Codificada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 27/12/2025
A sala de reuniões estava cheia demais para uma sexta-feira. O tipo de cheia que misturava café morno, conversas paralelas e aquela animação artificial de fim de ano que ninguém realmente sentia, mas fingia muito bem. Russell entrou alguns segundos atrasada, equilibrando o notebook contra o peito e o celular entre os dedos. O burburinho diminuiu quando ela passou, não por importância, mas porque ela tinha esse efeito irritante de parecer sempre focada demais para o caos ao redor.
— Olha só… — a voz veio do fundo da sala, preguiçosa, carregada de diversão. — Atrasada, mas consistente.
A mulher nem precisou olhar para saber de quem era. Ainda assim, ergueu os olhos, encontrando recostado na cadeira, braços cruzados, o sorriso fácil de quem vivia para testar os limites alheios.
— Bom dia pra você também, . — Respondeu, seca. — Fico feliz em saber que minha pontualidade é a parte mais interessante do seu dia.
Alguns colegas riram. Outros apenas observaram, acostumados àquela dança. Desde o primeiro dia de na empresa, eles pareciam presos numa competição silenciosa que ninguém lembrava exatamente como tinha começado, mas que se alimentava de provocações, olhares atravessados e uma química inconveniente demais para ser ignorada. Ela se sentou, abrindo o notebook, quando o chefe pigarreou, chamando a atenção.
— Certo, pessoal. Antes de começarmos a pauta, queria aproveitar que já estamos entrando no clima de fim de ano para propor uma dinâmica diferente. — O brilho coletivo de curiosidade se acendeu. — Vamos fazer um amigo secreto, mas não daqueles tradicionais. Vai ser temático, com desafios ao longo da semana. — Um gemido coletivo se espalhou pela sala. fechou os olhos por um segundo, como se pudesse se tornar invisível. — Funciona assim: além do presente final, vocês vão deixar bilhetes anônimos, pistas… e algumas pequenas missões que precisam ser cumpridas para descobrirem o presente da pessoa que tiraram. Nada absurdo, prometo. No fim, a revelação acontece na nossa confraternização de encerramento. No palco.
No palco.
sentiu um arrepio percorrer a espinha. Do outro lado da sala, ergueu uma sobrancelha, claramente interessado.
— Agora, vamos sortear.
Uma caixa começou a circular entre as mesas. O clima ficou estranho rápido demais. Risadas nervosas, comentários baixos, mãos mergulhando no papel como se aquilo fosse decidir algo além de um simples presente.
Quando a caixa chegou em , ela respirou fundo antes de puxar um papel. Desdobrou com cuidado, como se já esperasse o impacto. O nome escrito fez o mundo desacelerar:
.
Por um segundo, ela teve certeza de que era algum tipo de brincadeira. Olhou em volta, esperando risos, alguém dizendo que tinha sido armado. Nada.
— Algum problema, Russell? — o chefe perguntou, curioso.
Ela ergueu o olhar, forçando um sorriso que não alcançava os olhos.
— Nenhum. — Dobrou o papel com uma precisão excessiva. — Tudo… ótimo.
Do outro lado da sala, a observava com atenção demais. O sorriso dele surgiu devagar, como se tivesse acabado de ganhar um jogo que nem sabia que estava jogando. desviou o olhar, o coração batendo mais forte do que gostaria de admitir. Porque, de todas as pessoas naquela empresa, tinha acabado de tirar justamente a única pessoa que possuía a incrível habilidade de tirá-la do sério em menos de cinco minutos.
A reunião continuou. Ou pelo menos para os outros. encarava os slides passando na tela como se estivessem em outro idioma. Palavras surgiam, gráficos mudavam de cor, os colegas faziam várias perguntas, mas tudo era engolido por um único pensamento insistente:
.
Uma semana inteira.
Bilhetes, missões, pistas.
Interações forçadas com a pessoa que eu mais odeio na face da Terra.
Cruzou os braços, o maxilar tenso. Não era só o presente no final. Era simplesmente a chance perfeita para ele transformar tudo em provocação pública.
Ótimo. Absolutamente perfeito.
Quando o chefe finalmente anunciou o fim da reunião, foi a primeira a fechar o notebook. Levantou rápido demais, quase derrubando a cadeira, e seguiu até ele antes que pudesse ser engolida pela multidão de colegas animados.
— Com licença, senhor… — chamou, num tom baixo. — Posso falar um minuto?
— Claro. — Ele sorriu, paciente.
Ela respirou fundo, escolhendo cada palavra como quem pisa em terreno minado.
— Sobre o amigo secreto… existe alguma chance de refazer o sorteio? Talvez… só pra evitar situações desconfortáveis.
O chefe a analisou por um segundo, curioso.
— Você tirou você mesma?
— O quê? Não! — respondeu rápido demais, e logo tentou suavizar. — Quer dizer… não. É só que eu não conheço muito bem a pessoa. Achei que pudesse ser estranho.
Ele riu de leve, balançando a cabeça.
— Mas a ideia é justamente essa, . Uma oportunidade de conhecer melhor alguém da equipe. Às vezes, essas dinâmicas surpreendem.
E, antes que ela pudesse insistir, ele se afastou, já chamando outra pessoa, deixando-a parada no meio da sala vazia, sentindo o peso da derrota cair sobre os ombros.
— Amigo secreto… — murmurou para si mesma, jogando a bolsa no ombro. — Tá mais pra inimigo secreto.
— Dramática como sempre. — A voz surgiu atrás dela, familiar demais, fazendo-a fechar os olhos por um segundo antes de se virar. estava ali, a poucos passos, as mãos nos bolsos, o sorriso torto estampado no rosto como se tivesse ensaiado aquilo. — Tá tudo bem, Russell? — Perguntou, com falsa preocupação. — Você saiu da reunião parecendo que acabou de descobrir um segredo de Estado.
Ela sustentou o olhar por um instante, o suficiente para deixar claro que não tinha paciência.
— Tá tudo ótimo, . E, se não estiver, com certeza não é da sua conta. — Respondeu, seca, passando por ele sem esperar resposta, o salto ecoando firme pelo corredor.
a acompanhou com o olhar, o sorriso se alargando devagar, algo que acontecia recorrentemente após conseguir tirá-la do sério. não olhou para trás, mas sentia que aquele fim de ano tinha acabado de se transformar em algo perigosamente pessoal.
Continua...
Nota da autora: Aos 45 do segundo tempo, consegui entregar a fic para o especial e, mesmo sendo uma temática mais natalina, não consegui sair do enemies to lovers kkkkkkkkkk obrigada por acompanharem minhas histórias esse ano, espero que gostem dessa e que venham mais em 2026 💜
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