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Revisada por: Lightyear 💫

Última Atualização: 31/10/2025


O som de passos ecoava pelos corredores de pedra polida.
Um coração inquieto e uma jovem curiosa a passos vagarosos deslizando pelo chão frio do palácio. Paredes adornadas por tapeçarias persas originais e muito bem construídas como uma arquitetura genuína retratavam reis e batalhas. As tochas tremulavam ao longo do caminho, projetando sombras que pareciam se mover sozinhas.
O ar cheirava a incenso e ferro.
Ao final do corredor, uma porta de madeira entalhada se abriu sozinha com um rangido lento. A luz dourada do interior a cegou por um instante; contudo, atraindo-a ainda mais para o que parecia ser uma câmara escondida, e em lugares como aquele eram comuns. Ao respirar fundo, sentiu um forte cheiro de sangue que já se impregnava no ambiente. Um pequeno giro percorrendo a atenção aos detalhes da arquitetura da câmara, até que seus olhos voltaram-se para algo ao fundo. Mais passos cautelosos, e a figura de uma mulher caída, vestida em seda carmesim, surgiu diante dela. O tecido, outrora fino e puro, estava manchado de sangue, assim como o rosto da mulher, que, mesmo em seu estado parcialmente desfigurado por marcas de garras, apresentava certa serenidade quase sagrada, como o de uma rainha adormecida que jamais despertaria.
tentou se aproximar, mas o silêncio era pesado demais.
O medo prendeu-lhe o fôlego.
De súbito, o som seco de um vaso se partindo rompeu o ar, revelando seu descuido em tropeçar no objeto, pelo choque da cena em que ela vira. Ela caiu, e o impacto ecoou pelas colunas. Ao erguer o olhar, o corpo da mulher não estava mais, contudo, no lugar dela, um lobo negro a observava, olhos como brasas acesas na penumbra.
Os dentes cintilavam e o rosnado parecia vir de todos os lados.
O animal avançou.
gritou — despertando com um sobressalto.
O quarto permanecia apenas iluminado pela luz azulada do relógio digital.
Seu coração pulsava descompassado, o lençol grudado à pele pelo suor frio.
Passou as mãos pelo rosto, tentando afastar a sensação de que aquele olhar — o do lobo — ainda a seguia.
Mas não. Era um sonho.
Ou melhor…
Um pesadelo que vinha se repetindo quase todas as noites, após a confirmação de sua bolsa de estudos para uma universidade de prestígio. Ao respirar fundo, sentou-se na cama e olhou para as malas encostadas junto à parede. Dentro de algumas horas, embarcaria rumo à Califórnia. Stanford a esperava, e não permitiria que um pesadelo — por mais real que parecesse — estragasse o primeiro dia do resto de sua vida.
Sendo seu maior sonho de infância.
O curso de Arquitetura e Urbanismo, teria a aluna mais aplicada da cidade de Riverside — onde morava com os pais. Para o casal Bronx, a saída da filha de casa era uma mudança radical, e não estavam tão preparados assim para isso. Mesmo sabendo da enorme saudade que poderia sentir deles, a jovem só pensava em todas as aventuras que viveria no campus da universidade. Até mesmo seu quarto no alojamento dos universitários, já estava reservado.
— Minha querida, sentirei sua falta — disse sua mãe ao abraçá-la mais uma vez, na rodoviária.
— Não se preocupe, mamãe, vou enviar mensagens sempre que puder — assegurou a garota.
— Nos envie todo dia — pediu a mãe, com o coração já apertado.
— É somente alguns quilômetros, em breve estarei aqui nas férias de verão — disse a filha, dando um sorriso caloroso — E também passarei o natal em casa, como prometido.
— Iremos cobrar, mocinha — disse seu pai, lhe entregando a única mala que a filha levara.
— Também te amo, papai. — Ela o abraçou e logo se apressou a entrar no ônibus.
Foram longas horas de viagem até chegar na grande cidade.
foi recebida por uma veterana, chamada Kim, que curiosamente também era sua colega de quarto. Como tudo para a garota era novidade, o primeiro lugar que desejou visitar foi a biblioteca do campus. Não que fosse nerd, apesar de sempre ter sido considerada a melhor de sua turma. Mas já tinha ouvido tanto sobre a sessão de histórias medievais que sua obsessão pela categoria não a deixaria em paz até que pegasse pelo menos dois livros para ler. E foi o que fez.
— É aqui que nos separamos — disse Kim, ao deixá-la em frente ao prédio da reitoria. — Já sabe onde fica o dormitório e o prédio de humanas.
— Agradeço pelo rápido tour — disse a garota, com um sorriso singelo no rosto.
— Bem-vinda novamente a Stanford. — Ela piscou de leve.
— Obrigada, Kim!
— Ah, não se esqueça da nossa festa dos calouros hoje — advertiu a veterana ao se afastar.
— Não vou me esquecer, prometo — assegurou.
Logo após passar na secretaria para formalizar sua matrícula, com as instruções do caminho cedidas por Kim, seguiu para o prédio mais frequentado nos tempos de provas semestrais. Seus olhos brilharam com todas aquelas estantes cheias de livros de todos os gêneros, assuntos e idiomas também. Seu faro nem lhe permitiu pedir informações; os olhos que tanto procuravam, encontrou a sessão que buscava.
— Estou mesmo aqui — sussurrou para si mesma, se aproximando de uma estante.
Por mais que sua mente lhe importunava com os pesadelos habituais.
prometeu a si mesma que não deixaria tal desconforto lhe tirar a diversão do primeiro dia em Stanford, e, passando um tempo deslizando os dedos entre os livros, algo brilhou em seus olhos, chamando a atenção dela. Ao voltar o olhar para a direção, avistou uma porta entreaberta. Mesmo não sabendo se podia ou não entrar, ela seguiu até a porta e abriu. Na última prateleira de uma estante bem aos fundos da pequena sala encontrada, estava um livro empoeirado e com as bordas das páginas douradas. Se o lugar não fosse tão estranho, diria que aquele dourado poderia ser pó de ouro. Era estranho para uma biblioteca tão bonita e conservada ter uma parte tão menosprezada e escondida como aquela; nem parecia fazer parte do lugar.
— O que é isso? — disse ela adentrando mais e seguindo até o livro.
Ao pegá-lo, soprou de leve a poeira. Então, percebeu uma elevação vindo de dentro, que ao abrir, revelou um cordão com um pingente de ouro no formato de um gato.
— Minha jovem? O que faz aqui? — perguntou um senhor aproximando-se dela. — Esta parte é restrita aos alunos.
— Senhor. — Ela fechou o livro depressa e, com a outra mão, que segurou o cordão, o escondeu no bolso da calça. — Me desculpe, eu achei que fosse parte da biblioteca.
— Bem, teoricamente é sim, mas alunos são proibidos — explicou o senhor.
— E que parte é essa? — perguntou, curiosa.
— Guardamos os livros em descarte aqui, até que sejam incinerados — respondeu.
— E este livro será descartado? — Ela ergueu o livro em sua mão.
— Sim — confirmou.
— Eu posso ficar com ele? — indagou ela.
Já que seu destino era o fogo, não teria nenhum problema a jovem ficar com o objeto.
— Bem, eu não sei se…
— Por favor, ele será descartado mesmo — insistiu ela.
O velho senhor assentiu para ela, com a condição que não contasse a ninguém sobre aquilo.
— Tenha cuidado, minha jovem — disse ele, como se soubesse de algo relacionado ao livro.
A garota assentiu sem entender aquelas palavras e seguiu para seu quarto. Sua curiosidade em saber sobre o livro era ao extremo, fazendo até esquecer da visita à cafeteria Sweet Creature, que havia planejado por indicação de Kim. dividia seus gostos literários entre livros históricos, romances vitorianos e contos orientais, além dos muitos outros que envolviam a profissão escolhida para seu futuro. Ao entrar no quarto, ela se sentou na cama e retirou o livro que guardara.
— O último livro que li foi o conto de “As mil e uma noites” — sussurrou ela, ao avaliar os discretos traços de arabescos na capa do título — Espero que você também seja satisfatório.
Nightwish?!
Ela fez uma cara estranha pelo título do livro.
— Vejamos quais histórias você me reserva… — disse ao abri-lo contendo parte da curiosidade.
Não demorou nem dois segundos para que ficasse frustrada ao encontrar as páginas em branco. Agora estava explicado o motivo para o livro ser incinerado. Não tinha uma só palavra escrita, nem na capa interna, nem na contracapa, nem no índice. Ela fechou o livro novamente e analisou sua capa externa; foi aí que notou que nem o nome do autor tinha.
— Agora vejo o motivo de ir para o fogo — sussurrou ela — Que decepção.
O Bronx pegou uma caneta dentro da mochila e escreveu seu nome na primeira página do livro. Já que não tinha nada escrito nele, poderia ser sua agenda improvisada para as aulas que começariam na semana seguinte. Deixando o objeto na bancada de estudos ao lado da cama, ele se levantou e jogou a mochila nas costas, saindo novamente do quarto.
Ao anoitecer, se arrumou para a tal festa dos calouros.
Ela não tinha levado muita roupa em sua única mala, apenas colocou um jeans preto rasgado na coxa e uma regata branca. A noite se mostrava refrescante, e aproveitaria a tal festa dos calouros para conhecer algumas pessoas do seu curso. Assim que chegou na mansão da fraternidade Alpha-Omega, avistou sua colega de quarto Kim aos beijos com um desconhecido veterano.
“Bem-vinda ao mundo secreto dos universitários.” — pensou consigo.
O som da música vibrava pelas paredes antigas da mansão, um misto de arquitetura moderna com a rusticidade dos palácios persas, que a deixava fascinada. Kim havia lhe contado brevemente sobre a família fundadora daquela fraternidade e suas origens do Oriente Médio. Luzes coloridas dançavam sobre os degraus de mármore enquanto descia, o confortável All Star acompanhando o ritmo lento de seus passos, deixando-os silenciosos. Havia algo elegante e desconfortável naquela combinação de luxo e excessos — como se as paredes guardassem histórias demais para o ruído daquela noite.
Ao chegar ao andar inferior, avistou uma porta semiaberta ao final do corredor, meio escondida atrás de uma tapeçaria antiga. A curiosidade falou mais alto.
Empurrou a porta. Um rangido respondeu.
A música desapareceu como se o mundo lá fora tivesse sido silenciado. O ar era mais frio ali, cheirando a pedra úmida e incenso antigo, quase o mesmo cheiro dos seus pesadelos frequentes. Um corredor estreito se estendia à frente, iluminado por lâmpadas fracas que imitavam o brilho das tochas.
Cada passo ecoava como no sonho que a perseguia havia semanas.
Quando chegou ao fim, encontrou uma câmara circular. O chão era de mosaico dourado, as paredes cobertas por relevos persas — guerreiros, deuses, animais sagrados. No teto, uma pintura mostrava um rei coroado, cercado por chamas e símbolos que ela não compreendia. O mesmo ar pesado do pesadelo a envolveu.
E então ela o viu.
No centro, uma estátua de pedra: um lobo negro, de olhos em rubi.
Idêntico ao do sonho.
deu um passo para trás, o coração acelerado.
— Impressionante, não é? — uma voz rouca e grossa soou atrás dela, despertando-a de um breve momento de contemplação diante de uma escultura.
Ela se virou, assustada. O anfitrião da festa — um homem alto, de olhar tranquilo e um sorriso que parecia saber mais do que dizia — observando-a.
— Desculpe — gaguejou — Eu… não devia estar aqui.
— Sim, não deveria — concordou, mantendo o olhar sereno, porém enigmático e analítico em sua direção — Me impressiona por descobri-la… Esta câmara foi construída pelo fundador da fraternidade, há mais de cem anos. O que contam através das gerações é que ele era descendente direto dos nobres persas.
franziu a testa.
— Persas? — indagou.
— Sim. — Ele sorriu de leve, apontando para os relevos nas paredes. — Este lugar é uma homenagem aos antepassados dele. Principalmente a , um rei regado a mistério e controvérsias que, segundo a lenda, foi amaldiçoado por desafiar os deuses.
Ele caminhou até a estátua do lobo, tocando-a com reverência.
— Este animal era o símbolo da maldição. Representava o guardião do rei, ou o seu castigo. Ninguém sabe ao certo.
O ar ficou mais denso. sentiu um arrepio subir-lhe a espinha.
— Há quem diga que o espírito do rei ainda vagueia… — continuou o anfitrião, fitando os olhos de pedra. — Esperando ser libertado.
Sua voz, carregada de misticismo, dava-lhe a sensação de querer amedrontá-la.
E seria essa a intenção?
Por um instante, os olhos de rubi do lobo pareciam brilhar sob a luz amarelada. desviou o olhar, tentando convencer a si mesma de que era apenas reflexo. Mas, no fundo, sabia que não era.
— Impressionada com a história?! — perguntou ele.
— Mentiria se dissesse que não — respondeu ela, mantendo o olhar na mesma direção.
Aquela estátua, de alguma forma, parecia lhe hipnotizar.
— Hum. — O homem continuou sua aproximação e parou ao seu lado, deixando seu olhar na mesma direção que ela.
Alguns instantes de silêncio pairou entre ambos.
— Como disse… Este local é bem restrito… — afirmou ele, ainda impressionado por uma caloura tê-lo encontrado.
— É agora que sou expulsa da festa? — Num tom descontraído e meio sem graça. — Me desculpe eu…
— Fique tranquila… — disse com um discreto sorriso de canto, interrompendo-a. — É normal alguns calouros se perderem pelos corredores do segundo andar; só fiquei curioso por não ter dado a desculpa de que procurava o banheiro, como os outros.
Ambos riram juntos.
— Não sou muito boa em inventar desculpas, sempre acabo me embolando toda, mas admito que estava mesmo explorando o lugar — confessou ela, honestamente. — Você é um veterano que mora aqui?
— Sou o presidente dessa fraternidade — respondeu ele, com serenidade, enfatizando seu grau de importância ali.
— E eu aqui invadindo a sua casa. — Ela voltou o olhar para frente se sentindo envergonhada.
— Já disse que está tudo bem. — Ele sorriu de canto e esticou a mão em cumprimento, atraindo novamente seu olhar. — Fletcher.
Miller. — Ela retribuiu o cumprimento. — Prazer.
— Nome diferente. Sua mãe gosta de jasmim? — perguntou.
— Não, mas gosta da Disney — brincou ela, com a referência ao responder.
Uma risada descontraída.
Ambos se olharam por um tempo até que ela ficou envergonhada pela intensidade do olhar dele. Foram mais alguns minutos com uma conversa bem fluida sobre História da Arte e da Arquitetura, que a deixou impressionada com o tamanho do conhecimento que ele apresentava. Assim que sentiu o celular vibrando no bolso com uma mensagem de boa noite dos seus pais, notou a hora avançada no relógio.
— Acho que já invadi sua casa o suficiente por uma festa — disse ela, ao se afastar dele — Obrigada pela conversa.
— Eu que agradeço, foi divertido passar algumas horas conversando com uma caloura. — Sorriu de canto.
sentiu seu coração acelerar um pouco pelo olhar profundo dele para ela, e, respirando suavemente para voltar à sanidade mental, retirou-se do jardim. Ao passar pelo hall de entrada, foi abordada por sua amiga.
, você veio. — Kim não parecia cem por cento sóbria.
— Sim, e já estou de saída — assentiu.
— Por quê? Não gostou da festa? — Estava confusa e curiosa.
— Só estou cansada, mas me diverti um pouco — assegurou. — Quer ajuda para chegar ao dormitório?
— Oh, não, eu vou ficar aqui. Ainda tem muita festa pela frente. Vamos para a piscina no jardim dos fundos — comentou.
— Tenha cuidado. Não acho que esteja em condições de se jogar na piscina — alertou .
— Fique tranquila, eu estou cem por cento sóbria. — Ela se afastou da garota aos risos, seguindo em direção à mesa de bebidas.
a observou por um tempo até que seguiu para a porta.
Realmente conseguia notar que a noite seria longa para os universitários daquele lugar. Chegando na rua, olhou novamente para o celular e caminhou até o ponto de ônibus. A mansão ficava a uma distância relativamente longa do campus da Universidade, já que os alunos que pertenciam a ela tinham carro, e a locomoção não era problema.
Entretanto, na realidade de Bronx…
— Não acredito… Sério mesmo que não tem um ônibus a esta hora? — resmungou ela, se levantando no banco e olhando para a tela do celular novamente.
— Se perdeu por aqui? — A voz de soou ao lado, brincando.
— Você?! — Ela o olhou surpresa. — O que faz aqui?
— Estava te observando da janela do meu quarto — explicou ele. — Não foi proposital, mas dá uma vista ampla para este lugar.
— Hum… Achei que estivesse me seguindo — confessou ela.
— Não costumo fazer tal coisa. — Ele olhou para a rua. — Já tem uns quarenta minutos que está aqui e, sendo honesto, não vai passar mais nenhum ônibus até amanhã às seis da manhã.
— Sério?! — ela bufou um pouco, desapontada. — Eu deveria ter voltado mais cedo, assim iria caminhando.
— Eu poderia até te oferecer uma carona, contudo, não querendo te deixar ainda mais em surto, colocaram um toque de recolher nos dormitórios na semana passada. Não sei os motivos, mas agora o prédio só fica aberto até meia-noite. — continuou ele com as más notícias.
— Tá brincando, né?! — ela soltou um suspiro cansado — Não acredito nisso, minha primeira noite e eu vou dormir na rua.
— Não posso te dar uma carona, mas posso te oferecer um lugar para dormir. — finalizou ele.
o olhou surpresa e, ao mesmo tempo, desconfiada.
— Um lugar para dormir sem nada em troca? Não consigo acreditar em sua oferta. — Ela cruzou os braços atenta aos gestos dele.
— Me dê o benefício da dúvida — insistiu ele.
— Eu não te conheço — argumentou ela.
— Você sabe meu nome, invadiu minha casa e desbravou minha câmara secreta, somos quase próximos — contra-argumentou.
Ela riu daquilo e assentiu com a cabeça.
— Ok, você venceu, eu aceito o abrigo, desde que eu não seja vista por seus convidados. Não quero ser apontada amanhã pela caloura que saiu com o veterano para ganhar méritos — brincou ela.
— Céus, eu só estou te oferecendo o sofá da sala — brincou de volta. — Podemos entrar pela entrada privativa.
— Sua mansão tem uma entrada assim? — ela ficou boquiaberta.
— Te mostro o caminho. — ele riu, seguindo em frente.
, observadora, ficou atenta a cada porta e corredor que entravam, a passagem privativa era mesmo secreta e dava acesso direto ao corredor dos quartos do terceiro andar. Local este totalmente restrito aos membros de alto nível da fraternidade. Assim que entrou no quarto do presidente, as pupilas dos olhos da garota dilataram com tamanho luxo, parecia mesmo o quarto de um imperador persa pela riqueza de detalhes da decoração alinhada ao conforto.
— Uau — sussurrou ela. — Isso, sim, me impressionou.
Ele riu, ao entrar logo atrás dela.
— Gostou? — intrigado, manteve o olhar na garota.
— Me faz referenciar aos palácios do período medo-persa, em todo o seu esplendor e beleza — respondeu tentando manter a sanidade. — Você dorme aqui todos os dias?
voltou seu olhar para ele admirada, que assentiu com a cabeça.
— Impressionante — disse, voltando o olhar para o centro do quarto.
Ela só conseguia imaginar a diferença gritante de realidade entre sua vida pacata e humilde em Riverside e aquele quarto luxuoso no qual passaria a noite. caminhou até o closet e pegou algumas peças de roupa suas, então entregou a ela para que pudesse se trocar e ficar mais confortável. agradeceu, ainda envergonhada, e caminhou até o banheiro. Quando retornou ao quarto, ele já havia trocado de roupa também, vestido com uma calça de moletom e uma camisa dos Lakers.
Ela tombou a cabeça de leve ao observá-lo de costas para ela, voltado para a varanda do quarto observando o céu.
— Pode dormir na cama, não serei um mau anfitrião que deixa sua convidada dormindo no sofá — disse ele, percebendo sua presença.
— Nossa, que cavalheiro — comentou ela, num tom descontraído. — E você vai dormir no chão?
— Não. — Ele riu e se virou para ela. — O quarto ao lado está vago, vou dormir lá.
— Vai me deixar dormir no seu quarto e ir para o outro? — Por essa ela não esperava. — Não precisa disso, eu posso dormir naquele sofá ali que parece muito confortável.
— Me deixe ser um bom anfitrião — pediu ele, olhando com serenidade.
Ela respirou fundo.
— Ok, eu deixo apenas se não dormir no quarto ao lado, pode ficar no sofá — disse ela.
— Não está com medo que eu te seduza no meio da madrugada? — brincou ele, dando alguns passos para mais perto dela.
— Que veterano malicioso, não tenho medo de você — brincou ela.
— Então eu posso tentar? — brincou ele.
Ela riu.
— Não — respondeu brincando. — Seja um bom anfitrião e não me seduza.
A noite seguiu em claro com eles conversando sobre os mais diversos assuntos que vinham à mente de . Primeiro, porque realmente ela não tinha nenhuma confiança em dormir com ele no mesmo ambiente, mas estava sem graça de fazê-lo sair de seu próprio quarto; causar esta situação logo em seu primeiro dia era mesmo vergonhoso para ela. E segundo, conversar com conseguia ser ainda mais estimulador e divertido do que em seus momentos de leitura aos fundos da biblioteca do ensino médio.
Em um dado momento, sentiu o cansaço bater. Estando sentada no sofá de frente para a varanda, ao lado dele, inclinou um pouco o corpo e, encostando a cabeça, fechou os olhos.
— Vai dormir logo agora? — perguntou — Daqui a vinte minutos o sol vai nascer, vai mesmo perder a vista?
— Só estou descansando meus olhos, não vou dormir — sussurrou ela.
Seus planos não era mesmo dormir, apenas ver o sol nascer ao lado daquele veterano intrigante que lhe fazia sentir-se atraída.
— Você fica ainda mais linda dormindo — comentou ele.
— Não estou dormindo. — Ela disfarçou um sorriso, mantendo os olhos fechados.
Em segundos, o sono chegou forte e ela realmente adormeceu. apenas sorriu e, se remexendo um pouco, passou o braço por trás do pescoço dela para que a garota pudesse se aconchegar em seus braços. Logo, o corpo de se aninhou ao dele e, puxando uma manta proposital ao lado, o veterano apenas a cobriu, movimentando o olhar para a porta da varanda, esperando o sol nascer.
— Por que você é uma caloura?! — sussurrou ele, num tom chateado.
O tempo foi passando até que foi despertando aos poucos. Não demorou até que percebesse estar aninhada nos braços de , que também estava adormecido ao seu lado. Mesmo com a luz do sol em seus rostos, ele parecia estar em um sono bem profundo. A garota virou seu corpo de frente para ele e ficou o observando com um sorriso discreto no canto do rosto.
— Bom dia — sussurrou ele, sorrindo de canto e mantendo os olhos fechados.
sentiu seu coração pulsar mais forte e acelerado assim que ele abriu os olhos, mantendo intensidade. apenas aproveitou o momento e o clima entre ambos para erguer seu corpo e beijá-la com suavidade. Bronx retribuiu o beijo de imediato, até que se forçou a voltar à sua sanidade mental e se afastou dele.
— Acho que está na minha hora, os ônibus devem ter voltado a passar — Ela se levantou do sofá. — Obrigada pela noite.
— Eu que agradeço. — Ele piscou de leve e sorriu. — Se lembra do caminho?
— Sim, me lembro. — Ela riu.
era boa em memória fotográfica.
Assim que chegou em seu dormitório, se jogou na cama e finalmente pôde dormir de verdade. Nem mesmo notou que ainda vestia a roupa do veterano, se cobriu com uma coberta e se rendeu às próximas horas de sono. Seus planos para o segundo dia eram passar a maior parte do tempo no quarto escrevendo no velho livro seu planejamento anual de leitura. Enquanto no lado externo do campus vários comentários circulavam sobre a caloura que passou pelas ruas vestida com as roupas de um veterano. Bem que o boné que ela viu jogado ao chão quando passou pela cozinha foi o ápice de sua expertise para não ser reconhecida.
No dia seguinte, finalmente as aulas iniciaram. Primeira aula de uma manhã imprevisivelmente chuvosa de quarta-feira, História da Arte. Aplicada como sempre e mega ansiosa pelo que viria a seguir, foi uma das primeiras a chegar na sala. Logo avistou próximo à bancada do professor.
“Certamente ele deve ser o monitor dessa matéria, conhece tanto do assunto e está ali organizando tudo.” Pensou ela inocente. “Ele fica tão bonito vestido assim formalmente!”
Ela se manteve sentada bem ao centro da arquibancada, observando os outros alunos entrarem. Notou de leve que a maioria eram garotas e que algumas não eram do curso geral de História. Assim que um jovem rapaz que parecia o técnico de T.I. se afastou de e se retirou da sala, o tal veterano se colocou mais à frente do tablado em que ficava a bancada do professor e começou a discursar.
— Bom dia a todos os calouros e veteranos, vamos começar a primeira aula de História da Arte de Stanford — começou ele — Sejam muito bem vindos, meu nome é Fletcher, sou o professor de vocês.
Professor?!
O coração de disparou de imediato, deixando-a em um surto interno. Todo o tempo da aula ela passou desviando seu olhar, morrendo de vergonha. Ele, por sua vez, agia naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Terminando a aula, ela pegou suas coisas e saiu correndo, mesmo o ouvindo chamá-la ao longe. Constrangedor! pensou ao longo do caminho.
As aulas que se seguiram ao longo do dia não conseguiram despertar sua atenção, pois seus pensamentos se resumiam em: Eu beijei meu professor. Logo à noite, ao chegar no dormitório, recebeu uma mensagem no WhatsApp de um número desconhecido.

Está tudo bem?


Ela olhou para a mensagem, intrigada.
Quem é?

Passamos a noite juntos e pergunta quem é?
kkkkkkkkkk
como conseguiu meu número?

você é minha aluna, não foi difícil.
como pode?
por que não disse que era meu professor?
como pode ser presidente da fraternidade?

todo professor já foi aluno na vida
e não deixei de ser presidente depois que me formei
foi você quem achou que eu era um veterano
agora a culpa é minha?

Não kkkkkkkkkkkkkk
mas não se culpe
ah claro, você está tranquilo porque com certeza
não sou a primeira aluna que você beija

na verdade é sim
não me envolvo com alunas



Ela engoliu seco surpresa.
que tal fingirmos que não aconteceu?

me desculpe, mas não conseguirei esquecer
entretanto
prometo tentar não te constranger mais


Ela soltou um suspiro aliviado e bloqueou a tela do celular. Deixando-o embaixo do travesseiro.
— Não acredito que isso tenha acontecido justo comigo — sussurrou.
Ela voltou seu olhar para a bancada de estudos e se lembrou do pingente que guardou na gaveta e, ao retirá-lo, olhou por um tempo como se estivesse hipnotizada. As vozes no corredor lhe despertaram a atenção e ela guardou o cordão no bolso da calça. Não demorou muito até que Kim adentrasse o quarto por alguns minutos, trocasse de roupa e saísse novamente, avisando que não dormiria ali naquele dia. soltou um suspiro cansado e pegou o velho livro que transformara em agenda para conferir as aulas do dia seguinte. Ao abri-lo, notou que seu nome, escrito, não estava mais lá, assim como as outras anotações, o que a deixou intrigada.
Será que o papel era especial?
— Que loucura. — sussurrou — O que aconteceu com tudo que escrevi?
De repente, a lâmpada do quarto começou a falhar e se apagou. Uma luz começou a surgir do bolso de sua calça. Notando isso, ao tirá-la do bolso, a luz que emergia dela ficou mais forte, iluminando todo o quarto. Um clarão se deu, seguido de um sopro de vento que entrou pela janela aberta, jogando-a contra a parede. Com o impacto, acabou ficando desacordada.

--

— Hum?! — sussurrou ela, ao acordar sentindo dores na cabeça.
Um frio gelado passou por seu corpo, e em segundos notou não estar caída sobre o chão de seu quarto. Abrindo os olhos no susto da percepção, se viu deitada sobre a areia.
— AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHH! — Ela soltou um grito e logo ficou estática.
Seria uma brincadeira dos veteranos da universidade? Definitivamente, não. Ela se levantou ainda zonza e começou a caminhar, sentindo parte da areia entrar em seu All star.
— Alguém?! — gritou ela — Não tem graça nenhuma, já podem sair e desligar qualquer que seja o holograma.
A todo custo, queria acreditar que ainda estava em algum lugar do campus onde os veteranos a observavam cair no trote dos calouros. Porém, a cada metro que avançava em sua caminhada, mais suas esperanças diminuíam. Insano para ela imaginar que estivesse mesmo em meio a um deserto como os que via nas muitas fotos que tinha em suas pastas do Pinterest. Até que avistou um grupo de pessoas que se abrigava com simples tendas de tecido perto de uma fogueira.
— Senhor, por favor — disse ao se aproximar do que parecia ser uma família nômade.
— Oh! — A mulher se assustou ao olhá-la, como se visse um fantasma em meio ao nada.
achou curioso seus trajes que lembravam uma burca, com somente seu rosto à mostra. Sentindo-se ainda mais perplexa pela criatividade dos veteranos. Afinal, como é que eles sabiam de seus gostos pela rica cultura mediterrânea?
— Quem é você? — O homem se levantou e pegou a lança ao lado, apontando para ela.
— Por favor, não me machuque, eu só preciso de ajuda, não sei onde estou — disse ela, tentando não ficar mais desesperada do que já se encontrava.
— Não sabe onde está? — A mulher olhou para o homem — De certo ela não é persa, menos ainda egípcia; será uma escrava fenícia que fugiu? Ou hebréia?
— Eu não sou uma escrava — assegurei.
— O que faz no deserto sozinha? Se não é uma escrava fujona — disse ele.
não sabia como, mas conseguia entender o que eles diziam, já que não falavam seu inglês tradicional. O mais louco de tudo, eles também entendiam o que ela falava.
— Eu estava em meu quarto, uma luz brilhante me jogou na parede e vim parar aqui… — Ela parou por um momento, assimilando o que havia dito e avaliando as palavras. — Vocês não vão acreditar em mim.
— O cordão — disse a mulher, apontando para o cordão que misteriosamente estava no pescoço dela.
— O quê?! — passou a mão no pescoço e sentiu o objeto nele — Isso.
Foi isso que me trouxe aqui?! Pensou ela.
— Eu já vi esse cordão antes — comentou o homem. — Quando criança. Onde o conseguiu?
— Se eu contar, não vão acreditar — disse ela, com certeza de suas palavras. — Mas, preciso de ajuda. Preciso saber onde estou e como faço para voltar para minha casa.
— Você está nos limites do império persa, sob o domínio do cruel rei — explicou o homem, voltando a se sentar em frente à fogueira e deixando a lança ao lado. — O lado em que estamos pertence aos ladrões do deserto, uma terra sem lei e amaldiçoada pelos reis.
Império Persa? Ela engoliu seco. O quê? Isso aqui não é As Crônicas de Nárnia, menos ainda Outlander. Pensou consigo suas referências de literatura.
— Sente-se aqui, venha se aquecer — disse a mulher, oferecendo uma capa para ela. — O deserto é frio à noite, e pode haver tempestades de areia também.
assentiu com a face e pegou a capa, se cobrindo com ela. Então assentou mais próximo ao fogo e ficou observando em partes a troca de afeto do casal.
— Céus… Como vim parar aqui?! — sussurrou para si, ao alisar o pingente em seu pescoço com o dedo indicador. — Como vou voltar?!
Era inacreditável, mas a jovem universitária não estava mais em Stanford, e sim em meio ao deserto da Pérsia Antiga.

Venho de um lugar,
Onde sempre se vê uma a caravana passar
Vão cortar sua orelha

Pra mostrar pra você
Como é bárbaro o nosso lar.
- Arabian Nights / Aladdin



Fim.


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: Welcome to Pâms' Fictionverse!!!

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