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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 23/01/2026

O dia 31 de dezembro sempre chegava para Éden Breeland como uma conta que ela não queria pagar. O mundo lá fora parecia ter entrado em um acordo coletivo de euforia compulsória, mas dentro do seu apartamento, o único som era o da geladeira trabalhando para manter o silêncio. Ela observava o asfalto lá embaixo, onde o mormaço da tarde de verão ainda tremeluzia, sentindo aquela melancolia específica de quem planejou passar a virada do ano assistindo seus amados documentários de assassinos em série e está prestes a ter esse plano arruinado.
O telefone vibrou pela quinta vez seguida. Era Willow. E Willow não parava até ser atendida ou denunciada por assédio.
Éden esperou até o terceiro toque, suspirou e atendeu.
— Se alguém morreu, eu sinto muito. Se for convite para algo, eu sinto muito por você — Éden se adiantou, sem tirar os olhos da rua.
Éden, escuta. Respira e não desliga. Eu estou no salão, meu cabelo está metade pronto e a minha sanidade está por um fio — a voz de Willow estava carregada daquela urgência que só pessoas envolvidas em casamentos de alta sociedade conseguem ter. — Lembra que vou com o Blake ao casamento, né? Então, a acompanhante do Atlas Mitchell foi parar no pronto-socorro. Alguma coisa sobre um camarão que não deveria ter sido comido. A noiva está tendo um ataque de nervos porque a quarta mesa principal agora tem um "buraco visual".
Éden fechou os olhos. Ela conhecia bem a fama dos Mitchell — afinal, era colunista de um jornal conceituado e escrever sobre cada escândalo dessa família era uma de suas muitas funções. O noivo, Julian Mitchell, era o primo "perfeito" de Blake Mitchell, o namorado de Willow. A família era um bastião de tradições vazias e fotos editadas para que todo mundo pareça extremamente feliz. Tudo fachada.
Muita aparência, muito dinheiro e uma rigidez que beirava o desconforto.
— Sinto muito pela moça. Mas o que a intoxicação dela tem a ver comigo?
Tudo! Você vai ser a acompanhante do Atlas. É simples! Você só precisa colocar um vestido, sorrir para o fotógrafo, fingir que é a pessoa mais sociável do mundo por algumas horas e evitar que o Atlas fique com aquela cara de 'eu odeio casamentos' em todas as fotos. Por favor, Den!
— Willow, não. Eu já decidi meu roteiro. Envolve resolução de assassinatos e nenhuma interação humana. Eu não sou um anteparo para preencher buraco visual de ninguém.
Pelo amor de Deus! É só um jantar e algumas fotos, Éden. O Atlas é... bem, você sabe. Ele é o Mitchell que não deu certo no molde da família, um desastre diplomático. Ele só precisa de alguém que não seja uma debutante desesperada por um sobrenome. Alguém que saiba conversar sobre qualquer coisa que não seja o mercado imobiliário. A mãe dele já está ameaçando chamar uma das filhas dos sócios, o que significa que o Atlas vai passar o Réveillon de cara amarrada e estragar todas as fotos que a noiva planejou por dezoito meses.
— E o que mais eu preciso fazer além de ser uma figurante de luxo?
Bem, você é a única pessoa que eu conheço que tem intelecto suficiente para não ser uma "debutante" e paciência para lidar com um Mitchell sem querer cometer um crime. Por favor. Me ajuda. O Blake também confia em você. Vai, Den, é só um jantar. O Atlas só precisa de uma barreira humana. Alguém que pareça interessante o suficiente para a mãe dele parar de caçá-lo.
Éden olhou para o próprio reflexo no vidro da janela. Queria muito matar sua melhor amiga naquele momento, mas não podia negar esse favor, pois Willow já tinha salvado sua pele algumas vezes também.
Houve um silêncio pesado. Ela respirou fundo.
— Que cor eu tenho que usar para não ser expulsa pelos seguranças?
Pêssego, rose gold ou champanhe. Qualquer coisa que pareça cara e discreta. O motorista da família vai te buscar às sete e meia. Den... eu te devo um rim. Ou pelo menos um final de semana em um spa onde ninguém fala "networking".
— Eu espero que o buffet desse casamento seja lendário, Willow. Porque eu estou sacrificando meu documentário sobre o Assassino do Zodíaco por isso.
O Atlas é o garçom oficial das situações constrangedoras, você vai ficar bem. Te vejo no casarão! Te amo! Tchau!
Éden desligou sem prometer nada, mas já caminhava em direção ao quarto. Ela se sentia como um soldado sendo convocado para uma guerra que não era sua. No fundo do armário, ela puxou um cabide de madeira onde um vestido de seda — de um tom que ela costumava chamar de “bege melancólico”, mas que alguns Mitchell chamariam de Nude Champagne — descansava esquecido. Após um banho, ela o vestiu.
O tecido caía pelo seu corpo como se tivesse sido feito para uma ocasião muito mais simples do que servir de babá de um herdeiro rebelde, mas honestamente, se ela ia servir de decoração para suas fotos, ele teria que aceitar a simplicidade dela como bônus.
Às 19:35, o interfone tocou. Um sedan preto impecável, com vidros tão escuros que pareciam absorver a luz da rua, aguardava na porta. Éden desceu as escadas devagar, sentindo o desconforto dos saltos altos, ajeitando a alça do vestido que insistia em escorregar por seu ombro.
O motorista já estava fora do carro. Ele usava um smoking escuro, bem cortado, mas sem a gravata borboleta formal que ela esperava. Ele tinha o cabelo levemente bagunçado, o que era estranho para um funcionário dos Mitchell, e óculos de sol, apesar de o sol já ter se posto. Ele abriu a porta traseira com uma reverência exageradamente formal, quase debochada.
— Boa noite. Senhorita Breeland? — a voz dele era grave, com um rastro de diversão que ela não conseguiu identificar.
— A própria. Podemos ir? Quanto mais cedo isso começar, mais cedo eu volto para o meu pijama — ela disse irritada, entrando no banco de trás e soltando um suspiro pesado.
O homem fechou a porta, deu a volta e assumiu o volante. Assim que o carro ganhou a avenida, Éden não conseguiu segurar a língua. A tensão de ter sido arrancada do seu isolamento precisava de uma válvula de escape.
— Você trabalha para eles há muito tempo? — ela perguntou, olhando para a nuca bem marcada do motorista pelo retrovisor.
— Algum tempo. O suficiente para conhecer os hábitos da fauna local — ele respondeu, mantendo os olhos na estrada, mas sua voz tinha um tom de divertimento.
— Então você sabe o nível de absurdo disso aqui. Eu estou sendo literalmente convocada para ser o "apoio de braço" do Atlas Mitchell. Você o conhece? Willow diz que ele é um "desastre diplomático". Eu imagino que seja o típico cara que cresceu com tudo na mão e agora acha que ser ranzinza é uma personalidade.
O motorista pigarrou, ajustando o retrovisor.
— Ouvi dizer que ele pode ser um pouco... difícil.
— Um pouco difícil? É patético, se você parar para pensar — Éden continuou, cruzando as pernas e gesticulando com uma das mãos. — Uma noiva que entra em colapso por causa da simetria de uma mesa? Uma família que precisa de uma estranha para que o próprio filho não se comporte como um adolescente revoltado? Eu sinto pena desse Atlas, de verdade. Deve ser exaustivo viver em um teatro onde até o seu encontro de Ano Novo é roteirizado para não ofender a paleta de cores da decoração.
— Você acha que ele está seguindo o roteiro também? — o homem perguntou, entrando em uma rua arborizada que levava à mansão dos Mitchell.
— Ah, com certeza. — Afirmou, convicta. — Ele provavelmente está lá agora, bebendo algo caro, odiando a gravata e esperando a "garota da Willow" chegar para que ele possa ignorá-la a noite toda. Mas tudo bem, eu também não estou aqui para fazer amizade. Eu só preciso que as fotos fiquem boas e que a comida seja de verdade. Se ele for um completo idiota, eu passo a noite conversando com as samambaias. Elas costumam ter mais conteúdo que esses herdeiros.
O motorista soltou uma risada curta, seca.
— As samambaias dos Mitchell são bem nutridas. É uma escolha sólida.
— Não me leve a mal, eu sei que você trabalha para eles. Mas me diga, como alguém aguenta essa gente? É tudo tão calculado. Eu aposto dez dólares que o Atlas tem aquele sotaque arrastado de quem nunca teve que pedir um desconto na vida e vai me perguntar em que área meu pai investe nos primeiros cinco minutos.
O carro parou suavemente em frente à imponente escadaria de acesso a mansão. Luzes de fada decoravam as árvores e os arbustos do jardim da frente, e o som sofisticado de uma orquestra de câmara flutuava pelo ar. O motorista desligou o motor, mas não saiu imediatamente para abrir a porta dela. Ele se virou no banco, retirando os óculos de sol. Seus olhos eram cor de avelã, astutos, e brilhavam com uma ironia cortante.
— Bem, senhorita Breeland... — ele começou, estendendo a mão forte para trás, para destravar a porta daquela forma de propósito. — Eu tenho três notícias para você. A primeira é que o sotaque dele não é tão arrastado assim. A segunda é que o pai dele investe em tecnologia de segurança, o que é um tédio absoluto para conversar no jantar.
Éden sentiu um frio súbito na espinha. Ela olhou para o rosto dele, agora iluminado pelas luzes da entrada. Ele era jovem demais para ser o motorista da família, e o paletó do smoking, de perto, parecia custar mais do que o aluguel do seu apartamento por um ano.
— E a terceira? — ela perguntou, a voz subitamente pequena, murcha.
Ele deu um sorriso de lado, um que não tinha nada de robótico ou ensaiado. Era o sorriso de quem estava se divertindo mais do que deveria.
— A terceira é que eu detesto samambaias. Elas são péssimas ouvintes. E acho que acabei de perder dez dólares, porque eu realmente não dou a mínima para o que o seu pai faz da vida.
Éden ficou paralisada, com a mão na maçaneta da porta. O silêncio no carro tornou-se denso, preenchido apenas pelo tique-tique do motor esfriando. Ela o encarou, sentindo o sangue subir pelo pescoço, mas, em vez de pedir desculpas ou desmoronar de vergonha, ela soltou um suspiro longo e deixou um sorriso involuntário escapar.
— Pelo menos a parte do "desastre diplomático" era verdade.
Atlas soltou uma gargalhada genuína, máscula, saindo do carro para finalmente abrir a porta para ela.
— Senhorita Breeland, temos um teatro para encenar e, pelo que percebi, você também é péssima em seguir o roteiro. Isso vai ser bem mais divertido do que eu imaginei.



Éden sentiu o peso do olhar de Atlas enquanto ele segurava a porta do carro. Não era um olhar de julgamento — o que seria justo, considerando que ela passou os últimos vinte minutos chamando-o de "patético" e "adolescente revoltado" —, mas sim de uma curiosidade verídica, quase magnética.
— Então... — ela começou, saindo do carro e sentindo a brisa quente da noite de Réveillon agitar a seda do vestido. — O "garçom oficial de situações constrangedoras", hein? Willow tem um dom para definições precisas.
Atlas riu novamente, um som baixo que pareceu vibrar no peito dele antes de chegar aos ouvidos dela. Ele não deu a volta para entregar as chaves a ninguém; simplesmente as guardou no bolso do paletó de corte impecável.
Ele sabia que Willow dizia coisas terríveis sobre si, mas não se importava, visto que eram bem amigos e ela adorava apelidá-lo com a ajuda do primo.
— Ela esqueceu de mencionar que eu também sou o bode expiatório oficial para qualquer coisa que saia do tom nesta família — ele estendeu o braço, oferecendo o anteparo que ela tanto criticou. — Preparada para o covil? Se você sobreviver à minha mãe nos primeiros cinco minutos, eu te garanto acesso ilimitado à cozinha da mansão. É lá que a magia acontece.
Éden hesitou por meio segundo antes de enganchar o braço no dele. O tecido do smoking dele era frio e macio, um contraste com a pele quente do braço dela.
— Por favor, me diga que a gente não precisa de uma história de como nos conhecemos. Eu sou péssima mentirosa quando tem muita gente olhando para mim.
— Oh, nós temos uma história — Atlas disse, enquanto subiam os degraus de mármore. — Você é uma jornalista, o que não é mentira. Nos conhecemos em uma conferência em Zurique. Você me salvou de um tédio mortal e eu te convenci que o fondue era superestimado. Discreto, intelectual e impossível de verificar no Google em uma noite de festa.
— Zurique? — ela sussurrou, enquanto passavam pelos enormes batentes de carvalho da entrada. — Eu nem tenho passaporte em dia, Atlas.
— Agora você tem. Bem-vinda à Suíça, Éden Breeland.
O salão de festas dos Mitchell era o tipo de lugar que fazia o minimalismo parecer uma ofensa pessoal. Havia tanto cristal, ouro e flores pálidas que Éden sentiu que precisava de óculos escuros. O cheiro de lírios e perfumes caros era quase sufocante. No centro de tudo, uma mulher que parecia ter sido esculpida em gesso e revestida de seda-pérola flutuava em direção a eles.
Era a matriarca, Sra. Mitchell.
— Atlas — a voz dela era uma nota única, perfeitamente afinada e sem calor. — Você está atrasado. E Julian já está perguntando por você para as fotos do brinde.
Ela virou o rosto milimetricamente para Éden, os olhos castanhos esquadrinhando o vestido "bege melancólico" com a precisão de um scanner de segurança de aeroporto.
— E esta deve ser a substituta... amiga de Willow.
— Éden — Atlas apresentou, a voz subitamente mais firme, perdendo o tom brincalhão de segundos atrás. — E ela não é apenas a 'amiga da Willow'. Éden é a razão pela qual eu não vou passar a noite discutindo a bolsa de valores com o tio Arthur.
A Sra. Mitchell soltou um som que poderia ser um suspiro ou um julgamento final.
— O tom do seu vestido está ligeiramente fora da paleta imposta, querida — ela falou para Éden, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Mas suponho que, sob as luzes da pista, ninguém notará a... dissonância. Atlas, leve-a para a mesa quatro. E, por favor, tente manter a gravata no lugar.
Assim que a mulher se afastou, Éden soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
— "Dissonância"? — ela sibilou para Atlas. — Ela acabou de me chamar de erro de coloração?
— Isso foi o equivalente a um "seja bem-vinda" — Atlas murmurou, inclinando-se para o ouvido dela. O hálito dele tinha um toque de hortelã e algo amadeirado. — Da última vez que trouxe alguém, há uns seis anos, ela perguntou se o vestido era um empréstimo de caridade. Você está ganhando, acredite.
Eles se esquivaram de um grupo de homens de meia-idade que falavam alto sobre iates e Rolex; chegaram à mesa quatro. Willow estava com o namorado na mesa dois, parecendo uma visão em tule pêssego, os olhos arregalados ao ver os dois chegando em sintonia.
— Vocês... — Willow começou, mas Atlas a cortou com um olhar.
— Willow, sua amiga é fascinante. Ela acha que eu tenho um sotaque arrastado e que meu pai investe em coisas patéticas. O que, para ser justo, é a coisa mais honesta que ouvi nesta casa desde 2012.
Éden sentiu o rosto esquentar novamente, mas a adrenalina da festa estava começando a fazer efeito. Atlas puxou a cadeira para que ela sentasse e ocupou a cadeira ao lado dela, ignorando completamente um dos primos que tentava chamar sua atenção.
A mesa quatro era onde os Mitchell colocavam as pessoas que não queriam que aparecessem no fundo dos vídeos oficiais. Havia um primo que não parava de limpar o suor da testa com o guardanapo e uma mulher que estava tentando, sem sucesso, comer uma lagosta com um garfo de sobremesa.
Éden o encarou com um pouco de dó.
— Por que ele está olhando para a lagosta como se ela fosse um enigma da Esfinge?
— O primo Richard tem fobia de crustáceos, mas a noiva disse que quem não comesse a entrada não ganharia o bem-casado de lembrança. Ele está lutando pela vida por causa de um doce.
Nesse momento, um garçom passou equilibrando uma bandeja de canapés que pareciam pequenas esculturas de vidro. Éden pegou um que parecia promissor.
— Não coma isso — Atlas avisou tarde demais.
Éden mordeu. Era uma explosão de algo que parecia terra molhada com perfume de flores.
— O que é isso?! — ela perguntou, tentando engolir sem fazer careta.
— Mousse de trufas negras com essência de orquídea — Atlas disse, entregando uma taça de champanhe para ela com urgência. — É a comida favorita da noiva. Ela acha que tem gosto de riqueza.
— Tem gosto de quando eu caí de cara num canteiro de flores aos oito anos — Éden bebeu metade da taça de uma vez. — Meu filho, se eu sobreviver a essa noite, eu quero uma medalha de honra.
— Eu te dou o que quiser, mas você tem que me ajudar em uma coisa — ele se inclinou para perto, e pela primeira vez o humor dele tinha um toque de "vamos tocar o terror". — Está vendo aquele homem de óculos retangulares perto do bolo?
— O que parece que nunca viu o sol na vida?
— Exato. É o advogado do meu pai. Ele tem os papéis de um contrato que eu me recuso a assinar. Se ele me vir sozinho, ele vai me encurralar no banheiro. Eu preciso que você finja que estamos tendo uma discussão acalorada sobre... sei lá... o destino das baleias na Islândia. Sempre que ele chegar perto, comece a falar histérica.
— Deixa comigo, eu sou ótima nisso.
Alguns momentos da noite seguiram nesse ritmo. Sempre que o advogado se aproximava, Éden começava a gesticular freneticamente sobre "os direitos dos mamíferos marinhos", enquanto Atlas fazia cara de quem estava prestes a chorar. O homem de óculos fugia como se eles fossem um casal radioativo.
— Você é assustadoramente boa nisso — Atlas comentou, enquanto eles se escondiam atrás de uma palmeira decorativa para rir.
— É o meu talento oculto — ela se gabou, sentindo a adrenalina da situação. — Eu também sei imitar o som de um golfinho sofrendo, se você precisar de reforço.
Ela deu uma palhinha de como seria, Atlas soltou uma gargalhada muito boa de ouvir.
Eles voltaram para a mesa dos excluídos, sempre comentando acidamente sobre a roupa ou os exageros de alguém. Da mesa dois, Willow esticava o pescoço sempre que podia para ver como a amiga estava se saindo, Atlas percebeu e fez apenas o sinal de “ok” para ela.
Ele encarou o perfil de Éden por um instante, um tanto animada conversando com a garota da lagosta e se inclinou na direção dela.
— Olha só — ele sussurrou, aproximando a cadeira da dela até que seus joelhos se tocassem sob a toalha de linho da mesa. — A terceira pessoa à esquerda na mesa da Willow. A de chapéu que parece um prato de satélite.
Éden olhou discretamente.
— O que tem ela?
— É a tia Beatrice. Ela esconde miniaturas de gim dentro daquela bolsa de grife. Em trinta minutos, ela vai começar a confundir os garçons com os antigos namorados dela da faculdade de artes. Se ela se levantar para dançar, saia de perto. Ela é faixa preta em derrubar pessoas com o quadril.
Éden abafou uma risada com o guardanapo.
— E aquele homem ali? O que parece que engoliu um cabide?
— Aquele é o consultor financeiro do meu irmão. Ele não ri desde o colapso imobiliário de 2008. Ele acredita que a alegria é um gasto desnecessário.
A conexão entre eles começou a se solidificar ali, em meio aos brindes vazios e conversas ensaiadas. Éden percebeu que Atlas não era o herdeiro mimado que ela imaginou, mas alguém que usava do sarcasmo como uma armadura para não ser esmagado pela expectativa alheia. E Atlas, por sua vez, parecia hipnotizado pela forma como Éden observava o mundo — sem o deslumbramento de quem quer pertencer àquela elite, mas com a acidez de quem vê as rachaduras nas porcelanas.

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O jantar estava progredindo para aquele estágio perigoso em que o espumante de oitocentos dólares a garrafa começava a fazer efeito nas pessoas que, normalmente, só bebiam suco de clorofila. A música da orquestra tinha subido três decibéis, e o primo Richard finalmente tinha desistido da lagosta, optando por engolir os pãezinhos de entrada.
— Olha a postura, Richard — Atlas sibilou, sem mover os lábios, enquanto cortava um pedaço de aspargo com a precisão de um cirurgião entediado. — Se a minha mãe vir você estocando carboidratos desse jeito, ela vai te mandar para um retiro espiritual em Vermont amanhã cedo.
— Eu estou com fome, Atlas! — Richard sussurrou de volta, os olhos esbugalhados. — Kimberly decidiu que "mastigar faz muito barulho nas filmagens", então tudo o que serviram até agora tem a consistência de nuvem. Eu sinto que meu estômago está digerindo a si mesmo.
Éden, que estava tentando equilibrar uma pequena escultura de purê de mandioquinha no garfo, olhou para os dois.
— Vocês Mitchell são fascinantes. É como assistir a um documentário do National Geographic sobre predadores que usam roupa. Richard, pega aqui — ela deslizou seu prato de pãezinhos intocados para ele por baixo da toalha de mesa, como se estivesse repassando contrabando na fronteira. — Eu compenso com o suco. É mais eficiente.
Atlas olhou para ela, um brilho de aprovação nos olhos. Ele inclinou-se novamente.
— Você disse que o seu plano para a virada era pijama e crimes reais, certo? — ele perguntou, brincando com a haste da taça de vinho. — Qual era o documentário?
— O Assassino do Zodíaco. — Ela coçou a ponta do nariz. — Eu estava na metade da teoria sobre as cartas criptografadas — falou orgulhosa, sentindo-se estranhamente à vontade para confessar seus hábitos nerds para ele.
Atlas assentiu, ponderando.
— Sabe o que é engraçado? — Ele olhou para a mesa principal, onde o irmão sorria para uma câmera. — Julian está se casando com uma mulher que ele conheceu em um aplicativo de matchmaking de elite. Eles têm 98% de compatibilidade em termos de ativos e visão de mundo. Mas eu duvido que ele saiba qual é o sabor de pizza favorito dela ou se ela prefere documentários de crime à comédias românticas.
Ele voltou os olhos cor de avelã para Éden. O brilho irônico tinha sumido por um momento, dando lugar a uma vulnerabilidade que a pegou desprevenida.
— Eu prefiro passar o réveillon discutindo criptografia com uma estranha que me odeia do que ter 98% de compatibilidade com um robô.
Éden sentiu um frio na barriga que não tinha nada a ver com o ar-condicionado.
— Eu não te odeio mais — ela admitiu, a voz suave. — Só acho que você precisa de óculos novos. Aqueles de motorista eram horríveis.
Atlas deu aquele sorriso de lado que já estava começando a se tornar perigoso para a sanidade de Éden.
— Eram do motorista de verdade. Eu tive que suborná-lo com alguns ingressos para o jogo de amanhã pra ele me deixar assumir o volante. Eu queria ver quem seria a pessoa corajosa o suficiente para aceitar o "resgate humanitário" da Willow.
— E então? — ela desafiou. — Qual é o veredito do "motorista"?
Atlas se aproximou um pouco mais. A música da orquestra tinha mudado para algo mais lento, um jazz que preenchia os espaços vazios entre as conversas.
— O veredito é que o equilíbrio visual da mesa quatro está perfeito. Mas a simetria... — ele olhou para os olhos azuis dela, e o tempo pareceu desacelerar enquanto a contagem regressiva para a meia-noite ainda estava a horas de distância. — A simetria é superestimada. Eu gosto muito mais do caos que você trouxe.
Antes que Éden pudesse responder, a Sra. Mitchell reapareceu, batendo levemente com uma colher de prata em uma taça de cristal.
— É hora das fotos da família Mitchell com seus pares. Atlas, por favor, tente não parecer que está em um interrogatório policial.
Atlas levantou-se, mas não soltou a mão de Éden. Ele a ajudou a levantar, seus dedos se entrelaçando com uma naturalidade que assustou a ambos.
— Sorria, Éden — ele sussurrou enquanto caminhavam para o centro das atenções. — Se as fotos ficarem boas, talvez minha mãe te perdoe pela "dissonância" do pêssego. E se ficarem ruins... bem, a gente sempre pode dizer que foi um erro de Zurique.
Éden sorriu. Mas desta vez, não foi para a câmera. Foi para o homem que, em menos de duas horas, tinha transformado o pior Réveillon de sua vida em algo que ela não queria que acabasse.



O fotógrafo não era apenas um fotógrafo. Ele era "Jean-Luc", um homem que usava uma boina de couro em pleno verão tropical e que parecia acreditar que a família Mitchell era o último bastião da monarquia europeia. Ele gesticulava com as mãos como se estivesse regendo uma ópera e falava com um sotaque que Éden tinha certeza de que era forçado — ninguém que nasceu em Paris diria "magnifique" tantas vezes em um minuto sem sofrer um derrame.
Non, non, non! — Jean-Luc gritou, apontando um dedo trêmulo para Atlas. — Monsieur Atlas, você está com olhar de quem está planejando um assassinato. Eu quero amour! Eu quero a promessa de um janeiro ensolarado! E você, mademoiselle... — ele olhou para Éden — ...tente não parecer que está calculando o preço dos meus equipamentos. S’il vous plaît!
Éden sentiu a mão grande de Atlas apertar um pouco mais sua cintura sob as luzes ofuscantes dos refletores.
— Se ele disser "magnifique" mais uma vez, eu vou dar a ele um motivo real para usar o seguro da câmera — Atlas sussurrou, o sorriso congelado na direção da lente.
— Pelo menos ele não comentou sobre a "dissonância" do meu vestido — Éden devolveu, entre dentes, mantendo a postura de quem não estava prestes a cair de um salto doze. — Sorria, Atlas. Pelo amor de Deus, pense que estamos em Zurique.
— Estou pensando na cara do meu irmão se eu puxar o tapete dele agora. Seria uma foto e tanto para o álbum.
Eles sobreviveram à sessão de fotos apenas porque a noiva, Kimberly, teve uma crise de ansiedade porque um dos lírios do arranjo central estava "olhando para o lado errado". Jean-Luc correu para fotografar o colapso dramático da noiva (o que ele chamou de "a vulnerabilidade da seda"), dando a Atlas e Éden a chance de fugir para o buffet.
Havia coisas em cima de colheres de prata que Éden não conseguia identificar.
— O que é isso? — ela perguntou, apontando para uma esfera verde-limão que parecia pulsar levemente.
— Isso era pra ser guacamole com coentro — Atlas explicou, pegando dois pratinhos. — Basicamente, custa cinquenta dólares e desaparece antes de chegar à sua língua. É como comer uma decepção temperada.
— Eu daria um dos meus rins por uma coxinha de posto de gasolina agora — Éden confessou, pegando a esfera verde e sentindo-a dissolver instantaneamente. — Nossa. Realmente. É como se eu tivesse acabado de lamber uma horta, mas sem a satisfação de ter mastigado nada.
— Bem-vinda ao mundo dos Mitchell.
Eles foram interrompidos pela Tia Beatrice. Ela cambaleava levemente, mas mantinha a bolsa de grife presa ao braço como se fosse um escudo. Seus olhos estavam fixos no paletó de Atlas.
— Atlas, querido! — ela exclamou, com a voz um pouco alta demais para o ambiente. — Quem é essa jovem encantadora? Ela tem um rosto de... de... — ela hesitou, procurando a palavra — ...de quem sabe onde estão as chaves do carro! Você viu o meu motorista? Ele desapareceu!
Atlas deu um passo à frente, protegendo Éden do hálito de gim de Beatrice.
— Tia, o motorista provavelmente está esperando o ano novo no estacionamento. Por que a senhora não senta um pouco? O consultor financeiro do Julian está ali, ele adoraria ouvir sobre suas ideias de investimento em arte contemporânea.
— Aquele homem? — Beatrice fez uma careta de desgosto. — Ele tem o carisma de um palmito. Eu quero dançar!
Ela deu uma pirueta desajeitada, seu quadril passando perigosamente perto de uma pirâmide de taças de champanhe. Éden e Atlas agiram de forma sincronizada, como se tivessem treinado para aquele desastre iminente: Éden segurou a base da mesa e Atlas estabilizou o braço da tia.
Magnifique! — Éden imitou o fotógrafo, fazendo Atlas explodir em uma risada curta.
— Você é muito rápida, Breeland — ele comentou, enquanto Beatrice se afastava em direção ao bar, possivelmente para reabastecer seu estoque de gim "medicinal".
— Anos de prática evitando que minha falecida gata derrubasse as coisas das prateleiras — ela respondeu, limpando a mão no guardanapo. — Mas, sério, como você sobreviveu a isso todos esses anos?
Atlas pegou duas taças de uma bandeja que passava e entregou uma a ela. Ele a conduziu até uma varanda lateral, longe do som da orquestra que agora tentava, sem sucesso, tocar um hit moderno em ritmo de valsa.
— Eu não sobrevivo. Eu apenas espero o relógio bater meia-noite para poder fugir para algum lugar que venda hambúrguer gorduroso. Mas este ano... — ele se encostou no parapeito de mármore, olhando para ela com uma intensidade que fez o barulho da festa desaparecer ao fundo — ...este ano está sendo diferente. Eu costumo passar a noite inteira cronometrando quanto tempo levo para ser insultado pela minha mãe ou ignorado pelo meu pai. Mas hoje, eu só consigo pensar na sorte que tive da acompanhante oficial ter tido uma intoxicação por camarão.
— Isso é terrivelmente cruel da sua parte — Éden falou, mas não conseguiu evitar o sorriso. — A pobre mulher está no hospital e você está aqui celebrando a falta de simetria da mesa.
— Eu sou um homem de prioridades, Éden. E, no momento, minha prioridade é descobrir se você dança tão bem quanto desvia de tias bêbadas.
— Eu não danço "bem" no sentido Mitchell da palavra. E certamente não faço nada que envolva mãos dadas e passos contados.
— Ótimo — Atlas estendeu a mão. — Porque a orquestra acabou de dar uma pausa e o DJ contratado pelo Julian está prestes a tocar "September" do Earth, Wind & Fire, porque meu irmão caçula acha que essa é a música mais "ousada" que um casamento pode ter. Vamos lá.
Eles voltaram para o salão bem no momento em que as luzes diminuíram e o ritmo disco começou a ecoar. A pista de dança estava cheia de pessoas de terno tentando parecer descontraídas, o que resultava em uma visão cômica de movimentos rígidos e ombros travados.
Atlas e Éden se infiltraram no meio da massa "pêssego e champagne".
— Observe — Atlas sussurrou enquanto começavam a se mexer. — O primo Richard está tentando fazer o "moonwalk" com sapato de verniz. Ele vai cair em três... dois... um...
Ricardo não caiu, mas deu um encontrão na Sra. Mitchell, que apenas o olhou com o desdém de quem observava um inseto rastejante.
— Ele sobreviveu — Éden riu, deixando-se levar pelo ritmo. Ela descobriu que Atlas tinha um balanço natural, nada ensaiado, algo que parecia vir de uma vida inteira tentando se desvencilhar da rigidez da família.
Eles dançaram por três músicas seguidas, rindo dos comentários ácidos de Atlas sobre os convidados e da forma como Éden imitava perfeitamente o jeito de andar da noiva. Por um momento, não havia casamento, não havia alta classe, não havia Willow vigiando-os do canto da sala com os polegares para cima. Havia apenas o calor do salão, o cheiro de suor e perfume caro, e o fato de que suas mãos se encontravam cada vez com mais frequência.
Quando a música desacelerou para um jazz suave, a atmosfera mudou. Atlas puxou-a para mais perto. A diferença de altura obrigava Éden a inclinar um pouco a cabeça para trás.
— Éden — ele chamou, a voz quase sumindo na melodia do saxofone. — O que acontece às 00:01?
Ela sentiu o coração falhar uma batida. O humor ácido tinha dado lugar a uma eletricidade palpável.
— Às 00:01, eu presumo que o nosso acordo expire — ela respondeu, tentando manter o tom leve, embora sua garganta estivesse seca. — E você volta a ser a ovelha negra e eu volto para os meus documentários.
— E se eu não quiser que expire? — ele perguntou, e sua mão subiu da cintura dela para a nuca, os dedos brincando com os fios soltos do seu penteado. — E se eu decidir que Janeiro precisa de um pouco mais de "dissonância"?
Éden olhou para ele, e por um segundo, ela esqueceu todas as piadas internas. Ela viu o homem que se sentia sozinho em salas cheias de gente, o homem que preferia ouvir verdades dolorosas do que mentiras douradas.
— Então — ela sussurrou próximo ao pescoço dele — você teria que me convencer de que sabe fazer um jantar melhor que o da Willow.
Atlas estava prestes a responder, seus rostos a centímetros de distância, quando um som estridente interrompeu o momento.
— ATENÇÃO, TODOS! — Era o noivo, Julian, no palco, segurando um microfone. — FALTAM DEZ MINUTOS PARA A CONTAGEM REGRESSIVA! PREPAREM SEUS CHAMPANHES!
A multidão rugiu. A bolha de privacidade deles estourou. Atlas suspirou, encostando a testa na dela por um breve segundo.
— Dez minutos, Breeland. Prepare-se. O ritual Mitchell da meia-noite envolve muitos fogos, muitos abraços falsos e... — ele fez uma pausa, voltando a sorrir — uma chance muito real de eu te beijar na frente de todos aqui.
Éden riu, sentindo um frio na barriga que era melhor do que qualquer canapé de luxo.
— Eu acho que dez dólares não cobrem o risco de vida que eu estou correndo aqui, Atlas.
— Considere como um bônus de Ano Novo.



Faltavam nove minutos. No mundo dos Mitchell, nove minutos era tempo suficiente para renegociar um contrato de fusão ou destruir a autoestima de um herdeiro. O salão, que antes parecia uma galeria de arte intocável, agora exalava aquele cheiro característico de festa que está prestes a transbordar: uma mistura de perfume evaporando, suor discreto sob algodão egípcio e o aroma ácido de trezentas taças de champanhe erguidas ao mesmo tempo.
— Se prepare — Atlas murmurou, inclinando-se para o ouvido de Éden enquanto um garçom passava equilibrando uma pirâmide precária de cristal. — Agora começa a fase do entusiasmo obrigatório. Minha mãe vai tentar nos posicionar como se fôssemos estátuas de um jardim.
Dito e feito. A Sra. Mitchell surgiu do meio da fumaça de gelo seco, segurando o braço de um Julian visivelmente exausto e de uma Kimberly que parecia ter esquecido como se pisca os olhos.
— Atlas! Éden! — A matriarca não usava nomes; ela usava comandos. — Para o lado direito do arco de flores. Agora. Jean-Luc precisa registrar o 'Círculo de Ouro' da família quando os fogos começarem. Éden, querida, tente esconder essa alça do vestido, ela está dando um ar despojado demais para o registro histórico.
Éden olhou para a alça de seda, depois para Atlas, e depois para a mulher que tratava o Ano Novo como uma coroação.
— Sra. Mitchell — Éden proferiu, e Atlas sentiu o perigo na voz dela, um tom que ele estava começando a adorar — minha alça e eu decidimos que o arco de flores é um pouco bucólico demais para o nosso perfil. Acho que vamos assistir aos fogos de um ângulo mais realista.
Houve um silêncio microscópico. Julian arregalou os olhos. Kimberly finalmente piscou.
— Realista? — A Sra. Mitchell repetiu, como se a palavra fosse um palavrão em outra língua.
— É, mãe — Atlas interveio, passando o braço pelos ombros de Éden com uma insolência que faria o consultor financeiro ter um infarto. — Éden tem uma teoria sobre simetria: ela atrai raios. E eu não quero ser atingido por um raio de smoking. Vamos para a varanda dos fundos. Divirtam-se na moldura.
Antes que a mãe pudesse formular uma sentença que envolvesse "deserção" ou "desonra", Atlas puxou Éden pelo corredor de serviço. Eles passaram pela cozinha, onde uma equipe de vinte pessoas gritava ordens sobre camarões empanados e suflês que não podiam murchar. O contraste era absoluto: do lado de fora, o luxo desconcertante; ali dentro, o caos humano, o calor dos fogões e o cheiro de comida de verdade.
— Você acabou de dizer não para a foto do 'Círculo de Ouro'? — Éden perguntou, rindo enquanto eles saíam por uma porta lateral que dava para um jardim de ervas arborizado, longe dos convidados.
— Eu disse não para a vida em preto e branco — Atlas respondeu, parando perto de um canteiro de alecrim que cheirava a chuva e tempero. — Além disso, eu precisava de um lugar onde pudesse te perguntar uma coisa sem ninguém me atrapalhar.
Faltavam quatro minutos. O som abafado da contagem regressiva começou a ecoar de dentro da mansão. "Dez! Nove!..." Não, ainda não era a oficial, eram apenas os convidados bêbados testando os pulmões.
Atlas encostou Éden contra a parede de pedra da mansão. O ar ali fora era mais denso, carregado com a umidade da madrugada.
— Breeland, eu passei a noite inteira fingindo que você era minha acompanhante apenas para salvar as fotos — ele começou, a voz perdendo todo o sarcasmo e assumindo uma gravidade que fez o estômago dela dar um nó. — Mas o problema é que eu sou um péssimo ator. Eu não estava rindo das suas piadas porque era o 'combinado'. Eu estava rindo porque, pela primeira vez em trinta anos, eu não me senti um estranho dentro da minha própria casa.
Éden olhou para ele, observando como o nó da gravata dele estava finalmente frouxo e como o cabelo continuava perfeitamente penteado. E mesmo assim, ele parecia tão autêntico.
— Mitchell, a gente se conhece há menos de cinco horas — ela ponderou, embora sua mão estivesse subindo para o peito dele, sentindo a batida acelerada do seu coração através do tecido da camisa. — Daqui alguns minutos será janeiro. As pessoas acordam de ressaca em janeiro e percebem que o que aconteceu na virada foi só o efeito das luzes de fada.
— Eu não bebi tanto assim — ele retrucou, aproximando o rosto do dela. — E eu detesto luzes de fada. Prefiro a luz da geladeira às três da manhã. O que eu estou tentando dizer, de um jeito muito pouco Mitchell e muito 'desastre diplomático', é que eu não quero que você seja uma anedota de Réveillon. Eu quero saber se o seu humor é realmente horrível pela manhã e se você vai me deixar assistir a esses documentários de crime sem tentar adivinhar quem é o assassino nos primeiros dez minutos.
Éden sentiu um sorriso se formar, mas era um sorriso maduro, sem a ironia defensiva de antes.
— Eu sempre adivinho quem é o assassino, Atlas. É um dom. Você vai odiar.
— Eu conto com isso.
"SESSENTA SEGUNDOS!" — O grito veio de dentro, uníssono, um rugido de centenas de pessoas que acreditavam que o tempo ia mudar magicamente em um minuto.
— Éden — Atlas sussurrou, a mão dele agora segurando o rosto dela com uma delicadeza que contrastava com a força da sua personalidade. — Dez dólares.
— O quê?
— Eu aposto dez dólares que, quando os fogos começarem, você não vai estar pensando na simetria da foto.
— Você é muito convencido, Mitchell.
— É o meu único charme.
"DEZ! NOVE! OITO!..."
O mundo parecia estar prendendo a respiração. Éden olhou para Atlas e viu, atrás dele, o brilho das luzes da cidade. Ela percebeu que não queria estar em casa. Não queria o silêncio. Queria aquele caos específico que ele trouxe — o caos de alguém que a via de verdade, mesmo através de um vestido champagne que ela nem queria usar.
"TRÊS! DOIS! UM!"
O céu explodiu. Não foi um barulho apenas auditivo; foi uma vibração que sacudiu o chão sob seus pés. Luzes verdes, douradas e vermelhas pintaram o rosto de Atlas, transformando-o em um mosaico de cores vibrantes. Mas ele não olhou para o céu. Ele continuou olhando para ela.
Quando ele a beijou, não teve nada de cinematográfico ou coreografado por Jean-Luc. Teve gosto de champanhe, de alecrim do jardim e de uma promessa real que não precisava de acordo. Foi um beijo que cheirava a amizade transformada em cumplicidade, uma conexão que ignorava o fato de que eles eram estranhos até o pôr do sol.
Eles se separaram enquanto os fogos ainda estouravam, criando nuvens de fumaça colorida acima da mansão.
— Feliz Janeiro, Éden Breeland — ele a desejou, com a respiração curta.
Éden sorriu, ajeitando a alça do vestido que a Sra. Mitchell tanto odiou.
— Feliz Janeiro, Atlas. Mas só para constar... — ela o puxou pelo colarinho para outro beijo rápido — ...você ainda me deve os dez dólares. Eu estava pensando na simetria.
Ele riu, uma gargalhada solta que ecoou pelo jardim vazio, enquanto, lá dentro, a orquestra começava a tocar a primeira música do ano novo.
— Sabe o que é o melhor de tudo? — Atlas perguntou, entrelaçando os dedos nos dela e começando a caminhar de volta, mas não para o salão, e sim para o portão da frente.
— O quê?
— Amanhã não tem casamento. Não tem paleta de cores. E eu conheço um lugar que serve o melhor hambúrguer da cidade às duas da manhã. Vamos?
Éden olhou para os sapatos de salto, depois para o homem ao seu lado. Ela chutou os sapatos para longe, deixando-os no gramado impecável dos Mitchell.
— Vamos. Mas se tiver picles, eu quero os seus.
Atlas sorriu, puxando-a para a liberdade do asfalto quente. A noite estava apenas começando, e o acordo de uma noite acabava de ser renovado por tempo indeterminado.



O "Gigante da Madrugada" era a antítese absoluta da mansão Mitchell. Se a recepção do casamento cheirava a lírios e perfumes caros, aquele lugar cheirava a cebola caramelizada, óleo de fritura e ao aroma reconfortante de pão na chapa. As luzes de néon azul piscavam com um zumbido elétrico que parecia ditar o ritmo cardíaco de quem ainda estava acordado à uma e meia da manhã.
Éden entrou descalça, sentindo a frieza do chão de granilite gasto contra as solas dos pés. Atlas vinha logo atrás, com o paletó de 32 mil dólares pendurado no ombro como se fosse um trapo qualquer e a camisa branca aberta até o meio do peito.
— Se a sua mãe nos visse agora, ela teria uma combustão espontânea — Éden comentou, subindo num banco de metal estofado com vinil rachado que soltou um chiado de ar protestando contra o peso dela.
— A minha mãe acredita que hambúrgueres são uma invenção das classes baixas para desestabilizar a sociedade — Atlas sentou-se ao lado dela, ignorando o cardápio grudento que repousava sobre o balcão. — Eu venho aqui desde os dezasseis anos. É o único lugar da cidade onde ninguém me pergunta sobre o índice Nasdaq.
Um homem baixo, com um avental que já tinha visto dias melhores e um boné de equipe de basebol desbotado, aproximou-se com um pano de prato no ombro.
— O de sempre, Mitchell? — perguntou o homem, sem olhar para cima, enquanto anotava algo num bloco de papel gorduroso.
— Dois "Monstros da Noite", George. E capricha no picles no dela. Se vier pouco, ela ameaça chamar a polícia.
Éden arqueou uma sobrancelha.
— "O de sempre"? Você realmente é um cliente habitual de um lugar chamado 'Gigante da Madrugada'? Onde está o herdeiro que só bebe vinho de colheita selecionada?
— O herdeiro ficou no gramado, junto com os seus sapatos de salto — Atlas deu um sorriso cansado, mas genuíno. — O Mitchell que sobra de madrugada é o que precisa de sódio e gordura para processar o fato de que sobreviveu a mais um evento social sem agredir ninguém.
— Aliás… Por que sua família, principalmente sua mãe, te tratam como se você fosse um estranho? — A pergunta escapou de repente, embora ela quisesse ter feito muito antes. — Isso é, se você se sentir à vontade para falar.
— Você está perguntando como a Éden Jornalista ou como a Éden minha acompanhante?
— Estou perguntando como a Éden de Janeiro.
Atlas deslizou os dedos pela barba rala do maxilar, logo depois umedeceu os lábios.
— Minha família basicamente me detesta por eu ter minha própria empresa, totalmente desvinculada deles. Cresci ouvindo que o filho promissor seria Julian, então mostrei pra eles que sei me virar sozinho. Mas, o resto da história fica para mais tarde. — Ele piscou, ela sorriu, engolindo a curiosidade.
Quando os hambúrgueres chegaram, não teve espaço para elegância. Eram construções massivas de carne suculenta, queijo derretido que parecia lava amarela e um molho especial que desafiava as leis da física ao tentar permanecer dentro do pão.
Éden deu a primeira mordida, fechando os olhos enquanto o sabor explodia em sua língua. Uma gota de molho escorreu pelo canto da sua boca e caiu diretamente sobre o decote do vestido de seda bege melancólico.
— Droga — ela murmurou, rindo, enquanto tentava limpar a mancha com um guardanapo de papel que tinha a consistência de lixa. — Lá se vai a "dissonância". Este vestido agora é oficialmente um desastre de moda.
— Ficou melhor assim — Atlas observou, mastigando um pedaço de bacon crocante. — Dá um ar de legitimidade. Nada diz "eu me diverti no Ano Novo" como uma mancha de molho de hambúrguer num vestido de seda.
— Sabe de uma coisa? — Éden falou, gesticulando com uma batata frita. — Se eu estivesse em casa, estaria comendo um cereal amanhecido e me sentindo terrivelmente inteligente por ter evitado a festa. Mas aqui, com os pés sujos e cheirando a fritura, eu me sinto bem. É um tipo de caos muito mais honesto do que o da Kimberly.
— Esse tipo de caos é sempre mais honesto — Atlas concordou. Ele deixou o hambúrguer de lado por um momento e olhou para ela. A luz fria do néon destacava as olheiras leves sob os olhos dele, mas também a vivacidade que não existia quando ele estava de gravata. — Éden, sobre Janeiro...
— Se você disser que vamos "tentar", eu jogo este picles na sua cara — ela avisou, com o tom sarcástico de volta. — Janeiro é um mês longo. Tem contas para pagar, tem trabalho, tem o fato de que eu ainda não sei se você ronca ou se você é do tipo que acorda animadinho demais às sete da manhã.
Atlas soltou uma gargalhada que fez George olhar para eles com uma leve desconfiança.
— Eu não acordo animadinho às sete da manhã nem se a casa estiver pegando fogo, quer dizer, depende do fogo. E eu não ronco, mas tenho o hábito de falar sobre segurança cibernética durante o sono quando estou estressado. É um tédio absoluto, eu avisei.
— Bom saber. Eu falo sobre evidências forenses e crimes não resolvidos. Acho que vamos formar um podcast de nicho muito estranho.
Eles terminaram de comer em um silêncio confortável, aquele silêncio que só existe entre pessoas que já passaram da fase de tentar impressionar um ao outro. Atlas pagou a conta com uma nota de 50 dólares meio amassada que ele encontrou no bolso secreto do paletó — "o meu fundo de emergência para cheeseburgers", ele explicou.
Ao saírem do diner, o céu começava a mudar de um preto sólido para um azul marinho profundo, o primeiro sinal de que o sol de 1º de Janeiro estava a caminho. A rua estava deserta, exceto por alguns restos de confete que sopravam na calçada.
— Para onde agora, motorista? — Éden perguntou, parando na frente do sedã preto que ainda cheirava ao perfume que ela usava horas antes.
Atlas abriu a porta para ela, mas desta vez não houve reverência debochada. Ele apenas segurou a porta, esperando que ela entrasse.
— Primeiro, eu te levo para casa. Depois, eu vou para o meu apartamento, durmo por doze horas e, quando eu acordar, vou te mandar uma mensagem perguntando se o Assassino do Zodíaco já foi capturado ou se você precisa da minha ajuda para descriptografar as cartas dele, e essa vai ser minha deixa.
Éden entrou no carro e olhou para Atlas enquanto ele assumia o volante.
— Ele nunca foi capturado, Atlas. É um mistério insolúvel.
Atlas ligou o motor e olhou para ela com aquele brilho irônico que ela agora reconhecia como o seu estado natural.
— Insolúvel? — ele repetiu, engatando a marcha. — Você dizia a mesma coisa sobre sobreviver ao casamento do meu irmão sem querer pular da varanda. E veja só onde estamos.
Ele tirou o carro da guia e acelerou pela avenida vazia. O sol começou a despontar no horizonte, refletindo-se no vidro do carro.
Éden encostou a cabeça no banco, sentindo o peso do sono e o gosto persistente do hambúrguer, com um sorriso que não precisava de nenhuma simetria para ser perfeito. Janeiro tinha acabado de começar, e pela primeira vez, ela não estava preocupada com a fatura. A conexão que nasceu no Réveillon não tinha morrido com os fogos; ela tinha apenas trocado o champagne pela gordura honesta de uma madrugada que prometia não ser a última.


FIM


Nota da autora: Sem nota.

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