Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 20/10/2025O cheiro da floresta é distinto, amadeirado com um cheiro de úmido, onde, dependendo da estação, a umidade é fruto de razões diferentes. Nas estações quentes, era pelo musgo, água corrente, e da chuva — diferente das estações frias, onde a neve roubava o seu lugar, pesando os pulmões de quem estivesse por muito tempo.
Hoje é diferente, meu peito está pesado e não consigo respirar tranquilamente por outra razão. O cheiro de madeira molhada some, sendo substituído pelo cheiro de decomposição e sangue fresco.
Um lado do meu rosto está mais quente que o normal, sei muito bem que é sangue em uma ferida aberta, mas tem outra coisa, algo viscoso que impede que o sangue escorra pela minha face. Minhas pernas estão soltas, e sinto o meu trenó encostando levemente no meu pé, com todos os meus instrumentos intactos sobre ele.
Agarro a neve, sentindo as farpas cobrindo as pequenas frestas do que sobrou das minhas luvas, levantando as duas, vendo o sangue colorindo o branco com vermelho vinho. Abaixo uma delas, a soltando sobre a superfície como se fosse um grande travesseiro, e trago a segunda mão para o meu peito, o apertando. Junto das roupas, sinto algo afiado, que atravessa a luva e a minha pele como se fossem manteiga, me cortando e deixando o ar com cheiro fresco de ferro — o dente do ser que não deveria estar aqui.
Dia 29 de Dezembro de 2021
14:40 de uma quarta feira
Inverno intenso.
O som da sala da delegacia estava mais alto hoje, mesmo sendo cedo. Muitas pessoas acabaram sendo pegas no ato de suas façanhas, outras eram suspeitas e foram detidas para melhor investigação, e outras achavam que qualquer coisa que vissem na rua era o suficiente para tentar abrir um boletim de ocorrência contra alguém.
A delegacia era simples, o térreo era a portaria, onde as pessoas falavam com a recepcionista e ela os direcionava para o que precisavam. A recepção estava cheia, e a nossa recepcionista tentava manter a ordem, felizmente, o nosso secretário estava no andar de baixo a ajudando, mas o barulho de telefones e pessoas reclamando poderia ser ouvido do outro lado da rua. No primeiro andar, tínhamos a nossa cadeia provisória, salas de interrogatório, mesas para trabalhos administrativos, e a sala de reuniões, onde a maioria dos nossos policiais estavam tentando manter a calma das pessoas que vieram testemunhar, e impedindo que tivesse alguma orgia entre os usuários de drogas e mulheres de programa dentro da cadeia provisória.
Mas, mesmo com todo aquele barulho, uma sala no final do corredor parecia não ter um único som. O ar que estava ao redor da sala estava pesado, parecendo que a gravidade tinha aumentado e a energia sido sugada. O corredor era escuro, com apenas uma lâmpada no meio dele, com as paredes cinzas e o chão junto da porta sendo de madeira bruta.
Ao entrar na sala, conseguiria notar que ela era dividida em duas, separadas por uma parede com um vidro falso. De um lado, era apenas um corredor negro com microfone, painel de controle e luzes. Já o outro, era cinza, com duas cadeiras de cada lado de uma mesa de metal com algemas presas a ela. Cinco figuras estavam apenas observando sem serem vistas, três estavam apenas assistindo, enquanto as outras duas estudavam como se fossem da escola primária, anotando tudo.
A sala cinza tinha apenas duas figuras, e qualquer um conseguiria saber quem estava no controle daquela sala. Uma pequena figura estava sentada na cadeira, suor até o queixo, as mãos presas à mesa, e os olhos fugindo para qualquer lado da sala. Sua aparência não estava combinando com a sua atmosfera, com roupa social, cabelo arrumado e grande relógio ao pulso. Parecia ser alguém grande, mas parecia extremamente pequeno na sala. À sua frente, uma figura grande estava apenas o olhando, os cachos caindo sobre os olhos, parecendo os esconder de propósito, as mangas da blusa estando até o começo do seu cotovelo por não conseguirem subir mais. Sua imagem era de confiança e liderança, sua presença era o que estava pesando o ar em toda a sala, e com certeza era o que estava fazendo o pequeno homem não conseguir nem olhar em sua direção.
Mesmo que o homem não tivesse visto, ele percebeu que a figura se levantou e se posicionou sobre a mesa, principalmente pela sombra dele ter pegado maior parte da sua superfície agora. De tudo que queria falar, berrar, se explicar, apenas uma coisa saiu de sua boca.
— Eu... — sua garganta secava, mesmo que com o copo de água ao seu lado — eu não estava lá... eu... — sua voz falhava, sua postura parecia se encolher ao meio do seu corpo, e seu cabelo grisalho grudado ao rosto.
— E eu acredito no senhor... — A diferença na voz fazia a sala pesar. Sua voz rouca parecia calma, tranquila e confiante, mas demostrando uma pequena camada de empatia — Eu entendo que o senhor esteja com medo, mas preciso que pelo menos olhe para mim.
A sua sombra começou a se mover pela mesa, andando devagar até dar a volta para chegar até a vítima.
— E, senhor, eu realmente acredito em você. — Sua voz saiu áspera pelos lábios. — Mas tudo indica que o senhor estava, sim, no local.
— Quê? Eu, eu não estava lá!! — Finalmente ele levantou a cabeça para olhar a figura, que agora cobria todo o seu corpo com a sua sombra. — E-eu... — Seus olhos voltaram a encarar o metal da mesa.
— Sr. Williams... — sua mão foi novamente até a mesa, descansando ali —, devo lhe lembrar que pedi para olhar pra mim. Entendo que essa situação está agonizante. O senhor teve uma grande perda na noite passada, logo após o Natal, e agora está numa sala fechada, forçado a defender a sua própria pessoa ao invés de se preparar pro Ano Novo. Mesmo que não precise responder nenhuma das minhas perguntas, eu ainda gostaria de saber algumas coisas. — Ele levou a sua outra mão até o bolso e retirou um pequeno papel de dentro.
Ele levou o papel até a mesa, a arrastando com um dedo até na frente dos olhos de Williams, sua visão agora estava focada no pequeno papel dobrado duas vezes de forma simétrica à sua frente. Suas mãos tremeram, e devagar levou uma das suas mãos, a esticando para conseguir chegar até o papel.
Trazendo para perto de sua segunda mão, ele começou a desdobrar o papel. A figura agora parecia estar interessada em assistir, porque estava mais próximo, encarando com os olhos calmos sobre o papel. Quando abriu, percebeu que era uma foto escura, sem muita nitidez, apenas percebeu um ponto luminoso ao meio dela que iluminava o que parecia ser uma rua, uma casa com uma porta de madeira e um carro barato. Do lado esquerdo mostrava a data: 28/12/2021.
— O que eu... deveria estar olhando? — A sua voz saiu tremendo, mas também confusa, suas mãos ainda tremendo.
— Me desculpe, acabei não sendo tão franco com o senhor... — Mesmo que suas palavras fossem mais leves, como se quisesse tranquilizar o homem, elas também soaram frias. Se aproximando mais, ele apontou para o lado direito da foto, logo abaixo da luz. — O senhor não conhece essa calçada e essa rua? Pelas minhas pesquisas, você e sua ex esposa moraram à frente dela durante quatorze anos. Mas, ao que seus filhos dizem, após o divórcio, o senhor não visitava esta casa mesmo em momentos festivos, como no Natal passado.
— O que está sugerindo?? — Ele finalmente levantou a cabeça para olhar pra cima, seus olhos fizeram contato visual direto pela primeira vez com o homem que o interrogava fazia uma hora. Mesmo que ele falasse manso, seus olhos não traziam um pingo de calor humano.
— Não estou sugerindo nada, senhor... pelo contrário, estou apenas tentando ajudar. — Ele voltou a olhar pra foto. — Mês passado, após três anos de divorciada, a sua esposa estava vendo alguém. E aqui conseguimos ver, mesmo que esteja escuro, um carro com uma placa que está no nome do parceiro dela.
Williams olhou melhor para a foto, vendo o carro e uma figura próxima a ele. O suor que estava indo até o seu queixo parecia ter esfriado, a sala foi de um forno de metal para uma geladeira.
— Como disse antes, acredito no senhor, mas achei estranho termos achado digitais suas no carro do namorado da sua ex esposa. E principalmente termos tido essa foto retirada das câmeras de segurança... O senhor realmente não estava ao lado de fora da casa da sua ex esposa no dia em que ela foi assassinada?
Sua respiração era calma e coordenada, enquanto o outro se afogava em seu próprio suor e saliva.
— EU JÁ DISSE... Eu já disse que não estava lá... Eu não matei ela. — Ele levantou a cabeça, para logo depois a abaixar novamente.
— Sr. Williams, eu nunca disse que foi o senhor quem assassinou ela, não precisa se exaltar. — Ele puxou a foto de suas mãos. — O que estou dizendo é que o senhor foi, sim, visto no local. E se não foi o senhor, você pode ter visto quem foi, não é? — Ele saiu de perto do homem e voltou a andar até a sua cadeira. Sua postura ao andar era ereta, com seus ombros sem mostrar nenhum sinal de tensão. Ele nem mesmo parecia estar sentindo a pressão dentro da sala.
— Eu... eu não vi nada... Eu só quis ir até a casa dela e acabei encostando no carro dele pensando que era um carro novo dela... Eu nem mesmo sabia que ela tinha um namorado.
— Obrigado pela resposta, senhor, mas nós pegamos o celular da ex Sra. Williams e encontramos algo curioso. — Ele voltou a se sentar e agora sua pose estava mais despojada na cadeira, mais relaxada. — Dias antes, ela postou uma foto nos stories com o novo namorado, e conseguimos ver que o senhor visualizou a imagem, já que temos mensagens de vocês dois conversando sobre isso. Então acho que o senhor deveria, sim, saber sobre a vida romântica de Sra. Carla.
— Eu só estava preocupado. Ela podia estar trazendo um homem estranho para perto dos nossos filhos... Eu só queria ver o que estava acontecendo. — Suas mãos ficavam acompanhando as suas palavras, mesmo que estivessem presas à mesa.
— Poderia me contar melhor do motivo da sua preocupação? — Ao perguntar, ele devagar apoiou os dois braços sobre a mesa, juntando as mãos, com as sobrancelhas arqueando, esperando algo.
— Os ex namorados da Carla eram terríveis. Ela parecia ter um tipo. Depois que nós nos casamos, eu tentei ser o melhor marido possível, fiz tudo da forma certa..., mas ela, ainda assim, quis me divorciar. Eu não sei o que fiz de errado... — Ele voltou a olhar pra baixo, se encolhendo novamente.
— Então ela tinha um dedo podre, e o senhor, sabendo disso, foi achar ela, porque sabia que seus filhos estariam na casa com o novo namorado. Você conhecia o sujeito?
— Sim, isso mesmo, ela tinha um gosto terrível desde o colégio. Acho que eu fui a decisão certa para ter uma família, mas ela ainda preferiria a animação de um homem "rebelde". — Ele faz o movimento junto de sua fala, sua cara demostrando um certo desgosto — Sei pouco do sujeito, única coisa que sei é que ele era apenas um novo namorado. A cara dele que não me passava boas notícias.
— Então não o conhecia, mas sentia algo estranho nele. Naquela noite, você viu alguma coisa estranha? Nós achamos marcas na porta, você saberia algo sobre isso? — Ele se aproximou devagar, inclinando o corpo para perto da mesa e afastamos os cotovelos, nunca quebrando o contato visual.
— Eu vi algo estranho...a porta dela estava mesmo com essas marcas...o lado de fora da porta estava com umas marcas..eu não cheguei perto para ver melhor, apenas fui embora depois que ouvi os dois dentro da casa..— seus olhos voltam a fugir para as paredes e teto. Até que as levanta e agora prendeu a sua visão nas mãos do homem sobre a mesa, a luz dos anéis e relógio acabaram o atraindo.
— Entendo, o senhor acha que foi esse novo namorado que matou a Sra. Carla?
— Eu... eu não sei.., mas se eu fosse dizer alguém, seria sim ele. Eu não confiava nele, e não acho que mais ninguém nas nossas vidas faria isso com ela...— Sua cabeça se endireitou, voltando a olhar prós olhos do interrogador, passando agora, pela primeira vez, um ar de confiança.
— Bem, Sr. Joseph..gostaria de perguntar apenas uma última coisa para o senhor, se me permitir é claro. — Sua voz saiu monótona, ainda com um certo grau de empatia no final dela.
— Claro, claro... Eu não sei se consigo responder, mas tentarei, sim, senhor. — Ele pareceu mais desesperado, mas ainda confiante nas suas próprias palavras.
— Quando fomos investigar a casa da Sra. Carla, achamos, sim, as marcas na porta, pareciam ter sido de arrombamento. Mas, senhor, se o assassino foi o novo namorado de Carla, Sr. Trevor, e você disse que quando foi embora, ouviu os dois dentro da casa, e nós sabemos que aquela foi a última noite de Carla viva. Então por que teríamos marcas de arrombamento se o assassino estava já dentro da casa? E se me lembro bem — ele coloca a foto novamente na mesa —, as marcas que achamos, não estão na sua última aparição na foto. Então, senhor... a porta estava em perfeita condição quando o senhor estava na cena do crime.
Joseph pareceu começar a hiperventilar enquanto o detetive falava, sua postura começou a enrijecer.
— Fica quieto. — Sua voz sai num sussurro baixo, suas mãos começando a tentar agarrar a mesa de metal com as unhas curtas.
— Então se a porta estava em perfeitas condições, mas o senhor diz ter visto elas já naquela hora, e também diz que ouviu os dois na casa, então provavelmente não foi outra pessoa que invadiu a casa e assassinou a Sra. Carla? Tem alguma coisa a mais...
— ELE SAIU, ELE SAIU DA CASA... — Seu grito quebrou a tensão construída na sala, agora parecia que a sala fervia novamente. — Quando cheguei, e os ouvi rindo como dois pombinhos... eu... eu não me aguentei. Ele saiu pra comprar o que caralhos ela devia estar precisando, e sempre me enchia o saco para comprar de noite, e ele saiu. Saiu como se aquilo não o incomodasse...quando bati na porta ela não queria me deixar entrar, disse que só agora tinha encontrado o homem certo para ela. — Ele começou a rir como se tivesse contado uma piada sem graça, uma risada que logo se transformou em lágrimas. — Como isso é possível?? Ela preferiria um Zé ninguém que não tinha nada sem ser um carro velho, e ainda diz que era o homem certo para ela?? O que eu fui todos esses anos? Trabalhando até a exaustão para pagar as coisas dela, e quando nos divorciamos ainda tinha que pagar uma fortuna pelas crianças de merda dela! QUEM CONSEGUIRIA SE CONTROLAR AO OUVIR ISSO? DEPOIS DE TUDO QUE EU FIZ POR ELA??
Os únicos sons ecoando pelas paredes da pequena sala cinza eram os soluços e sua respiração desregulada. Sua aparência parecia ter mudado completamente, de um homem com medo e se encolhendo para dentro de uma roupa social cara, perfeito cabelo e pele, para um homem destruído e perseguido, com um grande ego ferido.
— Por que o senhor acha que ela disse algo engraçado? É porque o senhor se sentiu ofendido por não ter sido o homem certo? — As palavras do detetive eram frias, parecendo congelar a sala, enquanto o outro tremia, se contorcia para livrar a mente do que estava sentindo. Ele estava parado, o encarando com o que antes parecia empatia, agora eram apenas uma casca com face humana.
Apenas agora Joseph percebeu o que disse. E como foi pego em seu próprio ego.
— Você está querendo rir da minha cara, não está?? — Ele levantou a cabeça com ódio, encarando os olhos do detetive, que continuava sentado à sua frente.
— Não, senhor... Como disse, eu apenas quero ajudar. — Se levantando, ele andou devagar até Joseph, colocando a mão em seu ombro, e, para concluir toda a sua armadilha, falou: — Não acha que se sente melhor agora que desabafou, Joseph?
Do outro lado, as luzes se acenderam e as cinco figuras ficaram expostas através do vidro falso, o microfone ecoando pela sala. Joseph juntou as suas duas mãos e descansou o seu rosto sobre elas, chorando tanto que não conseguia nem sentir ódio de quem o tinha pegado, e sim um certo conforto em sentir o calor da sua mão em seu ombro.
— Pa.ra.bens, Marco!!! Esse aí é nosso número um! — A voz do homem quebrava completamente toda a atmosfera, uma voz animada junto de uma aparência calorosa. — Valeu pela lição, e te avisar, você só tinha mais cinco minutos para conseguir uma confissão, então bom trabalho.
Marco tirou a sua mão das costas do homem e olhou para o homem loiro que o estava elogiando.
— Às vezes penso que você que é o psicopata aqui — ele disse, com um pequeno sorriso. Logo voltou a olhar para o homem, que agora estava chocado com toda a situação. — Bem, Sr. Joseph, obrigado pela sua paciência e sua confissão. Falaremos com o seu advogado em trinta minutos. — Ele se afastou, indo em direção à porta da pequena sala.
Quando a mão do detetive saiu de suas costas, Joseph sentiu novamente o frio que a sala estava, suas lágrimas, saliva e catarro sendo as únicas coisas mantendo seu rosto quente após essa tortura. Pego numa armadilha feita para um rato, nunca se sentiu tão patético e pequeno. Todos estavam rindo de sua desgraça, enquanto elogiavam o culpado dela.
— Você... Seu demônio — Joseph disse, as palavras saindo como se fossem faíscas entre seus dentes cerrados.
— Saindo do senhor, isso se torna elogio. Adeus Joseph. — Marco passa pela porta, logo fechando atrás de si.
Fora da sala, o ar era acolhedor e limpo, diferente do ar de suor e desespero que Marco esteve por quase duas horas. As três figuras vieram até ele, duas masculinas e uma feminina. Mesmo irrelevante, Marco notou que eles faziam uma escada nas suas alturas, onde a primeira a vir falar com ele era a figura feminina.
Uma moça veio quase voando para mais perto de Marco. Linda tinha uma aparência carismática, com cabelos negros retocados com tinta cara e perfume de flores extremamente enjoativo, sua pele fazia um contraste ao cabelo e os lábios, onde a pele era branca perto do tom oliva e os lábios com vermelho vinho. Tinha pena dela, fazer aniversário no Natal e ter acabado de fazer trinta anos não devia ser fácil.
— Você foi ótimo!! — Linda já veio pegando a sua mão e chacoalhando freneticamente como sempre fazia. Para uma mulher que não devia ter nem meio metro, a sua força sempre o surpreendia um pouco.
As outras duas figuras passaram, cumprimentando o Marco com as cabeças rapidamente, e já saíram da sala escura, provavelmente não queriam atrapalhar a conversa e tinham se assustado um pouco com a demonstração.
— Achei ótimo também, mas você deveria usar outras técnicas de interrogatório, elas sempre são tão chatas no começo, mas pelo menos acertou em uma coisa, assustou os estudantes. — Mesmo impressionado, Caleb sempre tinha algo a mais para dizer, provavelmente achava que ser novo e chato como uma mula era um charme. Sua voz estava obviamente provocativa, querendo brincar. Infelizmente, nem todo mundo entendia o senso de humor dele.
Mesmo Caleb sendo provavelmente o meu amigo mais próximo no momento, não podia negar que ele era estupidamente irritante as vezes. Seus cabelos loiros eram seu ponto principal, onde seus olhos eram parecidos como de um gato, verdes por fora e marrons por dentro, e a sua pele era um pouco bronzeada. Mesmo no final dos seus vinte, não sabia como ele já não parecia ter cinquenta por esquecer frequentemente de passar protetor solar.
— Quando o senhor conseguir uma confissão de alguém que estava quase sendo dissolvido, pois conseguiu enganar todos os outros interrogadores, você pode questionar os métodos do seu superior. — A voz e altura de Richard sempre acabavam me dando um leve susto, o completo oposto de Linda.
Richard era interessante, capitão da nossa sede, mesmo não sendo um detetive, e agora tendo se aposentado das ruas após um ferimento, eu ainda conseguia perceber que ele era o mais experiente e capaz entre nós. Principalmente porque duvidava que alguém não teria medo e confessaria para um homem de quase dois metros, com voz grossa e que, mesmo quase nos sessenta, continuava tendo um excelente porte físico. Na academia, carregava quase o dobro que eu.
— Richard tem razão, Caleb, vai que ele te enxota para fora como na última vez? — Linda pelo menos entendia o humor de Caleb, mesmo que só risse e deixasse ele ter as próprias consequências. Finalmente, ela se afastou, soltando a minha mão.
— Calma, senhor, Marco entende as piadas! Não leva pro coração, né chefe? — Caleb disse, olhando para mim, com a voz arrependida, mas ainda debochada de desgraçado dele. Se fosse só a gente, teria falado pior.
— Sim, eu não levo pro coração. Sinceramente, tudo que você me fala que não é sobre trabalho, só passa de um ouvido para o outro. Então não seria isso que me irritaria. — Não tinha um humor tão definido quanto o Caleb, mas achava divertido irritar ele de volta, principalmente porque só ele entendia que estava brincando.
Linda acabou soltando mais uma das risadas estridentes características dela, e Richard tentou não rir, provavelmente devia achar que rir nessa situação impactaria a sua autoridade ou a minha.
— Bem, isso foi divertido, mas vamos voltar para o trabalho, ok? — Linda deu alguns tapinhas nas costas de Caleb e seguiu reto para a porta.
— Digo o mesmo, precisamos voltar para o trabalho. E agora dizendo, ótimo trabalho hoje, Marco, você tem um futuro promissor na nossa sede. — Richard passou pela porta logo depois de Linda, mas ele a segurou para mim e para Caleb.
— Obrigado, senhor, e pode aumentar as suas expectativas se achar melhor, não irei decepcioná-lo. E não precisa manter a porta aberta, nós já saímos — disse, junto a um pequeno movimento de cabeça, o qual Richard rebateu, fechando a porta e realmente saindo do corredor agora.
Caleb estava com as duas mãos no peito, fingindo estar extremamente ofendido pelas minhas palavras. Ele tinha uma capacidade de fingir emoções dignas de uma criança de cinco anos tentando esconder a própria bagunça.
— Você é muito cruel comigo, cê sabe que eles provavelmente acham que você não ouve nada que eu falo, certo? — Caleb disse, e se aproximou de mim, me abraçando pelo ombro. — Mas agora, falado sobre a sua performance, você foi ótimo, e tenho certeza de que você ganha a promoção, principalmente depois dessa sua amostra grátis. — Ao falar, ele me chacoalhou. Eu realmente achava que ele esqueceu que não éramos jovens na faculdade.
— Tenho certeza também, acho improvável a chance de não receber a promoção, principalmente porque nosso antigo detetive chefe acabou saindo para outra sede em uma cidade maior. Richard gostaria agora de escolher alguém que irá ficar aqui, ele mesmo disse que tenho futuro nessa sede.
— Isso que me encuca. Por que você iria querer passar tanto tempo em Riverton, se você poderia muito bem achar um local melhor em uma cidade grande, como Vegas? — Ele me soltou e começou a falar junto de suas mãos. — Você parece muito pragmático para ficar tanto tempo numa cidade que sabe que não irá te dar um futuro tão grande. Então, por quê?
— A resposta provavelmente vai ser meio decepcionante para você, mas eu apenas gosto da tranquilidade da cidade e região, e já estou acostumado a este lugar. Logo, não me importo e realmente prefiro uma cidade que sei todos os lugares, tipos de crimes, pessoas, clima e tempo. E também, minha família está próxima, então prefiro me manter perto dos meus familiares. Mas e você? Se acha que esse lugar é precário, por que não tentou em outro ainda?
Caleb fez uma cara esquisita, talvez tenha sido um choque misturado com compreensão. O que me confundiu ainda mais foi o fato que ele começou a rir como se eu tivesse dito alguma piada.
— Perdão, não pensei que você fosse falar — ele falou, enquanto tentava controlar a própria risada, o que percebi que foi em vão. — Você é tão quieto que pensei que só iria falar “porque sim”, mas respondendo a sua pergunta. Eu sou mediano, então estou no lugar certo para ainda conseguir trabalhar, só isso mesmo. Mas agora vamos antes que o Sr. Homem incrível ali tenha um ataque em só ver a gente conversando — disse, apontando com o polegar para o homem ainda algemado à mesa. Ele não conseguia ouvir, mas devia ser irritante só olhar.
— Acho um motivo plausível, e eu não sou quieto, vocês apenas não sabem perguntar as coisas certas para serem respondidas — disse, enquanto me afastava da cena, indo para a porta e a abrindo. — E não é como se ele pudesse fazer qualquer coisa dali. Mesmo se ele estivesse solto, não é homem o suficiente nem para matar a mulher e o namorado, foi na moça sozinha, então não acho que ele conseguiria fazer qualquer coisa conosco. Agora vamos, você está fora do seu posto há muito tempo. — Me encostei na porta, a mantendo aberta para ele.
Caleb voltou a rir e passou pela porta com as duas mãos no bolso, realmente despreocupado.

