Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 27/12/2025Bortoleto escolhia o boné que iria usar, mesmo o frio lá fora sendo grande, ele não deixaria de lado a edição especial, colocou um casaco grosso da Sauber e desceu de encontro com Nico Hülkenberg.
— E aí — Gabi cumprimentou o parceiro.
— Você nem conseguiu descansar ainda.
Eles riram.
— Não tenho culpa se sou muito popular. Vai ser rápido, logo você volta pra sua casa.
— Ah, claro, irei acreditar.
Pararam ao chegar até a assessora da Sauber, que fez o sinal para o assistente conectar o microfone neles, enquanto passava a dinâmica para os pilotos.
— Então é isso, é bem descontraído. Eles querem mais falar com vocês por conta da temporada e também por saber que a Audi está no comando.
— Tranquilo isso, tiramos de letra — Nico respondeu. — Obrigado, Penny.
A porta se abriu. Todos estavam sentados em um meio círculo, câmeras dispostas atrás de cada repórter, e eles se sentaram na frente deles. Uma coberta tentava — miseravelmente — proteger todos do frio.
— Podem começar em… — Penny olhou para o relógio. — Três, dois, um.
— Nico, Gabriel, sejam bem-vindos. — O repórter esportivo começou a coletiva.
— Obrigado.
— Que temporada! Conte para nós, qual foi o momento mais marcante?
— Meu P3! — respondeu disparado.
Nico sentia o maior orgulho de dizer que aquele momento dentro da temporada era o mais marcante para si.
— Esse momento foi único, até mesmo ouvir o Gabi me parabenizando pelo rádio foi uma sensação incrível. — Deu uma batidinha de leve no ombro do amigo.
— Para você, Gabi?
— O mais perto que cheguei foi na Hungria. — Tirou algumas risadas. — Mas claro…
Foi interrompido, ele olhou por cima de seus ombros e viu um cameraman se aproximar. No espaço vago, ele ajeitou o equipamento, logo em seguida tirando o gorro e ajeitando o cachecol, a entrevistadora entrou. Gabriel deixou um sorriso perceptível escapar pelo canto da boca.
— Desculpem, desculpem atrapalhar e o atraso. Tivemos uma complicação com o nosso carro.
— Para de se desculpar, , acabamos de começar. — Penny a tranquilizou. — Se acomode, não tem com o que se preocupar.
sentou-se na cadeira que estava à sua espera, ficando à frente do cameraman.
— Não se preocupe com isso — Gabriel falou, olhando diretamente para ela. — Vou repetir a pergunta de Joseph para você. “Qual foi o momento mais marcante para nós nessa temporada?” Nico disse que foi o P3 dele.
— E digamos que foi um podium e tanto — Nico comentou para ter algo a mais.
— E, como eu estava dizendo, minha chegada mais perto do pódio foi na Hungria, nada se compara a Nico. — Tirou uma risadinha sincera do companheiro. — Mas preciso ser sincero que em Interlagos tudo mudou. — Olhava para frente, mantendo seus olhos fixos naquele olhar que se entristeceu quando o episódio foi recordado. — Para muitos brasileiros, e eu digo isso com todas as minhas certezas. — puxou a atenção para si. — O que mais pedia no momento era que você saísse do carro, todos queriam ver você.
— São momentos que ainda assombram — Nico comentou.
— Acho que, em partes, todo fã de Fórmula um ainda tem.
— Foi nesse dia que eu e a Sauber descobrimos como nosso Rookie é muito amado — Hülkenberg expressou. — Sauber já tinha apoio, mas agora.
— Agora só ladeira abaixo? — Gabi riu.
— Se alguém ou algo encosta em você, já sei que terá mil pessoas te defendendo.
— Se vocês pudessem descrever a temporada com uma música, qual seria? — perguntou outro repórter.
— Hm… — Gabriel respondeu, brincando. — Meet Me Halfway, do The Black Eyed Peas. Energia, adrenalina… — Ele lançou um olhar rápido para .
— E se a música pudesse resumir não a corrida, mas o que você sentiu quando percebeu que tinha fãs torcendo por você em Interlagos? — puxou, calma e segura, mas o tom tinha algo mais, algo só para eles.
Ele engoliu em seco e um sorriso travesso surgiu.
— Talvez… My Eyes, do Travis Scott. Porque, no final, você sente que certas pessoas… fazem tudo valer a pena. — E, nesse instante, só entendeu o significado por trás do olhar.
— E você, Nico? — virou-se para o amigo, mas Gabriel não desviou o olhar, mantendo aquele brilho nos olhos, carregado de memórias que amava recordar.
O restante da coletiva seguiu com perguntas de outros repórteres sobre técnica, treinos e planos futuros, mas, para Gabriel e , aquele instante tinha seu próprio tempo, suas próprias palavras e seus próprios olhares.
— Nico, olhando para a temporada: houve algum treino ou corrida em que você sentiu que tudo “clicou”, e que mudou sua confiança para o restante do ano?
— Sim. Acho que foi em Silverstone. A gente mudou a configuração do carro na classificação, e pela primeira vez senti o carro “me respondendo” nas curvas de alta. A confiança mudou totalmente a partir dali.
— Gabriel, dentre os circuitos desta temporada, qual foi aquele que você achou mais desafiador tecnicamente, e como lidou com isso?
— Mônaco sempre exige muito, curvas apertadas, precisão, nervos à flor da pele. Tive que focar em cada detalhe. Mas, no fim, mesmo sem vitória, mais uma vez aprendi muito sobre o carro e sobre mim mesmo.
— Fora o desempenho na pista, para você, qual cidade ou GP te marcou pessoalmente este ano, e por quê?
— Diria Interlagos. É Brasil, torcida apaixonada, aceleração de verdade, e senti o carinho dos fãs de um jeito diferente. Me fez lembrar por que estou na F1.
Claro que muitas perguntas surgiram, algumas respondidas com alfinetadas amigáveis entre eles, aquela amizade que se via tanto em outras entrevistas, quanto em vídeos gravados pela Sauber, os dois passaram a ser grandes cúmplices e amigos.
— Meninos, a Audi vai assumir oficialmente o time em 2026, com todo o investimento estrutural, novo motor, novo carro… Se pudessem antecipar algo para a gente: o que vocês podem prometer aos fãs da Sauber, ou melhor, da futura Audi? Vai ter alguma “surpresinha” ou mudança significativa que o público deve ficar de olho?
— Olha, eu diria que o que dá pra prometer de verdade é comprometimento total. A Audi não entrou pra brincar. Eles mostraram em 2025 que estão levando o projeto a sério.
— Para os fãs: esperem agressividade, empenho e a vontade de construir algo grande desde o primeiro dia. — Olhou para Nico, e depois completou. — E, claro, muita transparência. Não há por que prometer vitória imediata…, mas sim evolução, trabalho duro e respeito.
— Exato. É uma transição enorme, motor novo, estrutura nova, regulamento novo, e a Audi está investindo pesado nisso.
— Então, para os fãs, o que posso prometer é que vamos dar o máximo. Que cada curva, cada classificação e cada corrida sejam com o coração, e que a gente lute para representar a equipe com dignidade e podiums!
puxou a última pergunta, aquela que pode se falar de circuitos e países como toda boa pergunta deve ser.
— Meninos, se pudessem reviver apenas um circuito desta temporada, qual escolheriam e por quê?
Gabriel sorriu, desviando rapidamente o olhar para ela, com aquele brilho nos olhos que só conseguiria ler.
— Acho que… Mônaco — respondeu, pausando, cada palavra carregada de significado. — Por muitas razões…
Nico riu, sem perceber nada, e comentou:
— Eu acho que qualquer circuito com vitória e bom resultado é ótimo, mas concordo que Mônaco tem um charme único.
apenas sorriu, entendendo perfeitamente o recado de Gabriel, enquanto o resto da coletiva seguia normalmente.
Aquela resposta ficou no ar por instantes. respirou fundo e olhou para o caderno de anotações. Era eletrizante se recordar de tudo que eles passaram, principalmente em Mônaco.
Penny havia anunciado que o tempo tinha terminado, e a coletiva se encaminhou para o fim. Eles conversavam se despedindo de cada dupla da emissora, mas ninguém parecia querer sair dali — menos ainda e Gabriel. A conversa tinha fluído leve, divertida, daquelas que parecem flertar mesmo quando todo mundo finge que não vê.
Fotos, flashes, mais perguntas, mais risadas.
E então, quando chegou a vez de , o mundo pareceu ficar um pouco mais lento, e eles se aproximaram para as fotos. Foram apenas duas fotos que tiraram juntos, mas tinha a certeza de que, se deixasse, ia mais além que isso. Quando chegou o momento deles se despedirem, Gabi a abraçou apertando quase desesperado, sabendo que não a veria mais, nem mesmo na temporada de 2026 durante as entrevistas.
Gabriel ficou parado na porta, observando se afastar enquanto colocava o gorro de volta, ajeitando o cabelo com aquele gesto automático que ele conhecia desde a Áustria.
— É… Mônaco te deixou bobo, hein? — Nico provocou, rindo do lado.
Gabriel cruzou os braços, sem desviar o olhar dela sumindo pela porta.
— É um lugar bom. Vai dizer que não? — rebateu.
Nico ergueu as mãos, rendido.
— Pode tirar suas próprias conclusões. Agora vai, vai descansar. Você veio pra cá pra curtir e nem teve tempo de respirar.
Passaram a andar em direção ao elevador.
— Estava pensando em pegar um iate de novo — comentou Gabi, entrando no elevador. — Será que me deixam zarpar um pouco?
— Nunca tentei, mas entendo perfeitamente que você quer ficar longe dos holofotes.
— Eu ainda sou um Rookie.
— Gabi, por favor. — Nico riu. — Sempre tem um dinheiro que cai bem. — Se referiu às mídias. — Esse é o problema.
O elevador parou no andar dele.
— Se precisar de algo. — Virou-se para o amigo — Estarei aqui até amanhã de manhã.
— Valeu. Bom descanso.
A porta fechou e, sozinho, Gabriel sentiu o silêncio bater naquele elevador frio.
Entrou no quarto, largou o casaco no sofá, desabotoou os botões da camisa polo e afundou ali mesmo, exausto. A intenção era só respirar e mexer um pouco no celular, mas adormeceu.
O celular vibrou duas vezes seguidas.
Ele despertou num susto, espalhando almofadas pelo chão, e tateou o bolso até encontrar o aparelho. A tela iluminou o rosto sonolento, dificultando a leitura do contato no Clovy.
Piscou algumas vezes, forçando a vista se recuperar rápido, e o nome no topo da notificação fez seu coração acordar antes dele: Mônaco’5.
Ele se endireitou no sofá e abriu as mensagens.
“Você é surreal falando de Mônaco daquele jeito.
Minha sorte que eu apenas compreendi.”
“E você me fazendo perguntas que a resposta sempre será você.
Chegou bem ao hotel?”
“Cansada, porém sim.”
“O que houve com o carro?”
“Furou o pneu. E como estava meio carregado, demorou.Leo não queria que desse problema no equipamento, então tiramos tudo.”
“Ainda bem que foi simples.
Fiquei muito preocupado com você.”
“Estou bem.”
Mais silêncio, até ele sentir o peito inquieto.
“?”
“Eu?”“Estava pensando…”
“Eu não gosto quando você começa com essas conversas, Gabriel.Elas sempre tomam rumos que eu nunca espero.”
“Você quer repetir Mônaco?”
O coração dela deu um salto ao ler a mensagem, aquele race week em Mônaco tinha deixado muito de ser sobre a corrida e sim quando eles tiveram a sua primeira noite juntos.“Não temos tempo, Gabi.”
“Como não?!”
Ele digitava rápido, ajeitando o corpo no sofá, agora desperto demais.“Volto hoje à noite pro Brasil.
Tenho especiais de fim de ano para gravar.”
“Por isso mesmo.
Eu te mando o local e o nome.”
Nome?
Gabriel!”
Ele não respondeu.
enviou mais uma, duas, três mensagens e nada.
A verdade é que ele já estava em pé, ligando para o charter, confirmando se tinha algum iate disponível para eles ainda naquele momento. Ficou no aguardo da mensagem enquanto tomava seu banho. O celular ficou jogado em cima da cama com o visor para cima, assim ele tinha a certeza de que, caso alguma mensagem chegasse, ele já veria logo de imediato.
Seu sorriso apareceu, tinha conseguido tudo, agora só faltava pegar algumas coisas no meio do caminho e enviar a localização para .
E ia ser Mônaco outra vez, do jeito deles. E o mundo que se virasse.
andava de um lado para o outro, segurava em suas mãos um potinho com frutas dentro e o celular ficava junto, tudo de um jeito bem nada seguro. Estava começando a achar que nada deu certo e Gabriel estava desapontado a ponto de não conversar com ela. Quando iria mandar mais uma mensagem, ele respondeu.
“📍 Port Hercules – Berth 12.
🚤 Astra V.
Te espero lá.”
— Ele estava fazendo isso? Eu não acredito.
parou para pensar um pouco.
— Quais roupas eu levo?
“O que eu levo?”
“Eu poderia falar para não levar nada.😏
Leva o que você trouxe, de lá te deixo no aeroporto, mas tem que ser rápida.”
“Ai ai eu sei que preciso ser rápida, o tempo tá passando.
Te vejo em breve, 5.”
Pegou tudo que tinha levado para aquela coletiva. Como era apenas um dia, ela tinha poucas coisas. Estava com sua mochila pronta e o celular em mãos, enviou uma mensagem para Leo, avisando que passaria aquela noite na casa de uma amiga que fez quando teve o GP lá. A mentira foi aceita com sucesso, agora era só finalizar o check-out no hall do hotel.
Não era tão longe e podia ir a pé, aproveitaria para admirar aquelas decorações de natal e o frio de Mônaco corando suas bochechas.
Ele ficou olhando para a tela do celular enquanto estava na fila do mercado. Comprou algumas coisas para fazer a fondue de queijo que ela tanto gostava e também uma coberta mais quente, tinha receio de que ela passasse tanto frio no Astra V.
enfim chegou ao Port Hércules. A brisa fria vinda do mediterrâneo tocava em seu rosto enquanto procurava pelo Asta V nas fileiras de embarcações. Ali estava o iate, quase que no fim do ancorado.
Era maior do que o último que eles ficaram alguns meses atrás. Branco, decorado com decorações natalinas minimalistas. Apressou o passo, seu coração estava acelerado para ficar junto a ele o quanto antes.
Ela parou na frente da rampa, olhou para os lados à procura dele, mas não viu nenhum sinal de que ele estaria lá.
— Gabi…? — ela o chamou baixinho. — Aí, merda, será que cheguei cedo demais? — Mordiscou o lábio inferior.
Foi quando sentiu.
Uma pessoa alta se aproximou por trás dela, deslizando os braços ao redor de sua cintura. Aquelas notas amadeiradas com notas de frescor trouxeram memórias apaixonantes. Os lábios úmidos encostaram em seu pescoço, deixando uma pequena trilha de beijos suaves. sentiu sua pele se arrepiar por debaixo do casaco.
— Você sabe que qualquer hora dessas eu me assusto e grito, né? — sussurrou, em meio risos e verdades.
— Antes isso do que ver você nos braços de outro homem — respondeu ele, sem rodeios. — Vamos. Está frio. Quero você lá dentro.
Ele passou para o lado dela, pegou sua mão — naquela segurança tranquila que só Gabi sabia dar — e a guiou pela rampa para dentro do iate.
O interior estava silencioso, acolhedor, iluminado por luzes amenas.
Deixou ela bem acomodada no quarto e guardou as coisas dela, enquanto, de fundo, no volume um, tocava My Eyes.
— Você volta que horas? — perguntou, sem desviar o olhar dela.
— Embarco às onze — respondeu , soltando o ar devagar. — Mas… temos um tempo aqui.
Gabi olhou para o relógio.
Eram seis da tarde.
— Pouco tempo pra matar minha saudade de você — murmurou e se inclinou para beijá-la.
o segurou pela parte aberta da jaqueta e se aproximou, puxando para mais perto e deitando sobre a cama, aquele cobertor macio era um convite para os dois.
Agora usando o casaco de Bortoleto, ela se servia com a fondue, enquanto sentia os olhares de admiração. O balançar leve do mar, a playlist bem escolhida, aquelas trocas de beijos. A sensação de proteção e de nunca querer que aquele momento acabasse gritava no fundo de seu coração.
Com um pedaço de pão, ela pegou um pouco da fondue e comeu. O seguinte, estendeu para ele.
— Você fica me olhando assim, e eu fico perdida, não sei o que você está tramando.
— Pra hoje? Nada, mas quem sabe no Brasil.
— Ai… — Ela suspirou. — Você não pensa duas vezes antes de complicar a minha vida, não é?
Gabriel soltou um riso curto, quase culpado.
— Se isso aqui é complicar… então eu tô ferrado faz tempo.
Colocou a taça na mesinha e deu um tapinha de leve no bíceps do automobilista. Puxou o cobertor antes de voltar o foco na conversa e se ajeitou ao lado dele.
— Gabriel… — Respirou fundo. — Você sabe que não é tão simples assim.
— E nunca foi. — Concordou com ela. — Entretanto, agora pode ser diferente.
— Diferente? — Estava curiosa com o que ele tinha a dizer.
Bortoleto colocou o cabelo de atrás da orelha e acariciou o rosto dela com delicadeza. Estava nervoso, dava para sentir na mão trêmula dele, mas nitidamente tinha tudo ensaiado já.
— A Band não vai estar mais na Formula 1 ano que vem.
— Eu sei… — Sua voz saiu baixa, quase que um sussurro. — Ainda estou digerindo isso. Saber que essa foi minha última coletiva com você, o Nico e até mesmo a Sauber.
— Minhas race weeks nunca serão as mesmas sem você — o piloto disse, levantando delicadamente o rosto dela com os dedos. — Com isso. — Retomou a conversa. — Não precisamos mais fingir a distância, ter o nosso relacionamento por um aplicativo.
Os olhares se prenderam.
— E eu não vou mais evitar você nos paddocks, nas coletivas e nas câmeras. — Completou.
A repórter engoliu a seco.
— Gabi…
— Eu quero tentar, . — Ele entrelaçou os dedos nos dela. A mão dele tremia, mas a sinceridade era tão perceptível que não precisava nem olhar nos olhos dele.
— Quero tentar de verdade. Sem esconder. Sem esbarrar só quando o mundo permite.
desviou o olhar para o vinho, para a fondue esquecida, para qualquer coisa que não fosse os olhos de Bortoleto.
— A gente vive em mundos diferentes — ela sussurrou.
— E daí? — ele rebateu com gentileza, mas firmeza. — A gente sempre deu um jeito. Em Mônaco. Na Áustria. No Brasil. Até quando você fingia que era só “uma entrevista”.
Ela riu, rendida.
— Você lembra desses países?
— Eu lembro de tudo — ele confessou. — Inclusive do jeito que você me olha quando acha que ninguém tá vendo.
passou a mão no rosto, tentando conter o sorriso que insistia em aparecer.
— Você é impossível.
— E você é minha… ou, pelo menos, eu queria que fosse. — Ele completou, um pouco hesitante, um pouco ousado
Não teve nenhuma resposta de , apenas aquele olhar apaixonado, o olhar que respondia por . Ela o rendia mesmo sem dizer nenhuma palavra. Aquele silêncio ficou por um tempo, eles apenas escutavam o som do mar batendo contra o Astra V, e a música que agora estava ao fundo tinha leves linhas do que eles estavam sentindo… I Know Love.
— Gabi, eu preciso de um tempo, de alguns dias… Eu te amo. — Deu um selinho suave nele. — Mas eu ainda prezo como tudo isso pode afetar nossos mundos.
— Tudo bem, nunca forçaria você, Mônaco 5.
Ela riu daquele jeito que só ele conseguia tirar.
— Você vai às onze horas, mesmo? — Ele mudou de assunto para deixá-la mais confortável.
— Preciso ir. Eu ainda tenho as coisas da Band para finalizar. A Mary vem pra cá, cobrir o evento da FIA.
— Eu até me esqueci. Começa às onze e meia, não é? — Ele se deitou na cama de lado, apoiando seu corpo no braço.
— Sim. Gabi? — o chamou, ele a olhou com toda a atenção. — Eu vou te dar minha resposta quando o avião pousar e eu estiver no carro.
Ele sorriu, leve.
— Pode pensar o tempo que for, amor. Enquanto isso, deixa eu te convencer o quão bom vai ser suas horas do meu lado.
Gabi a puxou com delicadeza, a deitando em cima dele. O beijo veio quente, crescente, inevitável.
E Mônaco, pela segunda vez, foi cúmplice de um amor que não sabia mais ser silencioso.
Passaram o tempo juntos, ajeitaram o iate antes de sair. Como de costume, mais uma foto para colocar no álbum que eles tinham no celular.
O relógio marcava nove e quarenta e cinco. Como prometido, ele a levaria até o aeroporto. Ele organizou todo o pertence de , enquanto ela terminava seu banho. Colocou no carro, retornou para o iate e se sentou na poltrona. Enquanto a esperava, ele mexia no celular.
saiu do banho já pronta para ir ao aeroporto, colocou seu casaco e parou na frente dele. Gabriel descruzou a perna, bloqueou o celular, olhou para ela e, como sempre, o mundo pareceu parar por um segundo. Ela sentou no colo dele e entrelaçou os braços em volta do pescoço dele.
— Acho que chegou minha hora… — ela murmurou.
— Já? Não podemos ficar mais um pouco juntos?
— Eu queria, Gabi. — Selou rapidinho os lábios dele. — Vamos?
— Trinta minutos até o aeroporto… E a FIA me mata se eu aparecer atrasado no evento de Natal — ele brincou, ainda que a voz não acompanhasse totalmente a leveza.
Cruzaram o corredor silencioso do Astra V lado a lado, o som suave do mar marcando o ritmo de cada passo. Quando apontaram na porta do iate, o ar frio da noite bateu nos dois, trazendo consigo o cheiro salgado característico de Mônaco.
O carro estava estacionado ali perto, uns dez passos, e eles chegaram ao automóvel. Ele abriu a porta para ela, colocou a mala de mão na parte de trás do carro e, por fim, entrou no lado do motorista.
O caminho até o aeroporto Nice Côte d’Azur Airport — NCE seria rápido e ao mesmo tempo tão demorado, pois sabia que demoraria para eles se verem.
Pararam na entrada, o carro todo filmado não levantaria tanta suspeita. Ela se ajeitou ao tirar o cinto, ele mantinha uma de suas mãos no volante. O olhar de despedida apertava o coração de .
— Está entregue, senhorita .
— Obrigada, meu amor.
— Amor, você pode pensar mai…
— Eu te mando minha resposta — ela completou, firme, sem fugir.
Ele assentiu, engolindo o que queria dizer.
Como se não quisesse esquecer ela, com medo de que sua memória esquecesse cada traço delicado, ele acariciou o rosto dela, a fazendo fechar os olhos involuntariamente, se aproximou e a beijou.
— Eu preciso ir. — Parou o beijo com alguns selinhos.
Desceram do carro, e Bortoleto entregou a mala para . Verificou todos os lados antes de puxá-la para o último beijo, profundo e demorado.
— Se cuida no evento — ela pediu, para todos os jeitos.
Ele concordou apenas com um gesto.
— Boa viagem, Mônaco 5.
— Obrigada, Gabi.
E só quando ela desapareceu pelas portas de vidro ele deixou o ar sair dos pulmões, passando as mãos no rosto, secando as lágrimas silenciosas. Entrou de volta no Audi e dirigiu rumo ao iate. Precisava se arrumar para o evento beneficente e depois retornar para o lugar que ainda guardava o perfume dela.
Gabi retornou ao iate, verificou a hora e deixou seu celular no volume máximo — caso a mensagem dela chegasse. Um banho calmo e rápido, queria ao menos deitar na cama e descansar depois daquela temporada. Na cama, ainda estava o perfume de , trazendo aquelas boas horas ao lado dela. Deitou-se, puxando o travesseiro para mais perto de si, sentindo mais o perfume dela, e adormeceu após colocar o alarme para despertar.
O alarme soou minutos depois. Ele despertou, desligou o celular e se levantou. Vestiu o terno Bellini Luxe que havia comprado antes de ir a Mônaco — um dos poucos que realmente carregava a assinatura da marca que combinava com ele —, pegou seu documento, a chave do carro e saiu.
Quando chegou ao local do evento, flashes se acenderam imediatamente.
Toto Wolff acabara de atravessar o tapete, acompanhado da esposa, Susie, e a imprensa ainda estava alvoroçada com a chegada deles quando Gabriel estacionou o RS7. Os fotógrafos o chamaram. Ele posou brevemente, educado, com aquele meio sorriso discreto de quem sempre parece saber exatamente onde está pisando. Em seguida, entrou.
O hall principal era amplo, iluminado por luz âmbar e decorado com elegância controlada — exatamente o tom que a FIA queria transmitir. Hostesses se organizavam para receber os convidados, enquanto mais adiante os valets cuidavam dos carros com discrição.
Depois do corredor curto, vinha a pré-sala montada especialmente para abrigar os repórteres do frio lá fora.
Ao entrar nela, o assessor do evento aproximou-se:
— Boa noite, senhor Bortoleto. Aqui os convidados escolhem quando conversar com a imprensa. Não há ordem. Basta se aproximar quando desejar.
Ele assentiu.
Assim que deu alguns passos no espaço, uma repórter de um grande canal europeu — especializada justamente em moda masculina no esporte — apontou a câmera na direção dele, começando sua cobertura.
Com a câmera já gravando, ela descreveu:
— Senhoras e senhores, acaba de chegar Gabriel Bortoleto, usando um terno Bellini preto completamente opaco, de corte slim tradicional, que destaca a postura do piloto sem exageros. As lapelas em formato de lança trazem um toque clássico, enquanto a camisa branca impecável e a gravata preta fosca reforçam a sobriedade elegante da marca. As abotoaduras em prata fosca dão o detalhe perfeito para quem entende de discrição sofisticada. Um look limpo, preciso e muito fiel ao estilo dele.
Gabriel ouviu parte da descrição sem realmente olhar para a câmera.
Ele sabia que estava sendo observado, mas não era isso que importava.
No bolso interno do blazer, o celular vibrou.
Não era ela.
Ele respirou fundo, quase imperceptivelmente, como se tentasse segurar por dentro tudo o que ainda sentia desde que a deixou no aeroporto.
O evento acontecia em seu ritmo elegante, com luzes quentes refletindo nas decorações de Natal e música ambiente preenchendo cada canto. A representante da FIA, Catalina Salvaterra, conduzia tudo com a energia característica dela — aquele misto delicioso de profissionalismo impecável e carisma espanhol. Ela conversava com os convidados, explicava sobre o propósito beneficente da noite e mantinha todos alinhados com uma calma surpreendente para alguém organizar um evento daquele tamanho.
Ollie se aproximou de Gabriel para cumprimentá-lo.
Os dois ficaram conversando, observando Leclerc ao fundo, que revirava os olhos de tempos em tempos, como se estivesse cansado demais para lidar com qualquer festividade natalina ou de fim de ano.
— Parece que ele tem um problema com eventos de fim de ano — comentou Ollie, segurando o riso.
— É, a fama dele nunca é boa quando o assunto é FIA — Gabi respondeu, cruzando os braços.
— Gabriela!
O nome saiu alto demais. Gabriel levou a mão ao rosto, rindo. Ao olhar para trás, viu Nico se aproximando com a esposa e a filha em seu braço.
— Feliz ano novo, Nicoleta. — Ele retribuiu com a mesma zoeira. — Feliz ano novo. — Desejou às duas.
— Papai, tá nevando! — A menina apontou para fora.
— Nevando… em Mônaco? — Ollie arqueou as sobrancelhas.
— Eu acho que sim — Gabi murmurou. — Vou procurar algum lugar pra ver.
As janelas daquela sala não mostravam muita coisa, apenas vultos brancos se acumulando no parapeito.
Seguiu pelo corredor lateral que dava para a área externa, vazio, calmo e pela distância o som chegava até lá abafado. Gabriel caminhou até a varanda lateral, empurrou a porta de vidro com cuidado e sentiu aquela brisa gelada passar por seu corpo. Era verdade, estava nevando — fraquinho — em Mônaco, cobrindo o belo jardim.
Se pegou sorrindo, lembrando de e a paixão dela por ver a neve cair. Sentiu um aperto no coração, queria poder sentir o perfume dela mais uma vez ainda naquela noite.
Do outro lado do prédio, uma pequena movimentação acontecia. Os staffs deram suporte a uma mulher que acabara de entrar rapidamente no hall. Sendo guiada, ela entrou em uma sala reservada dos staffs que estavam ajudando no evento naquela noite. Se olhou no espelho, respirou fundo e começou a se ajeitar.
Por sorte, tirou da bolsa os lenços umedecidos que sempre carregava. Retocou onde precisava, arrumou a franja, ajeitou a base, colocou um toque de cor nos lábios. Olhou seu vestido, o único vestido que tinha, havia comprado em Mônaco quando chegou e iria usar com sua família, teria que ser aquele mesmo.
— Nada propício para cobrir um evento beneficente, mas é o que tem pra hoje — falou e olhou para o vestido.
O vestido. Era um vestido longo em preto absoluto, estruturado em seda italiana com microfios metálicos grafite — daqueles que não brilham de imediato, mas apenas quando ela se move, criando um efeito quase hipnótico, como um eco visual que surge um segundo depois.
A silhueta seguia o clássico da Bellini Luxe: impecável, limpa e elegante sem esforço.
O preto da saia fazia um fade sutil até tons grafite na região da cintura, como se o tecido absorvesse e devolvesse a luz na medida exata. Na lateral direita, uma fenda alta revelava a perna com sofisticação. A parte superior era sustentada por duas alças finas e elegantes, deixando os ombros expostos com a delicadeza calculada que só a Bellini sabia criar.
Sua maquiagem foi a mais neutra possível, já que ela não era uma convidada de honra e, sim, a repórter esportiva da Band. Aquele leve avermelhado em seus lábios deixava mais cor e elegância. Por fim, seu cabelo se manteve em um rabo de cavalo baixo, deixando os fios da sua franja soltos. estava impecável e também ansiosa.
Caminhando para o hall onde estavam todos os repórteres, recebeu uma ligação da emissora e diminuiu os passos para poder conversar tranquilamente.
— Sim, eu já estou no local, podem me colocar na transmissão em dez minutos. A Mary chega às duas, certo? Ótimo… eu cuido até lá.
A sua voz suave se propagava pelo ambiente, misturando à música abafada que vinha do grande salão. Ela estava agora parada em uma sacada, conversava mais um pouco com a produção, enquanto ajeitava o casaco sobre seus ombros — o casaco que ela pegou sem pedir ao Gabi.
Bortoleto, que estava ainda na varanda, olhando a neve cair, os fogos ao fundo e o jardim tendo pequenas partes cobertas de branco, suspirou ao sentir a brisa do mar com aquele aroma familiar bem distante, e talvez, por um instinto involuntário, ele sentiu que deveria retornar ao salão o mais breve possível.
Já envolto do calor do ambiente, ele deu alguns passos em direção ao seu destino. Desbloqueou o celular e quase que simultaneamente, quando iria ver se tinha mensagem de , ele escutou a voz dela, baixa e serena.
— Sim, eu aviso assim que terminar aqui…
Ele parou, a olhou, respirou fundo e piscou rapidamente. Podia jurar que tinha começado a ouvir o áudio famoso com Tribalistas. Era ela, era o seu amor.
ainda estava de costas, o vento balançou as mexas e o casaco. Desligando o celular, ela se virou para entrar e o viu. O celular na mão, o sorriso nos lábios nascendo.
Gabriel sentiu seu coração sair pela boca, não esperava encontrá-la tão cedo e tão perfeita.
— ? — A voz dele saiu rouca demais para alguém tentando parecer casual.
Os olhos dela se iluminaram de felicidade, amor e algo que ele reconheceu na hora: saudade.
— O voo da Mary atrasou — ela explicou num sussurro, encerrando a ligação. — A Band precisava de alguém aqui. Eu… tive que voltar.
Gabriel deu um passo à frente. Depois outro.
— E você veio.
abriu um sorriso pequeno, tímido, mas cheio daquela saudade crua que nenhuma palavra esconde.
— Eu vim.
Ele aproximou a mão, hesitante e tocou o rosto dela com a ponta dos dedos, como se confirmasse que ela era real.
— Você é a última pessoa que eu imaginava ver aqui — ele confessou. — E a única que eu queria.
deixou o ar escapar, sua respiração estava acelerada.
— Desculpa não avisar antes, mas eu fiquei sabendo quando estava no voo e a sorte que o meu voo atrasou para sair.
— Não precisa se desculpar. Só me deixa matar a saudade que eu estou de você?
Ela concordou com a cabeça, já fechando os olhos. Os lábios quentes de Gabriel encostaram nos seus, eletrizando todo seu corpo.
— Gabi, eu ainda não te dei minha resposta. — Ela se afastou um pouco.
— Não precisa ser agora.
— Eu sei, mas eu prometi. — Ela nunca quebrava uma promessa. — Eu senti saudade do jeito que você me olha.
Ele riu de leve, aquele riso apaixonado que só ela tirava dele.
— Se você não se incomodar. — Passou os braços envolta do pescoço dele. — Talvez terá que me ver todos os dias no paddock.
Não tinha uma resposta ao certo, ele não conseguiu pensar em nada para respondê-la — mesmo tendo pensando nas possibilidades um milhão de vezes. Gabriel apenas a puxou pela cintura e a beijou mais intensamente. Os fogos ao fundo iluminando o céu, a pouca neve caindo, tudo parecia que estava conspirando para aquele momento ser perfeito para os dois.
Com aquele sim, ele se lembrou que havia levado consigo algo especial para eles. Se afastou dela e, sem dizer nenhuma palavra, a guiou para a varanda novamente.
— Eu sei que não era para estar assim… — Tateou os bolsos. — Achei. Só que, bom, a ideia era entregar no Brasil e eu trouxe pra cá. Bom, também não sei.
Gabi respirou fundo, ele abriu o saquinho vermelho que carregava o nome da loja e tirou duas alianças. A dela com lindos diamantes cravejados, e a dele lisa, gravado “M’5”, assim como ele salvou o número dela.
Ele segurou a aliança dela entre os dedos e seus olhos encontraram os dela como se o tempo inteiro tivesse sido feito só para aquele instante.
— … — Sua voz saiu baixa, intensa. — Nessa temporada, eu vivi tanta coisa, tantos altos e baixos… mas nada, absolutamente nada, se compara a você.
Ele deu um meio sorriso, olhando para a neve atrás dela.
— Assim como isso acontecendo em Mônaco. Você é rara… e quando aparece, muda tudo.
Ela sentiu seu peito aquecer.
— Eu quero você comigo. Do meu lado. No meu mundo. — Ele ergueu a aliança. — Você aceita oficializar nosso namoro… com essa aliança?
— Sim, sim, sim.
Ela o beijou outra vez, agora com sua linda aliança em suas mãos.
Minutos depois, eles retornaram ao local do evento. foi a primeira a receber a entrevista de Bortoleto, depois ele falou com mais outros e, por fim, retornou ao evento. ficou lá por mais algumas horas, até a chegada de Mary.
Impossível não ter percebido a felicidade e a aliança na mão, e assim Mary ficou sabendo que sua grande companheira estava vivendo seu relacionamento dos sonhos.
Como um casal recém-namorado, mas completamente seguros um do outro, e Gabriel entraram juntos no salão para aproveitar o evento beneficente da FIA.
— A propósito — ele cochichou no ouvido dela. — Feliz ano novo.

