Revisada por: Saturno 🪐
Finalizada em: 20/07/2025Foi algo bem maluco e sem sentido. Eu tinha acabado de assinar um contrato com o ANAHEIM DUCKS, simplesmente o melhor time de hóquei no gelo do mundo. Era um sonho que eu estava realizando, entraria para o time titular como o center e certamente, com meu talento e amor pelo esporte, seria o novo capitão em breve. Foi neste mesmo dia que saí para comemorar com alguns amigos e, na volta para casa, esbarrei nela em meio à estação de metrô. Bem, para ser sincero, não esbarramos fisicamente, porém que homem conseguiria ignorar uma garota em lágrimas com roupa de baile, sentada no chão da plataforma?
Eu não consegui ignorá-la, talvez teria sido melhor, mas não consegui e ofereci meu ombro amigo. Acabei descobrindo que ela tinha levado um fora do rei do baile em plena formatura, o que me deixou ainda mais sensibilizado com aquela rainha solitária, que nem se importava mais se seu vestido estava sujando ou não. Depois daquela noite, nos tornamos próximos. Tenho que admitir que, no meu caso, a fascinação por ela foi à primeira vista. E fiquei impressionado assim que ela me enviou uma mensagem anunciando sua mudança para a Califórnia.
Estando na mesma cidade e nos vendo quase diariamente, meu coração não poderia mais negar o óbvio que eu sentia por ela. De amigos próximos, nos tornamos namorados inseparáveis. Estar com ela me fazia bem, mesmo com suas fotos repentinas, que sempre queria registrar nossos momentos juntos e postar no Instagram. Eu tinha que admitir, ela era um pouco ambiciosa com essa coisa de exposição exagerada, principalmente por querer ser uma influencer popular, ter muitos seguidores e sonhar em estar nos grandes eventos de celebridades.
Para mim, no início, era bastante divertido, até o momento que alguns dos meus amigos do time começaram a criticar esse lado dela.
— E mais uma vez estamos brigando por causa disso — eu afirmei a realidade, jogando algumas roupas minhas na mala.
— Estamos brigando? — Ela cruzou os braços, com seu jeito impaciente de entender a situação. — Até agora, só você quem falou aqui. Se está insatisfeito com meu jeito de agir, não posso fazer nada por você. Antigamente não reclamava.
— Antigamente eu não era tão conhecido assim. Sou um atleta profissional, sabia que minha vida pessoal reflete na profissional? — Alterei um pouco meu tom de voz, controlando a chateação. — E adivinha, suas postagens estão sendo muito comentadas entre o time e em toda a mídia que acompanha o campeonato.
Nosso relacionamento já perdurava por três anos, com altos e baixos. Eu tentava relevar sua nova posição profissional de influencer e como ela utilizava minha imagem para manter seus seguidores. Porém suas últimas postagens começaram a me afetar dentro da pista de gelo, e no último jogo, em um comentário maldoso de um jogador do time adversário, fiz algo indevido e levei cartão vermelho do juiz, sendo expulso em seguida.
Eu a amava, mas sua exposição exagerada estava me deixando louco.
— E por um acaso isso está atrapalhando? — retrucou ela, ao colocar a mão direita na cintura, demonstrando indignação.
— Quando minha namorada posta foto cheia de joias e carros diferentes. — Eu fechei a mala e a olhei. — Já viu todos aqueles comentários tendenciosos?
— Sério? — Ela bufou. — Está mesmo preocupado com o que as pessoas estão falando de mim?
— Não só de você, mas a maioria das pessoas acham que nosso relacionamento é comprado, que você só quer meu dinheiro, minha fama, algo do tipo. — Mantive a seriedade no olhar.
Parecia que meus argumentos não eram relevantes.
— E você? O que acha?
Me mantive em silêncio.
— Nem precisa responder. — Ela pegou sua bolsa que estava em cima da escrivaninha e saiu do quarto.
— Espera, — disse, indo atrás dela. Não era assim que eu desejava o direcionamento da nossa conversa. — Não é isso que…
— Pare. — Ela me olhou. — Você já disse tudo que queria dizer, ou melhor, não disse o que realmente importava.
Eu nem tive mais reação, meu celular começou a vibrar no meu bolso.
Era um dos staffs do time que veio para me buscar. Teríamos um jogo importante dali dois dias, contra o Vancouver Canucks, no Canadá, em nosso terceiro jogo pela National Hockey League. Nossa partida antecipada fazia parte do programa de preparação física pré-jogo. Eu a deixei ir, estático pelas emoções afloradas de ambos e precisando manter a cabeça no lugar por minha responsabilidade como o novo capitão do time…
Eu apenas a deixei ir.
Assim que entramos no avião, tentei deixar todos os meus problemas com na Califórnia, como se fosse realmente possível. Entretanto, limpar minha mente era mais do que necessário para ganhar o jogo. Porém nem tudo que queremos é o que temos, e sempre que forçava a desviar meus pensamentos dela, mais e mais seu rosto invadia minha mente. Talvez eu tenha sido muito frio com ela, mas sua forma de agir sempre foi assim, e ela nunca negava que o lado positivo de estar comigo era meu grande sucesso como jogador de hóquei. Talvez, por isso, eu estava tão inseguro quanto ao que ela realmente sentia por mim.
Queria confiar nela, mas não sabia como.
— Ei, cara, você está mesmo bem?! — perguntou Sam, outro jogador titular e um grande amigo. — Ficou calado durante todo o voo.
— Só um pouco cansado. Tivemos dois jogos com datas próximas e muitos treinos entre eles. — Dei uma desculpa qualquer relacionada ao time. — Mas estou bem, sim.
— Hum, e a namorada? — Insistiu ele. — Eu vi as postagens dela esta manhã.
— Olha, não me leve a mal, mas eu quero me manter concentrado — pedi a ele, demonstrando não estar aberto ao assunto. — Vou para o meu quarto.
Segui para a direção do elevador, já tinha encerrado mesmo a reunião com o treinador no auditório do hotel, então nosso dever era descansar para a partida. Me esforçaria ao máximo para conseguir, tanto física quanto mentalmente. Foram poucas horas de paz, com meu corpo estirado na cama e meus olhos fechados. Nem mesmo a roupa coloquei, e a toalha em meu corpo já se encontrava seca. O meu celular vibrou em cima da mesa de apoio ao lado da cama, me despertando de um cochilo.
Ainda sonolento pelo sono, tentei ignorar o aparelho, me virando para a direção oposta e fingindo não ouvir. Certamente eram os membros do time querendo minha presença em alguma resenha clandestina que planejavam para a noite de descanso. Por insistência do barulho que me incomodava, peguei o celular e verifiquei as notificações. Tinha uma em especial do instagram, mais uma postagem da . Abri o whatsapp e tinha uma mensagem do Juan, nosso novo jogador de ala, com um link me dizendo que eu deveria ver aquele vídeo. Respirei fundo, antes de clicar e me deparar com algo inacreditável. Era um vídeo de , segurando um taco de beisebol nas mãos e jogando uma pulseira de esmeralda que eu a tinha dado de presente de Natal sabe lá onde.
Minha reação? Eu não tive nenhuma.
Definitivamente ela era louca e não tinha medo de assumir isso, além de me fazer pensar se ela realmente só estava comigo pela minha imagem ou não, e se tinha alguma mensagem subliminar no fato de ela estar com o equipamento de outro esporte. Eu não me daria o trabalho de criar teorias da conspiração para descobrir. Suas postagens seguintes me deixaram ainda mais perplexo e confuso. Bem óbvio que aquilo já estava me afetando de alguma forma não muito positiva. Mesmo tentando não aparentar para ninguém, menos ainda para o técnico, não tinha mais nem certeza se conseguiria jogar.
Só não queria atrapalhar o time com meus problemas pessoais.
— Essa garota é um problema — disse um dos jogadores do time rival, assim que se aproximou de mim no ringue de gelo.
— O quê? — Eu o olhei sem entender.
— Não dê ouvidos a esse idiota — disse Finn, ao se aproximar de mim.
— Não, eu quero que ele me diga por que disse isso — retruquei, já me irritando.
— Deveria olhar no instagram. — Ele se afastou, rindo.
— Já marquei esse cara — disse, me virando para Finn. — Eu vou quebrar os dentes dele hoje.
— Calma, — disse ele. — Pense no time. Esse jogo de hoje é importante para nós. Você é o nosso melhor atacante, está quase conseguindo e acabou de ser nomeado o capitão, não estrague tudo.
— Não vou estragar. — O tranquilizei. Não iria mesmo.
Assim que o apito soou, o jogo mais violento entre todos começou, e claro que eu me aproveitaria disso para tirar minhas satisfações. Finn iria me desculpar, mas a provocação oculta não ficaria de graça. Foi neste momento que o filho da… esclareceu o assunto que se referia a , um assunto que já estava rodando no meio de todos os times de hóquei, me deixando ainda mais raivoso. As consequências de suas palavras foram muitas colisões violentas durante o jogo, uma bela briga nos últimos minutos, com direito a algumas fraturas e expulsões. Resultado, eu havia me machucado. No meio da confusão, levei um corte no braço direito, acidentalmente provocado pelos patins de um dos adversários que também entrou na briga.
Fui levado às presas para o hospital. Para a minha sorte, e que sorte, aquele corte não era tão profundo assim e não tinha afetado meus ligamentos ou artérias. Meu braço estava cinquenta por cento comprometido pela quantidade de sangue que eu tinha perdido, tanto que o sentia parcialmente gelado, mas não a ponto de ter que amputar, ou algo do tipo. O médico não quis me esclarecer muita coisa, talvez para não me deixar ainda mais preocupado, ou me sentindo culpado por ter provocado a briga, mas, no geral, segundo ele, eu ficaria bem. Entretanto, minha preocupação não era comigo mesmo, e, sim, com uma certa garota problema — era assim que todos a estavam chamando.
Sim, o que queria ela conseguiu. Havia voltado a atenção de todos que conheciam o hóquei para ela, assim como os curiosos fãs de beisebol.
Me deixando ainda mais louco.
- x -
Uma semana naquele hospital esperando a poeira abaixar e a mídia parar de falar sobre aquela briga desastrosa. Ainda recebia muitas ligações, tantas que me fizeram desligar o celular temporariamente. Sem comunicação, sem redes sociais, apenas eu e o silêncio para me recuperar adequadamente.
— Tenho que te lembrar que o técnico está uma fera com você? — disse Calton, ao me ajudar a levantar da cama do hospital.
— Não precisa, mas agora a única coisa que quero é ir para casa. Com o técnico eu resolvo assim que voltar a jogar. — Respirei fundo, me apoiando de leve nele. — Além do mais, essa briga toda já está sendo esquecida pelas pessoas.
— Não sei de onde você tira essa sorte. — Ele deu uma risada boba. — Briga no jogo, quase perde o braço, não vai poder jogar nos próximos jogos e ainda assim continua tendo patrocínios. E por falar nisso, me parece que recebeu proposta de mais três, mas nossa relações públicas disse que só vai te informar quando voltar.
— Tenho que ter sorte em algo, já que minha vida amorosa está um desastre. — Suspirei fraco.
— Nem vou comentar para não estragar seu dia — brincou ele, segurando o riso.
— Agradeço a empatia — sussurrei, sentindo um gosto amargo na boca.
Não aguentando, ele riu abertamente.
Mas era uma cruel realidade, minha vida amorosa realmente não estava muito boa. Eu ainda amava a , mas não sabia se ela pelo menos gostava de mim, ou algo aproximado. Calton me acompanhou até meu novo apartamento na Califórnia. Após me deixar devidamente instalado, ele seguiu para o prédio do DUCKS para reportar meu relatório médico atual.
Seria complicado para um destro fazer tudo com a mão esquerda, mas eu tentaria me virar naquele novo lar. Abri minha mala, que Calton tinha deixado na sala, e procurei meu celular, que tinha ficado todo o tempo ali dentro desligado. Não voltaria atrás sobre me distanciar de qualquer contato que poderia ter com redes sociais. Assim que coloquei o celular para carregar, a campainha tocou. Estranho o porteiro não ter anunciado nada pelo interfone. Caminhei até a porta despreocupado e, sem conferir quem seria pelo olho mágico, abri a porta.
Meu corpo gelou.
— ?! — disse assustado.
— Oi, . — Ela logo desviou seu olhar para meu braço enfaixado. — Posso entrar?
— Claro. — Tentei agir de forma tranquila e abri um pouco mais a porta, a deixando entrar. — Fique à vontade.
— Eu passei no DUCKS para saber se estava bem, então me disseram que estava de volta e… tinha mudado de endereço. — Sua voz estava mais baixa que o normal, e seus olhos demonstraram uma discreta preocupação.
— Bem, eu achei melhor me mudar para um lugar próximo ao meu trabalho — expliquei, fechando a porta. — E você?!
— Eu o quê? — Ela manteve sua atenção em mim.
— O que a traz aqui? — indaguei, ainda surpreso com sua presença.
— Vim para cuidar de você?! — Soou com tanta naturalidade que me chocou.
— O quê? — Por essa eu não esperava.
— Achou mesmo que eu deixaria meu namorado assim? Quando mais precisa de mim? — Ela cruzou os braços, me olhando desacreditada.
— Seu namorado?! — Agora eu não estava entendendo mais nada.
— Sim. — Assentiu ela, dando um sorriso natural. — Não achou que eu tinha terminado, né?
— Mas e as fotos e o vídeo no instagram? — perguntei.
— Bem, eu estava um pouco chateada com você. Ou melhor, estava irritada. — Ela descruzou os braços, gesticulando um pouco. — Principalmente por ouvir outras pessoas e não acreditar em mim.
— Me perdoe por isso. — Me aproximei um pouco mais dela. — Eu fui totalmente injusto com você, mas…
— Foi mesmo. — Ela desviou seu olhar para a mesa de centro. — O que são todas essas garrafas de Soju?
— Eu estava planejando me afundar nelas — expliquei, meio envergonhado.
— Sério? — Ela me olhou. — Ia mesmo se embebedar com o braço assim?
— O que tem? É o meu braço que está enfaixado, não o meu fígado — retruquei.
— Aish. — Ela pegou a sacola com as garrafas e levou para a cozinha. — Não vou deixar você se alcoolizar ainda se recuperando de um machucado.
— Você vai mesmo ficar aqui e cuidar de mim?!
— Claro — confirmou ela. — Achou que eu estava brincando?
— Não, é que…
— Olha, , serei sincera com você. — Seu tom ficou mais sério, porém manteve o olhar sereno. — Admito que cinquenta por cento de mim quer se beneficiar da sua fama, não serei hipócrita em dizer que não.
— E os outros cinquenta por cento? — Agora era a hora da verdade.
— A outra metade de mim te ama de verdade. — Ela sorriu de canto. — Sei que posso ser um problema…
Eu a interrompi com um beijo intenso e doce. Era como se meu coração e cérebro não precisassem de mais nada, mais nenhuma explicação.
— Não diga mais nada, não me importo que seja um problema — sussurrei. — Você é a minha garota problema.
“Eu estou enfrentando a garrafa,
Para todos os meus problemas,
Estas modelos Instagram,
São nada além de problemas.”
— Nothing But Trouble (Instagram Models) / Charlie Puth
— Pâms.
