorado as falas de Os Piratas do Caribe.
— Quer algo novo? — um tom surpreso — Sempre achei que você tinha o mesmo gosto que eu para filmes.
— Pelo menos são melhores que os romances que a Taylor vê, consigo sentir ela chorando do meu quarto. — caminhei de volta para o sofá.
— O que me diz de um pouco de zombie? — parecia segurar o riso.
— Depende do filme e do zombie. — retruquei me sentando ao seu lado — Nada de The Walking Dead novamente, não aguento mais suas maratonas desse seriado.
— Nossa, você é mesmo um chato, nada está bom. — reclamou, enquanto trocava de canal.
— Desculpa se não tenho mais perspectiva de vida. — respirando fundo.
— Você já foi mais divertido, acho que precisa mesmo conhecer aquela moça, quem sabe assim fica mesmo amargurado. — o comentário soou com leveza.
— Porque será que eu já imaginava que você tocaria nesse assunto? — bufei novamente — Já me decidi, prefiro continuar como estou.
— O que? — aquilo era tom de indignação — Você sai da casa sozinho, passa a tarde esperando a sorte, arrisca sua vida, salva a garota e agora vai desistir?!
Inacreditável, mas real.
— Você fala como se eu a conhecesse há tempos. — não contive um riso irônico — Quero te lembrar que a ouvi pela primeira vez hoje pela manhã, e na minha falta de sorte, ela atendeu à mesa ao lado.
— Hum. — demonstrou-se pensativo — Então, agora que estou me ligando, a atendente da mesa ao lado, aish, queria ser um bom fisionomista, não me lembro do rosto dela.
— E isso tem alguma relevância? — virei minha face para ele.
— Pare de fazer isso como se estivesse me olhando de verdade, seus reflexos me assustam às vezes. — aquela era a milionésima vez que reclamava da forma como eu agia como uma pessoa normal.
— Você não respondeu. — retruquei voltando ao assunto.
— Respondendo... — deu uma risada rápida — É claro que tem relevância, vai que a moça não é bonita.
— Sério isso? — não conseguia mais associar os padrões de beleza do mundo — Olha só quem fala.
— Do que está insinuando?
— Taylor é bonita? — perguntei ironicamente — Porque eu não consigo achar isso.
— Porque não pode ver o quão linda ela é, corpo de modelo. — retrucou , com satisfação.
— Desculpa, a voz dela não me transmite nada de belo. — fui mais sincero que o normal.
— O que a voz de uma pessoa tem para definir a beleza dela? — retrucou , como se estivesse ofendido.
— E o que o corpo de uma pessoa tem para definir sua beleza? — ri um pouco me espreguiçando — O que é belo para um pode não ser para outro.
— E a voz da Emilly, a faz se tornar bela para você? — gostava mesmo de voltar em assuntos que eu queria distância.
Permaneci em silêncio.
Não queria responder. Ele riu um pouco da minha cara, não que eu não quisesse me lembrar dela, mas... Mesmo que explicasse os motivos para me afastar de todos, meu primo nunca entenderia a complexidade de voltar a confiar nas pessoas, principalmente em quem você nunca viu na vida. Com sua insistência em me fazer ficar longe do quarto, o acompanhei em mais uma maratona vendo Resident Evil, em sua franquia de cinco filmes com o mesmo elenco morrendo e voltando várias vezes. Aproveitei o término do quarto filme para fugir da sala, uma escapada estratégica para ir ao banheiro e me trancar no quarto depois. ficou me gritando da sala algumas vezes, mas acabou desistindo quando parei de responder seus gritos, aproveitei aquilo para trocar de roupa, colocar o pijama e dormir.
As horas de sono passaram rápido, até que o sol entrou pela janela e me gritou da porta. Seria mesmo necessário acordar tão cedo em minha folga?
— ?! — bateu na porta — Estou indo a cafeteria da sua garota, quer ir também?
— Garota? — sussurrei — Que garota?
— ?! Está me ouvindo?
— Estou, me deixa dormir. — resmunguei.
— E perder a oportunidade de ver você encontrando sua garota? — falou num tom debochado.
— Que garota? — gritei irritado, erguendo meu corpo na cama.
— Então já superou ela? — riu descontraidamente — Você se esquece muito rápido das garotas agora.
— Deixe de ironia. — me levantei da cama, espreguiçando — Se está falando da Emilly, ela não é minha garota.
— Nunca se sabe, ela pode vir a ser. — um soar malicioso.
Fácil de notar nas entrelinhas.
— Me dê cinco minutos. — retruquei, vencido pelo cansaço.
Em casos assim, era melhor não retrucar, há meses que tinha traçado seu objetivo de vida de me arrumar uma garota. Contudo, eu não queria garota nenhuma, não até aquele momento. Troquei de roupa, coloquei meu óculos e saí do quarto, passei no banheiro antes de chegar na sala. comentou com sarcasmo, minha rapidez para me arrumar. Seguimos para a cafeteria com algumas brincadeiras da parte dele, confesso que fiquei um pouco nervoso assim que nos aproximamos da porta, senti um frio na barriga quando entrarmos.
— Coragem homem. — disse, rindo de mim, já era normal.
— Não sei do que está falando. — nego até a morte.
— Sei. — continuou rindo.
Eu o segui até a mesa onde nos sentamos, demorou alguns minutos até reconhecer o perfume de jasmim, ela estava na cafeteria e bem próximo. Coloquei a mão na altura do meu coração de forma discreta, sentindo a aceleração. Será que seria a atendente da nossa mesa desta vez?
— Bom dia, sejam bem-vindos. — cumprimentou, a voz que queria ouvir — Vocês gostariam que eu recomendasse algum café? Temos ótimas variedades.
— Oh, bom dia, Emilly. — cumprimentou , dando ênfase no seu nome de propósito.
— Você está bem? — perguntei ao me lembrar do quase acidente de ontem.
— Estou. — ela respondeu meio sem reação.
— Ah, que bom, fiquei preocupado com você. — continuei, forçando minha voz sair.
— Hum, me desculpe senhor, mas não o conheço, como pode estar preocupado comigo? E saberem o meu nome? — soou com traços de estar confusa — Nem estou usando o crachá hoje.
Será que não se lembrava que eu a tinha salvado?
— Tem certeza que não o conhece moça? — reforçou , achando estranho.
— Sim. — respondeu com suavidade, ainda era a mesma voz doce de sempre — Me desculpem.
— Talvez não esteja me reconhecendo, quando você foi atravessar na rua ontem, eu te salvei, nós dois caímos e você ralou o joelho. — expliquei, ponderando o desespero interno que brotou do nada.
— Certamente o senhor está me confundindo com outra pessoa, isso nunca aconteceu comigo. — seu tom tinha traços de verdade e sinceridade, mas não fazia sentido.
Eu não estava ficando louco.
— Bem, e como seu joelho está machucado? — perguntou , com sua voz de desconfiança.
— Eu, não sei. — senti que deu alguns passos para trás esbarrando na outra mesa, ouvi algumas coisas caindo — Me desculpe, eu... Você está me confundindo com outra pessoa.
Pude perceber seu afastamento a passos largos.
— Emilly?! — a outra atendente, se aproximou da nossa mesa — Oh, me desculpem, o mal entendido.
— Porque ela não se lembra de mim? — me perguntei num sussurro meio alto.
— O que aconteceu com ela? — indagou meu primo — Houve ou não um quase acidente?
— É claro que houve. ¬— minha voz tinha uma visível irritação, e estava nervoso com aquela situação.
— Me desculpem, é um pouco complicado de se explicar. — disse a atendente.
— Você é a Grace, não é?! — perguntei de imediato, mantendo minha face voltada para ela — Me lembro de você.
Daquele perfume estranho.
— Sim, eu também me lembro de você. — assentiu — Agradeço mais uma vez por tê-la salvo, e sinto muito pelo mal entendido.
— Poderia nos dizer o problema dela? — insistiu .
— Porque é complicado? — reforcei.
Merecia uma explicação.
— Me desculpem, não posso... — se afastou antes mesmo de terminar a frase.
— Senhores. — a voz de um senhor soou em seguida, possivelmente o dono do lugar — Me desculpem o transtorno, é a primeira vez que isso acontece.
— Não quero desculpas, só quero entender o que está acontecendo. — mantive o tom de chateação.
— Senhor, nos perdoe a intromissão, mas meu primo só estava preocupado com a moça e resolveu perguntar se ela estava bem. — meu primo continuou com o tom brando e sereno, porém sério — Não imaginávamos que aconteceria isso.
— Ninguém imagina. — o senhor puxou uma cadeira e se sentou — Não costumamos contar isso a nenhum cliente, entretanto, como seu primo se envolveu um pouco, acho que preciso esclarecer tudo… Em gratidão por tê-la salvo ontem.
— Estamos ouvindo. — minha voz estava mais fria que o normal.
Com o coração aflito.
— Emilly é minha sobrinha, eu a crio desde os sete anos, mas às vezes me culpo por não tê-la protegido como deveria. — o senhor respirou fundo — Três anos atrás, ela sofreu um acidente que a fez bater a cabeça gravemente, depois de um ano em coma, ela acordou, mas percebemos que não era a mesma. — pareceu reprimir um pouco seus sentimentos — Descobrimos que Emilly havia adquirido a Síndrome de Goldfield, toda sua memória contraída até o dia do acidente, permaneceu intacta, mas sua mente não consegue mais guardar memórias recentes, tudo que ela vive em um dia, se apaga à noite quando ela dorme.
“Caindo (tudo está)
Caindo (tudo está)
Caindo (tudo está) desabando.”
— I Need U / BangTan Boys (BTS)
Não sabia o que pensar, nem como reagir. Poderia considerar muita falta de sorte a minha, me interessar por uma garota que jamais se lembraria de mim no dia seguinte. Me levantei da mesa, mais uma vez desnorteado com o choque de realidade. Me afastei deles, precisava de ar puro, estava me sentindo sufocado naquele lugar. se levantou e me ajudou a sair da cafeteria, quando chegamos na rua, respirei fundo, permanecendo com minha cabeça abaixada. Ele permaneceu do meu lado, acho que assim como eu, estava tentando digerir toda aquela história louca.
— Você vai ficar bem? — perguntou preocupado.
— Vou. — assenti levantando minha face — Só quero ir para casa agora, pode tomar seu café, quero ficar sozinho.
— Tem certeza? — insistiu.
— Tenho sim, não há nada que fazer. — suspirei fraco — Ela nem me conhecia mesmo, amanhã nem vai se lembrar do cliente inoportuno.
Antes que pudesse retrucar, me afastei dele indo em direção ao meio fio, atravessei a rua e entrei no prédio. De forma automática, passei pelo elevador e entrei pela porta de acesso às escadas. Subi alguns lances de escada e depois parei no meu andar, ao invés de entrar novamente para o prédio, me sentei em um degrau e permaneci no modo estático.
Acho que só naquele momento que minha ficha tinha realmente caído.
Minutos de um amargo silêncio profundo…
— Era de se esperar que tivesse mesmo essa falta de sorte. — ri de leve comigo mesmo, segurando minha frustração.
— Me desculpe, mas está tudo bem? — perguntou uma voz feminina, a voz suave que tinha transformado minha manhã em um tsunami — Moço?
— O que? — me levantei de imediato e olhei para sua direção — O que está fazendo aqui?
— Me desculpe, mas eu é que deveria perguntar isso. — riu de leve, parecia achar algo engraçado — É você que estava sentado na escada falando sozinho.
— Estava filosofando. — agi naturalmente, pedindo a Deus para ela me reconhecer desta vez — Mas o que você faz aqui?
— Eu vi quando saiu da cafeteria e veio para o prédio, precisava saber quem era você. — respondeu prontamente — Acho que te devo desculpas por hoje cedo.
Sua entonação tinha traços de descoberta.
— Não, não me deve nada. — desci alguns degraus até chegar ao patamar, onde estava — Está tudo bem.
— Comigo não, Grace me disse que não é a primeira vez que acontece isso. — tinha traços de tristeza — Eu realmente sinto muito pelo constrangimento.
— Tudo bem, consigo sobreviver com isso. — sorri de leve, assim ficaria mais tranquila.
— Bem, se você está dizendo, ficarei mais aliviada. — um suspiro profundo — Quero te agradecer formalmente por ter me salvado ontem.
— Só agi por instinto, fiz o que qualquer pessoa poderia ter feito. — respondi tranquilamente.
— Não exatamente, nem todo mundo se arrisca por um desconhecido. — estava parcialmente certa, porém, eu fazia parte daquela pequena porcentagem de loucos — Por isso, muito obrigada.
— Disponha. — sorri de leve, colocando as mãos no bolso, precisava esconder meu nervosismo pelo momento, ainda mais que ela não tinha reparado na minha cegueira ainda — Mas, está tudo bem para você agora? Também te devo desculpas por ter te deixado meio desnorteada hoje mais cedo.
— Estou sim, eu meio que esqueci de detalhar o acidente de ontem. — riu de leve, com uma naturalidade fora do comum — Acabei só colocando que me machuquei.
— Colocando onde?! — indaguei curioso.
— No meu diário pessoal, sempre escrevo coisas importantes que me acontece para relembrar no dia seguinte. — explicou.
— Hum… O que importa é que você está bem. — afirmei dando alguns passos até a porta — Posso te convidar para tomar um chá? Se não for muito atrevimento da minha parte.
— Oh, claro. — deu uma pausa, imaginei que estivesse sorrindo ou algo do tipo — Eu adoro chá, a propósito meu nome é Emilly, mas pode me chamar de Emy.
— Eu sou o , e também adoro chá. — concordei com um sorriso leve, abrindo a porta — Vamos então?!
Se meu coração já estava acelerado antes…
Ela me seguiu tranquilamente. Notei que estava cantarolando alguma coisa, exalando bom-humor. Seria complicado acalmar meu coração, principalmente pelo aroma do seu perfume, combinado ao som da sua voz. Abri a porta do apartamento e a convidei para entrar, agradecendo entrou com leveza, estava atento a cada passo dela. Naquele momento, me esforçava para ser ainda mais preciso em agir normalmente e não deixar que ela descobrisse que eu era um deficiente visual. Não tinha vergonha, mas para um possível “primeiro encontro”, não queria que ela sentisse pena de mim. Segui até a cozinha e abri um dos armários. Respirei fundo, porque a vida sempre reservava um pingo de má sorte para mim, um passo para frente e quatro para trás.
Por um curto espaço de tempo.
Tinha esquecido que Taylor tinha trocado as coisas dos armários de lugar também.
— Está tudo bem aí? — perguntou, ouvi seus passos em minha direção.
— Sim, está. — me controlei para não ficar mais nervoso e ansioso que já estava, remexi em um dos armários tentando encontrar o bule que tanto procurava.
— Se quiser posso te ajudar. — se ofereceu, de forma inocente.
— Não, eu consigo, não se preocupe. — assegurei, dando alguns passos para trás.
— Mas eu posso... — sem perceber acabamos nos trombando, com o impacto caímos no chão — Oh, Deus.
Meu óculos tinha saído do meu rosto. O que menos queria estava acontecendo, e conseguia ouvir sua respiração meio descoordenada, como se estivesse impressionada com meus olhos brancos sem vida. Caídos estávamos e ficamos por instantes, até que me levantei primeiro e a ajudei a se levantar também, contive internamente minha frustração com aquilo.
Quando pensei que pudesse recomeçar de uma forma legal…
— Eu... Não imaginava que você... — era como se relutasse em falar o óbvio, acho que estava impressionada pela forma como eu agia naturalmente.
— Era cego?! — deixei um pouco de frustração sair em minha voz — Você poderia ir embora, por favor? E esquecer o que viu.
Estava controlando também minhas lágrimas, mas a rispidez foi natural.
— Esquecer não é o problema. — sua voz também tinha frustração, senti um certo movimento vindo dela — Me desculpe, eu não pretendia te deixar constrangido, mais uma vez.
Suavemente, tocou em minha mão direita e colocou meu óculos por cima.
Senti se afastando, e após alguns passos o barulho da porta abrindo e fechado soou pelo apartamento. Um gosto amargo de desapontamento, mais o que mais me deixava com raiva, não era por ter descoberto minha condição, mas pela forma como reagiu. Consegui sentir na respiração e seu tom de voz, os pequenos detalhes de mudança. Era sempre a mesma coisa quando descobriam que eu era deficiente visual, o mesmo choque inicial, a mesma mudança na forma de tratamento… Em todos que me conhecia. E não queria que acontecesse com ela. Caminhei lentamente até a sala, acabei tropeçando na mesa de centro e me joguei no chão ali mesmo. Seria fraco demais da minha parte se chorasse? Não sei, já estava tão chateado com tudo que vinha acontecendo em minha vida, que sem pedir permissão algumas lágrimas escorreram pelo rosto. Logo a lembrança da minha ex-namorada, Yoona, invadiu minha mente, como se me empurrasse para o abismo.
A primeira pessoa a mudar comigo, uma mudança que ainda se mantinha viva, como uma ferida sem cicatrização.
— Hoje é o dia. — disse , ao entrar cantarolando, o senti parando repentinamente, certamente pela visão da personificação da derrota em forma de primo — O que houve?
— Não se preocupe, eu ainda estou vivo. — me levantei colocando meu óculos — Vou para meu quarto.
— Não. — segurou em meu braço — O que aconteceu? , você está acabado, como se tivesse passado um trator em cima de você.
— Conta uma novidade? Estou assim há sete anos — me soltei dele, não dando importância — Acho que só percebi que não vale a pena esperar hoje, a vida acabou de desistir de mim.
— Por que essas palavras tão duras consigo mesmo? — soou preocupado.
Já não importava com isso.
O brilho de esperança tinha se apagado, ou melhor, seria esquecido após uma noite de sono. Me desviei dele e segui para o corredor, entrei no quarto me trancando. Sem me importar com a fome, e se ela também pudesse me deixar sozinho, seria uma grande ajuda. As horas se passaram comigo ao lado da janela olhando para a direção da claridade do céu, e me permiti acompanhar a mudança do tempo. Pela previsão do tempo, segundo meus sentidos, era certo que iria chover aquela noite também.
O que se mostrou bom.
A chuva poderia lavar todas as minhas angústias e frustrações também, ou só me levar com a enxurrada. Na metade da noite, saí do quarto e ataquei a primeira coisa que peguei dentro da geladeira, para minha não surpresa, era um sanduíche que tinha deixado especialmente para mim, junto com uma garrafinha de suco. Dei um sorriso fechado e fechei a porta da geladeira, me virei em direção ao corredor, por um momento ouvi um barulho estranho vindo da minha barriga. Para conseguir ficar sozinho, precisava me livrar da companhia da fome, que permaneceu todo aquele tempo. Me renderia a comida.
— Eu sabia que sairia do quarto em qualquer momento. — disse , se remexendo no sofá.
— Sabia que estava ouvindo uma respiração meio silenciosa. — disse, não dando importância ao comentário dele.
— Ainda não entendo como consegue perceber os mínimos detalhes. — um tom meio revoltado.
— São os detalhes que salvam meus dias, acredite. — segui pelo corredor e entrei no meu quarto novamente.
Fechando a porta, me sentei na cama e comecei a saborear o lanche.
Assim que terminei de comer, saí novamente do quarto e coloquei as coisas em cima da bancada da cozinha. A televisão ligada, denunciando que estava vendo um jogo de basquete, um jogo da liga da NBA, Chicago Bulls contra os Lakers, se não me engano. E o time de LeBron James estava ganhando por 79 a 75 até o momento. Retornei ao corredor, seguindo até o banheiro, demorei um pouco para voltar ao quarto, desta vez eu iria me render ao sono e me deitar, não tinha mesmo nada de interessante para fazer. Cogitei a ideia de ficar vendo o final do jogo com narrando todos os lances importantes para mim, mas aquilo não iria mudar meu humor.
Não iria melhorar minha noite.
Troquei de roupa e deitei na cama, mantive meus olhos abertos como se estivesse olhando para o teto, dei um sorriso de leve, até eu estranhava um pouco de como agia natural como uma pessoa normal. Um dia eu fui assim. Respirei fundo fechando os olhos, foi difícil conseguir dormir, por mais que eu não conhecesse o rosto de Emilly, sua voz ecoava em minha mente, e me fazia imaginar como seria os traços de sua face. Ao clarear o dia, acordei com o barulho da porta, a campainha estava tocando repetidas vezes. Não gostava de ser acordado, e com barulhos era ainda pior. Meu dia tinha tudo para ser estressante, mal-humorado em menos de um minuto acordado. Me levantei ainda um pouco zonzo e com alguns xingos pelo caminho, segui em direção a porta.
Tinha certeza que era , e sua falta de atenção em não sair com a chave.
— O que foi?! — disse de forma rude ao abrir a porta, senti a pessoa respirando meio sem reação, o que me deixava ainda mais nervoso — Não vai dizer nada?
— Bem... — era ela, a voz era dela — Acho que posso começar com um... Bom dia?!
— Emilly?! — tentei sussurrar mais saiu muito alto, meu coração acelerou novamente, abaixei minha face não deixando-a vez meus olhos — O que deseja?
— Bem... — respirou fundo, talvez se encorajando a falar — Primeiro, eu desejo que retribua o bom dia que eu te dei.
Como uma garota de atitude naquele momento. Um delicado soar repreensivo.
— Nossa... — fiquei envergonhado por minha reação ao abrir a porta — Bom dia.
— Agora está melhor. — sua voz voltou a ser mais suave como sempre — Eu... Li sobre você, então pensei que pudesse agradecer de forma mais adequada.
— Leu sobre mim? — estava em choque, eu pedi para que ela me “esquecesse” e ela escreveu sobre mim.
— Sim, esta manhã, havia uma página sobre você, no meu álbum de informações. — assentiu de forma gentil — O que fez por mim foi, você me salvou, não tenho palavras pra expressar como estou grata.
Parei no: uma página sobre você.
— Nem sei o que dizer, achei que fosse esquecer de mim. — fui sincero e claro com meus pensamentos sobre isso.
— Eu também. — riu de leve — Está sendo um pouco estranho para mim, por mais que todo dia seja sempre uma novidade, eu sempre deixo passar muita coisa que não vai fazer diferença na minha vida, mas… Acho que o meu eu de ontem, não queria te esquecer.
“Eu tenho medo de que você vá embora.
Eu não deixaria você ir,
Como eu posso manter-te aqui?”
— All My heart / Super Junior

