Revisada por: Sagitário♐
Última Atualização: 6/8/25Como descrever o verão de Massachusetts? É a mesma sensação de estar caminhando dentro de um grande forno: abafado, sem vento algum. Era impressionante como as folhas das árvores pareciam brincar de estátua, de tão imóveis.
A caminho de Harvard, que seria meu lar pelos próximos anos, resolvi "almoçar" um sorvete de morango qualquer. Comer algo quente estava fora de cogitação. A ambientação ao redor do campus era simplesmente linda: muito verde, muitas árvores, e várias pessoas aproveitando o verão para correr ou se exercitar. Ouvi dizer que o inverno aqui é bastante rigoroso, então essa era a época em que todos pareciam querer viver tudo ao ar livre, como se estivessem tirando o atraso e aquele momento fosse um presente raro.
Meu Google Maps apontava que eu estava na direção certa e que faltavam apenas alguns minutos para chegar ao meu destino final. Já na esquina, acabei me deparando com uma das construções mais bonitas que já vi na vida. Aproveitei o sinal verde dos pedestres para atravessar, ficando ao lado dela. Meus olhos subiram devagar, acompanhando cada detalhe do edifício à minha frente. O vermelho dos tijolinhos contrastava com o verde das árvores, e junto ao céu azul, a paisagem era de tirar o fôlego.
— Simplesmente lindo, né? — Uma voz masculina me tirou do transe, fazendo-me virar na direção dela.
Meus olhos encontraram o dono daquela voz: tinha olhos castanhos tão acolhedores quanto o sorriso discreto, sem mostrar os dentes, que ele me oferecia, como se dissesse que eu não precisava ter medo. Era um rapaz alto, de camisa branca levemente amassada, calça jeans preta e cabelos pretos um pouco bagunçados, que contrastavam com sua pele clara. Simplesmente lindo é você, foi o que pensei, mas fui interrompida novamente pelo bonitão.
— Esse é o Memorial Hall. Estamos ao norte do Harvard Yard, dentro do campus. — Uau... interessante. — Foi tudo o que consegui responder depois de ver aquele rapaz.
— Ele foi erguido em estilo Gótico Vitoriano Alto e, basicamente, presta homenagem aos ex-alunos de Harvard que sacrificaram suas vidas na defesa da União durante a Guerra Civil Americana — continuou explicando, como se estivesse fofocando sobre algo trivial. — Ele se tornou um símbolo duradouro do compromisso de Boston com a causa unionista e com o movimento abolicionista nos Estados Unidos.
— Como você sabe tudo isso? Você é veterano? — Eu realmente estava surpresa com toda aquela informação.
— Não — respondeu, rindo.
— Então… veio estudar História? — tentei adivinhar.
— Na verdade, vim estudar Ciência da Computação.
A informação bugou meu cérebro por um momento. História não parecia combinar com o curso. Mas fiquei feliz por conhecer um futuro colega de classe.
— Sério? Eu também! — disse, animada. — Mas…
— Tá se perguntando como eu sei tudo isso, né? — Ele sorriu de lado, como se adivinhasse meus pensamentos. — Gosto de estudar História como hobby. Principalmente dos lugares novos que visito.
— Não me apresentei. Sou . E você?
— Jeong Yunho.
— Siga em frente e, em 500 metros, vire à esquerda — meu Google Maps anunciou em voz alta, quebrando o momento como uma buzina fora de hora.
— Estou indo para o evento dos calouros. Você também vai? — Os olhos dele foram do meu celular de volta para os meus. Apenas concordei com a cabeça. A presença dele já ajudava muito, provavelmente me perderia rápido naquele lugar novo.
Seguimos juntos por alguns minutos, até nos aproximarmos de um corredor enorme, onde havia muitos estudantes e seus pais. Nos juntamos a uma fila que levava até dois pilares de tijolinhos vermelhos. Ao passarmos por eles, entramos em outra parte do campus de Harvard.
— Cheguei no sábado — comentei, ajeitando a alça da mochila enquanto tentava acompanhar o ritmo de Yunho. — Ainda tô num hotel, vim só com o básico. Hoje está sendo meu primeiro dia pisando aqui de verdade, e já me sinto completamente perdida.
O caminho era amplo, ladeado por árvores altas, prédios antigos e pequenas placas indicando os nomes dos edifícios. Tudo parecia muito semelhante, eu iria me perder ali com certeza.
— É normal — ele disse, com um sorriso calmo. — Leva um tempo pra decorar tudo. Eu cheguei faz uma semana e ainda me embanano em alguns lugares.
— Uma semana? — Levantei as sobrancelhas. — Veio bem cedo.
— Meus pais queriam garantir que ia dar tempo de resolver tudo com calma. Mas a maioria chega só hoje mesmo, antes da aula começar. Meus colegas de dormitório ainda nem apareceram.
— Vai dividir com quem?
— Dois caras, Seonghwa e Hongjoong. E você?
— Eu só sei que vou dividir com uma tal de Jeisa. Não vi rosto, nem falei com ela. Só sei que o nome tá lá.
— Relaxa, vai dar certo. Você parece se adaptar fácil — respondeu tentando me tranquilizar.
Eu ia responder, mas parei por um segundo para observar melhor. Yunho tinha um jeito muito específico de falar, era sem pressa, mas direto. A voz era tranquila, a expressão sempre leve. Mas o que mais chamava atenção era o jeito como ele estava ali realmente presente e atento ao que eu falava. E ao mesmo tempo ele me guiava com toda gentileza através do campus.
— Eu tô começando a achar que você decorou esse campus inteiro em uma semana — brinquei.
— Não decorei nada, mas gosto de andar — ele respondeu. — E meio que me obrigo a explorar tudo logo. Acho que é meu jeito de lidar com a ansiedade.
— Justo.
Essa parte do campus era mais ampla, com um gramado extenso e dezenas de grupos reunidos em volta de bancadas e estandes. O clima estava mais animado ali, com veteranos distribuindo papéis e orientações.
Logo à frente, encontramos um deles, com uma camiseta vermelha da universidade e um crachá pendurado no pescoço. Ele se aproximou do grupo e anunciou em voz alta, com entusiasmo:
— Calouros, bem-vindos! Em breve começa o nosso desafio de integração. A atividade vai reunir calouros de diferentes cursos em uma gincana pelo campus. O objetivo é bem simples, vocês irão conhecer os espaços, as tradições, então preparem-se para se divertir.
Olhei para Yunho, e ele já me olhava de volta com um sorriso de canto.
— Isso parece que vai ser divertido — comentei.
E, pela primeira vez desde que pisei ali, senti que isso não seria tão ruim assim.
O veterano continuou nos explicando com toda atenção. Todo o desafio havia sido planejado dentro de um aplicativo exclusivo da universidade, criado por veteranos do curso de Ciência da Computação. Eles nos entregaram um QR Code para baixar o app, e assim que fizemos login com nossos códigos de estudante, o sistema automaticamente formou os grupos.
Para minha surpresa, o meu estava completo em segundos.
Éramos cinco.
E, como o universo adora brincar com coincidências, meu grupo era formado justamente por Yunho, os dois garotos que iriam dividir o dormitório com ele, Seonghwa e Hongjoong, e, claro, Jeisa… minha futura colega de quarto. A foto de cada integrante estava disponível na página, nos ajudando a reconhecer cada um do time.
Eu e Yunho sorrimos um pro outro.
Um garoto um pouco mais baixo que Yunho caminhava em nossa direção com uma elegância impressionante, como se cada passo tivesse sido ensaiado. A postura era reta, a camisa branca impecavelmente passada, como se nem o calor do dia ousasse desalinhar nada nele. Os cabelos caíam em ondas escuras, desgrenhadas com perfeição, dando um ar de personagem de anime. A franja cobria parte dos olhos, mas não o suficiente para esconder o olhar profundo e quase indecifrável que ele lançava ao redor. Como alguém podia ser tão bonito sem fazer esforço? pensei, tentando não demonstrar o quanto aquilo me desconcertou.
— Oi, grupo 17, né? — ele perguntou, a voz calma e firme, enquanto conferia algo no próprio celular.
— Isso mesmo — respondeu Yunho antes que eu pudesse abrir a boca.
— Sou Seonghwa. Arquitetura. — Ele estendeu a mão e mesmo o gesto mais simples parecia elegante. Apertei sua mão, tentando manter a compostura.
— . Ciência da Computação — disse, esperando que minha voz não entregasse meu estado interno.
Logo atrás dele veio Hongjoong. Usava uma camiseta oversized preta com estampa gráfica e um boné virado para trás, andava com o celular na mão, a tela iluminando seu rosto enquanto ele confirmava alguma coisa.
— Grupo 17...? — perguntou, erguendo os olhos e olhando pra gente. — É aqui?
— É sim — dessa vez, eu respondi.
Hongjoong deu um leve aceno com a cabeça, guardando o celular no bolso.
— Sou Hongjoong. Design Digital.
A energia dele era completamente diferente da de Seonghwa e Yunho. Enquanto os dois tinham um jeito mais calmo e contido, um pela elegância, o outro pela gentileza. Hongjoong parecia ser movido por eletricidade. Era mais expressivo, mais direto, quase impossível de ignorar. Nos apresentamos enquanto a última integrante do time não chegava.
— Com licença… esse é o grupo 17? — uma garota baixinha perguntou com um sorriso gentil, segurando o celular com as duas mãos.
Vestia um blazer azul claro por cima de uma camisa branca bem passada, combinando com uma saia plissada escura até os joelhos. Os cabelos cacheados estavam presos em um rabo de cavalo baixo, com alguns fios soltos contornando o rosto. Havia algo delicado e fofo na aparência dela.
— É sim — Hongjoong dessa vez tomou o meu lugar e respondeu.
— Que bom. Sou Jeisa. — Sorriu para a equipe. — Faço Psicologia. E, pelo que vi aqui... — Ela ergueu o celular com a tela aberta no aplicativo. — ...nós duas vamos dividir o dormitório, , né?
— É, parece que sim — sorri, surpresa.
O nosso grupo estava completo. E, por mais aleatória que fosse a nossa formação, havia algo curioso no contraste entre nós. Cada um tão diferente: o elegante, o criativo, a calma e o gentil. Ainda assim, tudo parecia se encaixar com naturalidade.
E eu? No meio disso tudo, talvez fosse o caos suave. Observadora, tentando entender onde pisava, sem parecer tão perdida quanto realmente estava. Curiosa demais pra me manter em silêncio, cética demais pra aceitar tudo como acaso. Mas mesmo sem saber o porquê… minha intuição dizia que aquele grupo ficaria junto até a formação.
— Calouros, vamos às últimas orientações! — a voz de um garoto loiro nos tirou da conversa, fazendo todos voltarem a atenção para ele. — A caça ao tesouro é bem simples: vocês precisam decifrar a pista, descobrir qual é o local indicado, ir até lá e tirar uma foto com todos do grupo como prova. Depois, enviar a imagem pelo aplicativo. A equipe que chegar primeiro ao destino final, o tesouro, precisa tirar uma foto com ele para validar a vitória.
Enquanto algumas pessoas ainda tiravam dúvidas, Hongjoong já estava com o celular na mão, lendo algo com a testa franzida, como se procurasse por algo.
— Acho melhor irmos para um lugar mais vazio — disse Jeisa, olhando ao redor e baixando o tom de voz. — Assim fica mais fácil para conversarmos e se ficarmos aqui, vamos acabar dando a resposta de bandeja para outros grupos.
— Concordo — Seonghwa falou brevemente, e o modo como ele passou a mão pelo queixo, pensativo, virando seu olhar intenso para mim. Me fez ficar um pouco nervosa.
— Você tem razão. — Hongjoong guiou o grupo até a frente do prédio, onde já era possível ver vários grupinhos separados, alguns cochichando, outros já de olhos colados nos celulares tentando decifrar as primeiras pistas.
Hongjoong parou sob a sombra de uma árvore e ergueu o celular.
— Ok, primeira dica liberada. Vamos ver... — disse, lendo em voz alta:
— Isso é fácil! É o Memorial Hall — falei antes que alguém pudesse responder, virando-me instintivamente para Yunho. Ele sorriu de volta, como se já soubesse que eu ia acertar.
— Essa foi rápida. — Hongjoong assentiu, já abrindo o mapa no celular. — Vamos garantir essa primeira o quanto antes.
Começamos a caminhar juntos pelo campus. O sol continuava forte, mas as sombras das árvores nos protegiam parcialmente enquanto seguíamos pelo caminho em direção ao nosso primeiro destino.
— Você mandou bem ali com a dica — comentou Seonghwa, se aproximando um pouco mais do meu lado.
— Foi o local que acabei conhecendo o Yunho hoje mais cedo — disse com um pouco de vergonha.
— Então faz sentido ter lembrado tão rápido — respondeu, com um leve sorriso no canto da boca. Será que tinha aumentado a temperatura em tão pouco tempo assim? Que calor era esse que eu estava sentindo?
Ele me olhou por um instante, como se estivesse considerando algo, e completou:
— De todo jeito… parece que você presta atenção nos detalhes. Isso diz muito sobre alguém. — O que ele queria dizer com isso? Será que ele estava percebendo as encaradas que eu estava dando?
Olhei para frente, tentando disfarçar o calor nas bochechas. Do outro lado, Yunho andava ao meu ritmo e me lançou um olhar rápido, como se estivesse prestando atenção em cada pequena interação, ou talvez fosse coisa da minha cabeça.
— O Memorial ali. — Apontei para a torre de tijolos avermelhados que se destacava contra o céu.
— Isso mesmo — confirmou Yunho, se aproximando mais. — Mas tem que tirar foto com todos aparecendo e com o prédio ao fundo. Melhor já pensar em um ângulo.
— Deixa comigo — disse Hongjoong, já puxando o tripé dobrável da mochila com a desenvoltura de quem já fez isso mais vezes do que deveria. — Estilo fotógrafo underground, ok? — Ri da sua energia e me perguntando o porquê ele tinha um tripé com ele.
Nos posicionamos em frente ao prédio. Seonghwa ficou do meu lado, os braços cruzados e uma postura impecável até na pose. Yunho, do outro lado, fez um gesto sutil pra eu me aproximar um pouco mais, e eu obedeci, sentindo os dois lados do meu corpo ficarem igualmente conscientes da presença deles.
E então, por causa da proximidade, algo me atingiu de surpresa: o perfume.
De um lado, o cheiro amadeirado e doce de Seonghwa, discreto, mas marcante. Do outro, a fragrância floral fresca e leve de Yunho, que parecia combinar perfeitamente com o jeito gentil dele.
Fechei os olhos por um segundo, sem querer, como se meu cérebro tivesse tentado gravar aquela mistura.
— Três, dois, um… — anunciou Hongjoong com o temporizador ativado.
Flash.
A primeira foto do grupo 17.
Depois de enviar a foto, uma nova notificação surgiu no app com a segunda dica:
— Biblioteca Widener — Jeisa respondeu, já andando em direção ao prédio.
[...]
Quarta pista:
— Harvard Yard — murmurei. — A parte mais antiga, cheia de árvores. Acho que temos que ir até o banco com o símbolo esculpido.
Seguimos apressados pela trilha de Harvard Yard. O sol filtrava por entre os galhos das árvores centenárias, desenhando padrões dourados no chão. Quando chegamos ao banco com o brasão esculpido no encosto, Hongjoong puxou o celular e seu tripé e já arrumando para tirar a foto em grupo.
A notificação chegou anunciando a última pista.
— Última pista! — disse Hongjoong, os olhos brilhando de expectativa.
Ficamos em silêncio por um segundo, tentando juntar as peças.
— Pode ser... a estátua de John Harvard? — sugeri, hesitante. — Lá tem o nome gravado.
— Sim! — disse Seonghwa. — Vamos lá.
Corremos até a praça onde ficava a famosa estátua. Havia turistas tirando fotos, estudantes sentados sob a sombra, e ao fundo o brilho dourado do fim da tarde. Demos a volta na escultura, procurando algo diferente. Foi Yunho quem notou primeiro.
— Espera... o que é aquilo ali atrás? — ele apontou discretamente.
Atrás da base da estátua, entre algumas plantas ornamentais, havia uma pequena caixa de madeira escura, com detalhes prateados e um pequeno cadeado de senha numérica.
— Qual é a senha? — Yunho perguntou, agachando-se diante da caixa.
Nos reunimos ao redor, tentando imaginar o código. Hongjoong puxou o celular e abriu novamente o aplicativo da gincana. Ao lado da última pista, uma nova mensagem piscava em vermelho:
— Todo mundo tira foto com a estátua, né? — Jeisa disse, franzindo a testa. — Principalmente encostando no pé.
— Verdade — murmurei. — Tem até fila pra isso.
— Então… e se for o ano em que a estátua foi colocada aqui? — sugeriu Seonghwa. — Ou o ano que está escrito nela?
— 1884 — disse Yunho, já girando os números no cadeado. Como era esperado da mente genial.
O clique do fecho se abrindo nos fez prender a respiração por um instante. Dentro dela, repousava um envelope branco selado com cera azul-escura. O símbolo em relevo era uma máscara dividida ao meio, metade sorridente, metade neutra. Era lindo mesmo.
Hongjoong pegou o envelope e leu em voz baixa a inscrição:
Nos entreolhamos. Nenhum de nós disse nada por alguns segundos.
Tiramos a foto final comigo no meio, segurando a caixa. Yunho estava à minha direita, com Hongjoong logo ao lado. Do lado esquerdo, Seonghwa, e depois Jeisa, sorrindo com os olhos semicerrados por causa do sol. Me peguei sorrindo largo, quase esquecendo o calor absurdo daquele dia.
O celular de Jeisa vibrou primeiro, mas em segundos todos recebemos a mesma notificação:
— E é isso! — comemorou Hongjoong, erguendo os braços como se tivesse vencido uma maratona. — Alguém aí afim de comemorar? Tô faminto. Podemos ir a um lugar aqui perto do campus que pareça bom.
— Com comida eu topo qualquer coisa — disse Jeisa, já guardando o celular.
— Vamos nessa — Yunho concordou, virando-se pra mim. — Você vem?
Abri a boca, mas só consegui rir, exausta.
— Eu queria muito... mas eu tô destruída. Ainda preciso pegar minhas malas no hotel e fazer a mudança. Meu corpo já desligou.
— Você precisa de ajuda? — E, como num coro, Seonghwa e Yunho se ofereceram ao mesmo tempo, fazendo minhas bochechas esquentarem.
— São apenas duas malas, eu dou conta — disse tentando tranquilizá-los.
— Justo — disse Seonghwa, com um leve aceno de cabeça. — Se precisar de alguma ajuda, você tem os nossos números.
— Fica pra próxima então, — completou , já começando a andar de costas. — Mas só essa, viu?
Sorri de novo, observando os quatro se afastarem enquanto trocavam piadas entre si. E ali, sozinha por alguns instantes, senti um pouco em casa.
Agosto 25 – Cambridge, 22:00
Nada mais relaxante do que um banho gelado depois de um dia exaustivo sob o sol escaldante. Com o corpo ainda latejando do esforço da gincana, deixei a água escorrer por mim rezando para a água levar embora o calor e o cansaço de uma vez só. Me vesti com um pijama fresco e em seguida, joguei-me no sofá do dormitório, ligando o ar-condicionado para transformar o quarto em um refúgio gelado para o verão de Massachusetts.
Consegui pegar a chave do dormitório a tempo e fui até o hotel buscar minhas coisas. Eram apenas duas malas de rodinha, de 23kg cada, e minha mochila. Não havia trazido muita coisa do meu país.
Como ainda não havia chegado, aproveitei o silêncio raro para começar a transformar aquele quarto impessoal em algo mais meu. Coloquei uma playlist de chuva com lo-fi jazz no meu celular e deixei o sofá me abraçar, apenas respirando devagar, tentando absorver tudo o que tinha acontecido naquele dia.
Fechei os olhos por alguns minutos.
A memória mais nítida que surgiu foi a foto em grupo. O calor abafado, o clique da câmera... e os dois ao meu lado. e . Tão diferentes, mas igualmente marcantes. Um com aquele sorriso calmo que parecia Golden Retriever, o outro com um olhar firme e postura impecável, quase impossível de decifrar como um leopardo negro. Ambos bonitos de formas diferentes. De algum jeito, os dois pareciam ter deixado um impacto em mim que eu não conseguia explicar.
Balancei a cabeça, como se isso pudesse empurrar os pensamentos para longe. Era só o primeiro dia, eu mal os conhecia. Estava cansada, confusa. Precisava descansar.
Foi então que vi.
Um cartão branco simples e elegante.
Ele estava perfeitamente alinhado sobre o centro da minha colcha, como se tivesse sido deixado com precisão cirúrgica. Tinha detalhes em prata, que brilhavam levemente à luz fraca do abajur.
Meu estômago gelou. Eu sabia que aquilo não estava ali antes.
O cartão branco era de papel espesso e fosco, com bordas perfeitamente retas e detalhes prateados discretos ao redor. No centro, um selo de cera vermelha, circular, ainda com pequenas marcas de pressão ao redor. O símbolo em relevo era uma pequena máscara, muito elegante. Abaixo do selo, uma única palavra impressa em preto:
Ao abrir o cartão, havia apenas uma mensagem, centralizada, impressa em letras finas:
Não comente com ninguém.
Nós vamos saber.
O próximo passo será enviado.
Isto não é um convite.
Isto é uma ordem.
Ao terminar a leitura, o frio começou a me incomodar. Senti alguns arrepios. Um silêncio estranho se instalou, denso, como se o ar tivesse parado. Engoli em seco, tentando ignorar a sensação incômoda de que alguém, em algum lugar, estava me observando naquele exato momento.
Então, os rumores eram verdadeiros.
Eles existiam.
Eles sabiam que eu tinha lido.
E estavam me observando.
