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Revisada por: Lightyear 💫

Finalizada em: 14/06/2025

105 anos. Por 105 anos, a família Burgess manteve Morpheus prisioneiro naquele porão imundo, como um animal. Os humanos nem sequer tiveram a decência de lhe fornecer roupas, incomodando-o com a audácia de exigir presentes que não lhes cabia conceder. Tolos. Todos eles. Em completo silêncio, o Senhor dos Sonhos fermentava a vontade de fazê-los pagar por sua insolência. Oh, o doce acerto de contas que ele traria àqueles que o injustiçaram. Ele os faria se arrepender de sua existência miserável.
Por mais de um século, ele se sentiu faminto, não apenas no sentido literal da palavra. Morpheus frequentemente se perguntava sobre a situação de seu reino. Ele esteve ausente por tempo demais — mais tempo do que jamais estivera longe do Sonhar. O que se passava na mente de seus súditos? Achavam que ele os abandonara? Abandonará seu reino e suas responsabilidades, como o Pródigo?
Um ruído estridente tirou o Senhor dos Pesadelos de seus pensamentos abruptamente, vindo de um rádio antigo que os guardas usavam para passar o tempo até a troca de turno. Ele ergueu a cabeça ligeiramente, pois sabia que, definitivamente, o objeto havia parado de funcionar algumas semanas antes.

— Que porra é essa? Essa coisa velha não estava quebrada? — um dos guardas questionou enquanto coçava a cabeça, confuso.
— É. Talvez o velho Burgess tenha mandado consertar — a outra, uma mulher, respondeu com um tom de sarcasmo. — Foi o turno do Nigel ontem. Ele também é meio faz-tudo, não é? Talvez ele tenha se cansado de esperar um milagre e tenha consertado ele mesmo.

O guarda pareceu pensar um pouco, ainda coçando a cabeça.

— Bem, desliga essa porcaria, ? Eu odeio ruído branco — pediu a mulher, recostando-se na cadeira. — Vamos, Larry, não se preocupe. Nosso turno termina em meia hora. Isso será problema de outra pessoa.
— Mas isso é um pouco estranho, ? — Larry arriscou um olhar para Morpheus, e voltou rapidamente os olhos para a mulher, com um calafrio. — Começou sozinho…

A guarda grunhiu de impaciência, levantou-se e esticou o dedo para desligar o rádio, quando o som estridente mudou para uma música.

Oh no
Must be the season of the witch
Must be the season of the witch

Os dois guardas franziram a testa, olhando um para o outro com um olhar preocupado. Antes que pudessem reagir, porém, a música mudou novamente. E de novo, e de novo, cada vez mais alta.

Raven hair and ruby lips
Sparks fly from her fingertips
Echoed voices in the night
She's a restless spirit on an endless flight
Woo-hoo, witchy woman

— Isso não pode ser normal — Larry choramingou enquanto tirava sua arma do coldre e a empunhava na direção do rádio, depois na direção de Morpheus, depois para o nada.

I put a spell on you, ‘cause you're mine

— Está tudo bem. Disseram para não cruzar o círculo, certo? Estamos seguros — a mulher retrucou, mas Morpheus notou o quanto ela estava assustada, e com razão. O ar mudava rapidamente, a energia que ele conhecia tão bem preenchendo o lugar como um poema perdido há muito tempo, doce como o toque de um amante, elétrico como uma tempestade de verão.

She is like a cat in the dark
And then she is the darkness
She rules her life like a fine skylark
And when the sky is starless
Dreams unwind
Love's a state of mind


Os dois últimos versos da canção ecoaram pelas paredes, cada vez mais alto, até que os guardas tiveram que tapar os ouvidos, dobrando-se sobre si mesmos, a cacofonia os levando ao limite.
E então, tão repentinamente quanto a música começou, parou completamente, o silêncio agora quase tão alto quanto o barulho que havia cessado.
Uma risada familiar soou em seus ouvidos como um sino divino, e Morpheus se levantou rapidamente, a esperança aquecendo seu peito novamente depois de tantos anos. Ele não pôde deixar de se surpreender, no entanto. Quando ele a deixou, tantos anos atrás, não se separaram exatamente em bons termos. No entanto, como ele tinha certeza de que uma tempestade eventualmente se dissiparia e o sol voltaria a brilhar, ele sabia que ela viria em seu socorro, demorasse o tempo que fosse.
Os guardas ficaram em silêncio. Quando Morpheus olhou para eles novamente, viu seus olhos ficarem completamente brancos, voltando-se para a nuca e, com isso, ele teve certeza.
Era ela. Ela viera.

— Meu querido Morpheus… — A voz ecoou, quase um ronronar carregado de tanto afeto que, em circunstâncias normais, faria seu coração bater mais rápido que o de um beija-flor. — O que fizeram com você?

Como marionetes, os guardas se aproximaram, começando a apagar o sigilo que mantinha o Senhor dos Sonhos preso na enorme redoma de vidro. Morpheus ergueu as mãos para o material espesso, agitado e ereto, sem conseguir ficar parado.

— Afaste-se, Morpheus. Não quero que machuque esse seu rosto bonito. — A voz dela exigiu, e ele ignorou a brincadeira enquanto observava os guardas apontarem suas armas para o vidro, atirando algumas vezes. A redoma rachou e se desintegrou diante de seus olhos. Depois disso, os guardas caíram no chão com um baque alto, seus membros em ângulos estranhos, os rostos congelados em uma feição de pavor. Uma morte cruel, embora menos do que eles mereciam, todos eles.

Ele finalmente estava livre.
Um tecido escuro como seda foi colocado sobre ele com ternura, as mãos dela em suas costas como o toque de mil penas. Seu perfume preencheu suas narinas, e Morpheus fechou os olhos brevemente, o alívio suavizando seu peito. Ele estava livre, afinal.

— Você está ferido? — O tom de voz preocupado de o divertiu, e ele finalmente virou-se para encará-la. Parecia exatamente a mesma de quando ele a deixou, seus olhos suplicantes brilhando com lágrimas enquanto examinava seu corpo em busca de ferimentos, mesmo sabendo que ele era um Perpétuo e que aqueles humanos seriam o mesmo que vermes para ele. Ele segurou-lhe o rosto com as mãos pálidas e frias, a gratidão fluindo pelos olhos sem a necessidade de palavras.

O olhar da bruxa ficou mais severo, mais escuro, como se a noite houvesse se apossado deles.

— Eu os farei pagar.
— Não. — A voz de Morpheus foi ouvida pela primeira vez em um século, rouca e profunda. — Você não fará nada. Os humanos são meus.

abriu a boca para contestar, mas desistiu, sabendo o quão teimoso o Perpétuo era. Afinal, era seu direito. Todos os anos que ele devia ter esperado por sua vingança, aguardado em sofrimento, sua mente torturada diariamente.

— Estarei esperando por você no Sonhar, então. Lucienne precisa saber das notícias. Estávamos muito preocupados. Ainda sou permitida no Sonhar, querido Morpheus? Ou pretende me manter afastada novamente, agora que voltou? — Ela afastou-se das mãos dele, evitando seu olhar. Morpheus tinha tantas perguntas. No entanto, o tempo era curto. Ele ainda precisava recuperar sua areia, elmo e rubi. Aquilo podia esperar. Ela podia esperar.
— Agradeço sua ajuda, . Jamais esquecerei — ele assegurou com um aceno de cabeça. De repente, porém, ela agarrou-lhe o queixo com seus dedos longos e em forma de garras, inclinando-se.

Antes que ele pudesse compreender o que estava fazendo, sentiu soprar dentro de seus lábios a uma curta distância, e instantaneamente se sentiu mais forte e revigorado.
Claro. Spiritus Vitae.
Agora, parecia mais pálida e cansada do que ele já vira em anos, com olheiras, cabelos opacos e sem vida. Ela suspirou, tombando para trás, e ele a segurou nos braços com ternura para que não caísse. A bruxa sorriu levemente em agradecimento. Aparentemente, isso não estava em seus planos. Seus olhos se abriram algumas vezes e depois se fecharam completamente, enquanto ela caía em um sono profundo.

— Devolverei sua força vital assim que eu recuperar as forças do Sonhar. — O Senhor dos Pesadelos sussurrou em seu ouvido, depositando um pequeno beijo perto de sua têmpora. Ah, como ele sentira sua falta.

Com a força recém-adquirida, ele abriu um portal para levá-los ao seu reino amado, uma parte dele temendo o que encontraria.
No entanto, com de volta à sua vida, ele pôde se permitir esperar pelo melhor novamente.


FIM


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: Minha primeira fic de Sandman <3 ela é minha queridinha, devo admitir. Espero que gostem!

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