Revisada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 09/03/2026
Enquanto a cidade se entregava à euforia do Halloween, uma figura sombria espreitava as profundezas do porto. Escondida pelas sombras e protegida pelas ruínas de um navio naufragado, uma feiticeira recém-libertada de seu aprisionamento, buscava por uma relíquia ancestral, O Orbe da Obediência. Um artefato celestial amaldiçoado que permitia controlar a mente de outras pessoas. Seus olhos, cintilantes como a noite, fixaram-se em um antigo mapa desenhado em pergaminho em suas mãos, onde um ponto luminoso marcava a localização do orbe e de outro artefato, conhecido como O Livro das Sombras. Este outro, segundo as lendas, concederia a quem o possuísse poder absoluto, um livro proibido que continha feitiços poderosos, mas que corrompia a alma de quem o lesse.
Enquanto isso, na superfície, uma densa nuvem de fumaça negra e opaca se alastrava implacavelmente por todo lugar, cobrindo a cidade de Yokohama com um manto de trevas. Delineando com escuridão da fumaça, uma figura encapuzada emergia, com seus olhos cintilando com uma luz sinistra capaz de cortar a noite. A euforia que antes inundava o centro da cidade agora se transformava em um rugido de terror. A multidão, antes eufórica, era arrastada por uma onda de pânico, tropeçando em restos de fantasias e máscaras estilhaçadas. A terra tremia com a violência de um gigante adormecido, engolindo gritos e risadas em um abismo de caos. Vidros espatifaram-se, alarmes estridentemente chilreavam e o cheiro de gás se espalhava pelo ar.
A feiticeira, de volta à superfície, vestindo uma capa esvoaçante e olhos que brilhavam como brasa, observava tudo de maneira prazerosa. O ar úmido e salgado que cobria sua pele não conseguia abafar o calor que emanava de seu corpo.
— Séculos aprisionados nas profundezas ansiando por este momento… — proclamou a figura encapuzada. — A era para o nosso domínio está prestes a se iniciar. O portal para o nosso reino, forjado nas profundezas do abismo, se abrirá, e a humanidade, em sua mera insignificância, será inundada pela imensidão do nosso poder. — Com um sorriso que revelava uma crueldade profunda, a figura encapuzada proclamou. — A ordem natural será invertida. Daremos um fim a todos os que possuem habilidades sobrenaturais e faremos o planeta inteiro se render à nossa vontade. — Ele virou-se em direção a feiticeira, com os olhos brilhantes. — Com o Livro das Sombras, o Orbe da Obediência e o nosso poder...
— A cidade de Yokohama será nossa — completou a feiticeira, sorrindo triunfante. A cada passo que a mulher em direção à figura encapuzada, o piso tremia sob seus pés, como se a terra estivesse viva e a temesse. — E com ela, o mundo! — Com sua voz melodiosa e sinistra, a feiticeira garantiu, estendendo o artefato celestial, envolto em névoa negra, para a figura de capuz. Em seu braço direito, estava um símbolo de corvo totalmente negro.
— O Despertar das Sombras finalmente chegou. — Com um gesto majestoso, o chão se abriu, revelando um abismo que se estendia até o infinito. O portal, adormecido sob as ruínas de um templo esquecido, começou a emitir uma luz pulsante, rasgando a escuridão. — Agora, toda a humanidade conhecerá o verdadeiro significado de poder — ele sussurrou, seus olhos brilhando com uma intensidade sinistra. A névoa, que se erguia pelo porto, carregava um odor fétido e a promessa de algo maligno, enquanto as luzes da cidade cintilavam fracamente, como se a escuridão tentasse apagá-las. As forças do caos se agitaram e o mundo tremeu perante a iminente catástrofe. Com sorriso enigmático e perverso nos lábios, a figura encapuzada e a feiticeira se fundiram à escuridão, desaparecendo nas sombras. Um silêncio sepulcral se instalou, quebrado apenas pelos gemidos das estruturas danificadas. O terremoto havia aberto uma fenda e as forças do mal se preparavam para invadir Yokohama.
Observando de longe, em meio ao caos que se alastrava pela cidade, um jovem, antes perdido na multidão, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Uma sensação de medo o consumia, algo muito estranho estava acontecendo. Embora tentasse manter a calma, havia algo diferente, algo mais profundo e sombrio.
— Dazai… sou eu... — o garoto disse, com o celular sobre seu ouvido, fazendo uma pausa breve. — Estamos com sérios problemas.
Horas antes do ocorrido.
No Escritório da Agência de Detetives Armados, localizado no topo de uma encosta próxima ao porto de Yokohama, a atmosfera era carregada de uma tensão palpável. Ao redor de suas mesas, a equipe de detetives especiais debruçava-se sobre seus casos, enquanto as ruas vibravam com a alegria contagiante das pessoas fantasiadas e o tilintar dos baldes de doces. Dentro daquela fortaleza de tijolos, a agência era um refúgio de seriedade, a animação lá fora era um eco distante, contrastando com a concentração intensa dos detetives, que se preparavam para mais uma semana de trabalho que prometia ser longa e desafiadora desde o incidente envolvendo Fiódor Dostoiévski, líder de uma organização clandestina chamada Ratos na Casa dos Mortos, e um dos cinco membros da Decadência dos Anjos. A luz fraca das lâmpadas amarelas e a luz da tarde que entrava pela janela, junto com o tique-taque implacável do relógio na parede, amplificavam o silêncio que pairava sobre as mesas repletas de papéis espalhados e telas cintilantes.
Com seus olhos cansados e uma expressão marcada por noites mal dormidas, Atsushi Nakajima analisava meticulosamente um mapa rabiscado à sua frente. Seus dedos tamborilavam impacientes sobre a madeira da mesa enquanto seus pensamentos se perdiam nos detalhes do caso. A mesa à sua frente estava desocupada e vazia, e à direita dela, Doppo Kunikida, seu colega de trabalho, com seu olhar fixo na tela do notebook, mantinha sua respiração concentrada e pensamentos totalmente imersos à realidade. Enquanto à sua esquerda, e de frente para Kunikida, Osamu Dazai, seu experiente colega e mentor, repousava serenamente sobre sua mesa, em um sono profundo. No canto direito, saboreando uma caixa de salgadinhos, estava Ranpo Edogawa, e na extremidade oposta da sala, Jun’Ichirou Tanizaki e sua irmã, Naomi, estavam imersos em seus trabalhos. De repente, a porta se abriu e *Kyōka Izumi entrou no local, carregando uma pilha de livros na altura de seus olhos. Atsushi, que até então estava distraído, observando o mapa, levantou-se rapidamente e foi ao encontro da garota que estava próxima a porta.
— Ei, deixa que eu te ajudo! — exclamou o garoto, pegando os livros com cuidado, caminhando até a mesa vazia em frente a sua. — Sabe, já que teremos o resto do dia livre, o que acha de irmos juntos ao centro da cidade? — perguntou o rapaz, virando-se para a garota. Kyouka, com seus olhos cintilando sob a luz fraca do escritório, sorriu minimamente com a oferta de Atsushi, aceitando sem hesitar.
— Nós dois? — ela perguntou, observando o jovem detetive com um olhar brilhante.
— Sim, o que acha? — Atsushi perguntou.
— Tipo um encontro? — murmurou ela. Atsushi coçou a nuca, envergonhado.
—Hm... Não é isso. Quer dizer... acontece que você nunca foi em um festival de Halloween antes e... e, bem... desde que você se juntou à Agência, você não teve a chance de viver experiências assim — começou ele, gaguejando. — De ser um pouco mais humana, sabe? Sem alguém para te controlar — explicou. — Nesse festival, você pode ser quem quiser, sem se preocupar com o passado ou a Máfia do Porto. — Kyouka sorriu levemente, seus olhos cintilando de gratidão. A sinceridade de Atsushi era evidente, e ela apreciava o gesto.
— Tudo bem. Eu adoraria ir com você — respondeu ela, com a voz suave.
Atsushi soltou um suspiro de alívio, um sorriso largo se espalhando por seu rosto. Nakajima sorriu com a resposta.
— É diferente de tudo que você já viu. Tem música, dança, comida deliciosa e outras coisas. Coisas que você precisa experimentar para entender. E, bem, acho que você vai gostar... Eu prometo que será divertido — garantiu o rapaz. Kunikida, que ouviu a conversa, levantou a cabeça do notebook e olhou para os dois.
— Não se esqueçam de estarem sempre em alerta a qualquer ocorrência suspeita! Hoje a cidade de Yokohama estará mais agitada do que o normal — advertiu o loiro, voltando sua atenção para a tela. Dazai, que antes cochilava sobre sua mesa, levantou a cabeça, apoiando o queixo em sua mão esquerda e, ainda sonolento, abriu um dos olhos, lançando um olhar divertido para os dois jovens.
— E tomem cuidado com os fantasmas, crianças! — brincou ele, fechando o olho novamente. Atsushi, impulsionado pela brincadeira de Dazai, começou a levar a sério a possibilidade de fantasmas.
— Você realmente acredita em fantasmas, Dazai? — perguntou o garoto, inquieto, voltando para a sua mesa.
— Quem sabe? O mundo está cheio de mistérios, não acha, Nakajima? — O rapaz de cabelos castanhos escuros, curtos e levemente ondulados, com seu sorriso enigmático, respondeu com outra pergunta.
— Por favor, Dazai, não assusta ainda mais o pirralho! Fantasmas não existem! — Kunikida disse, o repreendendo. O rapaz sonolento à sua frente, agora de olhos fechados, movimentava seu braço direito — indo e voltando — enquanto segurava um aviãozinho de papel. Seu braço acabou esbarrando e derrubando alguns livros de sua mesa sobre o notebook do loiro, que acabou fechando.
— Dazai, você não cansa de causar problemas? O que você acha que está fazendo? Você não tinha que resolver uns assuntos? — Levantou-se rapidamente e apoiou-se para frente, sobre a mesa, fazendo o rapaz de bandagens recuar e encará-lo com as mãos sobre a boca. Enquanto Atsushi observava o colega, imóvel.
— Você está precisando tirar umas férias da agência, Kunikida. Desse jeito você vai acabar sozinho — Dazai disse, simplesmente. O loiro, com as veias pulsando no pescoço, ajeitou os óculos em seu rosto e aproximou-se ainda mais, um tanto exaltado.
— Você está me provocando, Dazai? Sabe muito bem que não podemos simplesmente abandonar o nosso trabalho. Temos responsabilidades! — exclamou, com seus olhos verde-acinzentados, faiscando de raiva. Dazai, imperturbável, apenas sorriu.
— Relaxa, Kunikida. É só uma sugestão. Afinal, quem precisa de um parceiro que só sabe reclamar? — o rapaz de bandagens provocou, se recostando na cadeira.
— Reclamar? Você acha que estou de brincadeira? Temos muitos casos para resolver e você... Meu Deus, você dormiu praticamente o dia inteiro! — exclamou, tentando controlar a raiva. Dazai, por sua vez, apenas observava a reação do parceiro com um sorriso divertido.
Antes que seu colega fizesse mais um comentário para irritá-lo ainda mais, a porta do escritório se abriu de repente, Kenji Miyazawa, acompanhado de um visitante inusitado, adentrou o ambiente. A um palmo de distância do garoto, uma vaca pastava tranquilamente, chamando a atenção de todos.
— Oi, pessoal! — Kenji, parado a pouco metros à porta, dentro do escritório, acenou para os companheiros, mas no entanto, logo atrás do garoto estava uma vaca, que mastigava calmamente. A reação dos colegas foi imediata: bocas abertas, olhos arregalados e risos nervosos tomaram conta do escritório. Kunikida, com a sobrancelha arqueada, encarou o animal parado entre o lado de dentro e fora do escritório. O loiro, suspirando profundamente, correu rapidamente na direção do animal, colocando-a para fora.
— Uma vaca? Mas o quê? — Atsushi, assustado, murmurou.
— Por Deus, Kenji, como essa vaca veio parar aqui? — exclamou Doppo ao retornar à sala. Miyazawa, parecendo não entender a reação do mais velho, coçou a cabeça, com um sorriso bobo no rosto.
— Ela parecia tão perdida aqui na cidade grande... achei que precisava de ajuda. — O garoto, de olhos dourados e cabelos loiros curtos que iam além da nuca, deu de ombros, com a maior naturalidade.
— E achou que ela encontraria justo aqui? — perguntou Kunikida, ajustando os óculos em seu rosto, em seguida caminhou até a janela e respirou fundo, tentando manter a calma.
— Mais uma prova de que a ingenuidade de Kenji não tem limites. — Dazai se levantou e começou a recolher os livros que havia derrubado sobre a mesa de Kunikida.
— Como se espera de uma agência de detetives, sempre há uma surpresa — Ranpo, sem tirar os olhos de sua caixa de salgadinhos, murmurou. Os irmãos, Tanizaki e Naomi, surpresos com a visita inesperada do animal, voltaram suas atenções para o que estavam fazendo, tentando agir normalmente. Enquanto Kyouka apenas observou a cena de relance.
A brisa gélida, que serpenteou pelo cômodo, trazia um alívio momentâneo ao calor do dia. Atsushi, recuperado do susto, passou a mão por seus cabelos brancos e soltou um suspiro profundo, tentando se recompor. Começou a organizar sua mesa e guardou o mapa rabiscado à sua frente, olhando para o relógio na parede, ficando de pé logo em seguida.
— Vamos? — perguntou, dirigindo-se à Kyouka. Seus olhos brilharam com uma estranha intensidade. Kunikida, que observava as crianças fantasiadas pela janela, virou-se para eles.
— Mais uma vez, tenham cuidado. É Halloween, e sabemos como as coisas podem se complicar nessa época. Pode não parecer, mas ainda estamos nos recuperando do incidente com a Decadência dos Anjos. Qualquer coisa fora do comum, reportem imediatamente — Kunikida concluiu, seu olhar percorrendo os dois jovens com uma preocupação genuína.
Atsushi assentiu, sua expressão agora mais sóbria. A lembrança dos eventos recentes envolvendo Fyódor e a Decadência dos Anjos pairava sobre todos na agência, como uma sombra persistente. A alegria do Halloween lá fora parecia ainda mais distante diante daquela realidade.
— Entendido, Kunikida — Atsushi respondeu, um tom de determinação em sua voz. Kyouka, ao seu lado, também acenou com a cabeça em concordância, seus olhos transmitindo uma seriedade incomum para sua idade.
— Tomaremos todo o cuidado possível — Nakajima respondeu, embora tentasse esconder a preocupação que sentia. Kyouka, percebendo a tensão no ar, colocou a mão no ombro do rapaz.
— Não se preocupe, Atsushi. Estaremos juntos — A garota disse. O garoto suspirou, mas um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
Atsushi e Kyouka saíram da agência caminhando lado a lado, apreciando a atmosfera festiva de Yokohama. A cidade estava vibrante, decorada com abóboras, figuras assustadoras e teias de aranha. Crianças fantasiadas corriam pelas ruas pedindo doces, jovens e adultos davam risadas, enquanto estrangeiros e nativos se divertiam juntos. Enquanto caminhavam por uma rua mais tranquila, Nakajima e Izumi notaram um cartaz colado em um poste e decidiram ver o que estava escrito.
— Olha, está acontecendo um Festival de Máscaras e Fantasias no centro de Yokohama! — Atsushi leu em voz alta. Virando-se para a garota ao seu lado. — Que tal se a gente participar? — sugeriu ele, animado.
— Mas… nós não estamos usando nenhuma das opções escritas no cartaz — Kyouka respondeu. O garoto pensou por um momento.
— Vem comigo, eu tenho uma ideia! — exclamou ele.
Enquanto seguiam em frente, Atsushi notou uma pequena loja de fantasias e adereços do outro lado da rua.
— Olha lá, Kyouka! — disse o garoto, apontando para o estabelecimento. — Talvez encontremos algo legal naquela lojinha — afirmou, puxando a garota com delicadeza em direção à loja.
Ao adentrarem o estabelecimento, os dois observaram a vitrine, que estava decorada por máscaras de animais, personagens da cultura japonesa e deuses mitológicos, que se entrelaçavam com as fantasias de bailarinas, super-hérois, piratas e personagens de contos de fadas, criando um cenário completamente mágico. Enquanto a iluminação suave do lugar realçava as cores vibrantes dos objetos, criando uma atmosfera de mistério e encanto. Atsushi e Kyouka, parados diante de uma prateleira, ficaram hipnotizados pela profusão de cores e pelas formas das máscaras, com seus olhos vazios e expressivos, que pareciam observá-los.
— Esta ficaria bem em você — Kyouka sussurrou, apontando discretamente para cima. Atsushi seguiu seu olhar e seus olhos se arregalaram. Uma máscara de tigre branco, com as laterais dos olhos cobertas de cristal, que pareciam pulsar de vida, os observava de cima. Um sorriso tímido se espalhou pelo seu rosto, enquanto seus olhos brilhavam com a mesma intensidade que os cristais da máscara de tigre.
— Acho que você tem razão — ele concordou, estendendo a mão para pegá-la. Com a ponta dos dedos, Atsushi traçou as delicadas linhas da máscara de tigre. A pelagem branca contrastava com a intensidade de seu olhar, e por um instante, pareciam se fundir. Um sorriso tímido se espalhou por seus lábios novamente. Aquela máscara era mais do que um simples objeto; era uma extensão de si mesmo. Kyouka, que o observava atentamente, notou uma pequena lágrima escorrendo pelo rosto de Atsushi. Ela se aproximou e, com cuidado, enxugou a lágrima com o polegar. O rapaz, percebendo o que havia acontecido, pareceu voltar à realidade. Um tremor em sua voz denunciava a emoção que ele tentava conter. — Essa máscara... ela me lembra de um tempo muito difícil. Um tempo em que eu não me sentia digno de nada. — Ele fechou os olhos, como se estivesse revivendo uma lembrança dolorosa. Inesperadamente, Kyouka o puxou para um abraço apertado. Ele se deixou levar, sentindo o calor do corpo dela e a força de seus braços. Por um instante, todos os seus medos e inseguranças pareciam desaparecer.
— Desculpe, Kyouka. Eu não queria que você me visse assim. — Ele levou a mão até a máscara, como se precisasse dela para se sentir mais forte. Ele sacudiu a cabeça de um lado para outro levemente. — Bom... mas e você? Que máscara você pretende escolher? — Ele sorriu de lado, curioso para saber qual seria a resposta dela. Izumi pensou por um momento, deslizando seus dedos pela superfície fria da prateleira. Em seguida, seus olhos se fixaram na máscara de coelho, próxima à fantasia de fada.
— Essa aqui... — murmurou ela, com um brilho em seus olhos. — Eu gosto de coelhos — disse, colocando a máscara no rosto. A pelúcia macia cobriu seu rosto, deixando apenas seus olhos à mostra. Ela girou, observando sua imagem refletida no vidro da vitrine. — O que você acha? — perguntou, virando-se para o Atsushi.
— Você está adorável! Combina com você. — O garoto não conseguiu conter o sorriso. Após escolherem e pagarem suas máscaras, os dois saíram da loja e seguiram em direção ao local do festival de Halloween. Enquanto caminhavam em direção ao centro da cidade, Atsushi observou Kyouka, que parecia encantada com as decorações e com as pessoas fantasiadas.
— Está gostando? — perguntou ele, sorrindo. Ela assentiu com a cabeça, os olhos brilhando.
— É bem diferente do que eu imaginava — respondeu ela. O garoto sorriu ainda mais largo, sentindo-se feliz por poder proporcionar essa experiência à ela.
As máscaras em seus rostos cintilavam intensamente sob as decorações da cidade de Yokohama, o festival de Halloween invadia o ar com a frescura do fim da tarde enquanto a noite começava a se aproximar, trazendo o aroma doce e fumegante de algodão doce, enquanto o som da música pulsava em seus ouvidos. No meio da multidão, sorrindo para as pessoas que os cumprimentavam, Atsushi percebeu algo estranho: uma figura com máscara de águia que os observava de longe. Ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha e tentou seguir a figura com os olhos, mas ela já havia desaparecido.
— Você viu aquilo, Kyouka? — perguntou ele, vendo-a negar com a cabeça. — Hm… Deve ter sido minha imaginação. Vamos seguir em frente — ele disse, deixando aquilo de lado por um momento. E então guiou a garota pela multidão. — Quer experimentar um doce típico do Halloween? — sussurrou em seu ouvido, devido ao som de vozes altas e a música que vinha de uma das lojas. Ela virou-se para ele e concordou com a cabeça. — Ótimo! — ele disse, guiando-a até uma barraquinha próxima.
A vendedora, uma senhora sorridente com um avental estampado de abóboras, os recebeu com entusiasmo.
— O que vão querer, jovens? — ela perguntou, com sua voz doce ecoando no ar. Kyouka e Atsushi tiraram as máscaras de seus rostos e observaram todas as opções disponíveis. Escolhendo por fim doces coloridos e com formatos assustadores. A garota, ao provar cada um deles, fez uma cara engraçada.
— É tão doce! — exclamou ela. A cada mordida, seus olhos brilhavam, encantada com o sabor. — Eu quero mais! — pediu, virando-se para a vendedora, fazendo o garoto ao seu lado dar risada.
— Vou querer mais desses, por favor! — Atsushi pediu, sorrindo educadamente. A vendedora sorriu, entregando mais um pacote do doce para Atsushi.
— Esse doce é especial, feito com uma receita secreta da minha avó — ela disse, piscando para Kyouka. — Ela sempre dizia que quem os comia ficava com a alma leve e o coração feliz. — Kyouka arregalou os olhos, encantada com que a vendedora disse.
Atsushi sorriu, observando a reação da garota. "Então vamos levar essa felicidade para todo mundo!", pensou ele.
— Pode embalar mais alguns para os nossos amigos? — Nakajima sugeriu, entregando alguns doces para a vendedora, que assentiu.
Enquanto ela embrulhava os doces com cuidado e os entregava ao rapaz, um estrondo seco e forte ecoou do lado de fora da loja, seguido por um tremor violento que fez as prateleiras do ambiente tremerem e os embrulhos de doces nas mãos de Nakajima se espalharem pelo chão, incluindo suas máscaras. A senhora e os dois jovens se agacharam imediatamente com o inesperado acontecimento.
— O que foi isso? — perguntou Kyouka, com os olhos arregalados. Atsushi, sem responder, correu até a porta e a abriu. A rua estava em caos total. Pessoas gritavam e corriam em todas as direções, tropeçando umas nas outras. Izumi, que o observava atentamente, percebeu uma mudança na expressão de Nakajima. Seus olhos, antes tão calmos, agora estavam tomados por um intenso desespero.
— Temos que sair daqui agora! — exclamou o garoto, aproximando-se da vendedora agachada do outro lado do balcão. — A senhora está bem? — A vendedora, pálida e trêmula, apontou para a janela, em direção ao céu. Onde uma enorme névoa se projetava sobre a cidade.
Atsushi e Kyouka se entreolharam, sentindo um frio percorrer suas espinhas.
— Não podemos ficar aqui. Precisamos ir para um lugar seguro. — Atsushi ajudou a senhora a se levantar, e com ajuda de Kyouka, saíram da loja, com seus olhos fixos na névoa que se aproximava rapidamente.
A vendedora, ainda em choque, murmurou algo sobre um abrigo, apontando para uma pequena rua lateral. Sem hesitar, os três seguiram em direção ao local indicado. A rua era estreita e escura e a névoa já cobria quase toda a cidade, engolindo os prédios e as ruas como um monstro faminto, tornando a visibilidade cada vez mais impossível. Atsushi sentiu um nó na garganta, a ansiedade crescendo a cada passo.
— Chegamos! — exclamou a senhora, apontando para uma pequena porta de aço com uma placa desbotada. Eles bateram insistentemente na porta, esperando que alguém atendesse. A porta rapidamente se abriu, revelando um homem idoso com uma expressão apavorada.
— Rápido, entrem! — ele disse, abrindo caminho para que eles entrassem. O interior da casa era pequeno e aconchegante, com uma lareira acesa que irradiava calor. Atsushi ajudou a senhora a sentar em uma poltrona.
— A cidade está coberta pela névoa — Kyouka disse, observando a cidade por uma fresta na janela. — Precisamos voltar para a agência o mais rápido possível. — Olhou para Atsushi, que concordou.
— Você tem razão. Vocês ficarão bem aqui? — o garoto perguntou, dirigindo-se ao casal.
— Não se preocupe conosco, estaremos seguros — o homem idoso, com a voz trêmula, respondeu.
— Prometemos voltar assim que a situação se acalmar — Atsushi assegurou, colocando a mão no ombro do homem. — E não saiam daqui. — Com um aceno de cabeça, o casal agradeceu. Atsushi e Kyouka se despediram e se dirigiram à porta.
Ao abri-la, a névoa fétida e densa os envolveu, obscurecendo sua visão. A cada passo, adentrando mais fundo naquela escuridão, a sensação de serem observados se intensificava. Ruídos estranhos ecoavam por todos os lados, gemidos baixos e um sussurro constante, como se milhares de vozes sussurrassem em uníssono, ecoavam pelo ambiente. As sombras, antes vagas, agora tomavam formas grotescas, com olhos que brilhavam intensamente na penumbra. Enquanto corriam pelas ruas, eles se entrelaçaram com um grupo de pessoas, correndo em desespero, esbarrando uns nos outros.
— Atsushi! — a garota gritou. Mas acabou desaparecendo entre eles.
Atsushi, sentindo um arrepio percorrer sua espinha, imediatamente desviou o olhar, tentando encontrá-la, mas foi em vão.
— Kyouka! — gritou ele, avançando pela multidão. — Onde você está? — A cada passo que dava, ele sentia o peso da angústia em seu peito. — Kyouka! — Atsushi continuou a gritar seu nome, mas a multidão ruidosa abafava seus clamores. A cada esquina, a sensação de desespero crescia. As sombras, antes grotescas, agora pareciam se mover com propósito, como se estivessem o guiando para algum lugar. Um pressentimento sombrio o invadiu. Algo de muito errado estava acontecendo e ele era o único que parecia perceber.
Ao chegar ao centro da cidade, após conseguir sair do meio daquela multidão, Nakajima foi tomado por um caos ensurdecedor. Edifícios destruídos se erguiam como dentes quebrados, ruas tomadas por escombros e a multidão corria em desespero, seus gritos se misturando ao ruído constante da destruição. O ar estava carregado de poeira e o cheiro de fumaça irritava suas narinas. No entanto, seus olhos se fixaram em duas figuras distantes. Uma mulher, de capa esvoaçante e olhos que brilhavam como brasas, conversando com um homem encapuzado. A cada palavra da figura encapuzada, um sorriso cruel se alargava em seus lábios. À medida que a mulher se aproximava dele, o chão tremia sob os pés de Atsushi, como se a própria terra temesse sua presença. Intrigado, o garoto se aproximou cautelosamente de um carro e usou sua audição de tigre, escutando atentamente a conversa.
— A era para o nosso domínio está prestes a se iniciar. O portal para o nosso reino, forjado nas profundezas do abismo, se abrirá, e a humanidade, em sua mera insignificância, será inundada pela imensidão do nosso poder. — Com um sorriso que revelava uma crueldade profunda, a figura encapuzada proclamou. — A ordem natural será invertida. Daremos um fim a todos os que possuem habilidades sobrenaturais e faremos o planeta inteiro se render à nossa vontade. — Ele virou-se em direção a feiticeira, com os olhos brilhantes. — Com o Livro das Sombras, o Orbe da Obediência e o nosso poder...
— A cidade de Yokohama será nossa — completou ela, sorrindo triunfante. — E com ela, o mundo! — Com sua voz melodiosa e sinistra, a feiticeira garantiu, estendendo o artefato celestial, envolto em névoa prateada, para a figura de capuz. Em seu braço, estava um símbolo de corvo totalmente negro.
— O Despertar das Sombras finalmente chegou. — Com um gesto majestoso, o chão se abriu, revelando um abismo que se estendia até o infinito. O portal, adormecido sob as ruínas de um templo esquecido, começou a emitir uma luz pulsante, rasgando a escuridão. — Agora, toda a humanidade conhecerá o verdadeiro significado de poder — ele sussurrou, seus olhos brilhando com uma intensidade sinistra. A névoa que se erguia pelo porto carregava um odor fétido e a promessa de algo maligno, enquanto as luzes da cidade cintilavam fracamente, como se a escuridão tentasse apagá-las. Com sorriso enigmático e perverso nos lábios, os dois se fundiram à escuridão, desaparecendo nas sombras.
Atsushi sentiu outro arrepio percorrer sua espinha, e embora tentasse manter a calma, uma sensação de medo o consumiu, com as mãos trêmulas, pegou o celular em seu bolso e digitou rapidamente o número de Dazai.
— Dazai... — o garoto disse, com o celular sobre seu ouvido, fazendo uma pausa breve. — Estamos com sérios problemas.
— Saia daí imediatamente. — A voz de Osamu soou do outro lado da linha.
— Mas Dazai, a Kyouka desapareceu entre a multidão e... — tentou continuar, mas foi interrompido.
— Não há tempo para detalhes agora. Encontre um lugar seguro e espere por mim. Eu já estou a caminho — o colega disse, com sua voz soando firme.
— Mas eu não posso simplesmente deixá-la sozinha... — o garoto argumentou, relutante.
— Sei que você se preocupa com ela, Atsushi, mas agora não é hora para ser teimoso. Confie em mim — Dazai disse, tentando fazê-lo manter a calma.
Atsushi hesitou por um momento, mas a voz autoritária de Dazai o fez acenar com a cabeça, mesmo que relutantemente.
— Tudo bem! Mas se algo acontecer a ela, eu... — A última frase pairou no ar, mas foi rapidamente abafada pela voz de Dazai.
— Kyouka vai ficar bem, ela sabe se proteger, não se preocupe. — Ele garantiu. — Agora, vá.
Antes que Atsushi pudesse responder, a ligação foi encerrada. Sentiu um nó na garganta ao ouvir a voz calma de Dazai. As palavras do amigo o tranquilizavam um pouco, mas a imagem de Kyouka desaparecida o atormentava. Suas mãos tremiam tanto que quase deixou cair o celular. O garoto olhou em volta e avistou um beco, escuro e silencioso, que parecia ainda mais ameaçador. Com as pernas bambas, correu em direção ao beco, que o levou para o outro lado da cidade, sentindo um medo crescente a cada passo.
Após o que pareceu uma eternidade, Atsushi finalmente encantou um lugar: um antigo armazém, com as portas entreabertas e uma luz fraca emanando de seu interior. Ele hesitou por um momento, mas a lembrança da voz de Dazai o impulsionou para frente. Ao adentrar o armazém, seus olhos se acostumaram a penumbra e ele avistou uma figura familiar sentada em uma caixa de madeira. Era Dazai. E ao lado dele, estava…
— A quanto tempo, Homem-Tigre! — a figura exclamou, com um sorriso travesso nos lábios.
*Edogawa, irmã mais nova de Ranpo.
Glossário O.D.d.S
*Nomes japoneses não têm acento. A letra "ō" é uma letra minúscula com um mácron, que é uma barra horizontal sobre a letra. Em japonês, o mácron indica que a vogal deve ser pronunciada por mais tempo do que a vogal sem o mácron. A pronúncia de "ō" é "ou".
*No sistema de nome japonês, o sobrenome vem antes do nome próprio, por exemplo "Edogawa" é o sobrenome e "Ranpo" é o primeiro nome. E assim por diante.
— ! Dazai! O que estão fazendo aqui? — Atsushi perguntou, surpreso com a presença dos dois detetives.
— Como assim? Não está feliz em rever uma velha amiga? — a garota perguntou, boquiaberta, em fingida tristeza.
— Ahn, não é isso... é que… é que eu… — Atsushi gaguejou, um pouco desconcertado.
— Eu estou brincando! — exclamou, seus olhos brilhando de alegria e um sorriso enorme se formando em seu rosto. — É bom te ver de novo, Atsushi Nakajima.
Atsushi retribuiu o sorriso timidamente, sentindo o abraço caloroso de .
— Eu também, . — Coçando a nuca, ele sorriu de maneira tímida e saiu de seu abraço.
— Parece até que foi ontem que estávamos lado a lado, enfrentando aqueles contrabandistas, não é? — perguntou, um brilho nostálgico em seus olhos. Atsushi balançou a cabeça em concordância, feliz em vê-la ali.
— O que você faz aqui em Yokohama? Achei que você estivesse na América do Sul. — Embora estivesse apavorado com os acontecimentos lá fora, ele perguntou.
Dazai, que observava tudo de longe, levantou-se do contêiner que estava sentado e aproximou-se dos dois.
— desembarcou do aeroporto e foi direto para a Agência, justamente quando você saiu para o festival de Halloween — o rapaz de bandagens disse.
concordou com a cabeça.
— Tenho alguns assuntos importantes para resolver em Yokohama, só passei para dar um oi — ela disse, piscando para Atsushi.
— E como soube que eu viria para esse lugar? Como chegaram aqui antes de mim? — Atsushi perguntou, surpreso.
— Esqueceu que o meu poder de rastreamento me permite localizar algo ou alguém cinco minutos antes de ela chegar a qualquer lugar? — A garota de cabelos castanhos sorriu, observando as feições do garoto à sua frente.
Atsushi arregalou os olhos.
— E Kyouka? Vocês a encontraram? — Atsushi, com o semblante preocupado, perguntou.
— Infelizmente, ainda não sabemos sobre seu paradeiro. Precisamos de pistas para encontrá-la — Dazai respondeu. Atsushi arqueou a sobrancelha, alternando o olhar entre os dois.
— Como assim? Mas o seu poder permite que você rastreie qualquer coisa — o garoto exclamou, encarando .
— Nem tudo é tão simples quanto parece, Atsushi — disse, cruzando os braços. — A habilidade de rastreamento tem suas limitações. Especialmente quando lidamos com uma força sobrenatural como a que, provavelmente, iremos enfrentar — ela explicou, apontando, cruzando os braços abaixo do peito em seguida.
— Não se preocupe, nós vamos encontrar Kyouka e resolver esse problema, juntos. — Dazai se aproximou de Atsushi, colocando uma mão em seu ombro.
— Mas como? — Atsushi perguntou, visivelmente abalado.
— Iremos cuidar disso. Agora, o importante é que você está bem — disse, tentando fazê-lo manter a calma. Dazai apenas observava a cena com um sorriso singelo nos lábios.
O garoto sentiu um nó na garganta. A preocupação com Kyouka o consumia.
— Mas... o que faremos? A cidade está um completo caos — ele questionou. respirou fundo, buscando as palavras certas. Sabia que Atsushi estava desesperado, mas precisava manter a calma.
— Antes de mais nada, precisamos entender bem a situação em que nos encontramos — começou, firme. — Dazai, você tem alguma hipótese sobre quem ou o quê poderia estar por trás desses acontecimentos? — ela perguntou, virando-se para o rapaz de bandagens.
— Alguma lenda antiga? Um artefato poderoso, talvez? As possibilidades são infinitas — ele respondeu, sorrindo de lado, enfiando as mãos nos bolsos do sobretudo. A jovem Edogawa revirou os olhos.
— Hm, parece que isso é um não — ela murmurou. — Vamos voltar para a Agência de Detetives Armados, então. Precisamos de toda a ajuda que pudermos — ela sugeriu, olhando para Atsushi.
— Tudo bem. — Atsushi suspirou profundamente, esboçando um leve sorriso. Embora a angústia tomasse conta de seu rosto, ele concordou.
— Sei que está preocupado, mas precisamos manter a calma para podermos pensar direito, Atsushi. Tenha confiança, faremos tudo o que for possível para trazê-la de volta. — Um sorriso gentil surgiu nos lábios de , que tentava confortá-lo.
— tem razão, Atsushi. A pressa pode nos levar a cometer erros. Vamos analisar todas as pistas que temos e traçar um plano sólido para descobrirmos o que está acontecendo — Dazai disse, observando os companheiros com um olhar confiante. Um silêncio pairou no ar por alguns segundos enquanto os três detetives se encaravam, cada um perdido em seus próprios pensamentos.
Atsushi continuava inquieto, isso era evidentemente perceptível em seu rosto, mas a presença de e Dazai o fazia se sentir um pouco mais seguro.
— Agora precisamos ir — o rapaz de bandagens exclamou, caminhando em direção à porta do armazém; e com um sorriso confiante ao abri-la, virou-se para os companheiros. — Vamos salvar nossa companheira e a cidade de Yokohama! — O vento, um sopro de esperança e desespero, irrompeu pela porta, entrelaçando-se aos seus cabelos e ao tecido esvoaçante do seu sobretudo. Com um brilho nos olhos, e Atsushi trocaram um olhar rápido, seus lábios curvando-se em um sorriso determinado.
Sem mais uma palavra, os três impulsionaram-se para frente, desaparecendo na escuridão, prontos para enfrentar o desconhecido.
Após percorrer os lugares mais seguros da cidade para chegar ao edifício da Agência, o trio de detetives chegou ao escritório, sendo recebido por um ambiente tenso e silencioso. Kunikida, ao ver Atsushi passar pela porta, correu em sua direção com o semblante bastante preocupado, enquanto os demais membros da agência aguardavam ansiosamente por respostas.
— Moleque! Graças a Deus, você está bem! O que aconteceu? Onde você estava? — O loiro imediatamente o bombardeou com perguntas. Atsushi permaneceu em silêncio, ainda processando os acontecimentos. Naomi aproximou-se, com uma expressão séria.
— Onde está a Kyouka? — perguntou ela, a voz carregada de apreensão. Atsushi abaixou a cabeça, a culpa estampada em seu rosto.
— Nós... estávamos em uma loja de doces temáticos, quando de repente… a loja começou a tremer, e a cidade começou a ser tomada por uma névoa densa e estranha — ele hesitou, não sabendo como explicar a situação sem alarmar ainda mais os colegas. — Kyouka e eu decidimos ver o que estava acontecendo. Mas acontece que, enquanto seguíamos para o centro da cidade, um grupo de pessoas, correndo desesperadas, nos barrou. Fomos encurralados pela multidão e, na confusão, perdi Kyouka de vista! — Ele fez uma pausa, suspirando profundamente. — Eu a procurei por todos os cantos, mas não a encontrei em lugar algum — o garoto disse, visivelmente abalado.
apoiou a mão em seu ombro, tentando transmitir-lhe um pouco de conforto. Ele continuou:
— Quando decidi seguir em direção ao centro da cidade, o lugar estava quase que completamente destruído e acabei vendo e ouvindo algo... assustador — ele disse, hesitando por um momento.
— O que você quer dizer com… assustador? — Tanizaki perguntou, um pouco hesitante.
— Uma mulher, de olhos brilhantes feito brasas, e outra, totalmente encapuzada, mas não consegui distinguir seu rosto — Atsushi respondeu. — Acabei me escondendo atrás de um carro para não chamar atenção e utilizei a audição aguçada do tigre quando os dois começaram a conversar. — O garoto olhou para os companheiros e, em seguida, para Dazai, que permanecia em silêncio, esperando-o continuar seu relato. — Eles pretendem eliminar todos os indivíduos com habilidades sobrenaturais e submeter o planeta inteiro a seguir sua vontade. Depois disso, uma fenda se abriu no chão — Nakajima concluiu, com a voz trêmula.
— Uma fenda? — Kunikida franziu a testa.
— Isso soa como algo que a Agência precisará investigar mais a fundo. — Yosano Akiko, uma jovem médica de cabelos lisos e escuros, cortados em um corte curto que ia além do queixo e franja, de olhos magenta, uma mistura entre o vermelho e o violeta, disse ao entrar no escritório. — E ao que parece, teremos uma longa semana pela frente — completou ela, cruzando os braços abaixo do peito.
— Isso é inacreditável! — indagou, com uma leve irritação em sua voz. — Parece que estamos diante de mais uma ameaça global.
— Dois indivíduos misteriosos que buscam eliminar todos que possuem habilidades sobrenaturais? — Kunikida exclamou, também cruzando os braços abaixo do peito.
— Mais uma história clássica e bastante clichê, não? Devo admitir, a previsibilidade é quase atraente — Dazai disse, com seu tom de voz irônico e um sorriso de lado no rosto.
— O que nós vamos fazer? Se eles estão mesmo dispostos a tudo... este definitivamente será o fim da humanidade! — Tanizaki exclamou, visivelmente apavorado. Naomi apoiou a mão em seu ombro, tentando acalmá-lo.
— Não podemos permitir que isso aconteça. Vamos encontrá-los e impedi-los imediatamente! — Kunikida exclamou, com punhos cerrados.
— Você acha que a Máfia do Porto está envolvida nisso, Dazai? — Atsushi perguntou, direcionando seu olhar para o rapaz de bandagens, sentado com as mãos atrás da cabeça e olhos fechados.
— Seria uma possibilidade, no entanto, acredito que desta vez a Máfia do Porto não tenha envolvimento algum nisso — Dazai respondeu, abrindo os olhos lentamente, direcionando-os na direção de Atsushi. — Além de que, eliminar todos os paranormais? Que tédio seria esse mundo, não é? — Ele se levantou, caminhando até a janela, fitando o caos da cidade com um olhar distante.
— Se a Máfia do Porto não está envolvida, então quem está? E qual o motivo para quererem exterminar todos os que possuem habilidades sobrenaturais? — Kunikida exclamou, buscando por respostas. Respostas que ninguém naquela sala poderia responder.
— Essa história tem um cheiro bem familiar. Alguém está puxando os nossos cordões, mas quem? — Dazai murmurou, mais para si do que para os outros.
O silêncio pairou no ambiente por alguns instantes, enquanto cada funcionário da Agência de Detetives Armados digeria as informações recém-reveladas. A tensão era palpável, e a preocupação com o destino de Kyouka e o futuro de Yokohama pairavam no ar.
— Temos um caso sério em mãos! Precisamos de todas as pistas possíveis para encontrar Kyouka e impedir esses vilões de destruírem a cidade — Kunikida disse, cruzando os braços. — Precisamos de respostas!
— Calma, Kunikida, eu estou tentando juntar as peças desse quebra-cabeça. Mas, se você quer tanto uma pista, eu posso te dar uma. — Dazai sorriu, de forma enigmática.
— E que pistas seriam essas? — o loiro perguntou, erguendo a sobrancelha.
O rapaz de bandagens virou-se para Nakajima.
— Atsushi, você disse ter visto duas pessoas, do que mais você se lembra? — ele perguntou, sentando-se à mesa de Kunikida, apoiando o queixo em suas mãos.
— Eu… lembro que havia uma marca estranha no braço direito da mulher quando ela entregou uma esfera para a figura de capuz — o garoto respondeu, franzindo a testa.
— Marca? — Dra. Yosano perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Parecia ser uma tatuagem, na verdade. — Atsushi inclinou a cabeça para o lado, pensando por um momento.
— Tente se lembrar de cada detalhe dessa tatuagem, Atsushi. Qualquer detalhe, por mais insignificante que pareça, pode ser crucial. Desenhe se precisar. Tente descrevê-la da melhor forma possível — Dazai sugeriu, aproximando-se de Atsushi, colocando uma folha sem pauta e um lápis sobre a mesa. O garoto pensou por um momento, tentando se lembrar de cada detalhe.
Sentindo a pressão da situação, ele pegou a folha de papel e o lápis, e com as mãos trêmulas, começou a esboçar o que havia visto no braço da mulher. Com olhos fixos no papel, os demais funcionários da Agência acompanhavam cada linha do desenho, ansiosos por uma revelação que desvendasse o mistério. Ranpo, no entanto, parecia alheio à pressa, observando a cidade pela janela como se nela encontrasse as respostas para todos os enigmas. Enquanto Kunikida, sem paciência, interrompeu a concentração geral após Atsushi finalizar seu trabalho.
— É sério que é só isso que temos para nos basear? Um desenho feito às pressas por um garoto aterrorizado? — o loiro indagou incrédulo, observando o desenho de Atsushi. — Precisamos de algo mais substancial, Dazai! — Kunikida exigiu, virando-se para o rapaz de bandagens.
Dazai, ignorando o loiro a sua frente, fixou os olhos penetrantes no desenho que Nakajima lhe entregara e esboçou um pequeno sorriso. Aquele esboço, com suas linhas trêmulas, era tudo o que tinham para desvendar um mistério que prometia ser mais complexo do que imaginavam.
— Não se preocupe, Kunikida. Essa pista pode ser mais valiosa do que você imagina. — Ele se voltou para Ranpo, que continuava imerso em seus pensamentos. — O que você acha, Ranpo? Esse símbolo não te lembra algo? — Osamu exclamou, erguendo o papel para o companheiro.
— Mas isso é apenas um desenho de um pássaro comum… — Tanizaki disse, franzindo a testa.
— Pássaro? — Ranpo desviou o olhar da janela e fixou-os no desenho de Atsushi. — Espere um minuto, esse símbolo... — murmurou ele, com o semblante ainda mais sério do que de costume. — Atsushi, você disse que eles estavam com uma esfera? — indagou ele, fitando o garoto com intensidade.
As sobrancelhas escuras franziram-se levemente, intensificando seu olhar penetrante.
— Sim! Estava envolta por uma névoa negra — respondeu Atsushi, sua voz um pouco trêmula, enquanto tentava se lembrar dos detalhes daquela cena surreal. — Por que a pergunta?
Ranpo arregalou os olhos ainda mais. Em seguida, virou-se abruptamente, encarando a irmã, que paralisou no lugar, o rosto pálido. Seus lábios tremiam enquanto tentava reprimir um grito de terror. A possível resposta do irmão a deixava petrificada e seu coração palpitava freneticamente no peito.
— O que houve? — perguntou Kenji, alternando o olhar entre os irmãos.
— Corbeaux Noirs! — ele exclamou, após alguns segundos em silêncio.
— Mas isso é impossível! — exclamou, seu queixo caindo levemente.
— Corbeaux Noirs? Mas o que isso significa? — Atsushi perguntou. A confusão era evidente em seu rosto, as sobrancelhas arqueadas e os olhos arregalados eram um sinal claro disso.
— Significa Corvos Negros em francês. Um pássaro associado à sabedoria e à magia. É um símbolo utilizado por uma antiga organização que atuava nas sombras. — De repente, Yukichi Fukuzawa, presidente da Agência de Detetives Armados, exclamou, entrando repentinamente no escritório.
A revelação do presidente causou um choque nos detetives.
— Corvos, em muitas culturas ocidentais, são associados à morte, à má sorte e a maus presságios. — aproximou-se de Dazai, pegando o papel de suas mãos, examinando o desenho com cuidado.
— Esta é uma organização conhecida por ser extremamente perigosa! — Ranpo balbuciou, alternando seu olhar entre cada membro da Agência.
— Se esta informação for verdadeira... nós estaremos com sérios problemas. — hesitou, deixando todos na sala tensos.
— Atsushi, você lembra de mais alguma coisa? — Kunikida perguntou, virando-se para o garoto.
— Hm, pouca coisa... mas se me lembro bem, a figura de capuz mencionou o nome de um livro… — Atsushi ponderou, tentando se lembrar de mais informações. Um silêncio pesado pairava no ar, interrompido apenas pelo som de seus próprios batimentos cardíacos acelerados. — "O Livro das Sombras".
recuou abruptamente, os olhos arregalados, completamente em choque com a revelação. Seu rosto, antes pálido, agora era branca como a neve.
— Mas este livro está selado há cinco séculos. Como isso é possível? — exclamou ela, virando-se para o irmão.
A menção do livro parecia ter aberto uma porta para um mundo desconhecido e aterrorizante.
— Isso quer dizer que a esfera da qual ele se referia só poderia ser o Orbe da Obediência! — Ranpo comentou, finalmente entendendo ao que Atsushi se referia.
— E o que isso quer dizer? — Atsushi perguntou, ainda mais confuso.
— Que esses objetos são artefatos celestiais poderosos capazes de manipular e controlar a mente das pessoas — Fukuzawa explicou, com a voz grave. — Se esta suposta organização está em posse desses dois objetos, as consequências serão ainda mais catastróficas.
— Mas... o que eles querem com a Kyouka? O que ela tem haver com tudo isso? — Tanizaki questionou, como se lesse os pensamentos de Atsushi.
— Não há dúvidas de que a querem por causa de seu poder... — Dazai disse, sua voz era grave e rouca como o aço. Ele então fixou o olhar em Atsushi. — O Demônio da Neve.
Atsushi engoliu em seco, a garganta seca como o deserto.
A imagem de sua companheira, frágil e determinada, sendo usada como uma marionete o consumia por dentro. A culpa o corroía. Ele falhou em protegê-la antes, e agora, o tempo se esgotava.
— E o que eles farão com esse poder? — Atsushi questionou, a voz embargada. — E se eles a transformarem em uma máquina de matar? Algo que não tem mais controle sobre si mesma? — o garoto indagou, os olhos arregalados, aterrorizado com a possibilidade.
— Esta é uma organização que atuava nas sombras, Atsushi. Eles conhecem todos os segredos e os medos da humanidade. E o seu, infelizmente, pode ser um deles — respondeu com pesar, vendo o medo brilhar nos olhos do garoto.
— Mas por quê ela? — Atsushi questionou, bastante indignado.
— Como uma ex-assassina da Máfia do Porto com trinta e cinco acusações, Kyouka possui excelentes habilidades que podem ser extremamente úteis para eles — Kunikida disse, com os braços cruzados sobre o peito.
— O poder dela é algo cobiçado por muitas organizações perigosas, Atsushi. E essa organização, em particular, parece ter planos grandiosos envolvendo o seu poder e suas habilidades — Dazai explicou, analisando a situação com seriedade.
Kenji, observando a preocupação do companheiro, colocou a mão em seu ombro.
— Não se preocupe. Nós vamos encontrá-la! — Kenji disse, com um sorriso confiante, enquanto os outros detetives demonstraram preocupação. Atsushi forçou um sorriso, mas seus olhos refletiam a preocupação que consumia seu coração. Ele sabia que a situação era mais complexa do que Kenji imaginava, mas apreciava a positividade de seu amigo.
A tensão no ambiente se tornou palpável. Cada um dos presentes compreendia a gravidade da situação. A Agência de Detetives Armados já havia se deparado com diversos inimigos perigosos, mas a ideia de uma antiga organização tão poderosa era algo novo e assustador. E eles estavam prestes a se envolver em mais um caso que poderia mudar o curso de Yokohama, e consequentemente, de todo o Mundo.
— Ao que parece, teremos um longo caminho pela frente, não é mesmo? — Dazai, com um brilho sinistro nos olhos, declarou.
Do outro lado da cidade, na sala do Chefe da Máfia do Porto, a tensão no ar era palpável. *Ōgai Mori, o líder implacável da organização criminosa, que representava o mais obscuro de Yokohama, permanecia de pé diante da imensa janela de vidro, observando a cidade que se transformava em um caos crescente lá fora. A cidade, antes pulsante e vibrante, agora era um quadro sombrio pintado em tons cinzentos e vermelhos. A cada nova informação que chegava aos ouvidos do líder mafioso, eram como se tiros de metralhadoras o atingissem em cheio, cada uma mais alarmante que a anterior. A ameaça que pairava sobre Yokohama era de proporções inimagináveis, algo que transcendia qualquer conflito que a organização já havia enfrentado. O líder da Máfia do Porto, um estrategista brilhante, conhecido por sua frieza implacável e impiedosa, e por sua incrível habilidade de manipular as pessoas ao seu redor, sentia uma angústia que há muito não experimentava. A sala, geralmente imponente e silenciosa, agora ecoava com o som de seus passos pesados, caminhando lentamente em direção à sua mesa, sentando-se em sua poltrona de almofada vermelha com detalhes dourados.
Enquanto tamborilava seus dedos impacientemente sobre a mesa, a porta da sala se abriu, revelando *Chūya Nakahara, um dos cinco executivos e membro da Máfia do Porto, e sua irmã, Nakahara, membro da Máfia atuando como um dos líderes do batalhão Lagartos Negros, grupo de assalto da Máfia que lidava com os trabalhos mais desagradáveis da organização. Ambos carregavam em seus rostos a mesma expressão gélida, como se um inverno eterno houvesse se instalado em seus olhos.
— Chefe, temos um problema — Chuuya, com seu habitual chapéu preto, adornado por uma faixa marrom e uma fina corrente prateada pendendo sobre a aba, declarou. Sua voz era grave, cortando o silêncio opressivo do ambiente. — Vinte dos nossos homens que estavam em serviço no centro de Yokohama desapareceram. Se contarmos com as pessoas trabalhando para nossas sub-organizações, quase cem — ele murmurou, a tensão e a indignação eram evidentes em sua voz.
— Isso é realmente alarmante. O que aconteceu? — o homem indagou, franzindo a testa e apertando os lábios, levando suas mãos à frente de seu rosto, entrelaçando seus dedos. Um sinal de sua preocupação.
— De acordo com alguns dos nossos subordinados que retornaram, todos os demais desapareceram misteriosamente durante as negociações da Máfia, que coincidiram com o festival do Halloween no centro da cidade — o rapaz de cabelos laranjas marcantes, com uma seção mais longa que caía logo abaixo de seu ombro esquerdo, respondeu. — Além disso, após uma névoa densa envolver grande parte de Yokohama, testemunhas oculares relataram ter visto duas figuras enigmáticas abrindo uma fenda no solo e desaparecendo juntos nas sombras instantes depois.
As informações trazidas por Chuuya eram realmente preocupantes, mas também eram intrigantes. Uma fenda, duas figuras misteriosas e o sumiço de cem subordinados, tudo isso apontava para algo muito maior do que uma simples disputa entre organizações.
— Mais alguma informação? — Mori perguntou, encarando os irmãos.
— Sim! Um dos nossos subordinados descreveu as duas figuras sendo: uma pessoa de porte masculino e uma mulher de olhos brilhantes, com uma espécie de tatuagem em seu braço direito — , ousada e determinada, que nunca se intimidava em se envolver em um conflito pela organização, respondeu.
Mori inclinou a cabeça, concentrando-se nas palavras da jovem.
— E que tatuagem seria essa, senhorita ? — Sua voz era profunda e calma. Essa informação era a peça que faltava para começar a montar o quebra-cabeça. A garota hesitou por um momento, tentando encontrar as palavras certas.
— De um corvo negro, senhor — ela respondeu. Mori, apesar de sua postura inabalável, sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir a descrição da tatuagem.
— Corbeaux Noirs? — Mori murmurou, apoiando o queixo em suas mãos, seus olhos estreitando-se em pensamento. A expressão de Chuuya se tornou ainda mais séria ao fitá-lo. Ele sabia que a situação era extremamente grave e que o chefe estava pessoalmente envolvido.
A névoa que se alastrava lá fora, vista pelas janelas, carregava uma aura sinistra, que parecia engrossar o ar, intensificando a sensação de opressão. O tique-taque do relógio na parede ecoava como um funeral, marcando o tempo que se esvaia antes da tempestade. A menção do símbolo era um presságio: a Máfia do Porto estava prestes a entrar em uma guerra que poderia mudar o equilíbrio de poder em Yokohama.
— O que isso quer dizer, chefe? — questionou Chuuya, intrigado. Seu tom de voz carregado com uma mistura de curiosidade e apreensão. Ele era jovem demais para se lembrar, mas a história sobre esta organização sempre havia sido contada nos corredores da Máfia.
— Corbeaux Noirs, em francês, significa Corvos Negros. Em outras palavras, é um símbolo utilizado por uma antiga organização que atuava nas sombras. — Mori levantou-se de sua poltrona, caminhando até a janela novamente. A vista da cidade, normalmente tão pacífica, agora carregava uma ameaça iminente. — Uma organização criminosa sombria com métodos mais cruéis que a Máfia do Porto. Acreditávamos ter sido destruída há muito tempo, mas ao que parece, Insetos sobrevivem por mais tempo do que imaginávamos. — O olhar de Mori se perdeu em lembranças do passado, enquanto a sala se enchia de um silêncio tenso.
Flashback on
Yokohama, alguns anos atrás
Muito antes de ascender ao comando de líder da Máfia do Porto, Ōgai Mori, um jovem médico do submundo, de cabelos bagunçados e olhos cansados, lutava ao lado de Yukichi Fukuzawa — antes da Agência de Detetives Armados ser fundada e Fukuzawa ainda estar sob a tutela de Sōseki Natsume — que havia-o salvado de criminosos de uma organização. As chamas que consumiam os armazéns do porto transformavam a noite em um inferno de ferro e fumaça. A cidade estava em chamas e os prédios se erguiam como gigantes de ferro retorcidos, o ar estava denso pela fumaça, gritos ecoavam por todos os lados.
— Esse símbolo... — Fukuzawa apontou para uma marca negra gravada na parede de uma base inimiga.
— Os Corvos Negros... estamos mais perto do que imaginávamos. — Mori rosnou, desviando de um golpe mortal. A raiva o impulsionava, mas a cautela o mantinha vivo.
Ougai, com seu bisturi cintilando à luz das chamas, avançou sobre os inimigos. Seus movimentos eram precisos e elegantes, como uma dança mortal. A cada golpe certeiro, um grito de dor ecoava no ar, mas a resistência dos Corvos Negros era feroz. O jovem médico sentia a adrenalina pulsar em suas veias. Seus olhos, apesar do cansaço, brilhavam com uma determinação feroz. Ao seu lado, Fukuzawa, com seu olhar penetrante, empunhava sua katana de forma impecável, mesmo em meio ao caos da batalha que se intensificava a cada instante, seus golpes se sucediam com uma velocidade vertiginosa. Os dois homens se esquivavam, contra-atacavam, mas os inimigos eram numerosos e irritantemente implacáveis.
O jovem médico sentia o peso da luta, e o cansaço já se acumulava em seus músculos, mas não podia desistir. Não ali, não agora. De repente, uma flecha cortou o ar e um grito de dor ecoou. Vinte dos cinquenta inimigos presentes haviam sidos atingidos por flechas de luz dourada, fazendo seus corpos caírem inertes no chão. Mori olhou para cima, avistando uma figura de capuz escarlate, que desapareceu antes que ele pudesse reagir.
— Quem fez isso? — perguntou Fukuzawa, atingindo um dos inimigos que se aproximavam.
— Eu não sei... — respondeu Ōgai, com uma expressão de seriedade em seu rosto. — Mas ele nos ajudou. — Yukichi assentiu, voltando sua atenção para a batalha. A inquietação borbulhava na mente de Mori. Quem seria aquele arqueiro encapuzado, surgido do nada, tão habilidoso e misterioso? A pergunta ecoava em seus pensamentos, sem resposta.
O caos da batalha rugia ao redor deles, um turbilhão de aço e gritos. A cada flecha que silvava no ar, cravando-se em um oponente, a inquietação de Mori se intensificava. Seus disparos eram tão precisos quanto rápidos, flechas mortíferas que cortavam o ar como relâmpagos. A figura do arqueiro, uma sombra encapuzada, movia-se entre a vida e a morte, seu arco tensionado, uma ameaça constante. Seria ele um aliado inesperado ou apenas um estranho com um propósito oculto? Mori e Fukuzawa, lado a lado, enfrentavam a horda inimiga, mas a presença do arqueiro era um enigma que obscurecia a batalha.
— Não podemos nos prender a detalhes agora. Não temos tempo. Vamos nos separar e encontrar o líder da organização! — Yukichi exclamou, com seu tom de voz firme.
Sua katana dançava em um balé mortal, cortando o ar e encontrando a carne de seus inimigos.
— Deixa comigo. Mas não se perca no caminho até lá! — Mori, com um sorriso irônico nos lábios, se afastou de Fukuzawa, se jogando em meio à batalha. A cada golpe, um grito de dor ecoava pela cidade, mas Mori seguia seu caminho de modo implacável. Ele sabia que aquela batalha era apenas o início de algo muito maior.
Os dois separaram-se um do outro, mergulhando cada um em sua própria batalha pessoal. A cada inimigo derrotado, a esperança de vencer a luta crescia dentro deles. No entanto, a cada curva e rua, a sensação de serem observados se intensificava, e a noite em Yokohama se transformava em um pesadelo vivo. A fumaça densa envolvia os prédios, como um véu negro sufocante e o cheiro de pólvora e madeira queimada ardia em suas narinas.
As chamas que dançavam nas paredes, projetavam sombras grotescas que se contorciam como demônios, Ōgai Mori e Yukichi Fukuzawa lutavam em meio ao caos, com suas figuras destacando-se contra o fundo infernal. A proximidade até líder dos Corvos Negros era palpável, mas a cada passo, a sensação de ainda estarem sendo observados, deixavam-os em alerta máximo.
Em outro ponto da cidade, Fukuzawa, com a elegância de um espadachim que superava qualquer outro, abria caminho em meio ao sangue. A cada golpe certeiro de sua katana, mais um inimigo caia. Seus olhos, agudos como os de uma águia, varriam a escuridão em busca do líder dos Corvos Negros. A figura do arqueiro encapuzado, observando a batalha nas sombras, era uma incógnita que o assombrava, mas a missão de proteger a cidade o mantinha em movimento. Sob o capuz, seus olhos brilhavam com uma inteligência calculista. A cada movimento de Mori e Fukuzawa, um sorriso enigmático curvava seus lábios, revelando um plano mais amplo. A flecha que havia disparado não era só um ato de bondade, mas uma peça crucial em seu grande jogo.
Mori finalmente chegou ao esconderijo do líder da organização inimiga. A sala era espaçosa, escura e úmida, com paredes de pedra nuas que pareciam absorver a luz. E um único candelabro tremulava, projetando sombras grotescas no teto abobadado. O ar era carregado de um odor fétido, uma mistura de suor, sangue seco e algo indefinidamente podre. O líder dos Corvos, um homem alto e forte, sentado em um trono improvisado com crânios humanos, o encarava com tamanho desprezo que Mori sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Esboçando um sorriso cruel, curvados em um arco de desprezo, ele se levantou do trono. A espada em sua mão direita deslizou pelo chão de mármore, arrastando um rastro de faíscas. O som metálico sibilante ecoou na sala, amplificado pelo silêncio sepulcral. Seus olhos, cintilantes como brasas, fixaram-se em Mori, que permanecia imóvel, mantendo sua guarda alta. O ar ficou carregado de eletricidade, a respiração dos dois homens era a única perturbação naquela noite tempestuosa. Com um movimento rápido e preciso, ele girou a espada, desenhando um círculo mortal no ar. Mori desviou por um triz, mas a ponta da lâmina raspou sua bochecha, abrindo um pequeno corte que sangrava lentamente.
— Finalmente nos conhecemos, Ōgai Mori! Médico da Máfia do Porto. — A voz do homem ecoou pela sala, fria e ameaçadora. Mori não respondeu, limitando-se a apertar o punho de seu bisturi e seus olhos brilhando com uma determinação implacável. — Prepare-se para morrer. — Um duelo épico se iniciou, uma dança mortal entre o bisturi de Mori e a força bruta do líder inimigo. O bisturi do jovem médico dançava como uma serpente, deslizando entre as costelas do adversário com uma precisão mortal.
O líder dos Corvos, por sua vez, revidava com golpes impiedosos, fendendo o ar com uma precisão mortal sem igual. A aura sinistra que o envolvia era palpável, intensificando-se a cada movimento calculado.
— Logo esta cidade será minha! E você, Doutor, será o primeiro a sentir a minha ira! — O líder sombrio rugiu, sua voz ecoando pela sala. Mori, com o rosto marcado pela batalha e um brilho inexplicável em seus olhos, rebateu:
— Sonhos grandiosos para um homem tão pequeno! É realmente impressionante como alguns conseguem viver em um mundo de fantasia tão distante da realidade — Mori zombou da situação, com um sorriso sarcástico nos lábios.
— Seu verme insolente! — A voz do líder ecoou, raivosa. Seus olhos, esbugalhados e vermelhos de fúria, fixaram-se em Mori. Com um gesto rápido, empunhou a pesada espada, a lâmina cintilando à luz fraca, e avançou em um ataque implacável.
A lâmina negra, longa e retorcida, que parecia ter sido forjada nas profundezas do inferno, emitia um som estridente, quase vivo, enquanto cortava o ar. Gravado em seu cabo, um pequeno crânio de corvo servia como adorno macabro.
— Eu vou construir um novo mundo, livre das fraquezas humanas! E você, por sua irritante teimosia, será o primeiro a cair! — o líder esbravejou, com um sorriso macabro nos lábios, avançando a cada instante em direção a Mori.
— Então venha, eu vou adorar te deixar em pedaços — desafiou ele, fixando os olhos na figura grotesca do inimigo.
Com um rugido raivoso, o líder desferiu um golpe poderoso, fazendo a sala tremer. Mori, com um olhar frio e calculista, desviou dos ataques do homem, com seus movimentos precisos e elegantes, contrastando com a brutalidade do inimigo.
Uma névoa densa, carregada de umidade e ferro, envolvia os combatentes como um manto, obscurecendo suas formas e amplificando o som de cada golpe. Mori, com o rosto contorcido pela dor e pela fúria, desferia golpes frenéticos contra o líder dos Corvos Negros. A cada movimento, seu bisturi cintilava sob a luz da lua sendo refletida pela janela. De repente, a porta se escancarou com violência, revelando a figura imponente de Fukuzawa, vestindo um hakama preto, um par de calças grandes — plissadas tradicionais — quimono e haori, além de um pequeno cachecol com um padrão circular. O espadachim adentrou a sala, empunhando sua katana ensanguentada.
Sua presença dominou o ambiente, a névoa se abrindo à sua passagem como se o ar se rendesse à sua força. Seus olhos, profundos como as águas do mar, varreram a sala, fixando-se no líder dos Corvos e em Ougai Mori.
— Parece que cheguei em boa hora — Fukuzawa comentou, sua voz calma contrastando com a atmosfera caótica.
O líder dos Corvos Negros, surpreso com a chegada inesperada, rosnou, encarando o recém-chegado. Mori, aproveitando a distração do líder, afiou o bisturi na pedra que sustentava uma das estátuas da sala e aproximou-se discretamente por trás do líder e, com um movimento rápido, cravou o bisturi em suas costas, fazendo o inimigo soltar um grito de dor e virar-se, furioso para ele.
— Honestamente, achei que você fosse mais esperto. Subestimar seus inimigos é um erro fatal — Mori disse, com um sorriso irônico nos lábios.
O líder dos Corvos Negros, com a voz rouca pela dor, soltou uma gargalhada raivosa.
—Você acha que pode me deter assim? É muito ingênuo de sua parte! A morte não me alcança, garoto! — Ele rugiu, arrancando o bisturi das costas com uma força descomunal.
A ferida se abriu, mas não parecia afetá-lo. Ougai Mori, surpreso com a reação do inimigo, recuou um passo.
— Não? Então vamos testar essa sua teoria — Fukuzawa disse, sua voz fria como aço. Ele avançou em direção ao líder, com sua katana em punho, pronto para o ataque final. O líder dos Corvos, com um sorriso psicopata no rosto, avançou sobre Yukichi. Seus olhos brilhavam com uma loucura que arrepiava até mesmo o mais corajoso dos homens.
A luta se intensificou, e os três homens se movimentavam em uma dança mortal. Mori e Fukuzawa, com a agilidades impecáveis, tentavam conter a fúria do líder dos Corvos Negros. A cada golpe trocado, a sala tremia e a poeira se elevava, obscurecendo a visão. No ápice da batalha, o líder dos Corvos Negros executou um movimento tão rápido quanto mortal. Com um corte preciso, como um raio cortando a noite, ele desencadeou sua espada em um golpe fulminante, cravando-a no ombro de Fukuzawa. Surpreendido pela velocidade do ataque, o espadachim foi arremessado violentamente ao chão, enquanto sua katana era lançada a vários metros de distância, caindo a uma certa distância de Mori.
Em um movimento rápido, Mori se abaixou e agarrou a katana, direcionando-a para o pescoço do líder, que avançava com uma guarda baixa. Contudo, o homem, com uma reação impecável, bloqueou o ataque, agarrando o pulso de Mori e executando uma torção perfeita, desarmando-o mais uma vez.
— Vocês são apenas insetos insignificantes! Vermes rastejando em meu caminho — rugiu ele, avançando sobre Mori com o rosto contorcido em puro ódio. — Vou esmagar seus ossos, assim como se esmaga uma barata sob a sola do meu sapato! — ele murmurou, sua voz fria como gelo, agarrando o pescoço do médico. Os olhos do líder, antes escuros, agora brilhavam com uma luz estranha, quase sobrenatural.
Mori forçou um sorriso sarcástico nos lábios.
— Talvez. Mas até mesmo os menores insetos podem causar grandes danos — ele respondeu, sua voz fraca, mas determinada.
Com um movimento rápido, o líder dos Corvos Negros levantou Mori do chão, segurando-o fortemente pelo pescoço.
O jovem médico lutava desesperadamente para se soltar, mas a força do inimigo era superior.
— Seu idiota, esqueceu-se do que eu disse? Essa cidade será minha! — o líder esbravejou, sua voz ecoando pela sala. Apertando cada vez mais o pescoço de Mori. — Vocês perderam.
Ōgai Mori, com a face começando a mudar de cor, começou a se debater, na tentativa de se soltar das mãos daquele homem.
— Foi você quem perdeu, idiota! — Yukichi Fukuzawa afirmou, com seu tom de voz firme. De repente, algo atravessou o coração do líder. Ele soltou Mori com violência, que caiu no chão tossindo compulsivamente em busca de ar. O jovem médico arregalou os olhos ao ver a katana cravada no peito do adversário. O líder virou-se para trás, a expressão de ódio se transformando em surpresa e incredulidade ao encontrar o espadachim, de semblante impassível, segurando em seu ombro ferido.
O inimigo, mortalmente ferido, cambaleou para trás, com os olhos fixos em Fukuzawa. Um silêncio sepulcral tomou conta da sala, quebrado apenas pela respiração pesada dos três. O líder dos Corvos Negros tentou avançar, mas a força o abandonou.
— Isso ainda… isso ainda não... acabou... — murmurou ele, com a voz falhando. A lâmina, reluzente sob a luz tênue, penetrava profundamente em seu peito, tingindo sua veste de um vermelho vibrante que se espalhava como uma flor sombria. Um gemido gutural escapou de seus lábios, abafado pelo borbulhar de sangue em seus pulmões. Seus olhos, antes cintilantes de fúria, agora se apagavam lentamente, como duas brasas morrendo em uma noite fria. A espada negra em sua mão, com um tinido metálico, chocou-se contra o chão de pedra, ecoando no silêncio daquela sala. A sombra da katana em seu peito, projetada na parede, dançava macabramente, como um fantasma assombrando a cena.
E com um último suspiro, ele desabou no chão, sem vida. A névoa que pairava no ar, carregada de um odor metálico, parecia engrossar, intensificando a sensação de opressão que dominava o ambiente. Fukuzawa caminhou em direção ao corpo caído no chão e retirou sua katana das costas do líder. O ambiente, antes pesado pela batalha, agora era silencioso. Mori, ainda recuperando o fôlego, ficou de pé, e ao lado de Fukuzawa, caminhou em direção à saída. Ao passar pelo corpo do líder caído no chão, em meio a poça de sangue, Mori parou e olhou para ele uma última vez.
— Descanse em paz... se é que isso é possível para alguém como você, inseto — o médico disse, antes de sair da sala ao lado do espadachim.
Flashback off
Mori retornou ao presente, a adrenalina pulsando em suas veias. A batalha contra os Corvos Negros era iminente e ele se preparava para o confronto. Seus seguidores, como insetos em um enxame, carregavam os genes daquela ideologia sombria, prontos para reconstruir seu covil a qualquer custo. O caos em Yokohama era um prenúncio do que estava por vir: a cidade seria o campo de batalha onde a organização buscaria renascer das cinzas.
— Chuuya, reúna todos os nossos membros e executivos imediatamente! — Mori ordenou, virando-se para o ruivo. Seu semblante era mais sério do que o habitual. — Estamos diante de uma ameaça sem precedentes. Nossa principal preocupação agora é salvar Yokohama e garantir a sobrevivência da nossa organização.
— Entendido, chefe! — Chuuya, com uma determinação que cintilava em seus olhos, girou sobre os calcanhares e saiu da sala, deixando um silêncio denso no ar.
Ōgai fitou , seu olhar intenso pairando sobre ela como uma sombra. A jovem, imóvel, aguardava suas ordens, pronta para agir.
— Quanto a você, , quero que investigue essa ameaça a fundo. Utilize todos os seus recursos e seja extremamente discreta. É crucial que essa informação não se espalhe — ele instruiu suas ordens à jovem.
— Entendido, vou começar imediatamente. — assentiu com a cabeça, sentindo a gravidade da situação. Aquele era o tipo de missão que a deixava animada.
— Ótimo. Lembre-se que a segurança de Yokohama e de todos os nossos membros são nossa prioridade — Ōgai disse, seguindo para sua poltrona. — Não hesite em pedir reforços, caso precisar.
— O senhor sabe que isso não será necessário. Darei um fim rápido e silencioso a qualquer um que ousar se aproximar ou interferir. — A garota sorriu, um sorriso enigmático curvando seus lábios.
Mori ergueu as mãos, entrelaçando os dedos à frente do rosto, e fechou os olhos por um instante.
— Disso eu não tenho dúvidas, senhorita . — Ele encarou a garota com um sorriso vitorioso e um brilho perigoso em seus olhos. Com um aceno de cabeça final, saiu da sala do Chefe, seu coração pulsando em sincronia com a adrenalina que a inundava. A missão era clara e Mori contava com ela.
Ele a observou sair, os olhos grudados na porta por um instante a mais. A sombra dos corvos, tão densa quanto a névoa que se arrastava sobre Yokohama, pairava sobre eles, prenunciando a tempestade que se aproximava. A cidade, que tanto amava, estava à beira do abismo, prestes a ser engolfada pela batalha implacável.
Glossário O.D.d.S
*No caso de "Chūya", o chōonpu sobre o "u" indica que ele deve ser pronunciado como um "u" prolongado. A pronúncia correta seria algo como "Tchuu-ya", com o "uu" soando como em "iuua". Chūya" é um nome japonês que pode ser escrito de várias formas em kanji, cada uma com um significado diferente. No entanto, a pronúncia geralmente permanece a mesma: Chū: A primeira parte do nome, "Chū", é pronunciada como "tchu" em português, com o "u" sendo quase mudo. ya: A segunda parte, "ya", é pronunciada como "ia" em português.
As horas intermináveis de investigação desgastavam a todos, mas a determinação de encontrar Kyouka os impulsionava.
— E agora? O que faremos? — Tanizaki exclamou, passando as mãos pelo rosto tomado pelo nervosismo. — Não temos nenhuma pista, estamos dando voltas em círculos!
— Precisamos manter a calma e pensar em uma estratégia. — , com a voz firme, tentou acalmar os ânimos. — Precisamos encontrar Izumi antes que seja tarde demais. — Ela direcionou seu olhar para o loiro, que parecia distante e preocupado.
— Não se preocupem, encontraremos uma solução. Sempre encontramos — Dra. Yosano, com seu tom de voz firme, disse.
— E como nós vamos fazer isso? Não sabemos por onde começar! — o ruivo exclamou.
— Primeiro, precisamos juntar mais informações, o que acha, Kunikida? — Yosano cruzou os braços, observando Kunikida com um olhar penetrante
Kunikida, perdido em seus pensamentos, levantou os olhos.
— Sim, com certeza. Precisamos analisar os dados que temos até agora. — Kunikida, com seu característico pragmatismo, disse, pegando seu caderno de estratégias e uma caneta no bolso, e começou a rabiscar tudo o que sabiam até o momento. — Atsushi, lembra de mais alguma coisa estranha durante o encontro entre aqueles dois? — o loiro perguntou, virando-se para Atsushi.
O garoto coçou a nuca, tentando resgatar da memória algum detalhe que pudesse ter passado despercebido.
— Apenas alguns fragmentos me vêm à mente. — Ele observou o rapaz, notando a expressão de preocupação no rosto do detetive.
— Por mais pequenos que pareçam, esses detalhes podem ser a chave para resolvermos esse caso. Conte-nos tudo o que se lembra, por favor — Kunikida solicitou, com expressão grave. O garoto acatou o pedido e descreveu os acontecimentos da maneira mais precisa que lhe foi possível. Com a sala imersa em um silêncio quase sepulcral, Atsushi concluiu seu relato, sentindo o coração acelerar a cada palavra.
A tensão era palpável e cada um dos presentes parecia mergulhado em seus próprios pensamentos, tentando conectar as peças desse quebra-cabeça complexo. O garoto aguardava ansiosamente alguma reação, mas o silêncio continuava a reinar na sala. Finalmente, o silêncio foi quebrado, com um suspiro profundo, vindo do Presidente.
— Ranpo, o que pensa sobre tudo isso? — questionou, fixando os olhos no detetive. Ranpo levou os dedos ao queixo, imerso em seus pensamentos.
Por um momento, a sala ficou em silêncio, enquanto ele analisava cada detalhe da história de Atsushi.
— Hmm... — ponderou por um momento, com o semblante sério. — Ao que parece, esse caso está ligado à algo muito maior do que imaginávamos, não concorda, presidente? — Edogawa levantou os olhos, seus olhos brilhavam com uma intensa concentração.
— Ou seja... — engoliu em seco — ... nós vamos precisar de ajuda para lidarmos com isso — concluiu ela, com a voz rouca.
O suor escorria pela testa de todos, enquanto seus olhos percorriam a sala, agora imersa em uma penumbra sinistra. A única luz vinha da tela do computador, que projetava uma imagem distorcida do rosto de Kyouka e um mapa da cidade.
— Mas quem? Quem seria louco o suficiente para se meter nessa história? — Tanizaki questionou.
— Talvez... — começou Atsushi, com um semblante sério. — ...devêssemos procurar aqueles que já enfrentaram ameaças semelhantes.
— Você está falando em nos unir à Máfia do Porto? — questionou Kenji, arqueando uma sobrancelha.
— Sim! — A afirmação de Atsushi causou um choque em todos. Enquanto Dazai apenas cruzou os braços e sorriu de forma enigmática. Como se já esperasse por aquilo.
A revelação de Atsushi sobre a necessidade de uma aliança com a Máfia do Porto instaurou um clima de incerteza e apreensão entre os detetives. A ideia de mais uma parceria com uma organização criminosa, com a qual a Agência de Detetives Armados havia travado inúmeras batalhas, era algo impensável para boa parte da equipe. A proposta de Nakajima, por sua vez, agitou os ânimos e provocou um intenso debate no escritório.
— Aliar-nos à Máfia do Porto mais uma vez? Isso é loucura! — Tanizaki exclamou, os olhos arregalados e gesticulando com as mãos. — Você não se lembra de todas as vezes que foi perseguido por eles, depois que a Guilda* colocou uma recompensa enorme pela sua cabeça no mercado negro por causa do seu poder raro? E o Akutagawa? Ele te odeia visceralmente e faria de tudo para te matar. Não podemos confiar neles — ele questionou, encarando Atsushi.
— Sei que é difícil de aceitar, Tanizaki, mas a situação em que estamos exige medidas drásticas. Às vezes, para proteger um bem maior, é preciso fazer escolhas difíceis — respondeu, com semblante ainda mais sério do que de costume. — Vocês viram o caos que está a cidade lá fora, a vida de vários inocentes está em perigo! Inclusive a de Kyouka.
— Vocês não estão sendo um pouco precipitados? Nos unir novamente à Máfia do Porto é como abraçar um dragão faminto de nove cabeças! — exclamou Kunikida, incrédulo. — Não sabemos quais as consequências que isso pode trazer, corremos o risco de nos vermos em uma situação ainda mais comprometida, como quando eles nos puseram uma condição para que a Dra. Yosano se juntasse a eles na Organização — o loiro continuou a argumentar, sua voz carregada de indignação. — Deve haver uma maneira para lidarmos com isso sem a ajuda de uma organização criminosa inimiga! — o loiro exclamou. Yosano desviou o olhar para um ponto vazio da sala.
Fukuzawa, com sua expressão impassível, ponderou as palavras de seus funcionários. Após um longo momento de silêncio, ele se pronunciou:
— Entendo sua preocupação, Kunikida, mas me oponho a isso. A situação é extremamente grave. A ameaça que se aproxima é maior do que qualquer outra que a Agência já enfrentou. — Fukuzawa levantou-se de sua cadeira. Seus olhos, geralmente tão calmos, agora cintilavam com uma intensidade que incomodava a todos. — Não podemos nos dar ao luxo de escolhermos nossos aliados neste momento. A Máfia do Porto, por mais criminosa que seja, possui recursos e informações cruciais para determos um inimigo em comum. Não temos tempo a perder — ele concluiu, com o semblante sério. Alternando o olhar entre Kunikida e os demais membros da agência.
O loiro apertou os punhos, a incerteza de uma possível traição da Máfia o assombrou. A cidade, antes pacífica, agora enfrentava uma ameaça iminente, e a Máfia do Porto, assim como a Agência de Detetives Armados, eram as únicas capazes de detê-la. A proposta de re-aliança era como pílula amarga e Kunikida se recusava a ingeri-lo.
— Como podemos confiar em pessoas que nos trairiam sem hesitar? — questionou, a voz carregada de ressentimento. — Nossos princípios não podem ser negociados por conveniência!
Fukuzawa suspirou, o peso da decisão em seus ombros.
— Sei que é difícil de aceitar, Kunikida, mas como disse, a vida de milhares de pessoas está em jogo. A Máfia do Porto pode ser nossa maior inimiga, mas neste momento, são nossos únicos aliados — Fukuzawa disse, com semblante sério.
— Você é um dos pilares desta agência, Kunikida. Sua força e determinação nos inspiram. Mas a realidade é que precisamos de todos os recursos que pudermos conseguir — Ranpo, com o seu olhar penetrante, disse.
Kunikida encarou seus companheiros, a angústia e a incerteza combatendo em seus olhos. A decisão a ser tomada era das mais difíceis, mas a sobrevivência da cidade pesava sobre seus ombros.
— Agradeço suas palavras, Ranpo. Prometo honrar a confiança que depositam em mim — Kunikida disse, a voz embargada pela emoção. — Sei que essa aliança é um mal necessário, mas jamais abrirei mão de nossos ideais. — Respirou fundo, o loiro detetive, refletindo sobre o futuro sombrio que os aguardava. — Perdoe-me pela minha imprudência, Presidente. Darei o meu melhor! — Curvou-se em sinal de respeito a Yukichi. Fukuzawa retribuiu o gesto, um sorriso quase imperceptível curvando seus lábios.
— Sei que não é fácil, Kunikida. Mas lembre-se, mesmo na escuridão, a esperança pode florescer. E nós seremos essa luz. — Olhou para cada membro da Agência, seus olhos transmitindo determinação.
Dazai observava a cena com um sorriso enigmático. A reação de Kunikida era previsível, os outros membros da agência pareciam divididos entre as palavras do presidente e o medo do desconhecido. Afinal, quem gostaria de se aliar ao seu maior inimigo?
— Dazai, deixo essa tarefa com você — Fukuzawa disse, com um olhar sério.
— É claro, Presidente. — Osamu sorriu, mas seus olhos refletiam a gravidade da situação. A sobrevivência da cidade estava em jogo, e uma única jogada errada poderia levar à ruína.
A reunião continuou por mais algumas horas, no final, a decisão de aliar-se à Máfia do Porto prevaleceu, a Agência de Detetives Armados se uniria à Máfia do Porto mais uma vez para enfrentar a nova ameaça que se aproximava.
Enquanto isso, na sala de reuniões da Máfia do Porto.
A sala permanecia imersa em um silêncio denso, quebrado apenas pelo tique-taque insistente do relógio e pelas batidas impacientes dos dedos de Chūya sobre a mesa de mogno maciça. Uma ruga profunda vincava sua testa e seus olhos azuis faiscavam com uma impaciência contida. balançava a perna nervosamente, enquanto Kōyō, com seus olhos penetrantes e um sorriso suave, observava o grupo. Seu olhar, no entanto, carregava uma intensidade sutil, como se já estivesse calculando as ramificações daquela reunião. Hirotsu, impassível, mantinha a postura ereta. Seu rosto era uma máscara inexpressiva, mas o leve tamborilar de seus dedos sobre o braço da cadeira denunciava uma preocupação silenciosa. Kajii segurava uma pilha instável de limões, equilibrando-os precariamente com um sorriso divertido. Seus olhos brilhavam com uma curiosidade calculista, como se antecipasse um espetáculo iminente. Tachihara exibia uma fachada de tranquilidade, enquanto Gin parecia tensa. Seus ombros estavam rígidos sob a jaqueta escura e seus olhos varriam a sala com uma ansiedade disfarçada. No centro, o líder mafioso, com os cotovelos apoiados na mesa e as mãos entrelaçadas à frente do rosto, estudava cada um de seus subordinados. Seus olhos profundos e escuros percorriam cada rosto presente naquela reunião crucial. Um grande mapa da cidade, cravejado de alfinetes coloridos, dominava uma das paredes, enquanto um imenso aquário, com peixes exóticos deslizando em movimentos rápidos, murmurava em um canto. A sala, adornada com lustres de cristal e paredes escuras, exalava uma aura de poder e opulência. A tensão era palpável, pairando no ar como uma névoa densa e opressora.
De repente, a porta se abriu, revelando a figura imponente de , a loira, líder dos Lírios Negros, um dos comandos de operações mais temidos da Máfia do Porto. Irmã mais nova de Gin e Ryūnosuke Akutagawa, sua reputação na organização a precedia. Com um sorriso confiante nos lábios, a loira adentrou a sala e dirigiu-se ao lugar vago ao lado de . Seus olhos percorreram o recinto, analisando cada um dos companheiros, até pousarem no líder mafioso.
— Chefe, — sua voz, firme e imponente, ecoou pela sala — recebi informações de que um membro da Agência de Detetives Armados desapareceu durante o festival de Halloween. Um caso similar ao de alguns dos nossos subordinados.
arqueou uma sobrancelha, surpresa. Seus olhos encontraram os de , buscando mais detalhes.
— Um funcionário da Agência? — perguntou, a incredulidade em sua voz. assentiu levemente. Mori manteve seu olhar fixo em , demonstrando uma leve surpresa. Um brilho pensativo surgiu em seus olhos.
prosseguiu:
— Ao que parece, Kyouka Izumi desapareceu durante o incidente ocorrido no Halloween, no centro de Yokohama — ela concluiu, o tom sério.
Kouyou Ozaki, membro executivo da Máfia, cerrou os punhos.
— Kyouka? Desaparecida? Isso é inaceitável! — exclamou ela, a voz carregada de emoção. — Como aquele maldito garoto tigre permitiu que isso acontecesse? — Sua voz ecoou pela sala, revelando sua surpresa, irritação e profunda preocupação.
Mori ergueu uma sobrancelha, seus olhos fixos em . A notícia do desaparecimento da jovem foi um choque. Kyouka Izumi, ex-membro da Máfia, sempre fora uma peça-chave nas operações da organização. Um leve franzir de lábios indicou sua crescente preocupação.
— Essa ausência pode desencadear uma série de consequências imprevistas — ponderou Mori, com um olhar sério, inclinando-se para trás, acomodando-se no encosto de sua poltrona. — Kyouka possui conhecimentos valiosos, tanto da Máfia quanto da Agência.
— E se alguma organização rival estiver por trás disso? — questionou. — Eles podem estar tentando manipular Kyouka para nos atacar, usando informações privilegiadas.
Kouyou bateu as mãos na mesa com força, fazendo os objetos sobre ela tremerem.
— Isso eu não posso permitir! Irei encontrá-la a qualquer custo! — Ela levantou-se abruptamente, seus olhos, normalmente serenos, agora cintilavam com uma intensidade mortal. Uma aura perigosa emanava de seu corpo.
— Kouyou, acalme-se. Sua protegida sabe como se defender. — Mori, com a voz baixa e calma, tentou dissuadi-la. Mas suas palavras pareciam se perder no ar. A mulher estava furiosa, e sua determinação em encontrar Kyouka era palpável. Mori suspirou imperceptivelmente, sabendo que a razão dificilmente prevaleceria naquele momento.
Nesse instante, Kajii, membro de baixa patente da Máfia do Porto — ainda equilibrando sua torre de limões — soltou uma risada curta e peculiar. Todos os olhares se voltaram para ele. Até mesmo o movimento frenético dos peixes no aquário pareceu diminuir por um instante.
— Estamos totalmente ferrados. — Ele riu, um som seco que não alcançou seus olhos. Um limão solitário rolou de sua pilha instável e quicou no chão, como se para enfatizar suas palavras. — Se a Agência perdeu um de seus membros, especialmente alguém com o histórico da pequena Kyouka, vão virar esta cidade de cabeça para baixo. E nós estaremos no meio do furacão, não é mesmo, chefe?
Chuuya parou de tamborilar os dedos, seus olhos azuis estreitando-se para Kajii. Sua postura antes relaxada enrijeceu e uma carranca se formou em seu rosto.
— O que você quer dizer com isso, Kajii? Está insinuando que não podemos lidar com a Agência de Detetives? — Ele cerrou os punhos, a raiva borbulhando em seus olhos.
Motojirō deu de ombros, equilibrando os limões restantes com mais firmeza. Seu sorriso divertido não vacilou, mas havia um brilho sério em seus olhos.
— Longe de mim duvidar da nossa capacidade, Chuuya. Mas pense bem. Kyouka não é qualquer pessoa. Ela conhece nossos métodos, nossos esconderijos… e ela é um membro da Agência agora. — Ele fez uma pausa dramática, deixando suas palavras pairarem no ar. — Se alguma organização rival a capturou, bem, digamos que, tanto nós quanto os detetives, seremos atacados da pior maneira possível. — Kajii sorriu de forma enigmática e continuou: — Além disso, se Kyouka Izumi realmente foi capturada, é porque veem valor nela. E isso significa problemas para todos nós, de qualquer forma.
Hirotsu pigarreou, sua voz grave e ponderada quebrando o silêncio tenso. Ele ajustou as luvas com um movimento lento e deliberado.
— Kajii levanta pontos válidos. A situação é delicada e requer cautela. Agir impulsivamente, como a senhorita Kouyou pretende, pode atrair atenção indesejada. — Ele ajeitou o monóculo, sua expressão séria. — Devemos considerar todas as possibilidades antes de tomarmos qualquer atitude precipitada.
Gin apertou os lábios sob a máscara, seus olhos fixos em . Uma sombra de preocupação cruzou seu olhar normalmente estoico. Tachihara manteve seu habitual semblante confiante, mas seus olhos percorriam a sala, avaliando a reação de cada um. Um leve tremor em um de seus braços, quase imperceptível, sugeria uma tensão subjacente. Enquanto pensava sobre as palavras de Kajii com crescente apreensão, seus olhos se fixaram no envelope que segurava. Sua curiosidade superou momentaneamente sua preocupação.
— O que é isso? — perguntou, apontando para o envelope grosso e lacrado com cera vermelha. olhou para .
— Oh, sim. Este envelope chegou há instantes e é dirigido a você, chefe. — A loira entregou o envelope a Mori. Ōgai Mori, sentado à cabeceira da longa mesa, abriu o envelope com dedos lentos e precisos. A carta, ou melhor, o bilhete, escrito em uma caligrafia familiar, o fez rir minimamente. Ele pegou o bilhete, lendo mentalmente cada palavra com atenção. Enquanto olhos dos outros membros da máfia se fixaram no chefe, ansiosos por qualquer sinal de sua reação.
Seus lábios se curvaram em um sorriso irônico, e seus olhos, antes intensos, brilharam com um interesse insólito e enigmático.
— Sim, compreendo. Então, mais uma vez, chegou a isso — murmurou ele, guardando o bilhete no envelope novamente, entrelaçando as mãos à frente do rosto em seguida.
Hirotsu Ryūrō, comandante dos Lagartos Negros, arqueou uma sobrancelha.
— O que diz o conteúdo da carta, chefe? Quem a mandou? — perguntou, observando atentamente o rosto de Mori.
Mori ergueu os olhos, seu olhar percorrendo os rostos de cada um dos presentes.
— Dazai é quem a enviou — pronunciou ele, suavemente. — Um convite, nada mais — o Chefe respondeu, passando a carta para Hirotsu.
— Um convite? Que tipo de convite? — perguntou, franzindo o cenho enquanto Hirotsu lia a mensagem.
— Algo a ver com a Kyouka? — Kouyou, um pouco mais calma, perguntou.
Mori sorriu, revelando seus dentes brancos.
— É uma possibilidade! É um convite para uma reunião. Um encontro entre velhos amigos — ele respondeu.
franziu o cenho. Ela não conseguia entender o motivo de Dazai querer se reunir com eles. O que ele poderia querer?
— Dazai? O que ele quer conosco? — Tachihara Michizō, líder do batalhão Lagartos Negros, franziu a testa, visivelmente confuso.
— Mais uma proposta envolvendo nossas organizações — disse Mori. — Desta vez, a Agência de Detetives Armados propõe uma nova trégua temporária em troca de nossa ajuda em uma missão de alto risco contra a nova ameaça que assola Yokohama.
— Aquele suicida nunca desiste, não é? E ainda tem a audácia de vir com propostas mirabolantes. — Chuuya cruzou os braços e resmungou com desdém. — Como se eu pudesse confiar em algo vindo daquela agência e daquele idiota.
— Uma proposta? O que mudou de repente? — questionou , franzindo a testa.
— Ambas as nossas organizações têm sofrido com o desaparecimento de subordinados — prosseguiu Mori, com o olhar fixo em um ponto da sala. — E, segundo o próprio Dazai, esses desaparecimentos estão ligados à uma certa organização sombria que atua nas sombras. Uma organização que visa eliminar todos os indivíduos com habilidades sobrenaturais e, assim, dominar o mundo, submetendo-os a um controle mental total.
Um silêncio carregado de tensão pairou sobre a sala.
— Uma organização que pretende eliminar todos os indivíduos com habilidades sobrenaturais e dominação mundial? — repetiu , incrédula. — Isso parece algo saído de um romance barato.
— Dazai apresentou informações concretas. — O líder mafioso fez uma pausa breve e então continuou: — Parece que estamos diante de uma ameaça mais séria do que imaginávamos. Uma organização que se autodenomina Corvos Negros. Exatamente como eu havia imaginado.
— Corvos Negros? — Kouyou perguntou, com o semblante mais sério do que de costume.
A menção dos Corvos Negros provocou um arrepio de tensão em todos, lembrando a conversa anterior na sala de Mori com os irmãos Nakahara.
— Achei que essa organização havia sido eliminada anos atrás — questionou, com os olhos arregalados.
Mori sorriu um sorriso amargo, um brilho gélido em seus olhos.
— Ao que parece, os Corvos Negros não foram completamente erradicados. Eles estavam apenas esperando o momento certo para ressurgir das sombras — O líder mafioso revelou.
— Mas por que eles escolheriam agora para atacar? E por que estão interessados em eliminar pessoas com habilidades sobrenaturais? — Tachihara questionou, franzindo o cenho, inquieto.
Mori inclinou-se para frente, a voz mais grave.
— A resposta para a primeira pergunta é simples: poder. Com o mundo em constante mudança e o aumento da vigilância sobre indivíduos com habilidades, os Corvos Negros veem uma oportunidade de se fortalecer e consolidar seu domínio. Quanto à segunda pergunta… — ele respondeu, fazendo uma pausa breve. — Acredito que eles buscam criar um exército de soldados obedientes, controlados por sua mente, para realizar seus planos de dominação mundial.
— Querem nos controlar como marionetes? Nunca vou permitir isso! — Chuuya esbravejou, a raiva borbulhando dentro dele.
cruzou os braços, pensativa.
— Se essa informação for verdadeira, estamos diante de uma ameaça sem precedentes — a loira disse, com o semblante sério. — Precisamos agir rápido, mas com cautela. Não podemos subestimar essa organização. Mesmo que isso signifique aliar-nos à Agência. — Ela sempre desconfiou da Agência, mas agora não havia outra opção.
— tem razão — concordou com a loira, passando a mão pelos cabelos. — Uma aliança com a Agência de Detetives Armados pode ser a chave para derrotarmos os Corvos Negros e resgatarmos os nossos subordinados.
Um clima de tensão e adrenalina se instalou na sala. A revelação de Mori, seguida da proposta de Dazai, era tentadora, mas também arriscada. Outra aliança com a Agência poderia trazer benefícios, mas também colocar ambas as organizações em uma posição vulnerável.
— Então, o que faremos, chefe? — questionou Chuuya, quebrando o silêncio. — Aceitamos a proposta de Dazai ou continuamos a agir por conta própria?
Mori ponderou por um longo momento antes de responder.
— A Agência de Detetives Armados deve estar desesperada para encontrar Kyouka. — Mori guiou seu olhar para o ruivo, um brilho estratégico nos olhos. — E os Corvos Negros estão agindo mais rapidamente do que esperávamos. No entanto, não podemos permitir que essa organização sombria se meta com a Máfia do Porto e saia impune. Essa é uma decisão difícil, mas também uma proposta tentadora.
— A Agência pode oferecer informações privilegiadas sobre o desaparecimento de Kyouka, além de dados que podem acelerar nossa busca. E, claro, uma distração conveniente enquanto executamos nossos próprios planos. Mas, como todo bom negócio, há riscos. — sorriu, um gesto enigmático que fez concordar com um aceno de cabeça. — A traição é sempre uma possibilidade e uma aliança com a Agência pode trazer ótimos benefícios.
— Não confio naqueles detetives, nem um pouco. Mas tem um ponto — disse, cruzando os braços. Seus olhos cintilavam com uma excitação quase obsessiva.
— E se os detetives estiverem apenas fingindo cooperar, usando-nos como isca para nos atrair? O que você pretende fazer, querido chefe? — Kouyou, sempre a mais pragmática, questionou.
Mori sorriu, com a ponta dos dedos tamborilando na mesa. A sala estava em silêncio, a tensão era palpável no ar.
— Conhecendo os membros da agência, seria improvável que isso ocorresse. No entanto, por precaução, podemos implementar protocolos de segurança adicionais para garantir que não sejamos traídos. — Mori entrelaçou os dedos, esboçando um sorriso enigmático.
Tachihara se levantou, determinado.
— Então, o que fazemos agora? Quais são as ordens? — o ruivo perguntou.
Mori sorriu, um sorriso enigmático.
— A primeira coisa que faremos é enviar uma equipe para investigar a fundo o retorno dos Corvos Negros e onde estão se escondendo. Precisamos descobrir tudo o que pudermos sobre seu ressurgimento. — Ōgai Mori pausou, seus olhos percorrendo friamente cada um dos presentes, avaliando suas expressões. — Enviaremos nosso homem mais leal para monitorar de perto todos os seus movimentos. — Um sorriso frio e calculista curvou os lábios finos de Gin sob a máscara. Seus olhos escuros encontraram os de e um entendimento silencioso passou entre as irmãs. A lealdade de *Ryūnosuke Akutagawa ao chefe era inquestionável, assim como sua capacidade de se mover nas sombras sem ser notado. — Enquanto a outra tropa fortalecerá nossas próprias forças, nos preparando para o pior. — Sua voz era grave e decidida, sem espaço para dúvidas. Seus lábios se curvaram em um sorriso quase imperceptível, já antecipando a próxima jogada dos inimigos. — A partir de agora, todos estarão sob maior vigilância. — Sua voz assumiu um tom mais firme e autoritário. — E lembrem-se, — ele pausou, seu olhar percorrendo cada um dos presentes, enfatizando suas palavras — a lealdade à Máfia do Porto vem em primeiro lugar. Qualquer um que seja pego traindo será punido com o máximo rigor. — A frieza em seu tom deixou claro que não haveria exceções. — Muito bem… — Mori iniciou, um sorriso enigmático curvando seus lábios. Com um movimento decidido, ele se levantou de sua poltrona. — Agora, vamos nos preparar para encontrarmos nossos velhos amigos.
A decisão havia sido tomada, e a guerra, iminente. A Máfia do Porto e a Agência de Detetives Armados, duas forças antagônicas, caminhavam para um possível elo de aliança, e o destino de Yokohama seria decidido naquele encontro.
Glossário O.D.d.S
*A pronúncia para “Ryūnosuke” é "Riu-nos-ke".
Algumas luzes da cidade cintilavam fracamente lá fora, como vaga-lumes hesitantes em meio à escuridão crescente, enquanto em outras partes, as ruas eram iluminadas por chamas dançantes e carros retorcidos, seus chassis fumegantes como feridas abertas na paisagem urbana. Os prédios e casas estavam completamente destruídos, suas fachadas esburacadas e janelas vazias como olhos mortos, testemunhas silenciosas da violência que assolava Yokohama. Mas dentro daquela sala, em um dos esconderijos discretos e seguros da Agência de Detetives Armados, a escuridão era repelida por uma única lâmpada pendurada no teto. O ar estava carregado de uma expectativa tão densa que quase se podia tocá-la, uma tensão palpável que fazia os pelos da nuca se arrepiarem.
Um silêncio pesado pairava sobre o ambiente, um silêncio sepulcral que contrastava brutalmente com o burburinho sinistro e distante da cidade em ruínas: explosões abafadas, gritos esparsos e o crepitar constante do fogo. A cada segundo que passava, o tique-taque implacável de um relógio de parede antigo ecoava pela sala, cada pulso um lembrete sombrio de que o tempo se esgotava, intensificando a sensação opressora de que algo grandioso e irreversível estava prestes a acontecer. O cheiro de pólvora e fumaça, trazido pelas correntes de ar que sopravam pelas frestas das janelas, se misturava ao aroma adocicado dos doces de Ranpo que impregnavam o lugar. Yokohama, a cidade que nunca dormia, agora agonizava em um torpor violento, se preparando para uma noite que marcaria um novo capítulo em sua história turbulenta, um capítulo escrito não com tinta e papel, mas com uma improvável aliança forjada nas chamas da adversidade, ou talvez, com sangue derramado e uma traição ardilosa.
A sala era envolta em um silêncio pesado, interrompido apenas pelo crepitar distante de uma lareira apagada em um canto. A mesa de mogno polido, outrora palco de banquetes e celebrações, agora servia de linha divisória entre dois mundos: de um lado, a Máfia do Porto, do outro, a Agência de Detetives Armados.
No lado da Máfia, Ōgai Mori, o chefe, emanava uma aura de calma fria e calculista. Seus dedos finos estavam entrelaçados à frente do rosto, um gesto quase ritualístico que escondia a complexidade de seus pensamentos. Seus olhos cor de vinho, normalmente adornados por um sorriso enigmático, agora estavam fixos em Yukichi Fukuzawa, o presidente da Agência. Atrás dele, como sombras alongadas pela luz fraca, permaneciam seus subordinados: o olhar penetrante de Chuuya Nakahara, com uma mão enluvada repousando sobre o chapéu, e a postura quase indolente de Akutagawa, cujo olhar sombrio varria os presentes como se buscasse uma presa. Gin, quase imperceptível nas sombras, mantinha o olhar baixo, mas seus ombros tensos e a mão próxima à adaga escondida sob o quimono revelavam sua prontidão; Tachihara Michizou, com a mandíbula cerrada e uma expressão pétrea, mantinha a mão próxima ao coldre da arma, o couro de sua jaqueta rangendo levemente a cada respiração, um aviso silencioso de sua prontidão; Ryūrou Hirotsu, com sua habitual fleuma, observava a cena com atenção discreta, sua experiência visível em cada traço; Kajii Motojirou, com seu sorriso peculiar e a inseparável "bomba de limão" à vista, observava a cena com um brilho de excitação contida. Kouyou Ozaki, em sua beleza fria e imponente, mantinha uma postura elegante, mas seus olhos atentos não perdiam nenhum movimento; e , com uma postura corporal tensa e um olhar que espelhava a determinação fria de seu irmão, demonstrava lealdade e sincronia com a atmosfera da Máfia. Ambos pareciam prontos para agir sob as ordens de Mori, refletindo a hierarquia e disciplina da organização. A tensão no ar era palpável, como uma corda esticada prestes a arrebentar. A quietude deles era mais ameaçadora do que qualquer grito, uma promessa silenciosa de violência contida.
Do outro lado da mesa, Yukichi Fukuzawa, o presidente da Agência, mantinha uma postura ereta e imponente. Seus braços estavam cruzados à frente do corpo, uma barreira física que refletia sua determinação inabalável. Seu olhar penetrante encontrava o de Mori, sem vacilar. A serenidade em seu rosto não era de calma, mas de uma determinação férrea. Atrás dele, seus membros formavam um escudo protetor: Doppo Kunikida, com sua agenda sempre à mão, pronto para materializar uma arma de ataque a qualquer irregularidade, seus óculos refletindo a luz fria da sala; Atsushi Nakajima, embora ainda hesitante, demonstrava uma coragem crescente em seu olhar, sua mão crispada levemente ao lado do corpo; Edogawa, com sua expressão séria e olhos arregalados, observava atentamente os membros da Máfia, sua presença silenciosa carregada de uma intensidade contida; Kenji Miyazawa, apesar de sua natureza geralmente despreocupada, mantinha uma postura firme, pronto para usar sua força sobre-humana se necessário; Yosano Akiko mantinha um uma expressão calma, mas seus olhos afiados avaliavam cada indivíduo, pronta para intervir com suas habilidades de combate se o conflito eclodisse; Ranpo Edogawa, com os olhos semicerrados, parecia desinteressado, mas sua mente analítica já havia mapeado todas as possíveis rotas de fuga e pontos de ataque; e Osamu Dazai, com seu sorriso enigmático e olhar aparentemente distante, vagando pelo teto, mas com os sentidos aguçados para qualquer mínima mudança na atmosfera, sua mente maquinando diversas estratégias em silêncio.
A tensão na sala era palpável, quase física, como uma corda esticada ao máximo, pronta para se romper ao menor toque. O ar parecia vibrar com a energia contida, o prenúncio de um confronto iminente. Cada líder avaliava o outro, buscando fraquezas, antecipando movimentos. Não havia palavras, apenas olhares carregados de significado, um duelo silencioso travado no campo de batalha da diplomacia forçada. O silêncio era tão denso que se podia ouvir o bater dos corações, tanto dos membros da Agência quanto da Máfia, aguardando o momento em que a paz frágil se despedaçaria.
O chefe da Máfia, Ougai Mori, com seu sorriso enigmático que nunca alcançava os olhos cor de vinho, quebrou o silêncio denso que pairava sobre o esconderijo da agência. A presença de Mori, mesmo em meio àquele ambiente tenso, exalava uma autoridade inquestionável, quase palpável. Ao seu lado, Kouyou Ozaki e Ryurou Hirotsu mantinham uma postura impecável, um leve toque de perigo emanando de sua quietude.
— Dazai... — iniciou Mori, sua voz suave carregada de um tom calculado, lançando seu olhar penetrante na direção do rapaz de bandagens. — Vejo que ainda não se decidiu em abandonar a Agência e retornar para a Máfia. Seu cargo de executivo ainda o espera — completou a frase com uma leve inclinação de cabeça, quase imperceptível, como se oferecesse uma cortesia macabra.
Osamu, encostado displicentemente na parede, com um sorriso quase infantil brincando em seus lábios, respondeu com sua habitual nonchalance, mas com um brilho de astúcia em seus olhos:
— Fico profundamente lisonjeado com o convite, chefe. A gentileza é tocante, como sempre. Quase me faz acreditar que o senhor sente minha falta. — Uma pausa curta, um olhar rápido para Kouyou, antes de continuar. — Mas recuso. A vida na Agência tem sido... revigorante. Descobri que prefiro salvar pessoas a... bom, você sabe. — Dazai gesticulou vagamente com a mão enfaixada, como se descartasse um pensamento desagradável. — Sem mencionar que meus colegas sentiriam minha falta, especialmente Kunikida, que perderia seu alvo favorito para seus sermões. — Dazai direcionou um rápido olhar para Kunikida, que cerrou os punhos, uma veia saltando em sua testa. A rigidez em seus ombros denunciava o esforço para manter a compostura.
Mori soltou uma risada baixa, um som que ecoou pela sala, amplificado pelo silêncio sepulcral dos mafiosos que o acompanhavam.
— Você sempre teve um talento para o drama, Dazai... — Ele pausou, dando lugar a sorriso enigmático. Seus olhos cintilavam à luz fraca. — Mas o drama não muda os fatos. Você é uma peça valiosa demais para ser deixada de lado. Mas de qualquer forma, seu cargo de executivo estará disponível caso recupere o bom senso. Inclusive para vocês, Detetives. A Máfia sempre os receberá de braços abertos. — Mori estendeu uma das mãos enluvadas, a luva branca esticada como a garra de um predador, oferecendo um pacto faustiano, alternando o olhar entre os membros da agência.
Dazai manteve o sorriso, mas seus olhos, antes divertidos, agora transmitiam uma um brilho enigmático que rivalizava com a de Mori. A luz tênue refletia em suas íris cor de âmbar, antes vibrantes, agora opacas como vidro fosco. Ele se desencostou da parede, endireitando a postura. O tecido de seu sobretudo farfalhou suavemente. Suas mãos deslizaram para dentro do bolso do sobretudo, um gesto casual, mas que não escapou aos olhos atentos de ninguém, especialmente os de Chuuya, que cerrava os punhos discretamente.
— Receio que meu bom senso esteja em falta ultimamente. Talvez eu tenha sido contagiado — Dazai respondeu, com um tom de voz carregada de um sarcasmo cortante como navalha, os olhos fixos em Chuuya por uma fração de segundo antes de voltar o olhar para Mori.
A tensão atingiu o ápice, o silêncio sendo quebrado apenas pelo leve farfalhar do vento frio que entrava pelas frestas das janelas e pelo tique-taque do relógio.
— Maldito! — Chuuya rosnou entre dentes, dando um passo à frente, as mãos se crispando em punhos.
A raiva emanava dele como calor, quase palpável. Veias saltavam em seu pescoço, e seus olhos faiscavam de fúria. Ele estava pronto para avançar, mas hesitou, contendo-se com dificuldade. A lembrança de ordens superiores o deteve, mas a cada segundo parecia mais difícil se controlar.
— Não estamos aqui para discutir o passado de Dazai. — A voz de ecoou pela sala, firme e autoritária, cortando a atmosfera carregada como um raio.
Suas botas bateram firmemente contra o chão de madeira enquanto ela se movia alguns passos para frente, posicionando-se ao lado do Presidente da Agência. Seu olhar severo percorreu os presentes, pousando brevemente em Chuuya antes de se fixar em Mori. Seus olhos brilharam sob a luz e sua expressão era inabalável. Ela cruzou os braços, uma postura que transmitia determinação e controle.
— Temos assuntos mais importantes a tratar. A vida de Kyouka e a segurança desta cidade dependem da nossa cooperação. E como devem saber, os Corvos Negros estão agindo mais rapidamente do que esperávamos — disse, sua voz carregada de preocupação. — Essa organização sombria retornou e precisamos unir nossas forças. Não sabemos o que pode acontecer com Izumi se não nos apressarmos.
A sala ficou em silêncio por alguns segundos. A tensão era palpável. Do lado da Máfia do Porto, Chuuya rangeu os dentes, um olhar sombrio fixo em um ponto qualquer da parede. Kouyou, ao seu lado, apertou as mãos nervosamente, preocupada com a possibilidade de Kyouka estar em perigo. , com os braços cruzados, mantinha uma expressão impassível, mas um leve franzir de testa denunciava sua apreensão.
Mori, até então observando a interação com um sorriso enigmático, se pronunciou.
— De fato. A sentimentalidade não tem lugar em negociações como esta. — Ele juntou as mãos à frente do rosto novamente, em um gesto quase teatral, seus olhos percorreram os membros da Agência, pousando finalmente em Fukuzawa. — A Máfia do Porto está disposta a cooperar com a agência e lutar contra os Corvos Negros, desde que nossos termos sejam atendidos.
Kunikida ajustou seus óculos, anotando mentalmente a declaração de Mori. Atsushi, ao lado de Kunikida, engoliu em seco, sentindo a tensão no ar quase como uma pressão física. Kenji, com seu jeito sempre otimista, mesmo diante da atmosfera carregada, inclinou a cabeça para o lado, parecendo genuinamente curioso sobre o desenrolar da conversa, embora talvez não compreendesse totalmente a gravidade da situação. observava a interação com seus olhos arregalados, analisando cada nuance da conversa, uma expressão indecifrável em seu rosto, misturando cautela e preocupação. Tanizaki, mais reservado, mantinha o olhar fixo em Mori, com uma expressão preocupada e as mãos ligeiramente crispadas, demonstrando sua apreensão. Yosano, por sua vez, cruzou os braços e encostou-se na parede, com um olhar sério e um leve franzir de testa, como se estivesse pronta para intervir caso a situação saísse do controle. Dazai ficou com o semblante sério, completamente impassível. Seus olhos não demonstravam qualquer emoção, como se ele fosse um mero observador daquela cena, alheio a qualquer envolvimento pessoal. Ele mantinha uma postura relaxada, mas atenta, como um predador à espreita, pronto para agir caso necessário. Sua neutralidade era quase perturbadora, contrastando fortemente com a tensão que emanava dos outros presentes. Enquanto Ranpo, mais ao fundo da sala, com um pirulito na boca, observava a cena com um olhar perspicaz, como se estivesse analisando cada detalhe, como se pudesse ver através das intenções de cada um ali presente.
O presidente da Agência de Detetives Armados, até então em silêncio, finalmente se pronunciou:
— A segurança de Kyouka não é moeda de troca. — Seus olhos encontraram os de Mori, sem vacilar, transmitindo uma firmeza inabalável. — Seus termos devem refletir a gravidade da situação e do bem comum, e não a busca por vantagens pessoais. — Sua voz, calma e grave, carregava o peso da autoridade e da experiência. — Não se engane, a Agência de Detetives Armados não está aqui para negociar de igual para desigual. Nossos termos também devem ser considerados e a segurança de Kyouka é nossa prioridade inegociável. Entenda isso.
Após a declaração de Fukuzawa, um silêncio pesado pairou na sala. Mori, com um leve sorriso nos lábios, respondeu:
— Compreendo sua preocupação, senhor Fukuzawa. A Máfia do Porto também preza pela segurança de Kyouka e de Yokohama. Nossos termos são justos e visam garantir a estabilidade da cidade. — Ele fez uma pausa, seu olhar encontrando o de . — E reconhecemos a importância da senhorita em mediar esta situação. Sua reputação a precede.
assentiu levemente, mantendo a expressão séria.
— Agradeço a consideração. No entanto, a justiça de seus termos será avaliada. Não aceitaremos condições que coloquem em risco a vida de Kyouka, dos membros da Agência ou a segurança dos cidadãos. — pôs as mãos nos bolsos de sua calça, demonstrando firmeza.
Fukuzawa, então, se dirigiu diretamente a Mori:
— Diga, quais são seus termos, Mori? Seja direto. Não temos tempo para jogos. — Sua voz soou mais grave e firme do que antes
Mori manteve o sorriso enigmático, como se estivesse saboreando o momento. Finalmente, com um suspiro quase teatral, ele começou a enumerar seus termos:
— Muito bem, Fukuzawa. Serei direto, os meus termos são… — Ele fez uma pausa, calculando o efeito de cada palavra.
O silêncio se estendeu pelo ambiente enquanto todos prendiam a respiração, aguardando o que viria a seguir.


Atsushi soltou um rugido gutural, um som primal que eriçou os pelos da nuca de alguns de seus companheiros. Sua estrutura óssea parecia se alongar sob a pele; os músculos contorciam-se em preparo para a transformação bestial. Garras afiadas como navalhas projetavam-se de seus dedos, e a energia selvagem que o habitava pulsava visivelmente, distorcendo o ar ao seu redor em ondas de calor invisíveis.
— O que pensa que está insinuando?! — sibilou, a voz habitualmente melódica carregada de uma fúria fria. Seus olhos estreitaram-se, e a aura psíquica que a envolvia sutilmente se intensificou, irradiando uma pressão invisível que fazia os pelos dos braços se arrepiarem. Era um aviso silencioso, palpável, de suas capacidades que raramente precisavam ser demonstradas para surtir efeito. Ela não buscava o confronto físico; preferia que o peso de sua mente fosse o suficiente para esmagar qualquer insolência antes mesmo que a primeira palavra fosse gaguejada.
Ao lado da imponente figura de Fukuzawa, Kunikida empurrou os óculos na ponte do nariz com um gesto brusco. O metal da armação rangeu levemente sob a pressão de seus dedos tensos, que agarravam a caneta com tamanha força que a ponta ameaçava perfurar o papel de sua agenda impecável. Uma veia saltava em sua têmpora, um mapa da indignação que o consumia. Seus olhos, normalmente analíticos e calmos, faiscavam com uma intensidade quase fanática, refletindo a urgência de seus ideais.
— Isso é inaceitável! — trovejou Kunikida, a voz ecoando áspera pelo ambiente úmido. Suas mãos tremiam ligeiramente, a raiva mal contida. — A estabilidade de Yokohama está pendurada por um fio! Jamais permitiremos que a Máfia do Porto profane artefatos de tamanho poder para ambições egoístas. O Orbe e o Livro devem ser selados, imediatamente! — Sua declaração final soou como um ultimato, varrendo o murmúrio hesitante que começava a surgir entre os membros da Máfia. Seus olhos fixaram-se em cada um deles, um desafio silencioso e inabalável, a determinação gravada em cada linha de seu rosto.
manteve os braços cruzados, a postura corporal exalando desafio. Seu olhar gélido perfurava Ougai Mori, o líder da Máfia, como estilhaços de gelo.
— Acha mesmo que somos cegos às suas tramas, senhor Mori? Seus jogos de poder são transparentes. — Sua voz era um sussurro carregado de veneno, cada palavra destilando severidade. — Utilizar relíquias tão perigosas para ganho pessoal é uma afronta à segurança de todos. As consequências seriam incalculáveis, arrastando esta cidade para um abismo de caos. Não permitiremos que seus caprichos mesquinhos coloquem em risco a vida de inocentes.
Completamente alheio à atmosfera carregada, Ranpo girava o pirulito na boca com uma indolência exasperante. Seus grandes olhos esmeraldas, geralmente vibrantes com uma inteligência quase sobrenatural, estavam fixos em Mori, perscrutando-o com uma intensidade silenciosa que parecia radiografar sua alma. Uma ruga fina vincava sua testa, a única indicação de que sua mente afiada processava cada nuance da situação, catalogando cada microexpressão e hesitação.
Kenji, com sua habitual ingenuidade, observava a cena com uma curiosidade inocente, pronto para agir caso seus companheiros precisassem de sua força descomunal. Seus músculos já estavam levemente tensos, como molas prontas para disparar. Tanizaki mantinha-se ligeiramente atrás de , observando a Máfia com um misto de apreensão e determinação, sua habilidade de ilusão sutilmente ativa, criando uma leve distorção visual ao seu redor, evitando qualquer ataque surpresa. Yosano, com os braços cruzados e um olhar afiado, avaliava cada membro da organização rival, seus olhos percorrendo-os como um cirurgião avaliando um paciente, pronta para intervir com suas habilidades de ataque caso a situação degenerasse em violência.
Enquanto isso, Dazai apoiava-se displicentemente em um pilar, um sorriso enigmático dançando em seus lábios. Seus olhos cor de âmbar brilhavam com um divertimento sombrio, como se apreciasse a ironia daquele confronto iminente. No entanto, a sutileza com que seus punhos permaneciam cerrados dentro dos bolsos de seu sobretudo bege denunciava a tensão latente sob sua fachada despreocupada. Uma aura de perigo calculada emanava dele, como a calma traiçoeira antes da tempestade, e um leve brilho avermelhado podia ser notado em seus olhos.
Do lado da Máfia do Porto, respondeu ao desafio com um olhar gélido, seus lábios se curvando em um sorriso de escárnio que não alcançava seus olhos frios. Seus olhos claros percorreram Atsushi de cima a baixo, como se o medissem para um caixão. Os anéis prateados em seus dedos tamborilavam impacientemente em sua coxa, um presságio de violência iminente, e uma leve aura metálica cintilava ao redor de suas mãos. Hirotsu, com sua postura sempre calma e solene, observava a cena com uma expressão impassível, seus olhos semicerrados denotando uma cautela silenciosa e uma avaliação tática da situação. Tachihara, por outro lado, demonstrava uma excitação quase infantil, um sorriso sádico deformando seus lábios enquanto seus dedos crispavam em antecipação à violência. Kouyou, mantendo a compostura elegante que lhe era característica, abanava-se com seu leque de seda carmesim, um leve franzir de cenho traindo sua preocupação com a escalada da situação, seus olhos fixos em Mori, aguardando suas ordens. Gin, com a parte inferior do rosto oculta por uma máscara, permanecia em silêncio absoluto, sua presença quase fantasmagórica, mas a leve vibração que emanava de seu corpo e o brilho sutil de suas lâminas escondidas denunciavam a tensão que também a consumia. Kajii, com um sorriso maníaco, segurava um limão em uma das mãos, pronto para lançá-lo como um projétil explosivo a qualquer momento. Chuuya, com as mãos sempre nos bolsos da calça, alternava um olhar irritado entre Dazai e o restante dos membros da ADA, enquanto batia o pé ritmicamente no chão, a gravidade ao seu redor começando a distorcer-se sutilmente, o ar parecendo vibrar ao seu redor com a pressão gravitacional crescente.
Mori, com um sorriso calmo que contrastava com a atmosfera carregada, finalmente se pronunciou:
— A segurança de Yokohama é uma prioridade em comum que nós compartilhamos. Para garantir essa segurança, algumas... concessões são necessárias — ele começou. — A Agência tem se mostrado, digamos, relutante em cooperar plenamente com nossos esforços. — Sua voz, antes suave, agora adquiria um tom mais ameaçador. — Além disso, a recente incursão de um certo tigre em nossas operações causou um transtorno notável. Acredito que uma demonstração de boa fé por parte da Agência seria mais do que apropriada. Afinal, não queremos que mal-entendidos como esse se repitam, não é mesmo?
— Relutante? Vocês invadiram nosso território, sequestraram um de nossos membros há algum tempo e agora exigem nossa submissão! Isso não é relutância, é bom senso! — Kunikida explodiu, a irritação finalmente rompendo a barreira do autocontrole. Ele agarrou o braço de Atsushi com força, como se o protegesse instintivamente.
, ao lado de Mori, cruzou os braços, com um olhar de impaciência em seu rosto. Enquanto Chuuya deu um passo à frente, sua postura exalando perigo contido.
— Acalme-se, Kunikida. — A voz grave de Fukuzawa cortou o ar, silenciando o ímpeto do subordinado. Seus olhos, frios e penetrantes, se voltaram para Mori. — E quais seriam exatamente essas concessões? Por favor, seja direto.
O mafioso sorriu, um gesto lento e calculado que crispou os cantos de seus lábios. Seus olhos brilhavam com uma malícia fria.
— É bem simples... Abriremos mão dos artefatos celestiais que estão em posse dos Corvos Negros em troca da custódia de seu líder. Queremos interrogá-lo, antes de darmos a ele um fim... digno, é claro — Mori enfatizou a palavra "digno" com um repuxar quase imperceptível dos lábios, um sorriso frio que não chegava aos olhos, revelando a crueldade por trás de suas palavras.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. A tensão era palpável, o ar parecia vibrar com a iminência de um conflito. Até mesmo Ranpo parou de girar o pirulito em sua boca, seus olhos agora fixos em Mori com uma seriedade inesperada.
— Seus termos são ultrajantes. Você realmente acredita que a Agência aceitará tais condições? — A voz de Fukuzawa cortou o silêncio como uma lâmina afiada. Apenas um leve crispar em sua mandíbula denunciava a tensão que ele também sentia.
Mori inclinou a cabeça, um sorriso fino dançando em seus lábios. Seus olhos brilhavam com inteligência calculista, avaliando a reação de Fukuzawa, como se lesse seus pensamentos. A batalha de vontades estava apenas começando.
— Ora, senhor Fukuzawa, não seja tão precipitado. Acredito que estou sendo bastante razoável, considerando as circunstâncias — respondeu Mori, com a voz suave, mas carregada de uma ameaça velada. — Afinal, ambos partilhamos um apreço por Yokohama. A segurança desta cidade, o futuro que ela oferece, é algo que prezamos tanto quanto vocês. E, devo acrescentar, o futuro de Kyouka, em particular, depende crucialmente desta nossa cooperação, não é? — Mori direcionou um olhar significativo para Fukuzawa, quase como um desafio. O olhar de Yukichi se intensificou, buscando as intenções ocultas de Ōgai por trás daquelas palavras, aparentemente, conciliatórias.
Um silêncio pesado pairou na sala, e a tensão se tornou ainda mais palpável. Atrás de Fukuzawa, Kunikida ajustou seus óculos, o cenho franzido em preocupação, enquanto Atsushi, mais hesitante, trocava olhares rápidos entre o presidente da Agência e o líder da Máfia.
O presidente finalmente quebrou o silêncio, sua voz era grave e firme, cada palavra carregada de significado.
— Não permitiremos que use um de nossos membros como um mero peão em seus planos sujos — ele declarou. — Kyouka está sob nossa proteção. Ela é um membro importante da organização. E como você mesmo disse, senhor Mori, amamos esta cidade. Mais do que qualquer um jamais poderá compreender. — Fukuzawa enfatizou o "nossa", abrangendo todos os membros da Agência presentes e deixando claro que não tolerará interferências. — Que fique absolutamente claro, senhor Mori, esta é uma aliança de pura conveniência, ditada pelas circunstâncias e uma sugestão de um de nossos membros, que vislumbrou a necessidade de tal união, e não uma busca por aproximação com a Máfia. Nossos objetivos convergem apenas neste momento, perante a ameaça iminente dos Corvos Negros. — Uma frieza cortante permeava sua voz. — Após neutralizarmos essa ameaça, nossos caminhos inevitavelmente se separarão. Não nos iludamos com falsas camaradagens. Precisamos nos unir para detê-los. Nada mais.
Mori encarou Fukuzawa, inclinando-se levemente para frente, com um leve sorriso irônico nos lábios.
— Nossas organizações uniram forças no passado, sob circunstâncias excepcionais. Já conversamos sobre um cessar fogo inúmeras vezes. Tanto é que, Chuuya e Dazai uniram suas forças mais uma vez e lutaram lado a lado contra os membros da Guilda* — Mori começou, a voz baixa e calculada. Seus olhos se estreitaram, o sorriso desaparecendo como gelo sob o sol, substituído por uma expressão glacial que arrepiou até os mais experientes na sala. — No entanto, senhor Fukuzawa, a traição não escolhe data nem hora. Volto a repetir o que lhe disse em nosso primeiro encontro a um tempo atrás: E se a Agência de Detetives nos traísse? E se a Máfia de repente quebrasse tal aliança? A confiança, uma vez quebrada, dificilmente se reconstrói da mesma forma. É como um vaso quebrado: você pode até colar os pedaços, mas as rachaduras sempre permanecerão visíveis. — Mori continuou, com um tom mais reflexivo, quase melancólico, mas com um brilho duro e calculista nos olhos, como se estivesse avaliando cada um ali presente. — Se uma das partes vislumbrasse vantagem na quebra deste pacto, a tênue camada de civilidade que mantém a paz se esvairia como fumaça ao vento. As consequências seriam imediatas e brutais, desencadeando uma série de eventos que mergulhariam ambos os lados em um conflito sangrento e implacável.
Fukuzawa permaneceu impassível, como uma rocha em meio à tempestade, sua postura ereta e seu olhar firme como aço.
Mori prosseguiu:
— Considerando o potencial caos que se seguiria a um conflito aberto contra os Corvos Negros, a instabilidade em Yokohama seria inevitável e não interessaria a nenhum de nós — o líder mafioso explicou, com a calma fria que lhe era peculiar, sua voz como o som de um metal se chocando contra outro, enfatizando a importância da mútua compreensão e responsabilidade para a estabilidade de Yokohama, como se estivesse ditando uma lei imutável. — Esta aliança só florescerá se ambas as partes operarem em perfeita concordância, com objetivos alinhados e uma compreensão cristalina das consequências de uma quebra de contrato — concluiu, fixando seu olhar penetrante e avaliador em Fukuzawa, como se estivesse desafiando-o para um duelo silencioso.
A mensagem era clara, gravada a fogo: a responsabilidade de manter a aliança pairava sobre ambos os líderes, um fardo pesado e perigoso.
— Isso é impossível — Dazai interrompeu, com seu típico tom displicente, quase entediado, mas seus olhos cor de âmbar brilhavam com uma inteligência afiada e um toque de ironia amarga, como se conhecesse um segredo obscuro.
— Exatamente. — Mori sorriu, um sorriso gélido que não alcançava seus olhos, que se estreitaram em fendas calculistas. — Dazai, você, como ex-dirigente mais jovem da história da Máfia, sabe que prezamos nossa honra e cultivamos nossos rancores com afinco. — Ele fez uma pausa dramática, o sorriso desaparecendo como se nunca tivesse existido, dando lugar a uma expressão impenetrável, fria como a lâmina de uma katana. — Muitos aqui, membros da Agência de Detetives, causaram sofrimento a meus subordinados.
— E os meus também foram alvos de seus ataques inúmeras vezes, não foram? — Yukichi respondeu com uma voz calma, mas carregada de uma autoridade silenciosa e inabalável, seus olhos encontrando os de Ōgai sem vacilar, um confronto de vontades que incendiava o ar. — Ações e reações. Um ciclo vicioso que buscamos interromper com esta aliança.
— Mas ninguém morreu… — Mori sibilou, um sorriso frio curvando seus lábios novamente. Seus dedos tamborilavam suavemente na superfície da mesa, um ritmo constante que contrastava com a quietude mortal do ambiente. — É o que considero a maior desgraça da Máfia do Porto.
Fukuzawa manteve o olhar firme, sua expressão impassível, mas um leve franzir de sobrancelhas denunciava sua discordância. Ele reconhecia a lógica distorcida de Mori, mas a repudiava profundamente.
— A contenção demonstra força, Mori. Não fraqueza. Evitar o derramamento de sangue desnecessário é um sinal de liderança responsável, não um fracasso — o presidente da Agência disse, seu semblante sério, a voz firme e imponente ecoando pela sala.
— Contenção? — Mori repetiu a palavra com um tom de escárnio quase imperceptível, seus olhos estreitando-se em fendas. — Em nosso mundo, Fukuzawa, a contenção é frequentemente confundida com fraqueza, um convite à exploração. — Ele cruzou as pernas elegantemente, recostando-se na cadeira com uma falsa nonchalance. — Meus homens anseiam por justiça, por retribuição. E eu, como seu líder, devo atender a esse anseio.
— Justiça não se encontra na vingança cega. — A voz de Fukuzawa ressoou no ambiente, cada palavra carregada de convicção. — A verdadeira justiça reside na proteção dos inocentes, na manutenção da ordem. E isso exige, por vezes, a difícil escolha de conter nossos impulsos. — Seu olhar fixo em Mori transmitia uma determinação inabalável.
— Impulsos? — Mori repetiu, saboreando a palavra com um sorriso frio. — Você fala como se a Máfia do Porto fosse movida por meros caprichos, senhor Yukichi Fukuzawa. Nossos impulsos, como você os chama, são a expressão de uma necessidade muito mais profunda. Uma necessidade de ordem… mesmo que essa ordem nasça do caos. — Mori gesticulou lentamente com uma das mãos. — A sociedade, como a conhecemos, é uma ilusão frágil. Um verniz fino sobre um abismo de desejos primitivos. A Máfia do Porto existe para controlar esse abismo, para direcionar essas energias brutas. Nossos métodos podem parecer… heterodoxos aos seus olhos, mas eles são necessários. — Ele pausou, seu olhar varrendo os presentes, detendo-se brevemente em cada membro da Agência, como se os avaliasse. — Nós oferecemos uma forma de estabilidade, uma contenção para a natureza humana que vocês, com seus ideais utópicos, simplesmente ignoram — disse olhando para Fukuzawa. O presidente da Agência manteve a compostura, com o olhar fixo no líder mafioso.
A tensão na sala era palpável, o silêncio cortado apenas pela respiração controlada dos presentes. O confronto entre Mori e Fukuzawa atingira um ponto crítico, onde as palavras carregavam o peso de ameaças veladas e ressentimentos profundos. Os membros da Agência de Detetives Armados demonstravam a gravidade da situação em suas posturas e expressões. Kunikida apertava os punhos com tanta força que as juntas ficaram brancas, as veias saltando em seus braços, denunciando sua crescente irritação com as insinuações de Mori. Atsushi lançava olhares rápidos e ansiosos para o presidente, buscando nele um farol de segurança e liderança. trocou um olhar carregado de apreensão com Kunikida, compartilhando seu desconforto. Tanizaki engoliu em seco, sentindo um frio na espinha. Kenji, normalmente radiante, exibia uma seriedade incomum, seus olhos fixos em Mori como se tentasse decifrar suas intenções. Yosano, com um olhar afiado como uma lâmina de um bisturi, observava o líder da Máfia com cautela, seus dedos se movendo levemente. Ranpo abriu brevemente um olho, um lampejo de compreensão fria e calculista iluminando seu rosto antes que ele voltasse a fechá-lo, como se já tivesse previsto todos os desdobramentos daquela conversa. Dazai, com sua habitual serenidade calculada, demonstrava uma preocupação sutil, e um olhar demorado em direção a Atsushi. Ele cruzou os braços, um gesto aparentemente casual, mas que ocultava uma tensão interna. Do lado da Máfia do Porto, mantinha uma postura imponente, com um olhar gélido direcionado aos membros da Agência. Chuuya colocou suas mãos no bolso de sua calça mais uma vez, com uma expressão de desdém e impaciência, pronto para entrar em ação a qualquer momento. observava a cena com um sorriso enigmático, enquanto Kouyou mantinha uma postura serena, mas com um olhar atento a cada movimento. Hirotsu permanecia impassível, como uma sombra silenciosa. Gin e Tachihara exibiam olhares frios e calculistas, prontos para executar as ordens do chefe. Enquanto kajii continuava a exibir um sorriso maníaco.
Fukuzawa então se pronunciou:
— Vocês confundem controle com supressão. A verdadeira ordem não nasce da força bruta, mas do entendimento e da direção das capacidades humanas para o bem comum. Vocês se alimentam do medo e da violência, enquanto nós buscamos soluções que beneficiem a todos — ele contra-argumentou com serenidade, demonstrando a filosofia da Agência, enquanto seus membros assentiam em concordância, reforçando o apoio ao seu líder
Um breve silêncio pairou na sala, aumentando a tensão. Os membros de ambas as organizações trocaram olhares tensos, alguns demonstrando uma hostilidade aberta.
— Benevolência… — Mori soltou uma risada baixa e seca. — Que conceito interessante. Mas no mundo real, a benevolência é apenas uma fraqueza explorada pelos mais fortes. Nós, da Máfia do Porto, entendemos a verdadeira natureza do poder. E o usamos para garantir nossa sobrevivência e futuro desta cidade — ele disse, gesticulando calmante com as mãos. — A Máfia do Porto protege seus próprios interesses acima de tudo. Essa é a máxima que guia as ações da nossa organização. A proteção que oferecemos a esta cidade é seletiva e calculada, voltada para a manutenção de nosso poder, influência e, acima de tudo, lucratividade — Mori continuou, expondo a natureza da Máfia. — Não nos iludimos com sentimentalismos baratos. A lealdade entre os membros é, sem dúvida, um valor importante para nossa organização, mas até mesmo essa proteção é condicional. Membros que falham em seus deveres, que se tornam um fardo ou representam uma ameaça aos nossos objetivos... — Fez uma pausa, com um sorriso ameaçador que arrepiou alguns dos presentes. — ... Podem ser descartados sem a menor piedade. Essa é a lei da sobrevivência, não é mesmo? — Ele arqueou uma sobrancelha, desafiando Fukuzawa com o olhar.
O líder da Máfia olhou diretamente para Fukuzawa, enfatizando a natureza pragmática e implacável da organização.
— Vocês da Agência de Detetives Armados se intrometem constantemente em nossos negócios, acreditando piamente que são os guardiões da justiça. Permitam-me esclarecer uma coisa: nós também amamos esta cidade, e a protegemos à nossa maneira. E mantemos a ordem... a nossa ordem — Mori concluiu, deixando claro o conflito de interesses entre as duas organizações, com um tom de desafio. — Uma ordem que garante a estabilidade, mesmo que essa estabilidade seja construída sobre alicerces que vocês considerariam um tanto… questionáveis.
Fukuzawa cerrou os punhos discretamente, uma sombra de dúvida passando por seus olhos antes de se recompor. Ele respirou fundo, buscando manter a compostura, reafirmando seus princípios internamente. O confronto entre os dois líderes continuou, com olhares carregados de significado e palavras cuidadosamente escolhidas. Ōgai Mori e Yukichi Fukuzawa trocavam farpas, cada um defendendo a filosofia de sua organização, enquanto seus subordinados observavam a interação com diferentes graus de apreensão e hostilidade, revelando a profunda diferença entre as filosofias de suas organizações.
O silêncio que se seguiu à fala de Mori foi ainda mais carregado de tensão. Os olhares se cruzavam, as respirações se tornavam mais audíveis, e a atmosfera parecia prestes a explodir.
— Que interessante debate sobre a natureza da ordem e da justiça, senhor Mori — Dazai disse, com um tom quase infantil, contrastando com a seriedade da situação. — Permita-me, no entanto, apresentar uma perspectiva… digamos, mais prática. — Ele ajeitou as bandagens em sua mão, um gesto aparentemente distraído, mas que não escapou aos olhares atentos de ninguém. — Ambos, Agência e Máfia, operam dentro desta cidade. Ambos, à sua maneira, buscam um equilíbrio e a segurança desta cidade. A diferença crucial, como apontou o presidente, reside nos métodos. Vocês, da Máfia, priorizam a ordem através do controle, da supressão. Nós, da Agência, buscamos a ordem através da proteção, do auxílio. — Dazai sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. — No entanto, em um tabuleiro de xadrez como Yokohama, não há espaço para dois reis. Ou melhor, talvez haja, mas a coexistência pacífica é… improvável.. — Seu tom era leve, quase divertido, mas havia uma camada de sarcasmo cortante por baixo. Ele deu um pequeno suspiro teatral.
Ōgai Mori lançou um olhar rápido para Dazai, um brilho de aprovação em seus olhos, e um breve sorriso cruzando seus lábios.
— Você entende, Dazai. Você sempre entendeu a natureza das coisas. — Ele voltou seu olhar para Fukuzawa, a frieza retornando ao seu semblante, seus olhos como duas pedras de gelo. — A Agência de Detetives Armados opera sob a égide da lei, buscando uma ordem idealizada que raramente se concretiza. Nós, da Máfia do Porto, lidamos com a realidade. — Ele ficou de pé, Fukuzawa repetiu o gesto, um espelho da postura de Mori, mas com uma tensão visível em seus ombros. — E nessa realidade, a vingança, a retribuição, são moedas de troca tão valiosas quanto qualquer outra. — Gesticulou com a mão, como se oferecesse um acordo sombrio.
Fukuzawa manteve sua postura inabalável, mas um leve endurecimento em sua mandíbula denunciava a tensão sob sua calma aparente. Seus olhos fixos nos de Mori transmitiam uma mensagem clara: ele não cederia.
— A realidade que você descreve, é uma realidade que vocês mesmos criaram. Um ciclo de violência que se perpetua pela busca de interesses próprios. — Yukichi Fukuzawa respirou fundo, fechando os olhos por um breve instante, buscando manter o controle. Ao abri-los, sua determinação estava renovada. Seus olhos, normalmente calmos, brilhavam com uma intensidade fria. — Quebrar esse ciclo exige mais do que simplesmente ceder aos instintos mais primitivos. Exige coragem para perdoar, para deixar o passado para trás.
— Perdoar? — Mori soltou uma risada baixa e rouca, carregada não só de incredulidade, mas de um divertimento cruel, como se Fukuzawa tivesse contado uma piada particularmente tola. O som ecoou pela sala, reverberando nas paredes como o prenúncio de uma tempestade. Ele inclinou levemente a cabeça, um sorriso quase infantil brincando em seus lábios. — Que conceito interessante. Quase… poético, eu diria. Mas, veja bem, Fukuzawa, a poesia não tem lugar neste mundo. Apenas a lógica implacável da causa e consequência.
Os membros da Agência trocaram olhares tensos. Kunikida ajustou os óculos, a armação rangendo levemente sob seus dedos, um sinal de sua irritação crescente e de seu esforço para manter a compostura. Atsushi cerrou os punhos, as unhas quase perfurando a palma da mão, um turbilhão de emoções conflitantes – medo, raiva, uma pontada de compreensão pela lógica brutal de Mori – agitando-o por dentro. Ranpo, normalmente alheio à atmosfera, franziu a testa, não em preocupação, mas como se estivesse tentando decifrar um enigma particularmente complexo. , com seu olhar analítico, observava Mori como se tentasse ler sua alma, buscando qualquer sinal de fraqueza ou hesitação.
— Você pede que a Máfia do Porto perdoe aqueles que nos prejudicaram? Que esqueçamos as vidas perdidas, o sangue derramado? Que ignoremos as cicatrizes que moldaram quem somos? — Mori continuou, sua voz agora tingida de um tom quase professoral. — Isso seria uma traição não apenas à memória daqueles que juramos proteger, mas a nós mesmos. Seria negar a própria essência da nossa existência. O perdão, meu caro, é um luxo que não podemos nos permitir. É uma fraqueza que nossos inimigos explorarão sem hesitar.
A sala, outrora iluminada pela tênue esperança de uma aliança, agora era banhada por uma atmosfera gélida. Ōgai Mori, com seu sorriso enigmático e olhar penetrante, movia-se com a leveza de um predador, observando cada membro da ADA como se fossem espécimes sob uma lente. Para ele, o mundo era um tabuleiro de xadrez, e as vidas, meras peças descartáveis em sua busca pelo domínio absoluto.
Do outro lado da sala, Yukichi Fukuzawa mantinha uma postura imponente, a serenidade em seu rosto contrastando com a tensão que emanava dos demais presentes. Ele personificava a liderança benevolente, priorizando a segurança da cidade e o bem-estar de seus subordinados, cultivando um senso de família e responsabilidade mútua. Seus olhos, porém, carregavam o peso das inúmeras batalhas que travou, um aviso silencioso da determinação que o movia.
A dicotomia entre os dois líderes permeava o ar, tornando a respiração quase audível. Atsushi, ainda hesitante, sentia o coração bater forte no peito. Seus dedos apertavam as palmas das mãos, enquanto seus olhos percorriam os rostos dos membros da Máfia, buscando qualquer sinal de hostilidade. Ao seu lado, , absorvia cada nuance, cada microexpressão, buscando decifrar as intenções ocultas por trás das palavras. As memórias de confrontos passados pairavam como fantasmas, intensificando a tensão. A aliança, antes uma possibilidade tênue, agora era uma miragem distante, dando lugar à iminente ameaça de uma guerra que prometia afogar Yokohama em um caos ainda maior do que o provocado pela Decadência dos Anjos.
A presença da Máfia do Porto era palpável, uma força esmagadora personificada em seus membros e executivos implacáveis. Chuuya, com sua postura desafiadora e o olhar carregado de uma lealdade à máfia, contrastava com a frieza calculista do chefe. Sua rivalidade com Dazai, ex-membro da Máfia que agora se juntará à Agência, adicionava uma camada extra de complexidade à situação.
A Agência irradiava uma determinação inabalável. Kunikida, com seu semblante severo e óculos perfeitamente alinhados, representava o idealismo pragmático, sua aversão à Máfia quase palpável. Ranpo, agora com um sorriso enigmático nos lábios, observava a cena com seus olhos perspicazes, seu intelecto genial, era uma arma silenciosa, mas extremamente poderosa. , com sua calma e compostura, equilibrava a impulsividade de outros membros, sua mente trabalhando rapidamente para analisar as possíveis estratégias.
O silêncio era interrompido apenas pela respiração tensa dos presentes. Trocas de olhares carregados de memórias compartilhadas e provocações veladas criavam uma atmosfera densa e carregada de subtextos.
Finalmente, Mori quebrou o silêncio, fixando seus olhos em Fukuzawa.
— Ao que parece, a chance de uma re-aliança se esvaiu. Uma lástima, devo admitir — disse Mori, sua voz carregada de uma ironia fria que fez um arrepio percorrer até mesmo os membros mais experientes da Máfia.
Fukuzawa, imponente, manteve a compostura, seus olhos encontrando os de Mori sem vacilar.
— De fato. Nossos caminhos divergiram mais do que poderíamos prever — respondeu, sua voz firme, mas com uma nota de desapontamento.
Mori ergueu uma sobrancelha, um sorriso enigmático curvando seus lábios. A tensão na sala atingiu um pico quase insuportável.
— Divergiram? — questionou Mori, inclinando levemente a cabeça. — Diria que somos a antítese um do outro. Nós buscamos a ordem através do controle absoluto, da disciplina implacável. Vocês... agarram-se a uma justiça sentimental, a ideais utópicos que não encontram eco neste mundo.
Kunikida cerrou os punhos com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos. Ele avançou um passo, a raiva estampada em seu rosto.
— A Máfia sempre priorizou seus próprios interesses, pisoteando qualquer um que se colocasse em seu caminho. Não esperava nada diferente. — Cuspiu as palavras, encarando Mori com desprezo.
, mantendo a calma, mas com os sentidos em alerta, lançou um olhar significativo para Fukuzawa.
— Presidente, parece que chegamos a um impasse. Devemos encerrar esta reunião? — perguntou, sua voz baixa, mas firme.
Antes que Fukuzawa pudesse responder, Mori ergueu uma mão, interrompendo-a com um gesto suave.
— Um momento, senhorita. Há uma última coisa que gostaria de dizer — disse ele, caminhando lentamente até o centro da sala. Seus sapatos ecoavam no piso de madeira, o som amplificado pelo silêncio. — Vocês, da Agência, prezam a vida, não é mesmo? A proteção de todos, sem distinção. Uma causa nobre, sem dúvida. Mas a vida é frágil, como uma pétala ao vento. Tão fácil de esmagar... E, às vezes, para proteger o todo, sacrifícios são necessários.
A atmosfera na sala tornou-se gélida, como se um vento gelado tivesse varrido o local Mori continuou, sua voz agora um sussurro carregado de significado.
— A Máfia do Porto é o escudo que protege Yokohama das sombras que a espreitam. Nós usamos os meios necessários para manter a ordem, mesmo que isso signifique sujar nossas mãos com o sangue dos culpados. — Mori sorriu, um sorriso frio se alastrou por seus lábios, seus olhos brilhando com uma intensidade perigosa. — Vocês, da Agência, agarram-se a um código moral antiquado, tentando impor seus ideais em um mundo que já provou sua crueldade. Pergunto-lhes: qual de nós realmente protege esta cidade?
Atsushi engoliu em seco, sentindo um nó na garganta. A frieza calculista de Mori o assustava, mas ao mesmo tempo plantava uma semente de dúvida em seu coração. A Agência realmente estava fazendo o suficiente? Seus métodos eram eficazes em um mundo tão brutal?
Fukuzawa manteve seu olhar firme e inabalável em Mori, ignorando a crescente apreensão em seus subordinados.
— A diferença entre nós, Mori, é que vocês governam pelo poder, enquanto nós inspiramos esperança. — Ele aproximou-se de Mori, sua postura transmitindo uma determinação inabalável, mas seus olhos, por um breve instante, revelaram uma tristeza profunda, o peso das perdas que ambos os lados sofreram. — Vocês semeiam o caos para manter o controle, enquanto nós lutamos para construir um futuro onde a violência não seja a única resposta.
Um sorriso frio e predatório curvou os lábios de Mori.
— Como Dazai disse, Yokohama é um tabuleiro de xadrez, Fukuzawa. E, em um jogo de xadrez, os peões... são os primeiros a cair — disse ele, com seus olhos fixos em Yukichi. — Reflita sobre isso. Reflita sobre as consequências de suas escolhas.
Fukuzawa, impassível, respondeu com uma voz que ecoava com autoridade.
— A Agência de Detetives Armados protegerá Yokohama. Isso não é uma negociação, Chefe da Máfia do Porto — Fukuzawa afirmou com uma certeza que cortava o ar, seus olhos fixos em Mori.
— A proteção de Yokohama é um fardo pesado, mesmo para uma organização tão estimada como a sua. — Mori sorriu, um gesto lento e calculado que não atingiu seus olhos. Ele se virou para seus subordinados, um movimento quase imperceptível de cabeça indicando a partida. — Foi um prazer trocar gentilezas com você, Presidente da Agência de Detetives Armados.
— Lutaremos contra os Corvos Negros à nossa maneira, Mori. Portanto, com ou sem sua aliança, peço que não interfiram. — A voz de Fukuzawa ressoou pela sala, carregada de uma autoridade fria e implacável. Ele não pedia, ele exigia, cada palavra um aviso. — A interferência da Máfia do Porto será considerada um ato hostil.
Já de costas, Mori ergueu uma mão em um aceno displicente, sem sequer se virar completamente.
— Se é assim, nos vemos no campo de batalha — ele disse, seguindo em direção à saída.
Por fim, toda a Máfia se retirou da sala, o som de seus passos ecoando pelo corredor, deixando para trás um silêncio pesado como uma lápide e a certeza não apenas de um conflito iminente, mas de uma possível guerra que já havia começado nas entrelinhas daquela tensa conversa.
Enquanto isso, nas entranhas sombrias de Yokohama…
Sob a fachada reluzente da cidade portuária, ocultava-se o verdadeiro domínio dos Corvos Negros: o Castelo de Pedras Negras. Mais do que um castelo, era uma excrescência da própria terra, erguida com blocos de granito negro que pareciam absorver a luz, mesmo durante o dia. Labirintos de corredores tortuosos se estendiam sob a cidade como veias nefastas, úmidas e frias, impregnadas não apenas com o cheiro de pedra molhada, mas com um odor acre de sangue coagulado e incenso fúnebre. A cada passo, o som de gotejamento ecoava, amplificado pelo silêncio opressivo, e correntes de ar frio sopravam através de fendas invisíveis, carregando consigo sussurros ininteligíveis. Armadilhas silenciosas espreitavam a cada curva: alçapões ocultos sob lajes soltas, flechas envenenadas prontas para disparar de paredes sombrias, e câmaras de tortura cujos ecos de gritos ainda reverberavam nas paredes.
No coração desse labirinto, um salão cavernoso se abria, um vazio colossal escavado na rocha viva. Tochas presas a suportes de ferro forjado lançavam uma luz vacilante, tingindo as paredes de pedra bruta com tons avermelhados que dançavam e se contorciam, projetando sombras alongadas e grotescas que pareciam ganhar vida própria. No centro do salão, sob um teto alto o suficiente para engolir a própria noite, erguia-se uma figura encapuzada frente a uma fenda que dava para Yokohama. Ele não contemplava a cidade através da fenda – a fenda, alta e estreita como uma órbita vazia, servia apenas para deixar passar um fio tênue de luar que mal penetrava a escuridão do salão. Em vez disso, a figura estava voltada para o Orbe da Obediência.
A esfera, do tamanho de um crânio humano, pulsava com uma energia sinistra que parecia drenar a luz ao seu redor, criando um pequeno vácuo de escuridão palpável. O objeto repousava sobre um pedestal de obsidiana negra finamente trabalhada com entalhes intrincados de corvos em voo, suas asas estendidas em um eterno voo silencioso. O Livro das Sombras, cuja capa grossa era de um tom vermelho sangue, jazia aberto ao lado, suas páginas negras como a como a própria escuridão sussurrando encantamentos profanos a cada lufada de ar frio que circulava pelo salão. Os símbolos arcanos gravados em dourado enegrecida na capa pareciam se mover sob a luz das tochas. A cada batida do coração lento e metódico da figura encapuzada, a energia do Orbe se intensificava, inundando o ambiente com uma aura de terror e dominação, fazendo as próprias pedras vibrarem com uma ressonância baixa e constante que podia ser sentida nos ossos.
A feiticeira, Artemísia, sua segunda em comando e mestre nas artes das trevas, adentrou o ambiente. O ar frio e úmido do castelo pareceu se adensar com sua presença, carregado de um leve aroma de ervas amargas. Ela curvou-se em reverência perante a figura encapuzada, mantendo o olhar fixo no chão por um instante antes de erguer a cabeça. Seus olhos flamejantes, brilhando com uma lealdade feroz e uma ambição calculista, encontraram os da figura. Sua beleza gótica, realçada por vestes de seda negra que abraçavam seu corpo esguio, era fria e predatória. Seus longos cabelos negros como a noite caiam sobre seus ombros como uma cascata escura, quase tocando o chão de pedra. Um fino colar de espinhos de metal adornava seu pescoço pálido, e um anel de prata com uma pedra ônix em forma de garra de corvo adornava seu dedo indicador.
— Meu mestre, os preparativos para o Despertar estão completos. Os sacrifícios o aguardam — disse Artemísia, sua voz um sussurro rouco.
A figura encapuzada virou-se lentamente. A luz das tochas revelou apenas vagamente seu rosto oculto nas sombras profundas do capuz. Um sorriso cruel curvou seus lábios, revelando dentes brancos como neve. A luz bruxuleante refletiu em um anel de caveira de corvo em prata maciça em seu dedo.
— Excelente, Artemísia. Em breve, a Lua Vermelha atingirá seu ápice e certos portos de Yokohama se ajoelharão perante nós. E com a maré baixa, as pragas que insistem em investigar serão varridas da cidade. Mas isso é apenas o prelúdio. Com o poder do Orbe e as palavras do Livro, subjugaremos as nações, dobraremos reis e rainhas à nossa vontade. O mundo inteiro será o nosso reino. — Sua voz ressoou pelo salão, não alta, mas com uma qualidade profunda e ressonante que parecia preencher todo o espaço, carregada não de uma promessa, mas de uma certeza fria e inabalável.
Glossário O.D.d.S
*A Guilda é uma sociedade secreta de usuários de habilidades da América do Norte liderada por Francis Scott Key Fitzgerald
O som das botas de batendo contra o chão ecoava pelo longo corredor enquanto ela se dirigia a passos firmes em direção à sala de operações. A cada passo, a adrenalina crescia em suas veias, e seu coração batia mais forte no peito. Ao chegar à porta da sala de operações, empurrou-a lentamente e adentrou o ambiente, o coração da organização.
A sala de operações era mais do que um simples ambiente de trabalho; era o cérebro da organização, onde as engrenagens do poder se moviam em sincronia perfeita. Era ali que informações cruciais eram coletadas, analisadas e transformadas em decisões estratégicas que moldariam o futuro da Máfia do Porto. Câmeras de segurança, portas blindadas e outros sistemas de proteção garantiam o sigilo absoluto e a eficiência das operações, um local altamente restrito e acessível apenas para poucos membros de confiança de Ōgai Mori. A equipe de profissionais, composta por engenheiros e cientistas da computação, observavam atentamente os aparelhos, ajustando os óculos de lentes grossas e armações de metal em seus rostos. Enquanto um leve zumbido constante pairava no ar, amplificando a sensação de uma operação de alta tensão, semelhante a um centro de comando espacial.
Os olhos de foram imediatamente capturados pela imensa tela central, que pulsava com gráficos e dados em tempo real da cidade de Yokohama. Ao redor, uma profusão de monitores menores transmitiam imagens frenéticas dos dias anteriores: pessoas fantasiadas correndo em desespero, outras caídas no chão e prédios completamente destruídos. Outros aparelhos tecnológicos piscavam freneticamente com uma mensagem de alerta. A atmosfera era eletrizante, embora profundamente tensa.
— Senhorita , ainda bem que chegou! Detectamos algo muito suspeito no sistema de segurança — sussurrou um engenheiro, apontando para um monitor. Ela se aproximou, e o engenheiro parecia mais preocupado do que o normal. Na tela, uma pessoa, camuflada pelas sombras de um local mal iluminado, movia-se furtivamente por um dos corredores da organização.
franziu o cenho, concentrando sua visão na figura que se movia nas sombras. A imagem, embora pixelada e escura, era clara o suficiente para mostrar a silhueta de um indivíduo ágil e cauteloso.
— Aumente o zoom — ordenou ela, a voz firme, apesar da crescente apreensão.
O engenheiro manipulou os controles do monitor, e a imagem se ampliou, revelando detalhes mais nítidos. A figura vestia um traje preto, que se misturava perfeitamente com a noite, e carregava algo em suas mãos. Uma arma? Uma ferramenta? A dúvida pairava no ar, intensificando a tensão.
— Alguém reconhece esse indivíduo? — perguntou , seus olhos percorrendo a sala, buscando alguma pista, alguma reação que pudesse desvendar o mistério.
Os demais membros da equipe trocaram olhares, mas ninguém parecia ter uma resposta.
— Seria ele apenas um membro do baixo escalão cumprindo ordens nas instalações da Máfia? Se fosse o caso, teria passado por mim primeiro — murmurou pra si mesma, ainda com os olhos vidrados na figura.
A figura desconhecida era um enigma, uma ameaça invisível que se infiltrara nas defesas da Máfia do Porto.
— Ative todos os protocolos de segurança e intensifiquem a vigilância em todos os pontos de acesso — ela ordenou, sua voz carregada de autoridade.
A sala de operações se transformou em um frenesi de atividade. Alarmes soaram, luzes piscaram e técnicos digitavam comandos em seus computadores com agilidade. A Máfia do Porto estava em alerta máximo. aproximou-se da tela principal, seus olhos fixos na figura que se movia com a destreza de um gato. perguntou-se quem seria aquela figura e quais eram seus objetivos. Seria ele um rival, um traidor ou simplesmente um ladrão? As possibilidades eram infinitas, e cada uma delas era mais perigosa que a anterior.
Antes que pudesse contatar um de seus subordinados para informar-se sobre o indivíduo, uma explosão repentina sacudiu a sala de operações, lançando ondas de choque que fizeram os monitores tremerem e as luzes piscarem erraticamente. Um estrondo ensurdecedor ecoou pelos corredores, seguido por um silêncio momentâneo, apenas para ser quebrado por estilhaços caindo e alarmes soando em uníssono. cambaleou, apoiando-se em uma mesa para não cair. A fumaça e a poeira começaram a se espalhar pelo ambiente, dificultando a visão. A tela principal, antes repleta de dados e gráficos, agora exibia apenas chuviscos estáticos e alertas de perigo.
— Mas o que foi isso?! — bradou , a voz rouca pela fumaça densa que agora pairava no ar, enquanto acionava o comunicador em seu ouvido. Seus olhos avaliavam rapidamente a sala, tentando manter a compostura em meio ao pandemônio que se instalava. Fragmentos de teto e poeira fina flutuavam sob a luz fraca de emergência que acabara de acender, lançando sombras dançantes nas paredes. O cheiro de queimado impregnava o ambiente, dificultando a respiração, enquanto um zumbido agudo ecoava, provavelmente dos sistemas danificados. sentiu um gosto metálico na boca, consequência da poeira e da adrenalina.
Um dos engenheiros, com o rosto coberto de fuligem e um filete de sangue escorrendo de um corte superficial na testa, aproximou-se cambaleante dos computadores. Seus dedos trêmulos deslizavam sobre o teclado inerte, enquanto seus olhos percorriam os monitores apagados. A tela antes repleta de dados agora exibia apenas chuviscos estáticos. Ele tentou reiniciar um dos terminais, pressionando repetidamente o botão de power, mas nada aconteceu. O silêncio repentino, após o estrondo, era quase ensurdecedor, quebrado apenas pela sua respiração ofegante e o crepitar distante de algum fogo. A confirmação do desastre iminente veio pela voz hesitante que ecoou em seu comunicador, minutos depois:
— Senhorita ! Você está bem? — exclamou um dos subordinados, sua voz vindo do comunicador, agora com chiados e interrupções.
tossiu fracamente por conta da fumaça, antes de responder.
— Sim, estou bem. Me diga, o que aconteceu? — ela perguntou, olhando ao redor.
— Houve uma explosão no subsolo, próximo à central de energia… Nosso sistema de energia principal foi atingido! — ele respondeu após a resposta de . — Perdemos boa parte da alimentação de emergência também!... Estamos sem energia em alguns lugares do prédio! — Ele tossiu secamente, a voz falhando por um instante antes de retornar, mais fraca e urgente. — Além disso, senhorita, há uma fumaça densa se espalhando pelos dutos de ventilação. Recomendo a evacuação do prédio imediatamente!
cerrou os punhos. Uma explosão daquela magnitude não poderia ser um simples acidente. Sabotagem. A ideia ecoou em sua mente como um trovão. Ela se levantou bruscamente, sentindo sua cabeça latejar.
— Alguma baixa? — perguntou, enquanto tentava se recompor.
— Ainda não temos uma informação exata, senhorita. A comunicação com o subsolo está intermitente… Mas… ouvimos alguns gritos. Eu diria que… — A voz do subordinado sumiu completamente, substituída por um estalo alto e o silêncio absoluto. O comunicador agora emitia apenas um chiado constante e irritante.
olhou para a equipe de engenheiros, cujos rostos refletiam a gravidade da situação. Alguns tossiam, outros tentavam inutilmente acessar os consoles danificados. A atmosfera na sala era carregada de tensão e apreensão.
— Droga! — ela praguejou, a voz carregada de frustração e preocupação. — Avaliem os danos! Rápido! — ordenou , enquanto tossia por causa da fumaça que se adensava na sala. — Precisamos restabelecer a comunicação e a energia o mais rápido possível! Reportem qualquer sinal de feridos!
Enquanto os engenheiros se mobilizavam em meio aos destroços, tentando religar os sistemas, tentava entender o que havia acontecido. A explosão parecia ter sido direcionada para um ponto estratégico: o sistema de energia. Isso indicava conhecimento prévio da infraestrutura da Máfia, o que sugeria uma infiltração interna ou uma espionagem muito bem-sucedida. Seus olhos percorreram a sala novamente, agora com mais atenção, procurando qualquer detalhe que pudesse ter passado despercebido. A fumaça tornava a tarefa difícil, mas ela não podia se dar ao luxo de ignorar nada. A segurança de toda a organização poderia depender da rapidez com que resolvessem essa crise. sabia que o tempo era crucial e que cada segundo perdido poderia ter consequências devastadoras.
De repente, um grito cortou o ar. Um dos técnicos, que estava próximo a uma das paredes, apontava para um buraco que havia se aberto com a explosão.
— Senhorita ! — exclamou ele, a voz trêmula, apontando para o buraco na parede. — Olhe, o intruso está ali!
virou-se para o local indicado e arregalou os olhos. A explosão não só havia danificado o sistema de energia, como também abrira uma passagem para um corredor adjacente. E o que era pior, ela podia ver, através da abertura, a silhueta da figura vestida de preto, agora mais nítida sob a luz fraca dos incêndios que começavam a se alastrar nos andares inferiores. Ele estava saindo do prédio, movendo-se com uma velocidade surpreendente, quase desaparecendo na fumaça que se acumulava no corredor.
— Ele está fugindo! — rosnou , sentindo a adrenalina correr ainda mais forte em suas veias.
desembainhou sua arma, uma pistola Walther PPK/E, e se preparou para correr em direção ao buraco na parede, sem se importar com os escombros e a fumaça densa. No entanto, antes de sair correndo ou que pudesse dar mais ordens aos engenheiros, uma segunda explosão, seguido de um tremor ainda mais forte que a primeira, sacudiu o prédio. Desta vez, a sala de operações tremeu violentamente forte, e parte do teto desabou, soterrando alguns equipamentos e ferindo mais alguns técnicos. foi jogada contra uma parede, batendo a cabeça com força. Por um momento, tudo ficou turvo. Quando recobrou os sentidos, ela sentiu um gosto metálico na boca e sangue escorria de um corte em sua testa. A sala estava destruída, a fumaça densa e poeira pairavam no ar, dificultando a respiração, o caos era total.
Com dificuldade, a jovem se levantou, apoiando-se em um dos destroços, seus olhos percorreram o local, buscando sobreviventes. A maioria dos técnicos estavam caídos, alguns inconscientes e outros feridos. Em meio ao caos, ela avistou o engenheiro que havia alertado sobre o suspeito, ele estava sentado no chão, tossindo e com o rosto coberto de fuligem, mas parecia estar bem.
— Precisamos sair daqui o mais rápido possível! — disse , aproximando-se dele. — A sala de operações pode desabar!
O engenheiro assentiu, com dificuldade. Juntos, eles começaram a ajudar os outros técnicos a se levantarem e a saírem da sala em ruínas. A prioridade agora era salvar o máximo de vidas possível. A caçada ao intruso teria que esperar.
Com a testa sangrando e a respiração ofegante, liderava o pequeno grupo de sobreviventes através dos corredores labirínticos do QG da Máfia. A fumaça densa picava seus olhos e a cada passo ouvia-se o crepitar das chamas e o estalar da estrutura do prédio. O silêncio sepulcral era interrompido apenas pelos passos distantes que ecoavam pelos corredores. A outrora imponente e inabalável fortaleza da Máfia do Porto, agora assemelhava-se a um cenário de guerra.
— Cuidado com os escombros! — gritou, apontando para uma viga de metal retorcida que bloqueava parcialmente a passagem. Com a ajuda do engenheiro, eles removeram a viga, abrindo caminho para os outros. Enquanto guiava os sobreviventes pelos corredores em meio à fumaça e aos escombros, uma pergunta martelava em sua cabeça: quem era ele e como ele ousara atacar uma das bases da Máfia do Porto? Ela jurou que o encontraria e o faria pagar pelo que havia feito. Aquilo não ficaria impune. A Máfia do Porto não seria desafiada sem consequências.
Finalmente, eles alcançaram uma escadaria de emergência. respirou aliviada ao ver a luz fraca que vinha do andar inferior. A saída estava próxima. Ao chegarem no térreo, foram recebidos por uma cena de caos organizado. Membros e subordinados corriam por todas as direções, alguns carregando armas, outros coordenando a evacuação. O pátio interno, normalmente um local de tranquilidade, agora fervilhava de atividade caótica.
Tachihara, normalmente com um olhar severo, aproximou-se de , com o semblante extremamente preocupado.
— , você está bem? Você estava na sala de operações, o que aconteceu? — ele perguntou, sua voz carregada de preocupação.
então relatou os eventos, desde a detecção do intruso até as explosões que destruíram boa parte da sala de operações e permitiram sua fuga. O ruivo a ouviu atentamente, seu rosto se tornando cada vez mais sombrio.
— Um ataque coordenado… com o intuito de nos estabilizar?! Isso é inaceitável — Tachihara murmurou, cerrando os punhos. — Precisamos informar ao Chefe imediatamente. Este ataque… é diferente de tudo que já vimos. — O ruivo exclamou. — A precisão, a ousadia… eles sabiam exatamente onde atacar.
Ele encarou a jovem com uma intensidade que a fez sentir um calafrio. O cheiro de fumaça e a expressão em seu rosto apenas intensificavam a gravidade da situação.
assentiu, a cabeça latejando pela pancada e o ferimento em sua testa.
— Eu sei. A explosão no sistema de energia… foi bastante específica — ela disse, com a voz rouca pela fumaça.
Enquanto conversavam, mais membros da Máfia chegavam ao pátio, alguns feridos, outros visivelmente abalados. Aos poucos o caos começava a se dissipar, dando lugar a uma organização fria e calculista. Tachihara assumiu o comando, designando equipes para vasculhar o prédio em busca de sobreviventes e iniciar uma avaliação dos danos.
— , sei que está ferida, mas você precisa ir até o Chefe. Relate tudo o que aconteceu. Eu vou coordenar as coisas por aqui — disse o ruivo, com um olhar firme, quase metálico. A luz fria do pátio refletia em seus olhos, intensificando a seriedade em seu rosto. assentiu, a adrenalina da recente explosão ainda pulsando em suas veias. Ela sabia que era crucial informar Mori sobre a situação. Aquele ataque não era apenas uma violação de segurança, era uma afronta direta ao coração da Máfia do Porto, um golpe audacioso em sua própria essência.
A fumaça ainda pairava em alguns corredores do QG; o cheiro estava impregnado no ar. De passos rápidos e decididos, seguiu direto para o escritório de Mori. O corredor, normalmente movimentado por executivos e subordinados, estava agora um túmulo silencioso, um contraste gritante com o caos que assolava o resto do prédio. O silêncio era interrompido apenas pelo eco distante de vozes e o som abafado de botas apressadas. Ao chegar à imponente porta de mogno da sala do líder mafioso, hesitou por um instante, respirando fundo para recompor a postura e o turbilhão de pensamentos que a assaltavam. Bateu três vezes, com os nós dos dedos firmes na madeira envernizada, e ouviu uma voz calma, porém carregada de autoridade, responder:
— Entre. — A voz aveludada do líder ecoou do outro lado da porta, reverberando no silêncio do corredor.
Ao abrir a porta, encontrou o Chefe sentado em sua poltrona. Suas mãos estavam à frente do rosto, os dedos elegantemente entrelaçados. Seus olhos, normalmente calmos e calculistas, agora brilhavam com uma intensidade fria e penetrante, como se pudessem dissecar cada pensamento de . A sala, outrora imponente com seus móveis de madeira escura e o vermelho do carpete, parecia impregnada por uma atmosfera pesada, contrastando com a cena quase infantil que se desenrolava logo à frente do Chefe.
Ignorando completamente a tensão palpável que pairava no ar, alheia ao ataque que acabara de ocorrer nos arredores da sede, uma garotinha estava sentada sobre a mesa de mogno, balançando as pernas e cantarolando baixinho uma melodia enquanto desenhava casualmente em uma folha de papel. Vários giz de cera estavam espalhados ao seu lado, formando uma pequena bagunça colorida sobre a superfície escura da mesa. O contraste entre a figura imponente do Chefe, com seu olhar gélido, e a inocente despreocupação da menina criava uma cena bizarra e intrigante.
— , eu estava à sua espera. Vamos direto ao que interessa: conte-me tudo o que aconteceu — disse Mori, sem rodeios, o tom de sua voz cortando o silêncio como uma navalha. Seus olhos não se desviaram de enquanto ela entrava e fechava a porta atrás de si.
descreveu tudo o que havia acontecido na sala de operações, desde a detecção da figura misteriosa nos monitores de segurança até as explosões coordenadas e a fuga calculada. Ao mencionar a precisão cirúrgica dos ataques e a forte suspeita de infiltração interna, o semblante de Ōgai se tornou ainda mais grave, uma sombra de preocupação moldando seus traços normalmente impassíveis. Seus dedos começaram a tamborilar suavemente na mesa, um sinal de sua crescente irritação.
— Entendo. Um ataque direcionado ao nosso sistema nervoso… uma tentativa de nos paralisar, de nos deixar vulneráveis — murmurou Mori, pensativo, tamborilando os dedos na mesa. — Quem quer que esteja por trás disso, conhece nossos métodos, nossa estrutura e nossos pontos fracos. Isso implica conhecimento interno.
A garotinha, até então imersa em seu desenho, um homenzinho sendo mortalmente atacado, se pronunciou com uma voz surpreendentemente fria e cortante, quebrando o silêncio denso:
— Isso cheira a traição, Rintaro — ela disse, sem sequer levantar a cabeça de seu desenho, como se a resposta fosse óbvia. A ponta de seu lápis pressionou o papel com mais força, deixando uma marca mais escura no pescoço do homenzinho.
Mori assentiu lentamente, os olhos fixos em um ponto distante.
— É uma possibilidade que não podemos descartar, Elise. — Ele mantinha um semblante impassível, mas o olhar gélido denunciava a fúria que o consumia por dentro.
Elise era uma jovem de baixa estatura, com pele clara como porcelana e olhos azuis brilhantes que contrastavam com seus longos cabelos loiros, penteados com uma franja reta e densa que emoldurava seu rosto angelical. Os cachos volumosos caiam em cascata até a cintura. Um grande laço vermelho vibrante adornava o lado direito de sua cabeça, quase como uma provocação à atmosfera tensa do local. Ela vestia um vestido vermelho de mangas curtas e bufantes, com a barra branca adornada por delicados babados. Uma fina faixa branca marcava sua cintura, e a gola branca e abotoada era arrematada por uma fita rosa. Nos pés, usava meias listradas em preto e cinza e sapatos Mary Jane vermelhos, completando o visual infantil e contrastante com a seriedade da situação. Um leve aroma de cereja pairava no ar ao redor dela.
— , quero que lidere uma investigação interna minuciosa e implacável. Revire cada pedra, vasculhe cada canto desta cidade. Descubra o responsável por essa grotesca falha de segurança — ordenou o líder, com voz carregada de autoridade. — Não poupe recursos e não hesite em questionar ninguém, independentemente do cargo que ocupa.
— Como o senhor quiser, Chefe — respondeu , com determinação. — E o que faremos em relação ao intruso quando o encontrarmos?
— Ele ousou atacar nossa organização em nosso próprio território, profanou nosso santuário. Sua ousadia não ficará impune — continuou Mori, com um olhar penetrante que queimava como carvão em brasa. — Quero que o capture. Vivo ou morto. Preferencialmente, vivo. Servirá de exemplo para qualquer um que ouse nos desafiar.
sentiu um sorriso frio se formar em seus lábios. A frieza glacial na voz de Ougai Mori era assustadora, quase sobrenatural. Ela sabia que a caçada começara, uma caçada implacável, e que as consequências para o intruso seriam brutais e exemplares.
— Entendido. Tachihara está coordenando as buscas no prédio. Solicitarei aos Lagartos Negros que trabalhemos em conjunto com os Lírios Negros, formando um cerco impenetrável em busca do inimigo — disse , reportando as ações tomadas.
Mori concordou com um aceno de cabeça quase imperceptível.
— Excelente. Irei comunicar , Chuuya e os outros executivos da Máfia sobre a situação e as medidas que deverão ser tomadas. Acredito que ficará especialmente… interessada nos detalhes da falha de segurança — Mori disse, com um tom que não admitia contestações, enfatizando a palavra "interessada" com um leve sorriso que não chegava aos olhos. — Mantenha-me informado sobre o progresso da investigação. Este ataque exige uma resposta à altura, uma demonstração de força que reafirme nosso poder e nossa inviolabilidade.
— Claro! Farei tudo como o senhor ordenou, Chefe. — Ela sorriu de canto, pronta para o que viesse.
— Mas antes, senhorita ... — ele pausou, olhando para os ferimentos da jovem causados pela explosão. — Vá à enfermaria e cuide de seus ferimentos. Não podemos nos dar ao luxo de tê-la incapacitada. Sua eficiência é crucial neste momento.
A jovem assentiu com um leve aceno de cabeça.
— Sim, senhor. Com licença. — Com uma reverência respeitosa, se retirou do escritório de Mori, sentindo o peso da responsabilidade esmagá-la.
A Máfia do Porto havia sido desafiada, e cabia a ela e aos outros membros leais restaurar a ordem, punir os responsáveis e reafirmar o domínio da organização. A caçada estava prestes a começar e que as consequências seriam brutais, estava determinada a não descansar até que a justiça, ou a vingança, fosse feita. A Máfia do Porto não perdoaria tal afronta.
Ao sair da sala de seu líder, encontrou Tachihara à sua espera, com os braços cruzados e uma expressão tensa em seu rosto. Ele a olhou com uma expressão interrogativa, ansioso por notícias. A luz fraca do corredor destacava as olheiras sob seus olhos.
— O que o chefe disse? — o ruivo perguntou, sua voz era baixa, mas carregada de urgência.
— Ele quer uma investigação interna completa e a captura do intruso — respondeu , com um tom sombrio.
Tachihara assentiu, com um olhar duro e determinado. Ele passou a mão pelos cabelos.
— Entendo. Vamos começar imediatamente, então. Temos que encontrar esse desgraçado antes que ele cause mais problemas — o ruivo concluiu, cerrando os punhos.
— Mas antes, você pode reunir o batalhão de combate? Preciso ir à enfermaria, minha cabeça está me matando. — murmuro, apontando para o ferimento em sua testa, fazendo o amigo rir.
— Claro, vai lá — ele disse, vendo seguir para o lado oposto.
Enquanto a jovem se dirigia para a enfermaria, ela olhou para o céu, o sol da manhã nascia, lançando longas sombras sobre o pátio movimentado, um prenúncio de um dia longo e sangrento. A fumaça ainda pairava sobre o prédio, um lembrete sombrio do ataque. Ela apertou os punhos, com uma determinação fria em seu coração. Ela encontraria o responsável por aquilo, custasse o que custasse. A Máfia do Porto estava em guerra, uma guerra interna e externa, uma guerra pela sua própria sobrevivência.
massageou as têmporas enquanto entrava na enfermaria. O cheiro pungente de antisséptico misturado ao aroma suave de ervas medicinais criava um contraste quase irônico com o caos que a assolava por dentro. Uma enfermeira de cabelos grisalhos e olhar gentil, com rugas finas emoldurando os olhos, a reconheceu com um leve aceno de cabeça e indicou uma maca vazia. sentou-se, exalando um suspiro cansado. A dor latejava na testa, uma lembrança física da violência de poucas horas antes. Enquanto a enfermeira examinava o corte em sua testa, limpando-o com delicadeza e aplicando um curativo, revisitava os eventos em sua mente, como um filme em replay. A ousadia do ataque era sem precedentes. Invadir o coração da Máfia do Porto... era mais do que uma declaração de guerra; era uma afronta direta. "E uma guerra, eles teriam." pensou ela, um brilho gélido acendendo em seus olhos. Uma guerra sangrenta e implacável.
Naquele momento, a porta da enfermaria se abriu com um clique seco, e Hirotsu entrou, seguido por Gin e Tachihara, que lideravam o grupo de membros do batalhão. Seus rostos eram máscaras de estoicismo profissional, mas , com sua percepção aguçada, captava a energia tensa que irradiava deles: uma mistura de fúria contida e sede por retaliação. Os ombros rígidos, os punhos cerrados, os olhares fixos em um ponto além das paredes – cada detalhe revelava a prontidão para a ação.
— O curativo está pronto, senhorita — a enfermeira disse, entregando um pequeno espelho à jovem com um sorriso singelo.
Ela acenou com a cabeça em agradecimento, observando o curativo discreto em sua testa no espelho. Seus olhos, antes turvos pela dor, agora brilhavam com uma determinação feroz. A imagem refletida não era de fragilidade, mas de uma pessoa pronta para a batalha.
— Obrigada, senhora Mirai — disse , com a voz doce. Seus olhos, porém, assumiram uma expressão séria ao voltarem-se para Hirotsu. — Senhor Hirotsu, o batalhão está a postos?
— Sim, senhorita . Todos aguardam suas instruções — Hirotsu respondeu com a voz imperturbável de sempre, seu monóculo refletindo a luz fria da enfermaria como um olhar penetrante e calculista.
— Ótimo. — Ela assentiu brevemente. Seus olhos percorreram Tachihara, Gin e o restante do batalhão, captando as diversas expressões: preocupação em alguns, determinação em outros, mas em todos, uma lealdade inabalável. — Alguma novidade sobre o ataque, Tachihara? Gin?
— Nenhuma concreta. Apenas boatos e especulações vazias. Nada que nos leve ao intruso até agora — respondeu Tachihara, franzindo a testa e passando uma mão pelos cabelos ruivos em um gesto de frustração
— O chefe exige respostas e a captura do intruso. — A voz de baixou, tornando-se um sussurro carregado de uma ameaça gélida que fez até os veteranos sentirem um arrepio na espinha. — Revistem cada centímetro desta cidade. Cada beco, cada esconderijo. Temos que descobrir quem teve a audácia, a insolência, de nos desafiar. Certifiquem-se de que nenhum detalhe escape... de lugar algum. — Seus olhos percorreram cada membro do batalhão, buscando não apenas confirmação, mas um juramento silencioso de lealdade. Sua análise era penetrante, como se tentasse ler nas entrelinhas de cada olhar, procurando por qualquer indício de conivência ou até mesmo envolvimento com os Corvos Negros. Havia uma intensidade em seu olhar, como se procurasse por algo mais do que apenas obediência – talvez uma rachadura na fachada, um brilho culpado que a alertasse para a presença de um traidor entre eles.
— Sim, senhorita! — responderam em uníssono, as vozes ecoando pelo corredor com uma intensidade que reverberava a promessa de vingança.
Tachihara aproximou-se de , a preocupação estampada em seu rosto.
— E quanto a você? Consegue liderar a busca nesse estado? — rle perguntou, notando o leve tremor nas mãos dela.
esboçou um sorriso frio e calculista que não atingiu seus olhos.
— Eu estou bem, Michizou. Isso não vai me parar. A Máfia do Porto exige uma resposta, e eu vou garantir que a tenha, custe o que custar. Este ataque não ficará impune. — Ela se levantou, ignorando a leve tontura que a acometeu. A dor ainda pulsava, mas a adrenalina e a fúria a mantinham firme, alimentando um desejo ardente de retaliação. Ela ajustou as luvas de couro preto, um gesto automático, como se estivesse vestindo sua armadura para a batalha iminente.
— Antes de irmos… — interrompeu, sua voz assumindo um tom estratégico, carregado de uma desconfiança que não passava despercebida. — Dividam-se em grupos menores. Tachihara, você fica responsável pela área de operações, onde o ataque ocorreu. Quero cada centímetro vasculhado, cada vestígio analisado. Senhor Hirotsu, você coordena a busca nos distritos comerciais. Interroguem informantes, revirem cada pedra. Gin, você e um grupo vasculhem os arquivos da organização. — fixou seus olhos em Hirotsu, a intensidade de seu olhar transmitindo mais do que uma simples ordem. — Procurem por qualquer anomalia, qualquer padrão incomum, qualquer coisa que possa nos indicar quem está nos traindo. Incluam uma busca minuciosa por novas informações sobre os Corvos Negros. Deve haver algum registro, alguma pista que nos ajude a identificar esse intruso... ou esses intrusos. Eu mesma liderarei a investigação interna, começando pelos níveis mais baixos da hierarquia. Preciso descobrir se a ameaça veio de dentro. Quero todos os relatórios em duas horas. Sem exceções. E que fique claro: falhas não serão toleradas. Precisamos descobrir a verdade, não importa onde ela se esconda.
— Entendido! — os três responderam em uníssono, a determinação em suas vozes espelhando a fúria contida de .
respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade sobre seus ombros. Aquele ataque não era apenas uma violação de segurança; era um ataque à própria essência da Máfia do Porto. Uma afronta que exigia uma resposta rápida e decisiva, uma demonstração de força que silenciasse qualquer outro que ousasse desafiá-los.
— Vamos — disse, saindo da enfermaria seguida pelo batalhão. No corredor, parou e encarou o trio, com um olhar penetrante que transmitia uma ordem secreta. — E mais uma coisa. Discretamente, coloquem alguns homens para vigiar os hospitais da região. Se o intruso se feriu ao fugir, é provável que procure atendimento médico. E certifiquem-se de que esses homens estejam autorizados a agir.
Tachihara assentiu, um brilho de compreensão e uma ponta de malícia surgindo em seus olhos.
— Pode deixar. Cuidaremos disso. — Um sorriso sombrio curvou seus lábios. Ele entendia o recado: a busca não seria apenas por informações, mas por retaliação.
Enquanto o batalhão se dispersava para cumprir as ordens, sentiu um frio excitante percorrer sua espinha. A caçada havia começado. E ela não descansaria até que o intruso fosse encontrado e punido. A Máfia do Porto não tolerava desafios. E ela, Nakahara, movida por uma sede implacável de vingança, garantiria que essa lição fosse aprendida da pior maneira possível.
O sol da manhã no horizonte, tingia o céu com tons de laranja e vermelho, mas a beleza daquela manhã contrastava brutalmente com a cena que se desenrolava abaixo. Longas sombras se estendiam sobre o pátio outrora movimentado da Máfia do Porto, agora um palco de destruição e silêncio tenso. O vento frio da manhã carregava não o cheiro de pólvora, como esperava, mas um odor acre de fumaça, concreto queimado e morte. O ataque, orquestrado por um intruso, ainda desconhecido, não se limitara à sala de operações. Fora uma investida coordenada, um ataque em múltiplas frentes, visando desestabilizar a Máfia do Porto em sua própria base. A jovem, com o cenho franzido e os olhos fixos na paisagem urbana devastada, sentia um nó se formar em seu estômago. A tentativa fracassada de uma re-aliança com a Agência de Detetives agora parecia um luxo distante, uma preocupação menor diante da catástrofe que se abatia sobre Yokohama. Os Corvos Negros não apenas avançavam; eles haviam declarado guerra aberta. A luz implacável do amanhecer revelou a extensão total da devastação. Yokohama, que pulsava com a energia do Halloween há quatro dias atrás, jazia agora como uma ferida aberta. Prédios outrora imponentes exibiam buracos negros onde antes haviam janelas, suas fachadas craqueladas e cobertas de fuligem. Ruas antes vibrantes com decorações festivas agora estavam bloqueadas por escombros, carros carbonizados e árvores derrubadas. O cheiro de gasolina misturava-se ao ar pesado, enquanto pequenos focos de incêndio ainda dançavam entre os destroços.
O som era tão ensurdecedor quanto a visão. Sirenes berrando, gritos de dor e pânico, o crepitar constante das chamas e o estrondo ocasional de mais entulho caindo criavam uma cacofonia angustiante. Civis corriam em todas as direções, alguns carregando o que restara de seus pertences, outros vagando em estado de choque, com os olhos vidrados e a respiração entrecortada. Havia feridos por toda parte: alguns com cortes e contusões, outros gravemente feridos, presos sob os escombros, clamando por ajuda. Corpos, cobertos por lençóis improvisados ou simplesmente abandonados à mercê do frio da manhã, pontuavam a paisagem desoladora, um testemunho silencioso da brutalidade do ataque.
A polícia, em número insuficiente e visivelmente abalada, tentava desesperadamente controlar o caos. Barricadas improvisadas, feitas de entulho, carros destruídos e qualquer outro material disponível, demarcavam zonas de perigo. Os policiais, com uniformes sujos, rostos exaustos e olhos vermelhos, moviam-se com uma mistura de determinação e desespero. Alguns tentavam acalmar a população em pânico, outros coordenavam as equipes de resgate que chegavam lentamente, enquanto outros, com armas em punho, mantinham-se em alerta, aterrorizados com a possibilidade de um novo ataque. A atmosfera estava carregada de medo, incerteza e uma profunda sensação de perda. Yokohama, a cidade vibrante e festiva, havia se transformado em um campo de batalha, onde a linha entre civil e combatente se tornara terrivelmente tênue.
O contraste com as noites anteriores era chocante, um golpe silencioso que pairava sobre a cidade como uma mortalha. permanecia imóvel diante da janela panorâmica, observando Yokohama do alto do trigésimo andar do imponente edifício da Máfia do Porto. A cidade, outrora vibrante, parecia contida sob uma névoa de apreensão. A situação exigia uma resposta imediata e implacável; não havia espaço para lamentações ou hesitações. A Máfia do Porto estava sob ataque, e ela se recusava a permitir que o caos os engolisse. A ousadia da investida, a coordenação milimétrica e a ausência de vestígios óbvios — tudo gritava profissionalismo, uma afronta direta à sua autoridade e à própria essência da organização.
Sem mais delongas, se afastou da janela, a imagem da cidade agora um mero borrão em seu campo de visão periférico. A frieza que endurecia seus traços refletia a tempestade que se formava em seu interior. Ela mesma lideraria a investigação interna sob as ordens do Chefe, começando pelas bases da hierarquia e escalando até os círculos mais íntimos. A traição, uma possibilidade nauseante, precisava ser imediatamente confrontada. Oito de seus subordinados mais confiáveis aguardavam em um semicírculo perfeito na sala de reuniões adjacente. Trajando ternos pretos impecáveis, óculos escuros que ocultavam olhares calculistas e armados com discrição letal, eles personificavam a frieza e a eficiência da organização. A sala, normalmente um espaço de planejamento estratégico, agora se assemelhava a um quartel-general improvisado. Mapas detalhados da cidade de Yokohama e das instalações da Máfia estavam estendidos sobre a mesa de mogno, cruzados por linhas e marcados com círculos vermelhos nos pontos de interesse. Pequenos fones discretos em seus ouvidos os mantinham conectados à rede de comunicação interna.
caminhou até o centro da sala, o som ritmado de suas botas de cano alto ecoando no piso de madeira escura. O ar estava carregado de uma tensão palpável, o silêncio contrastando brutalmente com a atmosfera usualmente movimentada. Seus olhos percorreram cada rosto, buscando qualquer indício de hesitação, medo ou pior, culpa.
— Na noite passada, o QG da nossa organização foi atacado. Vários dos nossos engenheiros, cientistas, membros e subordinados ficaram feridos. Infelizmente, o número de baixas subiu para 20 até cinco minutos atrás. — Sua voz, normalmente melodiosa, ressoava agora com uma frieza cortante, cada palavra pronunciada com precisão cirúrgica. — Isso não foi um ato de vandalismo. Foi um ataque calculado, uma declaração de guerra. — fez uma pausa dramática, permitindo que o peso de suas palavras impregnasse o ambiente. Seus olhos, como lâminas afiadas, perfuravam cada indivíduo, buscando a verdade oculta em suas expressões.
— O Chefe exigiu que encontrássemos os responsáveis. Custe o que custar — continuou, a voz agora tingida com uma determinação implacável. — Quem quer que tenha feito isso possuía informações privilegiadas. Conhecia detalhes de nossos protocolos de segurança, pontos de acesso internos… informações que apenas membros altamente confiáveis da nossa organização deveriam conhecer.
A suspeita pairava no ar como um espectro sombrio: traição. A possibilidade, antes impensável, agora era uma ferida aberta na confiança da Máfia.
— A possibilidade de haver um traidor entre nós não é descartada. — Ela enfatizou, o olhar penetrante varrendo a sala mais uma vez. — E eu pessoalmente garantirei que os responsáveis por essa afronta sejam punidos com a máxima severidade. Os Lagartos e Lírios Negros já estão vasculhando a cidade em busca de pistas externas. Quanto a vocês… — Ela apontou para um grande mapa da região portuária, densamente marcado com pontos estratégicos. — Quero uma varredura interna completa em todas as nossas bases de operações. Comecem pelas instalações de menor para maior importância. Quero um relatório detalhado: quem estava de guarda em cada local, quem falou com quem e quem viu o quê. Cada detalhe, por menor que pareça, será de suma importância. Relatórios a cada hora. Sem exceções. Entendido?
— Sim, senhorita! — todos responderam em uníssono, as vozes graves e respeitosas ecoando pela sala. A disciplina e a hierarquia da Máfia eram inabaláveis, o alicerce de sua força em meio à crise.
A jovem respirou fundo, controlando a impaciência que a corroía por dentro. A situação exigia precisão e método, não precipitação
— Tenya — disse, voltando-se para um homem magro e de óculos de aro fino, cuja aparência estudiosa contrastava com sua mente afiada e especializada em tecnologia. — Quero que você rastreie todas as comunicações das últimas 24 horas. Chamadas, mensagens, acessos a redes internas, qualquer atividade digital que possa nos dar uma pista. Concentre-se em anomalias, padrões incomuns, qualquer coisa que se desvie da rotina.
Tenya ajustou os óculos no rosto, seus dedos já deslizando com precisão sobre um tablet fino e moderno. A tela exibia linhas complexas de código e fluxos de dados em tempo real.
— Já estou trabalhando nisso, senhorita. Estou vasculhando os registros de todas as operadoras da região, acessando logs de servidores e analisando o tráfego de dados da nossa rede interna. Se houve alguma comunicação suspeita, eu vou encontrar. — Seus dedos dançavam sobre o teclado virtual com uma velocidade hipnotizante.
assentiu levemente, demonstrando satisfação com a eficiência de Tenya.
— Ótimo. Quero resultados rápidos, Tenya. Cada minuto perdido nos coloca em desvantagem. — se virou para o restante dos homens na sala, seu olhar firme e autoritário varrendo o grupo. — Toshinori… — ela disse, dirigindo-se a um homem corpulento e o rosto impassível. — Analise as gravações das câmeras de segurança. Cada detalhe, por menor que pareça, pode nos levar aos responsáveis. E, Toshinori... — pausou, a voz agora carregada de um tom mais grave.
Um silêncio pesado pairou na sala, apenas o tique-taque do relógio quebrando o silêncio. respirou fundo, controlando a raiva que ameaçava transbordar.
— Quero saber como conseguiram se infiltrar sem acionar nossos sistemas de alerta. Faça uma revisão completa de todos os nossos protocolos de segurança. — Ela fez uma pausa dramática, seus olhos brilhando com uma intensidade fria.
Toshinori assentiu com seriedade, seus olhos escuros fixos em . A luz ambiente destacava as linhas de expressão em seu rosto, testemunhas de inúmeras noites em claro dedicadas ao trabalho.
— Entendido, senhorita. Vou verificar se houve alguma manipulação nos sistemas de segurança e comparar os padrões de acesso das últimas semanas. Se alguém acessou o sistema indevidamente, eu vou encontrar — ele disse, ajeitando o paletó escuro e desaparecendo pela porta lateral, acompanhado de Tenya. O leve farfalhar do tecido era o único som em seus passos rápidos e silenciosos
— Yuta — chamou, direcionando o olhar para um homem alto e sério. Sua presença física irradiava força bruta e intimidação. — Você e eu começaremos uma varredura pelos níveis mais baixos da hierarquia. Quero interrogações discretas, mas eficazes. Se encontrarmos resistência, usaremos os métodos necessários para obter informações.
Yuta assentiu com a cabeça, seus olhos escuros e profundos fixos em , demonstrando total compreensão da gravidade da tarefa.
— Entendido, senhorita. Cuidarei pessoalmente dos preparativos para as interrogações e supervisionarei a revisão dos protocolos de segurança nas bases de nível inferior. Ninguém escapará da minha atenção — ele disse, com o semblante extremamente sério.
assentiu e então se voltou para os cinco homens restantes.
— Kenta, Tatsuya, Gen, Ueda, Daisuke — ela os nomeou, seu olhar avaliando cada um. — inspecionem a explosão causada na sala de operações pessoalmente. Quero entender a extensão dos danos e procurar qualquer vestígio que tenha passado despercebido. Fim da reunião.
Com um aceno de cabeça coletivo, os cinco homens deixaram a sala de . A tensão na sala era palpável, mas sob a superfície fria e calculista, uma determinação feroz começava a borbulhar. A Máfia do Porto não se curvaria. Eles caçariam os responsáveis e os fariam pagar com sangue.
— Um intruso nas instalações da Máfia do Porto? — A voz de era um aço frio que cortava o ar denso do escritório. Não havia espaço para dúvidas ou hesitações em seu tom. A traição implícita na violação de sua segurança a envenenava. — Como diabos isso aconteceu? Como permitiram uma falha de segurança tão grotesca? — A cada palavra, a irritação em sua voz crescia, reverberando pelas paredes como um trovão abafado. Seus dedos, adornados por anéis de prata cujas pedras preciosas faiscavam sob a luz fraca, tamborilavam com fúria sobre a mesa de mogno. A superfície escura, marcada por cicatrizes de incontáveis reuniões e acordos sombrios, parecia absorver a penumbra que entrava pelas janelas, impregnadas pela fuligem da cidade. O escritório, em uma das instalações da Máfia, respirava a atmosfera sufocante do caos em Yokohama.
O silêncio que se seguiu era mais ensurdecedor que qualquer grito. cerrou os punhos, sentindo a raiva latejar em suas têmporas. A ousadia do intruso era um insulto, uma afronta que exigia uma resposta dolorosa.
— Essa falha na segurança… — A voz de era agora um sussurro carregado de veneno. — Vou encontrar o responsável por isso, e ele pagará com sangue. — Seus olhos azuis faiscaram com uma intensidade gélida. — , alguns dos nossos engenheiros, cientistas, membros e subordinados ficaram feridos. A negligência tem um preço, e será cobrado.
— Minha irmã… — A voz de Chuuya era baixa e gutural, carregada de uma fúria contida que ameaçava explodir a qualquer momento. Ele estava recostado na parede oposta à mesa, o corpo tenso como uma corda de arco prestes a estourar, mantendo o olhar fixo em um ponto qualquer no chão. A mandíbula cerrada formava uma linha dura, e seus punhos estavam tão apertados que seus nós dos dedos brilhavam brancos sob a luz tênue. A notícia do ataque transmitida por Mori em um telefonema lacônico momentos antes, enquanto vasculhavam a zona portuária em busca dos Corvos Negros, pesava sobre os dois como uma maldição. Enquanto a imagem de sua irmã caçula ferida acendia uma chama de ódio em seu peito.
A identidade do intruso, suas motivações, tudo era um enigma, aumentando a paranoia que já os corroía.
— Se algo tiver acontecido com ela, eu... — Chuuya rosnou, pronto para dizer mais alguma coisa, no entanto, uma voz o interrompeu.
— está bem e já está cuidando disso. — A voz grave surgiu das sombras atrás deles, carregada de uma calma que contrastava brutalmente com a atmosfera carregada. A palavra "cuidando" soou quase como uma ameaça velada, uma promessa de retaliação brutal.
e Chuuya se viraram como se tivessem levado um choque, as mãos buscando instintivamente as armas sob seus casacos. agarrou a Luger prateada que carregava na cintura, o metal frio reconfortante contra sua pele. Enquanto Chuuya apertou o tecido de seu chapéu, sentindo o couro macio de suas luvas sob seus dedos, a habilidade pulsando adormecida, faminta por ação.
Hirotsu, imponente como uma estátua de pedra, estava parado na entrada do escritório, flanqueado por dois membros da tropa de batalha, tão silenciosos e ameaçadores quanto sombras. A luz fraca do corredor delineava sua figura alta e esguia, fazendo seu monóculo brilhar como um olho de um predador. A fumaça azulada de seu cigarro subia em espirais lentas, perfumando o ar com um aroma amargo.
— Senhor Hirotsu? — perguntou, a voz agora controlada, mas com uma fina camada de apreensão. A presença do comandante dos Lagartos Negros ali, naquele momento, era um presságio. — O que faz aqui?
— Ordens diretas do Chefe sob a supervisão da senhorita — Hirotsu respondeu, sua voz monótona e impassível, como se estivesse lendo um relatório. — Os Lagartos Negros foram mobilizados. Estamos vasculhando cada centímetro dos distritos comerciais da cidade e revisando os arquivos da organização. O Chefe suspeita que o intruso possa estar buscando desestabilizar nossas operações. — Seus olhos frios percorreram os dois presentes, avaliando-os. — A ordem é: encontrar qualquer anomalia, qualquer padrão fora do comum. Reforçar a segurança em todos os pontos estratégicos. E, acima de tudo, capturar o intruso. Vivo preferencialmente. Morto, se necessário. Mas a prioridade absoluta é a captura com vida.
— Então vamos acabar logo com isso. — Chuuya não esperou mais. A impaciência e a raiva ferviam em suas veias, manifestando-se em seus ombros tensos e no ranger de seus dentes. Ele se moveu em direção à porta como uma flecha, a necessidade de agir, de descontar sua fúria em alguém, o consumindo.
— Cada segundo perdido nos afasta dos Corvos Negros e nos aproxima de um confronto com a Agência — sibilou o ruivo, a mão crispada na maçaneta, os nós dos dedos brancos pela força que exercia.
— Espere, senhor Chuuya. — Hirotsu estendeu uma mão enluvada, o branco impecável contrastando com a penumbra do escritório. A luz fraca refletia no aro de seu monóculo, ocultando seu olho. — A senhorita também nos instruiu a enfatizar a extrema cautela. E não subestimar o inimigo. — Ele fez uma pausa. — Há a forte possibilidade… de haver um traidor dentro das instalações da Máfia do Porto. O Chefe teme que ele não seja um simples invasor ou informante. Aparentemente, ele possui informações específicas… e um objetivo definido.
— Um traidor? — A menção de um traidor pairou no ar como um espectro, envenenando a atmosfera. Chuuya rangeu os dentes com tanta força que as mandíbulas crisparam, um rosnado gutural escapando de sua garganta como o aviso de um animal encurralado. Seus olhos, normalmente azuis como o céu limpo, escureceram para um tom tempestuoso, faíscas de fúria dançando em suas pupilas. A veia em sua testa pulsava violentamente, a pele ao redor avermelhada pela pressão. Ele cerrou os punhos com tanta intensidade que suas luvas poderiam rasgar a qualquer momento. A mera sugestão de uma traição dentro de sua própria organização era uma afronta pessoal, uma mancha que ele jurou lavar com sangue, se necessário.
, por sua vez, sentiu um frio sinistro percorrer sua espinha. A traição era um veneno que corroía as entranhas da máfia. Seus punhos se fecharam com tanta força que suas juntas estalaram audivelmente, os dedos curvados como garras. Seus ombros tremiam ligeiramente, a raiva fervendo sob sua pele como lava prestes a entrar em erupção. Seus lábios se contraíram em uma linha fina e determinada, e um brilho frio e perigoso surgiu em seus olhos. Ela respirava fundo, tentando controlar a onda de violência que ameaçava transbordar, mas a respiração saía entrecortada, quase um sibilo. A simples ideia de um infiltrado manchando o nome da organização a fazia querer caçar e punir o culpado com suas próprias mãos, torturá-lo até que confessasse cada detalhe de sua traição.
— Ele vai se arrepender profundamente por isso — sibilou, a voz baixa e carregada de ameaça, os olhos fixos em um ponto invisível na parede, como se já estivesse visualizando o traidor. — Cada momento de sua existência se transformará em um inferno.
— Ele vai sentir como é ser esmagado pela gravidade. Literalmente — Chuuya rosnou, um sorriso cruel se formando em seus lábios. A imagem de usar seu poder para esmagar o traidor o excitava de uma forma sombria. — Vou reduzir cada osso do corpo dele a pó. E depois, vou juntar os pedaços e fazer de novo.
— Esperem. Nossa abordagem deve ser estratégica, não impulsiva. A captura com vida é crucial para extrair informações. A senhorita acredita que ele pode ter algum envolvimento com os Corvos Negros. — Hirotsu estreitou os olhos, a fumaça do seu cigarro subindo em espirais lentas e densas, como se prenunciasse uma tempestade. Seus olhos, normalmente calmos, agora continham uma frieza cortante.
cerrou os dentes, a contragosto. A menção de reforçava a seriedade da situação. A captura com vida era uma ordem. Mas a sede de vingança ainda queimava em suas entranhas.
— Entendo. Informaremos qualquer progresso — a loira respondeu, a voz fria e calculista, os olhos faiscando com uma raiva contida.
Chuuya rangeu os dentes com tanta força que seu maxilar doeu. A menção de , a ênfase na cautela, vindas através de Hirotsu, o forçaram a reconsiderar sua impulsividade. Suspirou fundo, revirando os olhos enquanto tirava o chapéu. Passou a mão pelos fios ruivos, deixando-os ainda mais desalinhados. Por mais que a raiva seguisse borbulhando em seu peito, forçou-se a contê-la.
— Ótimo. Vamos fazer do jeito dela, então. Mas se esse inseto cruzar o meu caminho… — A voz de Chuuya baixou para um rosnado ameaçador, um brilho perigoso acendendo em seus olhos azuis. — Ele vai se arrepender amargamente de ter ousado pisar no território da Máfia do Porto. Vou pessoalmente garantir que ele deseje nunca ter nascido. Cada osso do corpo dele vai implorar por misericórdia. E quando ele achar que a dor não pode piorar… eu vou mostrar o quanto ele está errado.
| Ao mesmo tempo: Agência de Detetives Armados, quatro dias após o incidente em Yokohama durante o festival de Halloween e dois dias após a tensa reunião com a Máfia do Porto. |
A atmosfera na Agência de Detetives Armados era carregada, quase sufocante, nos dias que se seguiram ao incidente do festival de Halloween. O desaparecimento de Kyouka pairava sobre todos como uma sombra densa, exacerbado pelos recentes ataques dos Corvos Negros em Yokohama e pela tentativa frustrada de restabelecer uma re-aliança com a Máfia do Porto. A agência, outrora um centro vibrante de excentricidades e discussões acaloradas, jazia sob um manto de apreensão incomum. O escritório, normalmente um caldeirão borbulhante de interações peculiares e debates animados, estava mergulhado em um silêncio quase palpável, como se a própria respiração estivesse suspensa.
A ausência de Kyouka, cuja quietude característica geralmente contrastava com a energia vibrante do local, criava um vazio ensurdecedor. O espaço parecia ecoar com a falta de seus passos silenciosos e a ausência de sua presença discreta. Até mesmo o burburinho constante de Ranpo, o detetive genial, havia cessado, substituído por um semblante preocupado e um hábito incomum: ele mordia o lábio inferior com força, um raro sinal de sua profunda apreensão. Seus olhos, normalmente brilhando com inteligência e diversão, estavam agora turvos e fixos em um ponto distante, como se tentasse decifrar um enigma invisível. Sua irmã, , geralmente uma figura mais reservada, demonstrava sua ansiedade de forma mais física. Ela andava de um lado para o outro na sala, com um livro aberto em suas mãos que folheava distraidamente, sem realmente ler. Seus dedos tamborilavam nervosamente na capa e ela mordiscava as unhas, um hábito que raramente é exibido em público. A dinâmica usual entre os irmãos, marcada por provocações brincalhonas e um carinho fraterno subjacente, dava lugar a uma preocupação compartilhada e silenciosa, criando um cordão invisível de apreensão entre eles.
A jovem parou em frente à janela, fitando a paisagem urbana de Yokohama com uma expressão ansiosa. A cidade, outrora vibrante e cheia de vida, parecia cinzenta e inerte sob o céu pálido. A luz fraca do sol matinal mal atravessava a névoa que pairava sobre os prédios.
— Ela deve estar em algum lugar… — murmurou , a voz quase inaudível, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa presente no escritório. Seus olhos percorriam as ruas lá embaixo, procurando em vão por qualquer sinal de Kyouka.
O contraste entre a natureza geralmente calma e estoica de e sua atual agitação intensificava a atmosfera de apreensão. Seus ombros estavam tensos e suas mãos cerradas em punhos. O silêncio era tão denso que parecia abafar até mesmo os sons mais sutis: o virar de páginas no escritório ao lado, o farfalhar das árvores do lado de fora, o distante som de sirenes na cidade. Até mesmo o cheiro forte de café requentado, que normalmente permeava o ar do escritório e oferecia um conforto familiar, agora pairava como um lembrete amargo da longa noite de buscas infrutíferas. O café, antes um símbolo de energia e trabalho árduo, agora cheirava a noites mal dormidas e preocupação constante.
A luz fraca que entrava pelas janelas criava longas sombras no escritório, aumentando a sensação de melancolia e incerteza. A tensão se manifestava de diferentes maneiras entre os membros. Ranpo estava em sua mesa, com os olhos agora fechados, concentrado, tentando reunir pistas em sua mente. Atsushi, ainda em desenvolvimento como membro da Agência, demonstrava uma ansiedade quase palpável, remoendo a culpa por não ter conseguido proteger Kyouka. Seus dedos inquietos tamborilavam na mesa, e ele constantemente olhava para a porta, como se esperasse que ela entrasse a qualquer momento.
— Eu… eu deveria ter cuidado dela — sussurrou, a voz embargada, os olhos marejados.
Kunikida, ao ouvir o lamento do mais novo, colocou uma mão firme em seu ombro, um raro gesto de consolo.
— Não se culpe, moleque. Ninguém poderia prever isso. Agora, precisamos nos concentrar em encontrá-la. — Kunikida, com sua natureza metódica e idealista, tentava manter a compostura, mas seus frequentes suspiros e o aperto constante em sua agenda denunciavam sua apreensão. Ele revisava incessantemente suas anotações, buscando qualquer pista que pudesse ter passado despercebida. — Deve haver algo que deixamos passar… algum detalhe — murmurava para si mesmo, enquanto folheava as páginas freneticamente. Uma veia pulsava em sua testa, denunciando o esforço mental.
Dra. Yosano, com uma expressão grave e determinada, separava alguns suprimentos médicos em uma pequena bolsa, revisando mentalmente os procedimentos de emergência, como se estivesse se preparando para o pior, mas ainda mantendo uma esperança tênue. “Se ela estiver ferida… não, ela está bem, ela está bem.” Pensou Yosano, sacudindo a cabeça de um lado para o outro, espantando tais pensamentos, antes de continuar a separar os materiais.
— Precisamos estar preparados para qualquer eventualidade. Com certeza iremos trazê-la de volta — disse ela, sua voz firme, mas com uma nota de preocupação. Tanizaki, normalmente mais otimista, compartilhava um olhar preocupado com Naomi, que, apesar de sua aparente despreocupação habitual, segurava firmemente o braço do irmão, buscando conforto em sua presença.
— Tenho certeza que ela está bem, Atsushi. Ela é uma garota forte — disse Naomi, sua voz baixa, mas determinada, embora seus olhos estivessem marejados. Tanizaki apertou a mão de Naomi de leve, tentando transmitir confiança, mesmo que ele mesmo estivesse apreensivo.
— Sim, ela é… — concordou o ruivo, a voz quase um sussurro. A interação silenciosa entre os dois revelava a fragilidade por trás da fachada de Naomi.
Kenji, com seu otimismo característico, tentava animar o ambiente, mas até mesmo sua voz soava mais baixa do que o normal, e seus olhos refletiam uma genuína preocupação. Ele olhava para os outros, buscando palavras de conforto que ele mesmo parecia precisar.
— Vamos encontrá-la logo — disse Kenji, com um pequeno sorriso, que logo se desfez ao ver as expressões preocupadas dos outros. Ele então abaixou a cabeça, suas mãos cerradas em punhos
Enquanto Dazai, conhecido por seu comportamento errático e tentativas falhas de suicídio, exibia uma seriedade atípica que assustava até mesmo os membros mais acostumados com suas excentricidades. Seu humor usualmente sarcástico e despreocupado dera lugar a um olhar distante e calculista, como se estivesse ponderando todas as possibilidades em busca de um plano. Ele andava silenciosamente pelo escritório, observando cada detalhe, como se estivesse procurando por algo que os outros não conseguiam ver. De repente, ele parou em frente à janela, o mesmo ponto onde estivera momentos antes.
— Ela não desapareceu por vontade própria, disso nós já sabemos — disse ele, sua voz baixa e rouca, observando a rua. — Alguém a levou, mas para onde? — Dazai virou-se para Kunikida, seus olhos estreitados. — Kunikida, alguma atualização sobre os Corvos Negros?
— Nada concreto ainda. Nossos contatos na polícia não encontraram nenhum vestígio deles desde o incidente há quatro dias atrás — Kunikida respondeu, franzindo a testa. — O ataque durante o halloween teve perdas, feridos e desaparecimentos significativos e, como se não bastasse… — Ele suspirou pesadamente, passando a mão pelos cabelos. —... a tentativa de reaproximação com a Máfia do Porto falhou miseravelmente. Isso nos coloca em uma posição extremamente delicada. Não podemos contar com a ajuda deles. — Ele fechou os olhos por um momento, a frustração evidente em sua voz. — Precisamos agir rápido.
Atsushi encarou Kunikida com determinação, uma faísca de esperança em seus olhos.
— E se pedirmos ao Francis para que ele nos ajudasse usando os Olhos de Deus? Assim podemos localizá-lo s— ele sugeriu, com um olhar pensativo.
Kunikida hesitou por um instante, considerando a proposta.
— Fitzgerald…? — Kunikida perguntou, confuso.
— Sim! Ele nos ajudou uma vez. Talvez nos ajude de novo — Atsushi respondeu, com certo brilho nos olhos, apesar da situação tensa.
— Dificilmente ele concordaria em nos ajudar novamente. Nossa relação com a Guilda é… — Kunikida hesitou, procurando as palavras certas — complexa, para dizer o mínimo. — Ele cruzou os braços, um sinal de sua incerteza. — Entretanto, precisamos considerar todas as possibilidades... mesmo as mais improváveis.
— Mas se não agirmos rápido, a vida de Kyouka e de todas as pessoas de Yokohama estará em jogo. Não podemos sequer usar a habilidade de para localizá-la. — Atsushi mordeu o lábio inferior, um pouco desanimado, mas sem perder a esperança. Kunikida suspirou novamente, massageando as têmporas.
respirou fundo e se pronunciou:
— De fato, a ajuda do Francis com os Olhos de Deus seria uma coisa e tanto, Atsushi. Mas é uma solução de último caso, considerando nosso histórico da Agência com a Guilda — disse calmamente, aproximando-se da dupla. — No enquanto, você está certo, não posso usar minha habilidade para localizá-los. E como devem saber, minha habilidade de rastreamento tem suas limitações, além disso, a força que estamos enfrentando agora me impede de usá-lo para encontrar Kyouka. A interferência é muito forte. — suspirou, enquanto os outros trocavam olhares preocupados. Atsushi franziu a testa, embora compreendesse a situação.
— Mas se não agirmos logo… — ele exclamou, sua voz carregada de apreensão.
— Atsushi… entrar em pânico agora não nos levará a lugar algum. Precisamos de um plano, e um plano requer calma e raciocínio — Dazai exclamou, sua voz baixa e firme, com um tom de autoridade que raramente usava.
Essa mudança drástica em seu comportamento usual criava uma camada adicional de inquietação entre os demais. Até o presidente da agência, sempre um pilar de calma e segurança, demonstrava gravidade. De sobrancelhas franzidas e braços cruzados sobre o peito, ele encarava o vazio como se sustentasse o peso do mundo. Aquele silêncio rígido apenas tornava a situação mais sombria.
Fukuzawa, que se mantivera alheio à conversa, percorreu os olhos pelos membros da agência, medindo a tensão no ar, antes de quebrar o silêncio:
— Ouçam todos! A situação a qual nos encontramos é crítica, não há como negar. A prioridade máxima é a localização de Kyouka e a proteção desta cidade. A interferência que mencionou… — Ele pausou, ponderando as palavras. — …sugere a presença de uma habilidade poderosa, capaz de bloquear até mesmo rastreamentos especializados. Isso nos coloca em desvantagem, mas não podemos nos deixar abater.
Um silêncio pesado pairava sobre o escritório da Agência de Detetives Armados. O desaparecimento de Kyouka reverberava como um trovão, intensificando a apreensão. Os olhares se cruzavam, buscando confirmação e conforto nas expressões alheias: alguns arregalados em choque, outros franzidos em preocupação. Atsushi engasgou, levando a mão à boca, o rosto empalidecendo visivelmente. A imagem de Kyouka em perigo o atingiu como um soco, fazendo-o cambalear.
— Kunikida está certo, o encontro que tivemos com a Máfia do Porto a dois dias praticamente enterrou qualquer chance de uma nova tentativa de aliança. — Fukuzawa franziu a testa, a gravidade da situação estampada em seu rosto. Os membros da Agência trocaram olhares tensos.
Kunikida cerrou os punhos, um misto de raiva e frustração o dominando. Atsushi mordeu o lábio, um frio na espinha ao imaginar o perigo que Kyouka corria. Seus olhos marejaram, e ele desviou o olhar, lutando contra as lágrimas.
— Portanto, para trazer Kyouka sã e salva, agiremos por conta própria. — O presidente da Agência pausou, enfatizando a seriedade de suas palavras. — Cada um terá uma função. Não pouparemos esforços. Encontraremos Kyouka e derrotaremos o Corbeaux Noirs de uma vez por todas.
Um novo silêncio preencheu a sala. Não mais a apreensão passiva, mas a determinação silenciosa. Yukichi Fukuzawa se levantou. Seu olhar percorreu a sala, encontrando o de cada membro, transmitindo confiança e liderança.
— Entrarei em contato com velhos conhecidos que podem ter informações sobre o paradeiro de Kyouka e as atividades dos Corbeaux Noirs. Por isso, Kunikida, conto com você para coordenar as buscas em campo e manter a equipe organizada. — Ele o encarou diretamente.
— Pode contar comigo, presidente. Farei como o senhor pediu. Organizarei as equipes, distribuirei as tarefas garantindo a comunicação. Encontraremos Kyouka, custe o que custar. — Kunikida ajustou os óculos e se curvou em respeito. A seriedade em seu rosto era evidente, misturada a uma ponta de apreensão. Ele respirou fundo, controlando a ansiedade.
Fukuzawa assentiu e se retirou, sob o olhar atento dos detetives. Kunikida voltou para sua postura normal e se virou para os companheiros.
— Certo, para encontrarmos Kyouka e lidarmos com os Corvos Negros, nos dividiremos em três grupos estratégicos. — Kunikida pegou um marcador e circulou áreas em um mapa. — A cidade está um caos, há sinais de destruição por todos os lados. Os ataques foram coordenados e em grande escala. A polícia e os bombeiros estão sobrecarregados.
Ele olhou para , Kenji e Tanizaki. Kenji parecia confuso, preocupada e Tanizaki mantinha um semblante sério.
— Kenji, Tanizaki e ... vocês três ficarão juntos nesta área, com alta concentração de civis feridos. Suas habilidades combinadas serão cruciais para o resgate e primeiros socorros. Tanizaki, pode criar ilusões e distrações; Kenji, sua força será essencial para remover escombros e transportar feridos; , sua habilidade de rastreamento será crucial para localizar os feridos e nos reforços médicos. — Apontou para uma região central no mapa.
— Entendido, Kunikida. Estaremos atentos a qualquer sinal da Kyouka também, enquanto ajudamos nos resgates — Tanizaki respondeu, com Kenji e assentiram em concordância.
— Atsushi, Dra. Yosano, suas habilidades serão cruciais onde o festival de Halloween acontecia, lugar onde ocorreu o ataque principal. Atsushi, sua transformação pode ser útil para reconhecimento e resgate em áreas de difícil acesso; Dra. Yosano, sua habilidade de cura será essencial para tratar os feridos graves. — Kunikida os encarou, notando a palidez de Atsushi.
Yosano lançou um olhar determinado para Atsushi, como se dissesse: "Pode contar comigo!" Atsushi engoliu em seco e assentiu fracamente, a determinação começando a superar o medo.
— Dazai, você vem comigo. Investigaremos a possível motivação dos Corbeaux Noirs, além da obsessão em eliminar usuários de habilidades e a dominação mundial. — Dazai concordou, um brilho de seriedade em seus olhos, mas um leve tremor em seus lábios o denunciava.
— Naomi e os outros funcionários, cuidem da Agência. Mantenham as comunicações, monitorem os noticiários e mantenham contato constante com os grupos — ele disse calmamente, dando todas as informações para Naomi
— Pode deixar com a gente, Kunikida! Manteremos tudo sob controle — Naomi respondeu, com firmeza.
— Ótimo. Atsushi… — Kunikida hesitou, suavizando a expressão. — Tente manter a calma. Sei que está preocupado com Kyouka, mas precisamos que você esteja focado. Vamos trazê-la de volta.
— Eu sei… obrigado, Kunikida. Eu vou me esforçar — Nakajima respondeu, a voz embargada.
Dazai colocou a mão no ombro de Atsushi, com seu típico sorriso.
— Não se preocupe tanto, Atsushi. Kyouka é durona. Ela sabe se cuidar. E temos o Kunikida para nos manter na linha — o rapaz de bandagens disse, tentando fazê-lo manter a calma.
— Pare de falar besteiras, Dazai. Não é hora para brincadeiras — Kunikida o repreendeu.
— Calma, Kunikida, eu só estou tentando animá-lo. — Dazai riu levemente, mas seu olhar se tornou sério. — Até porque, nós vamos encontrá-la.
se aproximou de Atsushi, colocando uma mão em seu outro ombro.
— Atsushi, apenas confie. Vamos trazê-la de volta. Juntos. — Ela sorriu gentilmente.
— Sim! Vamos salvar Kyouka! — Kenji sorriu, com sua inocência contagiante.
Atsushi olhou para seus companheiros, sentindo um calor reconfortante. Assentiu com firmeza.
— Sim… vamos trazê-la de volta. — Ele respirou fundo, tentando afastar a ansiedade. Kunikida assentiu, satisfeito com a determinação renovada do grupo.
— Ótimo. Vamos nos preparar e partir imediatamente. Cada segundo é uma corrida contra o tempo. Ranpo… — O loiro olhou para o detetive, que permanecia em silêncio, aparentemente alheio à situação, concentrado em desembrulhar um doce. Um suspiro escapou de seus lábios. — Ranpo, preciso que você use sua habilidade para tentar encontrar algum vestígio sobre onde Kyouka possa estar. — Kunikida aproximou-se de Ranpo, colocando o mapa de Yokohama, com os círculos que havia feito para os outros membros, sobre a mesa. — Sua ajuda é crucial. Não podemos encontrar Kyouka com a habilidade de rastreamento de , algo está impedindo-a de usar o Tracking Senses para podermos encontrá-la. — Ele franziu o cenho, demonstrando a gravidade da situação. — E considerando a situação caótica da cidade, dependemos da sua habilidade para localizá-la o mais rápido possível.
Ranpo finalmente olhou para Kunikida, a expressão séria pela primeira vez.
— Rápido, por favor, Ranpo. Não temos tempo a perder — acrescentou, a voz embargada pela preocupação. Edogawa suspirou profundamente e guardou o doce no bolso com um gesto lento.
— Entendo. Já que vocês insistem… — disse Ranpo com uma seriedade incomum, que logo se transformou em um sorriso confiante, quase infantil. Levantou-se de sua cadeira, a determinação brilhando em seus olhos. — …eu, o Grande Detetive, cuidarei disso! — Ele tirou seus óculos de seu bolso e os colocou, pronto para ativar sua habilidade. — Dedução Ultra! — ele disse e um brilho intenso emanou de seus olhos enquanto ele analisava o mapa e as informações disponíveis.
No entanto, antes que Ranpo pudesse completar sua Dedução Ultra, o escritório da Agência tremeu violentamente. As luzes piscaram e se apagaram, mergulhando o local em uma penumbra repentina, iluminada apenas pelas luzes de emergência fracas. Um estrondo ensurdecedor ecoou, seguido por gritos vindos da rua e o som de vidros se estilhaçando. Poeira e pedaços de concreto começaram a cair do teto, como uma chuva de detritos.
— O que está acontecendo?! — Atsushi exclamou, aterrorizado, desviando de uma estante que ameaçava desabar sobre ele. Um novo estrondo, ainda mais forte que o anterior, sacudiu o prédio. Parte do teto desabou, revelando um céu nublado e a visão de destroços caindo em cascata. Gritos de pavor ecoavam nas ruas, misturados ao som de sirenes e alarmes. Poeira e pequenos fragmentos de concreto choviam do teto agora aberto.
— Um ataque! — bradou Dazai, instintivamente empurrando Naomi e para trás da mesa, enquanto ele próprio se protegia atrás de uma estante que ameaçava desabar. O caos se instalou no escritório. Papeis voavam como folhas secas ao vento, objetos caíam com estrondos surdos e o chão tremia incessantemente sob seus pés. O cheiro acre de gesso e fumaça começou a se espalhar pelo ar, picando as narinas.
— Mas o quê…? — murmurou, seus olhos estreitando-se enquanto observava a poeira dançando no ar sob os raios de sol que agora invadiam o escritório pelo buraco no teto. Uma expressão de pânico tomou conta de seu rosto ao sentir o tremor constante.
— Todos, protejam-se! — Kunikida gritou, sua voz tentando superar o barulho ensurdecedor. Ele correu até Atsushi, que estava paralisado pelo choque, e o puxou para trás de uma mesa virada. — Atsushi, rápido! Precisamos sair daqui!
Atsushi piscou algumas vezes, como se estivesse despertando de um transe. O choque ainda brilhava em seus olhos, mas a determinação começava a surgir ao sentir o puxão firme de Kunikida. Ele assentiu freneticamente e se juntou ao loiro para ajudar a virar outra mesa, criando um precário abrigo para eles e outros membros da Agência.
Ranpo, que até então permanecera calmo em meio ao caos, removeu os óculos e franziu a testa, concentrado. Uma rachadura começou a se formar no chão sob seus pés, estendendo-se como uma teia de aranha. O som de concreto se partindo era agourento.
— O ataque… não veio de fora. — Sua voz era baixa, quase um sussurro, mas carregada de uma seriedade incomum. Seus olhos se arregalaram, fixos em um ponto específico do chão. — Está vindo lá... de baixo. — Antes que alguém pudesse processar suas palavras, o chão sob seus pés começou a rachar violentamente.
Um buraco se abriu, expandindo-se rapidamente pelo escritório, engolindo mesas, cadeiras e outros objetos com um rugido profundo. Cabos elétricos estouraram, soltando faíscas azuis que iluminaram brevemente a poeira densa.
— Ranpo! — Tanizaki gritou, agarrando Ranpo e puxando-o para longe da beira do buraco que se abria. De repente, uma figura surgiu do buraco, pairando no ar. Era uma figura totalmente coberta por vestes negras, com apenas os olhos visíveis, brilhando com uma intensidade fria e cruel como brasas no escuro.
O intruso emanava uma presença opressora, como se a própria escuridão tivesse ganhado forma. O ar ficou pesado e frio, e um vento gélido surgiu do buraco. Atsushi, tremendo, mas com os punhos cerrados, assumiu uma postura de batalha. A imagem de Kyouka em perigo o impulsionava a lutar. Seus olhos, agora, cintilavam com uma determinação feroz.
— Um inimigo! — Akiko Yosano, com uma expressão fria e um brilho determinado nos olhos, preparou-se para o ataque, posicionando suas mãos como garras.
— Quem é você?! — Kunikida gritou, sua voz ecoando pelo escritório destruído. Ele empunhava duas pistolas que havia materializado de sua agenda, apontando-as para a figura à sua frente. Kenji, com os punhos cerrados e um olhar fixo no inimigo, avançou alguns passos, pronto para usar sua força sobre-humana.
O intruso não respondeu. Lentamente, ergueu uma das mãos envoltas em trevas. Da palma, jorrou uma onda de energia roxa que se espalhou pelo escritório, atingindo alguns móveis e paredes, que se desintegraram em pó com um chiado agudo. Parte da onda atingiu de raspão o braço de Naomi, que gritou de dor e cambaleou para trás, caindo no chão em seguida. Seu braço estava sangrando e a pele chamuscada. O cheiro de carne queimada se misturou à fumaça.
— Uma habilidade... de desintegração?! — Dazai murmurou, observando a cena com os olhos estreitos, fixos na figura.
— Naomi! — Tanizaki gritou, o pânico tomando conta de si. Ele se virou para a figura, com a raiva fervendo em seus olhos. — O que você pensa que está fazendo?! Como ousa ferir a Naomi? — Ele estendeu uma das mãos, segurando uma pistola, a mão tremendo levemente. Antes que pudesse atirar, o intruso moveu a outra mão, e uma onda de energia negra surgiu, desta vez direcionada diretamente para Atsushi. Dazai notou um padrão na energia, algo familiar, mas não conseguia identificar o quê. Uma sombra de preocupação cruzou seu rosto.
— Atsushi, cuidado! — Com uma velocidade surpreendente, Dazai correu até Atsushi e o empurrou para o lado, recebendo o impacto da energia em seu lugar. A onda o arremessou contra uma parede, quebrando-a e o deixando caído entre os escombros.
— Dazai! — Atsushi gritou, correndo até ele. O rosto de Dazai estava pálido, e um filete de sangue escorria de sua bochecha. Sua respiração estava irregular e ele segurava o braço atingido com uma expressão de dor.
— Eu estou… bem… — ele murmurou, com dificuldade, tossindo um pouco de sangue. — Mas minha… anulação… não está funcionando… Alguma coisa está bloqueando minha habilidade. Assim não vou conseguir anular as habilidades dele. — Ele olhou para a figura e depois para Atsushi, com preocupação. — Precisamos sair daqui, Atsushi. Ele é… perigoso demais.
Atsushi concordou, o pânico estampado em seu rosto. O som de mais destroços caindo do teto aumentava o senso de urgência.
— Presidente! — Ele olhou na direção onde ficava a sala de Fukuzawa, o coração acelerado. A porta estava destruída, apenas lascas de madeira restavam.
— O presidente está bem. Já está fora da Agência — Kunikida respondeu, a voz firme apesar da situação caótica.
— Droga! — Yosano exclamou, desviando de um pedaço de madeira que voou em sua direção. — Precisamos fugir! Naomi precisa de cuidados. Tanizaki, leve-a para um lugar seguro!
— Certo! — Tanizaki respondeu, ajudando Naomi a se levantar e apoiando-a em si enquanto a guiava para longe do buraco e dos destroços.
— Concentrem-se em sair. Eu cuido do inimigo. — Kunikida avançou, a expressão tensa, conjurando mais armas de sua agenda. A cada página arrancada, um novo objeto materializava-se com um estalo seco: uma arma, granadas de fumaça que começaram a liberar uma densa cortina branca, até mesmo um pequeno lança-chamas que ele empunhou com firmeza. A determinação em seu rosto contrastava com o perigo iminente.
— Mas Kunikida, você não pode fazer isso sozinho! — Atsushi exclamou, a voz embargada pela preocupação. Ele estendeu a mão, hesitante. Kunikida o cortou com um olhar severo, sem diminuir o ritmo.
— É uma ordem, Atsushi. Se ficarmos parados, todos morreremos. Não há tempo para discussões. Confie em mim. — O loiro ajeitou os óculos, um brilho determinado nos olhos. Ele parecia calcular cada possibilidade, cada ângulo de ataque. O intruso avançava com fúria implacável, destruindo tudo em seu caminho. Sua forma, antes humana, agora se contorcia em uma massa disforme de sombras e fúria, como se a energia roxa e negra o estivesse consumindo. Kunikida respirou fundo, concentrando-se em sua habilidade, Poeta Doppo. Ele precisava ganhar tempo para que os outros escapassem.
O inimigo, imperturbável diante dos objetos materializados por Kunikida, pareceu entender a intenção de fuga. Lentamente, ele abriu os braços, e uma névoa, negra como o breu, intensificou-se, expandindo-se pelo escritório como uma onda de escuridão viscosa, pulsando com uma energia sinistra. A pressão atmosférica pareceu mudar, tornando o ar denso e difícil de respirar. Um rugido ensurdecedor ecoou, fazendo as paredes tremerem e estilhaços de vidro voarem.
— Droga... ele está nos impedindo de sair! — exclamou Atsushi, protegendo o rosto com os braços enquanto a onda de escuridão o atingia. Seus pelos eriçaram e um calafrio percorreu sua espinha.
— Não é só isso! — rosnou , com uma expressão séria. Ela agarrou Kenji pelo braço, puxando-o para trás. — Essa névoa não está apenas nos forçando a ficar. Ela está nos impedindo de usar nossas habilidades!
Kenji, geralmente calmo, arregalou os olhos. A constatação de o atingiu como um choque gelado. Ele sentia um formigamento estranho, uma sensação de vazio se espalhando por seu corpo. Tentou concentrar sua força, imaginando o peso de um trator, mas nada aconteceu. Em seguida, olhou para os outros membros da Agência de Detetives Armados; as expressões em seus rostos refletiam o mesmo pavor. Até mesmo Kunikida, conhecido por sua compostura inabalável, franzia a testa com preocupação, escrevendo em sua agenda com mais força. Ele parecia incapaz de materializar qualquer coisa.
— Impossível... — murmurou o loiro, arrancando uma das páginas. Sem sucesso. — ...não consigo materializar nada.
— E agora, o que vamos fazer? — Atsushi gaguejou, a voz falhando ligeiramente. A pergunta pairou no ar denso, carregada de apreensão. Antes que alguém pudesse responder, uma risada baixa e fria ecoou pelo espaço, fazendo os pelos da nuca de todos se arrepiarem.
— Parece que vocês finalmente perceberam o pequeno inconveniente — a figura, antes em completo silêncio, se pronunciou. Seus olhos brilhavam com uma intensidade cruel. — Logo todos vocês estarão... mortos.
cerrou os punhos, pronta para atacar, mas hesitou. A fraqueza a dominava, tornando seus movimentos lentos e pesados. Ela sentia a energia vital sendo sugada a cada segundo.
— Seu maldito! — exclamou , rangendo os dentes. Atsushi, ao seu lado, tentou se transformar em tigre, concentrando toda a sua força de vontade. Mas apenas algumas listras fracas apareceram em seus braços antes que a transformação falhasse miseravelmente, deixando-o exausto e cambaleante. Ele caiu de joelhos, sentindo uma pontada aguda na cabeça.
— Atsushi! — exclamou , correndo para ampará-lo.
Tanizaki tentou usar sua habilidade, Neve Leve, para criar uma névoa que os ocultasse, mas nada veio.
— Não... não estou conseguindo. — Ele olhou para suas mãos, em choque. A situação parecia desesperadora. O inimigo se aproximava, com um sorriso invisível e predatório no rosto, saboreando o desespero deles. A Agência de Detetives Armados, geralmente tão poderosa, estava à beira da derrota.
De repente, uma rajada de vento forte varreu o local, dissipando momentaneamente a aura negra e opressora, fazendo todos da ADA, incluindo o inimigo, virarem-se surpresos para a fonte daquela intervenção. A onda de escuridão que havia tomado conta do escritório recuou bruscamente, como se tivesse sido repelida por uma força invisível. Objetos de todos os tipos, desde os mais leves papéis até as pesadas mesas, começaram a levitar, tremendo violentamente, para em seguida serem arremessados contra o inimigo, que, pego de surpresa pela súbita investida telecinética, ficou sem reação por alguns segundos. Ele tentou invocar suas habilidades sombrias, mas foi repelido por rajadas de fogo e rochas que cortavam o ar como lanças. Atingido pela saraivada de ataques inesperados, o intruso recuou, a surpresa estampada no rosto. A aura negra, agora com tons de um roxo púrpura, vacilou e quase sumiu por um momento, dando uma breve janela para os detetives sentirem seus poderes pulsarem fracamente, o que o fez soltar um rugido furioso, concentrando toda a sua energia em um único ataque omnidirecional. Os membros da Agência, em formação de defesa improvisada, prepararam-se para o impacto iminente.
— Kunikida! — bradou Dazai, com um tom surpreendentemente sério, quebrando o silêncio tenso. Kunikida, com sua Agenda Ideal aberta, rabiscava freneticamente a forma de uma arma, a testa franzida em concentração enquanto calculava a melhor forma de neutralizar a ameaça. Ele murmurava para si mesmo: “Precisamos de algo com alto poder de penetração, mas que não cause danos colaterais… Uma granada eletromagnética talvez? Ou uma arma de contenção de energia cinética?”
— Preciso de mais tempo! A habilidade do inimigo é forte demais! Não estou conseguindo ativar meu poder como deveria. — Ele rangeu os dentes, a frustração evidente em sua voz. — Essa interferência está afetando a materialização dos meus itens ideais.
concentrava-se na movimentação do inimigo, seus olhos estreitos analisando cada padrão, cada tremor no ar. Seus dedos crispavam, ela tirou suas adagas de sua bota, prontos para disparar assim que uma abertura real surgisse, mesmo sabendo que elas provavelmente seriam inúteis. Atsushi concentrou toda a sua força de vontade, gritando silenciosamente para que seu corpo obedecesse. Sua pele começou a tomar forma, as unhas se alongaram em garras e finas listras pretas surgiram em seus braços, tremendo como se estivessem sendo desenhadas a carvão. Mas então, uma dor lancinante o atingiu na cabeça, como se um martelo estivesse sendo golpeado contra seu crânio. A transformação estagnou, as listras sumindo rapidamente, deixando-o exausto e cambaleante. Ele novamente caiu de joelhos, sentindo mais uma pontada aguda na cabeça. Yosano estendeu a mão para ajudá-lo, mas sentiu um formigamento fantasmagórico.
— Atsushi, aguente firme! — Yosano o advertiu, com um olhar preocupado, segurando firmemente sua enorme faca com a outra mão. — Se algo acontecer com você nesse estado, não sei se poderei curá-lo a tempo. A anulação de habilidades pode interferir até mesmo na minha cura — ela disse. O vazio onde antes residia seu poder a assustou mais do que qualquer ferida.
— Eu… não consigo me transformar! — respondeu Atsushi, engolindo em seco. — Precisamos ganhar tempo para o Kunikida…
— A névoa que ele invocou está emitindo uma onda que suprime qualquer ativação dos nossos poderes. É como se estivéssemos amarrados, amordaçados! — sibilou, os olhos fixos no inimigo. Atsushi cerrou os punhos, sentindo a impotência o consumir. Naomi, mesmo machucada ia avançar, mas Tanizaki a impediu com um gesto firme.
— Na-Naomi, fique atrás de mim! — Tanizaki, tremendo levemente, agarrava Naomi protetoramente enquanto mirava no inimigo com uma pistola calibre .45, buscando um ponto vulnerável para atirar assim que a energia se dissipasse. Seus dedos apertavam o gatilho, mas ele hesitava, sabendo que um tiro seria ineficaz contra um inimigo que anulava habilidades.
— Ma-mas, ir-irmãozinho…! — Naomi gaguejou, com os olhos arregalados de medo, mas Tanizaki a interrompeu com um olhar firme, embora seus olhos também demonstrassem apreensão.
— Aguenta firme. Vai ficar tudo bem — ele garantiu.
Do lado oposto a eles, Kenji, com sua força descomunal, agarrou uma mesa de carvalho maciça, erguendo-a acima da cabeça. Embora o inimigo estivesse tentando manter a anulação de habilidades constantemente ativa, o que o deixava ainda mais exausto, Kenji usava sua força bruta. A mesa tremia em suas mãos, as veias de seus braços saltando enquanto ele a levantava, preparando um escudo improvisado, o esforço era visível em seu rosto. Ranpo, com os olhos normalmente fechados, agora estavam arregalados, demonstrando uma seriedade incomum.
— Precisamos sair daqui… — Ranpo murmurou, a voz baixa e urgente. — Essa anulação está se intensificando. Se continuarmos aqui, seremos presas fáceis. Não há como lutar nessas condições. Mesmo com minha Super Dedução, não consigo prever um contra-ataque efetivo nessas circunstâncias.
— Parece que vamos precisar de um plano B — Dazai murmurou, em posição de ataque, embora sua habilidade estivesse inutilizada, mantinha uma postura confiante, mas um brilho de preocupação em seus olhos o traía. — Precisamos de algo que não dependa de habilidades… precisamos de força bruta. O problema é que o inimigo não está deixando brechas para podermos atacá-lo. — Ele olhou ao redor, buscando inspiração no caos. Os membros da Agência tentaram a todo custo atacar, buscando qualquer forma de contornar a anulação, mas o inimigo ergueu a mão mais uma vez, e uma nova onda de energia pulsou, intensificando a supressão. Dazai percebeu a mudança.
No exato instante em que a energia concentrada do inimigo estava prestes a ser liberada, uma figura feminina surgiu voando do nada, interpondo-se entre a Agência e o inimigo. A mulher, com um pouco mais de um e sessenta e três de altura, vestia um sobretudo escuro que esvoaçava com o vento, seus cabelos eram curtos, acima dos ombros.
Ela ergueu uma das mãos, e uma barreira invisível, como um escudo, surgiu, repelindo completamente a onda de energia destrutiva. A explosão foi contida, sem causar mais nenhum dano aos detetives, que já se encontravam exaustos e alguns feridos, embora o escritório estivesse parcialmente destruído, com paredes rachadas e caidas, alguns móveis estavam espalhados, enquanto outros estavam em pedaços. Ondas de choque percorreram o local, fazendo os poucos objetos restantes tremerem e estilhaços de vidro voarem. O silêncio tomou conta do local por alguns segundos tensos, enquanto todos observavam a recém-chegada com surpresa e descrença. O inimigo, visivelmente abalado por ter seu ataque neutralizado com tamanha facilidade, recuou um passo, seus olhos, fixos na recém-chegada, a observavam com cautela e um misto de raiva e surpresa.
— Vejo que o dia por aqui começou um tanto... animado! — comentou a mulher, sua voz calma e firme contrastando com o caos ao redor. Lentamente, ela abaixou a mão, o brilho da barreira invisível se dissipando como fumaça, e se virou para os detetives. Um sorriso leve brincava em seus lábios, mas seus olhos avaliavam a cena com atenção. — E aí, como vocês estão?
— Você?! — Kunikida exclamou, os olhos arregalados em choque e alívio. A surpresa era evidente em sua postura rígida, a qual relaxou minimamente ao reconhecer a figura imponente. Seus óculos estavam tortos e sua camisa suja de poeira. A chegada repentina de uma aliada no escritório da Agência de Detetives Armados, agora em ruínas, trouxe um fio de esperança aos detetives, antes imersos em desespero.
O ataque que devastou a Agência era de proporções catastróficas: paredes antes adornadas com pôsteres de casos agora jaziam em escombros, o cheiro acre de concreto queimado pairava no ar, e a poeira fina cobria tudo como um sudário cinza. Cabos de energia pendiam do teto, soltando faíscas ocasionais que iluminavam brevemente a cena de destruição. O inimigo, apesar de surpreso, encontrava-se furioso por ter seu ataque interrompido. Ele intensificava seus poderes, manifestando-os em uma aura ainda mais ameaçadora. O intruso, ainda desconhecido, possuía habilidades amedrontadoras: a desintegração, uma energia roxa que reduzia instantaneamente matéria a pó, transformando tudo que o atingisse em areia fina, como uma névoa tóxica, desintegrava tudo em seu raio de alcance, e a anulação de quaisquer habilidades sobrenaturais, uma energia negra, densa como fumaça, emanando de seu corpo. Essa última havia neutralizado temporariamente as habilidades dos detetives, deixando-os vulneráveis e presos sob o peso da iminente destruição.
Com um sorriso divertido dançando nos lábios e um brilho enigmático nos olhos, a jovem recém-chegada dirigia um olhar calmo para os membros da Agência, como se ignorasse completamente a ameaça iminente representada pelo inimigo às suas costas. Seus cabelos, curtos e negros, com as pontas de sua franja rosa, emolduravam um rosto sereno, contrastando fortemente com o caos ao redor. Enquanto seu sobretudo balançava levemente com a brisa que entrava por uma das paredes destruídas.
Ela cruzou os braços, apoiando-se casualmente em um pedaço de parede que milagrosamente permanecera intacto, como se estivesse em um piquenique e não na cena de um desastre. Seus olhos percorreram a devastação do escritório, detendo-se brevemente em um livro de literatura aberto, caído sob uma viga. A capa do livro, antes vermelha vibrante, agora estava coberta de poeira e fuligem. Um leve suspiro escapou de seus lábios antes que ela voltasse a encarar os detetives.
— Parece que vocês se meteram em uma bela encrenca, não é? — Sua voz, suave, percorreu o silêncio pesado, carregada com um misto de censura divertida e preocupação genuína.
Dazai, com um sorriso fraco, e um aceno de cabeça quase imperceptível, exclamou:
— Pois é, digamos que tivemos um pequeno… contratempo — Dazai respondeu com seu usual tom despreocupado, enfatizando o "contratempo". Embora um brilho de alívio pudesse ser notado em seus olhos.
Uma gota de sangue escorria por sua têmpora, testemunha silenciosa da batalha anterior. Ele lançou um olhar de soslaio para o inimigo, que agora parecia momentaneamente atônito com a chegada da jovem, como se estivesse recalculando a situação, seus olhos fixos na recém-chegada com uma intensidade fria e calculista. O inimigo cerrou os punhos, um leve tremor percorrendo seu corpo, demonstrando sua crescente irritação por ter sua investida interrompida.
Os membros da Agência, ainda sob o choque do ataque e a súbita aparição da jovem, reagiram de maneiras distintas. Kunikida, com o rosto sujo de poeira e sua agenda em mãos, deixou escapar um suspiro de alívio, mas manteve uma postura tensa, observando o inimigo com a devida cautela. , com os olhos arregalados, agarrava firmemente suas adagas pronta para se defender e atacar a qualquer momento. Dra. Yosano, apesar de sua expressão normalmente estoica, tinha as mãos tremendo levemente, um raro sinal de sua própria vulnerabilidade diante da anulação de sua habilidade de cura. Kenji olhava para a recém-chegada com uma expressão esperançosa, como se ela fosse a solução para todos os seus problemas. Naomi, ferida e tremendo levemente, agarrava-se ao braço de Tanizaki em busca de apoio, enquanto este a protegia com o corpoe seus olhos fixos no inimigo. Atsushi, com o corpo coberto de arranhões e alguns cortes, respirava com dificuldade, mas seus olhos brilhavam com determinação renovada ao ver a nova aliada.
O silêncio pairou no ar por alguns instantes, quebrando-se apenas com o rosnado irritado do inimigo ignorado, um som gutural que ecoava pelas ruínas. Poeira fina descia do teto a cada vibração.
— Dazai… — ela, com um tom de voz que misturava advertência e afeto, completou: — Por que sempre que o encontro, você está metido em alguma confusão? — Seus olhos, antes calmos, agora brilhavam com determinação enquanto ela se desvencilhava da parede, assumindo uma postura mais ereta. A atmosfera no escritório mudou drasticamente. A chegada dela não era apenas um alívio, mas a promessa de uma reviravolta iminente contra o inimigo.
O rapaz de bandagens deu de ombros e arqueou uma sobrancelha, com um brilho travesso nos olhos.
— O que posso dizer? Temos o mesmo sangue correndo em nossas veias... — Ele deu de ombros, com um sorriso ladino. — A confusão sempre dá um jeito de nos encontrar.
Ela cruzou os braços, com um leve sorriso brincando em seus lábios, antes de seu olhar se tornar sério, avaliando a situação ao redor. Um suspiro quase imperceptível escapou de seus lábios.
— É, você tem toda razão… — Ela concordou com a cabeça, um tom de diversão em sua voz, antes de adicionar com um sorriso mais aberto e um brilho nos olhos, semelhante aos de Dazai: — Primo!
Então, a salvadora inesperada que surgiu em meio ao ataque inimigo, era uma pessoa que ninguém esperava ver ali. E essa pessoa era: Dazai*, prima de Osamu Dazai.
Glossário O.D.d.S
*No sistema de nomes japonês, o sobrenome vem antes do nome próprio, por exemplo "Dazai" é o sobrenome e "Osamu" é o nome (ex.: Dazai Osamu)
Atsushi, ainda meio atordoado com o ataque inimigo, olhou para a jovem com admiração. , ao seu lado, apertava seu braço levemente, como se fosse para se certificar de que não estava alucinando, seus olhos estavam arregalados e a respiração ligeiramente acelerada. Kunikida, com o rosto sujo de poeira e um filete de sangue escorrendo da testa, ajustava seus óculos com uma careta, tentando processar o que acabara de acontecer. Yosano estalava os nós dos dedos, em posição de ataque, embora seus olhos também demonstrassem uma ponta de surpresa com a recém-chegada. Kenji, apesar do cansaço causado pela anulação de poder inimigo, mantinha um sorriso gentil, embora um pouco vacilante, enquanto olhava para mulher a frente. Naomi, que havia sido atingida de raspão pela habilidade de desintegração, estava sendo amparada por ele, com o rosto pálido e uma expressão de dor contida, enquanto Tanizaki a segurava firmemente, o cenho franzido em preocupação. Dazai, com um sorriso enigmático nos lábios e os olhos brilhando em diversão, observava a prima com interesse, como se estivesse apreciando um bom espetáculo. Até mesmo Ranpo, que geralmente mantinha uma expressão entediada, demonstrava genuína surpresa, seus olhos verdes fixos na prima de Dazai.
A jovem, com seu usual sobretudo escuro, que esvoaçava levemente com a brisa que entrava no ambiente através da janela e parede danificada, havia mudado completamente a dinâmica da situação. A aura que exalava era de pura confiança e poder, contrastando drasticamente com o caos que se instalara momentos antes. A intervenção contra o inimigo, impedindo que ele usasse seu poder de desintegração em massa contra os detetives no último segundo, fora executada com uma precisão impressionante, quase como se o tempo tivesse desacelerado. Neutralizando a habilidade do inimigo antes mesmo que pudesse surtir efeito completo, como se ela antecipasse cada movimento, cada intenção. O ar parecia vibrar com sua presença, e um silêncio respeitoso, quase reverencial, se abateu sobre o local, enquanto todos processavam o que acabara de acontecer. O entulho resultante da intervenção anterior parecia ainda mais deslocado sob o olhar calmo de .
O inimigo, recuperando-se do choque inicial, fixou com um olhar carregado de ódio, seus olhos vermelhos injetados de fúria.
— Quem você pensa que é para se intrometer?! — ele sibilou, a voz rouca e trêmula, erguendo a mão novamente. A energia ao seu redor tremeluzia erraticamente, como as últimas brasas de uma fogueira quase extinta, denunciando seu esforço e exaustão. sorriu friamente, virando-se lentamente para a figura abatida. Seus olhos, antes calmos, agora brilhavam com uma intensidade gélida, como o brilho distante de estrelas em uma noite sem luar.
— Eu? Ninguém importante! — ela disse, dando um pequeno passo para frente. Lentamente, um passo de cada vez. — Mas para você, hoje eu serei o seu pior pesadelo. — Num movimento fluido, quase imperceptível, ela estendeu a mão. Sem nenhum contato físico aparente, uma força invisível atingiu o inimigo, arremessando-o contra uma parede reforçada com uma força brutal. O impacto ressoou pela sala como um trovão abafado, abrindo uma cratera na parede e irradiando rachaduras como teias de aranha por toda a superfície. Poeira, fragmentos de concreto e gesso voaram pelo ar. A tênue aura roxa que brevemente envolvera sua mão desapareceu no mesmo instante, como se nunca tivesse existido. A atmosfera se tornou ainda mais densa, carregada de uma tensão esmagadora. O cheiro acre de poeira misturava-se ao suor frio que emanava do inimigo, que agora jazia semi-inconsciente na cratera, lutando para respirar.
A ação de serviu como um catalisador. O ar tenso que pairava sobre a Agência se dissipou, dando lugar a uma prontidão fria e calculada. Kunikida, com uma expressão severa, abriu sua agenda de Ideais, invocando rapidamente: "Algemas de contenção - Nível 6." No mesmo instante, finas algemas de ferro surgiram em sua mão, prontas para imobilizar o inimigo caso ele tentasse qualquer movimento brusco. Dra. Yosano avançou um passo, a lâmina de sua faca reluzindo sob a luz fraca que entrava pelas fendas no teto destruído, seu olhar avaliando o inimigo com precisão clínica, procurando o melhor ponto para um ataque rápido e eficaz, caso necessário. Atsushi, com os punhos cerrados e as mãos tremendo levemente, posicionou-se instintivamente na frente de Naomi e Tanizaki, pronto para se transformar em tigre a qualquer momento, um rosnado baixo e gutural escapando de sua garganta, protegendo-os do perigo iminente. Naomi agarrou o braço de Tanizaki, os olhos arregalados de preocupação, enquanto Tanizaki tentava manter a compostura, embora seus ombros estivessem tensos. Kenji, com sua super força, agarrou um grande pedaço de entulho que se soltara da parede, usando-o como um escudo improvisado, seus olhos fixos no inimigo com uma determinação silenciosa, calculando a trajetória de um possível arremesso. , com suas adagas em punho e sentidos aguçados, analisava a energia residual do inimigo, buscando fraquezas em sua aura debilitada, seus olhos estreitados enquanto percebia a instabilidade da energia remanescente, como uma chama prestes a se apagar. Ranpo, com os óculos já na ponta do nariz, observava a cena com uma expressão concentrada, tentando prever o próximo movimento do adversário, seus olhos perscrutando cada detalhe, como se lesse um livro aberto, buscando a falha crucial. Dazai, com um sorriso enigmático nos lábios, assumiu uma postura de combate displicente, as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo bege, mas seus olhos fixos no inimigo, calculando suas chances e avaliando as estratégias da equipe. O silêncio era ensurdecedor, quebrado apenas pela respiração ofegante do inimigo, pelo farfalhar do sobretudo de e pelo leve tilintar das algemas de Kunikida.
Lentamente, com um gemido de dor e um esforço visível, o inimigo se levantou, apoiando-se na parede rachada. A poeira escorria de suas roupas esfarrapadas e seu rosto estava contorcido em uma mistura de dor e fúria escondido pela máscara que usava. Ele encarou com um olhar ainda mais mortal, direcionando o que restava de sua habilidade de desintegração em sua direção. Pequenas partículas de energia escura crepitavam e dançavam na palma de sua mão trêmula, prontas para serem liberadas.
— Acha mesmo que pode me deter? — O inimigo riu, um som quebrado e doloroso, como se cada risada fosse uma tortura. — Vocês não fazem ideia do que eu sou capaz. — Ele bateu o pé forte no chão, desafiando com o olhar.
— Você fala demais para quem já está derrotado — respondeu, a voz cortante como gelo. — Eu estava disposta a ser misericordiosa, mas você insiste em ser tolo. — Ela sorriu, um sorriso que não transmitia calor, mas sim uma promessa de dor. — Bom… que assim seja.
De repente, todo o ambiente ao seu redor começou a tremer violentamente. Fragmentos de pedra caidos no chão começaram a levitar, e uma luz laranja surgiu ao seu redor, e o vento ficou cada vez mais forte, uivando como um espírito furioso, criando um redemoinho ao redor de . O escritório da Agência estremeceu, as luzes piscaram e quase se apagaram. Os membros da Agência, mais atrás, mantiveram suas posições, cada um deles pronto para agir. Kunikida apertou as algemas em sua mão, pronto para imobilizar o inimigo. Yosano moveu a faca, aguardando o momento certo para atacar, mas também observando com cautela o poder de . Atsushi rosnou mais alto, seus músculos se contraindo sob a pele, pronto para a transformação, mas hesitante em se mover devido à instabilidade do ambiente. Kenji ergueu o pedaço de entulho, pronto para lançá-lo como um projétil, mas seus olhos mostravam uma ponta de preocupação com a destruição que o poder de estava causando. moveu-se ligeiramente, posicionando-se para um ataque, suas adagas brilhando friamente à luz, mas sua expressão era de surpresa e admiração pela demonstração de poder. Ranpo ajustou os óculos, um pequeno sorriso enigmático surgindo em seus lábios. Dazai, por sua vez, tirou as mãos dos bolsos, um olhar determinado tomando conta de sua face. A tensão atingiu seu ápice, o ar parecia vibrar com a iminência do confronto. A sala inteira parecia estar à beira do colapso, enquanto uma parte do Mente Mestra, habilidade paranormal de , se manifestava de forma avassaladora.
— Manipulação… telecinética?! — O inimigo exclamou, os olhos arregalados em descrença e medo. Ele, antes tão seguro de si, agora demonstrava hesitação, ponderando a ameaça que ela representava. Ele apertava os punhos, indeciso sobre o que fazer, o terror começando a se instalar em seu olhar.
Continua no próximo episódio...
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