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Revisada por: Hydra

Finalizada em: 01.09.2025
eu ouvi através do coração


Do lado de fora da janela, o dia se desenrolava em uma calma introspectiva, a luz difusa filtrada através do vidro. Era quase o fim de tarde, as mesmas nuvens cinzas e o mesmo frio em agosto. despertou aos poucos, no relógio eram 17h23 e não havia ninguém ao seu lado — assim como no dia anterior e nos últimos antes desse. A sua namorada, mais uma vez, havia passado o dia todo trabalhando. Nem mesmo a cadela, sua fiel escudeira, cochilava aos seus pés.
O aroma de alho dourado na manteiga o atraiu com calma, o levando até a extensão da sala de estar com a cozinha. O som baixo ao fundo era Marvin Gaye cantando, os acordes de I Heard It Through The Grapevine embalavam em suas batidas. A voz de sua namorada o acompanhava em seu timbre dissonante, quase vergonhoso. Nada mais encantador, confessaria. Admirando cada pequeno detalhe seu, mergulhado em uma contemplação silenciosa. Nada mais encantador do que ela.
a considerava sua musa, mesmo sem se considerar artista. A musa de sua existência. A musa de sua vida, luz consistente. A dona do sorriso mais doce do mundo, com o poder de o render todas as vezes. O beijo mais gostoso, puro e safado. Apenas um olhar seria capaz de o enlouquecer, capaz de o fazer perder tudo -— os seus grandes olhos abrigavam vislumbres nunca vistos antes. Era intenso, meigo e sedento.
A adorava em tudo, simplesmente.
De todos os amores, o amor tranquilo era o seu favorito. O arrepio do toque, as conversas silenciosas, a risada preguiçosa no amanhecer, o gozo prazeroso, os segredos desvendados, o carinho nas costas, as declarações no muro.
amava com o coração inteiro, simples assim.
A bancada estava disposta com vagens francesas, postas de salmão, molho de limão com ovos batidos, temperos diversos e vinho branco. A mesa circular de jantar vestia uma toalha verde, posta com duas velas, pratos e taças esperando para serem preenchidas. O cogumelo picado esquentava na frigideira junto ao curry, e o coentro estava sendo cortado com maestria para compor a comida.
O primeiro a notar sua presença foi a pequena border collie de pelagem marrom, a cadela do casal. Brownie, sem qualquer alvoroço, apenas levantou uma das orelhas peludas ao sinal de sua presença. Toda a sua concentração estava em esperar pacientemente por um pedaço de carne, ou qualquer petisco gostoso.
se achegou devagar, envolvendo as mãos por dentro de sua blusa rosa. Aproveitou para descansar o rosto em suas costas, sentindo o leve perfume de alfazema. Era somente poucos centímetros mais alto, porém ainda sim se inclinava como uma colina.
se aconchegou no abraço, sem se espantar com a presença quase repentina. Agora seria capaz de reconhecer a sua forma independente da distância, tempo e momento de vida. Os últimos anos foram feitos para não só se permitirem a conhecerem um ao outro, mas partes essenciais de si mesmos. Explorando devidamente como nunca antes.
e não se apaixonaram à primeira vista. No primeiro instante aconteceu como um caso de apenas uma noite, moradores de cidades diferentes. Não houve o primeiro beijo perfeito ou toque avassalador, não foi paixão arrebatadora desde o princípio. Aconteceu sem pressa, ouvindo o coração. Um amor tranquilo, nascido sem pretensões.
Antes mesmo do envolvimento romântico, primeiro se tornaram amigos, para depois se encontrarem como amantes. O mundo parecia mais vivo, os detalhes ganharam um novo significado. A perspectiva se tornou vasta. Entre idas e vindas de viagens de ônibus e carro na estrada, estavam dispostos um ao outro.
Eram eternos namorados.
— Oi — disse.
Mesmo sem conseguir ver o rosto dela, sabia da presença do sorriso suave.
— Oi — a sua voz era baixa e mansa, ainda sonolenta. O som agudo saindo quase rouco.
As suas respirações sincronizaram, serenas e afáveis. A sensação de serenidade espalhada no abraço quente. Antes de se afastar traçou rastros de beijos por toda a pele exposta, aproveitando da distração para jogar um pedaço de bacon para a amiga peluda.
prezava muito pelo lado analítico de seu companheiro, contrariando a presença de câncer em seu mapa astral. Era importante as suas opiniões, colocações e senso crítico. Alguns poderiam não entender o equilíbrio entre o sarcasmo em contraste ao lado sensível, mas o entendia, e mesmo quando não o entendia, permanecia.
E permanecer mesmo sem compreender por completo, é amor.
Após dois anos de relacionamento, através de muitos diálogos e esforço de ambas as partes, foram morar juntos. As tardes eram dedicadas para a companhia um do outro; gostavam de jogar baralho, ler no silêncio, preparar alguma receita nova, maratonar filmes secretos ou somente aceitarem o ócio.
No início do dia, cada um ficava a seu próprio modo. Acostumado a acordar cedo, preparava o café da manhã e molhava as plantas. Após chegar em casa depois do trabalho, fumava um cigarro e sentava para ler depois do almoço. Nas manhãs de , havia gosto de panqueca com banana e café com canela, banho de sol no quintal e música estrangeira. Quando o sol descansava ao fim da tarde, levando os raios de luz nos tons azul e âmbar ao horizonte, a família de três costumava passear pela lagoa. As mesclagens das cores solares se contrastando ao céu lilás cintilavam vida. Era o momento favorito, sagrado. Ao anoitecer, todos se espalhavam no mesmo cômodo. A beleza do cotidiano os ultrapassando, a felicidade no simples. No sentido de , tudo terminava logo após a xícara de chá, porém, não para .
O subir do luar era o seu momento, quando a porta fechava dedicava o seu tempo apenas à sua escrita. As palavras de eram cativantes. poderia conhecer todos os livros do mundo e dizer todas as línguas, mas entre todos os autores renomados e conceituados, sempre seria a sua favorita. Se encantava por cada história, conto ou poema…
O risoto estava na grande frigideira, terminando de cozinhar junto ao queijo parmesão e bacon. serviu dois copos de cerveja gelada e antes de continuar a aprontar a mesa, depositou acalentos beijos no ombro de sua namorada. Havia torradas frescas na cesta, pasta homus para o acompanhamento e salada com molho de mostarda e mel.
A comida enchia toda a casa com o cheiro de lar.
— I've been really tryin', baby. Tryin' to hold back this feeling for so long.
entoou junto aos primeiros acordes envolvendo na melodia, o quadril balançando deselegantemente. Let’s Get It On os envolveram no mosaico em forma de dança, risos abafados e giros inesperados. Abraçados, apreciaram a música, os passos ainda incertos. Ainda sim o encaixe perfeito.
— We're all sensitive people with so much to give. Understand me, sugar.
— Since we've got to be here, let's live.
ergueu o braço em empolgação ao som da banda, girando desajeitadamente, até Brownie bufar mal humorada pelo seu pé quase a atingir. a girou de volta para o seu abraço, as mãos passeando pelos seus braços ainda estendidos no ar. As pernas se enroscaram, os dedos se entrelaçaram às ondulações de seu cabelo, e sussurrou poemas de amor em seu ouvido.
— I love you.
Ambos disseram juntos, sem cantar. A admiração profunda em seus olhos, o mundo se dissolvendo ao redor. Tudo parou.
estava nua, mesmo vestida. Sem rasuras, sem nenhuma timidez. Ela o apreciou inclinando a cabeça para trás, os olhos fechados e as mãos repousando em seu corpo.
Aos seus olhos, era lindo. Um porto, muitos poemas.
amava amar . Entregar o seu tempo, as suas palavras, a sua dedicação a esse amor conjurado. Nunca havia amado assim, não o amor romântico genuíno.
Na noite do início de tudo, buscava gravar cada mísero traço mesmo sem notar. Agora sabia da cicatriz quase imperceptível no antebraço, gravou todas as suas pintas no mapa, os seus aspectos únicos, a sobrancelha reta encurvando ao se distrair, as duas covinhas no fim de suas costas, a coexistência da dor e beleza, a intimidade vergonhosa, o cabelo enrolando após dois meses sem cortar, o sorriso de criança, a fome do mundo e todos os detalhes sublimes.
sentia muito, sentia tudo.
— If you want to love me, just let yourself go. Oh, baby, let's get it on. — Marvin Gaye continuou ao fundo, descrevendo em toda rítmica e composição os seus sentimentos.
Ainda no mesmo lugar, aproveitou para beijar o seu pescoço, arriscando uma lambida. adorava ser provocado por ela, soltando o seu lado safado, se arrepiando por completo. se curvou ainda mais, segurando em seus ombros, o beijando e o lambendo e o sugando. gemeu ao toque dos seus lábios o explorando, carregado de uma eletricidade sutil. Após muitos toques e carícias, segurou a sua mão gentilmente, beijando todos os seus dedos. Um por um. não escondeu o sorriso atrevido após a ponta do seu dedo indicador ser chupado, terminando em uma mordida.
A garrafa de cerveja havia sido trocada pelas taças de vinho, a ponta da erva foi acendida e a ambientação fora substituída pela luz tímida da luminária de barro. abriu a porta da varanda, convidando o frescor do inverno. O disco no vinil fora mudado, dando espaço para a linda voz de Djavan os conduzir em Pétala.
Naquele instante, com os três juntos dançando na cozinha, tudo se tornou diferente. Era vermelho com azul, lilás. Porém também havia sobretons, rosa, magenta e âmbar. Uma linha de todas as cores em uma só.
Para , havia uma nova percepção silenciosa; o coração do lado de fora, a alma do lado de dentro.
— É possível amor se tornar ainda mais amor?
Ela questionou, a voz baixa flutuando. Não esperava uma resposta, não precisava.
O seu coração estava em casa.






Fim


Nota da autora: Oie, tudo bem?
Antes de tudo, obrigada por ter chegado até aqui, de verdade.
Escrever essa história foi muito especial para mim, num nível íntimo muito sensível e grande. Trazer as minhas palavras ao mundo, pela primeira vez, é um passo muito significativo em meu coração. Estou realmente orgulhosa, tanto por conseguir finalizar um trabalho, quanto por me sentir feliz e disposta para publicar essa história.
Ainda há muitas coisas boas por vir!
Na primavera passada, após viver um romance com alguém de outra cidade, eu me senti tão inspirada pela vida ao ponto de precisar colocar em palavras todo esse sentimento. Assim, nasceu ‘’Lilás’’. A história de um amor bom, tranquilo e seguro — assim como foi gostoso e leve viver cinco meses apaixonada por essa pessoa.
Do fundo do meu coração, espero que tenha gostado dessa história. Se quiser, pode me contar o que achou.
Mais uma vez, obrigada por ler! Até a próxima.

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