Tamanho da fonte: |


Revisada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 27/12/2025


PRÓLOGO

“And the toughest part is that we both know,
What happened to you,
Why you're on your own,
Merry Christmas, please don't call”

── BLEACHERS. Merry Christmas, please don't call.

CLINT.

CERTO, ISSO NÃO PARECE BOM. O impacto é imediato, reverbera por meu corpo quando este projeta-se para trás, o peso somado com o empuxo da corrida é o suficiente para quebrar o vidro da janela atrás de mim, o vidro fragmenta-se em pequenos pedaços afiados, desliza por minha pele, abrindo cortes e deixando para trás apenas uma sensação irritante de ardência na pele tocada. O instinto é mais rápido do que a racionalidade, estou preparado para a queda imediata que abre-se abaixo de mim. A distância o som de um carro acertando um hidrante ecoa com um impacto metálico sonoro; raspa por meus ouvidos, acompanhado de buzinas desajeitadas, pneus guinchando e a fúria característica que compunha o trânsito de Nova York. Giro meu corpo no ar, empunhando o arco, a flecha enganchada no arco se tenciona ao empurrar a linha para trás, meu braço esquerdo permanece firme, estável, busco a mira e então inspiro fundo. O ar enche meus pulmões e prendo-o ali; o tempo parece parar ao meu redor, tudo parece de repente estar em câmera lenta, minha visão focal está fixa no alvo, preparo-me para soltar a flecha. Exalo. Quer dizer, você se sente um pouco deslocado com os vingadores, às vezes. Os caras têm, tipo, armadura, magia, super-poderes, super-força. Os caras encolhem, ficam enormes. Magia. Fatores de cura. A flecha dispara com o ricochete da linha do arco, o impacto reverbera por meu braço estendido, acerta o topo da calha do prédio de forma precisa; imediatamente enrosco no compartimento acoplado ao arco a linha, a fim de mantê-la presa e usá-la para refrear minha queda eminente para os braços da morte. É uma boa ideia, a princípio, algo que já fiz inúmeras vezes. Mas puta merda se não tinha calculado mal. Veja bem, eu sou um órfão criado por circenses lutando com um graveto e um barbante da era paleolítica. Devo ter acoplado a corda da maneira errada, porque não demora muito para que ouça o momento exato em que a corda arrebenta. Cede a meu peso, e então, por uma fração mísera de segundos, sinto-me pairando no ar. Ah, merda.
A queda é instantânea. Mal consigo apoiar-me em um dos parapeitos do prédio, tampouco consigo lembrar de retirar outra flecha e dispará-la, quando sinto o impacto reverberar por meu corpo inteiro. A força do golpe que acerta-me chega primeiro que o estrondo do impacto. Por alguns segundos, meus olhos apenas obscurecem e desapareço em meio a inconsciência. Cinco segundos depois, sob uma fina camada da chuva de fragmentos e vidro da janela de onde havia lançado-me, desperto-me com uma dor lancinante por todo meu corpo. O metal do teto do carro cede ao meu peso, criando uma espécie de berço desconfortável com o molde exato de meu corpo, e por um instante tudo o que sou capaz de sentir é apenas sangue. A sensação cálida e molhada do líquido esvaindo-se espalha-se pela minha pele como uma segunda camada irritante, fazendo o tecido do meu uniforme grudar contra meu corpo; tento obrigar-me a mover-me, mas não consigo. Estou paralizado do pescoço para baixo, mesmo mover meu pescoço faz-me sentir uma dor aguda. Tento lutar para permanecer consciente, mas é uma luta em vão — para adicionar a minha coleção. Droga. Sabe quando disse que não parecia bom? Te garanto que está bem pior.

•••


— ... conseguiu se arrebentar muito, o Sr. Barnes teve… — uma voz masculina que soa distante a princípio começa a ficar clara conforme vou recobrando a consciência. Percebo-me preso a alguma coisa, há talas e gesso por todo lado, minha perna esquerda está suspensa no ar, em um apoio, e a luz pálida quase cega-me. O cheiro de álcool queima por minhas narinas e o buzinar frequente do monitor cardíaco faz-me lentamente perceber onde estou; hospital. Tento mover-me mas estou incapacitado e com uma dor horrível travando meus músculos. Minha cabeça lateja e há uma sensação crescente de amortecimento que envolve minha pele, não é como um formigamento, mas não sinto sequer meus músculos, quiçá a pele; se tento mover meus dedos, além de uma dor horrível, não tenho exatamente consciência de que estou fazendo qualquer gesto. Ao lado do que parece ser um homem vestido completamente de branco e a quem assumo que não possa ser Deus, encontra-se um rosto familiar, o que apenas piora tudo. — ... pelve despedaçada… três costelas quebradas… a clavícula esquerda… a ulna direita… e quase rompeu seu braço…
Phhh, pensei que você disse que eu estava machucado doutor — forço-me a dizer, tentando soar desdenhoso embora minha situação seja patética; minha voz soa esganiçada, quase distorcida ao meus próprios ouvidos, rouca pela falta de uso. A dor ainda está presente, e se forçar um riso, se espalha como um ferro quente por meu peito, agulhas invisíveis penetram por minha pele com o ritmo de minha pulsação, externalizando-a no monitor. Acelerado o suficiente para evidenciar que estou vivo, vago demais para explicitar que estou anestesiado para a realidade. Mesmo mover minha sobrancelha parece doloroso, então obrigo-me apenas a tentar focar meus olhos embaçados na figura que se dispõe ao lado do médico com seu jaleco branco e prancheta.
Braços cruzados sobre os seios. Roupas escuras, discretas, mas cíveis, uma jaqueta curta jeans de lavagem escura, uma regata preta que adorna sua cintura, jeans que fazem a bunda dela parecer inapropriadamente atraente, e os coturnos de combate esfarrapados. Os cabelos , na altura de seus ombros, estão parcialmente presos em um rabo de cavalo pela metade, as mechas desalinhadas repousam por seus ombros enquanto o rosto fica limpo e livre para observar. Tento ignorar o eco agitado do monitor cardíaco, obrigando-me a manter-me tranquilo; se a situação fosse inversa, já teria encontrado uma maneira de sair dali. Sequer teria a visitado no hospital, não poderia. O fato dela estar ali imediatamente faz-me considerar encontrar uma maneira de escapar, se ao menos não estivesse preso a cama...
— Onde preciso assinar para que você volte à sedação dele? — É tudo o que ouço dizer, o sotaque russo pesado tingindo suas palavras, enquanto ela ignora-me por completo. Sou invisível para ela e não sei dizer se isto me faz gostar dela um pouco mais, ou me irrita. Ainda que esteja doendo o suficiente para me fazer ver estrelas, não consigo impedir-me de sorrir com o comentário afiado, quase frio.
Fecho meus olhos, sentindo aquela letargia deliberada dos analgésicos tentando puxar-me para baixo da inconsciência outra vez mesmo que esteja lutando para manter-me acordado. Tento não bufar ao ouvir a conversa entre e o doutor prosseguir como se eu não estivesse ouvindo-os discutir sobre mim; não tenho forças o suficiente para importar-me em interrompê-los, tampouco argumentar porque deveria ser liberado mais cedo do hospital — embora faça uma anotação mental para lidar com isso mais tarde. Vara paleolítica. Huh, paleolítica. Eu pesquisei. Deus. Esse médico. Ele não para de falar por um minuto inteiro. Eu posso ver a luz do sol batendo no vidro e toda vez que as cortinas se agitam, sinto um sopro de vida vindo de fora. Nova Iorque em Agosto é perfeita. Embaixo desse fedor abafado de lixo, peixe podre e urina ainda dá para sentir um pouco do ar puro. Já estou suando, mesmo apodrecendo nessa cama. Está tudo perfeito. Até sentir o deslocar do peso de alguém ao sentar-se na lateral da cama. Que seja um pombo e não , que seja um pombo e não
— Sabe o quão fácil seria sufocar você com esse travesseiro? — Exalo, obrigando-me a abrir meus olhos. O tom de voz dela é comedido, até mesmo calmo para alguém que deveria realmente estar com raiva de mim. A faz parece como se estivesse mencionando algo sobre o trânsito ou sobre as previsões meteorológicas para o dia de hoje, e não que fosse apenas uma externalização de seu desejo não tão reprimido assim de me assassinar em meio a um hospital com câmeras. E a pior parte? Sei que a ameaça dela não é apenas vaga, só não tenho certeza se sou assim tão importante para que ela escolha me matar. Tudo bem, acho que o médico esqueceu de acrescentar que ferir ainda mais o meu ego não iria me ajudar a recuperar-me, não que pareça se importar com isso no momento.
Ah, cara, fiz merda dessa vez…
— Me matar não vai solucionar todos os seus problemas… — começo a dizer, e sinto uma fisgada na lateral de meu corpo. Merda, as costelas quebradas realmente estão quebradas; faço uma careta sentindo a pressão dolorosa que se espalha pelo tecido amortecido, de encontro com meu peito. É como ter a pele perfurada por adagas em brasas, rápido demais para evitar, dolorido demais para não poder mover-me ou sequer pensar até que a dor tenha aliviado-se. Pisco algumas vezes, tentando clarear meus pensamentos, ou minha visão, e vejo-a se mover.
Meu primeiro instinto é tentar me afastar de seu alcance, não faço ideia de onde o intinto vem, talvez seja apenas memória muscular de todas as outras mulheres com quem já me relacionei que potencialmente usariam a oportunidade para deixar claro seus desagrados. Jessica teria me acertado no segundo que tivesse despertado — não estaria menos certa, afinal —, Bobbi talvez tivesse primeiro um momento de autorreflexão sobre suas alternativas antes de me acertar, e Natasha, bem, o julgamento dela já era o suficiente para não precisar de tapa algum. Mas era um caso à parte; talvez fosse por ventura seu treinamento que a destituira de suas emoções, por míseras que fosse, tornando-a um espelho da Sala Vermelha, fria demais para esperar-se encontrar compreensão ou mesmo pequeno indício de qualquer outro sentimento que não fosse pura apatia. Ou talvez — e a possibilidade a qual estou inclinado a acreditar —, ela somente não se importasse tanto assim comigo. Seja o que for, uma coisa era certa, tentar ler era como deparar-se com um livro de quinhentas páginas cuidadosamente escrito em uma língua estrangeira, da qual minha única compreensão não passava de vãs assimilações a desenhos engraçadinhos. Não era apenas impossível de ser lida, era imprevisível. Esperei pelo momento que ela acertaria-me, que iria externar seu desapontamento ou sua frustração, mas tudo o que a vi fazer foi tomar o controle da cama em mãos e então apertar o botão para ajustá-la, até que estivesse sentado. Estreito meus olhos, sem saber ao certo se devo acreditar em sua apatia ou se é fabricada.
— Acredite se quiser,, matar você iria sim resolver 80% dos meus problemas — ela dá de ombros, desdenhosa, antes de devolver o controle no lugar e lançar-me um olhar enviesado. Abro a boca para respondê-la, mas desisto. Não vou conseguir escapar das consequências mesmo se desejar, ela já deve saber minha motivação para ter ir atrás daqueles criminosos, porque não havia pedido ajuda e de quem provavelmente era o sutiã que encontrou em meu apartamento. O gosto amargo em minha boca parece difuso com a sensação do analgésico diminuindo, não posso dizer se é bile ou a quantidade de remédios sendo inserida por um daqueles malditos fios de plásticos fincados em meu braço. Argh, agulhas cruza os braços sobre o peito outra vez, uma sobrancelha erguida ao observar meu rosto.
— Ainda teria 20% de problemas para lidar — tento fazer piada, mas a expressão dela continua firme, distante. Não posso dizer se ela está realmente interessada no que estou dizendo, ou se ouve-me da mesma forma que tento ignorar meus batimentos cardíacos expostos no monitor; sequer ali. Questiono-me o que se passa em sua mente, e se seria possível sequer compreendê-la. Talvez não queira saber o que pensa, talvez não queira entender sua perspectiva; já encontrei monstros o suficiente para saber que, em sua maioria, possuíam rostos bonitos. De repente, ocorre-me com uma clareza de percepção de que talvez seja exatamente assim que Jéssica tenha se sentido comigo. Ah, merda… eu tenho consciência, isso seria o suficiente para convencer os médicos a desligarem os aparelhos? Exalo pesado, escolhendo encarar o teto, e não a mulher encostada ao lado da minha cama. — Estraguei tudo, não foi? — O tom derrotista em meu tom de voz não oculta a verdade em minhas palavras.
não me responde. Franzo o cenho, voltando meu olhar na direção dela, e percebo que voltou seu rosto para a janela entreaberta do quarto do hospital. Os olhos destacando-se em sua face normalmente fria e controlada, parecem estreitar-se com o que quer que estivesse pensando — para onde quer que seus pensamentos tivessem a levado. Assumo que uma parte de mim esperou este momento para que ela explodisse, que gritasse comigo ou apontasse ao menos um dedo em meu rosto com acusações silenciosas, mas a forma com que os cantos de seus lábios se apertam, projetam-se para baixo, é a decepção silenciosa que parece pairar por seu semblante dolorosamente meigo que, percebo, atinge-me como brasas. Posso ignorar, posso fingir que não sinto nada, mas ainda está ali; questiono-me porque sua decepção me machucaria tanto, porque é sua indiferença que deixa-me desconfortável, se seria mais fácil apenas não tê-la por perto. Se seria mais fácil fazê-la me odiar como todas as outras antes dela. Pergunto-me porque sua indiferença em odiar-me machuca mais do que palavras fariam…
— Você tem essa habilidade — ela suspira, por fim, voltando a linha de seu olhar para mim. Observo em seu rosto uma pequena ponta de indiferença que talvez, incomoda-me mais do que queira admitir. Quero convencer-me de que é isso que preciso para sentir-me aliviado. Ela não se importava tanto assim, significava que ambos estávamos na mesma página, certo? Mas então porque sou eu incomodado com aquele olhar? Por que sou eu que percebe a crescente insatisfação por não ser considerado como algo para além do que havíamos concordado? Jogo justo, porventura, mas não menos amargo. E não sei exatamente para quem; culpo os analgésicos, é claro, que outra resposta plausível poderia ter este maldito pensamento? Que utilidade poderia dar-lhe? Querendo ou não, não era uma heroína… ela não era moldada para isso… — Não que me importe, mas você realmente entende que dormir com uma mulher bonita, mesmo que aleatoriamente, sempre vai te trazer problemas, né? — Um tremor pequeno surge no canto de seus lábios, e sei que ela está esforçando-se para não sorrir. Ela acha graça do que diz, e percebo que esta era a última resposta que gostaria que ela tivesse. — Que merda você tinha na cabeça, Barton? Tudo bem, ruiva, bonita, e estava adorando sua atenção, mas sério? Esposa de mafioso? E então ir ajudá-la a roubar o cara? — começa a dizer, e vai se empertigando mais e mais conforme lista seu desgosto por minhas ações; não pela mulher com quem me envolvi, mas pelas minhas atitudes. Detesto que ela esteja certa. Detesto que veja-me como um espelho, mas ela o faz, e preciso admitir, ela é boa nisso. Fecho meus olhos, como se isso fosse a impedir de atravessar meus pensamentos, mas é claro que sempre conseguia uma forma de infiltrar-se. Fosse onde quer que fosse, mesmo minha mente. — Não finge que está dormindo, eu posso ver seus batimentos cardíacos, idiota, e estão anormais. Não testa minha paciência.
— Não estou testando — respondo de imediato, ainda sem abrir os olhos. Posso sentir o olhar mortal que ela lança-me e quase abro um sorriso com isso. É uma resposta emocional, pelo menos, melhor do que a parede fria que ela era na maior parte do tempo. — Olha, eu sei que fiz merda…
— Merda é pouco para o que você fez — murmura. Obrigo-me a abrir meus olhos. Volto meu rosto na direção dela, ignorando a dor que se espalha por meu pescoço, não apenas havia machucado-o como igualmente deveria ter desenvolvido um torcicolo devido ao posicionamento com o travesseiro e as horas desacordado. Contenho um grunhido de dor. Se pelo menos pudesse usar magia… — Você gabaritou o código penal como se fosse uma lista de afazeres, o que é irônico, porque você não faz nada útil.
Abro minha boca, ofendido, para retorqui-la, mas então os olhos dela se fixam em meu semblante e a vejo sorrir. Que desgraçada, ainda assim, solto uma risada abafada, seguida de uma careta com dor ao sentir minhas costelas quebradas protestarem.
— Tudo bem, eu mereci essa…
— Que bom que pelo menos admite — ela revira os olhos, antes de voltar a encarar a janela menos pensativa, mais decidida. Merda, isso não é bom… — Vou atrás deles — disse por fim, como uma afirmação, não um pedido e tampouco uma suposição. O que quer que houvesse em meu rosto, divertimento, carinho e até mesmo alívio por vê-la não ressentir-me pelas merdas que faço, desaparece. De repente percebo que a situação é pior do que poderia ter imaginado; ela quer resolver o problema que eu criei.
— Não, sem chance… — começo a dizer, tentando levantar-me da cama. Sem chance que iria aceitar essa porcaria de ideia de boa vontade. Não preciso de pena, não preciso de ajuda, sei exatamente o que tenho que fazer, se pelo menos meu corpo obedecesse ao comando… estou preso dentro de meu próprio corpo, e pouco posso fazer se não arrastar-me e tentar dialogar com uma teimosa maldita como . — , não, isso não é assunto seu, fica de fora… — a dor lancinante na lateral de meu corpo, em minha costa, por uma fração de segundos, cega-me com força. Sinto como se meu corpo rejeitar-me, minha respiração falha, e quase perco a consciência, acabo de volta a cama, as costas chocando-se contra os travesseiros duros e esterilizados, praguejando entre dentes, tentando normalizar minha própria respiração. Meu peito dói como se houvesse um container projetado sobre minha respiração escapa irregular, rápida demais o que faz tudo girar. Tenho vontade de gritar.
De repente, sinto-me terrivelmente ressentido que seja Logan aquele com o fator de cura. Poderia encontrar usos bem melhores se eu tivesse. Ou magia.
— E esperar que você se mate? Olha, Barton, normalmente fico de fora disso, são suas merdas, você é capaz de resolver o que começou no tédio — ela retorque, desencostando-se da cama e então dando alguns passos em direção a janela. Para minha surpresa, ela não a fecha, apenas puxa as cortinas para deixar que o sol invada o quarto hospitalar. Tento não fazer careta, mas sou ofuscado pela claridade. O vento adentra pelo espaço, afasta algumas mechas platinadas de seu rosto. Sinto um pouco de inveja, gostaria de poder afastar os fios de seu cabelo para longe de seu rosto. E isso pode significar qualquer coisa. — Você foi idiota o suficiente para se envolver com a Bratva, otário, isso não acaba aqui, entende? — ela diz por fim, voltando-se parcialmente em minha direção, a mandíbula tensa.
Leva inconscientemente a mão esquerda em direção a pequena corrente delicada de prata que repousa em seu pescoço, ela gira o pingente com a cruz, quase distraída. Esta era a dicotomia de , ela era a pessoa mais cínica que já havia conhecido, mas por algum motivo, seja lá qual fosse, havia aquela parte dela que ainda parecia querer acreditar em um poder maior. O que era esquisito, porque ela nunca foi religiosa — nem mesmo quando sua vida estava em risco. “Ninguém veio me salvar, porque diabos desperdiçar palavras?” dissera uma vez, entre copos vazios e roupas largadas no chão de meu apartamento. Havia achado graça de sua escolha de palavras, mas agora? Agora soavam estranhas, quase desconexas. Não refletiam a mulher que via à minha frente — tecnicamente, ela estava um pouco mais à esquerda do que à minha frente.
— Não me importa, ! Você não vai resolver o meu problema! — Tento argumentar. Ela ergue uma sobrancelha, parecendo desdenhosa e, ao mesmo tempo, descrente. Faço uma careta, tentando me levantar outra vez. Vou sair desse hospital nem que seja me arrastando com meus dentes, mas não vou esperar que esta idiota se envolva em algo que não lhe cabe. A lateral do meu corpo parece pegar fogo com o movimento. Consigo projetar-me para frente, um pouco torto, vacilando ao apoiar meu peso em meu único braço bom. O monitor cardíaco dispara, mais alto e mais rápido do que deveria, antes de silenciar-se com um buzinar contínuo e irritante; arranco os eletrodos em meu peito, com uma careta.
— Se você cair no chão, vai ficar no chão — avisa, irritada.
— Talvez eu goste do chão, porra, já pensou nisso? — tento retorquir, mas minha voz escapa entrecortada, por entre dentes, um exalar frustrado e cego.
— Mas que merda, Barton! Você é um cuzão! — ela pragueja, frustrada, agarrando meu ombro em poucos passos e empurrando-me de forma brusca contra a cama. Dessa vez, dói o suficiente para que eu não consiga me mover. Um gemido meio grunhido escapa por minha garganta, e encolho-me um pouco. Que merda, se a corda não tivesse arrebentado! Que merda, se não estivesse ali. Quero gritar para que ela vá embora, para que suma da minha frente, mas o problema disso é que tenho certeza de que ela irá. Se a mandar embora, simplesmente vai ir, sem olhar um segundo para trás, e será a última vez que a verei. E embora isso fosse um alívio para mim, fico frustrado por perceber que não quero que seja a última vez que a vê-la. Ainda somos… o que quer que seja…
— Demorou tempo o suficiente para perceber, huh? — Há mais veneno em minha voz do que tinha intenção de expor, mas é o suficiente para ao menos atingi-la de alguma forma. Minhas palavras parecem atravessar a muralha fria que a envolve e protege, e vejo algo surgir em seus olhos. Não chega a ser mágoa, mas é algo perto. Quero sentir-me mal por tê-la acertado daquela forma, por ter dito palavras que provavelmente deveria me arrepender, mas a verdade é que não sinto. Que ela me odeie, mas que o faça, qualquer coisa era melhor do que sua indiferença. Talvez se revirasse a ferida por tempo o suficiente, talvez ela fosse embora, desistisse daquela ideia estúpida.
Ela não responde. Apenas encara-me conforme o silêncio se estende por nós dois. Sobrancelhas unidas, lábios retorcidos para baixo, a desaprovação pairando pelos olhos . Percebo aquela pequena ruga que surgia em sua testa quando estava desapontada surgir, percebo a maneira com que o sol toca as mechas de seus cabelos , alterando a cor deles por uma pequena fração de segundos, deixando-os mais claros, percebo a forma com que o vento agita os fios, como estes tocam sua pele; ela sequer parece perceber. Ela sempre havia sido bonita, uma visão de certa forma, a Sala Vermelha era precisa ao escolher suas agentes, elas precisavam ser atraentes para conseguir ter sucesso em seus objetivos; mas não era uma femme fatale, era uma beleza diferente, inalcançável. Assemelhava-se como fogo, por vezes, deslumbrante, imponente, atraía o olhar de imediato, era inevitável não sentir-se atraído, era inevitável não tentar estender sua mão em direção ao calor oferecido; você só perceberia o perigo que havia colocado-se quando já era tarde demais. Como agora.
— Não é por você — ela responde-me por fim, mais fria do que antes, não menos cortante. Ela endireita os ombros, elegante como uma bailarina, e afasta com um gesto rápido uma mecha de seus olhos. Prende-a atrás de sua orelha, mas a mecha fica pouco tempo ali. Seus olhos fixam-se nos eletrodos que havia arrancado, e então, na mancha visivel de sangue que começa a se formar em um dos pontos que arrebentei quando, como um idiota, tentei levantar-me. — Você tem um péssimo hábito de achar que tudo gira ao seu redor, a minha vida não. Tenho fantasmas o suficiente para ter certeza de que não quero nenhum deles bisbilhotando por aqui.
Ouch. Essa havia doído mais do que esperava que fosse doer; não é apenas as palavras frígidas que atinge-me, é meu ego que fica machucado.
— Então por que ainda está aqui? — digo baixo, tentando parecer mais irritado do que magoado, não sei como minha voz ecoa em seus ouvidos, mas oferece-me um sorriso afiado. Sempre havia tido os caninos um pouco maiores que os outros dentes, e quando sorria daquela forma, sempre parecia mais felina do que de fato era. Irritante, sem dúvidas, não menos atraente; preciso de um soco , quem sabe assim, posso parar de fazer merda por algumas horas.
— Por que preciso de um nome — disse, dócil como a porra de uma pantera a espera de seu bote. Engoli em seco, obrigando-me a desviar meus olhos , e encarar o teto. Tenciono minha mandíbula com força, meus dentes enroscam-se com força, minha respiração permanece contida; recuso-me a dizer algo, recuso-me a entregar a ela exatamente o que precisa para morrer por minha causa. Sei que ela é teimosa o suficiente para descobrir por si só, mas mesmo assim, se puder atrasá-la, farei o que for preciso. Só o suficiente para ter alta deste inferno de lugar, então irei lidar com essa confusão eu mesmo. Como sempre fiz. Sem mais ninguém para adicionar a extensa lista de pessoas a quem devia não apenas a vida, mas salvação igualmente. Algo dentro de meu peito se contorce como um animal moribundo ao ouvi-la bufar, um riso nasalado, desprovido de quaisquer traços de humor tingindo seu tom neutro e distante. — Tudo bem, faço sozinha.
Como uma traidora, vejo-a apertar a campainha para acionar as enfermeiras, antes de lançar-me um olhar enviesado. Preciso impedi-la; preciso encontrar uma forma de desculpar-me por minhas palavras, o que quer que fosse preciso para convencê-la a ficar, se não por nossa… o que quer que isso fosse … por si mesma; o que diabos ela poderia encontrar na Bratva? Por que diabos ela queria arriscar-se a troco de nada? Sei que ela tem história, sei que a Mãe Russia é um lugar do qual ela tenta fugir como um cervo na mira de um caçador, sei que seus pesadelos se espalham não apenas por Nova York, como por todo o mundo, é por isso que está sempre alerta. É por isso que é sempre defensiva, e por nunca ter uma forma de contato eficiente — pombos correios não contavam, e tenho a vaga impressão que ela apenas os treinou para que defecassem em minha janela por puro despeito —, mas ainda assim, a sombra que cruza seu olhar, a expressão defensiva; questiono-me o que ela não está me contando. O que não disse-me ainda sobre o seu passado? Quem ela estava escondendo? E por que? Solto um grunhido baixo, apoiando-me precariamente em meu único braço bom, tentando me projetar para cima para chamá-la, antes que ela deixe a sala:
— Ei, espera… — chamo, um pouco mais alto do que deveria, antes que pudesse me policiar, antes que pudesse me impedir. , surpreendentemente, para onde está e volta-se em minha direção, uma mão repousada conta a maçaneta do quarto de hospital, a outra na cintura. Engulo em seco, sentindo minha garganta doer, o gosto pungente de ferrugem escorre por minha garganta, e tenho certeza de que minha atitude impensada vai acabar custando-me caro; tenho prioridades maiores no momento. Como tentar ter certeza de que não seria a última vez que vejo ela; e isso poderia significar qualquer coisa. — Só… — tento dizer, mas percebo que não tenho certeza do que dizer exatamente para ela. Sinto o impulso de pedir para que fique, mas sou orgulhoso demais para o fazer; quero pedir para que repense, para que não siga com aquele plano, porque se algo acontecer com ela… como vou poder encarar-me no espelho outra vez? Como vou poder ficar em paz sabendo que eu a coloquei naquela situação? Mas as palavras fogem, porque não sei como expressar isso, e não quero ser vulnerável, não na frente dela, não na frente de ninguém. Um exalo trêmulo escapa por meus lábios, enquanto lanço um olhar ao meu redor, buscando o apoio, o auxílio do que quer que fosse. Encontro apenas armários, uma TV ligada com Jonah J. Jameson amaldiçoando a existência do Homem-Aranha, e um pôster sobre higiene antes de cuidar de algum paciente. estreita os olhos com minha hesitação, mas não diz nada. Ela apenas espera. Sinto-me patético. — Não esquece do Natal — ergue uma sobrancelha, um pouco exasperada, não parecendo com a mulher que havia esfregado o crucifixo perdida em pensamentos a poucos minutos atrás. Apresso-me a acrescentar com o máximo de neutralidade que consigo. — Pela Kate. Ela está animada, comprou até mesmo sua bebida favorita, então… você sabe, não desaponte a garota, esse meio que é o meu trabalho — ofereço um sorriso depreciativo para , antes de desistir de sustentar-me em meu braço bom, e voltar a desabar na cama. Fecho meus olhos tentando aceitar as dores que sobressai os analgésicos, fico indeciso se devo pedir para que me nocauteie, ou se peço simplesmente para acabarem com minha miséria.
Posso sentir o olhar de prender-se em mim como um peso invisível. Está ali, mesmo quando meus olhos estão fechados e minha mente se dispersa. Ouço-a estalar a língua, parecendo incomodada, mas há uma nota gentil em sua voz. Solto um bufar amargo, é claro que ela é gentil com Kate; exalo, derrotado, é claro que ela é gentil com Kate…
— Volto duas semanas antes. — Posso ouvir seu revirar de olhos, mas por um momento, a certeza de sua promessa é o suficiente para aliviar parte do peso que se projeta em meu peito. Clint Barton, você está complicando tudo mais do que deveria, penso imaginando acertar-me com ponta pés, talvez eu pudesse aprender algo, para variar, que não consistisse arriscar minha vida por mulheres bonitas e aleatórias, ou colocasse-me na linha de fogo cruzados de contra o mundo. — Mas não espere que eu vá ajudar você a comprar presentes. Nisso, você está sozinho — Solto um riso seco, forçando-me a dar-lhe o dedo do meio. É apenas quando a porta se fecha atrás dela que suspiro com uma ponta de alívio. Idiota, mas não posso ter certeza se é ela a quem chamo, ou se, eu mesmo. Talvez, ambos.

•••


Bom, pelo menos ela cumpriu o que prometeu, penso com amargura. Ela havia voltado para casa duas semanas antes do Natal, e não havia ajudado-me com os presentes, o que significava que, agora, tinha em minhas mãos apenas um saquinho com Skittles que deveria ser seu doce preferido; um presente de última hora, insensível, ridículo e estúpido de minha parte, mas então, ela sabia que esperar muito de mim nunca funcionava.
O silêncio estende-se ao nosso redor. Fúnebre. Insuportável. Não menos real. Flocos de neve deslocam-se pelo ar, acompanhados pelo eco vago, quase deliberado, que o vento faz ao arrastá-las pela malha resistente e grossas dos casacos que envolviam as poucas pessoas que se mantinham ali, enrosca-se nos fios de cabelo, pesa nos cílios, umedece o solo, faz com que as solas dos sapatos afundem na lama que se forma por entre as pedras. A relva que outrora encontrava-se em seu primor esverdeado, agora, estava coberta pela altura da neve, amontoados esbranquiçados se projetavam sobre o mármore e as lápides, incrustando-se, arruinando quaisquer possibilidades de leituras que pudesse encontrar para distrair-me uma vez que o coveiro joga a última pá de terra sob a lápide. A dela está impecável, pelo menos, intocada pelo gelo, o que é irônico, ela era tão fria quanto, supunha-se que teria espalhado-se ali mais rápido.

. 1989 - 2025.

Merda…
Seis semanas inteiras em um hospital para finalmente ser liberado um dia antes de uma ligação agitada de Kate. E então, aqui estava. Minha garganta parece estar em carne viva, mesmo que esteja intacta do período de tratamento no hospital, mesmo que eu não tenha tomado nada gelado ou gritado; o nó que se formou ali, transfere-se para o peso insuportável em meu peito, esmagando-o, empurrando-me para baixo, mais e mais para a escuridão que cerca-me, permeado pela culpa gritante. Porque é minha culpa; se não tivesse sido um idiota, se não tivesse pensado com a cabeça errada, então, talvez… só talvez, não fosse ela no caixão agora. Ao em vez disso, encaro em silêncio o epitáfio.
Ela sequer tinha tantos amigos assim para que pudessem se lembrar do que ela gostaria que fosse colocado ali; Yelena sugeriu a “amada filha, irmã e amiga”, era uma ideia gentil, mas genérica. Insuportavelmente genérica. não era amada filha, se ela foi parar na Sala Vermelha, era porque não se importavam, ela não era irmã de ninguém, e amiga… bem, como eu poderia saber? Mesmo que sinta a pressão das lágrimas por trás dos meus olhos, estas não escorrem, e sinto-me um otário por não poder chorar como Kate havia feito, como algumas vizinhas dela o fizeram durante o velório. As coroas de flores são descartadas, repousadas ao lado da lápide como parte do memorial, mas são rosas brancas tradicionais, mera formalidades de Fury, porventura mesmo Nat. Ela não veio, nem Rogers… como se eu não pudesse me sentir um merda ainda maior, esqueci de comprar uma. Tenho só o pacote de Skittles que seria o presente dela no jogo ridículo de Kate. Amigo Secreto; quem diabos faria aquilo? Um exalo pesaroso escapa por entre meus lábios ressecados e deixo minha cabeça para trás; meu hálito condensa-se contra o ar gélido, projetando-se a frente de meu rosto como uma fumaça esbranquiçada que espirala ao redor dos flocos de neve que se dispersam das nuvens cinzentas que tomam, por completo, Nova York inteira.
O inverno nunca pareceu tão frio.
— Ei — a voz de Kate é carregada pelo vento repleta de hesitação. Não movo-me para encará-la, apenas encaro os céus, exasperado, desejando poder lutar com minhas próprias mãos para que o sol voltasse. Não vai, não importa o quanto tente. — Clint? — Ela chama de novo, dessa vez um pouco mais alto. Fico tentado a fingir que não estou a ouvindo, que esqueci o aparelho auditivo desligado, parece uma ideia boa o suficiente, mas então ela solta aquele pequeno fungado, o que tenta fingir que ela não estava chorando, e meu coração parece se despedaçar de novo, em pedaços menores e desprezíveis. A culpa grita ao fundo da minha mente que não posso sentir-me assim; fui eu quem causou a morte dela, como poderia sentir-me mal? Ela morreu por causa das merdas que eu fiz! O quão desgraçado posso ser por me sentir mal? Não tenho esse direito. Solto um murmúrio inteligível, um ruído baixo e grave que apenas a informa de que estou a ouvindo. Kate hesita, um pouco mais atrás dela, ouço o barulho da guia se ajeitando e o fungar agitado de Lucky. Ainda com talas, ainda com um cone ao redor de sua cabeça peluda, recuperando-se do atropelamento, mas ainda repleto de energia. — Simone quer saber se você vai participar do churrasco de Natal, as crianças disseram que há bastante costela, e Keke disse que separou cerveja a mais, eu pensei que, sei lá, talvez… — Kate dispara dizer, mas acaba silenciando-se quando percebe que não vou responder. Aperto meus lábios, voltando a encarar a garota, sem conseguir conter meu pesar.
Kate Bishop é tão nova. Mal tem 22 anos, e considerando que arrisca sua vida como se tivesse mais sete à disposição, não posso deixar de sentir uma pontada profunda de raiva dela. Contenho o impulso de gritar com ela, de dizer-lhe que está sendo estúpida, o que havia naquela cidade que valia a pena ser salvo? Porque perder seu tempo com isso? É idiota, completamente e puramente idiota. Mas os olhos azuis exibindo agora traços avermelhados, o tremor no lábios inferior, a toca combinando com a minha; céus, ela é só uma criança… tenciono minha mandíbula, sentindo-me congelado no lugar, meus músculo doloridos, ainda estão travados demais para que mover-me seja confortável, e a há curativos o suficiente por meu corpo para que seja difícil saber se ainda tenho pele ou se é apenas meu rosto que está intacto — tirando pelo nariz —, ainda assim, obrigo-me a estender minha mão na direção dela. Aperto gentilmente seu ombro, tentando parecer mais paternalista do que sinto-me no momento. Sei que Kate pode ver que meu gesto é forçado, sei que ela sabe e que muito provavelmente ficaria irritada por minha atitude, mas ao menos hoje não a incomoda. Talvez porque nós dois perdemos alguém que achamos que jamais estaria fora de nosso alcance.
— Vai lá, aproveita — digo tentando obrigar minha voz a soar calma, comedida, como se não estivesse afetado. Kate lança-me um olhar descrente, e preocupado. Ela parte os lábios para retrucar algo, para pressionar o convite, mas a corto com um gesto de cabeça e um sorriso que parece plástico em meu rosto. — Está tudo bem, Kate, vai lá. Você planejou tudo, só fique de olho em Lucky, não deixe que ele saia do seu campo de visão. — Indico com o queixo na direção do labrador, com a língua para fora tentando capturar um floco de neve, atrapalhado. Aperto mais uma vez o ombro de Kate, um aviso silencioso de que estava bem, antes de deixar minha mão cair, e aproximar-me do cachorro. Afago sua cabeça tentando ocultar meu pesar. Não posso agachar-me sem que seja acertado pela dor em minha coluna, então contento-me em apenas dobrar-me para frente, o que dói do mesmo jeito.
— E o que você vai fazer? — Kate diz com um tom de voz derrotado. Desta vez, meu sorriso é mais sincero, piedoso com a garota. Que merda de mentor sou para ela…
— Vou dormir. Como se estivesse morto — faço piada, soltando um riso sem humor algum, e Kate fuzila-me com um olhar ofendido. Estou fazendo uma piada insensível, mas não consigo conter o impulso. Retiro o pacote de skittles e jogo na direção de Kate. — Todo seu, pirralha — Vejo-a abrir a boca para me responder, mas obrigo-me a caminhar outra vez, antes que pudesse ouvi-la.
Estou fugindo, e nem sequer finjo que não.
Cada passo parece pesar mais que o anterior. Meus ombros pendem para frente, minhas mãos tremem, e minha respiração parece superficial demais para oferecer alívio. Meus ouvidos pulsam com o martelar de minha corrente sanguínea, espalha-se como gelo e eletricidade por minha espinha, mas sinto-me apenas amortecido. Não há buraco, não há incômodo; apenas apatia. havia morrido, por minha culpa, e agora isso me assombra pelo resto de minha vida. E não importava o quanto desejasse gritar com ela ou xingá-la por ser um idiota e envolver-se onde não era chamada; o resultado continuava o mesmo. Ela está morta. Simples e preciso. Apenas o que era, fato incontestável. Paro diante do coveiro, para retirar os pertences dela que haviam sido entregues junto com o corpo para a funerária. Aperto meus lábios, observando a sacola de plástico. Não há muito ali; um aparelho celular datado e provavelmente recurso para backup se necessário durante missões de alto risco, a jaqueta, e uma notinha vencida de uma máquina de café. Guardo a notinha de café no bolso, mas jogo a jaqueta no lixo. O tecido escuro ainda tem o sangue seco dela, a mancha, agora amarronzada revira meu estômago com violência. Sinto-o contrair-se, o gosto amargo pungente da bile misturando-se com o metálico em minha garganta, a saliva acumula-se em minha boca, o que obriga-me a engolir em seco. Trinco meus dentes, ignorando o espasmo que atinge meu corpo. Desvio meus olhos para o aparelho celular, agradecendo o coveiro, antes de concentrar-me em verificar o objeto.
Não há senhas, nem mesmo números. O único que se repete é desconhecido. Há algumas ligações perdidas: de manhã, algumas à tarde, várias à noite. Estreito meus olhos, considerando o que fazer com aquela informação. Questiono-me se ela teria se envolvido com algo para além do que apenas ajudar-me a livrar-me da Bratva. Por que havia só aquele número no aparelho? E acima de tudo, quem diabos era a pessoa por trás do número? Isso não é assunto meu, não deveria interferir, merda… antes que possa evitar, aperto o botão para ligar. A tela muda para a da chamada. Desligo imediatamente, o que diabos estava pensando que estava fazendo? Ligar assim? Do nada? Sem nenhum plano? E se fosse só telemarketing? Balanço minha cabeça tentando livrar-me dos pensamentos. Preciso focar. Voltar para casa, jogar-me na cama e dormir pelo resto da semana, Deus sabia o quanto meu corpo inteiro estava dolorido.
O número desconhecido retorna a ligação. Atendo-o na segunda chamada.
Do outro lado da linha, há apenas silêncio. Uma respiração baixa e controlada, enquanto murmúrios em uma outra língua ecoam acompanhados pelo o que parece ser o tráfico urbano. Estreito meus olhos, esperando por uma resposta, qualquer coisa que indique quem diabos havia ligado, mas não há nada senão silêncio. Então a ligação fica muda. Afasto o aparelho do meu rosto, encarando a tela com minhas sobrancelhas unidas, apenas para deparar-me com “Ligação Finalizada”. Espero por alguns segundos para que o número desconhecido retorne-me, mas horas se passam, e a tela do aparelho permanece desligada. Tento não bufar, exasperado com o resultado. Quebro o aparelho ao meio, e jogo-o na lixeira mais próxima, antes de puxar o gorro da jaqueta e cobrir minha cabeça, mesmo que estivesse com a maldita touca roxa com o H em branco que Kate me deu de presente ano passado. Caminho sem pressa alguma em direção ao metrô, apenas para me arrepender, 5 dois minutos depois, quando um coral natalino, com suas vestes vermelhas e verdes, e músicas irritantes, passa a seguir-me em direção a estação.
Ah, cara, eu odeio o natal…


¹ Cena retirada das HQs do Gavião Arqueiro (2012), escrita pelo Matt Fraction. Adaptada aqui para melhor encaixe na história.





Continua...


Nota da autora: Fechamos em 4, então? Fechamos em 4! Obrigada por ter lido e a gente se vê em breve!

Barra de Progresso de Leitura
0%


Se você encontrou algum erro de revisão/codificação, entre em contato por aqui.